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terça-feira, agosto 13, 2019

LUCIEN SFEZ, FERNANDO ARRABAL, LUCIA SANTAELLA, BRUNO GIORGI, DAREL & ALAGOINHANDUBA


CIDADE DEVASTADA, MEMORAÇÃO – Alagoinhanduba não existe, nunca existiu, parece. Alguém apenas lembrava vagamente e não sabia como nem causa. Suspeita-se que seus mortos resistiram ao esquecimento e os fundadores rebelados induziram a uma indecifrável e aparente vingança em honra dos ancestrais, para cancelamento das cidades atuais. Ressurretos tramaram com sofreguidão enlouquecer os vivos, feito invasores da memória, como recidiva - como se os que se foram dali na suposta tragédia, provocassem suas cobaias vivas no presente, domados para que não se esquecessem de nada ocorrido. Tudo começou com simples sonho de um morador desconhecido: um pesadelo com a tribulação remota do lugar perdido no tempo, e entender desperto como se desde ontem flagelasse os seus e a si. Uma vez possuído pelas lembranças, contaminação inevitável: ninguém mais se libertava, invadido inadvertidamente a dar com a língua nos dentes, por narrativas sem fim de fatos revivescentes entranhados no éter, imersos em nuvens carregadas de recordações incorporadas ao cotidiano e, vez em quando, escapulindo para influenciar ditos, jeitos e fazeres onde quer que estivesse e com quem escolhesse aleatoriamente. Os devaneios alheios se reuniam e mudavam os rumos da ventania vertiginosa para desenterrar tesouros recônditos e inválidos, denúncia em riste. Em seguida, deu-se o auto-enlouquecimento do padre no púlpito. Logo outros começaram a proceder com endoidecimentos similares: um médium numa sessão de mesa branca; um pai-de-santo no meio de um ritual, tambores e danças; um internauta capturado por um vírus de computador; e recém-chegados fugando atônitos pelas matas revoltas desencavadas, homens que se danaram largados por fêmeas pérfidas; mulheres esbeltas que se envultavam com suas ancas e mamilos nus fenecendo lúbricas de amor por machos errantes; crianças esmagadas pelo desamor dos pais; jovens que sucumbiam aos amores não correspondidos; idosos que se matavam ao abandono entre páginas, folhas e detrito soltos aos ventos; combustões por iras incontroláveis, presidiários suicidas, viajantes à deriva, confusão de partidas e retornos por ruas giratórias enoveladas fincando insepultos entre pedras e paralelepípedos, abolindo leis, destruindo patrimônios, destroçando jardins e praças, demolindo alvenarias e pavimentos arruinados; pugnas escorregadias, estuários explodidos, mentiras desmascaradas, milagres ambíguos, escombros, cidades umas as outras amontoadas ali, habitadas por zumbis que seguiam sem saber para onde, nenhum cumprimento e tanta hostilidade, desentendimentos e perseguições, inarticulados a se desconhecerem perdidos às caretas entre cemitérios e purgatórios. Entre eles, um anônimo que se esquecera de si e de seu próprio nome e passado, a repetir insistentemente: Fui acometido por uma estranha enfermidade. Eu sabia; os médicos, não. Todos os exames, nenhum diagnóstico, nada. Eu não estou bem, febril sem febre, doente sem doença; eufórico sem euforia, tomado completamente, esfacelado pelo desespero, herdeiro de ruínas que nunca vira, memórias na pele de autômato, autônomo, ninguém. Como pode? Desisti de compreender, sou a soma de tudo e sou nada. Mas, não sei quem sou, muitos povoam em mim e sou apenas as lembranças de Alagoinhanduba. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS:
Híbrido, hibridismo, hibridação e hibridização são os atributos que mais frequentemente têm sido utilizados para caracterizar variadas facetas das sociedades contemporâneas. Essas palavras podem ser aplicadas, por exemplo, às formações sociais, às misturas culturais, à convergência das mídias, à combinação eclética de linguagens e signos e até mesmo à constituição da mente humana. [...] o ciberespaço e a cibercultura vieram adquirir uma natureza híbrida na constituição de espaços que tenho chamado de espaços intersticiais. [...] Não resta dúvida de que a pluralidade se constitui na marca mais característica das mídias locativas. [...] além de funcionarem como exemplares mais legítimos de uma ecologia pluralista da cultura, os projetos de mídias locativas também funcionam como indicadores precisos dos dois lados antitéticos da psique humana que foram explorados por Freud. Em um extremo, o lado destrutivo da pulsão de morte e, no outro extremo, o lado construtivo sob a égide de Eros. É justamente esse último extremo da gangorra que os projetos estéticos de mídias locativas buscam explorar contrabalançando as forças contrárias exercidas pelo poder dissimulado do rastreamento e vigilância ubíquos. É por tudo isso que a ecologia pluralista das mídias locativas, unificada pelas forças de Eros, entre outras coisas, está nos incitando a rever e relativizar as teorias cujo pessimismo monolítico cobriu o ciberespaço e a cibercultura com premonições negras sobre a obsolescência do corpo, o colapso dos espaços geográficos e a inexorável perda de significados do passo da vida.
Trechos extraído de A ecologia pluralista das mídias locativas (II Simpósio Nacionalda ABCiber - Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 37 • dezembro de 2008), da professora e pesquisadora Lucia Santaella. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

O CINEMA DE FERNANDO ARRABAL
Fama é um pedaço de nada que o artista agarra no voo sem saber por quê. Eu sou feio, mas Deus me ama.
Entre as obras destacadas aqui do do poeta, dramaturgo, roteirista e diretor de cinema Fernando Arrabal, destacamos desta vez, em primeiro lugar, o documentário Borges: una vita di poesia (1998), sobre a obra do escritor argentino Jorge Luis Borges; e o drama ¡Adiós Babilonia! (1992), contando a história de uma jovem sonhadora e serial killer, que passeia pelas ruas encontrando vários personagens estranhos que povoam os subúrbios da cidade grande. Veja mais aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor e professor Bruno Giorgi (1905-1993). Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE LUCIEN SFEZ
Todas as tecnologias de vanguarda, das biotecnologias à inteligência artificial, do audiovisual ao marketing e à publicidade, enraizam-se num princípio único: a comunicação. Comunicação entre o homem e a natureza (biotecnologia), entre os homens na sociedade (audiovisual e publicidade), entre o homem e seu duplo (a inteligência artificial); comunicação que enaltece o convívio, a proximidade ou mesmo a relação de amizade (friendship) com o computador.
A obra do escritor e professor tunisiano Lucien Sfez aqui e aqui.
&
Outras de Alagoinhanduba aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui aqui & aqui (Arte de Darel Valença Lins).
 

sábado, agosto 13, 2016

SIMONE WEIL, OLYMPE DE GOUGES, MAGDALENA ISABEL, GIORGI, HIGUERA, QUARTETO RADAMÉS, JAKOBSEN & DIREITOS DA MULHER

DIREITOS DE TODA MULHER - Ao longo dos últimos anos – na verdade, tudo começou quando publiquei o meu poema Crônica de amor por ela, em 1996 -, que venho desenvolvendo uma pesquisa acerca do papel da mulher na história da humanidade. No primeiro momento desses estudos, desenvolvi uma revisão da literatura a partir da construção histórica das relações de gênero, procurando os fundamentos para análise da opressão da mulher, definindo conceitualmente gênero, tratando acerca da desigualdade e da violência de gênero. A partir disso passei a analisar a questão de como os direitos da mulher foram se formando ao longo da história, suas lutas e conquistas desde a Antiguidade, passando pela Renascença ao Marxismo, tratando acerca da violência contra a mulher, incluindo a violência doméstica no Brasil e considerando o controle social e o Estado na sociedade de classe e no capitalismo. Num segundo momento procurei tratar acerca do papel da mulher na História e no mercado de trabalho, efetuando uma abordagem histórica até o século XX, incluindo as perspectivas para o século XXI. Observou-se nesses estudos os direitos da mulher com suas lutas e conquistas, até aferir as políticas públicas efetivadas à luz do amparo legal de combate à violência contra a mulher. Por resultado, constatou-se claramente que a mulher é vítima de um sistema patriarcal, pautado na sua desvalorização e respondendo ao estado mandonista do universo masculino, em detrimento dos seus direitos. O enfrentamento da redoma machista/patriarcal leva às reiteradas lutas pelo reconhecimento dos seus direitos, da igualdade de gênero, o respeito pelo principio da dignidade humana e ao exercício da cidadania. Mesmo com a promulgação da Constituição Federal de 1988 que concedeu espaço para desenvolvimento de afirmação da mulher, respeitando-se seus direitos e condições igualitárias na sociedade, nem mesmo tais disposições foram suficientes para coibir a violência contra a mulher, havendo necessidade da edição de uma série de instrumentos legais infraconstitucionais regulamentando as referidas previsões, a exemplo da criação das Delegacias de Defesa da Mulher, a criação do Conselho Nacional, bem como a promoção de medidas, ações e programas, como o Programa Nacional de Prevenção e Combate à Violência Doméstica e Sexual, as Normas Técnicas do Ministério da Saúde, o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (PNPM), culminando com a edição da Lei Maria da Penha que visa coibir a prática nefasta da violência. Com isso tenho manifestado minha irrestrita solidariedade às suas lutas e conquistas, os seus desafios e direitos, em respeito ao princípio da dignidade da pessoa humana, não admissão de qualquer forma de agressão e no combate à impunidade nas questões de violência. Por conta disso, advogo que todo dia é dia da mulher com o mote que glosei de que todo homem que maltrata uma mulher não merece jamais qualquer perdão. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Curtindo o álbum Radamés toca Radamés (2016), do Quarteto Radamés Gnattali, integrado por Carla Rincón e Andreia Carizzi (violinos), Estevan Reis (viola) e Hugo Pilger (violoncelo), lançado em comemoração aos 110 anos de nascimento do compositor brasileiro Radamés Gnatalli (1906-1988). Veja mais aqui.

PESQUISA:
Mães, filhas, irmãs, mulheres representantes da nação reivindicam constituir-se em uma assembléia nacional. Considerando que a ignorância, o menosprezo e a ofensa aos direitos da mulher são as únicas causas das desgraças públicas e da corrupção no governo, resolvem expor em uma declaração solene, os direitos naturais, inalienáveis e sagrados da mulher. Assim, que esta declaração possa lembrar sempre, a todos os membros do corpo social seus direitos e seus deveres; que, para gozar de confia nça, ao ser comparado com o fim de toda e qualquer instituição política, os atos de poder de homens e de mulheres devem ser inteiramente respeitados; e, que, para serem fundamentadas, doravante, em princípios simples e incontestáveis, as reivindicações das cidadãs devem sempre respeitar a constituição, os bons costumes e o bem estar geral. Em consequência, o sexo que é superior em beleza, como em coragem, em meio aos sofrimentos maternais, reconhece e declara, em presença, e sob os auspícios do Ser Supremo , os seguintes direitos da mulher e da cidadã: Artigo 1º A mulher nasce livre e tem os mesmos direitos do homem. As distinções sociais só podem ser baseadas no interesse comum. [...].
Trecho da Declaração dos direitos da mulher e da cidadã (França, setembro de 1791, da feminista, revolucionária, historiadora, jornalista, escritora e dramaturga Olympe de Gouges (1748-1793), documento proposto à Assembleia Nacional da França, durante a Revolução Francesa(1789-1799). Ela ao se opor abertamente a Robespierre acaba por ser guilhotinada em 1793, condenada como contrarevoluionária e denunciada como uma mulher "desnaturada”.

LEITURA
Segredos / são degredos / como pombas / são aves / não por terem / asas / nem casas / ao vento / há aves / e caves / e caves / sem aves / sentinelas / da solidão / de incógnita / dimensão / segredos / são degredos / como os amantes / são eclipses / não por terem / o sexo apunhalado / de nexo / nem por fazerem amor / ao som do jazz / na solidão dos relógios.
Hibernação II, da poeta moçambicana Magdalena Isabel Monteiro (Colectânea breve de literatura moçambicana – Identidades/Gesto, 2000). (Imagem: artistas moçambicanos). Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
O amor, em quem está feliz, é querer partilhar o sofrimento do amado infeliz. O amor, em quem está infeliz, é satisfazer-se  com o simples conhecimento de que o amado desfruta a alegria, sem ter parte nesta alegria, nem sequer desejar te parte nela. [...] É um erro desejar ser compreendido antes de ter elucidado a si mesmo aos próprios olhos. É buscar prazeres na amizade, e não merecidos. Você venderia sua alma pela amizade. Aprenda a repelir a amizade, ou melhor, o sonho da amizade. Desejar amizade é um grande erro. A amizade deve ser uma alegria gratuita como as que oferecer a arte, ou a vida. É preciso recusá-la para ser digno de recebê-la: ela é da ordem da graça (‘Meu Deus, afastai-vos de mim…’). É dessas coisas que são dadas por acréscimo. Todo sonho de amizade merece ser quebrado. Não é por acaso que você nunca foi amado…Desejar escapar à solidão é uma covardia. A amizade não se busca, não se sonha, não se deseja; ela se exerce (é uma virtude). [...] Devemos ter cometido crimes que nos tornaram malditos, uma vez que perdemos toda a poesia do universo.
Trecho da obra A Gravidade e a Graça (Martins Fontes, 1993), da escritora, mística e filósofa francesa Simone Weil (1909 – 1943). Veja mais aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA: 
A arte do escultor e professor Bruno Giorgi (1905-1993).

Veja mais sobre Primeira Reunião: Coágulos, coágulos, O princípio da totalidade de Stephano Sabetti, o pós-humanismo de Lucia Santaella, Lila Ripoll, Marcus Viana, Chen Kaige, Bruno Giorgi, Joseph-Nicolas Robert-Fleury & Psicodrama aqui.

DESTAQUE
A arte do arquiteto, decorador, fotógrafo e projetista dinamarquês Arne Jakobsen (1902-1971).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Nude, arte do pintor, retratista e paisagista espanhol Jose Higuera.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.



quinta-feira, agosto 13, 2015

RIPOLL, SABETTI, SANTAELLA, KAIGE, ROBERT-FLEURY, MARCUS VIANA, GIORGI & PSICRODRAMA.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? COÁGULOS, COÁGULOS - Era uma vez, Era uma vez. Era uma vez duas três vezes, mais provável que nenhuma na inexistência do flagra do minuto preciso na minha vida inexata na hora em ponto! Era uma vez. Era uma vez. Era uma vez duas três vezes, mais provável que a justiça num pote encarcerada, mais provável que a remissão da lágrima na face lavada! Mais provável que nenhuma porque foi pingando na veia, escorrendo pela biqueira do peito, pela cumeeira dos sonhos evaporando desejos que findavam sangrando as ruínas do meu tempo, do meu tempo caótico, do meu tempo patético, do meu tempo dilacerado! Eu escondo em meu peito as ruínas do meu tempo! Esse tempo apoliptico, megalomaníaco, irrespirável, fantástico de horror. Cheio de pantins, frescuras, teréns, loucuras!´Feito uma semente num invólucro das possibilidades improváveis no meio de flâmulas matemáticas de signos secretos e farsantes e alusões absurdas! Sou apenas dois braços de espera no suor redimido porque da morte já arrastei ferros e o mundo é apenas as minhas mãos enterradas no blusão, o sonho estiado e a alegria transferida para alhures. Em meu peito não cabe o pacto da pátria desfeita a terra acumulada e o homem obliterado a sujar as mãos na carne da terra e na paixão dos limites jamais alcançados pela ambição dos sentidos enquanto a lama da boca sugere traduzir amor, a boca de aço sugere traduzir amor engolindo desejos, sugere traduzir amor debulhando prazeres como o se o desejo esganasse miragens e é verdade porque o coração quer dizer verdades ou meias e não sabe o que dizer diante dessa tragédia toda. Em meu peito não cabem jamais as síndromes da China, dos afegãos, dos bancos e das cabeças! Não cabem as claques de merda pros oligopólios em alcatéias transnacionais com seu delirium-tremens do consumo no meio de uma economia falida emergindo sobre o sangue dado como aquele da escravaria açucarocrata que adoçava e adoça a boca dos festeiros enquanto a minha dor desmedida, enquanto a minha dor comungada é repisada e vira graúda criando coágulos por todo o meu corpo! E que me esfolem e me esganem pelos metros profundos dos infernos dessa terra porque mesmo assim ainda continuo a erguer cantos sobre este mundo porque das torneiras citadinas jorram sangue inocente adubados nas terras perdidas por hectares infames que só afugentam quem dela vive e morre de fome no meio de outro sonho perdido na pulsação das turbinas e outra coisa com uma marcha escabrosa de botas que guardam o patrimônio dos ricos com lesões homicidas quando outro é o meio do meio-dia e a indigência e outras são as pastilhas de carbono e o frio asfixiante da febre. Já nada é suportável neste tempo de lama e podridão e nada vale a pena e vale a pena tragar o hálito dos alicates grosseiros e compartilha da fome dos órfãos de El Salvador e da dor das mães da Praça de Mayo e dos flagelados da seca e da exclusão social do Brasil mundializado para furor inadimplente de assalariados e estornados das promessas não cumpridas de todas as políticas de mentira! Avante, pra onde? Já não mendigo a vida pelos infortúnios, mazelas, porqueiras nem a devoção cega das crenças mutiladas nem da vil matéria lânguida e escassa espremida no dia-a-dia sarcófago de totens de sempre e tabus de nada! Eu vou com meu corpo cheio de holocaustos e cataclismas e o punhal da vida me avassala e maldigo a terra ficam as sombras vãs que atormentam minha sanidade e os meus desejos remendados na alegria mal-assada com os recheios fugazes que findam na dor, mas se a dor não traz nada, parafraseando Gregório, é porque enfim leva tudo e deixa a mão espalmada ao jugo da palmatória da vida! Eu vou com a chuva que explode lá fora onde a cidade sustenta seus fantasmas que pulam nas praças ruas avenidas e becos e bares e vidas sem no entanto se furtarem a pelo menos aprumarem a vida dos seus fiéis lambe-botas enquanto eu me embriago na chuva coletando os segredos dos rios com sua correnteza mansa escondendo o alvoroço do fundo e tudo encharca o meu país enxaguando essa terra embebida de sangue e suor, enxertada de sangue e suor e se dana como uma pólvora guardada no peito com o mísero crepúsculo que traz a noite e a vida já se foi pela janela e só resta cigarro e bebida e a loucura de se embriagar engolindo a ocasião inteira! Era uma vez. Era uma vez duas três vezes, mais provável que nenhuma na sóbria ou na lúcida vontade de se perder na metafísica do espaço no meio da prismática reluzência da catarse e na carismática inocência da poesia úmida lavando a estatística do cansaço que só consegue seguir aonde vai dar dali pra diante no ignoto mudo da urdidura do vácuo. Era uma vez. Era uma vez duas três vezes, mais provável que nenhuma e sobre este mundo erguer cantos, sim! Em meu canto há minha maldição, eis o meu suor, a minha maldição: as lajes, a comunhão, o inusitado, o paradoxal, o álcool, o beijo molhado, o adeus, o agasalho, a mão meiga, a dor amedrontada, a culatra, a pulsação, o medo e a agonia. Assim me foi concedido. (Coágulos, coágulos – Primeira Reunião. Recife: Bagaço, 1992). Veja mais aqui, aqui e aqui.


Imagem: Jeune femme, do pintor francês Joseph-Nicolas Robert-Fleury (1797-1890)


Curtindo Sete Vidas, Amores e Guerras (2004), do violinista, tecladista e compositor Marcus Viana.

O PRINCÍPIO DA TOTALIDADE – O livro O princípio da totalidade: uma análise do processo da energia vital (Summus, 1991), do psicólogo estadunidense Stephano Sabetti, aborda temas como a história da energia no oriente e no ocidente, rumo à física da energia vital, totalidade e energia, radiações energéticas, medicina e psicoterapia, o processo da energia vital, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: [...] Nossa era é perfeita para uma confrontação com o nosso comportamento paradoxal. Somos constantemente confrontados com nossa necessidade de permanecer em conflito entre nossos corpos e emoções, em nossos relacionamentos sociais e em nossa contenda política – todas essas divisões da totalidade. [...] Dizemos desejar a paz. Portanto, por que sempre criamos problemas para nós mesmos e para os outros? E por que pensamos que essa paz é unicamente um assunto político, exterior às nossas lutas pessoais? Poderíamos gastar nossos fundos destinando-os à pesquisa em medicina holística, o que beneficiaria pacientes e produtores de drogas, e tratamentos compatíveis com as pessoas – porém em geral não o fazemos. Poderíamos construir maquinas mais silenciosas, menos irritantes e ecologicamente mais holísticas – mas em geral não o fazemos. Esse holimos é possível se de fato o quisermos. Temos de decidir se queremos continuar sendo parte do problema da doença, ou nos tornarmos part da solução da totalidade. Não podemos fazer ambas as coisas. A totalidade é um caminho claro do espirito que busca uma reunião com uma completude eterna. [...] Especialmente agora, nesses tempos de divisão e isolamento, precisamos de pioneiros dispostos a ver a totalidade na vida e a viver de acordo com seus preceitos, embora os outros talvez não entendam esse caminho. Falta de aceitação não deve importar. Se vivermos plenamente em vez de brincar com a fantasia e as ideias sobre a totalidade, nosso caminho será claramente demarcado. A totalidade é a mensagem de nossa antiga jornada que temos de trazer à luz repetidas vezes. Ela exige a nossa atenção AGORA. Veja mais aqui.

UM PÓS-HUMANISMO ILUSIONISTA – No livro Linguagens líquidas na era da mobilidade (Paulus, 2007), a professora e pesquisadora Lucia Santaella, aborda a questão do pos-humanismo ilusionista, da qual destaco o trecho seguinte: A par de todas as instâncias de positividade que a internet apresenta, ela também se constitui em terreno fértil para a proliferação de ideologis obscuras e superficiais. Quando se trata de um tema como o pós-humano, prenhe de instigações complicadas, não é de estranhar que a internet abra o flanco para expansão de interpretações impregnadas de misticismo, que compreendem o humano como um estágio transitório na evolução da inteligência. Na sequência dessa evolução, o pós-humano significaria a superação das fragilidades e vulnerabilidades de nossa condição humana, sobretudo do nosso destino para o envelhecimento e a morte. Tal superação seria atingida pela substituição de nossa natureza biológica por uma outra natureza artificialmente produzida que não sofreria as limitações e constrangimentos de nosso ser orgânico, hoje obsoleto. A meu ver, além de simplista, reducionista, essa compreensão é ilusionista. Embora professe a ideia de uma evolução do ser humano biológico para um ser liberto dos limites do orgânico, falta a esse tipo de compreensão justamente uma visão mais clara do próprio evolucionismo e também do desenvolvimento antropológico da constituição simbólica do ser humano [...] Embora, de fato, a condição pós-humana e arevolução biotecnológica que ela implica estejam colocando a humanidade diante de dilemas éticos inéditos, é preciso reconhecer que a separação pressiposta entre a evolução biológica e a evolução tecnológica pode ser improcedente. Se partimos do pressuposto de que ambas as evoluções são inseparáveis [...] a atual aceleração tecnocientífica não representa outra coisa senão o terceiro ciclo evolutivo do homo sapiens. Diante disso, longe de ser determinada apenas pelos sonhos de onipotência humana, a condição atual pode estar inscrita no prohrama genético da espécie humana, um programa que não é determinista, mas imprevisível, pois incorpora o acaso, e teve inicio quando o humano se constituiu como tal, um ser paradoxal, natural e artificial ao mesmo tempo, pois a fala, que faz do humano o que ele é, desnaturaliza-o, coloca-o, de saída, fora da natureza. É justamente essa desnatureza congênita que a evolução tecnocientifica atual está nos fazendo exergar retrospectivamente [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.

GRITO ANUNCIAÇÃO, CANÇÃO DE AGORA – No livro Ilha difícil – antologia poética (Leitura/INL, 1968), da poeta, pianista e militante comunista Lila Ripoll (1905-1967), destaco inicial o seu poema Grito: Não, não irei sem grito. / Minha voz nesse dia subirá. / E eu me erguerei também. / Solitária. Definida. / As portas adormecidas abrirão / passagem para o mundo / Meus sonhos, meus fantasmas, / meus exércitos derrotados, / sacudirão o silêncio de convenção / e as máscaras de piedade compungida. / Dispensarei as rosas, as violetas, / os absurdos véus sobre meu rosto. / Serei eu mesma. Estarei / inteira sobre a mesa. / As mãos vazias e crispadas, / os olhos acordados, / a boca vincada de amargor. / Não. Não irei sem grito. / Abram as portas adormecidas, / levantem as cortinas, / abaixem as vozes / e as máscaras — / que eu vou sair inteira. / Eu mesma. Solitária. / Definida. Também o poema Anunciação: Voam-me pássaros em torno, / numa ciranda sem motivos. / A estrada é fria. / Estou de branco. / Brilha uma estrela em minha mão. / Revoam pássaros em torno. / Meu ombro esquerdo vai ferido. / Medrosos passos vão levando / a fina sombra do meu corpo. / Volteiam folhas, / dança o vento / e a gaze clara do vestido. / Minha cabeça vai pendida / e há uma estrela em minha mão. / Que estranho o caminho andado, / de branco, na estrada fria, / por entre pássaros voando, / por sobre flores caindo / e o ombro esquerdo sangrando. / O mar canta em meus ouvidos / e a Montanha inacessível / estende ramos de paz. / Passam âncoras e cruzes / e há uma estrela em minha mão. / Por que me levam de branco, / na fria estrada de pedra, / com este ombro sangrando, / entre perfumes e asas? / Que anunciam essas cruzes? / Essas âncoras partidas? / Esses pássaros revoando? / E essa estrela em minha mão? / Quem me leva e para onde / com essa estrela na mão?. Por fim, o poema Canção de Agora: Ontem meu peito chorava. / Hoje, não. / Também cansa a desventura. / Também o sol gasta o chão. / Estava ontem sozinha, / tendo a meu lado, sombria, / minha própria companhia. / Hoje, não. / Morreu de tanto morrer / a pena que em mim vivia. / Morreu de tanto esperar. / Eu não. / Relógios do tempo andaram / marcando o tempo em meu rosto. / A vida perdeu seu tempo. / Eu não. / Também cansa a desventura. / Também o sol gasta o chão. Veja mais aqui.

PSICODRAMA – O livro Psicodrama: inspiração e técnica (Ágora, 1992), organizado por Paulo Holmes e Marcia Karp, trata de temas acerca do psicodrama clássico, psicodrama intrapsíquico, métodos dramáticos para jovens com dificuldades graves de aprendizagem, psicodrama com uma família reconstruída, técnicas psicodramáticas com jovens vitimas de abusos sexuais, tratamento com internação de um adulto vitima de abusos sexuais, psicodrama grupanalítico para adolescentes problemáticos, questões de terapia ambiental, psicodrama como contribuição para o tratamento de um caso de anorexia, o psicodramatista e o alcoolista, o uso de técnicas dramáticas com filhos adultos de alcoolistas e co-dependentes, psicodrama com delinquentes graves, psicodrama com terapeutas, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho seguinte: [...] A reivindicação de Jacob Levy Moreno, de que um procedimento verdadeiramente terapêutico não pode ter um objetivo menor que o todo da humanidade, não é uma reivindicação modesta. Ela advem claramente de um homem que acredita que o desenvolvimento do psicodrama era muito mais que o desenvolvimento de um instrumental de especialista para ser usado na clinica ou em salas de aula. Sendo tão importante o uso no cotidiano do método, Moreno sabia que estava criando algo maior – uma filosofia de vida -, um método de vida, na realidade. Trata-se de um método baseado na constatação de que a humanidade não é uma unidade social e orgânica. Continuamente emergem tendências entre as diferentes partes dessa unidade que, por vezes, as une, e em outras, as separa. [...] Veja mais aqui.

FAREWELL MY CONCUBINE – O filme Farewell My Concubine (Adeus, Minha Concubina, 1993), dirigido pelo cineasta chinês Chen Kaige, é uma adaptação do romance escrito pela escritora chinesa Lilian Lee, contando a história depois do fim da Revolução Cultural, em 1977, quando dois homens da Ópera de Beijing, um com trajes femininos e outro vestido como um rei, enquanto uma mulher anda com uma criança nos braços em um mercado chinês quando é interpelada por um outro homem que tenta falar e ela o rejeita e uma série de cenas entrecortam a trama que explora o efeito da política turbulenta da China durante a metade do século XX dos que trabalha na ópera pequinense. O filme foi premiado no National Bord of Review (1992), Palma de Ouro em Cannes (1993), no BAFTA (1993), no Mainichi Film Concours (1993), Globo de Ouro (1993), Los Angeles Film Critics Associaton (1993), Cesar Awards (1994), entre outros. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Esculturas do escultor e professor Bruno Giorgi (1905-1003).


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa SuperNova, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 
Veja mais aqui.


SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...