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quarta-feira, junho 03, 2020

ALBA ZALUAR, TAMARA KARSAVINA, AL MAÇUDI & FLÁVIA BARROS



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: ENTRE NOTÍCIAS FALSAS & ESPETACULARIZAÇÃO - Lá vou eu entre as polarizadas encrencas das notícias falsas e a espetacularização escusa dos meios de comunicação de massa! Ter discernimento é fundamental! Cá comigo: é muito difícil manter qualquer diálogo com sectários desinformados ou fanáticos. Maior perda de tempo mesmo. Pense num revestrés! Aprendi com Madeleine de Scudéry: As ações são muito mais sinceras do que as palavras. A desconfiança é a mãe da segurança. Por muito boa que seja a cabeça, quase nada pode contra o coração. Pois é, cair na onda ignorando os interesses subjacentes é o mesmo que ser enganado noitedia e não admitir o que a língua do boato mande ver aos berros ululantes ou cochichos sabotadores. O melhor é se ligar na situação. DUAS: ESCAPANDO DAS FULERAGENS E BOATARIA – Tem jeito nada. É feito apelido: ou derrete os chifres ou deixa correr, melhor. Já arrastei muita mala de perder a viagem que só. Cada uma. Foi quando aprendi checar direitinho a cor da chita, naquela dum olho aberto e outro fechado, rindo pra não expor o toitiço pro sal pisado, aí é que dava no que não era nada: não era a reveladora do Israel Pedrosa, só aquela que mais parecia com a do cavalo quando foge ou a que fica depois da ação dos larápios mais contumazes. Ou seja: nada. A sensação que eu tinha depois de sacar direitinho, era a mesma do José Lins do Rego: Chego a esta casa sem arrependimentos pelo que fiz, nem temor de falar como sempre falei, com a língua solta que Deus me deu. Apois, tá! Só cuspi pra cima e saí de baixo, estou sempre pronto para outra, naquela de um pé na frente e outro atrás. Oxente! TRÊS: CALOR NO SOVACO & A CATINGA COME NO CENTRO – É cada inhaca, vixe! Entre cruzados de sacanagens e sapateadas para arrumação na teta do erário público, eu mesmo que não saio mais engalobado, já passei da conta, vacinado. Saco na hora, mesmo que passem puxando mais de cem. Não me engana mais não. Cuido para não morrer do coração. Xô pra lá, catingoso! Por isso vou entoando o Libelo da Primavera de Ginsberg: só a poesia torna a vida suportável!!!!! E vamos aprumar a conversa, gente! Até mais ver! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Nas redes da reciprocidade partilhada, valem a memória e a confiança articulados entre si. É a confiança que, em última análise, garante o circuito da reciprocidade positiva e afasta o fantasma da guerra ou do conflito destruidor e letal, mesmo que esporádico. Como não há garantia de que as dádivas serão retribuídas, ainda que seja uma palavra de apoio do doador ao receptor, e receber o presente um gesto de tolerância ou aceitação, é a fidúcia entre parceiros que mantém a aposta na dádiva, ou seja, a expectativa num tempo que se dilata indefinidamente à espera de uma ocasião em que o receptor esteja pronto a retribuir. É a confiança ou o crédito prolongados, portanto, que eliminam a possibilidade de que se instaure a inimizade e a guerra. [...] O esquecimento vem a ser, então, um rompimento com esse pacto nunca explicitado do circuito de trocas. Como não está baseada num conhecimento total, que a tornaria inútil, a confiança precisa dos mecanismos da memória individual e coletiva para se estabelecer. [...] Diante desse quadro complexo de objetividades e subjetividades, do material e do simbólico, das relações entre a sociedade e o Estado na alta modernidade, o atual jogo político no Brasil revela toda a sua pequenez, reducionismo, ineficácia e infelicidade. Os brasileiros, a despeito deles mesmos, estão deprimidos. Tanto a fazer para conquistar a confiança dos eleitores e dos contribuintes no Executivo e no Legislativo que pressupõem de alguma forma a sua participação, infelizmente ainda muito adscrita às eleições que agora sabemos ser manipuladas e gerenciadas por grandes grupos econômicos! Trechos extraídos do ensaio Confiança e memória: antídotos da violência (Sociofilo, 2017), da antropóloga Alba Zaluar (1942-2019), que atuou na área de antropologia urbana e antropologia da violência e foi professora titular de Antropologia do Instituto de Medicina Social e professora de antropologia no Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, fundadora do Núcleo de Pesquisa em Violências (Nupevi), cujos temas de estudo variam entre violência doméstica, segurança pública e tráfico de drogas. Foi uma das primeiras a estudar a Cidade de Deus. Ela é autora de obras tais como: Cidadãos Não Vão ao Paraíso (1994), Condomínio do Diabo (1996), Da Revolta ao Crime S.A. (1996), Um Século de Favela (1998), A Máquina e a Revolta (1999), Violência, Cultura, Poder (2000) e Integração Perversa: Pobreza e Tráfico de Drogas (2004).

MÁRTIRES DO AMOR
Uma cantora de alaúde começou a cantar: “Cada dia que passa, um rompimento! O tempo se escoa e nossa cólera não se aplaca; quem me dirá se essa desgraça só atinge a mim ou é comum a todos aqueles que amam?” [...] Conta-se que Yézid, filho de Abd el-Melik, presidindo, um dia, a audiência da Justiça, encontrou entre os requerimentos que lhe foram enviados, um assim concebido: “Queira o príncipe dos crentes (que Deus o glorifique) fazer vir em minha presença sua escrava tal, para que ela me cante três canções”. Yézid, enfurecido, ordenou que lhe trouxessem a cabeça do audacioso culpado; porém, ele preferiu enviar um segundo mensageiro nos traços do primeiro, com ordem de trazer o autor do pedido. Quando esse homem estava em sua presença, o príncipe perguntou-lhe o que pôde inspirar-lhe uma ação tão atrevida. “É – respondeu ele – minha crença em vossa bondade, minha confiança em vosso perdão”. O califa fê-lo sentar-se, e quando todos os omeíades até o último entre eles haviam-se afastado, ele fez vir a escrava com seu alaúde à mão. O jovem pediu-lhe esta canção [...]. A escrava cantou; em seguida, o jovem, com autorização de Yézid, reclamou esta outra canção [...] Ela cantou também. Fala, disse o príncipe ao jovem. – “Ordeno que se me traga uma ânfora de vinho”. Mal esvaziara a ânfora, ele ergueu-se bruscamente, subiu à cúpula sobre a qual o príncipe estava sentado, precipitou-se e morreu. Yézid gritou então: “Pertencemos a Deus e voltamos para ele. Eis o tolo, o insensato, que acredita que após lhe haver mostrado uma de minhas escravas eu a guardaria em minha posse! Pajens, faze sair esta menina e conduze-a à casa dos seus, se ela os tiver; senão vende-a e distribui o dinheiro em esmola por intenção o morto”. Logo ela foi trazida; atravessando a corte do palácio, ela viu um fosso escavado no meio do palácio de Yézid para receber as águas da chuva; escapou das mãos dos seus guardas, pronunciando estes versos: “Os que morrem de amor devem morrer assim; o amor não vale nada sem a morte”. Precipitou-se no pequenino abismo e morreu.
MÁRTIRES DO AMOR - Trecho da crônica do viajante, geógrafo, historiador e cronista árabe Al Maçudi  (871-956), extraída da obra Contos árabes (Cultrix, 1967), organizada e traduzida por Jamil Almansur Haddad e Jose Paulo Paes. Neste conto percebe-se a dedicação do poeta pela amada, uma verdadeira cantiga em que o amor é sentido ardentemente como uma paixão profunda e duradoura, própria de um poema de amor. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da bailarina russa Tamara Karsavina (1885-1978) que integrou o Balé de Sergei Diaghilev, tendo sido várias vezes par de Vaslav Nijinski. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCULTURARTES
Eram mais mulheres, a falta de homem sempre foi complicado. Só tinha o Fred (Salim) depois entrou o Carlos Santillan, que era um médio que veio fazer um cruso de medicina aqui em recife e era bailarino, peruano. Ele e o irmão dele dançavam num grupo profissional de danças no Peru. Aí tivemos que correr atrás de atletas formandos da escola de Educação Física, para fazer teste, para ver as possibilidades de cada um, então, com esses rapazes completamos o grupo de rapazes que já tínhamos, mais os dois que não eram da escola de Educação Física, e no fim, ficaram sete rapazes do grupo. Acho que eram mais moças, sempre mais moças.
Depoimento da bailarina, coreógrafa e professora Flávia Barros, que integrou o Corpo de Baile do Theatro Municipal do RJ e fundou o Curso de Danças Clássicas Flávia Barros, além de fundar o Grupo de Ballet do Recife e criou, juntamente com Ariano Suassuna, o Balé Armorial do Nordeste. Depoimento ao Projeto RecorDança (2004),  extraído da obra Acordes & traçados historiográficos: a dança no Recife, organizado por Ana Valeria Ramos Vicente e Roberta Ramos Marques. Noutra entrevista (RibaltaOUTSite - Satedpe, 2009), exla expressou que: Parti do que já conhecia para um trabalho difícil de técnica Fábio Coelho, Carlos Santillan, Eduardo José Freire, Edmond básica para o conhecimento e evolução dos movimentos necessários ao Janiszowsky, Evandro Paiva e Airton Tenório. Estilo de coreografia que seria mais adequado à estética armorial reconhecida pelas referências ibéricas e mouras na sua constituição. Um trabalho básico de balé, ritmo, composição coreográfica espontânea com grupos de bumba-meu-boi, de personagens como Mateus e Catirina e outros dos folguedos populares. A música do Quinteto Armorial, executada ao vivo pelo próprio quinteto foi muito adequada. Assim, trabalhamos o texto que Ariano Suassuna criou, nascendo o espetáculo Iniciação Armorial aos Mistérios do Boi de Afogados, com figurinos e cenários de Bernardo Dimenstein. A temporada no Teatro de Santa Isabel teve lotação esgotada todas as noites.
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A obra da escritora e advogada Djanira Silva aqui.
A música da cantora, compositora, percussionista, poeta e atriz Karina Buhr aqui.
Memória e ficcionalidade em Deus no pasto de Hermilo Borba Filho (UFPE, 2009), apresentada por Virginia Gisele Carvalho aqui
Contraponto: poder, política, economia e costumes (CEPE, 2006), do economista, professor universitário, editor e analista consultor Carlos Alberto Fernandes aqui.
Asas do Tempo (Telegráfica, 2013), do escritor Fernando Nascimento Barreto aqui
A arte da a artista visual, produtora cultural e pesquisadora Bruna Rafaella aqui.
&
As abelhas de Cupira aqui.


sexta-feira, janeiro 22, 2010

HÉLÈNE CIXOUS, ALICE WALKER, TONI MORRISON, FIAMA HASSE BRANDÃO, JOHN TRUMBULL, MEMENTO MORI, VALUNA & EDUCAÇÃO AMBIENTAL


A arte do pintor estadunidense John Trumbull (1756-1843).

VALUNA: CIDADE CORAÇÃO - Foto Rio Una, de Carlos Calheiros - A cidade era minha, rio acima de nenhuma margem, menino que não precisava saber qualquer coisa de nada. Se as ruas repletas de sangue coagulado eram veias que se abriam do talho involuntário, qual esquina não morava o agouro e eu sequer distinguia a bondade congênita da malévola tapiação. Não devia o pé fora de casa, nenhum passo além da placenta rasgada, inferno que pulsava a madrugada na festa vazia. Ali eu pensava em nunca esquecer a distopia de heróis fugitivos dos gibis levando todo mundo aos pandarecos, como se o estágio da esperança entre mendigos bem aquinhoados, servissem à desolação do ermo. A cidade não existia nem nunca existiu nas minhas migrações por pisos falsos e escravos de Babel: uma tábua suspensa no ar, a qualquer momento despencava num poço sem fundo. Nunca se sabia por aqui se é inverno ou verão, a chuva torrencial logo passageira se ia sem me levar e deixava o Sol mostrar o avesso e a pirotecnia que nunca se viu. Todos dormiam diante do espetáculo horrível, ou não enxergavam, nem queriam sequer ver. Eu não sabia e a cidade era um defeito de alheias convalescências. Nada havia mudado desde sempre além do estardalhaço, nenhuma perspectiva no horizonte, nem havia mais futuro e se dissolvia com contagem de ir até quando acabar. Desconhecia perguntas que soavam ao vento, se versos inauditos ou poemas sequer recitados, eram vozes sombrias e ninguém escutava: os mortos declamavam a esperança de acender a noite revelando a vida real em que não existiam respostas largas ou longas, a memória violada de tantas agruras. Assim os meus dias e outros dias e a cidade era uma nuvem de seres desérticos, coração em chamas, outras escuridões. Todo dia era quarta-feira de cinzas por aqui, mesmo ano a cada virada, quem diria. Apesar do calendário o que restava era sorrir sem saber se tarde ou não, porque ninguém mais tinha direção alguma para amparar e viver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.
  

A arte do pintor estadunidense John Trumbull (1756-1843).

DITOS & DESDITOS - Nós morremos. Esse talvez seja o sentido da vida. Mas nós fazemos linguagem. Essa talvez seja a medida de nossas vidas. Pensamento da escritora estadunidense e ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 1993, Toni Morrison. Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU: Os animais do mundo existem para seus próprios propósitos. Não foram feitos para os seres humanos, do mesmo modo que os negros não foram feitos para os brancos, nem as mulheres para os homens. Não pode ser seu amigo quem exige seu silêncio ou atrapalha seu crescimento. Pensamento da premiada escritora e ativista estadunidense Alice Walker. Veja mais aqui.

A MULHER & A CHEGADA À ESCRITURA – [...] Era eu uma mulher? ao reviver esta pergunta interpelo toda a história das mulheres. uma história feita de milhões de histórias singulares, mas atravessada pelas mesmas perguntas, os mesmos terrores, as mesmas incertezas. As mesmas esperanças pelas que até pouco tempo só se abriam para consentir, se resignar ou com desesperança. Tomar-me por uma mulher? De que maneira? Que mulher? […] Quantas mortes a atravessar, quantos desertos, quantas regiões em chamas e regiões geladas, para chegar um dia a dar um bom nascimento! E você, quantas vezes morreu antes de poder pensar, “Sou uma mulher”, sem que esta frase significasse: “Então sirvo”? […]. Trechos extraídos da obra A chegada à escritura (Amorrotu, 2005), da escritora francesa Hélène Cixous que, sobre a mulher, expressa: A mulher deve escrever sobre si própria e levar mulheres a escrever.

TRES POEMAS - OS AMIGOS QUE MORREM - Os amigos que morrem são arbóreos, / plantados e memoráveis como freixos. / Um freixo, que vejo entre árvores / como a aura, o tronco novo / sulcado de rasgões, a raiz curta / comparável à memória viva enterrada. / Têm uma única forma até à morte, próximos do Sol, / que torna as outras árvores mais ténues que os isolados freixos. MARÉ - Quando a maré baixa sob o céu róseo, / são a terra e a areia que absorvem / o infindo fumo e a neblina. / Além, um pescador; além, uma gaivota; / são os mesmos corpos movendo-se, / são a mesma inércia da morte. / O pescador revolve a areia / acocorado sobre algas douradas / em busca de mínimos seres vivos. / Um imenso bando de gaivotas intenta / separar de súbito o céu da terra / como se estas águas da ria, / tão lisas, fossem a antimatéria. DESDE QUANDO? - Os dois vultos encaminham-se hoje / para o pinhal. Entram / na cancela delineada. Será possível / saber qual a parte do Todo ou sinédoque / verdadeira. Transposta a caocela / o primeiro desejo de ambos / é escolher a clareira. Vêem pedras / espelhadas, várias flores miríficas / como as candeias rasteiras / com a sua coifa arroxeada e o pavio branco / estranho. Olham toda a periferia / para recompilar as árvores que os rodeiam. / Num manso pinheiro próximo / podem arrancar o córtex / já seco e solto. / Entalhadeiras / de pequenos artefatos, vasilhas e baixela / miniatural, cor castanho poroso e de leveza / surpreendente. O ofício diário industrioso / torná-las-á figuras móveis / do microcosmos. Cada uma traz uma navalha, / e a mais experiente entalhadeira ensina / a indústria matinal / à mais nova praticante da metafísica. / Depois, todas essas manhãs se juntam / numa cadeia de elos semelhantes. Poemas da escritora, dramaturga, ensaísta e tradutora portuguesa Fiama Hasse Brandão (1938-2007), autora de obras tais como Novas visões do passado (1974), Área branca (1978), e Três rostos (1989).

MEMENTO (AMNÉSIA) – O premiado filme Memento (2000), dirigido por Christopher Nolan, baseado no conto Memento Mori, de Jonathan Nolan, conta uma história de um homem que sofre de amnésia anterógrada, impossibilitando que ele adquira novas memórias. Para a antropóloga Alba Zaluar (1942-2019), em seu estudo Confiança e memória: antídotos da violência (Sociofilo, 2017), no filme: [...] o desmemoriado protagonista, que vive no mais poderoso e moderno país do mundo, inscreve no seu próprio corpo os fragmentos de informação que julga imprescindíveis na sua luta pela manutenção da identidade e da própria sobrevivência. Todos os outros personagens que interagem com o protagonista, mas que não têm nenhum vínculo social, portanto moral, com ele, são alvo de suas suspeitas acerca do provável assassino de sua mulher. Fragmentos de lembranças sobre o episódio o fazem crer que um homem a violentou e matou, mas não há tanta certeza. Mesmo assim, movido pela vingança, ele pode matar sem culpa no circuito interminável da represália que dispensa a segurança e a justiça administradas pelo Estado. Ele mesmo um perito no setor de seguros, não confia no perito policial que assassina violentamente no início da história. Não que lhe falte a capacidade de entrar num avião, andar numa movimentada rodovia, obedecer a sinais de trânsito, falar no telefone e fazer buscas na Internet, tudo isso sintomas do que Giddens denominou alta modernidade. Mas o filme narra exaustivamente repetições de trechos de encontros, todos marcados simultaneamente pela desconfiança e pelo desafio à hombridade do protagonista, esta típica de sociedades tradicionais. O personagem mata sem nenhum remorso mais três pessoas no circuito da reciprocidade negativa. Mas, ao contrário do que ocorre nas sociedades pré-modernas, ele o faz sem o testemunho, o apoio e da memória coletiva do grupo do qual faz parte. Ele mata sozinho. É uma fábula moderna sobre o vazio, a individuação e a suspeita eterna num contexto ideacional e sentimental de racionalidade instrumental utilitária (ou econômica ou de mercado) aliada à vingança, ou reciprocidade negativa, como pretexto para matar. O filme, como tantos outros do imaginário guerreiro, constrói o discurso ou o mito pós-moderno da licença para matar, embora se valendo do milenar circuito de trocas negativas. Atormentado pelo desespero de encontrar marcas de memória e pela compulsão a agir antes que o outro o faça, ele encarna a fábula do que Norbert Elias denominou de homo clausus e Alain Caillé o individualista egoísta. O que não cria laços, não confia e, pour cause, é naturalmente violento e não tem memória. A falta de identidade social estável, da confiança básica e da memória que as acompanham revelaram-se, para mim, facetas constitutivas da violência na sociedade de alta modernidade. A ausência de vínculos sociais e de identidades estáveis é também expressa pelos que se envolveram em crimes violentos de diversas maneiras no Brasil, país do capitalismo tardio, em que se combinam desigualmente as modernidades, altas ou não, e as tradições. Os bandidos jovens e pobres por mim entrevistados são adeptos de uma ideologia moderna e individualista que não se baseia, porém, nos direitos positivos da participação democrática, mas numa confusa definição de liberdade: a ilusão quanto à independência absoluta do sujeito e de sua liberdade de agir sem restrições está atrelada a uma concepção extremamente autoritária do poder. Se o chefe ou cabeça é concebido como homem inteiramente autônomo e livre, esta capacidade de exercer sem restrições a sua vontade faz-se às custas da submissão dos seus seguidores denominados teleguiados, uma relação sempre mediada pelas armas de fogo modernas (e pela disposição em usá-las sobre outro ser humano), bem como pelo poder do dinheiro que o chefe acumula. “Eu preciso de alguma coisa que me segure”, “fiz tudo da minha cabeça, ninguém me influenciou” são frases de uma modernidade inteiramente assumida, mas conflitiva e plena de riscos para os que não conseguem sair do vazio das múltiplas escolhas individualizadas, para os que, precisando da lealdade para não morrer traídos, vivem envolvidos em circuitos intermináveis da vingança. [...]. Veja mais MementoMori & Cinema aqui, aqui, aqui & aqui.


EDUCAÇÃO AMBIENTAL – A questão ambiental envolve um conjunto de atores do universo educativo, onde a participação para a formação de cidadãos conscientes, aptos a decidir e atuar na realidade socioambiental de um modo comprometido com a vida, com o bem-estar de cada um e da sociedade, local e global. Tal questão aponta para propostas pedagógicas centradas na conscientização, mudança de comportamento, desenvolvimento de competências, capacidade de avaliação e participação dos educandos e da população na busca de soluções para os problemas ambientais que vivencia. Para tanto, a escola assume um papel desafiador e fundamental na formação de valores, com o ensino e aprendizagem de procedimentos. As questões atinentes à ação educativa na promoção da cidadania e da preparação para a vida e para o trabalho, traz no bojo de sua ação a necessidade de uma abordagem acerca da afetividade, da solidariedade e da existência humana, no sentido de produzir a compreensão acerca da missão e função do ser humano na vida. Trata-se de uma ação educacional que se encontre pautada com a humanidade e o entendimento do ser humano na vida, por meio de práticas que sensibilizem e busquem incorporar noções que validem a existência humana na sua condução vital.
A EDUCAÇÃO - Na contemporaneidade a educação tem assumido um papel de suma importância na formação do cidadão e de sua preparação para a vida e o trabalho, trazendo a exigência da integração no ensino-aprendizagem da potencialização das experiências vividas e da realidade que circunda a vida do educando, no sentido de integrar nesse processo o sentimento, o pensamento e a ação no contexto afetivo e valorativo.
A educação deve preparar o indivíduo para o entendimento dos opostos, na construção de uma ética da compreensão no diálogo entre o argumento e o debate, a confiança e a desconfiança, enfim, abarcando a multidimensionalidade, o complexo e as condições do comportamento humano, o subjetivo e objetivo. Tal conduta requer um constante auto-exame critico da atuação e percepção do individuo, por meio do reconhecimento de preferências e escolhas que signifiquem a postura da personalidade, colocada em jogo num debate crítico para entendimento da multiplicidade de características que são incorporadas no ser humano por meio de sua formação cultural, empírica e social da complexidade humana.
Nesse sentido é que se deve levar ao questionamento individual das escolhas, preferências e hábitos, no sentido da observância de condutas tolerantes ou intolerantes, privilégios e exclusões, o admitido e o contrário, enfim, reavaliando todos os mitos, ideologias, crenças e convicções na busca pela humanização das relações humanas.
Tal condução visa a consolidação democrática na compreensão individual e entre as culturas, na tarefa de se atuar no desenvolvimento da compreensão, buscando um equilíbrio entre o pensamento racional, lógico e fundado para a formação do pensamento divergente, na busca do outro olhar dar à luz soluções novas, expressões recriadas e o humor sadio, articulando a produção e reprodução do conhecimento por meio de práticas como a da criatividade, do trabalho em equipe, do senso de solidariedade e levando à reflexão sobre questões importantes, tais como ambientais, sociais, culturais, religiosas, políticas, enfim, todas inerentes ao ser humano.
A visão interdisciplinar evita, entre outras, as dicotomias entre teoria-prática, subjetivo-objetivo, espiritual-corporal, envolvendo-se com a complexidade do viver e conviver; do existir e co-existir; do pensar; do sentir e na busca de significar a existência, num processo que deve levar do múltiplo ao uno e, por conseqüência, por meio de fundamentos epistemológicos e axiológicos, alcançar a multidisciplinaridade e pluridisciplinaridade.
Por ser a educação em sua totalidade uma prática interdisciplinar, sendo, pois, mediação do todo da existência, deve promover a superação da visão fragmentadora de produção de conhecimentos, articulando e produzindo coerência entre os múltiplos fragmentos de conhecimento da humanidade, promovendo a elaboração de sínteses na recomposição da unidade entre múltiplas representações da realidade e possibilitar o reencontro da identidade do saber na multiplicidade de conhecimentos.
O trabalho inter e transdisciplinar constituiu-se no corolário dos princípios da formação explicitados na articulação teoria e prática e na formação do professor pesquisador, antevendo a possibilidade de superação das dicotomias e fragmentações como prática social, portanto histórica e contextual e que, no processo de sua efetivação, demanda um trabalho coletivo e interdisciplinar e concorre para a humanização dos homens.
Para tanto, se faz necessário ao educador assumir condutas interativas e afetivas fundamentadas na reflexão da prática e na formação da competência ético-profissional, levando sua práxis por meio de um compromisso ético e político no exercício de sua prática docente, no sentido de poder corroborar mudanças necessárias ao desenvolvimento do docente, da população, da nação, mediante o êxito da competência de seus cidadãos.
Nesse sentido, Morin (2002, p. 35) assinala a necessidade da transformação da informação em conhecimento e do conhecimento em sabedoria para promover a formação solidária, planetária; da concepção de homem indivíduo em sujeito sociocultural; da proposição de um ensino simplificado, especializado e disciplinar na complexidade da educação, defendendo que “[...] É preciso aprender sobre a condição humana, a compreensão e a ética, entender a era planetária em que vivemos e saber que o conhecimento, qualquer que seja ele, está sujeito ao erro e à ilusão". Nesse sentido, o auto confronta o erro, a ilusão e as cegueiras do conhecimento, trazendo princípios do conhecimento baseados no ensino da condição humana, da identidade terrena, do enfrentamento das incertezas, do ensino da compreensão e na construção de uma ética do gênero humano. É nesse sentido que o autor defende os saberes fundamentais para toda cultura e toda sociedade, e que são indispensáveis frente à racionalidade dos paradigmas dominantes que deixam de lado questões importantes para uma visão abrangente da realidade.
A educação ambiental proporciona que a escola procure abrir e construir espaços de dialogicidade entre os grupos que vivenciam de modo diferente a mesma problemática, implicando no aprofundamento do debate democrático de diferentes idéias e de representações de diferentes grupos, em busca de um consenso mínino entre a comunidade escolar e a população que possibilite ações concretas conjuntas.
Em razão da questão ambiental está envolvida com aspectos relacionados à qualidade de vida humana, os impactos da ação humana sobre as condições climáticas, hidrológicas, geomorfológicas, pedológicas e bio-geográficas, em todas as escalas de tempo e espaço, observando-se que os problemas encontrados na área são decorrentes de profunda crise social, econômica, filosófica e política que atinge toda a humanidade, resultado da introjeção de valores e práticas que estão em desacordo com as bases necessárias para a manutenção de um ambiente sadio, que favoreça uma boa qualidade de vida a todos os membros da sociedade.
As escolas por serem centros de formação e aprendizagem podem priorizar o estudo do conteúdo escolar, numa linguagem adequada com base nos dados apontados no diagnóstico e incluir, de forma sistemática, participativa e criativa, a temática da importância global, regional e local, envolvendo cenários possíveis para o processo de educação ambiental junto a uma população com um conjunto de estratégias que possibilitem a compreensão global, regional e local dos problemas ambientais.
CONCLUSÃO – A educação ambiental propicia o aumento de conhecimentos, mudanças de valores e aperfeiçoamento de habilidades, condições básicas para estimular uma maior integração e harmonia dos indivíduos com o meio ambiente. Dessa forma, a educação ambiental deve ser levada pela escola de forma crítica e inovadora, voltada, acima de tudo, para a transformação social, buscando uma perspectiva de ação que propicie, de um lado, o resgate e o desenvolvimento de valores e comportamentos (confiança, respeito mútuo, responsabilidade, compromisso, solidariedade e iniciativa) e, de outro, estimular uma visão global e crítica das questões ambientais e promover um enfoque interdisciplinar que resgate e construa saberes.
A prática docente possui a necessidade de integração no processo de ensino-aprendizagem com o pensamento, o sentimento e a ação orientado por valores, na busca por uma atitude de observação permanente dos fatos ocorridos na relação pedagógica, em íntima vinculação com o contexto social, político e cultural em que suas práticas se efetivam e, ainda, construir habilidades investigativas da prática, na prática e a partir dela, frente aos desafios da realidade, apresentar propostas que respondam às demandas desse contexto.
Tal condução leva à aproximações, integrações, coletivização de pensamentos, de práticas para enfrentamento dos desafios, angústias e incertezas do cotidiano, das rotinas, ritos e rituais; proporcionando rompimento de hábitos e acomodações, a quebra de esquemas mentais rígidos, novas construções, novas dúvidas, novas inquietações e novos aprendizados.
A educação em sua prática deve favorecer a experiência criatividade com fundamento filosófico, psicopedagógico e antropológico, para promover uma atitude pró-ativa e criativa de vida
Por isso, a educação deve promover a percepção do educando além do conhecimento, a sensibilidade, da ação e dos valores, proporcionando uma identificação da vida dentro do mistério da existência.

REFERÊNCIAS
DIAS, G.. Educação ambiental: princípios e práticas. São Paulo: Gaia, 2000.
FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1987
MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2002.
UNESP.. Educação para um futuro sustentável: uma visão transdisciplinar para uma ação compartilhada. Brasília: Ibama, 1999. Veja mais aquiaqui, aqui, aqui e aqui.




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quinta-feira, julho 24, 2008

CERNUDA, KEATS, BEATRIZ SARLO, ALBA ZALUAR, RAFFAELLE MARINETTI & A PRESEPADA DE ROBIMAGAIVER.


 
Art by Raffaelle Marinetti


PIPOCO DA PORRA


Robimagaive é a gota! Entre ele, o Zé-corninho e o Doro, dos três não dá para saber qual dessas cabeças ilustradíssimas quem possui mais aptidão, competência, barrunfo, faro, pacutia e embromação.
Para se ter uma idéia, esses caras têm mais profissões que se empregadas duma só vez, desemprega meio mundo. Mesmo!
Mas, por enquanto, vou só falar do Robimagaive.
Pois foi, eu conheci esse distinto personagem certa vez quando ele procurava por emprego. Pensei, cá comigo, ora, como um sujeito qualificado desses anda desempregado? Hem?
Confesso que de cara não sabia de quem se tratava, mas que já ouvira todo tipo de pinóia a respeito dele, já.
- O que você sabe fazer? -, perguntei ao solicitante.
- Depende, doutô, é só o sinhô inscolher. - disse-me ele infatigável.
- Como assim?
- Bem, sô profissioná dos profissionáris: isgotador-de-fossa perito, sordador de caçarola-de-fundo-lascado inté lanternage de avião, pescador de maçunin, eletricista-eletrotéque, mecânco de autos, aviador e motorista catigoria Z de bicicreta a foguetêro, zabumbêro e crune de seresta e trielétrico, crastrador de bicho, pis... pis...cicultor de aquáro, benzedô do frei tabica...
- Peraí, o que você sabe fazer melhor!
- Tudo. E tem munto mai no meu currícu aí...
- Sim, tudo bem, podemos precisar de motorista...
- Na hura, tô disposto, pode me contratá qui num vai se arrependê; espie, minha cartêra é catiegoria Z...
- Não conheço essa categoria.
- Dirijo di tudo: tratô, patrol, avião, helicópes, carro, treminhã, oinbu, tô até terminando um foguete prá dá uma vortinha pru lá pru riba do céu.
- Eita! Tudo bem, deixe seu currículo aqui que eu quando precisar mando buscá-lo -, finalizei impaciente.
Robimagaive fez uma careta de desagrado e foi saindo com a mão direita na cabeça ajeitando o tuim. Não ia saindo lá muito satisfeito, não.
Num é que justo na hora apareceu um outro gerente pedindo um motorista para ir em Recife urgente. Ele sapecou:
- Eu vô! Se é ugente, é comigo mermo!
E nem piscou. Avexado arrancou a chave da mão do requerente, ouviu a determinação e partiu com mais de mil percorrer mais de 300 quilômetros. Informado do que tinha que fazer, zarpou.
Assim, de esguelha, dava uns 800 quilômetros de ida e volta, isso na baixa e, descontando as embromações do trajeto, dando umas 6 horas de viagem.
Quatro horas depois estava lá Robimagaive aboletado com a chave na mão e o carro fumaçando.
- Que bronca é essa, rapaz? Num deu para cumprir o requerido, não foi? -, perguntei com cara de poucos amigos.
- Missão cumprida.
- Como? O carro está fumaçando demais, pegou fogo, foi? Quebrou?
- Não, nada disso, doto, tá aqui o protucó de entrega, tudo como manda o figurino.
- Você é doido?
- Não, mas da próxima vez bote um carrinho melhor preu poder passar um pito na poliça rodoviara dela botar a língua de fora de tanto corrê.
Foi um deus nos acuda.
O carro fumaçava mas depois de uma checagem estava novinho em folha.
Inspecionando a razão daquilo, soube que o cabra andava solto de pé fundo, 200 por hora, só via a hora dele findar nem os pedaços. Dirigia endoidadamente, cortava pela direita, pela esquerda, nas curvas, onde não dava, vôte!
- Você é doido, é?
- Não, meu santo que é forte!
E era. Quando ele passava, era zum, já foi.
Essa não foi nada das tantas, uma ele aprontou comigo mesmo.
Depois de muitas pelejadas mexendo nisso e naquilo, no fim de tudo, o que fazia, ou dava certo ou errava de vez. Uma virtude, num é não?
Certo dia, domingo acompanhando a corrida da Fórmula 1, minha tv pifou. Porra! Quando vociferei a indignação, lá ia entrando Robimagaive.
- Qué qui foi, doutô?
- Minha tv pifou justo na hora da corrida!
- Calma, dô um jeito já já.
E deu. Fiquei o tempo inteiro com a orelha na frente da pulga.
Pacientemente ele destampou o aparelho, remexeu em tudo, amarrou aqui de barbante, cuspiu num integrado lá, botou chiclete prá cima, cola instantânea para baixo, bombril numas coisas, remendando fios com cada nó cego, tabefe para pegar, serrando um pedaço de alguma saliência, ajuntando papel de cigarro noutra, maior seboseira chega dava tristeza de ver, quando, a certa altura daquela esquisitice toda, mandou eu ligar o aparelho.
Ôxe, liguei. E foi um pipoco da porra! Maior zoadeiro. Eu só vi o Robimagaive com os cabelos em pé e a cara preta chamuscada do fogo. Chega tive um susto!
Com a mesma parcimônia de sempre, ainda mencionou:
- Ói, doutô, aqui num dá que deu probrema de junta, tenho que levar prá casa para juntá os cacos!
Não sei como ainda acreditei e deixei ele sacudir embaixo do suvaco o resto dos bregueços que sobraram.
O pior: ele consertou e trouxe em perfeito estado. Só que desconfiado do funcionamento, dei-lhe de presente. Acho que nada mais justo, ora. Mas ele insistiu para que eu visse que estava tudo em ordem. Nem quis ver. Ele ligou, mudou de canal, mostrou tudo funcionando direitinho. Nem mostrasse, levasse dali. Ele ai que saiu devagar e chegando na primeira esquina vendeu aquilo por 50 reais, enchendo o tampo na carraspana e sorrindo à toa.
É mole? Não, esse é o Robimagaive.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.
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PENSAMENTO DO DIA - O poeta é o ser menos poético do mundo. Pois não tem identidade. Não parece com ninguém e vive no outro. Coisas que podem chocar o filósofo ao poeta encantam. Pensamento do poeta do Romantismo inglês John Keats (1795-1821). Veja mais aqui.

PESQUISA – [...] Alternativamente, a pesquisa pode e deve ser o momento em que se reflete sobre essas variadas possibilidades de relacionamento entre pesquisador e pesquisado, sobre os diferentes impactos que qualquer pesquisa sempre provoca no grupo pesquisado, tomando-se como pano de fundo, uma alteridade nunca resolvida nem dissolvida nos encontros e desencontros que a pesquisa traz. Neste caso, a alteridade não seria dissolvida nem pela função simbólica única das subjetividades em encontro, nem pelo próprio projeto político popular unificado [...]. Trecho extraído da obra Teoria e prática do trabalho de campo: alguns problemas (Paz e Terra, 1988), da antropóloga Alba Zaluar.

O PASSADO – [...] é pelo discurso de terceiros que os sujeitos são informados sobre o resto dos fatos contemporâneos a eles; esse discurso, por sua vez, pode estar apoiado na experiência ou resultar de uma construção baseada em fontes, embora sejam fontes mais próximas do tempo [...]. Trecho extraído da obra Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva (UFMG, 2007), da escritora e crítica literária argentina Beatriz Sarlo. Veja mais aquiaqui.

DIREI COMO VOCÊS NASCERAM - Direi como vocês nasceram, prazeres proibidos, / Como nasce um desejo sobre torres de espanto, / Ameaçadores barrotes, fel desbotada, / Noite petrificada à força de punhos, / Diante de todos, inclusive o mais rebelde, / Apto somente na vida sem muros. / Couraças infranqueáveis, lanças ou punhais, / Tudo é bom se deforma um corpo; / Teu desejo é beber essas folhas lascivas / Ou dormir nessa água acariciadora. / Não importa; / Já declaram teu espírito impuro. / Não importa a pureza, os dons que um destino / Levantou para as aves com mãos imperecíveis; / Não importa a juventude, sonho mais que homem, / O sorriso tão nobre, praia de seda sob a tempestade / De um regime caído. / Prazeres proibidos, planetas terreais, / Membros de mármore com sabor de estio, / Sumo de esponjas abandonadas pelo mar, / Flores de ferro, ressoantes como o peito de um homem. / Solidões altivas, coroas derrubadas, / Liberdades memoráveis, manto de juventudes; / Quem insulta esses frutos, trevas na língua, / Tu és vil como um rei, como sombra de rei / Arrastando-se aos pés da terra / Para conseguir um naco de vida. / Não sabia os limites impostos, / Limites de metal ou papel, / Já que o acaso lhe fez abrir os olhos sob uma luz tão alta, / Aonde não chegam realidades vazias, / Leis hediondas, códigos, ratos de paisagens arruinadas. / Estender então a mão / É achar uma montanha que proíbe, / Um bosque impenetrável que nega, / Um mar que traga adolescentes rebeldes. Poema do poeta e critico literário espanhol Luis Cernuda (1902-1963). Veja mais aqui.
Art by Raffaelle Marinetti




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