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quarta-feira, junho 03, 2020

ALBA ZALUAR, TAMARA KARSAVINA, AL MAÇUDI & FLÁVIA BARROS



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: ENTRE NOTÍCIAS FALSAS & ESPETACULARIZAÇÃO - Lá vou eu entre as polarizadas encrencas das notícias falsas e a espetacularização escusa dos meios de comunicação de massa! Ter discernimento é fundamental! Cá comigo: é muito difícil manter qualquer diálogo com sectários desinformados ou fanáticos. Maior perda de tempo mesmo. Pense num revestrés! Aprendi com Madeleine de Scudéry: As ações são muito mais sinceras do que as palavras. A desconfiança é a mãe da segurança. Por muito boa que seja a cabeça, quase nada pode contra o coração. Pois é, cair na onda ignorando os interesses subjacentes é o mesmo que ser enganado noitedia e não admitir o que a língua do boato mande ver aos berros ululantes ou cochichos sabotadores. O melhor é se ligar na situação. DUAS: ESCAPANDO DAS FULERAGENS E BOATARIA – Tem jeito nada. É feito apelido: ou derrete os chifres ou deixa correr, melhor. Já arrastei muita mala de perder a viagem que só. Cada uma. Foi quando aprendi checar direitinho a cor da chita, naquela dum olho aberto e outro fechado, rindo pra não expor o toitiço pro sal pisado, aí é que dava no que não era nada: não era a reveladora do Israel Pedrosa, só aquela que mais parecia com a do cavalo quando foge ou a que fica depois da ação dos larápios mais contumazes. Ou seja: nada. A sensação que eu tinha depois de sacar direitinho, era a mesma do José Lins do Rego: Chego a esta casa sem arrependimentos pelo que fiz, nem temor de falar como sempre falei, com a língua solta que Deus me deu. Apois, tá! Só cuspi pra cima e saí de baixo, estou sempre pronto para outra, naquela de um pé na frente e outro atrás. Oxente! TRÊS: CALOR NO SOVACO & A CATINGA COME NO CENTRO – É cada inhaca, vixe! Entre cruzados de sacanagens e sapateadas para arrumação na teta do erário público, eu mesmo que não saio mais engalobado, já passei da conta, vacinado. Saco na hora, mesmo que passem puxando mais de cem. Não me engana mais não. Cuido para não morrer do coração. Xô pra lá, catingoso! Por isso vou entoando o Libelo da Primavera de Ginsberg: só a poesia torna a vida suportável!!!!! E vamos aprumar a conversa, gente! Até mais ver! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Nas redes da reciprocidade partilhada, valem a memória e a confiança articulados entre si. É a confiança que, em última análise, garante o circuito da reciprocidade positiva e afasta o fantasma da guerra ou do conflito destruidor e letal, mesmo que esporádico. Como não há garantia de que as dádivas serão retribuídas, ainda que seja uma palavra de apoio do doador ao receptor, e receber o presente um gesto de tolerância ou aceitação, é a fidúcia entre parceiros que mantém a aposta na dádiva, ou seja, a expectativa num tempo que se dilata indefinidamente à espera de uma ocasião em que o receptor esteja pronto a retribuir. É a confiança ou o crédito prolongados, portanto, que eliminam a possibilidade de que se instaure a inimizade e a guerra. [...] O esquecimento vem a ser, então, um rompimento com esse pacto nunca explicitado do circuito de trocas. Como não está baseada num conhecimento total, que a tornaria inútil, a confiança precisa dos mecanismos da memória individual e coletiva para se estabelecer. [...] Diante desse quadro complexo de objetividades e subjetividades, do material e do simbólico, das relações entre a sociedade e o Estado na alta modernidade, o atual jogo político no Brasil revela toda a sua pequenez, reducionismo, ineficácia e infelicidade. Os brasileiros, a despeito deles mesmos, estão deprimidos. Tanto a fazer para conquistar a confiança dos eleitores e dos contribuintes no Executivo e no Legislativo que pressupõem de alguma forma a sua participação, infelizmente ainda muito adscrita às eleições que agora sabemos ser manipuladas e gerenciadas por grandes grupos econômicos! Trechos extraídos do ensaio Confiança e memória: antídotos da violência (Sociofilo, 2017), da antropóloga Alba Zaluar (1942-2019), que atuou na área de antropologia urbana e antropologia da violência e foi professora titular de Antropologia do Instituto de Medicina Social e professora de antropologia no Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, fundadora do Núcleo de Pesquisa em Violências (Nupevi), cujos temas de estudo variam entre violência doméstica, segurança pública e tráfico de drogas. Foi uma das primeiras a estudar a Cidade de Deus. Ela é autora de obras tais como: Cidadãos Não Vão ao Paraíso (1994), Condomínio do Diabo (1996), Da Revolta ao Crime S.A. (1996), Um Século de Favela (1998), A Máquina e a Revolta (1999), Violência, Cultura, Poder (2000) e Integração Perversa: Pobreza e Tráfico de Drogas (2004).

MÁRTIRES DO AMOR
Uma cantora de alaúde começou a cantar: “Cada dia que passa, um rompimento! O tempo se escoa e nossa cólera não se aplaca; quem me dirá se essa desgraça só atinge a mim ou é comum a todos aqueles que amam?” [...] Conta-se que Yézid, filho de Abd el-Melik, presidindo, um dia, a audiência da Justiça, encontrou entre os requerimentos que lhe foram enviados, um assim concebido: “Queira o príncipe dos crentes (que Deus o glorifique) fazer vir em minha presença sua escrava tal, para que ela me cante três canções”. Yézid, enfurecido, ordenou que lhe trouxessem a cabeça do audacioso culpado; porém, ele preferiu enviar um segundo mensageiro nos traços do primeiro, com ordem de trazer o autor do pedido. Quando esse homem estava em sua presença, o príncipe perguntou-lhe o que pôde inspirar-lhe uma ação tão atrevida. “É – respondeu ele – minha crença em vossa bondade, minha confiança em vosso perdão”. O califa fê-lo sentar-se, e quando todos os omeíades até o último entre eles haviam-se afastado, ele fez vir a escrava com seu alaúde à mão. O jovem pediu-lhe esta canção [...]. A escrava cantou; em seguida, o jovem, com autorização de Yézid, reclamou esta outra canção [...] Ela cantou também. Fala, disse o príncipe ao jovem. – “Ordeno que se me traga uma ânfora de vinho”. Mal esvaziara a ânfora, ele ergueu-se bruscamente, subiu à cúpula sobre a qual o príncipe estava sentado, precipitou-se e morreu. Yézid gritou então: “Pertencemos a Deus e voltamos para ele. Eis o tolo, o insensato, que acredita que após lhe haver mostrado uma de minhas escravas eu a guardaria em minha posse! Pajens, faze sair esta menina e conduze-a à casa dos seus, se ela os tiver; senão vende-a e distribui o dinheiro em esmola por intenção o morto”. Logo ela foi trazida; atravessando a corte do palácio, ela viu um fosso escavado no meio do palácio de Yézid para receber as águas da chuva; escapou das mãos dos seus guardas, pronunciando estes versos: “Os que morrem de amor devem morrer assim; o amor não vale nada sem a morte”. Precipitou-se no pequenino abismo e morreu.
MÁRTIRES DO AMOR - Trecho da crônica do viajante, geógrafo, historiador e cronista árabe Al Maçudi  (871-956), extraída da obra Contos árabes (Cultrix, 1967), organizada e traduzida por Jamil Almansur Haddad e Jose Paulo Paes. Neste conto percebe-se a dedicação do poeta pela amada, uma verdadeira cantiga em que o amor é sentido ardentemente como uma paixão profunda e duradoura, própria de um poema de amor. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da bailarina russa Tamara Karsavina (1885-1978) que integrou o Balé de Sergei Diaghilev, tendo sido várias vezes par de Vaslav Nijinski. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCULTURARTES
Eram mais mulheres, a falta de homem sempre foi complicado. Só tinha o Fred (Salim) depois entrou o Carlos Santillan, que era um médio que veio fazer um cruso de medicina aqui em recife e era bailarino, peruano. Ele e o irmão dele dançavam num grupo profissional de danças no Peru. Aí tivemos que correr atrás de atletas formandos da escola de Educação Física, para fazer teste, para ver as possibilidades de cada um, então, com esses rapazes completamos o grupo de rapazes que já tínhamos, mais os dois que não eram da escola de Educação Física, e no fim, ficaram sete rapazes do grupo. Acho que eram mais moças, sempre mais moças.
Depoimento da bailarina, coreógrafa e professora Flávia Barros, que integrou o Corpo de Baile do Theatro Municipal do RJ e fundou o Curso de Danças Clássicas Flávia Barros, além de fundar o Grupo de Ballet do Recife e criou, juntamente com Ariano Suassuna, o Balé Armorial do Nordeste. Depoimento ao Projeto RecorDança (2004),  extraído da obra Acordes & traçados historiográficos: a dança no Recife, organizado por Ana Valeria Ramos Vicente e Roberta Ramos Marques. Noutra entrevista (RibaltaOUTSite - Satedpe, 2009), exla expressou que: Parti do que já conhecia para um trabalho difícil de técnica Fábio Coelho, Carlos Santillan, Eduardo José Freire, Edmond básica para o conhecimento e evolução dos movimentos necessários ao Janiszowsky, Evandro Paiva e Airton Tenório. Estilo de coreografia que seria mais adequado à estética armorial reconhecida pelas referências ibéricas e mouras na sua constituição. Um trabalho básico de balé, ritmo, composição coreográfica espontânea com grupos de bumba-meu-boi, de personagens como Mateus e Catirina e outros dos folguedos populares. A música do Quinteto Armorial, executada ao vivo pelo próprio quinteto foi muito adequada. Assim, trabalhamos o texto que Ariano Suassuna criou, nascendo o espetáculo Iniciação Armorial aos Mistérios do Boi de Afogados, com figurinos e cenários de Bernardo Dimenstein. A temporada no Teatro de Santa Isabel teve lotação esgotada todas as noites.
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A obra da escritora e advogada Djanira Silva aqui.
A música da cantora, compositora, percussionista, poeta e atriz Karina Buhr aqui.
Memória e ficcionalidade em Deus no pasto de Hermilo Borba Filho (UFPE, 2009), apresentada por Virginia Gisele Carvalho aqui
Contraponto: poder, política, economia e costumes (CEPE, 2006), do economista, professor universitário, editor e analista consultor Carlos Alberto Fernandes aqui.
Asas do Tempo (Telegráfica, 2013), do escritor Fernando Nascimento Barreto aqui
A arte da a artista visual, produtora cultural e pesquisadora Bruna Rafaella aqui.
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As abelhas de Cupira aqui.


quarta-feira, setembro 23, 2015

VALÉRY, MORENO, KUREISHI, COLTRANE, PEDERSEN, NEUROCIÊNCIA, KARSAVINA, NÊNIA DE BARIL & BRINCARTE DO NITOLINO!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? NÊNIA DE ABRIL – Estava na segunda metade da década de 1980, quando recebi o livro Ciclo Amatório (Mundo Manual, 1986), do saudoso poeta e editor carioca Sérgio Campos (1941-1994). Tempos difíceis aqueles, do sonho da redemocratização que se realizaria com a promulgação da Carta Cidadã de 1988. O poeta a que me refiro, deixou uma obra significativa: A casa dos elementos (Achiamé, 1984), Bichos (Autor, 1985), Ciclo amatório (Scortecci, 1986), Montanhecer (Scortecci, 1987), Nativa idade (Mundo Manual, 1990), O lobo e o pastor (Mundo Manual, 1990), As iras do dia (Mundo Manual, 1990), Móbiles de sal (Mundo Manual, 1991), A cúpula e o rumor (Mundo Manual, 1992), Leitura de cinzas (Mundo Manual, 1993) e Mar anterior (Antologia, 1984/94 - Mundo Manual, 1994). Trocamos muitas correspondências e livros, até a última missiva em que ele dava conta de que estava realizando o sonho de se mudar de Minas Gerais pro Rio de Janeiro, mais especificamente a cidade de Ilha do Governador, na qual, pouco tempo depois, recebi a notícia do seu falecimento. Vários estudos foram realizado sobre a sua obra, a exemplo das destacáveis pesquisas do poeta e doutor em Literatura, Leontino Filho, do poeta e editor Floriano Martins e do poeta e crítico literário Luiz Carlos Monteiro. Da minha parte, justo quando recebi o livro Ciclo Amatório, que dei de cara com o poema Nênia de Abril, peguei o violão, montei acordes da harmonia e da melodia e fiz dele a minha voz: Sou um poeta obscuro. / Os meus companheiros são poetas obscuros. / Nosso país é o amor subterrâneo em sagração de interiores catedrais. / Porquanto seja nosso pranto anônimo, choramos nossos mortos sozinhos. / Nosso embalar ainda é canto inaudível nas praças e nas avenidas do povo. / Lambemos nossas feridas ignoradas e nossos cantos codificam perdas. / Mas se o país é triste somos tristes porque é de nós sofrer a aflição geral. / Somos cidadãos de um trágico país cuja desgraça ataca sempre e cedo. / Antes que os nossos filhos denunciem o luto secular de seus abris. / O que é melhor em nós desfaz-se em perda. / O que tocamos nos trai com seus punhais. / Perpetramos nosso sonho coletivo e o velamos, mas quando tangemos é tarde demais. / Enfim quando se vai o que é do povo / Aqui na terra se depõe perto de nós. / É quando os obscuros cantam suas nênias / Para embalar o amado enquanto morto. / Sou um poeta obscuro. / Meus companheiros são poetas obscuros. / Nosso país é o amor.Luiz Alberto Machado. Primeira Reunião: Bagaço, 1992). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 Imagem: L’eglise et les etoiles (1951 - Oil on canvas), do pintor dinamarquês Carl-Henning Pedersen (1913-2007).


Curtindo o álbum Ascension (1965), do saxofonista e compositor de jazz norte-americano John Coltrane (1926-1965). Veja mais aqui.

BRINCARTE DO NITOLINO – Hoje é dia de reprise do programa Brincarte do Nitolino para as crianças de todas as idades, nos horários das 10hs e das 15hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação da simpaticíssima Isis Corrêa Naves. Na programação: Olavo Bilac, Turma da Mônica, Turminha do Tio Marcelo, Tia Conça, Bananas de Pijamas, A turma do Seu Lobato, Paulo Zola & Francis Monteiro, Bob Zoom, Angelina Ballerina, Galinha Pintadinha, The Smurfs, Patati & Patatá, Moranguinho & muito mais pra garotada. No blog, a edição nº 1 da Revistinha em Quadrinhos Aventureiros do Una, uma parceria minha com Rollandry Silvério, o Brincar da Criança, Paulo Freire, Ludoterapia, as crianças e a mídia eletrônica e a função da família em Gestalt-terapia para crianças, entre outras dicas de Educação, Psicologia, Direito das Crianças e dos Adolescentes, Música, Teatro e Literatura. Para conferir o programa online clique aqui ou aqui.

A ÁRVORE DO BEM DO MAL – No livro Neurociência e educação: como o cérebro aprende (Artmed, 2011), de Ramon M. Consenza e Leonor B. Guerra, destaco os trechos: [...] O senso comum costuma se referir a cinco sentidos que seriam utilizados por nós normalmente. Na verdade, eles são em maior número. Na pele, por exemplo, não percebemos apenas o tato, mas também a sensação de pressão, a dor e a temperatura. Um sentido muito importante e pouco mencionado é a cinestesia (cine= movimento; estesia = sensação), que informa a posição do corpo no espaço e os movimentos estão sendo executados. Seus receptores encontram-se nos músculos, nas articulações de nosso esqueleto e no ouvido interno. As informações neles geradas nos permitem manter o equilíbrio, conhecer a distribuição do corpo no espaço e executar com perfeição os movimentos dos deferentes grupos musculares. [...] A Bíblia informa que Deus colocou no Paraiso a Arvore do Bem e do Mal, cujo fruto proibido a humanidade provou, sendo por isso expulsa do Paraíso. Essa arvore pode ser uma metáfora da aquisição, pela espécie humana, de uma serie de funções que a distinguem dos outros animais. A capacidade de planejar no longo prazo, de medir a consequência dos próprios atos, de inibir os comportamentos inadequados são a essência do que chamamos funções executivas. A imagem pode ir mais longe se nos lembramos que, tal como uma arvore, essas funções te que ser desenvolvidas e mantidas com cuidado constante. Nossa civilização, que tem posto em risco o futuro de nossa espécie poluindo a Terra e exaurindo os seus recursos naturais, comete mais um equivoco ao descuidar do desenvolvimento das funções executivas, o que pode comprometer o bem estar e, talvez, a sobrevivência das futuras gerações [...]. Veja mais aqui e aqui.

O BUDA DO SUBÚRBIO – O livro O Buda do subúrbio (Companhia das Letras, 1992), do escritor e dramaturgo britânico Hanif Kureishi, conta a história de um narrador imigrante de indiano que se encontra em Londres para estudar direito, envolvendo-se com bebida, rock e prazeres ilícitos, findando por se casar muito jovem numa fase de descobertas num momento de turbulência política e preconceitos, criticando a cultura de massa. Da obra destaco o trecho: [...] Ao liquidar a casa e mudar para Londres, Eva também estava perseguindo Charlie, que atualmente pouco aparecia por ali. Para ele também era obvio que os subúrbios faziam parte do passado, do inicio da vida. Depois disso, era desviar ou definhar. Charlie gostava de dormir cada dia em um lugar, não tinha posses, nem moradia fixa, e trepava com quem pudesse; às vezes até ensaiava e compunha canções. Experimentava estes excessos não pode desespero, e sim por se excitar com as promessas da vida. Ocasionalmente eu acordava pela manhã e lá estava ele, na cozinha, comendo furiosamente, como se não soubesse de onde viria sua próxima refeição, como se cada dia fosse uma aventura capaz de terminar em qualquer lugar. E depois ia embora. Papai e Eva acompanhavam todas as apresentações de Charlie, em escolas de artes, pubs e pequenos festivais ao ar livre em locais enlameados. Eva torcia e aplaudia sem parar, com uma cerveja na mão. Papai piscava nervoso ao fundo, perturbado com o barulho e a multidão, com frenética dança de são Vito por cima de jovens em coma, mergulhados em poças de cerveja. Ele se abalava com o sofrimento, as roupas fedorentas, as bad-trips dos adolescentes de catorze anos levados em ambulâncias, as fodas ao acaso, sem amor, e as fugas melancólicas da família para os prédios miseráveis abandonados de Herne Gill. Sem duvida teria preferido ficar em casa, aconselhando um disciplulo – a fervorosa garota Fruitbat, quem saber, ou seu namorado eternamente sorridente, Chogyam-Jones, cuja roupa parecia um tapete chinês; seu estimulo estava se tornando necessário. Mas papai acompanhava Eva onde quer que sua presença fosse exigida. Sem duvida ele aproveitava muito mais a vida do que antes e, quando Eva finalmente anunciou que estávamos de mudança para Londres, admitiu que esta era a decisão correta a tomar. [...]. Veja mais aqui.

OS CADERNOS DE VALÉRY – No livro Paul Valéry: a serpente e o pensar (Brasiliense, 1984), do poeta, tradutor e ensaísta Augusto de Campos, encontro Dos cadernos de Valéry, reunindo contra-bras e contra-acabados do filósofo e poeta do Simbolismo francês, Paul Valéry (1871-1945), do qual destaco os trechos: [...] Estes cadernos são meu vício. São também contra-bras, contra-acabados. [...]. Poder e ser: ser poeta, não. Poder sê-lo. Tédio – O que eu sei fazer me entedia; o que não sei fazer me entristece. Opinião: eu não sou sempre da minha opinião. Processo (= conceito poundiano de inventor?): aprecio um homem quando ele encontrou uma lei ou um processo. O resto não é nada. Poder, agir: eu me amo em potência – me odeio em ato. O inumano: não saboreio nas obras do homem senão a quantidade de inumanidade que nelas encontro. Sei demais o que é humano. Sofri, gozei; me enganei; vi corretamente, me sinto arruinar pelo tempo; fui louvado; censurado, saudado, achincalhado, tratado por nomes os mais agradáveis e por alguns outros. Eis o que é humano, segundo os humanos. Não me agrada ruminá-lo nos livros. Impossibilidades:... são as minhas impossibilidades que me excitam. Só amor problemas: Quando eu me prendo (o que é bem raro) a uma leitura que não me requer nenhum esforço de compreensão nova, tenho a sensação de cometer uma falta. Eu me sinto em falta -, falta que pode ter por excusa uma incapacidade de fazer outra coisa. Só amo problemas. Sorrir dos sérios: devemos sorrir dos que se levam a sério. O poema é uma máquina: o poema é uma máquina de produzir certos efeitos sobre certas pessoas que se imaginais tais ou quais. Surpresa ou precisão: Um escrito só vale: 1 – pela estranheza, a surpresa, a distancia que guarda com o meu pensamento – ou 2 – pelo grau de precisão que ele me traz. É preciso que eu seja ou enriquecido, destravado, ampliado, ou então precisado, isto é, amadurecido, acabado, delimitado, tempo-ganho. Escritor – escriteiro: Não sou escritor – escriteiro (écriveur), pois não só não me importa como me ultrapassa escrever o que vi, senti ou peguei. Isso terminou para mim. Tomo da pena para o futuro do meu pensamento – não para o seu passado. Escrever: escrever – o que eu escrevo não é escrever, é preparar-se para escrever algum dia impossível. A síntese da poesia: zombam de você, que tentou fazer a síntese da poesia. Eles têm razão, mas você também não está errado. [...]. Veja mais aqui e aqui.

O TEATRO DA ESPONTANEIDADE - No livro O teatro da espontaneidade (Summus, 1984), do médico, psicólogo, filósofo e dramaturgo turco-judeu Jacob Levy Moreno (1889-1974), destaco mais alguns trechos: [...] Quando Deus criou o mundo em seis dias ele acabou se detendo um dia antes, com excessiva antecipação. Ele havia organizado para o Homem um lugar onde viver mas, para torna-lo seguro para aquele, acabou também por acorrenta-lo a tal lugar. No sétimo dia, Ele deveria ter criado para o Homem um segundo universo, um outro mundo, livre do primeiro e no qual o Homem pudesse se purificar deste, mas um mundo em que não houvesse pessoa alguma acorrentada, pois que não seria real. É neste ponto que o teatro da espontaneidade prossegue a obra de Deus de criar o Mundo, ao abrir para o Homem uma nova dimensão da existência. [...] A sociatria já nos forneceu bons motivos para predizer que a sociedade humana acabará sendo controlada pelo self ou selves espontaneamente dirigidos. [...] A maior dificuldade quanto à expansão do self na direção de um verdadeiro domínio do universo não reside na invenção de instrumentos por meio dos quais alcançar-se este objetivo e, sim, no próprio Homem. este é inepto e inerte e sua espontaneidade encontra-se num estagio embrionico de desenvolvimento. Portanto, não é o retardo das ciências sociais em comparação com as físicas que detém o progresso; esse retardo verifica-se antes nas limitações do Homem e na sua falta de preparo para a utilização de instrumentos e métodos que lhe permitiriam vencer seus desafios biológicos, sociais e culturais. [...] Enquanto no plano tecnológico, é grande a prontidão do Homem para fazer uso de instrumentos tão logo sejam inventados, no plano social esta prontidão encontra-se excessivamente baixa, praticamente nula. [...] é fácil para o Homem usar um pedaço de pau, uma arma ou uma bomba atômica, mas é-lhe extremamente difícil adaptar-se ao uso de instrumentos sociais que lhe assegurariam liberdade no seu de sua própria sociedade. Não é fácil apresentar respostas a esta dificuldade: o Homem precisa ser educado; [...] é um problema de deficiência na espontaneidade de se usar a inteligência disponível e de se mobilizar as emoções esclarecidas. [...] . Veja mais aqui, aqui e aqui.

TODAS AS MULHERES DO MUNDO – A trajetória da atriz de cinema e televisão Joana Fomm é das mais representativas. Ela começa no cinema atuando no filme O quinto poder (1962), seguindo-se Um morto ao telefone (1964), El ABC do amor (1967), A vida provisória (1968), O homem nu (1968), Bebel, a garota propaganda (1968), Edu,  coração de ouro (1968), A noite do meu bem (1968), Macunaíma (1969), As armas (1969), Um sonho de vampiros (1969), O palácio dos anjos (1970), As gatinhas (1970), Gamal, o delírio do sexo (1979), Elas (1970), Fora das grandes (1971), Noites de Iemanjá (1971), Vozes do medo (1972), Os desclassificados (1972), Um brasileiro chamado Rosaflor (1976), Marilia e Marina (1976), Contos eróticos (1977), Beijo na boca (1982), Espelho de carne (1985), O cavalinho azul (1984), Césio 137 – o pesadelo de Goiania (1990), Vai trabalhar vagabundo II (1991), Quem matou Pixote? (1996), Copacabana (2001) e Quanto vale ou é por quilo? (2005). Entre esses, destaco sua participação na premiada comédia Todas as mulheres do mundo (1966), dirigida pelo cineasta Domingos de Oliveira, contando a história a respeito de um dilema que o determinado sujeito sofre entre a vida de solteiro e o casamento. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte da bailarina russa do Balé de Sergei Diaghilev, Tamara Karsavina (1885-1978)


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Quarta Romântica, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Na programação: Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...