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quinta-feira, dezembro 10, 2020

JORGE LUÍS BORGES, SOLZHENITSYN, CAMUS, HENFIL, TERESA DE CALCUTÁ, SERGIO LOPEZ, LOURDES NICÁCIO & L7M


  

TRÍPTICO DQC: REINVENÇÃO DO RUMO OU NADA - Ao som de Canon & Gigue In D, do compositor alemão Johann Pachelbel (1653-1706), com a regência de Yip Wing-sie & Hong Kong Sinfonietta (2008). – Lugar distante, acho. E incerto. Ou estou perdido. Andança. Ao me aproximar do que poderia ser uma cidade, tentei ler a placa indicativa quando surgiu uma bela e sensual mulher me dando as boas-vindas: Sou Assistente Social e, cada visitante, é recepcionado, cadastrado e encaminhado para conhecer o local, pois aqui tudo é diferente! Perguntou-me uma série de coisas marcadas num formulário da prancheta apoiada no decote dos seus belos seios. Idade, nome, estado civil, etecetera e tal. Siga-me. O primeiro prédio, o da Educação: os maiores espancavam os menores, os mais velhos torturavam os mais novos; os rapazes às moças, os homens, às mulheres; as mães, aos filhos e filhas. Veja! Sim? Estão sendo educados na lei daqui. Hem? Venha. Entramos numa sala do prédio Governo: uns tomam o que é dos outros e vice-e-versa, todos são roubados e roubam entre si. Viu? Como é? Aqui aprendem a governar. Venha. E me levou a um salão de outro prédio, o Templo da Fé: uma reunião de pessoas completamente despidas e amontoadas, homens e mulheres que fossem idosos, adultos, jovens, todos numa espécie de orgia báquica, uns aos outros encangados libidinosamente e aos louvores. Esta é a religião daqui. Que lugar é este? Diante da minha surpresa, ela encaminhou-me por alguns corredores que, ao final, deram na saída da cidade: Pode ir, o senhor não foi admitido em nossos domínios. E bateu a porta. Desapontado, dei dois passos e, ao voltar-me, nada mais existia, como se tivesse sumido no ar. Ao retomar a caminhada deparei-me com Alain de Benoist: A única coisa que importa é o que as pessoas pensam de uma questão precisa, não importa como eles se posicionam (ou se recusam a) no espectro político tradicional. Vôte! Fiquei intrigado com o que ele disse, enquanto Ahmadou Kourouma me dizia em tom confidencial: Deus dá brincos de ouro a quem não tem orelhas para os usar... quando as infelicidades são muitas, Deus acaba por ficar indiferente... nenhuma oração pode alegrar um homem vazio. Mais surpreso fiquei ao ser advertido por Naguib Mahfuz: Estão querendo apagar a luz da razão e do pensamento. Cuidado! Se rejeitarmos a ciência, rejeitamos o homem comum. Você consegue saber se um homem é inteligente pelas suas respostas. Você consegue saber se um homem é sábio pelas suas perguntas. Que coisa! Parecia um bombardeio inexorável e logo apareceu Rajneesh bastante severo: A verdade não é algo do lado de fora para ser descoberto, é algo dentro para ser realizado. Largue a ideia de se tornar alguém, porque você já é uma obra de arte. Você não pode ser melhorado. Você só precisa se ir em direção a isso, saber disso e realizar isso. Como assim? Estava encurralado. De repente me vi só no descampado: todos os caminhos adiante, mas para onde?... Hei de reinventar o rumo, mesmo que não saiba como.

 


DE IR ALÉM DAS AMARRAS & IMOBILISMO - Imagem: a arte do grafiteiro L7M - Luís Seven Martins, ao som do álbum Finding Gabriel (2019), do pianista estadunidense Brad Mehldau. - O justo, a equidade e a cena: o magistrado ouvia a exposição da defesa, piscando o olho para a promotoria. Resultado: décadas de litígio civil ou quinquênios de cizânia trabalhista, alguém cedeu entre as partes, a requerente-reclamante de direitos; ou condenação penal para todos os perdedores, onde houver o menor prejuízo e a absolvição sob os poderes dos vencedores. Solzhenitsyn esclarece: Justiça é consciência, não uma consciência pessoal mas a consciência de toda a humanidade. Aqueles que reconhecem claramente a voz de suas próprias consciências normalmente reconhecem também a voz da justiça. Estou confuso, que mundo é este? Camus em tom aborrecido me joga na cara: Se o homem falhar em conciliar a justiça e a liberdade, então falha em tudo. Não há sossego, impossível conciliar carências e adversidades com consumo escravocrata, ganância hipócrita e obediência acéfala, não há como! Nisso, Jorge Luís Borges se aproxima: Fazer o bem ao teu inimigo pode ser obra de justiça e não é árduo; amá-lo, tarefa de anjos e não de homens. É tudo muito difícil: a sindemia, o superfungo, o desgoverno do Fecamepa. Antes outras eram as indagações, a humanidade e o viver. Agora não mais, sobreviver sem que se saiba como ir cada vez mais longe, ou ficar cada vez mais perto, o horror em qualquer lugar ou tempo, se o meu mundo é todo mundo e o mundo todo, para quem a vida, quaisquer que sejam, importa.

 


ONDE A POESIA & ÊXTASE OU NADA – Imagem: arte do ilustrador e artista visual estadunidense Sergio Lopez, ao som de Le ruban dénoué for two pianos (1915), do compositor venezuelano Reynaldo Hahn (1874-1947). – A solidão e a noite. Ela chega: Sou Lola, a filha da dor Aurora Maria Nascimento Furtado (1946-1972), psicóloga e bancária, aquela que na manhã daquela quinta-feira, dia 9 de novembro de 1972, fui detida numa blitz policial em Parada de Lucas, no Rio de Janeiro, aprisionada viva dentro de um ônibus e conduzida para a delegacia de Invernada de Olaria. Submetida ao pau de arara com sessões de choques elétricos, espancamentos, afogamentos e queimaduras, aplicaram-me a coroa de cristo e não resisti. Fui encontrada jogada na esquina, com o corpo crivado de balas. Apenas no dia 11 de novembro estampou a manchete dos jornais: De madrugada, Aurora, que fora presa às 9h40m de 9 de novembro, conduzia agentes da polícia carioca a um local do Méier, onde estaria localizado um aparelho, na esquina das ruas Magalhães Couto e Adriano. Aurora pediu para descer, disse que por motivo de segurança queria dirigir-se a pé ao aparelho. Ao descer, Aurora saiu correndo e gritando em direção a um fusca que estava nas proximidades; nesse momento, começou um intenso tiroteio entre os agentes da polícia e os ocupantes do carro; ao terminar o tiroteio, Aurora, baleada, estava morrendo, caída na rua; preocupados em socorrer Aurora, os agentes deixaram o veículo fugir em alta velocidade. A certidão de óbito: mulher branca, de identidade ignorada, tendo como causa mortis dilaceração cerebral. No reconhecimento do seu corpo pela irmã: afundamento craniano, escoriações e cortes profundos nos braços e pernas, o rosto deformado pelo espancamento e coroa de cristo, hematoma nos olhos, no nariz e na boca. Os registros estão detalhados nos livros Em câmara lenta (Alfa Omega, 2000), do cineasta Renato Tapajós; Os anos de chumbo: a memória militar sobre a repressão (FGV/CPDOC, 1994), organizado por Celina D’Araújo, Gláucio Soares e Celso Castro, e Luta, substantivo feminino: mulheres torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura – Direito à Memória e à Verdade (Caros Amigos, 2010), organizado por Tatiana Merlino e Igor Ojeda. Ela silenciosa, olhos rasos d’água... Pude apenas recitar Henfil: A minha luta é tentar também ser mulher. É conseguir ser afetivo, é conseguir ser intuitivo, é conseguir sonhar, que é um dos componentes muito grande que eu acho que a mulher tem. Conseguir dar carinho! Esse é um grande problema que eu tenho, eu sou um cara treinado na guerra, eu sei ser soldado, agora não sei muito ser companheiro de uma pessoa e tal. Eu sei ser cirurgião, mas não sei ser enfermeiro. Então esse componente feminino eu realmente gostaria de ter mais. E ela, cada vez mais imensamente bela, mais bela que nunca como as outras filhas da dor, Teresa de Calcutá: Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota. E cantarolamos juntos a Mulher de Geraldo Azevedo & Neila Tavares: Eu sou a mãe da praça de Mayo,sou alma dilacerada... Sou grito que reclama a paz, eu sou a chama datransformação... Até mais ver.

 

A POESIA DE LOURDES NICÁCIO

Para outras terras / transportei a vida. / Busquei então total / a liberdade / em torno do meu ser. / Mas por que mais livre / em derredor a vida / mais dispersa / tornei-me centro de mim / e me perdi?

Poema Espaço em labirinto, extraído da obra Caminho das Águas ao Sol (2018), da escritora e professora Lourdes Nicácio, que é formada e pós-graduada em Letras, co-fundadora da editora Novo Horizonte, membro da Academia Recifense de Letras, da Academia de Letras do Brasil/PE e da UBE/PE. É autora dos livros Sinfonia de Estrelas, Cantos da Ordem do Sol, Ritmo das Águas Vivas, Ocultos na Paisagem, O Lavrador e o Templo, Caminho das águas ao sol, O Rio, Canabrava e os Homens; Os Dois Mundos de Madalena; Sobreviventes, Almeida Cunha; Os Caminhos da Palavra- Gramática e Literatura. Veja mais aqui e aqui.

 



sexta-feira, agosto 31, 2018

NAGUIB MAHFUZ, SARAH KOFMAN, REBECCA HORN, FRANCIS HIME, DOESBURG & JULIO CORREA


A TOCHA HUMANA – Imagem: The vertebra oracle in Napoli 2015, da artista visual alemã Rebecca Horn. - Estupefato fiquei sob o ardor inclemente do sol de meio dia em pleno mês de junho, normalmente aguaceiro de inverno. Era véspera de São João e tudo já deixava claro que algo inusitado estava por acontecer. Ademais, também era tempo das comemorações de emancipação política do município de Alagoinhanduba. Pleno feriado, dois dias encarreados só para os festejos onde tudo era envolvido com as casas ornadas com flores de variegados matizes nas janelas e o povo em polvorosa doido pela festança. Aquela correria pro ouriço. Logo cedo, acordava o povo com o desfile da banda de fanfarra, anunciando os outros eventos e desfiles de alunos das escolas agrupadas aos pelotões, malabarismos, autoridades num palanque engalanado, gente como a peste, prestigiando a efeméride. Os tiros de bacamarteiros na praça central, dava por iniciado ao tradicional ajuntamento de gente nas calçadas. As ruas ornamentadas de bandeirolas dum canto a outro de todas as ruas da localidade, expressavam o ar de festa que estufava o peito da patuleia alvoroçada, doida para ver a marcha garbosa dos meninos dos ginásios, os rapazes dos colégios e os marmanjos da polícia. O palanque das autoridades tinha mais caboeta que se engalfinhava por aparecer mais que o outro, acotovelando-se para ficar ao lado do maioral. Lá estavam o prefeito banguela, o usineiro desconfiado, o deputado zarolho, o bispo sabido e o estafe da babaovice com suas melindrosas madames mais pintadas e enfeitadas que as alegorias caricaturais das escolas. Um verdadeiro carnaval de exposição. Uma fogueira gigantesca, daquelas de alcançar o céu, queimava lenha no centro da praça principal. Outras tantas nas calçadas e uma outra numa rua ao lado, onde se daria a competição mais apreciada e afamada, a de pula fogueira. Era a hora da cerimônia mais respeitada do lugar. O momento que cada um se revestia do orgulho de ser alagoinhandubense até na alma, debaixo d´água ou torrando num fogaréu. E num instante tudo turvou, virara noite, escurecera. Os bombos silenciaram, o desfile paralisou e até a respiração foi suspensa. Só os galos cucuricavam meio encangados no poleiro, numa tristeza tumular. Não havia, por ali, quem soubesse ou tivesse notícias de qualquer eclipse lunar se sucedendo por enquanto, muito menos aquilo era hora noturna. Não havia uma só estrela no céu, tudo muito opaco. Aos poucos, uma inhaca insuportável alcançara os septos nasais, num bulício de fato nauseabundo. Que fedor filho da puta! Não havia fôlego atlético que conseguisse poupar daquele mau cheiro. Deveras, um desastre sem precedentes aquele. Ninguém descobrira, até então, por enquanto, a causa de tão fedorento mal-estar, visto que nenhum valetudinário seria capaz de tal fedentina. Será? Era bosta pura, daquelas bem catingosas de dias armazenados no bucho de prisão de ventre. O negócio enfeiou e a mundiça danou-se a correr para longe daquela tragédia, pisoteando o que se estirasse pela frente e comendo a quilometragem com sede de distância. A cidade ficara, duma hora para outra, deserta. Não havia um pé de gente para remédio. Tudo escafedido para as lonjuras limítrofes. Meia hora depois de tanta carreira, quase que todo mundo morre sufocado duma só vez, o oxigênio tornava a respiração normalizada e, devido fétida emanação, a comunidade se evadira do lugar, buscando ar puro longe dali mesmo. O que se sucedera, afinal? Depois de quinhentas mil continências, milhões de providências tomadas sob o rigor das autoridades, vasculhara-se em todos os logradouros e constatava-se, para infelicidade de todos, que nenhuma imundície se instalara pela redondeza para causar tamanho transtorno. Teria sido, então, um peido do céu? Ou uma explosão de alguma arma química bostal? Ou o quê? Com tal indagação, depois de muito se investigar pelos quatro cantos do mundo, desconfiaram, claro, todos já desconfiavam do Abinagildo, só faltava essa! Este sim, Abinagildo Mendes Sobrinho, um sujeitinho tísico, manemolente e tíbio, pífio e tacanho, todo macambúzio depois de uns ventinhos nababescos, que possuía o mau costume de, de vez em quando, emitir aquela emanação volátil do corpo, daqueles verdadeiros desmancha prazeres. Eita bicho da cloaca podre, meu. Ora, eu jamais que acreditara, entretanto, depoimentos muitos me fizeram crer naquela possibilidade de ter exatamente partido dele aquela podridão em plena festa. Era tiro e queda. Pois é, muito me estranhava Abinagildo morar isolado, fora dos domínios da cidade, numa casa de alvenaria, sem vizinhos, no ermo de um morro. Dava até pena vê-lo assim em abandono completo, tadinho. Tadinho, nada, vamos nessa. E muitas me contaram da razão de sua soturnidade, às vezes até lipemaníaco pela maldição que carregava. Depuseram-me aos mínimos detalhes suas presepadas corroborando seu exílio compulsório, seu desterro determinado. Tudo isso alimentava a vingança popular que lavou a alma naquele dia de festa. Pois bem, fuxicada solta, soube que uma delas entre as tantas outras, deixou o prefeito Desidério Silvino roxo de raiva, puto da vida! Relataram-me que foi no dia em que o Biriteiros Esporte Clube, escrete da maior representação futebolística da província, calor da torcida local, recepcionara em uma partida amistosa, o Clube Náutico Capibaribe, do Recife, atual hexa campeão pernambucano e vice campeão brasileiro, não se sagrando campeão por ter enfrentado o Santos Futebol Clube, com Pelé e companhia. O apito do juiz dera início a partida e o chute batendo o centro num foguetório colorido que tomou conta do estádio. No meio disso, os fogos de artifício foram acompanhados de uma podridão, um horrível eflúvio no ar, de suspender o jogo. O Náutico excomungara aquela cidade, arribando imediatamente daquelas imediações sem ao menos sequer fazer um ataque na defesa do Biriteiros. Só deu tempo bater o centro, pronto, tudo por água abaixo. O prefeito, incontinente, mandou prender Abinagildo que, culpado, se escondera longe para livrar-se do flagrante delito e da enfezada raiva da torcida local que prometera linchá-lo numa repulsa pública geral. Não era por menos, era mesmo um vício de nascença, já consultado médico especialista sobre o assunto, obtendo-se por diagnóstico tratar-se de rebento nascido de vento ruim, procedente de maus bofes. Nossa, a ciência não explicara direito, mas o de branco, asseverava que estava diante de um fato inusitado, pelo fato de que a tripa gaiteira do dito cujo deveria de ter algum defeito na fabricação da bosta ou o desgraçado já nascera podre mesmo, necessitando, invariavelmente, de uma intervenção através de clister para desobstruir a bosta retida. Só que o fabricante de bosta conseguia ser o maior peidão que já tivera notícia, fato até que se tentou colocar no Guiness, mas não foi possível por ser tratado como verdadeiro despropósito. Muito embora, hoje, depois do ocorrido, uma banda de gente da cidade se orgulhava de ter o maior peidão de todos os tempos. E até já se viu muito bate boca entre os que reverenciam a figura santificada do Abinagildo com os que detestavam qualquer lembrança de sua maledicente podridão. - Vôte! Ele nem cuidava da alma porque o corpo já era podre mesmo! Os enfurecidos do contra, numa reunião acalorada na Câmara de Vereadores, discutiam se homenageavam ou não tal figura polêmica, narrando na tribuna que nem davam por menos e lá vinha aquela ventosidade emitida pelo ânus de modos que, uma vez, até o locutor do telejornal tapara o nariz, levando a rede de tevê a suspender a transmissão alegando em letras garrafais: SUSPENDEMOS NOSSA PROGRAMAÇÃO POR MOTIVOS DE FLATULÊNCIAS INSOLENTES NO AR! E o que é pior era a descaradice dele Abinagildo: - Perde-se o amigo, nunca a piada nem o peido! Carta feita, contam enraivecidos, que numa praia vizinha, uma dor de barriga nele, levou o indecente a fazer as necessidades na água marinha, causando verdadeiro maremoto. O cara afundou-se na água para excretar, dando-se a perceber a bosta undívaga se aproximando das pessoas com uma quentura de ferver a água. Pois é, cagando, soltou um daqueles que as principais manchetes estamparam ferindo o rigor jornalístico: PEIDO CAUSA CATÁSTROFE NO MAR. Toda aquela imensidão adquirira uma cor escura com ondas de mais de vinte e cinco metros de altura, trazendo pra mais de dez mil surfistas no maior auê radical da paróquia. Eita, bôba torreiro! Este estava com a bexiga lixa. Doutra vez, fora demitido da empresa onde trabalhava porque suspendia as atividades e baixava a produtividade, vez que no calor do expediente vinha aquele odor de merda choca que invadia todas as dependências da corporação, expulsando clientes e funcionários esbaforidos. E o pior, onde ele ía, o peido vinha atrás. - Peido desse, lata de lixo é fragrância francesa! -, reclamavam todos unanimemente. Há quem ainda hoje reclame de manhã, de tarde e de noite, diuturnamente, vítima do seu cinismo, não se podendo manter a compostura ante a falta de decoro do descarado. Peta que fosse, vinha aquele verdadeiro mau hálito anal de torrar os pentelhos do cu, flagrando várias vezes aquele posudo confortavelmente agachado em bacias cheias de água esfriando as pregas, onde assoprava aquele ruído de coisa queimada. No início, consideravam, eram os modestos; depois, mais agudos. Daí, meu, surgiram, então, os de queimar sofás, colchões, cadeiras, não se dando conta dos prejuízos que causara aos amigos em suas furtivas visitas. Perdera, assim, ao longo dos tempos, os mais próximos, motivo que o levou a recorrer de uma ajuda superior, rezando, contrito e no meio da oração, soltou unzinho cavernoso, da imagem da santa protetora tapar o nariz, não aguentando a feijoada de ontem. Fora expulso dali pelo padre, avalie, excomungado até a centésima geração. Até uma outra, disseram vingativos, que ele mesmo já fora vítima de sua própria indecência, quando, em sua casa, certa vez, deitou-se em sua cama com o seu abafa-banana familiar, um daqueles cobertores de mais de cinco centímetros de largura, daqueles próprios para o frio polar, quando soltou um que ficou, o próprio, bêbo! Pode? Por causa disso, lá, na casa dele, não tinha inseto algum, bicho nenhum ficava nas imediações. Quem tivesse a oportunidade de ver o álbum de família dele, logo descobria porque ele era enjeitado por todos, vez que, em todas as fotos, mãos apertavam o nariz para não sentir o fedor. Verdade, era um peidorreiro desgraçado. Também pudera, minuciosamente contaram da sua dieta peculiar: feijão, fruta pão, ovo, cebola, jaca, fígado de boi, abacaxi, cachaça de cabeça, isso aos quilos todo santo dia. E era costume após a ceia, almoço ou hora de gororoba qualquer, imaginem, o cara massagear a pança e puuuuuuummmmm! Sorria satisfeito. Depois, chorava aos tombos, sentindo o ardor no procto. E quem estava perto nem podia socorrer, porque não suportava o gás assassino dele. Dando-se conta de sua peidorrada, ele mesmo encontrou um meio de coibir a fetidez: quando ocorria, riscava um fósforo bem nos fundilhos - repara só que presepada -, a ação era imediata, armado de fogo, investia mão em direção da bunda, fósforo aceso e logo queimava o gás indesejável. Resultado: seis calças, três cuecas, duas sungas, três bermudas, quatro calções, tudo com rombo de queimadura na bunda - não é pra menos, né? Por fim, depois de tantas emboanças e perseguições buscando a cura para o seu desígnio, achou de, por bem de seu senso meio lá meio cá, em plena festividade que ocorria justo às vésperas de São João, percebera, enfim, que chegara a hora da sua salvação, e dera de participar com outros mequetrefes da redondeza, dum festival inusitado de pular fogueira, onde soltaria um que o fogo abrasaria, acabando de vez com aquele mau costume. Certo de que sairia campeão esperou para ser o último participante. Pois é, enquanto o povo se espremia na rua central, afagados pela estridulante gritaria do locutor oficial da festa política, ele competia com outros buzuntões dali, numa pulada de fogueira, numa das adjacências do local. Chegou sua vez, nervoso, concentrado, treinou a impulsão, fez carreira e, determinado, é um, é dois, é três e zás! E aquele borborigmo mais parecia um jato queimando tudo. Lá se foi gritando estrada a fora, verdadeira labareda tomou conta dele. Sumiu cidade afora como uma tocha humana. A festa de São João acabada e ele sumido pegando fogo. Daí, todos vingados e com ar de bem feito, narram histórias da tocha humana, o cara que, ao que parece, foi acometido de uma combustão involuntária de deixá-lo torrado pro resto da vida. Dias depois, encontraram algo estranho na beirada de um chafariz, não se dando para identificar, mas presumiu-se seja os restos mortais dele. Ainda hoje está lá, aquele monturozinho de ossada queimada, local apropriado para cuspidas, mijadas e depósito de nojeiras outras impensáveis. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor, compositor, maestro e arranjador Francis Hime: Ao Vivo, Atrás da porta & em dois shows ao vivo com Olívia Hime & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Aquilo que se expressa positivamente na plasticidade moderna — uma proporção equilibrada do peculiar e da generalidade — manifesta-se mais ou menos também na vida do homem moderno e constitui a causa original da reconstrução social de que somos testemunhas. [...]. Pensamento do artista visual, designer gráfico, arquiteto e poeta neerlandês Theo van Doesburg (1883-1931).

INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS – [...] A lógica do sonho é uma arqueo-lógica, operando com processos primários que regem o sistema inconsciente. Escrita de antes da linguagem da razão, seu melhor modelo se encontra na escrita artística, ela também irredutível a qualquer outra, obediente a leis estruturais próprias. Há um texto próprio ao sonho como há um próprio à obra de arte, texto simbólico e sintomático de um conflito de forças, cujo equilíbrio é regulado por um acupunturista invisível. [...] a arte ocupa uma situação intermediária entre o princípio do prazer e o princípio da realidade, reconciliando um com o outro [...]. Trechos extraídos da obra A infância da arte (Relume-Dumará, 1996), da filósofa francesa Sarah Kofman (1934-1994).

SCHERAZADE - Dandan pediu permissão para ver sua filha Scherazade. Uma criada o conduziu ao quarto rosa, decorado com tapete e cortinas cor-de-rosa, bem como divãs e almofadas em matizes de vermelho. Ali, ele foi recebido por Scherazade e sua irmã Duniazade. Dandan disse: - Estou cumulado de felicidade, graças a Deus, o Senhor do universo. Scherazade fê-lo sentar-se a seu lado, ao passo que Duniazade se retirou para seu quarto. - Fui salva de um destino sangrento pela misericórdia de nosso Senhor - disse Scherazade. Mas o homem mal murmurava suas graças, quando ela acrescentou, amargurada: - Que Deus tenha piedade das virgens inocentes. - Como você é sábia, e como é corajosa! - Mas você sabe, pai - disse ela num sussurro: - eu sou infeliz! - Cuidado, filha, pois nos palácios os pensamentos assumem formas concretas e falam alto! - Eu me sacrifiquei - disse ela, triste - para interromper a torrente de sangue. - Deus tem a Sua sabedoria - murmurou ele. - E o diabo, os seus seguidores - disse ela, com raiva. - Ele ama você, Scherazade - disse o pai, suplicante. - A arrogância e o amor não podem se unir num mesmo coração. Ele ama a si mesmo acima de tudo. - O amor também tem seus milagres. - Cada vez que ele se aproxima de mim sinto o cheiro de sangue. - O sultão não é como o resto da humanidade. - Mas crime é crime. Quantas virgens ele matou, e quantos crentes fiéis ele exterminou? No reino ficaram somente os hipócritas. - Minha confiança em Deus nunca se abalou - disse ele, com tristeza. - Quanto a mim, sei que meu estágio espiritual está na paciência, como me ensinou o grande sheik. A isso, Dandan respondeu, com um sorriso: - Que excelente mestre e que excelente discípula! Extraído da obra Noites das mil e uma noites (Companhia das Letras, 2008), do escritor egípcio & Prêmio Nobel de Literatura de 1988, Naguib Mahfuz (1911-2006). Veja mais aqui.

O RIO É UM GRANDE POETA - É o rio um grande poeta / que vai cantando seus sonhos / de amor e de liberdade / com a guitarra do vento. / O rio, um grande poeta / que diz um poema imenso / numa linguagem de Deus. / Não o culpeis pelos mortos / que os bandidos lhe atiram / desesperados de medo, / para escapar ao castigo / que chegará justiceiro. / O rio, um grande poeta / que diz seu poema imenso. / É o rio grande poeta / que vai cantando... cantando... / e a magia de seu estro / está  gerando, amorosa, / o canto do homem novo, / como ranger de protestos / de todos os esqueletos / das vítimas que, covarde, / jogou em seu leito o ódio. / O rio, um grande poeta / Que cantará o canto novo. Poema do poeta paraguaio Julio Correa (1890-1953).

A ARTE DE REBECCA HORN
A arte da artista visual alemã Rebecca Horn.

AGENDA
XI Semana de Letras com o tema Contemporaneus – entre os dias 17 e 21 de setembro, na Universidade Federal de Alagoas (UFAL) & muito mais na Agenda aqui.
&
Outras do Abinagildo antes de bater as botas aqui e aqui

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


sexta-feira, outubro 13, 2017

NAGUIB MAHFUZ, JOÃO MARTINS DE ATHAYDE, HELEN KELLER, STEPHEN GREENBLATT & RICHARD DIEBENKORN

SEXTA FEIRA – Imagem: arte do pintor estadunidense Richard Diebenkorn (1922-1993). - Reviro inheto na madrugada longa e meus olhos flagram agora o que já foi passado esquecido, dado por morto, sepultado, de nunca mais saber. Há dias, muitos dias, como se fantasmas forjassem vinganças deletérias, as coisas se complicam incompreensivelmente. Ao me comprromissar com o meu tempo e a minha terra, jamais soubera que emergeria agora, a contragosto, o que não se previra: andar para trás -  isso não é usual. Teimo para que em mim renasça a vida na manhã vindoura, sabendo que será outro dia, não da esperança inalcançável, mas como território para ação. Constato, contudo, que tudo é extremamente delicado, como se uma paz falsa e forasteira se instaurasse nesse instante, olvidando da hora, como se nada estivesse acontecendo, nem acontecesse ou tivesse acontecido, enquanto desenterram os desvarios de ontem e do presente. A quietude esconde as adversidades que transitam entre sabidos e incautos, como se não houvesse degradação saindo das normas para evacuar os campos de batalhas em sinal de enganoso armistício. Afinal, já é sexta-feira, a meio caminho andado pra loucura. Enquanto todos dormem, sigo de ventas acesas a livrar-me de chatos no rol dos cretinos e de temperamentais metidos a besta que se escondem por trás de togas e gravatas arbitrárias investidas pela legalidade de plantão ao arrepio da própria lei. Enquanto todos dormem, mil atos desumanos evoluem nas disfunções sistêmicas dos interesses, ninguém os vê, são invisíveis e ubíquos, assumem disfarces mil na força do engodo e pra nosso desespero. Segue a sexta-feira silenciosa e calma para mais um dia chocho como outro qualquer que se faz pela vigência da exceção, aquele que, ao contrário de todas as boas aparências, mantém subjacente a premência iminente da indignação. Hoje é sexta-feira e denuncio a mim mesmo: não há como aceitar tudo isso, não há como se omitir, nem se calar. Havia um tempo em que toda sexta, meio dia em ponto, eu traquinava solto na buraqueira, feliz da vida, rindo ao Sol, a mais do tanto. Hoje, no máximo, apenas minhas mãos para medir o tamanho da coragem de seguir adiante, retomando a direção da vida, teimando em viver, persistindo, perseverando – quase completamente inútil fora do convencional, e não me aquieto. Apesar de ser tudo muito difícil, é possível sonhar que a partir de hoje, a partir desta sexta-feira, a vida seja plena e verdadeira, senão, ao contrário dos finais felizes das telenovelas, seja como um filme que nos cobre no final, provocativamente, explicação pelo que somos, isso pra quem não tem a coragem de encarar o espelho. Vamos aprumar a conversa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do cantor e compositor Raimundo Fagner: O quinze, Eternas Ondas e A arte; a panista Karin Fernandes interpretando Shajarat al-Hayah tanmow fi al-Sahra Yahi, de Tatiana Catanzaro, Seresta, para piano e orquestra, de Camargo Guarnieri, Nó, de Sergio Kafejian & Concerto Romântico de Radamés Gnattali; do compositor estadunidense de música minimalista Morton Subotnick: The Last Dream of the Beast, Axolotl & Ascent into Air; e da cantora Sônia Mello: Desejo,  Aurora/Minha Voz, Começo meio e fim, Proposta & Outra vez. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAEu, que sou cega, posso dar uma sugestão aos que vêem – um conselho àqueles que deveriam fazer completo uso do dom da vida: servi-vos dos vossos olhos como se amanhã fosseis cegar. O mesmo princípio é valido para o restante dos sentidos. Ouvi a música das vozes, o canto de uma ave, os poderosos acordes de uma orquestra como se amanhã fossem vbítima de surdez. Tocai em tudo o que desejais tocar, como se amanhã viésseis a ficar privados da faculdade do tato. Aspirai o perfure das flores, sobejai com deleite os vossos alimentos, como se amanhã perdêsseis o olfato e o paladar. Pensamento da escritora, conferencista e ativista social estadunidense Helen Keller (1880-1968), ela foi a primeira pessoa surda e cega a conquistar um bacharelado. Veja mais aqui e aqui.

O POETA & O ASSOMBRO – [...] "Ninguém poderá ser chamado de poeta", escreve o influente crítico italiano Minturno na década de 1550, se não se sobressair no poder de provocar assombro" Para Aristóteles, o assombro está associado ao prazer como fim da poesia, e na Poética ele examina as estratégias pelas quais os poetas trágicos e épicos empregam o maravilhoso para provocar assombro. Também para os platônicos o assombro é um elemento essencial na arte, pois é um dos principais efeitos da beleza. Nas palavras de Plotino, "Este é o efeito que a Beleza deve sempre induzir, assombro e pasmo deleitoso, desejo e amor, e um terror que seja prazeroso." No século XVI . o neoplatônico Francesco Patrizi define o poeta como O "criador do maravilhoso", e afirma que o maravilhoso está presente quando os homens ficam "estupefatos, arrebatados em êxtase". Patrizi chega ao ponto de considerar o maravilhamento uma faculdade especial da mente, uma faculdade que na verdade é mediadora entre a capacidade de pensar e a capacidade de sentir. [...]. Trechos da obra As possessões maravilhosas (Edusp, 1996), do teórico e critico literário estadunidense Stephen Greenblatt.

MIRAMAR – [...] À minha frente, o mar sem-fim estendia-se, azul, claro e belo. As ondas calmas brincavam com as perolas que o sol lançava. Um vento agradável me envolveu. [...] Estava quase me entregando à melancolia, quando ouvi um barulho no quarto, olhei, era Zohra arrumando minha cama com lençois e cobertas. [...] Contemplei sua estonteante beleza camponesa. [...]. Trecho do romance Miramar (Berlendis e Vertecchia, 2003), do escritor egípcio & Prêmio Nobel de Literatura de 1988, Naguib Mahfuz (1911-2006), contando a história de seis personagens exilados pelas circunstancias em Alexandria, no início dos anos 1960, em hotel antes refinado, agora pobre e decadente, administrada por uma envelhecida proprietária e uma linda jovem ajudante, Zohra, cujas relação com os hóspedes refletem a realidade social e política do período e das transformações da sociedade egípcia seguida à revolução de 1952.

O PODER OCULTO DA MULHER BONITA
[...]
Qualquer um religioso
Querendo experimentar
Fazer uma procissão,
Sem a mulher ajudar,
Chegando no meio do caminho,
O santo fica sozinho
Sem ter quem o carregar.
A mulher indo no meio,
Como é acostumada,
Anima-se todo mundo,
Ali não falta mais nada...
Da minha parte eu garanto
Que o povo carrega um santo
Que pesa uma tonelada!
Poema do poeta popular paraibano João Martins de Athayde (1880- 1959). (Xilogravura de Airton Marinho). Veja mais aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A  arte do pintor estadunidense Richard Diebenkorn (1922-1993).
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DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...