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segunda-feira, outubro 12, 2020

MONTALE, ALBAN BERG, ELIANE PROLIK, POLANSKI, NÍSIA FLORESTA, TICIANO & NELSON FERREIRA

 

 

TRÍPTICO: DIÁRIO DO QUARTO CALEIDOSCÓPIO – PRIMEIRO ATO - Ao som de Lyric suíte for string concert, de Alban Berg - É sempre noite. Lá fora o mundo barulhento e o genocídio: fúria, bravata, infâmia, fanatismo, ganancia, amolações triviais. Parece nonsense e tudo sob suspeita: as pessoas se tornaram revoltosos vulcões eruptivos e se detratam uns aos outros. A parede acende como uma tela cinematográfica: a Via Láctea. Um meteoro surge da quina do teto, acompanho seu percurso descendente até se espatifar num ponto qualquer do piso. Da explosão, um minúsculo ser caminha em minha direção, cresce a cada passo, já quase dois metros, reconheço Barão de Munchausen que me acena, faz uma mesura e me aponta para outro minúsculo que aparece do mesmo lugar que saiu. Também cresce a cada passada, já reconheço, é Alice: Você está completamente pirado! Um segredo: as melhores pessoas são assim. Ela pisca um olho, chama o companheiro que está com as pestanas arqueadas olhando para mim com um escárnio e braços abertos. Ambos seguem de volta e desaparecem. Não era sonho, sabia, era o alerta para o inimigo invisível e o medo da contaminação: lavar bem as mãos, tudo esterilizado. Do meu quarto, o caleidoscópio: a toca do meu coelho. Não preguei o olho, a parede acendia e apagava, parecia me convidar para atravessar a galáxia. Mantenho-me quieto, cabeça aos joelhos, até o fim uma oração de serenidade: um dia de cada vez e as circunstâncias, assim seja! Um esforço fora do comum, nada funciona direito com o desgoverno. O pangaré gostou ou não? Não sei, cuidado com o monstro, ele está em Brasília. Que toquem fogo no mundo, ninguém sobreviverá.

 


SEGUNDO ATO DO CADERNO DE NOTAS – Imagem: arte da escultora, desenhista e gravurista Eliane Prolik. – A cena: Ela saiu do escritório e foi visitar a família em Cachoeira do Sul. Lá informou que ia se mudar de Canoas para São Paulo. A despedida e a estrada aberta. Aos vinte sete anos, a militância no VPR. Era 17 de maio, preparos para o aniversário dia 25. A surpresa de 4 tiros, 1 no braço, outro no peito, 2 nas costas alcançando a coluna. Nenhuma festa mais, a família desestruturada: o pai soube por um delegado do assassinato e morre de desgosto. A irmã Valmira se mata. Apenas uma tabuleta ao vento esquecida com a inscrição: Alceri Maria Gomes da Silva (1943-1970). Juntou-se a Labibe e Catarina, lá haverá justiça, pelo menos. Diante de mim, Nísia Floresta: Flutuando como barco sem rumo ao sabor do vento neste mar borrascoso que se chama mundo, a mulher foi até aqui conduzida segundo o egoísmo, o interesse pessoal, predominante nos homens de todas as nações. Ela sorri e me oferece um botão do lírio da felicidade. As imagens são tantas: asfixiados numa câmara de gás das autocracias e, ao lado, jogaram pela janela um idoso numa cadeira de rodas. Outras cenas superpostas: joelho fardado no pescoço de um negro indefeso, agressões físicas, tortura, caça policial, tiros. No meio disso tudo sou O Pianista de Polanski e ouvi alguém dizer que ali outro abotoou o paletó, pronto, viagem perdida: Se fosse de morte matada, pelo menos! Quem ainda acredita no Estado: nunca cumpriu a sua parte, sempre se desvia para interesses e comodidade. O que ainda nos resta além do extermínio, não sei.

 


TERCEIRO ATO: MANUSCRITOS DO CADERNO, NOVELA INSTANTÂNEA – Imagem: Perseu & Andrômeda (1554), de Ticiano. - Lá vou eu... Atravessava o pátio da rodoviária, um troço e lá estou enfermo, estirado no piso. Quando dei por mim, o meu quarto era uma enfermaria hospitalar, empurrada para lá e para cá. O mundo girava e eu imóvel, uma dor profunda no peito, nenhuma ilusão, desiderato pras cucuias. À espera de uma revelação, caí no vazio, não sei se haverá como emendar a vida. Sou saudade de tudo. Ouvia alguém alertar: Cuidado com o degrau. E o Paradoxo de Zenão era um poema de Montale: Vós, palavras, traís em vão o ataque / secreto, o vento que sopra no coração. / A razão mais verdadeira é de quem cala. Já sabia o solo minado, um passo em falso, cara ou coroa: a sorte estava lançada. O poder das escolhas e perdi pilares, extensores e pontes, quanta mendacidade ao meu redor. Minha especialidade? Viver, apenas. Fraqueza? Seguir. Sempre vou e, quando dou fé, todos estão voltando. Que descascasse o abacaxi, o pau ia cantar, com certeza. Sobrevivi a todo tipo de recusa e fui soterrado por enorme pedra. Isso há anos. Qualquer reincidência ou é efetiva ou duvidosa. Falando às paredes sou o que quiser que eu seja, nada mais. Até mais ver.

 

NELSON FERREIRA, O MORENO BOM

Felinto, Pedro Salgado, / Guilherme, Fenelon / Cadê teus blocos famosos? / Bloco das flores, Andaluzas, Pirilampos, apôis-fum / Dos carnavais saudosos / Na alta madrugada / O coro entoava / Do bloco a marcha-regresso / E era um sucesso dos tempos ideais / Do velho Raul Moraes / Adeus, adeus minha gente / Que já cantamos bastante / Recife adormecia / Ficava a sonhar / Ao som da triste melodia.

Evocação nº 1, frevo de bloco do compositor, músico e maestro Nelson Ferreira (1902-1976), autor de inúmeras composições nos mais diversos estilos, como canção, foxtrote, tango e, sobretudo, frevos. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 



quinta-feira, dezembro 31, 2015

MONTALE, TUTAMEIA DE GUIMARÃES ROSA, BLANCHOT, MARIA MISS & LITERÓTICA


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? FELIZ ANO NOVO TODO ANO (Ouvindo Koln Concert, de Keith Jarret) Quando me sentei para escrever esse texto, zilhões de coisas me passavam pela cabeça. Coisas de mim, do que passei, do que fiz, aprendi, sonhei, desejei, perdi, relevei. Entretanto, logo que comecei a redigir fui divagando por devaneios que poderiam ter sido possíveis e não foram, sonhos que vingaram, pesadelos reais, errâncias, tropeços. Ao invés disso, a emoção tomou conta porque fui contemplado pelo amanhecer irradiando pra mim um outro sentido pra vida. Quão linda é a alvorada que mostrava pra mim poder a vida ser tão maravilhosa quanto e que podemos, com essa lição, construir um mundo melhor para todos nós: o Sol nasce para todos. Que importa o não alcançado ou do que não fiz por merecer, se me vejo sortudo por tudo que amealhei ou deixei escapar entre os dedos; ou se na luta fui pouco ou nada, se me tenho por flor que não serve pra cheirar, ou valia qualquer além do que tenho no coração e nas mãos pra dar. Tenho comigo que posso ir além do que já fui e mais adiante. Não importam as punhaladas, puxadas de tapetes, escanteamentos se já vi de tudo e ainda não é nada perto do que tenho por ver e sentir. Decepções, enganos, frustrações, são tão lá menores que jamais obstam a caminhada adiante, seguindo os raios do Sol nessa manhã revelada. E seguirei meio dia até o entardecer para outro lindíssimo espetáculo imperdível glorificando o meu dia. Onde eu estava ontem e anteontem e outros dias atrás que não vi tudo isso? Pois é, se passa batido, contudo, nunca é tarde para aprender a lição do dia para viver a noite com todas as reflexões profundas que nos fazem melhores que as mesquinharias inócuas, engodos e patifarias inúteis e desprezíveis, alimentando nosso solipsismo, ou melhor, o umbigocentrismo e a premente necessidade de sermos felizes a qualquer custo e forma, até em detrimento dos outros. Esse ensinamento me diz que está em mim, em você, em todo mundo o poder de sermos melhores do que somos. Tenhamos ou não a compreensão de sermos Deus em manifestação, no mínimo, tenhamos a consciência de que temos o poder de sermos aquilo que queremos ser no real de ser o ideal. E isso é mais que privilégio, é um degrau para que sejamos realmente seres humanos e não aqueles que precisam de grifes, posses, ideologias, fantasias e tudo para mostrar o que não é, na incapacidade de encarar o espelho da verdade e na escolha da mentira de sermos os racionais menores que o nosso animal de estimação, ou que uma cobra que nos ameaça morder, ou uma barata que nos causa asco e nos amedronta. Sim, estou falando com você. Na verdade, estou falando comigo mesmo que também sou eu e você, dialogando com o que podemos ver de diferente num aprendizado mútuo e até indagando da dificuldade de viver e ser feliz por nossa pura inabilidade de administrar nossos sentimentos ou pela incapacidade de incluir os outros nos nossos planos para aquisição dessa felicidade. Tenho pra mim que os sentimentos que batem aqui dentro de mim, também se passam talqualzinho em você e em todo mundo. É possível visualizar quantos sonhos e emoções se passam em cada um de nós. A bem dizer, a vida é bela e não seria nada se apenas eu sozinho pudesse desfrutá-la. Preciso, precisamos de mais gente para viver e juntos alcançar os objetivos que almejamos e, principalmente, porque podemos edificar um mundo melhor para todos nós. Basta que o EU seja NÓS e todos juntos UM. Da minha parte, farei um 2016 com o meu sorriso, elegendo-o o meu ano do sorriso. Vamos sorrir juntos? Feliz Ano Novo! 

DITOS & DESDITOS - O que importa não é dizer, é redizer e, nesse redizer, dizer a cada vez ainda uma primeira vez. Pensamento do escritor, ensaísta, romancista e crítico literário Maurice Blanchot (1907-2003). Veja mais aqui, aqui e aqui.

ESSES LOPESMá gente, de má paz; deles, quero distantes léguas. Mesmo de meus filhos, os três. Livre, por velha nem revogada não me dou, idade é a qualidade. Amo um homem, ele vive de admirar meus bons préstimos, boca cheia d’água. Meu gosto agora é ser feliz, em uso, no sofrer e no regalo. Quero falar alto. Lopes nenhum me venha, que às destadas escorraço. Para três, o que passei, foi arremedando e esquecendo. Ainda achei o fundo do meu coração. A maior prenda, que há, é ser virgem. Mas, primeiro, os outros obram a história da gente. Eu era menina, me via vestida de flores. Só que o que mais cedo reponta é a pobreza. Me valia ter pai e mãe, sendo órfã de dinheiro? Mocinha fiquei, sem da inocência me destruir, tirava junto cantigas de roda e modinhas de sentimento. Eu queria me chamar Maria Miss, repromovo meu nome, de Flausina. Deus me deu esta pintinha preta na algura do queixo – linda eu era até a remirar minha cara na famela dos porcos, na lavagem. E veio aquele, Lopes, chapéu grandão, aba desabada. Nenhum presta; mas esse, Zé, o pior, rompete sedutor. Me olhava: aí eu espiava e enxergada, no ter de me estremecer. A cavalo ele passava, por frente de casa, meu pai e minha mãe saudavam, soturnos de outro jeito. Esses Lopes, raça, vieram de uma ribeira, tudo adquiriam ou tomavam. Não fosse Deus, e até hoje mandavam aqui, donos. A gente tem é de ser miúda, mansa, feito botão de flor. Mãe e pai não deram para punir por mim. Aos pedacinhos, me alembro. Mal com dilato para chorar, eu queriaenxoval, ao menos, feito as outras, ilusão de noivado. Tive algum? Cortesias nem igreja. O homem me pegou, com quentes mãos e curtos braços, me levou para uma casa, para a cama dele. Mais aprendi lição de ter juízo. Calei muitos prantos. Aguente aquele caso corporal. Fiz que quis: saquei malinas lábias. Por sopro do demo, se vê, uns homens caçam é mesmo isso, que inventam. Esses Lopes! – com eles, nenhum capim, nenhum leite. Falei, quando dinheiro me deu, afetando ser bondoso: - “Eu tinha três vinténs, agora tenho quatro...” Contentado ele ficou, não sabia que eu estava abrindo e medindo. Para me vigiar, botou uma preta magra em casa, Si-Ana. Entendi? A que eu tinha de engambelar, por arte de contas; e à qual chamei de madrinha e comadre. Regi de alisar por fora a vida. Deitada é que eu achava o somenos do mundo, camisolas do demônio. Ninguém põe ideia nesses casos: de se estar noite inteira em canto de catre, com o volume do outro cercando a gente, rombudo, o cheiro, o ressonar, qualquer um é alheios abusos. A gente, eu, delicada moça, cativa assim, com o abafo daquele, sempre rente, no escuro. Daninhagem, o homem parindo os ocultos pensamentos, como um dia come o outro, sei as perversidades que côncava? Aquilo tange as canduras de noiva, pega feito doença, para a gente em espirito se transpassa. Tão certo como eu hoje estou o que nunca fui. Eu ficava espremida mais pequena, na parede minha unha riscava rezas, o querer outras larguras. Tracei as letras. Carecia de ter o bem ler e escrever, conforme escondida. Isso principiei – minha ajuda em jornais de embrulhar e mais com as crianças de escola. E dê-cá dinheiro. O que podendo dele tudo eu para mim regrava. Mealhava. Fazia portar escrituras. Sem acautelar, ele me enriquecia. Mais, enfim que o filho dele nasceu, agora já tinha em mim a confiança toda, quase. Mandou embora a preta Si-Ana, quando levantei o falso alegado: que ela alcovitava eu cedesse vezes carnais a outro, Lopes igual – que da vida logo desapareceu, em sistema de não-se-sabe. Dito: meio se escuta, dobro se entende. Virei cria de cobra. Na cachaça, botava sementes da cabaceira-preta, dosezinhas; no café, cipó timbó e saia-branca. Só para arrefecer aquela desatada vontade, nem confirmo que seja crime. Com o tingui-capeta, um homem se esmera, abranda. Estava já amarelinho, feito ovo que ema acabou de pôr. Sem muito custo, morreu. Minha vida foi muito fatal. Varri casa, joguei o cisco para a rua, depois do enterro. E os Lopes me davam sossego? Dois deles, tesos, me requerendo, o primo e o irmão do falecido. Mexi em vão por me soltar, dessas minhas pintadas feras. Nicão, um, mau me emprazou: — “Despois da missa de mês, me espera…” Mas o Sertório, senhor, o outro, ouro e punhal em mão, inda antes do sétimo dia já entrava por mim a dentro em casa. Padeci com jeito. E o governo da vida? Anos, que me foram, de gentil sujeição, custoso que nem guardar chuva em cabaça, picar fininho a couve. Tanto na bramosia os dois tendo ciúme. Tinham de ter, autorizei. Nicão a casa rodeava. Ao Sertório dei mesmo dois filhos? Total, o quanto que era dele, cobrei, passando ligeiro já para minhas posses; até honra. Experimentei finuras novas — somente em jardim de mim, sozinha. Tomei ar de mais donzela. Sorria debruçada em janela, no bico do beiço, negociável; justiçosa. Até que aquela ideia endurecesse. Eu já sabia que ele era Lopes, desatinado, fogoso, água de ferver fora de panela. Vi foi ele sair, fulo de fulo, revestido de raiva, com os bolsos cheios de calúnias. Ao outro eu tinha enviado os recados, embebidos em doçuras. Ri muito útil ultimamente. Se enfrentaram, bom contra bom, meus relâmpagos, a tiros e ferros. Nicão morreu sem demora. O Sertório durou, uns dias. Inconsolável chorei, conforme os costumes certos, por a piedade de todos: pobre, duas e meio três vezes viúva. Na beira do meu terreiro. Mas um, mais, porém, ainda me sobrou. Sorocabano Lopes, velhoco, o das fortes propriedades. Me viu e me botou na cabeça. Aceitei, de boa graça, ele era o aflitinho dos consolos. Eu impondo: — “De hoje por diante, só muito casada!” Ele, por fervor, concordou — com o que, para homem nessa idade inferior, é abotoar botão na casa errada. E, este, bem demais e melhor tratei, seu desejo efetuado. Por isso, andei quebrando metade da cabeça: dava a ele gordas, temperadas comidas, e sem descanso agradadas horas — o sujeito chupado de amores, de chuchurro. Tudo o que é bom faz mal e bem. Quem morreu mais foi ele. Daí, tudo tanto herdei, até que com nenhum enjoo. Entanto que enfim, agora, desforrada. O povo ruim terminou, aqueles. Meus filhos, Lopes, também, provi de dinheiro, para longe daqui viajarem gado. Deixo de porfias, com o amor que achei. Duvido, discordo de quem não goste. Amo, mesmo. Que podia ser mãe dele, menos me falem, sou de me constar em folhinhas e datas? Que em meu corpo ele não mexa fácil. Mas que, por bem de mim, me venham filhos, outros, modernos e acomodados. Quero o bom-bocado que não fiz, quero gente sensível. De que me adianta estar remediada e entendida, se não dou conta de questão das saudades? Eu, um dia, fui já muito menininha… Todo o mundo vive para ter alguma serventia. Lopes, não! — desses me arrenego. Conto extraído da obra Tutameia (José Olympio, 1976), do escritor, médico e diplomata João Guimarães Rosa (1908-1967). Veja mais aqui.

MARIA MISS – Peça teatral baseada no conto Esse Lopes (Tutameia – José Olympio, 1976), de João Guimarães Rosa, adaptada por Evill Rebouças, contando a história de Flausina que, em menina, essa sertaneja sensível, ligeira e sonhadora, teve a virgindade negociada pelos pais e foi destinada a conviver com quatro irmãos e um primo da família Lopes. O destaque da peça fica por conta da atriz Tania Castello.

POEMAS - DEPOIS DA CHUVA: Sobre a areia molhada surgem ideogramas / de pés de galinha. Olho para trás / mas não vejo nem santuário nem asilo de aves. / Terá passado um ganso cansado, ou talvez manco. / Não saberia decifrar aquela linguagem / ainda que fosse chinês. Uma simples aragem / a apagará. Não é verdade / que a Natureza seja muda. Fala ao deus-dará / e a única esperança é que não se ocupe / muito da gente. DIVINDADES INCÓGNITAS: Dizem / que de divindades terrestres entre nós / se encontram cada vez menos. / Muitas pessoas duvidam / de sua existência nesta terra. / Dizem / que neste mundo ou no de cima existe uma só ou nenhuma; / crêem / que os sábios antigos eram todos uns loucos, / escravos de sortilégios se diziam / que algum incógnito / os visitava. / Eu digo / que imortais invisíveis / aos outros ou talvez inconscientes / de seus privilégios, / divindades em jeans e com suas mochilas, / sacerdotisas em gabardine e sandálias, / pitonisas de ar absorto à fumação de um fogo de pinhões, / numinosas visões não irreais, tangíveis, / intocadas, / vi muitas vezes / mas sempre tarde demais se tentava / desmascará-las. / Dizem / que os deuses não descem neste mundo, / que o criador não cai de pára-quedas, / que o fundador não funda porque ninguém / jamais o fundou ou fundiu / e que nós não somos mais do que os desastres / de seu nulificante magistério; contudo / se uma divindade, mesmo de ínfimo grau, / alguma vez me roçou / o arrepio que senti me disse tudo e no entanto / faltava-me reconhecê-la e o não existente / ser se esvanecia. EPIGRAMA: Sbarbaro, menino inspirado, dobra multicores / papéis e extrai barquinhos que confia à lama / movediça de um regato; olha-os indo embora. / Sê precavido por ele, cavalheiro que passas: / com a tua bengala alcança a delicada flotilha, / que não se perca; e chegue a um portinho de pedras. QUASE UM DEVANEIO: Renasce o dia, pressinto-o / no alvor de prata gasta / pelos muros: / Uma luz frouxa listra as janelas fechadas. / Retorna o acontecimento do sol / mas sem as vozes difusas, / os estrépitos habituais. / Por quê? Penso em um dia enfeitiçado / e da ronda das horas sempre iguais / me desforro. Transbordará a força / que em mim crescia, inconsciente mago, / há tanto tempo. Então me assomarei à janela, / farei sumir as altas casas, as alamedas vazias. / Terei diante de mim uma paisagem de neve intacta / mas suave como se numa tapeçaria. / Deslizará no céu flocoso um raio tardio. / Prenhes de luzes invisíveis selvas e colinas / me farão o elogio dos alegres regressos. / Lerei feliz os negros / sinais dos ramos contra o branco / como um alfabeto essencial. / Todo o passado de uma só vez / se fará presente. / Som algum turbará / essa alegria solitária. / Riscará o ar / ou pousará numa estaca / alguma pega. A FELICIDADE: Ontem senti que o inverno me havia / reservado uma alegre surpresa. / Revelavas meus pensamentos em voz alta. / — E se a vida fosse um mistério vão? / — Fica em teu exílio, não sejas cruel / para com aquele vago sentido de esperança / que é tudo que nos resta. Coisa diversa / é a felicidade. Existe, talvez, / mas não a conhecemos. NUMA CARTA NÃO ESCRITA: Por um formigueiro de auroras, por uns poucos / arames em que se prende / a lá da vida e se enrola / em horas, anos, hoje os golfinhos aos pares / cabriolam com as crias? Oh que eu não ouça / nada de ti, que eu fuja ao fulgor / da tua fronte. É diferente na terra. / Desaparecer não sei, nem tornar a olhar; tarda / a fornalha vermelha / da noite, a tarde se faz longa, / a súplica é suplício e não ainda / entre as rochas que afloram te chegou / a garrafa do mar. A onda vazia / quebra-se contra o cabo em Finisterra. DOR DE VIVER: Eu muitas vezes encontrei a dor: ao vivo / era o rio agonizante e atormentado; / a chama se contorcendo na pira; / cabelos na estrada, inúteis, quebrados. / Prazer eu não sabia. Apenas o milagre / que a indiferença divina funciona: / a estátua ergue-se entre a sonolência / Tórrido, com a nuvem e a pipa. QUASE UMA FANTASIA: Amanhece de novo, eu sinto / pelo alvorecer da velha / Prata nas paredes: / as janelas fechadas estão cheias de um brilho fraco. / O advento do sol retorna / mas sem as vozes vagas, / os acidentes normais. / Por quê? Eu penso em um dia encantado / e as justas de horas também iguais / Eu desisto. / Ele vai transbordar a força que me inflamou, / Mágico inconsciente, de muito tempo. / Agora vou aparecer, vou destruir casas altas, / detritos da estrada. / Eu terei diante de mim um lugar de neve limpa / mais leve como a paisagem de uma tapeçaria. / Ele vai deslizar um flash lento / entre o algodão do céu. / Selvas e colinas cheias de luz invisível / eles me elogiarão pelos retornos festivos. / Fico feliz que vou ler no branco / os signos negros dos galhos / como um alfabeto essencial. / Todo o passado aparecerá de repente na frente. / Nenhuma alegria solitária perturbará qualquer som. / Ele vai cruzar o ar por ficar em uma estaca / Algum pau de março. Poemas do poeta, prosador, jornalista e tradutor italiano Eugenio Montale (1896-1981), Prêmio Nobel de 1975. Veja mais aqui.

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AS PREVISÕES DO DORO 
Confira as previsões dos signos e as simpatias aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA

Ela minguante sedutora me abraça nua

Sou-lhe cheio inteiro e todo seu.

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sexta-feira, maio 23, 2008

EINSTEIN, COLETTE, MONTALE, PRIGOGINE, YOLANDA DORDA & FECAMEPA

 
Art by Yolanda Dorda.

FECAMEPA & A CORRUPÇÃO INEIVADA - Gente, bote espórtula na jogada que o negócio é feio. Pois, tem gente de peso que diz aos quatro cantos do mundo que se não fosse a corrupção, o Brasil seria muito mais justo e estaria noutro patamar de desenvolvimento. E eu que tenho as orelhas na frente da pulga, não duvido disso não. É só a gente assuntar direitinho para adivinhar as molhadas de mãos nas ajeitadas de bolsos dos casacudos de todas as regiões do país, os pés-de-peru e os calabocas vultosos nos arrumadinhos e maracutaias que explodem inadvertidamente por todos os gabinetes oficiais, a vista grossa com os abusos de poder, de improbidades e ajeitados que grassam impunemente em qualquer circunstância de compadrio ocasional, enfim, tudo que existe na conveniência da vantagem: ao inimigo, as barras da lei; aos amigos de plantão, toda salvação dos céus. Se não fosse tudo isso, o Brasil seria outro. E como seria, hem? De um lado a gente se depara com um calhamaço de lei, algumas do tempo do ronca, outras nascituras, muitas letras mortas e outras caladas na vigência dos interesses. Chega da gente se perguntar: pra que tanta lei, meu deus, apesar da compulsoriedade jamais será cumprida. De outro, a bancarrota reinando sobre a sucata enquanto alguns poucos privilegiados arrotam abastança sobre a carniça, tudo amontoado para a ineficiência e agrado dos apadrinhados. Enfim, qual mesmo aparelho funciona num Estado corrupto, obeso e falido? Aqui é tudo na lei do puxa-encolhe, é onde reina o foro privilegiado, o apagão aéreo, a improbidade administrativa que não alcança os políticos, os usineiros que são tratados como heróis, a impunidade comendo no centro e tudo acontece para tomar doril num arquivo morto do esquecimento. Não bastando isso, ainda vem o desplante do aumento dos deputados que partem pro agrado promovendo outros aumentos no Executivo e no Judiciário, ampliando a corda-de-guaiamum da descaradice. Isso sem contar com a conivência do Judiciário a todo momento com vendas de sentenças, solturas duvidosas, arquivamentos estranhos e bote etc na etc. Tudo isso premiando a improbidade administrativa que só lasca apenas os funcionários-do-rabo-fino. No meio dessa conchavada toda, sei que não vai sobrar nada que preste para o brasileiro em geral. Como tudo é na base do truque e do toma-lá-dá-cá, tudo fica podre em Brasília e pulveriza a fedentina intragável no país inteiro. Resta a gente tomar a iniciativa e botar para ferver a temperatura na cobrança do funcionamento do Estado. Se o governo sumiu, vamos fazer isso desenvultar e botar pra moer geral. E vamos começar com os prefeitinhos de merda que chegam liso e enricam da noite pro dia e com os vereadores que gritam o que a gente precisa e só enchem o bolso com o atendimento dos interesses alheios aos nossos! Vamos juntos e merda neles, gente! No mais, vamos aprumar a conversa & tataritaritatá!!!!! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

Art by Yolanda Dorda.

PENSAMENTO DO DIATodos somos muito ignorantes. O que acontece é que nem todos ignoramos as mesmas coisas. Pensamento do físico teórico alemão Albert Einstein (1879-1955). Veja mais aqui.

INFORMAÇÃO CIENTÍFICA - [...] Um dos pontos capitais é a disseminação da informação cientifica, mesmo porque se trata de um problema essencial da democracia. Um país de nível tecnológico não pode existir sem que a ciência tenha raízes profundas na nação, sem que todos estejam a par das discussões. Considero antidemocrático não difundir os avanços científicos ou mantê-los unicamente sob domínio da elite cientifica especializada. Por outro lado, é preciso assegurar aos cientistas condições satisfatórias para estarem atentos à época em que vivem. [...]. Trecho extraído da entrevista concedida pelo químico russo Prêmio Nobel de Quimica de 1977, Ilya Prigogine (1917-2003), retirada da obra Conversações: entrevistas essências para entender o mundo (Cultura, 2008), de João Lins de Albuquerque. Veja mais aqui.

BELAS DE DIA – [...] Levantou-se, iluminada pela esperança. E eu respondi “sim” a cada uma de suas perguntas, cheia de boa vontade e com o desejo de satisfazê-la... Olheia-a afestar-se pelo passeio, com o seu passinho curto exigido pelos saltos altos... Na verdade, talvez ele a ame... E se ama, chegará a hora em que, apesar de todos os cosméticos e fraudes, ela tornar-se-á para ele, a presença sedutora, a helênica pagã de cabelos soltos, a ninfa de pés intatos, a bela escrava de quadris redondos, nua como o próprio amor... Trecho extraído do conto Belas de dia, da escritora francesa Sidonie Gabrielle Colette (1873-1954).

DOIS POEMAS - LA BELLE DAME SANS MERCI - Sem dúvida as gaivotas cantonais esperaram em vão / as migalhas de pão que eu lhes lançava / em teu balcão para que ouvisses / mesmo ferrada no sono os seus estrídulos. / Hoje faltamos os dois ao encontro / e o nosso café da manhã esfria entre as pilhas / para mim de livros inúteis e para ti de relíquias / que ignoro: agendas, estojos, vidros e cremes. / Maravilhoso o teu rosto se obstina ainda, recortado / sobre o pano de fundo de cal da manhã; / mas uma vida sem asas não o alcança e o seu fogo / sufocado é o lampejo de um isqueiro. Ó VIDA - / Ó vida, não te peço lineamentos / fixos, vultos plausíveis ou possessos.  / Sinto que no teu giro inquieto o mesmo / sabor que tem o mel tem o absinto. / O coração propenso todo ao vil / raro se afeta com pressentimentos. / Tal como soa às vezes no silêncio / do descampado um tiro de fuzil. Poemas do poeta italiano Eugenio Montale (1896-1981).

Art by Yolanda Dorda.

Veja mais sobre:
Da História do Brasil pro Fecapema, William Shakespeare, Timotthy Leary, Franz Liszt, Leconte de Lisle, Nelson Pereira dos Santos, Leila Diniz, Robert Capa, Vincent Stiepevich, Coronelismo e cangaço aqui.

E mais:
A música de Dhara – Maria Alzira Barros aqui.
Sobre o Suicídio, Padre Bidião, A primavera de Ginsberg & muito mais aqui.
A educação no pensamento Marxista aqui.
As trelas do Doro: olha a cheufra! Aqui.
Fecamepa: quando embola bosta, o empenado não tem como ter jeito!!!! Aqui.


CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 Leitora comemorando a festa do Tataritaritatá!
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.

MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...