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sábado, outubro 28, 2017

CARLOS FUENTES, NOÉMIA SOUSA, SPIVAK, IVO KORYTOWSKI, GIÁCOMO SINAPSI, LAGOA DOS GATOS & HUMOR JURÍDICO

O DIA É HOJE, AGORA! Imagem: arte do fotógrafo italiano Giácomo Sinapsi.- Tivera eu tanta ventura quanto alvíssaras, flores de maio nas chuvas de outubro. Pudera, porque não, rente a alvorada até o crepúsculo: quantas acontecências, aos montes nas bifurcações pras bandas do sem fim. Nada é demais pra quem já foi além da conta. Amanhece, bom dia, outra manhã, vou em frente, sempre, passo a passo, idas e vindas. A labuta sou eu que faço: mãos e pernas na coluna esticada, paisagens de ontem renovadas agora como se nunca estivessem ali, o gosto da primeira vez, mesmo com sabor de desbotadas ou do ponto passadas, avalie. Quase devaneio, tudo não passa da incerteza, semeio o presente: não há como trilhar em linha reta com toda minha assimetria, sou movimento até depois do meio dia. Já é boa tarde! Quantos nãos com a porta fechada na cara, as costas das circunstâncias. Quem sabe um sim no meio de tantas adversidades, afinal o sim é bem-vindo de qualquer jeito, até com má vontade, ah, pelo menos. Assim, quase nem vale, o melhor pode acontecer a qualquer momento. Como se a mulher amada, qual Simone iluminada, me fizesse de Jean-Paul: quero essa sua cabeça emaranhada, é tudo que quero, sua sapiência, o que trama e pensa. Não acha que quer demais? E eu, priápico desvalido, abri-lhe a braguilha expondo o falo loucamente enrijecido: você tem essa cabeça! Quer? É só o que tenho. Ela abre os olhos, dá-me uma olhadela risonha e sedutora de batom vivo, verga elegantemente carregada de vestes e jeitos, quase genuflexa, beija a minha glande e fela até arrancar das minhas entranhas o vulcão explosivo da minha eruptiva ejaculação. Ah, demais. E ela, tão Simone quanto, ao sorver o meu extravaso premia o prazer com seu lindo riso no canto da boca, a sussurrar: agora tenho você dentro de mim, você é meu! Mais que grato, dou-lhe o que sou, com boa noite e tudo, e dela: a vida é só agora, amanhã não sei, agora. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música de Djavan ao vivo + Ária + Um amor puro; a célebre cantora lírica soprano brasileira Bidú Sayão (1902-1999), interpretando a Bachiana nº 5 & Floresta amazônica de Villa-Lobos & La demoiselle élue de Debussy; da saxofonista, flautista, compositora e arranjadora Daniela Spielmann com Brazilian Breath, Saudades do Paulo com Cliff Korman & Chorinho pra você com Paulo Moura; e do cantor e compositor Zé Ripe com Amigos em pé de serra & Santanna O Cantador, Predestinação, Nordestinos do Forró, Bobeira & Perdi Você. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] a mulher tanto da nova como da antiga diáspora não tem como assumir o papel de agente crítica da sociedade civul – papel esse que constitui o sentido mais pleno da cidadania – para lutar contra as depredações da “cidadania econômica global”. [...]. Pensamento da professora, crítica e teórica indiana Gayatri Chakravorty Spivak. Veja mais aqui e aqui.

LAGOA DOS GATOS – [...] O sítio do Peri-peri “comelava no cabeço mais alto da serra que vem do Gato e ia direto a Bebida do Gado e cortava rumo direto a outra serra que vem do Boqueirão, onde topava com terras do mesmo comprador”. Esses limites eram, nos dias de hoje, os seguintes: o cabelo mais alto da serra que vem do Gato é o serrote da Nazaré no Pau Ferrado; dali, cortando para o norte, vinha ao Entroncamento; cortava na direção do poente, pelas cumiadas atravessando o lajeiro do Imbiruçu, até as atuais divisas de Lage Dantas com Riachão de Fora; dali, na direção sul, voltando com uma linha reta entre as atuais divisas do Peri-peri e Lagoa de Patos, alcançava um ponto qualquer, nas terras à montante do açude e dali com terras do comprador José Fragoso de Albuquerque. [...] possuíam os limutes da grande data que se estendia desde Garanhuns às proximidades do rio Una aqui por cima da povoação de Capoeiras. [...]. E a ribeira do rio do Gato, situada já na quase extremidade da sua linha divisória ao sul, era um desses grandes colossos desconhecidos, encravados segundo os vagos conhecimentos territoriais dos seus donos, nas terras da fazenda das Panelas. [...]. Era natural que sendo a terra desconhecida, inculta e desabitada, não tivesse nenhum nome. [...] que se fixaram no lugar da Ribeira do Rio do gato, desbravando-o os que lhe deram nome, revivendo, longe da pátria, a toponímia do torrão natal. Daí, a Ribeira do Rio do Gato, que mais tarde passou a chamar-se de Barra dos Gatos, principalmente na parte que se aproxima da sua foz, no rio conhecido sempre com o nome de rio Panelas. [...]. Lagoa dos Gatos, fundada a 23 de agosto de 1804: [...] Essa lagoa existiu até a segunda metade do século passado, quando no ano de 1856, oitenta anos depois de sua descoberta, homens do lugar já povoação, entenderam de fechar-lhe o escoadouro que a comunicava com a corrente do riachgo, cavando da outra margem e carregando arrastada em couro de boi, a terra com que fizeram uma barragem, formando o baldo do açuide que ainda hoje existe. Daí para baixo, o rio ficou conhecido por Rio do Gato, passando pelos lugares Bebida, Morcego, Cangalha, Brejinho, Gatos e Barra dos Gatos, onde deságua no seu suserano, o rio Panelas. [...] Numa dessas manhãs, não puderam apanhar água; pois, um gato domestico que por ali andara caçando durante a noite anterior, caira dentro do referido poço, morrendo afogado. Aquelas aguadeiras, voltaram chamando aquele lugar de... Lagoa do Gato. [...] um dia, ao pino do sol, um pescador sonolento, quase à modorra, mal sustinha o anzol, olhos semi-cerrados, assustara-se com a presença inesperada de um grupo de gatos do mato, de várias cores, pintados, mouricos, grandes, pequenos, mas todos algres e vivazes, enrolando-se uns aos outros naquela festiva manifestação do prazer irracional e aproximaram-se da bebida. O negro, entrementes, tomara grande susto. Pressentidos pelo importuno sonolento, debandaram em disparada. Aquele, chegando em casa, maravilhado pelo que vira, contara o fato ao senhor e dizem que daí, em diante, ficaram chamando aquela bebida de Lagoa dos Gatos. [...]. Trechos extraídos da obra História de Lagoa dos Gatos (CEHM, 1981), do funcionário público, historiador e jornalista João Pereira Callado. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

HUMOR JURÍDICOAo ouvir do juiz Lessa Ferreira, da comarca de Palmares, a sua sentença, condenando-o a cumprir a pena de 29 anos e seis meses de reclusão, o réu, revoltado com a redução insignificante da pena ampliada, disse em voz alta para o juiz – Arredonde, doutor. Na comarca de Bodocí, houve a necessidade de uma justificação de óbito. É que sepultaram um homem sem o necessário atestado da causa morte. Como testemunha do enterro, foi intimiado, é claro, o velho coveiro da cidade para prestar esclarecimento. Quando o juiz indagou do depoente qual era a sua profissão, surgiu a resposta com a gentileza indesejável: - Coveiro, para servir a V. Excia. O juiz não perdeu tempo e aconslehou a testemunha a oferecer primero seus serviços profissionais ao escrivão, por ser mais velho. Num julgamento pelo Tribunal do Juri em Campina Grande, na Paraíba, tinha o advogado grande dificuldade para fixar a tese da defesa, razão pela qual vacila muito no tribunau. No intervalo para o jantar, recebeu de um dos jurados a seguinte quadra: Doutor sustente a defesa / do jeito que achar forte / ou negue logo esse crime / ou justifique essa morte. Trechos extraídos da obra Antonio de Brito Alves: o príncipe dos advogados (AIP, 1991), do jornalista Carlos Cavalcante (1949-2011).

INSTINTO DE INEZ - [...] Isso vais contar ao homem que te impelirá de parir teu filho como querias, tu sozinha [...] estendendo os braços para tu mesma receberes a criança com a dor que esperarás naturalmente mas acrescida de outra dor que não será natural, que te quebrará as costas pelo esforço que farás ao receber a criança tu mesma, sem ajuda de ninguém, como sempre fez. Antes. [...]. Trecho extraído da obra Instinto de Inez (Rocco, 2003), do escritor e diplomata mexicano Carlos Fuentes (1928-2012). Veja mais aqui.

DEIXA PASSAR O MEU POVO - Noite morna de Moçambique / e sons longínquos de marimbas chegam até mim / -- certos e constantes -- / vindos nem eu sei donde. / Em minha casa de madeira e zinco, / abro o rádio e deixo-me embalar... / Mas as vozes da América remexem-me a alma e os nervos. / E Robeson e Maria cantam para mim / spirituals negros do Harlem. / Let my people go /-- oh deixa passar o meu povo, / deixa passar o meu povo --, / dizem. / E eu abro os olhos e já não posso dormir. / Dentro de mim soam-me Anderson e Paul / e não são doces vozes de embalo. / Let my people go. / Nervosamente, / sento-me à mesa e escrevo... / (Dentro de mim, / oh let my people go...) / deixa passar o meu povo. / E já não sou mais que instrumento / do meu sangue em turbilhão / com Marian me ajudando / com sua voz profunda -- minha Irmã. / Escrevo... / Na minha mesa, vultos familiares se vêm debruçar. / Minha Mãe de mãos rudes e rosto cansado / e revoltas, dores, humilhações, / tatuando de negro o virgem papel branco. / E Paulo, que não conheço / mas é do mesmo sangue e da mesma seiva amada de Moçambique, / e misérias, janelas gradeadas, adeuses de magaíças, / algodoais, e meu inesquecível companheiro branco, / e Zé -- meu irmão -- e Saul, / e tu, Amigo de doce olhar azul, / pegando na minha mão e me obrigando a escrever / com o fel que me vem da revolta. / Todos se vêm debruçar sobre o meu ombro, / enquanto escrevo, noite adiante, / com Marian e Robeson vigiando pelo olho luminoso do rádio / -- let my people go, / oh let my people go. / E enquanto me vierem do Harlem / vozes de lamentação / e meus vultos familiares me visitarem / em longas noites de insônia, / não poderei deixar-me embalar pela música fútil / das valsas de Strauss. / Escreverei, escreverei, / com Robeson e Marian gritando comigo: / Let my people go, / OH DEIXA PASSAR O MEU POVO. Poema extraído da obra Sangue negro (União dos Escritores de Moçambique, 2001), da poeta, tradutora, jornalista, militante política e mãe dos poetas moçambicanos Noémia Sousa (1926-2002). Veja mais poetas moçambicanos aqui, aqui e aqui.

PASSAPORTE PARA O PARAÍSO
[...] Eu, que tudo fiz por teu bem-estar: mourejei diligentemente, para que nada faltasa a ti e a nosso filho; concordei em que ele fosse batizado; os míseros tostões que percebias como datilógrafa, transmutei-os em generosa mesada [...] Pudera! Já fui literaturo um dia (lembra-te de como nos conhecemos?)! Literatura não enche barriga de ninguém, a não ser de uma meia dúzia, vamos e venhamos! Sim, confesso ter-me excedido. Nunca me exigiu o diretor que eu fizesse serão quase todas as noites: fi-lo porque qui-lo. Entretanto, fui recompensado com a subgerência, que me permitiu adquirir vistoso automóvel do ano. Não precisaria ter passado tantos anos sem férias: o diretor nunca o demandou de mim. Poderíamos ter desfrutado temporadas na praia, na montanha (ou mesmo na Europa)... No entanto, ingrata Helena, com a remuneração em espécie das férias não gozadas, completei a entrada de nosso belo apartamento de cobertura, em prédio de centro de terreno, com sauna, piscina e duas vagas na garagem. Ou isso não tem importância? [...] Ars longa, vita brevis. Já passa da meia-noite e, antes que o sono me domine (apesar dos vários cafezinhos que tomei), pretendo concluir a história da vinda do Messias...
Trechos extraídos da obra Passaporte para o paraíso (Fragmentos, 2017), do poeta, lexicólogo, filósofo, fotógrafo, blogueiro e tradutor Ivo Korytowski. Veja mais aqui.

Veja mais:
A arte e a entrevista de Genésio Cavalcanti aqui.
A resistência dos versos: neste sábado, dia 28/10, no anfiteatro da Praça Paulo Paranhos, Palmares – PE, acontecerá o lançamento do livro A resistência dos versos, do cantor, compositor e poeta Zé Ripe, com extensa programação. Veja a entrevista aqui e mais do autor aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo italiano Giácomo Sinapsi.
Veja mais aqui.


quinta-feira, novembro 26, 2015

CINEMA, SAUSSURE, BEDINGFIELD, SINGER, BIDAL, ARIZABALO, BISMARCK, KORYTOWSKI & MUITO MAIS.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? VOU PRO CINEMA – Era eu ainda menino quando vi pela primeira vez um filme no cinema. Era Chaplin, O vagabundo. Fiquei apaixonado por Carlitos e sempre queria que meu pai me levasse para assisti-lo nos cinemas da minha cidadezinha de interior. Vi todos os filmes dele, os quais passaram nas matinês que não perdia todo final de semana no Teatro Cinema Apolo ou no Cine São Luiz. Depois foi a vez de Buster Keaton, Harold Lloyd, Teixeirinha, Mazzaropi, Jerry Lewis, muitos faroestes, comédias, dramas. O fascínio foi tão grande que não mais deixei de ir a todos os filmes que chamasse a atenção. Em toda minha infância e adolescência, não deixava de ver películas as mais diversas. Isso ampliava o rol das minhas predileções e, talvez, tenha sido o meu primeiro contato com a poesia, levando-me a escrever quadrinhas inocentes todo dia para a professora da escola do primário; ou contando histórias e inventando mentiras cabeludas para aparecer nas brincadeiras; ficar solando no bucho uma guitarra invisível sonhando de olhos abertos como se estivesse no glamour do palco num show musical; e de representar personagens horrorosos pra meter medo nas crianças menores; era que eu gostava mesmo de contar histórias e estórias, e usava das minhas mais incipientes noções teatrais, musicais e literárias, para inventá-las ao bel prazer, sem pés nem cabeça. Os personagens, as tramas, as imagens, a música, tudo me dava ideia da vida em movimento, o que me fazia cada vez mais próximo do invento dos irmãos Lumiére e das demais expressões artísticas, chamando-me atenção para o roteiro, os cortes, closes, conduzindo-me a um olhar mais agudo da condição humana, como da descoberta do simbólico e do imaginário. Eu me deixava passageiro seguindo à própria sorte do enredo nessa experiência radical que me colocava frente a frente com Eros e Tânatos, e com as verdades mais recônditas da alma na sua lógica particular e na expressão do inconsciente coletivo. Quando me casei aos 15 anos, fui emancipado pela Lei e pude, então, assistir todos os filmes da Nouvelle vague e os escandalosos filmes de Pasolini e Peter Greenaway. Foi nesse tempo que tive acesso às leituras de Nietzsche, Walter Benjamim, Freud, Jung e Derrida e, por conta disso mesmo, aproveitava, no Recife, para ir quase todo dia pras sessões do Cine Arte AIP, não perdendo sessões nem lançamentos importantes noutros cinemas da cidade, como os de Fellini, Buñuel, Saura, Antonioni, Malle, Trufaut, Polanski, Godard, Kurosawa, Coppola, Lars von Trier e Almodóvar, entre muitos outros. Lembro que quando surgiram os videocassetes, eu pegava uns dez pra assistir nos finais de semana. O mesmo quando apareceram os dvds. Ainda hoje sou apaixonado pela telona e quase na condições de cinéfilo, não consigo passar uma semana sem que possa apreciar um bom filme, razão pela qual sempre destaco aqui diariamente um entre os filmes que já tive oportunidade de assistir. E veja mais aqui

Imagem: Nu, do artista plástico realista francês Javier Arizabalo.


Curtindo o álbum Strip Me (Sony, 2010), da cantora e compositora pop britânica Natasha Bedingfield, participante ativa de campanhas por causas humanitárias ao redor do mundo, conhecida por seu trabalho com crianças na campanha Stop the Traffik da instituição de caridade de sua mãe, chamada Global Angels.

AS PALAVRAS SOB AS PALAVRAS – A obra As palavras sob as palavras – os anagramas de Ferdinand Saussure (Abril, 1978), do linguista suíço Ferdinand Saussure (1857-1913), trata a respeito de hipograma, aliteração, hemistíquios, timbres, assonâncias, anagrama, anafonia, paronomásia, paragrama, paratexto, antigrama, logograma, simetria fônica, poesia homérica, entre outros assuntos atinentes à linguagem. Da obra destaco o trecho inicial: [...] absolutamente incompreensível se eu não fosse obrigado a confessar-lhe que tenho um horror doentio pela pena, e que esta redação me causa um suplicio inimaginável, completamente desproporcional à importância do trabalho. Para mim, quando se trata de linguística, isto é acrescido pelo fato de que toda teoria clara, quanto mais clara for, mais inexprimível em linguística ela se torna, porque acredito que não exista um só termo nesta ciência que seja fundado sobre uma ideia clara e que assim, entre o começo e o fim de uma frase, somos cinco ou seis vezes tentando refazê-la. [...] A língua só é criada com vistas ao discurso, mas o que separará o discurso da língua ou o que, num dado momento, permitirá dizer que a língua entra em ação como discurso? Conceitos variados estão disponíveis na língua (isto é, revestidos de uma forma linguística) tais como boeuf, lac, ciel, rouge, triste, cinq, fendre, voir. Em que momento, ou em virtude de qual operação, de qual jogo que se estabelece entre elas, de quais condições formarão estes conceitos o discurso? A sequencia destas palavras, por mais rica que seja pelas ideias que evoca, não indicará jamais a um ser humano que um outro individuo ao pronunciá-las, queira significar-lhe alguma coisa. O que é preciso para que tenhamos a ideia de que queremos significar alguma coisa, usando termos que estão disponíveis na língua? [...]. Veja mais aqui e aqui.

O SACRÍFICIO – O livro No tribunal de meu pai – crônicas autobiográficas (Companhia das Letras, 2008), do escritor polonês Isaac Bashevis Singer (1902-1991), conta a historia ocorrida no início do século XX, no qual os moradores da rua Krochmalna, no velho bairro judeu de Varsóvia, acorriam à modesta casa de número 10 em busca de solução para problemas. Ali, vez ou outra, apareciam casais à procura de matrimônio ou separação, credores e devedores à cata de solução justa para suas pendências, além de manifestações misteriosas que demandavam explicação, como a de gansos que, mesmo mortos, não paravam de grasnar. Religiosas ou mundanas, deste ou de outro mundo, essas questões eram submetidas a uma antiga instituição judaica, o tribunal rabínico - mescla de corte de justiça, sinagoga, casa de estudos e consultório psicanalítico. O da Krochmalna era presidido pelo rabino Pinhos-Mendel, pai do autor da obra, e funcionava em sua própria casa. Nestas memórias o autor recria o ambiente em que cresceu, rico em histórias e personagens a um só tempo divertidos e comoventes. Da obra destaco o trecho denominado O sacrifício: Há neste mundo indivíduos muito estranhos, cujos pensamentos são ainda mais singulares que eles próprios. Em nossa casa em Varsóvia - na rua Krochmalna, número 10 -, dividindo o hall de entrada conosco, vivia um casal de anciãos. Eram pessoas simples. O homem era artesão, ou talvez vendedor ambulante, e seus filhos já estavam todos casados. Contudo os vizinhos diziam que, apesar da idade avançada, os dois continuavam apaixonados. Todo sábado à tarde, após o cholent, saíam para passear de braços dados. Na mercearia, no açougue - aonde quer que fosse fazer compras -, a mulher só falava do homem: "Ele gosta de feijão... ele gosta de um bom pedaço de carne... ele gosta de vitela...". Há mulheres assim, que vivem falando de seus maridos. Ele, por sua vez, estava sempre dizendo: "Minha mulher". Minha mãe, descendente de várias gerações de rabinos, implicava com o casal. A seus olhos, tal comportamento era uma demonstração de vulgaridade. Mas no fim das contas, o amor - sobretudo entre duas pessoas idosas-não pode ser tão facilmente repudiado. De repente começou a correr um boato que escandalizou a todos: os dois velhos pretendiam divorciar-se! A Krochmalna ficou em polvorosa. O que significava aquilo? Como podia ser? As moças torciam as mãos: "Mamãe, não estou me sentindo bem! Acho que vou desmaiar!". Mulheres maduras proclamavam: "É o fim do mundo". As mais enfezadas maldiziam os homens: "Ora, se não são piores que animais!". Logo a rua foi convulsionada por uma notícia ainda mais ultrajante: o casal iria se divorciar para que o velho pecador pudesse se casar com uma mocinha. Não é difícil imaginar a profusão de pragas rogadas contra o homem: uma queimação na barriga, dores em seu coração negro, um braseiro nas entranhas, um braço e uma perna quebrados, uma pestilência, o castigo dos céus! O mulherio não economizava nas imprecações, vaticinando que o bode velho não chegaria vivo ao dia do casamento - em vez do dossel de núpcias, depararia um ataúde preto. Nesse ínterim, em nossa casa, a verdade veio à tona. A velha procurou minha mãe e falou-lhe em termos tais que o rosto pálido de mamãe enrubesceu de constrangimento. Apesar de ela ter tentado me despachar para longe dali, a fim de que eu não escutasse, acabei escutando, pois estava ardendo de curiosidade. A mulher jurava que amava o marido mais do que qualquer outra coisa no mundo. "Cara senhora", argumentava ela, "eu daria minha vida para salvar uma unha dele que fosse. Pobre de mim, estou velha - sou um trapo de gente -, mas ele, ele ainda é um homem. E precisa de uma mulher. Por que obrigá-lo a carregar esse fardo? Enquanto nossos filhos viveram conosco, era preciso ter cuidado. As pessoas falariam. Mas agora o que elas dizem me preocupa tanto quanto o miado de um gato. Já não preciso de marido, porém ele - oxalá continue assim-é como um jovem. Ainda pode ter filhos. E agora encontrou uma moça que o quer. Ela tem trinta e poucos anos; é a hora dela de também ouvir a música das bodas. Além do mais, é órfã e trabalha como criada numa casa; será boa para ele. Com ela, ele gozará a vida. Quanto a mim, não passarei necessidade. Ele garantirá meu sustento, e eu sempre ganho alguns trocados vendendo badulaques. De que preciso na minha idade? Só quero que ele seja feliz. E ele me prometeu que - após cento e vinte anos, quando chegar a hora - jazerei a seu lado no cemitério. Voltarei a ser sua mulher no outro mundo. No Paraíso, servirei de escabelo para seus pés. Está tudo combinado." A mulher viera a fim de, simplesmente, pedir a meu pai que cuidasse do divórcio e celebrasse o matrimônio. Minha mãe tentou dissuadi-la. Como as outras mulheres, ela via naquele caso uma afronta ao sexo feminino. Se todos os homens de idade dessem para se divorciar de suas esposas e casar-se com mocinhas, em que bonito estado ficaria o mundo. Mamãe disse que a idéia toda era evidentemente obra do Diabo e que tal amor era uma coisa impura. Chegou a citar um dos livros de ética. Porém aquela mulher simples também sabia citar as Escrituras. Lembrou a minha mãe que Raquel e Lia haviam dado suas servas Bala e Zelfa como concubinas a Jacó. [...]. Veja mais aqui.

OS POEMAS QUE ELA FEZ PRA MIM – No seu maravilhoso blog Baú de Ilusões, a queridamada poeta e radialista Meimei Corrêa expõe seu talento e comete alguns belos poemas, entre eles, alguns com os quais ela me agraciou com o prêmio da dedicatória e vários deles reunidos no Momento de Poesia do seu espaço. Destaco os poemas sem título a seguir: I - Cubra-me com teu canto, meu encanto, no espanto das estrelas que se perdem em nosso universo. Cubra-me com tua poesia, minha alegria, na alegoria das flores nos jardins que bailam em nossos sonhos. Cubra-me com teu corpo que te sorvo nas horas serenas das noites, nos espaços inventados dos dias, meu açoite, minha lei... E te deixo com meus traços de paixão quando te afastas, para que não te esqueças dos sabores, dos nossos rumores, gozos e prazeres até que voltes e tudo aconteça novamente... II - Teu toque em minha pele permeou-me o corpo e tomou minha alma, arrebatou-me o coração, arrancou-me a calma e não foram necessárias tantas palavras... Levaste as chaves de todo o meu tesouro, meu mundo, guardado em poesia para cobrir-te os caminhos com nossa paixão mútua, cumplicidade que se estende todos os dias, quando surge o sol, a lua e todas as estrelas que nem mesmo o céu as tem. III -  Eu te dei tudo de mim: a alma, a identidade, os sonhos, o sono e a vigília, a inspiração e todas as rimas... Adormeci ainda menina, romântica, solta na imaginação. Acordei mulher, selvagem, presa nos teus quereres, rainha no teu reino de mil sonhares em mim. Tu me roubas nas madrugadas... Tu me prendes em tuas manhãs... Tu me tens em cada segundo do teu existir que é meu... IV - E tu me sondas enquanto durmo regada do teu amor ardente, vigiada pelo teu olhar vermelho de paixão incandescente, desejos que se resguardam por instantes, enquanto o sono toma conta do meu corpo que é teu. E tu me esperas acordar em teus braços que me amparam os sonhos e a minha respiração se mistura ao teu odor delicioso, pele de seda, sonho de vida, vida de amor... Você é minha jóia rara, e eu busquei sempre alcançar todas as estrelas para transformar o seu chão em céu. Quem me dera eu pudesse transformar-lhe as rugas de preocupação em risos vindos do coração, seus momentos de tristeza em eternos pingos de amor a lhe regar a alma para que saiba sempre que aqui, neste cofre onde você está guardado, bem cuidado e amado, tudo será sempre "um sim" para todos os seus apelos, sonhos, desejos e por que não, aquela "ordem" gostosa, imperiosa, quando você toma conta, chegando menino e homem mandonista e eu sou quem você me fez e faz ser. Jóia rara, você é em minha vida, a vida que me faz viva. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CARAVANA & BOBEIRA PEGA – A trajetória do humorista e ator de teatro, cinema e televisão Pedro Bismarck (Ademilson Pedro da Cruz), inicia com a criação do personagem Nerso da Capitinga, em 1981, na cidade de Juiz de Fora (MG). Foi a partir deste personagem que ele foi convidado para integrar um grupo de teatro, no qual, fez sua primeira apresentação ao público em 1984, em um quadro para o espetáculo "Caravana Café Concerto, um Delírio!". Na peça, dirigida por Robson Terra, Pedro Bismarck fazia imitações, cantava e contava piadas. Passou a adotar o nome artístico de Pedro Bis, que posteriormente foi modificado para seu pseudônimo atual. Em seguida vieram os shows Show de Humor com Pedro Bis e O Melhor de Pedro Bis, Neversário do Nerso (2004) e Bobeira Pega (2009). Em 1990, foi convidado por Chico Anysio para participar do programa Escolinha do Professor Raimundo, após Chico ter visto uma fita de vídeo com apresentações de Pedro. Por sugestão de Chico Anysio, o nome artístico foi alterado para Pedro Bismarck. Teve rápida passagem pelo SBT (1993) e retornou à Rede Globo no ano seguinte. Após o fim da Escolinha, em 1995, Pedro Bismarck atuou em outros programas, como Estados Anysios de Chico City e Brava Gente. Em 1998, fez uma participação especial no filme Menino Maluquinho 2 – A aventura, e também foi protagonista de um episódio do programa Você Decide. Em 1999, Pedro Bismarck integrou o elenco do extinto Zorra Toral e em 2000, participou do filme Amélia. Veja mais aqui.

MONTENEGRO – A comédia de humor negro Montenegro - ou de suínos e as pérolas (1981), dirigido pelo sérvio Dušan Makavejev, conta a história de uma dona de casa americana deprimida, casada com um rico homem de negócios sueco com duas crianças aparentemente perfeitas. Ela tenta apimentar a sua existência com uma série de ações para fugir do tédio e da angústia, quando ela come todo o seu jantar, toca fogo nos lençóis da cama e envenenar o leite do cão de estimação, até ser apresentada a um psiquiatra pelo marido, servindo apenas para continuar a sua frustração. Um dia, quando ela decide acompanhar o marido em uma viagem de negócios, ela fica detida na alfândega do aeroporto e ao perder o voo se envolve com imigrantes iugoslavos, se entregando ao seu fantástico e surreal mundo regado a amor livre e prostituição. Tudo culmina com ela tendo um caso passional com um jovem chamado Montenegro que trabalha em um jardim zoológico. Depois de passar a noite com ele, ela mata o rapaz e retorna para casa. Uma vez lá, ela serve sua família um jantar gourmet, seguido por uma sobremesa leve de frutas, o que acaba por ser envenenado. O destaque do filme vai para maravilhosa atuação da atriz estadunidense Susan Anspach. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Esculturas de Annie Bidal

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada ao lexicólogo, tradutor, escritor e poetamigo Ivo Korytowski & Literatura & Rio de Janeiro. Veja aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora Tataritaritatá!
Veja mai aqui.
 

sexta-feira, abril 24, 2015

CALVINO, COLE PORTER, MAUPASSANT, MAQUIAVEL, BIRKIN, KORYTOWSKI, REDON & QUASAR DANÇA.


PROJETO DE EXTENSÃO PSICOLOGIA, JORNALISMO & PUBLICIDADE – Em continuidade às atividades do Projeto de Extensão Infância, Imagem e Literatura: uma experiência psicossocial na comunidade do Jacaré – AL, realizado pelos graduandos dos cursos de Psicologia, Jornalismo e Publicidade do Centro Universitário Cesmac, sob a coordenação do Professor Ms Cláudio Jorge Gomes de Morais, realizou-se na última quinta-feira, dia 23 de abril, mais uma reunião regular para andamento das atividades. Estiveram presentes na reunião, o professor Cláudio Jorge Morais, Luiz Alberto Machado, Alessandra Matos, Fran Miranda, Luiz Gustavo, Fernanda Angélica, Williane Sotero e Gustavo Santos. Veja detalhes aqui e aqui.

Imagem: The Birth of Venus (1912), do pintor e artista gráfico francês Odilon Redon (1840-1916). Veja mais aqui, aqui e aqui.

Curtindo De lovely (2004), um filme biográfico musical sobre a vida e amores do músico e compositor estadunidense Cole Porter (1891-1964), dirigido por Irwin Winkler e roteiro de Jay Cocks. Veja mais aqui, aqui e aqui.

MADEMOISELLE FIFI – O conto Mademoiselle Fifi (Cultrix, 1958), do escritor francês Guy de Maupassant (1950-1893), narra a história de um oficial do exército prussiano que invade a França em 1870. Durante algum tempo a sua perversa brutalidade desfaz todos os obstáculos que lhe surgem no caminho. Mas um dia, em que partilha com outros oficiais a rotina dos vencedores, decide organizar uma festa com prostitutas normandas. E é então que lhe surge a inesperada resistência dos vencidos. Da obra destaco o texto a seguir: [...] As garrafas de conhaque e de licores passavam de mão em mão, e todos, recostados nas cadeiras, bebiam vagarosamente, em goles repetidos, conservando o cachimbo no canto da boca, longo tubo curvo rematado pelo ovo de faiança, sarapintado como para seduzir hotentotes. Mal os copos se esvaziavam, tornavam a enchê-los, com um gesto de resignada lassidão. Mlle. Fifi quebrava o seu, a toda hora, e imediatamente um soldado lhe apresentava outro. [...] Imediatamente um frêmito perpassou pelos espíritos, despertando-os. Os corpos languidamente recostados se aproximaram, animaram-se os rostos e todos se puseram a conversar. [...] Cinco mulheres desceram no patamar, cinco bonitas raparigas escolhidas a dedo por um companheiro do capitão. Não se tinham feito rogar, certas de que seriam bem pagas. Conheciam os prussianos, que há três meses agüentavam, e sabiam tirar partido tanto dos homens como das coisas. “São exigências da profissão” — explicavam, a caminho, sem dúvida para acalmar o secreto prurido de uns restos de consciência. Imediatamente entraram na sala de jantar. Iluminada, esta ainda parecia mais lúgubre, deixando perceber o lamentável estado a que fora reduzida. A mesa farta de carnes, com a rica baixela e a prataria encontrada na parede onde a escondera seu proprietário, conferia-lhe o aspecto de uma taverna, na qual bandidos fossem cear depois de uma pilhagem. Radiante, o capitão apossou-se das raparigas como de objetos familiares, aquilatando-as como dispensadoras de prazer. Como os três mais moços se apressavam em fazer sua escolha, opôs-se categoricamente, atribuindo-se a partilha, que seria feita dentro da maior eqüidade, tendo-se em conta as patentes, a fim de que a hierarquia fosse respeitada. Assim sendo, no propósito de evitar qualquer discussão, qualquer contestação, qualquer suspeita de parcialidade, alinhou-as pela estatura, e dirigindo-se à mais alta, indagou com voz de comando: — Seu nome? — Pamela. — Número um, a chamada Pamela, adjudicada ao comandante. Em seguida, depois de beijar em sinal de posse a Blondine, a segunda, ofereceu ao comandante Otto a rechonchuda Amanda, Eva ao subtenente Fritz, e Raquel, a mais baixa de todas, ao mais moço dos oficiais, o marquesinho Wilhem d’Eyrik. Raquel era morena muito jovem, de olhos negros como borrões de tinta, uma judia, cujo nariz adunco confirmava a regra que caracteriza sua raça, Todas eram gordas e bonitas, sem fisionomias muito marcadas, como se as práticas quotidianas e a vida comum nos prostíbulos as tivessem tornado parecidas de rosto e de porte. [...] Completamente bêbedos, subitamente dominados por um entusiasmo militar, um entusiasmo de brutos, os outros também empunharam os copos, vociferando: — Viva a Prússia! — e esvaziaram os copos de um só trago. As raparigas não protestavam, emudecidas e presas do medo. A própria Raquel calava-se, impotente para responder. Foi então que o marquesinho colocou sobre a cabeça da judia a taça de champanha que tornara a encher, e gritou: — A nós também todas as mulheres da França! Raquel se pôs de pé rapidamente, derramando sobre seus cabelos o cálice de champanhe, que em seguida caiu ao chão, espatifando-se. Com os lábios trêmulos, afrontava com o olhar o oficial, que continuava a rir-se. E balbuciou, com voz sufocada pela cólera: — Isso... isso não é verdade! Absolutamente vocês não terão as mulheres da França! Ele se sentou, para rir-se mais à vontade, e procurando imitar o sotaque parisiense: — Essa é pem poa, pem poa, enton que veiu facer aqui, pequena? Interdita, ela se calou, tão perturbada que não podia compreender bem o que ele dizia. Depois, assim que alcançou o sentido daquelas palavras, retorquiu, indignada e veemente: — Eu... eu... não sou mulher, sou prostituta. É o que serve para vocês, prussianos. Nem bem terminara, e ele já a esbofeteara com força. Ao vê-lo erguer a mão outra vez, enlouquecida pela raiva, Raquel apanhou na mesa uma faca, e bruscamente cravou-a no pescoço do marquesinho, bem no côncavo onde começa o peito. A palavra que articulava foi cortada na garganta, e ele se quedou de boca escancarada, com olhar terrível. Um bramido ergueu-se, e todos se levantaram em tumulto. Porém, depois de atirar sua cadeira às pernas do tenente Otto, que se estatelou no chão, Raquel correu à janela, abriu-a antes que conseguissem alcançá-la, e desapareceu na noite, sob a chuva que continuava a cair. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui e  aqui.

A MANDRÁGORA – A peça teatral A Mandrágora (1518), do historiador, poeta, diplomata e músico do Renascimento italiano, Nicolau Maquiavel (1469-1527), conta a história do jovem florentino Calímaco, que por conta de uma aposta, conhece e passa a desejar furiosamente uma mulher casada que não consegue ter filhos com seu marido. Para conquistá-la, com ajuda de um jovem embusteiro, de um frei sem escrúpulos e da mãe da recatada esposa, ele finge ser médico e receita um tratamento a base de mandrágora – a planta afrodisíaca. Com esse texto o autor narra a conquista amorosa, com suas urgências e exaltações, servem como pretexto para desenvolver um tratado prático e saboroso sobre estratégia política, sobre a arte de envolver, manipular, convencer e, por fim, conquistar um objetivo. Da obra destaco o trecho da canção de abertura: Posto que a vida é breve e muitas são as penas que vivendo e lidando se padecem, seguindo nossas ânsias vamos passando e consumindo os anos, pois do prazer privar-se, p’ra viver em afãs e aflições, é ignorar os enganos do mundo ou por quais males e estranhos casos sejam tiranizados todos os mortais. P’ra fugir desta angústia, Erma existência em bosques escolhemos E sempre em gáudio e festas Vivemos, belos jovens, ledas ninfas. Agora aqui viemos, Com a nossa harmonia, Só para honrarmos esta Tão bela festa e alegre companhia. Ainda aqui nos trouxe a fama do senhor que vos governa, cujo eterno semblante acolhe em si todos os bens da terra. Por tal supernal graça, por tão feliz estado, ufanar-vos podeis, gozando, e agradecer quem vo-lo deu. Veja mais aquiaqui, aqui e aqui.

A TRILHA DOS NINHOS DE ARANHA – O livro A trilha dos ninhos de aranha (Companhia das Letras, 2004), do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985), é um tributo ao neorealismo que emergiu na Itália desolada depois da Segunda Guerra, com uma história pessoal para contar participação nos grupos de luta armada da Resistência, que combatiam as tropas alemãs e as violentas brigadas fascistas. Trata-se de um testemunho daqueles tempos duros, de guerrilheiros marcados pela incerteza, como Primo, ou pelo idealismo, como o comissário Kim. Da obra destaco os seguintes trechos: [...] Durante meses, depois do fim da guerra, tinha tentado contar a experiência partigiana em primeira pessoa, ou com um protagonista parecido comigo. Escrevi alguns contos que publiquei, outros que joguei no cesto de lixo; movia-me pouco à vontade; nunca conseguia abrandar totalmente as vibrações sentimentais e moralistas; sempre surgia alguma desafinação; minha história pessoal parecia-me humilde, mesquinha; eu era cheio de complexos, de inibições diante de tudo o que me era mais caro [...] Agora Pin vai entrar na taberna enfumaçada e roxa, e vai dizer coisas obscenas, impropérios que aqueles homens nunca ouviram, até deixá-los furiosos e apanhar, e cantará canções tocantes, consumindo-se até chorar e fazê-los chorar, e vai inventar brincadeiras e caretas tão novas até se embriagar de risadas, tudo só para aliviar a névoa de solidão que se adensa em seu peito em noites como esta [...] - Rapazes - começa a falar resignado, como se não quisesse desagradar ninguém, nem mesmo Canhoto - , cada um sabe por que é partagiano. Eu era funileiro e rodava pelos campos, meu grito era ouvido desde longe e as mulheres iam buscar as caçarolas furadas para eu consertar. Eu ia nas casas e brincava com as criadas e elas às vezes me davam ovos e copos de vinho. Punha-me a trabalhar nos recipientes com o flandres, na relva, e em volta sempre havia crianças que ficavam me observando. Agora não posso mais andar pelos campos porque eu seria preso e há bombardeios que arrebentam com tudo. Por isso somos partagiani: para voltarmos a ser funileiros, para que haja vinho e ovos a bom preço, e para que não nos prenda mais e não haja mais o alarme. E depois também queremos o comunismo. O comunismo é que não haja mais casas onde batam a porta na sua cara, para que não sejamos obrigados a entrar nos galinheiros, à noite. O comunismo é se você entrar numa casa e estiverem tomando sopa, eles lhe dão um pouco de sopa, mesmo se você for funileiro [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, , aqui e aqui.

POEMAS DE AMOR – O poeta, lexicólogo, filósofo, fotógrafo e tradutor Ivo Korytowski, edita o excelente blog Literatura & Rio de Janeiro e, também, o extraordinário Sopa no Mel, no qual reúne seu trabalho literário e traduções, compilando, inclusive, a sua poesia e prosa poética, entre as quais, destaco o seu Amor Virtual: Serás meu absinto, meu ópio, meu nirvana, / A minha bússola, meu norte, meu caminho, / Minha fofinha, gostosinha, amorzinho. / De belas flores farás belas ikebanas! / Meu prelúdio, minha valsa, meu minueto, / Minha Vênus, meu afresco renascentista, / Meu trevo de quatro folhas, minha ametista, / Musa minha inspiradora de meus sonetos. / O seu sorriso me elevará ao alto astral. / Como serão sua voz, postura, olhar, / Seu perfume, fantasia de Carnaval? / São longos quilômetros a nos separar, / Porém, isso não tem importância. Afinal, / A Internet já fez de nós romântico par! Merece também destaque Amor Lunático: Desgostoso com as pessoas, enamorara-se da lua. – Bela é a lua, sobretudo quando cheia! E tem um rosto tão sereno... – Um rosto sereno, porém distante... – O amor não conhece distâncias. À noite, quando a tristeza me invade o coração, sua etérea beleza me conforta. Então, converso com ela! – Mas ela não te responde... – Não, minha amada não é tagarela; sua resposta, não a capta o ouvido, mas o coração! – Dormes com tua lua? – Não me fales de amor vulgar! – Amas a quem não compreendes... – Seu enigma é meu amor! – Quimeras... – O amor é uma quimera! Não, minhas palavras não o convenceram da impossibilidade de seu amor. Na noite seguinte, subiu uma montanha para se aproximar mais da Eleita. Chegando ao topo, amanhecera. Desesperado, atirou-se de altura de dois mil metros rumo ao Infinito! Como também o seu ótimo Masturbação: Na calada da noite eu me masturbo. De repente, vieram à tona todas as frustrações; quebraram-se as lentes cor-de-rosa que me interditavam a visão da realidade; vislumbrei a vida em toda sua crueza. De um mero jogo entre dois seres, aqui estou eu, estranho animal ora alegre, ora infeliz. Amanhã meus óculos ganharão novas lentes cor-de-rosa e só verei a praia, as ondas, a brisa... Mas hoje me masturbo para não repetir o erro de meu pai. Veja mais aqui, aqui e aqui.

JE T´AIME... MOI NON PLUS: PAIXÃO SELVAGEM - Je t'aime... moi non plus é uma polêmica canção que foi proibida em diversos países, do cantor e compositor francês Serge Gainsbourg (1928-1991). É tema do filme de mesmo nome (Paixão Selvagem, 1974), dirigido pelo autor da música e estrelado pela lindíssima atriz e cantora inglesa Jane Birkin. Em 2004, a atriz, cineasta e cantora portuguesa Maria de Medeiros, realiza um documentário com o mesmo título - Je t’aime... moi non plus: artistes et critiques -, abordando as relações entre a crítica cinematográfica e realizadores, com depoimentos de Manoel de Oliveira, Almodóvar, Cronenberg e Wenders, tendo por cenário a edição de 2002 do festival de Cannes. Veja mais aqui, aquiaqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Espetáculo Só tinha de ser com você (2005) da companhia goiana Quasar Cia de Dança.


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Credibilidade da imprensa brasileira, a literatura de Cervantes, a História da imprensa de Nelson Werneck Sodré, a Imprensa de Millôr Fernandes, a música de Eduardo Gudin, Beijo no asfalto de Nelson Rodrigues & a arte da jornalista Enki Bracaj aqui.

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Todo dia o Sol se põe para uma nova alvorada..., O homem unidimensional de Herbert Marcuse, a literatura de Amos Oz & Machado de Assis, a poesia de Safo, a música de Händel & Caroline Dale, o cinema de Blake Edwards & Audrey Hepburn, a arte de Keith Haring, o humor de Ronald Golias, a pintura de Frederic Edwin Church & François Gerard aqui.
Matizes, a poesia de Luís Vaz de Camões, a literatura de Jean de La Fontaine, O cartesianismo científico de Paulo Cesar Sandler, A lenda do Cavalo sem cabeça de Luís da Câmara Cascudo, Hécuba de Eurípedes, a música de Villa-Lobos & Celine Imbert, Clítia & a escultura de Hiram Powers, a arte de Esther Góes, o cinema de Woody Allen, Tiradas do Doro, a pintura de Hans Hassenteufel & Gustave Courbet aqui.
Brincarte do Nitolino, a literatura de Nélida Piñon, a música de Igor Stravinski, a poesia de Augusto dos Anjos, O antiteatro de Eugène Ionesco, o cinema de Graeme Clifford & Jessica Lange, a arte de Frances Farmer, a pintura de Joan Miró, As emoções de Suely Ribella, Papel no Varal & Ricardo Cabus aqui.
Freyaravi & o circo dos prazeres, Cultura de consumo pós-moderna de Mike Featherstone, Os contos brasileiros de Julieta de Godoy Ladeira, O kama sutra de Vātsyāyana, a música de Marisa Monte, a fotografia de Ralf Mohr, a pintura de Crystal Barbre & Luciah Lopez aqui.
Lualmaluz, De segunda a um ano de John Cage, Técnica e ciência de Jürgen Habermas. a História da literatura de Nelson Werneck Sodré, a música de Sally Seltmann, a performance de Marni Kotak, a pintura de Théodore Géricault, a escultura de George Kurjanowicz, a arte de Moisés Finalé & Luciah Lopez aqui.
Quando tudo é manhã do dia pra noite, A agonia da noite de Jorge Amado, a música de Bizet & Adriana Damato, o Folclore musical de Wagner Ribeiro, a pintura de Aleksandr Fayvisovich, Postuman bodies de r Judith Halbertam & Ira Livingstone, a fotografia de Christian Coigny & Bryan Thompson, a arte de Mirai Mizue & Luciah Lopez aqui.
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Feliz aniversário: resiliência, perspectivas & festas, o pensamento de Paulo Freire, a literatura de Octavio Paz, A resiliência de Makilim Nunes Baptista, a música de Midori Goto, a pintura de Luis Crump, Babi Xavier, a arte de Fabrice Du Welz & Luciah Lopez aqui.
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    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...