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segunda-feira, dezembro 20, 2021

JENNIFER EGAN, NÂZIM HIKMET, SLOTERDIJK, KAREN FINLEY, ASCESE & COISAS DE PERNAMBUCO

 

 

TRÍPTICO DQP – Vidadiante... - Ao som de Violin Concerto in D minor – Allegro Moderato, Adagio di molto, Allegro, ma non tanto (1903), de Jean Sibelius, na interpretação da violinista estadunidense Sarah Chang com a Radio Filharmonisch Orkest (RFO), conducting Jaap van Zweden. – Sexta-feira, 6 de abril de 1936. Um dia marcado para quem nasceu a 9 de outubro, em Belém, na virada do século 20. A notícia me chegara como O grito de Munch! Ouvi de viva voz Vontade de quem? (era um réquiem para o poeta MM): O enterro do menino rico / Encontrou o enterro do menino pobre. / Na porta do cemitério / O pai do menino pobre / Pensa que o filho morreu por falta de recursos. / O pai do menino rico / Não sabe a que atribuir a morte do seu filho. Era como se do velório Ismael Nery se levantasse vestido num hábito dos franciscanos, um ar de beatitude para me dizer da Arte e artista: O fato de haver homens inicialmente propensos a certas emoções apenas serve para provar que as deformidades morais, tanto como as físicas, também são hereditárias, coisa aliás sabidíssima. O seu jeito amável e saiu saudando um a um dos convidados. A belíssima viúva Adalgisa: a vida dissipada nos olhos que se fecharam diante de mim e mais parecia que ela não mais possuía quase nenhuma força para abri-los. Deitou sua cabeça ao meu ombro, quem diria, aquela beleza exaltada, parecia se despedir e caí dentro dos seus sonhos que me levou para tantos outros intermináveis. Neles ouvi Eu: Eu sou a tangência de duas formas opostas e justapostas / Eu sou o que não existe entre o que existe, / eu sou o amor entre os esposos. / Eu sou o marido e a mulher. / Eu sou a unidade infinita. / Eu sou um deus com princípio. / Eu sou poeta! Era a filosofia Essencialista dele ali como se nem tivesse morrido explicando a abstração do tempo e do espaço, na seleção e cultivo dos elementos essenciais à existência neotomista e extremamente católica que eu sequer queria saber, apenas da sua arte. Na cabeça do caixão estava prostrado Murilo Mendes - o vasculhador do lixo para as coleções de arte e que Pedro Nava me dizia do Círio perfeito - Memórias (Nova Fronteira, 1983): o poeta teve um verdadeiro êxtase místico, um anarquista que se fez, dali por diante, cristão. E o vi como se tivesse acometido de um desmaio de não sei quantos dias. Ao lado dele o inseparável amigo Jorge de Lima, produzia as fotomontagens de A pintura em pânico (1943) e das trocas epistolares para recriação da voz na Restauração da poesia em Cristo (1935). Eram as brancas nuvens já quase centenárias: Aos vivos que restam dos mortos. De repente me apareceu agitadíssima a escritorestadunidense Jennifer Egan, como se repetisse inconsolável as palavras impressas do seu premiado A Visit from the Goon Squad (Anchor, 2011): Eu não quero desaparecer, eu quero queimar - eu quero que minha morte seja uma atração, um espetáculo, um mistério. Um trabalho de arte... Existem tantas maneiras de dar errado. Tudo o que temos são metáforas, e elas nunca estão exatamente certas. Você nunca pode simplesmente dizer. O. Coisa... Insatisfação estrutural: Voltar às circunstâncias que antes lhe agradavam, depois de ter experimentado um estilo de vida mais emocionante ou opulento, e descobrir que não pode mais tolerá-las... Abracei-a completamente descontrolada e a consolei na tentativa inútil de aceitar o seu paroxismo. Eu sabia. Está tudo certo, não há como escapar: foi assim que construímos nossa história.

 


Outrascese... - Imagens: arte da performática artista, musicista e poeta estadunidense Karen Finley. - O que sabia eu daquilo tudo, impossível decifrar: só o eco - askesis. E era uma voz de mulher com os versos do Cântico dos Cânticos em duo comigo: O gosto da última vez... E era como se o amor ali assumisse o cuidado do outro e pelo outro. O que sei dos cínicos? Apenas Antístenes isolado para a virtude e contra as horríveis sensações constantes em luta na vida sobrecarregada de dor, sofrimento, ódio e violência, e ter de tomar o duro caminho da continência e da virtude. E agonizante diante do punhal de Diógenes, diz apenas: Quero me livrar dos meus tormentos e de minhas dores, e não de minha vida. Ambos viviam entre a austeridade e o confronto com os costumes da sociedade à época. Dos estoicos? Tanto Zenão, quanto Sêneca ou Epicteto, anacoretas que recusavam o prazer escapando ao domínio dos sentidos. Dava pra ver Epicuro aboletado em seu jardim com os seus discípulos, rejeitando toda e qualquer participação pública: Nunca é tarde para se filosofar. Não queremos um corpo que viva eternamente, mas também não queremos morrer jovens. Não vamos para a guerra e não queremos morrer tão cedo porque nossa batalha é outra. Conta-me da Vida de Macrina: elogio de Basílio (Ciudad Nueva, 1995), do escritor turco cristão Gregório de Nissa (335-394) - também autor da obra A criação do homem: a alma e a ressurreição – a grande catequese (Paulus, 2011) -, contando a história de sua irmã que era de uma família rica e, ao abdicar da vida material e abastada, progrediu na vida ascética, para viver minimamente e em conjunto com os criados em igualdade. Foi daí que os cristão passaram a tratar do método perseverante no desapego das coisas do mundo para aproximarem-se de Deus, advindo daí práticas como jejuns, penitências e abstinências. Acho tudo isso nada agradável, até repudio. E logo Kierkegaard renunciou ao amor da mulher amada e aos prazeres do mundo. Atrás dele Schopenhauer me propunha ascese radical: mortificação e aniquilação do ser como um todo. Não, calma. E lá veio Wittgenstein prisioneiro ao se tornar voluntário de guerra, preferia a doutrina do silêncio para renunciar à fortuna familiar e se tornar apenas bibliotecário e jardineiro apenas em troca de comida. Foi aí que Max Weber trouxe o espírito capitalista: uma atitude permanente de calcular e administrar que pode ir além dos negócios, passando pela vida na ausência de pecado para a acumulação, pela separação da economia doméstica. Nada daquilo me interessava. Foi Leminski que trouxe o seu ensaio Ascese e escassez (Diário do Paraná, 1977), com seus questionamentos diante da iminente catástrofe ambiental pelo esgotamento dos recursos naturais e hecatombe nuclear dos anos de 1970: Nunca o desenvolvimento tecnológico (quantitativo, progressivo, inexorável, tomado como um Absoluto Onipotente) vai poder estender a todos os homens de todas as raças aquele nível de vida hollywoodiana (carros na garagem, um aposento para cada filho, geladeira cheia): os recursos naturais vão acabar bem antes. E aproveitou para me falar de Pierre Hadot e das suas obras: La Citadelle Intérieure (Arthème Fayard, 1997) e Apprendre à philosopher dans l’Antiquité (LGF, 2004), só para que eu compreendesse os exercícios espirituais. Sim, claro, prometi lê-los. E trouxe A hermenêutica do sujeito (Martins Fontes, 2004), de Foucault, relacionando ao cuidado de si e da prática de si que não tinham por princípio a submissão do indivíduo à lei, mas ligar o indivíduo à verdade. Tudo isso me parecia muito Karl Jaspers com a sua atenção a si, não fosse a intromissão da antropotécnica do Du musst Dein Leben ändern. Über Antropotechnik (Suhrkamp, 2009), de Peter Sloterdijk: Como exercício defino qualquer operação que conserva ou melhora a qualificação do ator para realizar a mesma operação da próxima vez, seja ela declarada como exercício ou não. E já era noite no ventre da espera e a esfinge do jardim desaparecera. Não sabia se seria lá o demônio do primeiro dia que estava por vir ou se o rio dormia e ninguém ousaria acordá-lo para inventar mais um dia na semana e como se chamaria, porque a Selenita da Lua logo apareceu para me lembrar do que havia esquecido.

 


A sopa & nunca mais... - Já era sábado, divagações à parte. Senti que estava prestes a testemunhar algo de muita importância, precavido como se daqui a pouco: teibei! Sempre de véspera, atento. Sim e era a criança Priscilla, ah, menina linda que apadrinhei, meus compadres: o artista plástico Javanci Bispo e a poeta Sandra Lustosa. Eu havia musicado um poema dela: Espera. Já nem lembro mais. Mas a cena do banquete, isso não esqueci. Boquinha da noite, lá fui eu, mulher e filhos, para a Torre: chegada e abraços, cervejas e bom papo, a hora da janta regada a camarões, lagostas, pratos finos, tudo degustado com o luxo do ar refrigerado da sala enorme do apartamento. Altas horas e nos despedimos com o acerto de que no outro sábado, seria comigo lá em casa. Sequer imaginava que a semana seria difícil. Ao chegar sexta, nenhum tostão catado no bolso. Nem dava mais tempo remarcar, deixei correr. Consegui umas cervejas com um pendura num boteco vizinho. E a janta? À hora marcada, lá estavam os três. Tudo corria bem com a expectativa, era chegado o momento de nos conduzir à improvisada saleta de jantar apertada pelas estantes amontoadas de livros. Nem deu direito ouvi-lo: Sopa, compadre? Não sei como administrei o desastre daquilo tudo. Sei que a partir de então nunca mais vi-los. Décadas se passaram e deles apenas a fisionomia da poeta na face da atriz dinamarquesa Anna Karina (1940-2019) das cenas de Godard, zanzando linda na imaginação das emoções extraviadas. Dos meus pedaços os fragmentos de deslizes fatais que ficaram como grito da mata, em comum desacordo, em suspensão, a ponto de sequer saber se eu era o Júnior da Tarde de Domingo de Gilvan Lemos, aquele mesmo que Deus tapeava e tudo fazia para prejudicá-lo; ou se era o Vitório da Reunião de ternuras e afetos do Raimundo Carrero, ou mesmo que me dissesse aquele trecho sintomático da Travessia de Sônia van Dijck: Vidinha besta! Depois de tanto tempo, teria um final de semana... ainda pode dar certo... não custa nada tentar... quem precisa de camisola, meias pretas, liga, na hora? Não custa nada tentar... ainda “nosso poeta”?... Não, havia apenas um poema do dramaturgo turco Nâzım Hikmet (1901-1963), o 7 de outubro de 1945: Atravessaram o mar aberto os gritos dos homens à noite / com os ventos. / Passear ainda é perigoso / no mar aberto à noite... / Faz seis anos que este campo não é arado, / estão lá os rastros dos tanques como sempre estiveram. / Os rastros dos tanques estarão cobertos / de neve neste inverno. / Ó luz dos meus olhos, luz dos meus olhos, / os noticiários estão mentindo de novo: / para que o balanço dos exploradores feche com cem por cento de lucro. / Mas quem voltou do banquete do Anjo da Morte / voltou com a sentença... E o domingo passou de um jeito que nem vi no meio das leituras e de um sono infinito. Já na madrugada da segunda, o meu abrigo. Como terminou? Não tem fim, tudo segue, a vida passa, outro amanhã. Até mais ver.

 

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sexta-feira, dezembro 04, 2015

PASTORIL DO DORO, RILKE, LEUCIPO, GODARD, PUCCINI, KATIUSCIA, CALLAS, JULIA CRYSTAL, SERPIERI & MUITO MAIS!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? O PARTORIL DE PONTA DE RUA – Ah! Vocês nem queiram saber! Arreparem só, que despropósito! Depois de muito cavoucar o ano todo e pelejar demais na vida, Doro, que não se emenda, teve uma ideia, pode? Ih, isso para mim é bronca certa! E das grandes! Pode esperar o bafafá que o negócio é fogo na roupa! Verdade. Nunca vi sujeito de neurônios tão tresloucados: quando pensa, peida; quando fala, caga. Um meladeiro sem fim. Mas vamos nessa. Aproveitando da visita que a Marcialita fizera à sua casa materna, deixando o sujeitinho sujo mais solto que cabrito no roçado, só refinando as habilidades para aprontar mais uma das suas, ele deu asas à imaginação. E foi mesmo: o negócio se agigantou no tino dele. E como! Só faltou se estuporar de tão grandiosa. Mas vamos lá. Como se aproximava dos festejos natalinos, a coisa maquinada tomou corpo no seu intento. Já via tudo pronto: tablado colorido, pastorinhas boazudas, Diana gostosa, muita dança, movimento e munganga das boas. Quando o espetáculo tomou forma dentro do seu gosto troncho e duvidoso, ele saiu boatando que se prestava a fazer um presépio em homenagem ao nascimento do nosso senhor Jesusisinho, só faltando as pastorinhas para engalanar seu projeto. Só faltava isso? Ôxe, num faltou pai de família decente que não encaminhasse até o recinto da seleção todas as suas filhas para compartilhar de evento tão sagrado. Verdade, repito, o negócio tomou vulto mesmo. Foi gente de fugir pelo ladrão. E ele só se deleitando da coisa boa: nunca vira tanta mulher na vida de uma vez só. E ali, bem pertinho dele, só pro seu reinado. De chapa ele dispensava todas as barangas, trubufus e mocréias. Nem catraias queria. Só beldades reboculosas mesmo. E saiu escolhendo a dedo a mestra do cordão encarnado, a contramestra do cordão azul, a Estrela D´Alva, a Estrela de Belém, as pastorinhas, nada de anjos ou borboletas que isso, segundo ele, é coisa de baitola. No meio delas apareceu uma mais espalhafatosa. Doro esbugalhou-se porque a dita cuja, realmente, chamava atenção: bunduda, jeitosona, pernuda, espaçosa e com uma língua, nossa, que ela estirava tremulando entre os lábios, nem camaleão! Animou-se todo Doro e já deu por certo como a Diana. A empolgação foi tão grande que ele prometeu mundos e fundos e, até, uma apresentação pro bispo defronte da matriz. Ôxe, aí é que foi a maior das satisfações para toda banda. E tome ensaio pra cima e pra baixo, ele organizando tudo, adaptando sutilmente do sagrado para o profano mais cabeludo da paróquia. A cada ensaio, quanto maior a intimidade se estreitava dele no meio de meio mundo de mulher, mas ele tornava a coisa mais sem-vergonha, a ponto de conseguir convencê-las a usarem fio dental, sutiãs menores que o número do busto, saínhas curtíssimas de deixar tudo de fora, meio mundo de presepada para causar a maior sedução. E contava com irrestrito apoio: tudo isso capitaneado pela mais corajosa de todas, que era a Diana, que além de aprovar tudo e aceitar no ato todas as invencionices dele, já sugeria até, no final, um strip-tease geral fuderoso de deixar os neguinhos cristãos de queixo caído. E Doro solto na buraqueira e todo ancho, parecia mais que havia sido eleito presidente da república. Tudo bão demaiiiiis!!! Às vésperas, tudo nos conformes, estava marcado o ensaio geral, ao que as participantes convidaram os pais para ver. Doro não sabia e ensaiava as piadas pornográficas, as cançonetas picantes, o andamento da coisa com leilão de beijos, abraços, sarros, pegadas, trepadas até, isso no final, sortear mediante pagamento vultoso, a xoxota de uma, a chupada de outra, o cu da maior, a trepada na menor e assim por diante. O negócio ia bem, até que quando chegou a hora do leilão, os pais, até então escondidos atrás do muro do quintal, partiram pra cima querendo uns participar daquela putaria, enquanto outros fulos da vida queriam acabar embaixo do maior quebra-pau. Resultado: não houve entendimento e não sobrou nada em pé ao redor. Não deu outra: era uma vez. Ao término do buruçu só sobrou de mesmo, a Diana e o Doro. Como para ele fudido por um, fudido por mil, Doro sapecou converseira macha pra cima da ditosa. Ôxe, ela se salientando, se ajeitando, se dismilinguindo e ele tome a sapecar beijos, abraços e apalpadelas. O xambrego pegou fogo. Agarrados na maior sem-cerimônia. E tome esfregamentos, impados, reboculejos e sassaricados. Na hora do vamos ver, ih, a coisa empenou. Ela se dizendo virgem, não queria deixar o Doro se enfiar na sua donzelice. Ih, entornou o caldo! Ele foi pra lá, foi pra cá, enervou-se e, depois de horas confabulando, entraram num acordo: a moça deixou que ele esfolasse o pingulim no catimbofá dela. Menos mal, quem não tem cheba azeitada, faz feira geral no caneco da pinica. Foi aí que ele cuspiu no pau e reparou o alvo da vítima em decúbito ventral, com a popa da bunda empinada para cima. Um colosso. Quando se apronta para tascar a pontaria na caçapa dela, Doro sente que algo estranho está ocorrendo. Ele não acredita. Espreme os olhos e se certifica. Nossa! Aquilo não era um pinguelo, era um pitocão maior que o dele mesmo. Aí berrou: viado!!! Isso é sacanagem, viado! Nessa hora Marcialita adentra com a bruguelada e flagra aquela cena indecorosa: Doro furioso com o seboso na mão se apontando para enfiar-se no pirôbo jeitoso de quatro. Aí é que ao invés de natal, deu-se, foi no fim de tudo, um verdadeiro carnaval. Nem queiram saber do frevo. Veja mais aqui e aqui.


Imagem: Druuna, do escritor, artista plástico e ilustrador italiano Paolo Eleuteri Serpieri.


Curtindo a ópera em quatro atos La bohème (1896 – baseada no livro Scènes de la vie de bohème, de Henri Murger / EMI, 1997), do compositor italiano Giacomo Puccini (1858-1924), com a cantora lírica estadunidense de origem grega, Maria Callas – La Divina (1923-1977), conductor Antonio Votto & Milan Teatro alla Scala Orchestra & Scala Chorus.

A GRANDE ORDEM DO MUNDO – O filósofo grego Leucipo de Mileto (entre 500-430aC), é considerado o autor da teoria dos átomos e das obras A grande ordem do mundo e Sobre o Espírito. Tido como o fundador do célebre sistema atomístico, que se valeu como princípio da pesquisa natural racional. Foi ele quem distinguiu as qualidades universais dos corpos das coisas sensíveis, chamando essa qualidade de especulativa, pelo fato de ele ter determinado o elemento corpóreo através do conceito ou pelo fato de ter determinado a essência do corpo, efetivamente de modo universal. Em Leucipo aparece a determinação do ser, do ser-para-si, o positivo como um que é-para-si e o negativo como vazio. O ser-para-si passa a ser uma determinação essencial e necessária do pensamento. O um é agora e é sempre e deve aparecer em cada filosofia lógica, como momento essencial, mas não como último. Assim, o ser-para-si é um grande princípio. O devir é apenas a passagem do ser para o nada e do nada para o ser, onde tudo é negado. Para ele o um é ainda o um abstrato, aparecendo a representação de que os átomos são invisíveis, de que não se pode vê-los por causa da sua pequenez e da sua corporalidade. O seu pensamento é expresso pela frase: Nenhuma coisa se engendra ao acaso, mas todas a partir da razão e por necessidade. Veja mais aqui e aqui.

CARTAS A UM JOVEM POETA – No livro Cartas a um jovem poeta (L&PM, 2009), do escritor alemão Rainer Maria Rilke (1875-1926), destaco o trecho: [...] Paris, 17 de fevereiro de 1903 Prezado Senhor, Sua carta só me alcançou há poucos dias. Quero lhe agradecer por sua grande e amável confiança. Mas é só isso o que posso fazer. Não posso entrar em considerações sobre a forma dos seus versos; pois me afasto de qualquer intenção crítica. Não há nada que toque menos uma obra de arte do que palavras de crítica: elas não passam de mal-entendidos mais ou menos afortunados. As coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível, realiza-se em um espaço que nunca uma palavra penetrou, e mais indizíveis do que todos os acontecimentos são as obras de arte, existências misteriosas, cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa. Feita essa observação prévia, posso lhe dizer ainda que seus versos não possuem uma forma própria, mas apenas indicações silenciosas e veladas de personalidade. Sinto esse tipo de indicação de modo mais claro no último poema, "Minha alma". Ali, algo de próprio quer ganhar expressão. E no belo poema "A Leopardi" talvez se desenvolva uma espécie de afinidade com aquele grande solitário. Apesar disso, os poemas ainda não são independentes, não têm autonomia, mesmo o último e o dedicado a Leopardi. Sua carta amável que os acompanha não deixou de me esclarecer alguma insuficiência que senti ao ler seus versos, sem no entanto ser capaz de designá-la pelo nome. O senhor me pergunta se os seus versos são bons. Pergunta isso a mim. Já perguntou a mesma coisa a outras pessoas antes. Envia os seus versos para revistas. Faz comparações entre eles e outros poemas e se inquieta quando um ou outro redator recusa suas tentativas de publicação. Agora (como me deu licença de aconselhá-lo) lhe peço para desistir de tudo isso. O senhor olha para fora, e é isso sobretudo que não devia fazer agora. Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo, ninguém. Há apenas um meio. Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isto: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples "Preciso", então construa sua vida de acordo com tal necessidade; sua vida tem de se tornar, até na hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho desse impulso. Então se aproxime da natureza. Procure, como o primeiro homem, dizer o que vê e vivencia e ama e perde. Não escreva poemas de amor; evite a princípio aquelas formas que são muito usuais e muito comuns: são elas as mais difíceis, pois é necessária uma força grande e amadurecida para manifestar algo de próprio onde há uma profusão de tradições boas, algumas brilhantes. Por isso, resguarde-se dos temas gerais para acolher aqueles que seu próprio cotidiano lhe oferece; descreva suas tristezas e desejos, os pensamentos passageiros e a crença em alguma beleza - descreva tudo isso com sinceridade íntima, serena, paciente, e utilize, para se expressar, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Caso o seu cotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo, diga para si mesmo que não é poeta o bastante para evocar suas riquezas; pois para o criador não há nenhuma pobreza e nenhum ambiente pobre, insignificante. Mesmo que estivesse em uma prisão, cujos muros não permitissem que nenhum dos ruídos do mundo chegasse a seus ouvidos, o senhor não teria sempre a sua infância, essa riqueza preciosa, régia, esse tesouro das recordações? Volte para ela a atenção. Procure trazer à tona as sensações submersas desse passado tão vasto; sua personalidade ganhará firmeza, sua solidão se ampliará e se tornará uma habitação a meia-luz, da qual passa longe o burburinho dos outros. E se, desse ato de se voltar para dentro de si, desse aprofundamento em seu próprio mundo, resultarem versos, o senhor não pensará em perguntar a alguém se são bons versos. Também não tentará despertar o interesse de revistas por tais trabalhos, pois verá neles seu querido patrimônio natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando surge de uma necessidade. É no modo como ela se origina que se encontra seu valor, não há nenhum outro critério. Por isso, prezado senhor, eu não saberia dar nenhum conselho senão este: voltar-se para si mesmo e sondar as profundezas de onde vem a sua vida; nessa fonte o senhor encontrará a resposta para a questão de saber se precisa criar. Aceite-a como ela for, sem interpretá-la. Talvez ela revele que o senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso, aceite sua sorte e a suporte, com seu peso e sua grandeza, sem perguntar nunca pela recompensa que poderia vir de fora. Pois o criador tem de ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si mesmo e na natureza, da qual se aproximou. Mas talvez, depois desse mergulho em si mesmo e em sua solidão, o senhor tenha de renunciar a ser um poeta (basta, como foi dito, sentir que seria possível viver sem escrever para não ter mais o direito de fazê-lo). Mesmo assim não terá sido em vão o exame de consciência que lhe peço. Seja como for, sua vida encontrará a partir dele caminhos próprios, e que eles sejam bons, ricos e vastos é o que lhe desejo mais do que posso manifestar. O que ainda devo dizer ao senhor? Parece-me que tudo foi enfatizado da maneira apropriada; por fim, gostaria apenas de aconselhá-lo a passar com serenidade e seriedade pelo período de seu desenvolvimento. Não há meio pior de atrapalhar esse desenvolvimento do que olhar para fora e esperar que venha de fora uma resposta para questões que apenas seu sentimento íntimo talvez possa responder, na hora mais tranqüila. Foi para mim uma alegria encontrar em sua carta o nome do professor Horacek; guardo uma grande estima por esse amável sábio, e uma gratidão que se mantém através dos anos. Por favor, mencione a ele o que sinto; é muita bondade que ainda se recorde de mim, e sei apreciá-la. Devolvo também os versos que o senhor me confiou amigavelmente. E lhe agradeço mais uma vez pela grandeza e pela cordialidade de sua confiança, de que procurei me tornar um pouco mais digno do que realmente sou, como um estranho, por meio desta resposta sincera, feita da melhor maneira que pude. Com toda devoção e toda simpatia, Rainer Maria Rilke. [...] Veja mais aqui e aqui.

O LIVRO DE HORAS – No livro Poemas (Companhia das Letras, 2012), do poeta alemão Rainer Maria Rilke (1875-1926), destaco o poema Do Livro de Horas, traduzido por José Paulo Paes: A minha vida eu a vivo em círculos crescentes sobre as coisas, alto no ar. Não completarei o último, provavelmente, mesmo assim irei tentar. Giro à volta de Deus, a torre das idades, e giro há milênios, tantos... Não sei ainda o que sou: falcão, tempestade ou um grande, um grande canto. Se tantas vezes te importuno, ó Deus meu vizinho, batendo forte à tua porta na noite extensa, é porque te ouço respirar, da tua presença sei: estás na sala, sozinho. Se de algo precisares, não há ninguém ali que possa te trazer um gole d’água sequer. Vivo sempre à escuta. Dá-me um sinal qualquer. Estou bem perto de ti. Entre nós há apenas um muro, coisa pouca, por mero acaso aliás; bem pode ser que um grito da tua ou minha boca — e eis que se desfaz sem só rumor ou ruído. Com imagens tuas o muro foi construído. Diante de ti tuas imagens são como nomes. E quando um dia dentro de mim esteja acesa a luz com que te conhece minha profundeza, será, nas molduras, brilho que se esbanja e some. E os meus sentidos, que um torpor célere consome, estão sem pátria, exilados da tua grandeza. Tu, obscuridade de onde emana meu ser, amo-te mais do que à chama que o mundo reduz ao círculo da sua luz: ali dentro, resplandece; fora dali, ser nenhum a reconhece. Mas na obscuridade tudo se contém: as formas e as chamas, os animais e eu também, nela que consorcia existências e energias — pode bem ser que uma força sombria se mova em minhas cercanias. É às noites que minha alma se confia. Obreiros somos — mestre, aprendizes, serventes — e te construímos, ó grande nave altaneira. Às vezes chega a nós um peregrino silente; ei-lo que como um clarão cruza as nossas cem mentes e trêmulo nos traz alguma nova maneira. Galgamos andaimes que ao nosso passo estremecem; maciços os martelos que nossas mãos sustêm; isso até aflorar-nos a fronte uma hora que se irisa e fulge como se de tudo soubesse: como o vento vem do mar, é de ti que ela vem. Ouve-se então um malhar de martelos inúmeros que, golpe após golpe, pelas montanhas se expande. Só te deixamos quando a noite cai e no escuro podemos já ver-te os vagos contornos futuros. Deus, como tu és grande. Veja mais aqui e aqui.

DE MARIE A POUTPOURIR - A trajetória da atriz e humorista Katiuscia Canoro começou no teatro em 1992, fazendo peças no colégio e na praia. A partir de então, ela carrega na bagagem as peças teatrais Marie (1992), Amor de Ciclovia (1992), O poder da Amizade (1993), Os Ovos De Pascoa Sumiram (1994), A Bruxinha Que Era Boa (1995), Festa do Uirapuru (1995), A Floresta Sumiu (1996), Anjos e Pecados (1998), O Auto Da Compadecida (1999), Estrada do pecado (2004), Medea Material (TCP, 2004) Gatos Musical Rock (2005), Mulheres de Chico (2005), Pânico No Mercado (2005), Contadores de Historias (2005), O Pentáculo (2006), CintaLiga (2006), Humor Com Sabor Picante (2006), Memória (2006), Risorama (2006), D. Graça (2007), Macbeth (2007) e PoutPouRir (2008). Na televisão ela fez sucesso com a personagem Lady Kate, do programa Zorra Total, afora criar vários personagens a partir da observação do cotidiano. No cinema participou dos curtas Vovó Vai Ao Supermercado 2004), Sem Ana (2005), À Guisa de Orquídeas (2005), Do papel pra tela (2005), E aí... comeu? (2012) e Divertida mente (2015). Veja mais aqui.

VIVRE SA VIE – O filme Vivre sa Vie (Viver a Vida, 1962), polêmico e provocador cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard, contém um tom mais realista e sem muitos dos diálogos icônicos do diretor, contado em 12 capítulos sem nenhuma ligação, Nana é uma jovem que abandona o seu marido e o seu filho para iniciar sua carreira como atriz. Para financiar sua nova vida começa a trabalhar numa loja de discos, mas não ganha muito dinheiro. Como não consegue pagar o aluguel, Nana é expulsa de casa e decide virar prostituta. No primeiro dia que começa a trabalhar na rua, reencontra Yvette, uma velha amiga que lhe confessa que também se prostitui por necessidade. Yvette lhe apresentará a Raoul, que se tornará seu cafetão. A partir desse momento, Nana irá introduzindo-se progressivamente no mundo da prostituição. O destaque do filme vai para a atriz dinamarquesa Anna Karina, que começou a carreira como modelo até se casar com o diretor do filme e se tornar uma das atrizes-símbolo da Nouvelle vague. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A fotografia de Louis Jean Baptiste Igout (1837-1880).
Veka mais aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à belíssima e talentosa cantora Julia Crystal. Veja aqui.


terça-feira, setembro 22, 2015

ASTURIAS, FARADAY, LÖWI, HERMILO, GONZAGUINHA & PROGRAMA TATARITARITATÁ!



VAMOS APRUMAR A CONVERSA? JOÃO SEM TERRA – (Imagem: matéria do Diário de Pernambuco, coluna Teatro, do Jornalista Valdi Coutinho, Caderno Viver, 13 de outubro de 1985; foto Leonilda Silva e Valter Portela em cena, ingresso do espetáculo, panfleto e autorização do inventariante Paulo Cavalcanti, então presidente da União Brasileira de Escritores (UBE-PE). Tudo começou numa conversa entre Juareiz Correya, então presidente da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, e os membros da Revista A Região, Gilberto Melo, Paulo Caldas e Arnaldo Afonso Ferreira, me convocando para encenar a peça teatral João sem terra, de Hermilo Borba Filho. Providenciaram o texto e me sacudiram na caixa dos peitos. Li, reli, resolvi topar e comecei a fazer uma adaptação, já bolando uns temas musicais com o Fernandinho Melo Filho. Isso era 1983, mais ou menos. Gilberto falou de um grupo de jovens palmarenses que estavam interessados em encenar algo parecido; era o Grupo Terra. Acertamos que no final de semana eu iria para Palmares conhecer o pessoal. Cheguei lá tinha para mais de 40. Comecei conversando e fui fazendo uns testes, uma peneirada na verdade. Ali mesmo comecei um curso de formação de ator e fui realizando oficinas até findar em apenas 10 atores que se encontravam aptos para a empreitada. Fui severo porque eu tinha que castigar nas marcas, realizando exercícios, experimentações e laboratório para que a turma entrasse no clima da peça. Foram quase dois anos de oficina e de ensaios todo final de semana que eu virava noite de sábado pro domingo. Durante a semana, em Recife, eu ensaiava a trilha sonora que compus com Fernandinho e já organizávamos tudo pra gente entrar no estúdio com os músicos e deixar tudo prontinho. Mas faltava uma coisa: cadê a autorização da família de Hermilo? Foi quando encontrei o escritor e advogado Paulo Cavalcante e ele, na condição de inventariante, demonstrou favorável pela encenação e, no dia seguinte, me entregou a devida autorização. Tudo pronto, tudo nos conformes. Mas... nem tudo corria bem: o teatro Apolo ainda não estava pronto. Corriam com as obras da reforma até mesmo horas antes da estreia do espetáculo. Uma correria. O grupo Terra era formado por Walter Portela, Leonilda Silva, Roberto Quental, Nazaré Silva, Erivaldo Guerra, Katia Cilene, Clecio Roberto, Silvania Conceição, Celia Santos e Andrea Silva, tudo no ponto. Tudo pronto praquele sábado que marcaria o retorno do Teatro Cinema Apolo. Pra nossa felicidade o Valdi Coutinho emplacou uma matéria na sua coluna do Diário de Pernambuco e fizemos uma boa entrevista na Radio Cultura dos Palmares. Nem bem deu 19hs e o público já se esgueirava se aboletando na plateia, enquanto o pessoal técnico ainda estava findando as obras da reforma no meio da afinação das luzes e som, ajuste do cenário, tudo pronto, mesmo assim, e... vingou! Tudo conforme o combinado: o elenco estava primoroso superando tudo! Tudo deu certo na estreia! Aplausos. Valeu por tudo. E veja mais aqui, aqui e aqui. 

 Imagem: Odalisque, do pintor austríaco Franz Russ Jnr. (1844 – 1906)


Curtindo o álbum De volta ao começo (EMI, 1980), do cantor e compositor Luiz Gonzaga Junior – o Gonzaguinha (1945-1991), com participações de Milton Nascimento, MPB-4, Marília Medalha e As Frenéticas.

LEI DA INDUÇÃO ELETROMAGNÉTICA - O físico e químico inglês Michael Faraday (1791-1867) verificou que os magnetos exercem ação mecânica sobre os condutores percorridos pela corrente elétrica. Para chegar a essa constatação, ele colocara um imã verticalmente sobre um banho de mercúrio, fazendo que uma de suas extremidades ficasse imersa no liquido. Ligando um fio condutor ao mercúrio, fechando o circuito, verificou que, quando o fio era móvel em torno de seu ponto de suspensão, descrevia círculos em volta do imã. Caso contrário, fixando-se o fio e liberando o imã, este girava em torno do fio. Com experiência singela, mas de extraordinárias consequências para a tecnologia, Faraday criara o primeiro motor eletromagnético. Em 1831, após memorável experiência, descobriu a indução eletromagnética, utilizando um anel de ferro doce, no qual enrolou duas espiras, uma na metade superior e outra na inferior, uma das quais ligada a um galvanômetro. Ele verificou que, se uma corrente elétrica passava na primeira espira, a outra era igualmente percorrida pela corrente, nos exatos momentos em que se abria ou se fechava o circuito. Demonstrou, ainda, que as correntes induzidas não são criadas por influência do campo eletromagnético, mas pelas variações do campo ou pelos deslocamentos do circuito no campo. Da Lei da Indução Eletromagnética, ele estabeleceu as leis da eletrólise que são duas: a primeira enuncia-se que a massa de substância decomposta pela eletrólise é proporcional à quantidade de eletricidade que atravessa o eletrólito; a segunda, as massas de diferentes substancias liberadas pela mesma quantidade de eletricidade são proporcionais aos respectivos equivalentes-grama de qualquer substância. Além disso, descobriu que o plano de polarização de um feixe de luz polarizada, que atravessa um bloco de vidro, gira quando submetido a um forte campo magnético, denominando-se este fenômeno de Efeito Faraday. Veja mais aqui.

IDEOLOGIAS E CIÊNCIAS SOCIAIS - O livro Ideologias e ciências sociais: elementos para uma análise marxista (Cortez, 2010), de Michael Löwy, trata sobre ideologia, positivismo, historicismo e marxismo, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho do Capítulo IV – Marxismo: o que caracteriza a questão do conhecimento científico e do conhecimento verdadeiro?: O que define a ciência como tal é a tentativa de conhecimento da verdade. Nesse sentido, há uma relação entre ciência e conhecimento da verdade. Porém, a verdade absoluta jamais será conhecida, todo o processo de conhecimento é um processo de acercamento, de aproximação da verdade. Dentro do conhecimento científico há níveis maiores ou menores de aproximação da verdade. Desse modo, quando eu digo ciência, eu não estou dizendo verdade, estou simplesmente dizendo processo: a ciência é um processo de produção do conhecimento da verdade. Tambem para mim, existe uma relação entre conhecimento da verdade e luta de classe. Isto quer dizer que um elemento que aparentemente não tem nada a ver com ciência, na realidade tem um papel fundamental. Retomando a análise que foi feita, é a partir da luta de classes que se dão aos condições mais favoráveis para um conhecimento cientifico da realidade, da verdade. Veja mais aqui.


TOROTUMBO – No livro Torotumbo: la audiência de los confines (1972), do escritor, jornalista, diplomata guatemalteco Miguel Angel Asturias (1899-1974), ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1967, destaco os trechos: [...] O Torotumbo entrou na capital. Bandas de música, marimbas, sereias, sinos, foguetes e cerimonias do encontro, a saudação, a apresenta e a entrega das chaves entre os língua-de-trapo da cidade, para quem tudo9 aquilo não passava de uma alegre festa de carnaval fora de tempo, e os dançarinos que chegavam em torrentes de homens do mesmo sangue, igualados por ideias e sentimentos. Sob a proteção das cerimonias, circulou a primeira ordem de ocupar os lugares estratégicos assinaldos, de boca em boca dos dançarinos de pele queimante de urtiga, alfanjes de piteira e lanças de cana brava, esquadrões de guerreiros em formação cerrada de dançarinos de mascara de argila cozida, de casca de coco, de pedra porosa, mais leve do que a água, seus penachos de três sangues, vermelho, verde e negro, e sapatios de rio de espelho que no dançar tremulante levantavam poeira de sonho sob a chuva metálica dos chocalhos adormecidos. [...] Mas à turba que o pavor impelia a por-se a salvo, seguiu-se a passagem dos que sem dançarem acompanhavam o ritmo do Torotumbo na conquista das posições que tinham sido determinadas e a voz de Tizonello que anunciava não serem disfarçados os que tinham morrido no sinistro. A notícia quebrou a resistência. Os agentes de polícia arrancavam os uniformes ou os conservavam como disfarces. Pela 12ªAvenida avançou um tanque, disparando nas esquinas, fazendo as ruas ficarem desertas; depois aproximou-se, por entre as casas que trepidavam à sua passagem, até o lugar do atentado, enfocou um refletor sobre os escombros, apagou-o ao dar com os despojos dos que em verdade pareciam disfarçados, silenciou seu tiroteio e desapareceu. Mais tarde foi visto nas proximidades do quartel, abandonado junto com os uniformes dos homens que o tripulavam e os tinham despido e deixado atirados pelas ruas, como outros tantos disfarces. Ecos de morteiros. Algum estrondo de artilharia. A noite fulgurava. Ouviam-se os gritos de Tizonello: - Não eram mascarados, eram eles mesmos!... Não eram mascarados, eram eles mesmos!... Eu pus a bomba na cabeça do Diabo!... Eu pus a dinamite sob os pés de Tamgás!... O povo subia para a conquista das montanhas, de suas montanhas, ao compasso do Torotumbo. Na cabeça levavam as plumas que o furacão não domou. Nos pés, os calçados que o terremoto não gastou. Nos olhos, há não levavam as sombras da noite, mas a luz do novo dia. Nas costas escuras e desnudas, o manto de suor dos séculos. Seu andar de pedra, de raiz de arvore, de torrente de água, deixava para tras do lixo, todos os disfarces com que a cidade se vestia para enganá-lo. O povo subia para suas montanhas sob as bandeiras de plumas azuis do quartel, dançando o Torotumbo. Veja mais aqui.


ETERNIDADE & DEUS MILHÃO – Na antologia Poetas de Palmares (Fundarpe/FCCHBF, 1987), organizada pelo poeta Juareiz Correya, destaco os sonetos do poeta palmarense Fernando Griz, o primeiro deles Eternidade: Fantasia banal pensar a gente / na alma emigrante, erguendo-se da terra, / para infinda habitar po além que encerra / a utopia da vida transcendente. / A vida é só o eterno transformismo: / nascer, viver, morrer, voltar ao nada, / nascer de novo – a carne transmutada / em planta ou verme – e recair no abismo. / Na transição contínua da matéria / a alma – essa função do sangue ardente - / vai se perder na lama deletéria... / Nessa lama de carne apodrecida, / de onde ressurge aquilo que foi gente / disseminado em tudo que tem vida. E também Deus Milhão: Da mina infeta ao antro pavoroso / descem sombras, rudes operários, / os escravos da fome e dos salários / que o Deus Milhão explora em próprio gozo. / E sempre e sempre aos círios funerários / do pestilento abismo tenebroso, / como as visões de um sonho monstruoso, / baixam da morte aos lúgubres cenários. / E enquanto assim, no fato miserando, / nas entranhas da terra lutulenta / pragueja e chora o produtivo bando. / Ao brilho imenso dos salões doirados, / como escárnio cruel à dor violenta / o Deus Milhão sorri dos desgraçados. Veja mais aqui e aqui.

AS MULHERES E O CHIFRUDO – A trajetória da atriz Yara Cortes (1921-2002), começou ainda na escola básica representando em atividades extracurriculares e em festa, seguindo-se ao trabalho como enfermeira do Exército na base de Parnamirim, em Natal (RN), durante a II Guerra Mundial e trabalhou como aeromoça. Em 1948, quando foi aprovada num teste para trabalhar na Companhia de Teatro Dulcina e estreou no mesmo ano o espetáculo Mulheres, que lhe rendeu um prêmio. Seguiram-se, então, as peças teatrais As solteironas dos chapéus verdes (1949), Loucuras de Madame Vidal (1950), Diabinho de saias (1953), Figueira do inferno (1954), O mambembe (1959), A profissão da senhora Warren (1960), Apegue meu spotlight (1961), Antes tarde do que nunca (1964) e O chifrudo (1978). Ela também atuou no cinema com os filmes O palhaço, o que é? (1959), Viver de morrer (1971), Jerônimo, o herói do sertão (1972), Obsessão (1973) e Rainha diaba (1974). Ela já atuava na televisão em novelas da TV Tupi, a partir de 1951, passando pela TV Record (1969) e entrando na TV Globo, em 1971. Aqui a nossa homenagem para esta grande atriz. Veja mais aqui.


THE MAGUS – O filme de mistério The Magus (O Mago), dirigido pelo cineasta britânico Guy Green (1913-2005), com roteiro e baseado no livro homônimo do escritor e novelista britânico John Fowles (1926-2005) que também atua como capitão do navio, contando a história de um escritor inglês em crise existencial que aceita o posto de professor de língua inglesa numa distante ilha, aproveitando para terminar o seu relacionamento com uma aeromoça francesa. Ao chegar na ilha, ele encontra um homem misterioso a quem os habitantes não o conhecem por ser dado como morto durante a II Guerra Mundial, após ser acusado de colaboracionismo com os invasores nazistas. Ao visitar a casa de um amigo, ele descobre a presença de uma bela mulher americana, quem a princípio vira em retrato que seu anfitrião informara ser de uma pessoa que morrera durante a Primeira Guerra Mundial. Ao se certificar de que a mulher existe e não é um fantasma, ele acha que está sendo vítima de um jogo doentio, disposto a continuar por se sentir atraído pela bela mulher e quer descobrir a verdadeira relação dela com o homem misterioso. O destaque do filme fica por conta da atriz dinamarquesa Anna Karina, que começou sua carreira como modelo até conhecer Jean-Luc Godard, com se casaria posteriormente, passando a atuar em filmes, até se tornar uma das atrizes-símbolo da Nouvelle vague. Em 1967, ela foi homenageada por Serge Gainsbourg no filme musical, “Anna”. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 A arte do desenhista inglês Thomas Rowlandson (1756-1827)


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Tataritaritatá, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Na programação: Especial Gonzaguinha & mais Duofel, Tom Jobim, Djavan, Elis Regina, Zizi Possi & Edu Lobo, Vanessa da Matta, Toquinho, Maria Rita, Jorge Vercilo, Sonia Mello, Gilton Della Cella & Horácio Barros Reis, Danny Calixto, Wagner Ponzo & Wander Ponzo & Duethos Acústicos, Elisete Retter & Edward Brown, Julia Crystal & Mônica Brandão, Mazinho, Colette Dereal, Carlos José, Marlena Shaw, Toni Basil, Kirka, Oliver Mtukudzi, Debby Boone, Andrea Bocelli & muito mais. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...