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terça-feira, fevereiro 27, 2018

NÉLIDA PIÑON, HEINE, WITTGENSTEIN, CAMBADA MINEIRA, MAGDA SOARES, JULIA CRYSTAL, ONIANS, DOMINGOS SILVA & PAISÀ

UMA & OUTRA DE COISAS & COISAS – Imagem: Sensibilidade da natureza (2016), arte do pintor português Domingos Silva. UMA: EU TE AMAREI ETERNAMENTE E AINDA DEPOIS – Desde os desencontros com a Princesa de Bambuluá, insistentemente eu recitava de forma inconsciente o verso de Heine: “Eu te amarei eternamente e ainda depois”. Havia em mim uma esperança animadora que me dizia que um dia ela voltaria esclarecendo o sucedido. Sei que ano após ano, sempre no aniversário da data por ela marcada, eu caía no sono por dias e ao acordar perguntava por ela, a velha professora sempre me respondia: Você ainda espera que ela venha pra você? Desista, ele não lhe quer, nunca quis. Quanto mais ela repetia isso, ano após ano, meu coração tinha certeza que essa não era a verdade, coração bobo de enamorado. Até o Soneto de Vinicius era o meu consolo: “Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure”. Mergulhado nos meus pensamentos só pra ela, a professora idosa me fez uma surpresa, apresentando as suas lindas filhas e que eu escolhesse qual delas queria para casar. Elas eram lindíssimas, mas havia entregado meu coração à Princesa, era dela e mais ninguém. Resolvi arrumar minhas coisas e sair dalí, andando sem rumo e só muito depois é que soube que a princesa me visitava todo ano e sem poder falar comigo porque dormia a sono solto, retornava tristonha desconfiando que eu não estudei como ela desejava e que eu vivia apenas para as festas. Assim caminhei até deparar uma casa solitária, na qual um velhinho de voz macia mandou-me entrar. Fui até a cozinha e lá conversamos e contei minha história. Ele me disse ser o Príncipe dos Pássaros e convocou seus soldados para saber qual deles sabia do reinado de Bambuluá. Assim que me viram, julgaram-me inimigo e resolveram me atacar. Ele aplacou a fúria de todos e indagou acerca do reinado, nenhum deles sabia. Pediu-me então que dormisse aquela noite e no dia seguinte me mandou para procurar o pai dele, o Rei dos Pássaros. Assim fui por três dias e três noites até chegar a uma casa na enconsta de um morro distante. Lá um ancião ainda mais velho me recepcionou ouvindo atentamente a minha história. Então ele chamou todos os seus soldados e perguntou quem sabia onde ficava o reino de Bambuluá, nenhum entre eles sabia. Com isso, me aconselhou a dormir no seu regaço e na manhã seguinte eu fosse até o seu pai, o Imperador dos Pássaros, e assim se fez. Andei, andei, andei, quatro dias depois, uma casinha lá no alto da serra abrigava quem eu procurava. Lá chegando, estava ele escondido dentro de uma cabaça, suspenso em cima do fogo. Pra ele contei minha história e ao ouvi-la pegou uma gaita de pena de ema e soprou demoradamente no instrumento. Os seus soldados apareceram aos milhares e ao serem indagado onde o reino de Bambuluá, ninguém sabia. Então ele virou-se e se dirigiu para um velho urubu que estava dormindo num canto. Cochichou ao ouvido da ave que logo estirou asas enormes dizendo: O reino de Bambuluá era o meu pasto. Fica depois do Inferno. É um lugar que nenhum olho mal consegue ver, pois lá tudo é muito bonito, também povoada por uma gente simpática e agradável. O velho então mandou que eu comprasse um boi bem grande para que fosse cortado em pequenos pedaços e todos os ossos quebrados para ser dado pro urubu velho comer. Assim fiz e três dias depois o urubu estava pronto para a viagem. Fui orientado a montar no urubu segurando nos cotos de penas e com os pés cruzados embaixo das asas, olhos fechados, só os devendo abrir quando ele parasse o voo. Assim feito, entre ventos quentes, muitas voltas, o calor imenso, voando muito alto, bruscamente uma descida rápida até a terra. Abri os olhos: uma campina verde, água corrente e no cimo do morro o palácio. O urubu despediu-se e voou. Aí segui pro palácio, encontrando uma casa em que uma senhora simpática indagou o meu destino, aí contei uma parte do plano, escondi outras, ela mandou-me entrar, dizendo-me ser uma antiga criada do palácio e que eu aguardasse até ao meio dia, quando chegaria a comida vinda da cozinha real. Enquanto isso, saquei a minha rabeca e troquei as cordas pelas que a princesa me dera e comecei a tocar, todos dançavam, a velha da casa, os passantes e até os que chegaram com a comida. E mais vinham e mais dançavam, até o Rei e a Rainha, os fidalgos e suas comitivas. Aí parei de tocar e o Rei me saudou: Amanhã você fará uma festa no meu palácio! Se você não for, corto-lhe a cabeça! Todos se foram e fui descansar. Ao cochilar, dei pela presença de uma criada que me fez muitas perguntas e foi embora sem se despedir. Daí depois ela voltou e me disse que a princesa estava feliz com a minha chegada e que anunciaria amanhã na festa o seu casamento comigo. Fiquei feliz. No dia seguinte, fui para o palácio conforme o combinado e ao chegar lá muita gente me esperava para a festa. Assim que cheguei a princesa surgiu descendo a escada real do palácio mais linda que nunca e foi logo anunciando: Rei meu pai, Rainha minha mãe, todos os presentes. Se eu perdesse um presente que muito gostava e quisesse outro, e antes desse outro chegar eu encontrasse o velho presente, que deveria fazer? Todos responderam: Nenhum presente novo substituiria o velho que tanto gostava. Pois bem, aqui está meu noivo antigo que sofreu bastante por mim, me desencantou e estudou para ocupar o digno posto, vindo aqui só para me ver. Disse isso e veio em minha direção: Este é o meu noivo, o meu presente de sempre. O Rei e a Rainha felicitaram e marcaram o casamento para o dia seguinte. A partir de então dei de sonhar e nesse sonho eu e a princesa fomos felizes para sempre. (Historieta apresentadas nas minhas atividades de contação de história, releitura das lendas do folclore, baseadas em material recolhido por folcloristas brasileiros) OUTRA DE PROFESSOR & ALUNO: Na sala de aula o professor notara a presença de um aluno estranhíssimo e tão esquisito que um dia levantou-se da banca e dirigiu-se à mesa dizendo: Professor! Diga! O senhor poderia fazer a fineza de me dizer se sou ou não um completo idiota? Não, não posso. Mas qual a razão da pergunta? Bem, caso eu seja um completo idiota, me dedicarei à aeronáutica; caso contrário, quero ser um filósofo. Pois bem, para que eu possa avaliar, escreva uns artigos filosóficos sobre qualquer assunto. Dias ou meses depois, não sei, o aluno entregou um calhamaço ao professor. Ele leu a primeira página, releu e retornou ao aluno e disse: Não, você não deve se tornar um aeronauta! Pois, tinha certeza que estava diante um gênio que, segundo o próprio professor, o mais autêntico que já conhecera. O professor era o filósofo e matemático inglês Bertrand Russell (1872-1970), o aluno, o filósofo austríaco naturalizado britânico Ludwig Wittgenstein (1889-1951). O aluno na época desse encontro era judeu, muito bem dotado e rico. Era desde então atormentado por dúvidas existenciais, porém, a relação entre ambos não demoraria muito: o professor era ateu convicto, o aluno carregado de arroubos místicos. Desfeita a possível amizade entre ambos, o jovem se desfez da sua fortuna criando um fundo de ajuda aos poetas e, o restante, doou tudo para suas duas irmãs. Empregou-se como professor primário, lecionando para crianças de 9 a 10 anos de idade, o que o levou a elaborar um dicionário para ser usado pelas escolas das aldeias austríacas. Abandonando o magistério, trabalhou como ajudante de jardineiro e, depois, elaborou um projeto de uma casa para uma de suas irmãs, dedicando-se à escultura. Muito depois é que retornou à Filosofia para fazer seu doutoramento com o Tractatus Logico-Philosophicus e, depois, publicar um breve ensaio Algumas observações sobre forma lógica e, em seguida, as suas Investigações filosóficas. Depois da guerra de 1943, desempenhou a função de porteiro em um hospital, sendo posteriormente transferido para ajudante de laboratório de análises clínicas. Renunciou sua cátedra de filosofia, buscou o isolamento e quando descobriu que estava doente gravemente, não se abalou, pois não queria continuar vivendo. Quando o médico anunciou que chegara o seu fim, ele disse: Ótimo! Diga-lhes que eu tive uma vida maravilhosa. E morreu dois dias depois. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com a música do grupo Cambada Mineira, formado pelos músicos João Francisco, Amarildo Silva & Flávia Ventura: Saudades de Minas, Fragmentos de uma noite de chuva & Tempo Certo; da cantora e compositora Julia Crystal: A journey to Shamballa, Time to care & Stalit mermaids call; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – Minha vida está cheia dos mais odiosos e mesquinhos pensamentos (isso não é exagero). Talvez você pense que seja uma perda de tempo, para mim, pensar acerca de mim mesmo; mas como posso tornar-me um lógico se não sou sequer um homem? Pensamento do filósofo austríaco naturalizado britânico Ludwig Wittgenstein (1889-1951), autor de frases célebres como: Não posso subjugar os acontecimentos do mundo à minha vontade: sou completamente impotente. Também expressou: No mundo, tudo é como é e acontece como acontece: nele não há valor. Veja mais aqui.

LINGUAGEM & EDUCAÇÃO – [...] em diferentes campos – Linguistica e Sociolinguistica, Sociologia e Sociologia da Linguagem, Psicologia e Psicolinguistica -, que se deve fundamentar um ensino da língua materna que se incorpore ao processo de transformações sociais, em direção a uma sociedade mais justa. Entretanto, para que esses conhecimentos venham a transformar, realmente, o ensino da língua, é fundamental que a escola e os professores compreendam que ensinar por meio da língua e, principalmente, ensinar a língua são tarefas não só técnicas, mas também políticas. Quando teorias sobre as relações entre linguagem e classe social são escolhidas para fundamentar e orientar a prática pedagógica, a opção que se está fazendo não é, apenas, uma opção técnica, em busca de uma competência que lute contra o fracasso na escola, que, na verdade, é o fracasso da escola, mas é, sobretudo, uma opção política, que expressa um compromisso com a luta contra as discriminações e as desigualdades sociais. Trecho extraído da obra Linguagem e escola: uma perspectiva social (Ática, 1992), de Magda Soares, abordando o facrasso da/na escola, deficiência lingüística, diferença não é deficiência, o que pode fazer a escola e vocabulário crítico.

AS MULHERES - [...] As mulheres eram motivo de guerra explícito e um prêmio aprovado da guerra. Os homens lutavam para salvar suas esposas. Quando uma cidade era tomada, os homens eram mortos, as crianças eram golpeadas até a morte ou escravizadas, as mulheres, arrastadas violentamente para servir aos conquistadores, casados ou não, como escravas e concubinas [...]. Trecho extraído de The Origins of European Thinkought: Sobre o corpo, a mente, a alma, o mundo, o tempo e o destino (Cambridge UP, 1951), do professor estadunidense Richard Onians (1899-1986).

O REVOLVER DA PAIXÃO – Eu sei que errei, mas não me deixe agora. Eu protestei contra o que me parecia sua culpa. Você me olhou afiando os olhos no meu rosto. Me senti retalhada, diferente das vezes em que me cortou e não sofri. Bem ao contrário, a carne me sorria, eu deixava que você me tivesse, porque a carne era a minha alma [...] Como podes pensar que aguento vê-lo tragando vida com chope, sem que eu passe pela tua boca, te beije, te lamba, e você sorrialigado à terra, porque sou o teu húmus, o teu esperma, eu sou o teu membro, eu sou você. Não, não reclame, você me quer assim mesmo, ainda que selvagem eu te cause medo, ameace a tua liberdade. Ou me querias selvagem só na cama? [...] Não te autorizo a deixar-me. Ouviu o que eu disse? Não te dou licença de passear pela terra, de ter um futuro em que eu não esteja inteira. Ah, meu corpo amado, eu te desejo. E te desejo mais do que perdermo-nos no leito que vem sendo osso há dois anos. Uma agonia que recolho com a minha boca e mastigo com os meus dentes. Eu te mastigo, eu tecomo, eu te rasgo como você me rasga, me grita, me ama. [...] Não, erga-te, amor, e me cubra toda, quero você me soçobrando, eu sou uma mina africana, há que ir ao fundo, apalpar no escuro a sua riqueza, coçar a sua aflição, sentir medo. Medo das minhas trevas, pavor dos meus pelos, temor do meu suor e da minha fragrância. Vamos, seu covarde, volte depressa. Não quero mais perder o espetáculo desse amor que diariamente me derruba, porque é desse jeito que mastigo da sua comida. [...] Meu corpo identifica o teu cheiro, acre-doce pela manhã. Quantas vezes te lavei o sexo e você se deixou acariciar como se fosse meu dever rejuvenescer=te a cada dia, quem melhor que as minhas sagradas mãos conhecem o teu segredo, as palpitações da tua carne, o modo firme e cego com que se ergue e vem a mim. Não te creias livre, a vida não é tua. A tua vida é minha porque me perdi em ti, em cada palavra que disseste e me conquistou. [...] E te jogarás sobre o leito, e nu, esplendido, me atrairás dizendo, não queres novamente ser minha, acaso sobreviverás sem o gozo que é a única viagem atrlatica que se vive e nos naufraga? Esquecendo, porém, de que você sim é o barco carecendo das águas, e que sou a água em que mergulharás sem rota, sem mapa, pois não há mapa para o amor, amor. [...] Por favor, ceda-me o teu tempo. Ceda-me o teu corpo novamente. No leito, ou na natureza crua. Ou no bar em que estiveres agora. Onde eu chegando logo faríamos amor com o meu olhar de espinho. Amor se faz na esquina, a multidão dispersa em torno. Eu não te amo só com o ímpeto da carne. Também te quero com a minha boca distante, falando, te enunciando, pronunciando o teu nome. Teu nome é meu ato de amor. Teu nome é o orgasmo de que padece o meu sexo. [...]. Se me negas o pedido eu me vingo, abro minhas pernas para o teu inimigo, convidarei o desafeto a comer minhas carnes com garfo e faca e que divulgue entre amigos, e perto da tua consciência, o sabor de sal da minha pele e como o meu suor arrasta ainda o teu cheiro. Não me julgueis louca, julgues-me apenas capaz de lutar pela tua volta. [...] Se é assim, tome-me como sou. Transija com a minha volúpia. Aceite viver com uma mulher perdida no pecado de amar. Ah, hás de dizer, até você fala em pecado? Sim, falo, cometo, vivo, devoro, e quero. O que tem você com isso? Pecado é a tua boca, o teu sexo, o teu peito, os teus pelos, a testa franzida quando vais gritar de gozo. O que queria, que jamais tivesse enxergado o teu rosto quando me amas, só porque, perdida de amor, devia estar ocupada com o próprio prazer? [...] pois ainda assim sigo ao teu lado te amando, te fazendo recordar com minúcias o arrebato que ambos provamos, o sal jogado sobre nossos corpos para exalarem aquela essência que nos volatizava mas também nos prendia à terra, para vivermos com a carne um ritual iluminado, nossas peles cobertas de folhas, musgos e aranhas. Ah, amado, volte depressa, antes que outras cartes te persiga, e fique a vida difícil para nós. [...]. Extraído da obra O calor das coisas – contos (Record, 2009), da premiadíssima escritora e imortal da Academia Brasileira de Letras, Nélida Piñon. Veja mais aqui.

TRÊS POEMAS - LEGADO - A minha vida chega ao fim, / Escrevo pois meu testamento; / Cristão, eu lego aos inimigos / Dádivas de agradecimento. / Aos meus fiéis opositores / Eu deixo as pragas e doenças, / A minha coleção de dores, / Moléstias e deficiências. / Recebam ainda aquela cólica, / Mordendo feito uma torquês, / Pedras no rim e as hemorroidas, / Que inflamam no final do mês. / As minhas cãimbras e gastrite, / Hérnias de disco e convulsões – / Darei de herança tudo aquilo / Que usufruí em diversões. / Adendo à última vontade: / Que Deus caído em esquecimento / Lembre de vós e vos apague / Toda a memória e sentimento. ESPEREM SÓ: Só porque arraso quando arrojo / Raios, acham que não sei troar. / Ora, meus senhores, ao contrário: / Na arte do trovão não sou pior! / No devido dia, eu ponho à prova, / Quem duvida agora é só esperar; / O meu peito então vai trovejar, / E trincar os céus, a minha voz! / No fragor daquele furacão, / Os carvalhos secos vão rachar, / Os castelos vão desmoronar, / Velhas catedrais, ruir ao chão! MORFINA: É grande a semelhança desses dois / jovens e belos vultos, muito embora / um pareça mais pálido e severo / ou, posso até dizer, bem mais distinto / do que o outro, o que, terno, me abraçava. / Havia em seu sorriso tanto afeto, / carinho e, nos seus olhos,tanta paz! / Ornada de papoulas, sua fronte / tocava a minha, às vezes – e seu raro / odor me dissipava a dor do espírito. / Tal alívio, porém , não dura. Eu só / hei de curar-me inteiramente quando / o irmão severo e pálido abaixar / a sua tocha. – O sono é bom; o sono / eterno, ainda melhor; mas certamente / o ideal seria nunca ter nascido. Poemas extraídos de Heine, hein? – Poeta dos contrários (Perspectiva, 2011), do poeta romântico alemão Heinrich Heine (1797 – 1856). Veja mais aqui.

PAISÀ
O premiado drama Paisà (1946), do cineasta italiano Roberto Rossellini (1906-1977), é integrante da trilogia de guerra do diretor, iniciada com Roma, Città Aperta e segudia de Germania Anno Zero, dividido em seis episódios que tratam das relações entre os italianos recém-libertados e os libertadores estadunidenses. Os episódios são nomeados como Sicília, Nápoles, Roma, Florença, Apeninos Emilianos e Porto Tolle.

Veja mais:
A folia do Biritoaldo desandou no carnaval, Ela baila no meu coração, Frevo do Mundo & a poesia de Mário Hélio aqui.
Proezas do Bitiroaldo aqui, aqui, aqui e aqui.
Psicologia Social & Educação, Pablo Neruda, Amedeo Modigliani, Yasushi Akutagawa, Regina Espósito & Jú Mota aqui.
Paul Ricoeur, Li Tai Po, Millôr Fernandes, Carlos Saura, Mônica Salmaso, Aída Gomez Ralph Gibson & Ronaldo Urgel Nogueira aqui.
Tolinho & Bestinha: quando Bestinha se vê enrolado num namorico de virar idílio estopolongado aqui.
Arthur Rimbaud, Anti-Édipo de Deleuze & Guattari, Infância & Literatura & Balanço da Copa aqui.
Descartes, Gustav Klimt, Ingmar Bergman, Denise Stoklos, João Bosco, Danny Calixto, Bernadethe Ribeiro & Sandra Regina Alves Moura aqui.
Apollinaire, Rembrandt, Walter Benjamim, Paulo Moura, Efigência Coutinho & Programa Tataritaritatá aqui.
Jacques Lacan, Alexander Luria, Elizeth Cardoso, Aníbal Bragança & Clevane Lopes aqui.
Paul Verlaine, Denise Levertov, Delaroche, Wojcieck Kilar, Lourdes Limeira & Marcoliva aqui.
Yevgeny Yevtushenko, Leila Assumpção, Segueira Costa, Sigmund Freud, Hyacinthe Rigaud & Ailson Campos aqui.
A nuvem de calças de Vladimir Mayakovsky aqui.
Cultura afrodescendente, carnaval & Célia Labanca aqui.
Oração da cabra preta & Turismo religioso aqui.
Biritoaldo: a vingança no formigueiro aqui.
Cidinha Madeiro aqui.
A troça do Fabo aqui.
Folia Tataritaritatá & o Recife do Galo da Madrugada aqui.
Caboclinhos aqui.
O Frevo aqui.
Auto Maracatu aqui.
Baile de Carnaval aqui.
Bacalhau do Batata aqui.
Os assassinos do Frevo aqui.
A folia do prazer na ginofagia aqui.
Padre Bidião, o retiro & o séquito das vestais aqui.
Aijuna, o mural dos desejos florescidos aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor português Domingos Silva.
Veja mais aqui.
 

domingo, janeiro 31, 2016

MULHER & SOLIDARIEDADE, JOYCE, MOLIÈRE, SÊNECA, DILERCY, NILZA AMARAL, JULIA CRYSTAL, CLAUDINHA CABRAL & MUITO MAIS!!!

TODO DIA É DIA DA MULHER: SOLIDARIEDADE - Quando publiquei aqui as histórias de Gersoca, Samira, Sulina, Derluza, Elvira, Gilvanícila e Sulamita, não previa que tantos mails e mensagens me chegassem, dando conta de que estava contando a vida de uma pessoa ou irmã, ou prima, ou familiar ou conhecida. Fui surpreendido com a avalanche de manifestações e as mais diversas. Algumas que me pediram que as mantivesse anônimas fizeram questão de me contar as suas desventuras. Confesso, chorei, choramos juntos. Outras lamentaram a sua própria sorte e das demais personagens das minhas histórias. Manifestei meu gesto solidário. Uma ou outra me detratou alegando que eu não tinha o direito de expor problemas dessa natureza, pois eu estava sendo um intruso por trazer ao público uma questão de foro íntimo e que eu não tinha o direito de invadir a privacidade alheia. Compreendi e manifestei minha gratidão. E mais outras tantas que me chegaram com apoio e solidariedade. O que me deixou deveras feliz foi que a grande maioria se tocaram com o problema, alguns tomaram ciência de que precisam de acompanhamento médico e psicológico para que possa reencontrar a vida, como o caso que narrei da Gilvanícila: ela seguiu sua vida enfrentando as suas sombras – inclusive, transformei essa historieta numa peça teatral e logo logo publicarei aqui. Outras fizeram questão de criticar o alheamento, o distanciamento, a falta de sensibilidade do ser humano para os mais diversos problemas graves que grassam na vida. Sei 1ue são casos tristes e inaceitáveis. São injustiças cometidas em nome da honra, do mando, do poder, da arrogância, da inumanidade. Aconteceram há milênios atrás, estão registrados na história até hoje e são cometidos da mesma forma agora, neste instante, e viram manchetes pra sanguinolência dos noticiários e, uma hora depois, foi-se, tudo esquecido. Até que um dia acontece com a gente ou com pessoas próximas ou de nossas relações, aí nos damos conta de que cada um de nós está sujeito a ser vitimado por tais sandices. O que pretendi com essas historietas, croniquetas e noveletas, foi trazer à tona casos que passaram e ainda hoje estão na pauta dos dias à margem da sociedade e da Justiça, entre os anônimos e invisíveis que vivem, respiram e lutam na vida. E que ocorreram e ainda ocorrem hoje sem que ninguém sinta a calamidade pública, ignorando o sofrimento alheio por completa ausência de alteridade e solidariedade. Infelizmente a tônica do umbigocentrismo é pra lá de perturbador, o descartável impera e incluem as relações pessoais e sociais nesse contexto. Surgem, viram escândalos, todo mundo se consterna, mas se esvaem para logo em seguida agonizarem no que passou. Namoros, casamentos e amizades são descartados ao bel prazer, levados pela mecânica da lata do lixo, como se jamais tivessem existido. Pessoas trocam de relações como quem troca de roupa, dentro da conveniência e do desejo. Tem gente que acaba uma relação amorosa de manhã e de tarde já desfila com outro sem nenhum remorso: basta um clique e tudo é deletado, imagens, momentos, passado. E quem doer que morra ou pegue o beco. É tudo na base da fila que anda. Este o reino da frivolidade e da veleidade das relações líquidas, da hipermodernidade. Foi-se, já era; que venha um novo e melhor – ou não. E se não der certo, reposição na hora, simplesmente a substituição. E ainda arranjamos culpados nos outros para nossos desatinos. A culpa é sempre do outro. E a cada dia fica mais difícil de encarar o espelho, de dialogar consigo próprio, de ver que é a partir de nós mesmos que todo bem ou mal se manifesta. Da minha parte eu digo: o prazer só tem valor porque sabemos o tamanho e a dimensão da dor. Ao contrário, não haveria prazer algum. E vamos aprumar a conversa com a solidariedade. (Luiz Alberto Machado).

Veja mais aqui.
 
PICADINHO
Imagem: Female Nude in the Mirror, do pintor alemão Paulo Paede (1868-1929).


Curtindo o cd/dvd Joyce ao vivo (EMI, 2008), da cantora, compositora e instrumentista Joyce.

EPÍGRAFE – Bonus nocet qui malis parcet, sentença do tragediógrafo e filósofo estoico latino Lúcio Aneu Sêneca (4ac-65), que quer dizer: quem o inimigo poupa, nas mãos lhe morre. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A MULHER MEDIEVAL – No livro O feminismo uma abordagem histórica (Zahar,1979), de Andreé Michel, encontro que os homens dos séculos XII e XIII, implantaram uma sociedade patriarcal que proporciona às mulheres uma nova forma de enclausurá-las, legitimada nesse momento por lei. Portanto, a sociedade reserva a elas o espaço privado, responsabilizando-as pelo afazeres domésticos, e o conforto dos maridos e dos filhos. Algumas mulheres resistiram a essas novas formas de enclausuramento, como por exemplo: as parteiras que foram cruelmente castigadas por não aceitarem as condições impostas a elas, que recebem o titulo de feiticeiras, devido ao fato de na hora do parto – quando complicado – fazerem uso da escolha pela vida de um ou outro, e que nesta situação as parteiras escolhiam pelas vidas das mães como meio de resistirem ao enclausuramento. Os comerciantes da classe média, junto à igreja e os novos burocratas, não aceitavam a opção das parteiras e muitas eram condenadas a serem queimadas vivas. A esse respeito, expressa o autor que [...] no seio da Igreja, a inquisição celebrizou-se enviando à fogueira muitas dezenas de milhares de mulheres acusadas de feitiçaria. As feiticeiras estavam sempre sendo de atacar a força sexual dos homens e de agir com o objetivo de exterminar a fé. Pelo visto, a mulher na Idade Média estava submetida ao fato de que a maioria das ideias e dos conceitos eram elaborados pelos eclesiásticos e esses possuíam acerca da mulher uma visão dicotômica, ou seja, ao mesmo tempo em que ela era tida como a culpada pelo Pecado Original, a Virgem Maria foi a mulher que deu ao mundo o salvador e redentor dos pecados. Na sua análise, encarando diversos desafios em prol do jovem salvador, essa mulher determinava a constituição de outro olhar sobre o feminino. Não por acaso, vê-se que o culto mariano, a canonização de mulheres e a reclusão nos conventos se elevam significativamente com esse tipo de reinterpretação. Além do mais, sendo um período histórico tão extenso, as mulheres assumiram papéis que extrapolaram os antigos preconceitos ainda reservados ao medievo. Sem dúvida, as mulheres medievais são muitas, variadas e dinâmicas, como as manifestações do tempo em que viveram. Veja mais aqui.

O FLORISTA – No livro O florista (Massao Ohno, 1997), da escritora e professora Nilza Amaral, destaco o trecho: O dedo indicador penetra cuidadosamente o interior da flor, permanece ali por instantes, deixa o intimo morno, acaricia com o dedo médio o pistilo saliente, sente a extremidade rija, esconde a flor na palma de uma das mãos e com os dedos da outra, deslizando pétala por pétala, tenta adivinhar a forma aveludada e enigmática daquele ser flexível, daquele corpo cósmico. O som de um suspiro ecoa no ar. A açucena brilha revivida pelo toque daquela mão. O florista, de olhos cerrados, cego de extase por desvirginar a flor, acaricia as pétalas por mais um momento, fecha novamente os dedos ao redor de seu caule, dessa vez para depositá-la no ramalhete das demais açucenas que esperam no balde defronte à barraca de flores. Como as outras, já não é mais virgem mas ainda é fresca e bela. Coloca-a em destaque para atrair olhares de possíveis compradores, e começa a trabalhar com o restante das flores da barraca, retirando folhas mortas, escuras e pegajosas dos caules mergulhados na água dos demais baldes [...]. Veja mais aqui e aqui.

AO MEU TRISTÃO – Entre os poemas da poeta e psicóloga Dilercy Adler, destaco a poesia Ao meu Tristão: Quisera ser pra ti / Isolda bela / no que ela tem em si / de mais divino / quisera ser também / a outra Isolda / que seu fio tece / e se enternece / ao satisfazer-te / da exigência mais premente fescenina / ao teu mais puro desejo de menino / e nós enfeitiçados atearíamos / o fogo da paixão em nossas almas / que embora para o humano inacessível / pra nós possível e aceso impagável! / Me olha dessa maneira / que s´[o os amantes sabem fazer / me enxerga fundo na alma / na intimidade maior de mim / me inala sentindo o cheiro / de amor no cio no amanhecer / me sente voluptuosamente / com mãos devassas / qual argamassa / nas mãos do artista / me sente inteiramente tua / na fantasia da poesia / que me inebria / por vir de ti! Veja mais aqui.

A PREFERIDA DE MOLIÈRE - A atriz francesa Ane-Françoise-Hyppolite Boutet, mais conhecida como Mademoiselle Mars, foi a maior intérprete do teatro cômico no século XIX e a atriz mais refinada de Paris. Entrou para a Comédie Française em 1795 e fez-se primeiro notar em papeis de ingênua, que interpretava com perfeição, como Isabelle, em A escola de maridos e Angélique, em Doente imaginário, do dramaturgo, ator e encenador francês Molière (Jean-Baptiste Poquelin – 1622-1673). No auge da beleza e da fama, tornou-se a autoridade absoluta na Comédie, pelo prestigio que desfrutava junto a Napoleão. Contribuiu para os primeiros sucessos do repertorio romântico, com sua recriação controlada pela inteligência e pelo charme, que era a antítese do estilo passional e espontâneo de Mme. Dorval. Veja mais aqui e aqui.

BREAKFAST ON PLUTO – O filme Breakfast on Pluto (Café da Manhã em Plutão, 2005), dirigido por Neil Jordan, é uma adaptação do livro homônimo de Patrick McCabe, contando a história do fruto de um relacionamento entre um padre e uma doméstica e de um homossexual que vive a procura da mãe desaparecida desde o seu nascimento. O filme é superinteressante e destaco a participação da atriz etíope Ruth Negga. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
A belíssima e talentosa cantora Julia Crystal, eleita por unanimidade como a Musa Tataritaritatá Janeiro/2016. Veja mais aqui, aqui e aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à Claudinha Cabral & Equipe de Recreação Planeta Alegria.

Veja aqui, aqui, aqui & aqui.


Veja as homenageadas aqui.

E veja mais Tereza Costa Rego, Franz Peter Schuber, Maria João Pires, Tunga, Zygmunt Bauman, Ken Wilber, Kenzaburo Oe, Kate Beckinsale & muito mais aqui.


sexta-feira, dezembro 04, 2015

PASTORIL DO DORO, RILKE, LEUCIPO, GODARD, PUCCINI, KATIUSCIA, CALLAS, JULIA CRYSTAL, SERPIERI & MUITO MAIS!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? O PARTORIL DE PONTA DE RUA – Ah! Vocês nem queiram saber! Arreparem só, que despropósito! Depois de muito cavoucar o ano todo e pelejar demais na vida, Doro, que não se emenda, teve uma ideia, pode? Ih, isso para mim é bronca certa! E das grandes! Pode esperar o bafafá que o negócio é fogo na roupa! Verdade. Nunca vi sujeito de neurônios tão tresloucados: quando pensa, peida; quando fala, caga. Um meladeiro sem fim. Mas vamos nessa. Aproveitando da visita que a Marcialita fizera à sua casa materna, deixando o sujeitinho sujo mais solto que cabrito no roçado, só refinando as habilidades para aprontar mais uma das suas, ele deu asas à imaginação. E foi mesmo: o negócio se agigantou no tino dele. E como! Só faltou se estuporar de tão grandiosa. Mas vamos lá. Como se aproximava dos festejos natalinos, a coisa maquinada tomou corpo no seu intento. Já via tudo pronto: tablado colorido, pastorinhas boazudas, Diana gostosa, muita dança, movimento e munganga das boas. Quando o espetáculo tomou forma dentro do seu gosto troncho e duvidoso, ele saiu boatando que se prestava a fazer um presépio em homenagem ao nascimento do nosso senhor Jesusisinho, só faltando as pastorinhas para engalanar seu projeto. Só faltava isso? Ôxe, num faltou pai de família decente que não encaminhasse até o recinto da seleção todas as suas filhas para compartilhar de evento tão sagrado. Verdade, repito, o negócio tomou vulto mesmo. Foi gente de fugir pelo ladrão. E ele só se deleitando da coisa boa: nunca vira tanta mulher na vida de uma vez só. E ali, bem pertinho dele, só pro seu reinado. De chapa ele dispensava todas as barangas, trubufus e mocréias. Nem catraias queria. Só beldades reboculosas mesmo. E saiu escolhendo a dedo a mestra do cordão encarnado, a contramestra do cordão azul, a Estrela D´Alva, a Estrela de Belém, as pastorinhas, nada de anjos ou borboletas que isso, segundo ele, é coisa de baitola. No meio delas apareceu uma mais espalhafatosa. Doro esbugalhou-se porque a dita cuja, realmente, chamava atenção: bunduda, jeitosona, pernuda, espaçosa e com uma língua, nossa, que ela estirava tremulando entre os lábios, nem camaleão! Animou-se todo Doro e já deu por certo como a Diana. A empolgação foi tão grande que ele prometeu mundos e fundos e, até, uma apresentação pro bispo defronte da matriz. Ôxe, aí é que foi a maior das satisfações para toda banda. E tome ensaio pra cima e pra baixo, ele organizando tudo, adaptando sutilmente do sagrado para o profano mais cabeludo da paróquia. A cada ensaio, quanto maior a intimidade se estreitava dele no meio de meio mundo de mulher, mas ele tornava a coisa mais sem-vergonha, a ponto de conseguir convencê-las a usarem fio dental, sutiãs menores que o número do busto, saínhas curtíssimas de deixar tudo de fora, meio mundo de presepada para causar a maior sedução. E contava com irrestrito apoio: tudo isso capitaneado pela mais corajosa de todas, que era a Diana, que além de aprovar tudo e aceitar no ato todas as invencionices dele, já sugeria até, no final, um strip-tease geral fuderoso de deixar os neguinhos cristãos de queixo caído. E Doro solto na buraqueira e todo ancho, parecia mais que havia sido eleito presidente da república. Tudo bão demaiiiiis!!! Às vésperas, tudo nos conformes, estava marcado o ensaio geral, ao que as participantes convidaram os pais para ver. Doro não sabia e ensaiava as piadas pornográficas, as cançonetas picantes, o andamento da coisa com leilão de beijos, abraços, sarros, pegadas, trepadas até, isso no final, sortear mediante pagamento vultoso, a xoxota de uma, a chupada de outra, o cu da maior, a trepada na menor e assim por diante. O negócio ia bem, até que quando chegou a hora do leilão, os pais, até então escondidos atrás do muro do quintal, partiram pra cima querendo uns participar daquela putaria, enquanto outros fulos da vida queriam acabar embaixo do maior quebra-pau. Resultado: não houve entendimento e não sobrou nada em pé ao redor. Não deu outra: era uma vez. Ao término do buruçu só sobrou de mesmo, a Diana e o Doro. Como para ele fudido por um, fudido por mil, Doro sapecou converseira macha pra cima da ditosa. Ôxe, ela se salientando, se ajeitando, se dismilinguindo e ele tome a sapecar beijos, abraços e apalpadelas. O xambrego pegou fogo. Agarrados na maior sem-cerimônia. E tome esfregamentos, impados, reboculejos e sassaricados. Na hora do vamos ver, ih, a coisa empenou. Ela se dizendo virgem, não queria deixar o Doro se enfiar na sua donzelice. Ih, entornou o caldo! Ele foi pra lá, foi pra cá, enervou-se e, depois de horas confabulando, entraram num acordo: a moça deixou que ele esfolasse o pingulim no catimbofá dela. Menos mal, quem não tem cheba azeitada, faz feira geral no caneco da pinica. Foi aí que ele cuspiu no pau e reparou o alvo da vítima em decúbito ventral, com a popa da bunda empinada para cima. Um colosso. Quando se apronta para tascar a pontaria na caçapa dela, Doro sente que algo estranho está ocorrendo. Ele não acredita. Espreme os olhos e se certifica. Nossa! Aquilo não era um pinguelo, era um pitocão maior que o dele mesmo. Aí berrou: viado!!! Isso é sacanagem, viado! Nessa hora Marcialita adentra com a bruguelada e flagra aquela cena indecorosa: Doro furioso com o seboso na mão se apontando para enfiar-se no pirôbo jeitoso de quatro. Aí é que ao invés de natal, deu-se, foi no fim de tudo, um verdadeiro carnaval. Nem queiram saber do frevo. Veja mais aqui e aqui.


Imagem: Druuna, do escritor, artista plástico e ilustrador italiano Paolo Eleuteri Serpieri.


Curtindo a ópera em quatro atos La bohème (1896 – baseada no livro Scènes de la vie de bohème, de Henri Murger / EMI, 1997), do compositor italiano Giacomo Puccini (1858-1924), com a cantora lírica estadunidense de origem grega, Maria Callas – La Divina (1923-1977), conductor Antonio Votto & Milan Teatro alla Scala Orchestra & Scala Chorus.

A GRANDE ORDEM DO MUNDO – O filósofo grego Leucipo de Mileto (entre 500-430aC), é considerado o autor da teoria dos átomos e das obras A grande ordem do mundo e Sobre o Espírito. Tido como o fundador do célebre sistema atomístico, que se valeu como princípio da pesquisa natural racional. Foi ele quem distinguiu as qualidades universais dos corpos das coisas sensíveis, chamando essa qualidade de especulativa, pelo fato de ele ter determinado o elemento corpóreo através do conceito ou pelo fato de ter determinado a essência do corpo, efetivamente de modo universal. Em Leucipo aparece a determinação do ser, do ser-para-si, o positivo como um que é-para-si e o negativo como vazio. O ser-para-si passa a ser uma determinação essencial e necessária do pensamento. O um é agora e é sempre e deve aparecer em cada filosofia lógica, como momento essencial, mas não como último. Assim, o ser-para-si é um grande princípio. O devir é apenas a passagem do ser para o nada e do nada para o ser, onde tudo é negado. Para ele o um é ainda o um abstrato, aparecendo a representação de que os átomos são invisíveis, de que não se pode vê-los por causa da sua pequenez e da sua corporalidade. O seu pensamento é expresso pela frase: Nenhuma coisa se engendra ao acaso, mas todas a partir da razão e por necessidade. Veja mais aqui e aqui.

CARTAS A UM JOVEM POETA – No livro Cartas a um jovem poeta (L&PM, 2009), do escritor alemão Rainer Maria Rilke (1875-1926), destaco o trecho: [...] Paris, 17 de fevereiro de 1903 Prezado Senhor, Sua carta só me alcançou há poucos dias. Quero lhe agradecer por sua grande e amável confiança. Mas é só isso o que posso fazer. Não posso entrar em considerações sobre a forma dos seus versos; pois me afasto de qualquer intenção crítica. Não há nada que toque menos uma obra de arte do que palavras de crítica: elas não passam de mal-entendidos mais ou menos afortunados. As coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível, realiza-se em um espaço que nunca uma palavra penetrou, e mais indizíveis do que todos os acontecimentos são as obras de arte, existências misteriosas, cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa. Feita essa observação prévia, posso lhe dizer ainda que seus versos não possuem uma forma própria, mas apenas indicações silenciosas e veladas de personalidade. Sinto esse tipo de indicação de modo mais claro no último poema, "Minha alma". Ali, algo de próprio quer ganhar expressão. E no belo poema "A Leopardi" talvez se desenvolva uma espécie de afinidade com aquele grande solitário. Apesar disso, os poemas ainda não são independentes, não têm autonomia, mesmo o último e o dedicado a Leopardi. Sua carta amável que os acompanha não deixou de me esclarecer alguma insuficiência que senti ao ler seus versos, sem no entanto ser capaz de designá-la pelo nome. O senhor me pergunta se os seus versos são bons. Pergunta isso a mim. Já perguntou a mesma coisa a outras pessoas antes. Envia os seus versos para revistas. Faz comparações entre eles e outros poemas e se inquieta quando um ou outro redator recusa suas tentativas de publicação. Agora (como me deu licença de aconselhá-lo) lhe peço para desistir de tudo isso. O senhor olha para fora, e é isso sobretudo que não devia fazer agora. Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo, ninguém. Há apenas um meio. Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isto: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples "Preciso", então construa sua vida de acordo com tal necessidade; sua vida tem de se tornar, até na hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho desse impulso. Então se aproxime da natureza. Procure, como o primeiro homem, dizer o que vê e vivencia e ama e perde. Não escreva poemas de amor; evite a princípio aquelas formas que são muito usuais e muito comuns: são elas as mais difíceis, pois é necessária uma força grande e amadurecida para manifestar algo de próprio onde há uma profusão de tradições boas, algumas brilhantes. Por isso, resguarde-se dos temas gerais para acolher aqueles que seu próprio cotidiano lhe oferece; descreva suas tristezas e desejos, os pensamentos passageiros e a crença em alguma beleza - descreva tudo isso com sinceridade íntima, serena, paciente, e utilize, para se expressar, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Caso o seu cotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo, diga para si mesmo que não é poeta o bastante para evocar suas riquezas; pois para o criador não há nenhuma pobreza e nenhum ambiente pobre, insignificante. Mesmo que estivesse em uma prisão, cujos muros não permitissem que nenhum dos ruídos do mundo chegasse a seus ouvidos, o senhor não teria sempre a sua infância, essa riqueza preciosa, régia, esse tesouro das recordações? Volte para ela a atenção. Procure trazer à tona as sensações submersas desse passado tão vasto; sua personalidade ganhará firmeza, sua solidão se ampliará e se tornará uma habitação a meia-luz, da qual passa longe o burburinho dos outros. E se, desse ato de se voltar para dentro de si, desse aprofundamento em seu próprio mundo, resultarem versos, o senhor não pensará em perguntar a alguém se são bons versos. Também não tentará despertar o interesse de revistas por tais trabalhos, pois verá neles seu querido patrimônio natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando surge de uma necessidade. É no modo como ela se origina que se encontra seu valor, não há nenhum outro critério. Por isso, prezado senhor, eu não saberia dar nenhum conselho senão este: voltar-se para si mesmo e sondar as profundezas de onde vem a sua vida; nessa fonte o senhor encontrará a resposta para a questão de saber se precisa criar. Aceite-a como ela for, sem interpretá-la. Talvez ela revele que o senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso, aceite sua sorte e a suporte, com seu peso e sua grandeza, sem perguntar nunca pela recompensa que poderia vir de fora. Pois o criador tem de ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si mesmo e na natureza, da qual se aproximou. Mas talvez, depois desse mergulho em si mesmo e em sua solidão, o senhor tenha de renunciar a ser um poeta (basta, como foi dito, sentir que seria possível viver sem escrever para não ter mais o direito de fazê-lo). Mesmo assim não terá sido em vão o exame de consciência que lhe peço. Seja como for, sua vida encontrará a partir dele caminhos próprios, e que eles sejam bons, ricos e vastos é o que lhe desejo mais do que posso manifestar. O que ainda devo dizer ao senhor? Parece-me que tudo foi enfatizado da maneira apropriada; por fim, gostaria apenas de aconselhá-lo a passar com serenidade e seriedade pelo período de seu desenvolvimento. Não há meio pior de atrapalhar esse desenvolvimento do que olhar para fora e esperar que venha de fora uma resposta para questões que apenas seu sentimento íntimo talvez possa responder, na hora mais tranqüila. Foi para mim uma alegria encontrar em sua carta o nome do professor Horacek; guardo uma grande estima por esse amável sábio, e uma gratidão que se mantém através dos anos. Por favor, mencione a ele o que sinto; é muita bondade que ainda se recorde de mim, e sei apreciá-la. Devolvo também os versos que o senhor me confiou amigavelmente. E lhe agradeço mais uma vez pela grandeza e pela cordialidade de sua confiança, de que procurei me tornar um pouco mais digno do que realmente sou, como um estranho, por meio desta resposta sincera, feita da melhor maneira que pude. Com toda devoção e toda simpatia, Rainer Maria Rilke. [...] Veja mais aqui e aqui.

O LIVRO DE HORAS – No livro Poemas (Companhia das Letras, 2012), do poeta alemão Rainer Maria Rilke (1875-1926), destaco o poema Do Livro de Horas, traduzido por José Paulo Paes: A minha vida eu a vivo em círculos crescentes sobre as coisas, alto no ar. Não completarei o último, provavelmente, mesmo assim irei tentar. Giro à volta de Deus, a torre das idades, e giro há milênios, tantos... Não sei ainda o que sou: falcão, tempestade ou um grande, um grande canto. Se tantas vezes te importuno, ó Deus meu vizinho, batendo forte à tua porta na noite extensa, é porque te ouço respirar, da tua presença sei: estás na sala, sozinho. Se de algo precisares, não há ninguém ali que possa te trazer um gole d’água sequer. Vivo sempre à escuta. Dá-me um sinal qualquer. Estou bem perto de ti. Entre nós há apenas um muro, coisa pouca, por mero acaso aliás; bem pode ser que um grito da tua ou minha boca — e eis que se desfaz sem só rumor ou ruído. Com imagens tuas o muro foi construído. Diante de ti tuas imagens são como nomes. E quando um dia dentro de mim esteja acesa a luz com que te conhece minha profundeza, será, nas molduras, brilho que se esbanja e some. E os meus sentidos, que um torpor célere consome, estão sem pátria, exilados da tua grandeza. Tu, obscuridade de onde emana meu ser, amo-te mais do que à chama que o mundo reduz ao círculo da sua luz: ali dentro, resplandece; fora dali, ser nenhum a reconhece. Mas na obscuridade tudo se contém: as formas e as chamas, os animais e eu também, nela que consorcia existências e energias — pode bem ser que uma força sombria se mova em minhas cercanias. É às noites que minha alma se confia. Obreiros somos — mestre, aprendizes, serventes — e te construímos, ó grande nave altaneira. Às vezes chega a nós um peregrino silente; ei-lo que como um clarão cruza as nossas cem mentes e trêmulo nos traz alguma nova maneira. Galgamos andaimes que ao nosso passo estremecem; maciços os martelos que nossas mãos sustêm; isso até aflorar-nos a fronte uma hora que se irisa e fulge como se de tudo soubesse: como o vento vem do mar, é de ti que ela vem. Ouve-se então um malhar de martelos inúmeros que, golpe após golpe, pelas montanhas se expande. Só te deixamos quando a noite cai e no escuro podemos já ver-te os vagos contornos futuros. Deus, como tu és grande. Veja mais aqui e aqui.

DE MARIE A POUTPOURIR - A trajetória da atriz e humorista Katiuscia Canoro começou no teatro em 1992, fazendo peças no colégio e na praia. A partir de então, ela carrega na bagagem as peças teatrais Marie (1992), Amor de Ciclovia (1992), O poder da Amizade (1993), Os Ovos De Pascoa Sumiram (1994), A Bruxinha Que Era Boa (1995), Festa do Uirapuru (1995), A Floresta Sumiu (1996), Anjos e Pecados (1998), O Auto Da Compadecida (1999), Estrada do pecado (2004), Medea Material (TCP, 2004) Gatos Musical Rock (2005), Mulheres de Chico (2005), Pânico No Mercado (2005), Contadores de Historias (2005), O Pentáculo (2006), CintaLiga (2006), Humor Com Sabor Picante (2006), Memória (2006), Risorama (2006), D. Graça (2007), Macbeth (2007) e PoutPouRir (2008). Na televisão ela fez sucesso com a personagem Lady Kate, do programa Zorra Total, afora criar vários personagens a partir da observação do cotidiano. No cinema participou dos curtas Vovó Vai Ao Supermercado 2004), Sem Ana (2005), À Guisa de Orquídeas (2005), Do papel pra tela (2005), E aí... comeu? (2012) e Divertida mente (2015). Veja mais aqui.

VIVRE SA VIE – O filme Vivre sa Vie (Viver a Vida, 1962), polêmico e provocador cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard, contém um tom mais realista e sem muitos dos diálogos icônicos do diretor, contado em 12 capítulos sem nenhuma ligação, Nana é uma jovem que abandona o seu marido e o seu filho para iniciar sua carreira como atriz. Para financiar sua nova vida começa a trabalhar numa loja de discos, mas não ganha muito dinheiro. Como não consegue pagar o aluguel, Nana é expulsa de casa e decide virar prostituta. No primeiro dia que começa a trabalhar na rua, reencontra Yvette, uma velha amiga que lhe confessa que também se prostitui por necessidade. Yvette lhe apresentará a Raoul, que se tornará seu cafetão. A partir desse momento, Nana irá introduzindo-se progressivamente no mundo da prostituição. O destaque do filme vai para a atriz dinamarquesa Anna Karina, que começou a carreira como modelo até se casar com o diretor do filme e se tornar uma das atrizes-símbolo da Nouvelle vague. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A fotografia de Louis Jean Baptiste Igout (1837-1880).
Veka mais aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à belíssima e talentosa cantora Julia Crystal. Veja aqui.


RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...