quarta-feira, janeiro 23, 2019

RUBEM ALVES, MICHEL SERRES, O DIÁRIO DAS FRUTAS, IANGAÍ & ALAGOIANHADUBA


PEDAÇO DE HISTÓRIA – Para quem não sabe Alagoinhanduba não está no mapa porque não entrou na história. Qual a razão? Seguinte: em 1535, o capitão-donatário Duarte Coelho assumiu a Capitania de Pernambuco, tratada por ele por Nova Lusitânia. Tudo recebeu do rei de Portugal, de mão beijada, por seus serviços prestados. Todo engalanado ele chegou acompanhado de sua fidalga esposa, Brites de Albuquerque, do seu cunhado Jerônimo e de uma parentela que não tinha mais fim, todos tentando a sorte, imagine. Dessa vez era diferente de outra viagem que ele mesmo fez em 1503, quando aqui esteve, então filho bastardo de membro duma antiquíssima família da nobreza agrária do Entre-Douros e Minho, criado por uma tia materna que era prioresa do Mosteiro de Vila Nova de Gaia. Veio, então, na companhia do pai que era escrivão da Fazenda Real e que se tornou comandante da expedição, juntamente com a plebeia Catarina Anes, sua mãe. Logo retornara. Passaram-se os anos e, agora sim, como um nobre que conseguira apagar as máculas do passado, ele desembarcava de nariz empinado e senhor de todas as ordens, manda-chuva da administração geral e do cultivo da cana-de-açúcar, instalando engenhos de açúcar, tabaco e algodão, botando ordem e pintando o sete, tendo por financiamento a garantia do capital judeu e protestante, oriundo do tráfico de escravos da Guiné. Mas, tinha uma bronca: a arenga entre ele, índios e colonos só veio mesmo amainar, com a união do seu cunhado Jerônimo com Maria, a filha do cacique Arcoverde dos tabajaras. Uma dor-de-cabeça a menos, pois ainda restavam caetés e franceses, o que já era uma barra pra lá de braba. Pois bem, contando com a ajuda dos céus, foi isentado de prestar contas ao governador geral da Bahia, Tomé de Sousa, o que quase mata o maioral do coração. Por conta disso, mandou ver na capitania e tome trupé. Foi por esse tempo que teve um confronto com um grupo de aguerridos caetés, e disso foi atingido por uma flecha. Que coisa! Porém, ao se recuperar recebeu o chefe tabajara, Tabira, que trouxe os prisioneiros com pedido para sacrificá-los. Aproveitando-se da captura deles, sua intenção era outra, vez que, entre eles, estava ela, Iangaí, Ó linda. Apenas ela foi poupada, os demais foram pros quintos dos infernos ou sabe-se lá pra onde. A prisioneira passou a ser o centro das suas atenções, estava, deveras, perdidamente apaixonado. Ela, nada, virada na capota choca, revoltada, era só desprezo porque seu coração estava destinado a Camura, o seu amado caeté. O donatário usou de seus poderes e, como não poderia ser diferente, partiu pra cima dela, incontrolável, vuque-vuque e a estupra, mesmo com os protestos e rejeições dela. Ó linda, assim seviciada todas as noites, até o dia em que a índia Maria de Jerônimo confidenciou: Ela vai matá-lo. Ele ignorou, estava apaixonado demais para ser tocado pela repulsa da amada, mas precaveu-se. Passou-se o tempo e após muitas fungadas e teitei, ela pariu seu filho que é tomado por Maria para o donatário. Aí, ela foge e se mata, encontrada morta dias depois e envolta em folhas de timbó. Oh não! Em sua homenagem ele funda Olinda da Nova Lusitânia, que até então não tinha esse nome não, era local onde se instalava a aldeia Marim dos Caetés. A criança desapareceu e ninguém sabia nada do paradeiro dela. Como é que pode isso? Babau. Tome anos. A povoação é promovida a vila em 1537, em uma grande festa para o poderoso. E tudo correu normalmente até ele bater as botas em 1554, lá em Portugal, sem saber notícias do filho perdido. D. Brites que assumiu tudo por aqui, não queria ouvir falar nem de longe do bastardinho sumido, apenas dos dois filhos, Duarte e Jorge, que estavam estudando na metrópole e logo retornariam para o seu seio. Pois foi. Sem que ninguém desse por nada, o adulterino cresceu ninguém sabe como e tornou-se o destemido mameluco que arrasou sesmarias e fortunas, dizimou índios, brancos e negros que encontrasse pela frente, adultos, meninos e velhos, tudo sacrificado; apenas por cativeiro as mulheres, senhoras e filhas dos subjugados. Formou um verdadeiro harém, formado por um plantel de brancas, negras e índias para suas orgias por noites e dias. Mais tivesse ou desse. Desconhecia da honra, ignorava sentimentos e apenas matava só por prazer e festa, pois pegava bicho que fosse de mão – jacaré, tubarão, coisa ruim, o que fosse -, enfrentava cruzeta na caixa dos peitos, e tinha por café pequeno quebrar o pescoço alheio. Vôte! Diziam: Esse tem parte partes com o tinhoso! Se não for o próprio, gente! Muitas diziam dele de corpo fechado, pactuado com o demo, espírito ruim, coisas e tais. Parentes, para ele, não tinha, nem se identificava com branco ou índio, muito menos com qualquer semelhante na face da terra, passasse, matava. Teve por alvo a vida toda, afora abusar das mulheres que emprenhavam bruguelos aos montes, sacrificar quem atrapalhasse seu passeio, desbancar qualquer pé de gente metido a besta, principalmente, o de retomar todas as sesmarias doadas pelo pai, assumindo para si toda a capitania e até terras outras mais para as bandas do norte e de outras capitanias. Isso nem contava vitimar-se numa noite invenosa de priaprisma, no meio de um coito ineivado em cima de uma índia tarada, morrendo a bem da salvação dos que conseguiram escapar de seu poder e fúria. Todos os seus domínios foram resgastados um por um pelo primeiro que chegasse, restando, coitada, à Alagoinhanduba, simplesmente, aquele que ninguém queria por ser amaldiçoado e que ainda hoje é demarcado como seu espaço territorial, tão ínfimo, chão esse esconjurado secularmente por ter sido a sede do poderio desse insano. Por conta disso, a cidade sequer figura no mapa, justo porque foi ignorada pela história. E vamos aprumar a conversa, meu! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS
O amor, não a guerra. [...] O amor, não a guerra, isso requer talento demais. Um poder que se acha no povo, uma relação positiva com a vida que falta aos intelectuais, burgueses, militares e políticos. Àqueles que impuseram uma cultura da sexualidade torta, sadismo, masoquismo e não sei mais que outras máquinas de evitar os exauridos; àqueles que ensinam às crianças a patologia do erotismo para esconder as delícias delicadas da normalidade. É preciso aí uma forma tranquila, quieta, sem vontade, estável e serena como uma árvore. A ternura. É preciso um saber, esta felicidade vital que dá tudo num sorriso, a gentileza, esta alta genialidade de grandeza dentro da relação corporal. [...] A filosofia se faz precisa por completo, a verdadeira, aquela que temos pés na terra e que se decifra como sabedoria do amor, uma percepção atual da onitude do cosmos, todo o saber humano, mesmo se o ignoramos e o ensinamos, mais o incêndio ardente do patético. [...] Ela não tem nem mesmo necessidade de reprimir a sexualidade, isso acontece espontaneamente. Como se, ao contrário, a maioria não fosse levada a isso, poucos terão tido a primeira ideia de fazê-lo. Vamos, vós não pensais nisso; se os poderosos do Eros chegassem amanhã ao poder, a humanidade padeceria de vergonha. Uma tal transvaloração, hoje em dia salvadora, obrigaria todos os dominadores da história a se esconderem nos canaviais.
Trechos de Traição: a tanatocracia, extraídos da obra Hermes, uma filosofia das ciências (Graal, 1990), do filósofo francês Michel Serres, evocando a figura do deus grego Hermes, o mensageiro, intérprete da vontade dos deuses, deus dos viajantes. Ressalta o autor que dois aspectos de Hermes são essenciais simbolicamente na filosofia: a sua mobilidade em viajar pelos mais diversos lugares e o seu dom de invenção, representando assim as relações ou redes ou passagens que os diversos ramos do conhecimento, das ciências às artes, devem ter, chamando atenção para a filosofia da invenção que se encontra nas intersecções, nos caminhos terceiros, nos terceiros lugares, lugares de contato entre ciência e poesia, lugares mestiços. Veja mais aqui e aqui.

O DIÁRIO DAS FRUTAS DA CAIS CIA DE DANÇA
O espetáculo O diário das frutas (2017), da Cais Companhia de Dança, foi inspirado no conjunto de crônicas do jornalista, escritor e antropólogo Bruno Albertim e que deram origem a uma série de pinturas de Tereza Costa Rêgo. Este espetáculo marcou a estreia do conceituado e premiado bailarino e coreógrafo Dielson Pessoa como diretor da nova companhia em Campina Grande. O coreógrafo pernambucano já participou da Companhia de Dança Deborah Colker e Balé da Cidade de São Paulo, apresentando-se em grandes palcos do cenário internacional, tais como Uruguai, Chile, Argentina, EUA, Itália, Áustria, França, Inglaterra, Alemanha, Singapura, ao mesmo tempo em que interpretou trabalhos de célebres coreógrafos, como Ohad Naharin (Israel), Mauro Bigonzzetti (Italia), Itzik Galili (Holanda), Luiz Arrieta (Argentina), Cayetano Soto (Espanha), Jorge Garcia e Deborah Colker (Brasil). Veja mais aqui e aqui.

O ENTERRO DA PERNA, DE RUBEM ALVES
[...] Aos olhares dos pranteadores, cujo pranto era interrompido pelo espanto, explicava com voz pausada e grave, própria de alguém que conhece os segredos da morte: “Uma perna, para o sepultamento cristão...” Com mãos firmes e palavras claras de alguém que sabe o que está fazendo, abriu seu livro de ofícios fúnebres, e começou: “O Senhor a deu; o Senhor a tirou. Bendito seja o nome do Senhor.  Queridos irmãos: estamos aqui reunidos para devolver à terra a perna de um nosso irmão ausente...” O coveiro, solene, escutava em silêncio as palavras sagradas que saíam da boca do reverendo e enchiam o espaço crepuscular do cemitério. Já as havia ouvido vezes incontáveis e quase as conhecia de cor. “E agora devolvemos esta perna à terra, até a ressurreição do último dia, enquanto a sua alma retorna a Deus, que a criou, para o descanso reservado aos justos”. Com tais palavras, fez o gesto sobejamente conhecido de todos os coveiros. Chegara a hora para o morto fosse baixado á sepultura. Finalmente, estava tudo terminado. “Eu podia jurar que enterro protestante era mais comprido. Este acabou depressa...”, disse o coveiro ao se despedir do reverendo. “De fato é mais comprido”, confessou o reverendo. E explicou: “Mas enterro de uma perna só pode ser um quatro do oficio inteiro. Quando vier o resto do corpo vou ler os outros três quartos do oficio que eu pulei...”.
Extraído da obra O sapo que queria ser príncipe - adolescência e juventude (Planeta, 2009), do psicanalista, educador, teólogo e escritor Rubem Alves (1933-2014). Veja mais aqui e aqui.
&
A obra de Rubem Alves aqui, aqui e aqui
&
Mais acontecencias em Alagoinhanduba aqui
&
A lenda de Iangaí, ó linda aqui.
&
muito mais na Agenda aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


terça-feira, janeiro 22, 2019

PIERRE WEIL, JOSUÉ DE CASTRO, SIDNEY AMARAL, AS PREGAS DE ODETE, HOMENS & CARANGUEJOS NO FESTIVAL CARIRI


AS PREGAS DE ODETE – Odete? Valha-me! Já sabe, né? Se não, deixa só ela aparecer com aquele penteado na marra da peruca desajeitada no quengo, gola feita cacharrel abotoada até o queixo, mangas compridas atacadas nos pulsos, a barra do vestido no meio dos cambitos, galocha velha e fumaça pelas ventas, segure a onda que ela bota moral de tão queixuda. Alguém já ouviu uma risada dela? Mostrar os dentes pelo menos? Só se for de raiva. Basta ela abrir aqueles boticões de olhos que o esparro come no centro: mexe com quem está quieto, desonra valentão, arma o maior barraco e só para quando a trovoada arrasou o quarteirão e redondezas, dela se ver consumida de todas as energias de gasguita rouca. Só assim. Quando dá na veneta ela muda percurso de procissão, horário de festa, enterro, até o que fazer e o escambau, depende só da Lua e ela aos pitís. Haja pantim. Ah, não existe na face da terra quem saiba de tudo mais do que ela: tem a ficha corrida de todo mundo, é dona da razão; o que diz, segundo ela mesma, é tiro e queda; é Deus no céu e ela nesse mundão das coisas mais desmanteladas. Por ela, consertava tudo: fome, miséria, briga de casal, encosto, tempo ruim, violência, o que aparecer, em dois tempos, tome lá. Se fosse prefeita, a sua cidade seria um brinco, assegura batendo o punho fechado; se fosse governadora, o estado tinha moral, brinque não; e se fosse presidente, dava um jeito nesse Brasilzão véio, arrevirado e de porteira escancarada, duvida? Ela bate o pé, esfrega o dedo no seu nariz, bota as mãos nos quartos e arreia o verbo: Aqui está tudo errado, eu dou jeito! E ai de quem pagar pra ver. Católica apostólica romana daquelas papa-hóstia de rosário entre os dedos, vocifera que a praga do mundo é crente, xangô e espírito ruim: Enquanto houver isso o mundo não presta! Diz e está dito. Ela se autoproclama justiceira e ao preparar um despacho na esquina não tem quem desenrole e se botar a mão no exorcismo, nunca mais corre bicho por aí. E não é só isso não: não larga os evangelhos, clama por todos os santos e usa de todo tipo de expediente para dar fim ao que achar por perturbação ou quizília. Se é pra aconselhar, ela não pestaneja: bota tudo na roda, mexe o pirão e ai de quem discordar do que ela diz. Pense numa tabacuda ineivada. Quem procura por seus conselhos ou sai doido comendo merda e rasgando dinheiro, ou nunca mais se apruma na vida, dizem. Ela está sempre ali, em cima da bucha: Êpa! Não precisa convocá-la para nada, pois chega no desaviso, cheira o duvidoso e deixa tudo às claras, segundo seu próprio tino: desmancha o que está certo, desacerta o que já está errado; bota gosto ruim, peitica, mete o bico no alheio, compra fuxico e passa o recibo, esfola a pereba, mete o dedo na ferida e no furico dos outros: Pimenta no cu dos outros é refresco, zomba. Pronto, com ela a cloaca abre e a coisa está feita: se está dando certo, bota tudo a perder. Pense num estrupício medonho. Com ela ou tudo está prestes ou gorou de vez. Chega ao ponto de arengar pelo que está certo porque entendeu tudo errado. Vá explicar. Ela mesma diz: O remédio de um doido é outro na porta. Só duas dela, a primeira, uma coisa é certa: quando o cara quer casar não tem quem demova a ideia. É? Parece que é. Chama Odete pra ver. Ela sozinha já descasou uma tuia e desfez um monte na porta da igreja. E ainda sai se vangloriando por que salvou duas almas, uma era pouca. Taí. Outra? Já viu um suicida voltar atrás? Pois voltou e quase mata Odete. Como não conseguiu seu intento de enforcá-la com as próprias mãos, matou-se assim mesmo jogando-se num tonel cheio de bosta. Como? Ah, Odete está por aí, pra cima e pra baixo. Se não existisse teria de ser inventada, só ela mesmo pra aprumar as conversas desconversadas. Eu, hem? Depois conto mais dela. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Existem, segundo as tradições e as recentes pesquisas transpessoais, quatro estados ditos “de consciência”: o estado de vigília, o estado de sonho, o estado de sono sem sonhos e o estado de plena consciência ou vivência holística. As características da plena consciência são conhecidas através das tentativas de descrição dos que a vivenciam: inefabilidade, caráter paradoxal, saída do espaço-tempo, não-projeção da mente sobre os objetos, superação da dualidade sujeito-objeto ou estado não dual, vivência de uma luz radiante que impregna o espaço, vivência da vacuidade plena, vivência de amor indescritível, sentimento de viver a realidade como ela é, perda do medo da morte e descoberta do verdadeiro sentido da existência. Como já afirmamos, componentes fisiológicos caracterizam esse estado que é, neste nível, passível de mensuração através da eletroencefalografia, da avaliação de mudanças circulatórias, respiratórias, eletrocutâneas, etc. A plena consciência é acompanhada também pelo fim do sofrimento psicológico, pelo despertar da verdadeira sabedoria, indissociável do amor, e por uma ilimitada capacidade – ou limitada apenas pelo corpo físico – de aliviar o sofrimento dos outros, aproximando-os da alegria de viver. [...]
Trecho de O que se entende por plena consciência?, extraído da obra Holística: uma nova visão e abordagem do real (Palas Athenas, 1990), do educador e psicólogo francês Pierre Weil (1924-2008). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A ARTE DE SIDNEY AMARAL
A arte do escultor, pintor e fotógrafo Sidney Amaral (1973-2017). Ele é licenciado em Artes Plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP-SP) e estudou pintura acadêmica e fotografia e foi aluno do Museu Brasileiro de Escultura (Mube-SP). Ele realizou diversas exposições e mostras individuais e coletivas, e seu trabalho consiste na apropriação de objetos cotidianos e prosaicos e na sua recriação em materiais como mármore, resina, porcelana e, principalmente, bronze. Já apresentou sua obra em diversos espaços brasileiros e em países como Angola, Cabo Verde e Moçambique. Veja mais aqui.

HOMENS & CARANGUEJOS NO FESTIVAL CARIRI
Acontecerá até o dia 26 de janeiro o II Festival Cine Cariri em Nova Olinda, Crato e Juazeiro do Norte, com debates, oficinas e exposições. O destaque fica por conta do documentário ficção Homens e caranguejos, de Paulo de Andrade, baseado na obra homônima do médico, sociólogo, antropólogo e geógrafo Josué de Castro. Veja mais aqui e aqui.
&
A obra de Josué de Castro aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
&
muito mais na Agenda aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

segunda-feira, janeiro 21, 2019

GRACILIANO RAMOS, TEREZA COSTA REGO, FLAIRA FERRO, PEDRA, OURO & CORAÇÃO


PEDRA, OURO & CORAÇÃO - A pedra bruta, pedaço de rocha oriundo do choque térmico do magma com a superfície. Lá estava ela de anos ou talvez de sempre exposta à erosão, feiosa e suja, um ita. Reles como qualquer outra, simples, disforme, deformada pela duração, fragmento rijo ao desgaste, ao desbotamento, dura e sólida. Quem diria que ela fosse objeto de estudo dos petrólogos, um pedregulho, ou coisa que valha, seixo, calhau, cascalho, burgau, rebo, pedra-pome, basalto, cristal, seja no deserto, no pico da montanha, no fundo do poço ou como cálculo renal. Uma mera pedra. Ao pegá-la, parece coisa qualquer, desimportante, diferentemente se nas mãos de um artesão – esse sou eu ou você, qualquer um. Pegá-la, esfregá-la, limpá-la, o desbaste, a remoção da sujeira, aparentemente uma coisa feia que, assim mesmo, a gente segura e espreme – como artesão – lava, bem lavada de ficar lisa, aquinhoada, exposta ao cuidado como se fosse uma preciosa ou do Sol ou da Lua ou Estrela num castelo abandonado. Afinal, pode ser avultada, quem sabe, lápis-lazúli ou pérola ou rubi sob o colchão na cama dos mortos; safira ou selenita ou turquesa amarela dentro da cabine de um barco afundado no mar; zebra stone ou unaquita ou rodocrosita, ou mesmo água marinha sob os escombros duma casa assombrada; madrepérola ou malaquita ou crisocola sob as ferragens de automóvel num ferro velho; ou berilo ou dolomita ou jade sob o lixão das periferias famintas; ou kunzita ou amazonita ou cianita sob os restos mortais de insepultos amaldiçoados; ou esmeralda ou granada ou magnetita perdidas nos esgotos urbanos; ou rodonita, peridoto ou bronzonita nas imundícies das margens dos rios; ou pirita, âmbar ou quiastolita no estômago de uma égua morta à beira de um riacho longe; ou hematita, serpentinita ou ametista num gruta perdida entre muitas por aí; nuumita, citrino ou leopardita no chão de um ermo distante; ametrino, cornalina ou fluorita na beira das rodagens desse mundo de meu Deus; sodalita, apatita ou coral nas locas das cobras vigilantes; labradorita, azurita ou madeira fossilizada aos pés de um morro ignoto; morganita, turmalina negra ou melancia ou verde no meio do nada de um vale desconhecido, ou mesmo ágata azul ou fogo ou dentrita ou lilás ou rosa ou verde escondida nas matas ínvias quase inexistentes; calcita azul ou laranja ou verde na curva fechada do matagal; cristal fumê ou rutilado, ou mesmo howlita azul ou branca ou rosa na pedraria dos deltas fluviais; jaspe amuleto ou estrelado ou indiano ou oceânico ou pardo ou rajado ou vermelho ou zebra rosa ou precioso nos rebentões dos ventos perdidos; obsidiana negra ou maragony, olho de falcão ou de gato ou de tigre nas correntezas que dão pro mar; ônix verde ou azul ou vermelho nos vales inóspitos das terras de ninguém; opala andina ou de fogo, ou quartzo azul ou bordô ou ros ou sodalític ou verde nas margens dos brejos de terras sem nome; topázio azul ou imperial ou o tesouro e a descoberta, o desvelo do ouro da colisão das estrelas de nêutrons e que à primeira vista reluz denso, dúctil, maleável pepita exposta à brisa mormaçada, ao tempo e temporais, intempéries, e tida e guardada num canto qualquer, esquecida, abandonada, o pó, a poeira, sujeiras, quase irreconhecível na tumba da rainha Zer. Como qualquer outra será preciso sempre limpar, tratar, manusear, lapidar, lavrar, o carinho da quase cobiça. Assim também as coisas primeiras, como a semente e a raiz, os filhotes, o esmero e a dedicação, o fruto que saboreia quando se remove a casca, o que se esconde embaixo da crosta, da pele, da terra. Inestimável ou não, pode se tornar qualquer uma na mais linda do universo. É só querer. Um grão pode ser uma fortuna, ou equivalente. O valor é seu, faça-a a mais bonita e cara, embora tudo isso seja passageiro, relativo, que seja bela e impagável pra você, pois o bonito e o valioso que é pra você, pode não ser para outro e outros. O que importa é a evidenciação, como se coração pulsando. Há quem seja ou saiba, qualquer coisa vibra, pulsa. Quase ninguém sabe: a pedra bruta e feia que pode ser ouro, coração. Ou melhor, assim também um coração, qualquer um. Assim, tudo na vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Marina entrou no banheiro e esteve uns minutos em silêncio despindo-se com lentidão. Os movimentos dela eram tão vagarosos que eu os percebia a custo. Era preciso adivinhá-los. Assou-se e lavou as mãos na torneira. – Virgem Nossa Senhora! E a punha-se a cuspir. Aquela queixa mostrava um desengano enorme. Pareceu-me que o mundo tinha despovoado e Marina estava completamente só. [...] Aí o pranto de Marina rebentou novamente, enrolado, com palavras ásperas que não entendi. [...] - Coitadinha! Não via, não sabia. Tão inocente! Agora já sabe. Pois é. Escangalhada, com um filho na barriga. Não faça essa carinha de santa não. É o que lhe digo. Estou mentindo? Arrombada, com um moleque no bucho. Não quer ouvir não? Tape os ouvidos. - Cale a boca, Marina, gaguejou d. Adélia, tremendo. Me respeite, Marina. Esta ordem bamba pareceu-me ridícula e despropositada, mas produziu um efeito que me espantou: Marina deitou água na fervura. Virei d. Adélia por todos os lados e não achei que ela fosse digna de respeito. Nem de respeito nem de ódio. [...] Marina continuava a chorar. D. Adélia queixava-se baixinho. É estranho que elas não houvessem aludido uma única vez a Julião Tavares. Nenhuma referência àquele patife. Era o que me espantava quando saí do banheiro, já muito tarde. Nesse dia faltei ao ponto. [...].
Trecho do romance Angústia (Martins, 1969), do escritor e jornalista Graciliano Ramos (1892-1953). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
[...] Eu acho que sou mesmo temerária. E foi assim, fui deserdada, minha família inteira me rejeitou. Eu saí aqui sem lenço e sem documento mesmo, como a canção da época de 68. Fui para São Paulo, fiquei clandestina. A minha vida eu posso dividir em três pedaços. Eu acho que eu tive três nomes: fui Terezinha, fui Joana, e fui Tereza. Fui Terezinha, a menina rica, bonita, que usava vestidos de costureiras, importados, depois me divorciei e aí passei a ser Joanna, quando eu era clandestina, é uma coisa muito... Eu ainda fico meio engasgada, quando eu falo nisso. É uma coisa muito complicada, você morar numa casa enorme com chofer, eu tinha 11 empregados no dia em que eu saí de casa. Aí você vai para um apartamento desse tamanho, você começa a se despojar de todos os seus valores, tá? Eu fiz Universidade em São Paulo, e vivi clandestina, eu era Joana. [...]
Relato da artista Tereza Costa Rego, recolhido de Entre Terezinha, Joana e Tereza: as múltiplas faces de uma artista plástica, da professora Elizabet Soares de Souza. Imagens recolhidas do catálogo da exposição Diário das frutas (Correios/MinC/Relicário, 2013). 
Veja mais aquiaqui, aqui, aqui e aqui.

A MÚSICA DE FLAIRA FERRO
Hoje na Rádio Tataritaritatá a música da pesquisadora, dançarina, atriz, cantora e professora de danças populares do Instituto Brincante (SP), Flaira Ferro. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.
&
Neuroeducação aqui, aqui, aqui e aqui.
&
Crônica de amor por ela aqui
&
muito mais na Agenda aqui.


sexta-feira, janeiro 18, 2019

FERREIRA GULLAR, CLAIRE STREETART, CLÓVIS DE BARROS FILHO, AVANI AZEVEDO & O PAPA-FIGO DE ALAGOINHANDUBA


O PAPA-FIGO DE ALAGOINHANDUBA - De primeira apareceu numa certa manhã ensolarada, no meio de um matagal denso nos arredores da cidade, duas crianças mortas. E com um detalhe: parecia que haviam chupado o sangue e arrancado o fígado delas. Quem seria capaz de tal malvadeza? Quem os pais? Ninguém sabia. Que coisa! Será de gente daqui mesmo ou doutro canto? O doutor Teje-Preso logo anunciou em cima da bucha da sua ruindade: Quem quer que seja, vai feder nas barras da justiça. E ao anoitecer, lá estava ele com uma cambada de jagunço até de um olho so, tudo armado até os dentes para caçar o responsável daquele crime. Uma semana de vigilância e nenhum rastro do criminoso. Um mês depois, já quase esquecido o incidente, novamente duas crianças foram encontradas nas mesmas condições, só que agora no meio de um canavial. E só pega de duas é? Esse negócio está cheirando mal. Passou a ter vigilância por tempo indeterminado até se pegar o salafrário. Um mês certinho depois, a cidade amanhecia com uma nova bomba: desta vez, três crianças encontradas nas pedrarias do rio, memo modus operandi. Isso vai feder! Ah, se vai! Todo mundo já sabia que a fúria de Teje-Preso estava nas alturas, cagando raio a torto e a direito. Formou batalhão diário para caçar seja por onde fosse, brenhas, chãs, vielas, rodagens, veredas, em todo o território municipal. Agora a gente pega esse tarzinho. O primeiro suspeito foi um padre estrangeiro que era peludo da cabeça aos pés: tinha pelos no pau da venta, pela testa, uma tufa enorme na caixa dos peitos, até pelas mãos e pés. É ele. Esse padre havia se oferecido como voluntário para a Igreja Bidiônica e lá prestava os seus serviços. Um dia lá, andando de madrugada pelas ruas, foi atocaiado e preso em flagrante. Enquadraram o homem embaixo da maior pisa, dele ficar molinho na cela por dias. Não tivesse ficado sob a máxima vigilância cada segundo dos dias e das noites, estaria lascado. Ainda estava desacordado da sova, quando receberam a notícia de quatro crianças encontradas mortas numa moita atrás dum morro distante. E da mesma forma dos anteriores. Foi ele não, o bicho ainda está solto. Tiraram o vitimado às pressas pra emergência, trataram dele com tudo do bom e do melhor e arregaçaram as mangas e as catracas do juízo. A investigação cresceu, corria solta a boataria de tráfico de crianças e aquelas deveria ser o refugo. É não, meu! Ora se não é! E saíram caçando pedófilos, padrinhos e achegados. Na tuia, todo mundo era suspeito. Depois de muita discussão, tiraram a primeira conclusão: o celerado só atuava em noite de lua cheia. Mas num é mesmo? Rapaz, será lobisomem? Vampiro? Esse bicho vai pagar caro. Deve ser um papa-figo! A gente tem que pegar esse fidapeste! E se danaram a ficar de prontidão toda noite de lua cheia. Lá longe um uivado de arrepiar a coragem, frio na barriga e os cabelos em pé. É ele. Quem vai? Cadê coragem! Mesmo assim, saíram cavoucando tudo. Só de manhãzinha lá estava: duas criancinhas. Desse jeito o bicho vai comer os anjinhos todos da cidade. Entrava mês, saía semestre e o monstro escapulindo. Foi bem dois anos ou mais de caça, contam. Mas malassombro também vacila e cercaram um que estava cheirando cinza no mato. Pegamos o desgraçado! É hoje ou nunca! Quando atalharam que seguraram o monstro, arriaram a lenha, dele impar quase mortinho da silva. Foi aí o engano: ouviu-se uma barulhada dentro do mato de passar por eles na maior carreira. Quem tem boa pontaria? Oxe, só se ouviu o pipoco. A coisa caiu, mas levantou-se ligeiro. Dois, três, muitos disparos, a criatura já era. Arrodearam no escuro e meteram bala na besta. Arrastaram-no mato afora até chegar numa rodagem quase iluminada. Num dá pra ver direito! Bota luz! Era mesmo um papa-figo crivado de balas. Vamos levar pra delegacia pro juiz ver que pegamos esse desgraçado. Foram avisá-lo do feito. Em casa, nem sinal dele. Lá pras tantas, viram aquilo se mexendo, se modificando. Lá estava ele peludo, inchado, unhas enormes, orelhas e dentes de vampiro. Era ele. Quando deram fé, ninguém acreditou: era o juiz Teje-Preso. Como é? Isso mesmo. Não acredito! Verdade. Num brinca! Só vendo. E foi. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Da agenda privada todos falam. A forma das intervenções varia, mas os temas que dizem respeito à vida privada de cada um são tratados em circuitos de relações mais ou menos abrangentes. Por isso a questão a que nos referimos diz respeito a temas da agenda pública. Essa limitação temática torna os meios de comunicação fator decisivo na construção e imposição da opinião dominante. Se, como vimos, são os meios que oferecem o menu temático comum, são também os que têm a prerrogativa de indicar qual o enfoque a ser dado a cada um desses temas. No entanto, mesmo na discussão de assuntos políticos, por exemplo, outros fatores, além da opinião da mídia, influenciam uma eventual manifestação pública. A competência específica para abordar o tem é um deles. [...] Para o senso comum e alguns comunicólogos mediáticos, a mídia socializa o conhecimento. O fato de a recepção, sobretudo televisiva, se dar de forma intensa em todos os niveis sociais serve de argumento para que se acredite na tese homogeneizadora da veiculação informativa. No entanto, as pesquisas realizadas sobre os efeitos da recepção informativa mostram o contrário. Os grupos de maior capital cultural, que ocupam os niveis mais altos na escala socioeconomica, apresentam uma absorção da informação sempre superior aos grupos de nivel de instrução inferior. A distância de conhecimento entre esses grupos, em vez de diminuir, aumenta. Os meios de comunicação servem como instrumento de reprodução das desigualdades culturais. [...]. Trecho de Competência específica, extraída da obra Ética na comunicação: da informação ao receptor (Moderna, 1995), do professor e jornalista Clóvis de Barros Filho, com a colaboração de Pedro Lozano Bartolozzi. Veja mais aqui.

POEMA OBSCENO DE FERREIRA GULLAR
façam festa / cantem dancem / que eu faço o poema duro / o poema-murro / sujo / como a miséria brasileira / Não se detenham: / façam a festa / Bethânia Martinho / Clementina / Estação Primeira de Mangueira / Salgueiro / gente de Vila Isabel e Madureira / todos / façam / a nossa festa / enquanto eu soco este pilão / este surdo / poema / que não toca no rádio / que o povo não cantará / (mas que nasce dele) / Não se prestará a análises estruturalistas / não entrará nas antologias oficiais / Obsceno / como o salário de um trabalhador aposentado / o poema / terá o destino dos que habitam o lado escuro do país / - e espreitam.
Poema obsceno, extraído de Toda poesia - 1950-1980 (Civilização Brasileira, 1981), do premiado e aplaudidíssimo poeta, crítico de arte, tradutor e ensaísta maranhense Ferreira Gullar (1930 – 2016). Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE RUA DE CLAIRE STREETART
A arte de rua da artista francesa Claire Streetart. Veja mais aqui.

PINDORAMA DE AVANI AZEVEDO
Os ventos vão e voltam provocando ondas, / no mar de poesias dos canaviais / onde a essência dos poetas, ali, adormecida, / que para tantas gerações 'inda desconhecida / relembrando páginas que não voltarão: JAMAIS! / Palmares - é UNA e PIRANGY / PALMARES - é TROMBETAS na sua hisrtória / PALMARES -é CONCEIÇÃO DOS MONTES / PALMARES - é Arte e Cultura a todo instante / PALMARES - é PINDORAMA de viva memória! Do Campanário de tua bela Catedral / Os sinos dobravam anunciandop as Missas / teus filhos viveram para te defender / o Brasil ainda vai te conhecer / esta terra dos Poetas e dos Artistas! / A passarada canta a letra de teu hino / este teu povo é feliz igual criança / porque tua arte tem a grande realeza / porque és terra de cultura e de grandeza / porque és terra que promove a Esperança! / PALMARES - és UNA e PIRANGY escrevendo mais um verso, / és TROMBETA onde a poesia de declama / na proteção do Manto Azul de Nossa Senhora dos Montes / onde os ventos balançam as palmeiras e suas fontes / onde os pássaros gorjeiam por ti, oh, PINDORAMA!
Poema extraído da obra Pindorama (2018), do poeta, professor graduado em Letras e pós-graduado em Literatura pela Famasul, Avani Azevedo. O autor teve artigos publicados na Revista A Região, entre os anos 1985/86; participou da antologia Poetas da Famasu (2006) e autor do estudo Contribuição Sociológica de Ascenso Ferreira (2015), em parceria com a escritora Socorro Duran. O livro reune o histórico da cidade dos Palmares (PE), da Academia Palmarense de Letras (APLE), do Colégio Diocesano dos Palmares - 25 anos de Fundação, traz o Hino da EREM Palmares, datas importantes, cronológico, jornalistas, jornais que contaram a história da imprensa local, autores palmarenses, ilustres palmarenses não nascidos no Município, poetas que declamam sua terra e referências bibliotecárias. Veja mais aqui e aqui.
&
Outras ocorrências em Alagoinhanduba aqui.
&
muito mais na Agenda aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

quinta-feira, janeiro 17, 2019

EINSTEIN, SEBASTIÃO SALGADO, TATIANA SCHUNCK & LUSTRICÍDIO


O ESQUISITO LUSTRICÍDIO - Desidério tornou-se o melhor partido de Alagoinhanduba. As mulheres suspiravam quando ele dava o ar da graça. Pudera, cinquentão bem-vistoso, solteirão abastado, médico de renome e mais todos os predicados para enfeitiçar o mulheril, fosse casada ou desimpedida, enjeitadas ou reprimidas, devotadas ou desvalidas. Respeitoso com as folgazãs pacientes que acorriam aos montes para o atendimento, escolhia a dedo entre as visualizadas, dispensando todas ao final de um criterioso processo avaliatório. Queria por que queria apenas uma Galateia, rigorosamente sem o mínimo defeito, fútil que fosse, havia de ser assim, como ele mesmo batia no peito e dizia: lindeza escandalosa, dócil e domável, ao seu inteiro e exclusivo dispor, calada, prestativa servil e que o tivesse como o rei-deus sobre todas as coisas. Só. Muitas entraram no páreo de sua preferência, nenhuma delas, até então, chegara ao pódium do seu coração. Depois de muito andar pelos quatro cantos do mundo, num dia em que estava prestes a desistir definitivamente de se casar – pensava mesmo em assumir definitivamente sua solidão, de tão desapontado por não ter encontrar quem estivesse á altura de esquentar seus pés nas noites de frio -, pois é, como quem cospe pra cima e não sai de baixo, apareceu, justamente, assim do nada, a Naldinedita. Foi uma abalroada! Pense num desmantelo! Pois foi, ele perdeu o senso e a razão, todos os seus métodos avaliatórios foram pro espaço: É essa a escolhida. Simples assim: bonitona de arrasar quarteirão, nada discreta no balanço voluptuoso de suas carnes apetitosas, seios abundantes e empinados no decote, cinturinha de pilão sobre as ancas explêndidas, quadris realçados nas coxas roluças e pernas carnudas, quase dois metros de exibição gasguita e gesticuladora de tão espalhafatosa, um exagero da natureza, do cabra ficar abestalhado com o coração a bater ligeiro de quase sair pela boca aberta da baba escorer e do queixo cair, dos olhos quase pularem fora e arrear na gamação de não enxergar mais nada pela frente. Pronto, estava feito, fim de carreira. Desarrumando tudo, o homem endoidou de querer casar e já, fato que chamou a atenção de toda população que já se acostumara com a sua solteirice mormaçada. Oxe, ele virou um afoito de passar às carreiras, tudo na hora da urgência e sair desembestado como quem estava prestes a perder o trem. De uma hora para outra comprou terreno de não sei quantos alqueires de terra, fez construir palacete magnificente no meio e iluminado até o céu, recheado de lustres que encomendou dos mais caros para dar ar de luxo, riqueza e felicidade, um estrupício na maior gastadeira. Quando ele passava portão adentro, demorava muito para reaparecer. O comentário era um só de boca em boca: O homem está gastando o pau no brinquedinho, vai findar morrendo disso. É que de uma hora para outra ele emagreceu, encurtou, ficou corcunda, com olheiras fundas e bebendo mais que o habitual: Ué, ele tá usando máscara é? E bêbado demais, meu! Parece que não dava vencimento na coisa, e foi mesmo. Visitas furtivas foram flagradas invadindo o seu terreiro enquanto ele dava expediente na cidade. Ah, depois de muito maloqueiro pular o seu muro, botou ele pra quebrar: pipocos ecoaram de lá de dentro. E o povo do lado de fora só: Viva São João! Não era, primeira quinzena de agosto, ora. E depois setembro, outubro, verões e outonos. Só viam no outro dia ele carregando novos lustres. Vixe, o homem tá fazendo girândolas com as gaias nos lustres é? E alta noite, teibei: disparos muitos na maior quebradeira. No dia seguinte, o repetido: novos lustres. Assim, passou o tempo. A-rá! O povo já estava careca de matar a charada: Ah, quando coça a gaia, é hora diária do lustricídio! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
Não basta ensinar ao homem uma especialidade. Porque se tornará assim, uma máquina utilizável, mas não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto. [...] A não ser assim, ele se assemelhará, com seus conhecimentos profissionais, mais a um cão ensinado do que a uma criatura harmoniosamente desenvolvida. Deve aprender a compreender as motivações dos homens, suas quimeras e suas angústias para determinar com exatidão seu lugar exato em relação a seus próximos e à comunidade. Estas reflexões essenciais, comunicadas à jovem geração graças aos contatos vivos com os professores, de forma alguma se encontram escritas em manuais. É assim que se expressa e se forma de início toda a cultura. Quando aconselho com ardor "As Humanidades", quero recomendar esta cultura viva, e não um saber fossilizado, sobretudo em história e filosofia. Os excessos do sistema de competição e de especialização prematura, sob o falacioso pretexto de eficácia, assassinam o espírito, impossibilitam qualquer vida cultural e chegam a suprimir os progressos nas ciências do futuro. É preciso, enfim, tendo em vista a realização de uma educação perfeita, desenvolver o espírito crítico na inteligência do jovem. Ora, a sobrecarga do espírito pelo sistema de notas entrava e necessariamente transforma a pesquisa em superficialidade e falta de cultura. O ensino deveria ser assim: quem o receba o recolha como um dom inestimável, mas nunca como uma obrigação penosa.
Trechos de Educação em vista de um pensamento livre, extraído de Como vejo o mundo (Nova Froteira, 1981), do físico teórico alemão Albert Einstein (1879-1955). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A ARTE SEBASTIÃO SALGADO
[...] Minha fotografia não é uma militância, não é uma profissão. É minha vida [...] Adoro conviver com as pessoas, observar as comunidades – e agora também os animais, as árvores, as pedras. Minha fotografia é tudo isso, e não posso dizer que são decisões racionais que me leba, a olhar para isto ou aquilo. O desejo de fotografar está constantemente me levando a recomeçar. A tirar novas fotografias, ainda e sempre.
Trecho extraído da obra Da minha terra à Terra (Paralela, 2014), do fotógrafo Sebastião Salgado. Veja mais aqui, aqui e aqui.

TENTATIVA & TATIANA SCHUNCK
A peça teatral Tentativa (2012), da escultora e escritora Tatiana Schunck & Henrique Schafer, conta a história da angústia por conta da espera de uma mulher levando-a a repassar sua exist~encia num fluxo de ações, pensamentos e lembranças. Dessa forma, ela tenta superar a irritação para não explodir diante da constatação de que a vida incomoda. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
&
muito mais na Agenda aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...