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sábado, outubro 12, 2013

GANDHI, WENDY BROWN, BACHELARD, LAURA ESQUIVEL, UNGARETTI, LEILA GUERRIERO & FILHA DA DOR

 


OUTRA FILHA DA DOR: LUTAR & ENLOUQUECERSolange Lourenço Gomes (1947-1982) – Ela que veio de Campinas para fazer o colegial e, logo após, estudar Psicologia no Rio. A partir de então passou a participar de grupos de estudos marxistas, quando caiu na clandestinidade ao se juntar à Dissidência da Guanabara. Foi, então, denunciada como supostamente envolvida no sequestro do embaixador estadunidense, quando entrou para o grupo Organização Pará-Partidária (OPP). Foi nesta organização que ela foi denunciada por participar de assaltos a banco e carros, afora trabalhos de agitação e propagada. Depois disso passou a integrar a Frente de Trabalho Armado e a Frente Operária. Foi então perseguida por estar associada a movimentos que enfrentavam a repressão do período militar ditatorial dos anos 1960-80. Neste cenário ela mudou-se para a Bahia quando, no dia da reinauguração do estádio da Fonte Nova, em Salvador, ela participava de uma panfletagem, quando foi acometida por um surto psicótico, entregando-se à polícia. Ela se autodeclarou subversiva às autoridades e revelou informação sobre o MR-8. Mesmo assim ela foi por 90 dias brutalmente torturada e vítima de abusos sexuais nas dependências da delegacia e, depois, no Doi-Codi do Rio. Ao ser julgada foi considerada inimputável pela Justiça Militar e sentenciada a cumprir pena no manicômio judiciário por dois anos. Por gestão da defesa ela cumpriu pena na prisão, angariando amizades no cárcere apesar do constante estado de delírio. Foi enfim libertada por necessitar de tratamento psicológico, conseguindo cursar Medicina e se casar. Não demorou muito, um dia ela se jogou pela janela do apartamento onde morava, resquícios da tortura física e mental sofrida durante a prisão e que deixaram marcas insuperáveis, principalmente a matéria sensacionalista intitulada "Sexo é arma para atrair os jovens à subversão", publicada pela imprensa brasileira da época. Veja mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Somos basicamente feitos da mesma coisa: generosidade e egoísmo, bondade e ganância. Continuamos a culpar os pobres por sua própria condição. Eles são preguiçosos. Nós não queremos saber que os mais pobres dos pobres são crianças com menos de três anos de idade... Aqueles que falam, aqueles que usam suas conexões, são mais propensos a ter sucesso do que aqueles que sentam e esperam. Não há mais desculpas para deixar as mulheres fora dos círculos internos do poder. As mulheres estão em todas as partes. As mulheres estão prontas para a liderança; Eles só precisam ser identificados e questionados. Pensamento da escritora, professora e diplomata estadunidense Madeleine Kunin.

 

ALGUÉM FALOU: Para a mesa e para a cama, uma só vez se chama. Pensamento da escritora mexicana Laura Esquivel. Veja mais aqui.

 

REGULANDO A AVERSÃO - [...] Os indivíduos tolerados serão sempre aqueles que se desviam da norma, nunca aqueles que a defendem, mas também serão articulados como indivíduos (desviantes) através do próprio discurso da tolerância. [...] Apesar do seu comportamento pacífico, a tolerância é um termo internamente pouco harmonioso, misturando bondade, amplitude e conciliação com desconforto, julgamento e aversão. Assim como a paciência, a tolerância é necessária por algo que preferiríamos que não existisse. Envolve gerenciar a presença do indesejável, do insípido, do defeituosos - até mesmo os revoltantes, repugnantes ou vis. Nesta actividade de gestão, a tolerância não oferece resolução ou transcendência, mas apenas uma estratégia de enfrentamento. [...] A culturalização da política vence analiticamente a economia política, os estados, a história e as relações internacionais e transnacionais. Elimina o colonialismo, o capital, a estratificação de castas ou classes e a dominação política externa dos relatos de conflito ou instabilidade política. Em seu lugar, a “cultura” é convocada para explicar os motivos e aspirações que levam a certos conflitos [...] A despolitização envolve afastar um fenómeno político da compreensão da sua emergência histórica e do reconhecimento dos poderes que o produzem e contornam. Não importa a sua forma e mecânica particulares, a despolitização sempre evita o poder e a história na representação do seu sujeito. Quando estas duas fontes constitutivas das relações sociais e do conflito político são eliminadas, uma naturalidade ontológica ou essencialismo quase inevitavelmente passa a residir nos nossos entendimentos e explicações. No caso em questão, um objeto de tolerância analiticamente despojado de constituição pela história e pelo poder é identificado como natural e essencialmente diferente do sujeito tolerante; nesta diferença, surge como uma provocação natural a quem a tolera. Além disso, não apenas as partes da tolerância, mas a própria cena da tolerância é naturalizada, ontologizada na sua constituição produzida pelo próprio problema da diferença. [...] A tolerância também requer uma aceitação pública de crenças e valores em desacordo com os nossos, crenças e valores que podemos considerar equivocados e até imorais. ... Neste contexto, um cidadão moralmente apaixonado torna-se estranhamente intolerável. [...] Só recentemente a tolerância se tornou um emblema da civilização ocidental, um emblema que identifica o Ocidente exclusivamente com a modernidade, e com a democracia liberal em particular, ao mesmo tempo que repudia a história selvagemente intolerante, que inclui as Cruzadas, a Inquisição, queima de bruxas, séculos de anti-semitismo, escravatura, linchamentos, práticas genocidas e outras práticas violentas do imperialismo e do colonialismo, nazismo e respostas brutais à descolonização. [...] Além da despolitização como um modo de desapropriação das histórias e dos poderes constitutivos que organizam os problemas contemporâneos e os sujeitos políticos contemporâneos – isto é, a despolitização das fontes dos problemas políticos – há um segundo significado de despolitização, relacionado com o qual este livro se preocupa: nomeadamente, aquilo que substitui vocabulários emocionais e pessoais por políticos na formulação de soluções para problemas políticos. Quando o ideal ou a prática da tolerância é substituído pela justiça ou pela igualdade, quando a sensibilidade ou mesmo o respeito pelo outro é substituído pela justiça pelo outro, quando o sofrimento historicamente induzido é reduzido à “diferença” ou a um meio de “ofensa”, quando o sofrimento como tal é reduzido a um problema de sentimento pessoal, então o campo da batalha política e da transformação política é substituído por uma agenda de práticas comportamentais, atitudinais e emocionais. Embora tais práticas muitas vezes tenham o seu valor, substituir uma atitude ou ethos tolerante pela reparação política da desigualdade ou das exclusões violentas não só reifica as diferenças produzidas politicamente, mas também reduz a acção política e os projectos de justiça a uma formação de sensibilidade, ou ao que Richard Rorty chamou de uma “melhoria nas maneiras”. .” Um projeto de justiça é substituído por um projeto terapêutico ou comportamental. [...] Se a tolerância se coloca como um caminho intermédio entre a rejeição, por um lado, e a assimilação, por outro, este caminho, como já foi sugerido, é pavimentado pela necessidade e não pela virtude; a tolerância, como diria Nietzsche, torna-se uma virtude apenas retroativa e retrospectivamente. [...] Os objetos designados de tolerância são invariavelmente marcados como indesejáveis e marginais, como sujeitos civis liminares ou mesmo humanos liminares; e pede-se aos que são chamados a exercer tolerância que reprimam ou ignorem a sua hostilidade ou repugnância em nome da civilidade, da paz ou do progresso. Psiquicamente, o primeiro é o material da abjeção e de uma variedade de ressentimento (aquele associado à exclusão); o último é o material da agressão reprimida e de outra variedade de ressentimento (aquele associado à força ou dominação renegada). [...] Chegamos agora a um ponto bastante insidioso no discurso contemporâneo da tolerância. Ao converter os efeitos da desigualdade – por exemplo, o racismo institucionalizado – numa questão de “práticas e crenças diferentes”, este discurso mascara o funcionamento da desigualdade e da cultura hegemónica como aquilo que produz as diferenças que procura proteger. Ao essencializar a diferença e reificar a sexualidade, a raça e a etnicidade ao nível das ideias e das práticas, o discurso contemporâneo da tolerância abrange o funcionamento do poder e a importância da história na produção das diferenças chamadas sexualidade, raça e etnia. Considera essas diferenças culturalmente produzidas como inatas ou dadas, como questões da natureza que dividem a espécie humana e não como locais de desigualdade ou dominação. [...] A despolitização envolve a interpretação da desigualdade, da subordinação, da marginalização e do conflito social, que exigem análise política e soluções políticas, como pessoais e individuais, por um lado, ou como naturais, religiosas ou culturais, por outro. A tolerância funciona ao longo de ambos os vectores de despolitização – personaliza e naturaliza ou culturaliza – e por vezes entrelaça-os. A tolerância, tal como é comumente usada hoje, tende a considerar os casos de desigualdade ou lesão social como questões de preconceito individual ou de grupo. [...]. Trechos extraídos da obra Regulating Aversion: Tolerance in the Age of Identity and Empire (Princeton University Press, 2006), da professora estadunidense de Ciência Política, Wendy Brown, autora da frase: Quer se trate do Estado, da Máfia, dos pais, dos cafetões, da polícia ou dos maridos, o alto preço da proteção institucionalizada é sempre uma medida de dependência e concordância para cumprir as regras do protetor. Veja mais aqui e aqui.

 

PSICANÁLISE DO FOGO – [...] Basta falarmos de um objeto para nos acreditarmos objetivos. Mas, por nossa primeira escolha, o objeto nos designa mais do que o designamos, e o que julgamos nossos pensamentos fundamentais são amiúde confidências sobre a juventude de nosso espírito. Às vezes nos maravilhamos diante de um objeto eleito; acumulamos as hipóteses e os devaneios; formamos assim convicções que têm a aparência de um saber. Mas a fonte inicial é impura: a evidência primeira não é uma verdade fundamental. De fato, a objetividade científica só é possível se inicialmente rompemos com o objeto imediato, se recusamos a sedução da primeira escolha, se detemos e refutamos os pensamentos que nascem da primeira observação. [...]. Trecho extraído da obra A psicanálise do fogo (Martins Fontes, 1994), do filósofo, crítico literário e epistemólogo francês Gaston Bachelard (1884-1962). Veja mais aqui e aqui.

 

OS SUICIDAS DO FIM DO MUNDO – [...] Como seria, pensei, não se ver refletido nas notícias, nunca se envolver na previsão do tempo, nas estatísticas, não ter nada a ver com o resto de um país inteiro? [...] Eu tinha ouvido tantas teorias para explicar tudo. Porque sim, porque não tinha o que fazer, porque estavam entediados, porque não se davam bem com os pais, porque não tinham pais ou porque tinham muitos, porque apanhavam, porque os obrigavam a abortar , porque beberam tanto álcool e tantas drogas, porque foram prejudicados, porque saíram à noite, porque roubaram, porque saíram com mulheres, porque saíram com mulheres à noite, porque tiveram traumas de infância , traumas de adolescência, traumas de primeira juventude, porque gostariam de ter nascido em outro lugar, porque não puderam ver o pai, porque a mãe os abandonou, porque prefeririam que a mãe os abandonasse, porque eles foram estupradas, porque eram solteiras, porque tinham amores mas eram infelizes, porque deixaram de ir à missa, porque eram católicos, satanistas, evangelistas, fãs de desenho, punks, sentimentais, esquisitos, estudiosos, paqueradores, preguiçosos, petroleiros , porque tinham problemas, porque não os tinham. Teorias. E as coisas que insistiam em não ter resposta. [...] Lá fora o vento era um silvo sombrio, uma boca quebrada que engolia todos os sons: os beijos, as risadas. Um gemido de aço, uma mandíbula. [...] Profunda consternação, notícias trágicas, uma vida inteira pela frente, mas ninguém fez nada. [...]. Trechos extraídos da obra Los suicidas del fin del mundo: Crónica de un pueblo patagônico (TusQuets, 2005), da escritora e jornalista argentina Leila Guerriero.

 

CINCO POEMAS & RAZÕES DE UMA POESIA - I – Com a fome do meu lobo Eu carrego o corpo do meu cordeiro para baixo como uma vela Eu sou como o barco miserável e o mar lascivo. II –  Deixe me ser como uma coisa esquerda em um canto e esquecido. III - Desta poesia Fiquei com o vazio de um segredo sem fim. IV - É azul demais este céu austral. Estrelas demais o apinham, E, para nós, nenhuma é familiar… V - Sou um poeta um grito unânime Sou um coágulo de sonhos Sou um fruto de incontáveis enxertos contrastantes amadurecido numa estufa. Poemas do poeta e professor italiano Giuseppe Ungaretti (1888-1970), autor da obra Razões de Uma Poesia (EDUSP, 1994), na qual expressa: [...] O Brasil é um país em que o homem ainda hoje contrasta com a natureza virgem, é um daqueles países da descoberta da América cujos contrastes com o espírito ocidental contribuíram para sugerir as formas do barroco e tornaram popular, na poesia de então, Polifemo. Polifemo era a imagem, surgida na Sicília, da violência que jamais conseguirá domar a graça. [...] Eu deixava nesta terra a parte mais nobre de minha alma: uma criança enterrada. Aqui viveu seus poucos anos. […] Eu fora autorizado a levar comigo os amados restos: hesitei. Disse não. […] Não se arranca um corpo da terra onde se desfaz e a qual enriquece com seu pó. [...] Memória e inocência, razão e natureza como eu as vi e senti entrechocar aqui constituíam para mim uma experiência diversa de todas as outras, inteiramente novas, e me pareciam não mais como uma catástrofe a ser delicadamente remediada, mas como espetáculos de gênese, de uma nova gênese tão desmedidamente realçada que a medida da civilização humana não poderia enfrentá-la a não ser através de uma arte intrépida e desmedida. [...] se tornaram a substância de minhas novas palavras, essências, do meu renovado tormento semântico, métrico, sintático, expressivo [...]. Veja mais aqui e aqui.

 

AS OBRAS DE GANDHI: A ROCA E O CALMO PENSAR - A Roca e o Calmo Pensar é uma coletânea de textos publicados em jornais e livros, de discursos e cartas pessoais de Gandhi, focalizando o tema da prece e da meditação, instrumentos que constituíram o alimento espiritual de sua vida dedicada à não-violência e à conquista da independência de seu povo. Há homens cuja existência não apenas dignifica a humanidade como um todo, mas também a nutre com qualidades singulares. Os movimentos pacifistas do mundo, verdadeiras forças vivas da cultura emergente, têm sua inspiração na luta de Gandhi, luta centrada na desobediência civil, na não-cooperação com as forças opressoras e, ousadamente, no diálogo franco e sincero, capaz de desmascarar a hipocrisia e despir a retórica de interesses inconfessos. A prece, para Gandhi, não é um ato de isolamento e abandono das responsabilidades individuais e sociais, mas pelo contrário, a mais genuína função altruísta, já que só podemos fazer o bem a nossos semelhantes na medida em que cultivamos a paz no coração e a serenidade na mente. AUTOBIOGRAFIA: MINHA VIDA E MINHAS EXPERIÊNCIASA obra trata-se de mostrar ao público brasileiro uma parte importante - e das mais representativas - da extensa obra escrita desse notável pensador, político e educador indiano. Num momento em que questões relativas à ética, à liberdade, aos direitos humanos, e à exclusão social se tornam desafiadoras e, em muitos países, de solução inadiável, abordá-las é uma tarefa que interessa a todos os setores da sociedade. Conceitos como a não-violência, por exemplo, são detalhadamente apresentados e fundamentados pelo autor. Ao lado da educação e dos trabalhos comunitários, ela surge como instrumento de primeiríssima necessidade para a definição de novos modos de interação humana. Por tudo isso a apresentação desta obra atende a uma necessidade básica, em especial se levarmos em conta que o colonialismo - para cuja abolição Gandhi tanto se empenhou - hoje ressurge sob novas formas e em escala planetária. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

REFERÊNCIAS
GANDHI, Mohandas Karamchand. A roca e o calmo pensar. São Paulo: Palas Athena, 1991.
______. As palavras de Gandhi. Rio de Janeiro: Record, 1984.
______. Autobiografia: minha vida e minhas experiências com a verdade. São Paulo: Palas Athena, 1999.


PROGRAMA DOMINGO ROMÂNTICO – O programa Domingo Romântico que vai ao ar todos os domingos, a partir das 10hs (horário de Brasilia), é comandado pela poeta e radialista Meimei Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Confira a programação deste domingo aqui. Na edição do programa Domingo Romântico deste 13 de outubro, as comemorações do mês da criança com muitas atrações, confira: Egberto Gismonti, Ziraldo, Turma da Mônica, Canarinhos de Petrópolis, Ana Maria Machado, Chico Buarque & Os Trapalhões, Ratimbum, Baú de História & Cris Miguel & Sérgio Serrano, Bia Bedran, Castelo Ratimbum, Milton Nascimento,Toquinho, Gilberto Gil, Os Saltimbancos trapalhões, Lucinha Lins, Fatima Guedes, Ana Carolina, Fagner, Nana Caymmi, Natiruts, Rita Lee, O Rappa, Marina, Caetano Veloso, Geraldo Azevedo, Amelinha, Djavan, Chicago, Lenine, Jorge Vercilo, Altay Veloso, Fatima Maia & Quinteto Violado, Santanna o Cantador, Carmen Queiroz, Rosana Simpson, Paulinho Natureza & Sandra Moura, Marize Sarmento, Dani Lasalvia, Augusto Pitta, Dido Oliveira, Sinara, Benny Esposito, Tirso Florence de Biasi , Robson Gomes, Cantor Pitanga & muito mais! Participe, comente, curta online & abrilhante a nossa festa neste 13 de outubro, na programação da Cidade FM 87,9, a partir das 10hs. Não deixe de participar para concorrer a diversos prêmios: CDs, DVDs, livros & um tablet. Confira o programa e concorra a prêmios. Veja mais aqui.



SERVIÇO:

O que? Programa Domingo Romântico.

Quando? Neste domingo, 13 de outubro , a partir das 10hs.

Onde? Cidade FM 

Apresentação Meimei Corrêa.


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quinta-feira, março 07, 2013

ANNE HÉBERT, ARNALDUR INDRIÐASON, CHBOSKY, COOPER CLARKE & LITERATURA


Foto: Dimas Bezerra

LITERATURA: MODERNIDADE X PÓS-MODERNIDADE

Luiz Alberto Machado

Em razão da minha participação na mesa de debates sobre a temática “Literatura e Pós-Modernidade” durante a VIII Semana de História da Universidade Federal de Alagoas - UFAL, efetuei uma reflexão a respeito no sentido de pontuar, em primeiro lugar, a distinção entre modernidade e pós-modernidade, para, a partir daí, localizar a literatura no período compreendido pelo estudo.
Introdutoriamente, é conveniente dimensionar com base na literatura revisada sobre a questão temática, há toda uma trajetória que se dimensiona desde a era atômica até era dos bits, preferindo, então, com isso, fixar, com base em Jair Pereira dos Santos, que existem três períodos que se processaram, sendo o primeiro, cobrindo todo o século XIX, o período do capitalismo liberal; o segundo, que vai do fim do século XIX até o período após a Segunda Guerra Mundial, caracterizado pelo capitalismo organizado e, daí até o tempo presente com o neoliberalismo. Ainda é encontrado na literatura que no século recém-passado, ocorreram ao longo de todo século XX, três fases distintas identificadas, primeiramente, pela pré-modernidade assentada no Estado liberal, a modernidade assentada no Estado social e a pós-modernidade assentada no Estado neoliberal. Em razão disso, para melhor entendimento da questão temática, convém, então, distinguir modernidade de pós-modernidade.
MODERNIDADE: O PARAÍSO DE APOLO - A modernidade, para Walter Benjamin, é como viver pelo heroísmo, porque deve estar sob o signo do suicídio que sela uma vantagem heróica que nada concede à atitude que lhe é hostil e esse suicídio não é renúncia, mas paixão heróica. Acrescenta ele nas suas reflexões que o verdadeiro herói do mundo moderno é a figura do operário que, na vida diária, enquanto tem vitalidade, vive um esforço heróico.
No campo da arte moderna, segundo Octavio Paz, esta se caracteriza por ser critica de si mesma, quando é representada como uma época da aceleração que uma fusão de todos os tempos e todos os espaços que se confluíram par um aqui e um agora do tempo histórico. Inclusive, para ele a modernidade é um conceito exclusivamente ocidental e não aparece em nenhuma outra civilização. E assevera: “A modernidade é uma separação”, uma vez que se inicia como um desprendimento da sociedade cristã, sendo, pois, somente a modernidade capaz de realizar a operação de volta ao principio original, pois só ela pode negar-se a si própria no meio das tentações revolucionárias e religiosas.
Na modernidade, segundo Rogel Samuel, a reificação humana transforma o humano em objeto social, na massa, imanente ao todo, identificando uma sociedade de massas, deixando claro, pois, que o mundo da modernidade é o da imanência e do imediatismo. Para ele: “Se o moderno foi capaz de sacrificar Deus, não devemos ter dúvidas de que será capaz de sacrificar qualquer ser (...) ou de sacrificar qualquer coisa. Populações inteiras foram, dizimadas na modernidade, porque é da natureza humana o sacrifício”. Tem-se, pois, além da renúncia, do conflito e da negação, também a autodestruição como fator importante na modernidade. Tanto é que o mito moderno, para Rogel Samuel, se deu sob três modos, como um símbolo, destruindo a significação do mito considerado uma impostura e focalizando o significante do mito na totalidade sentido e forma. Esse mito é o progresso pela tecnologia, era neotécnica para construção da megamáquina como um pentágono que envolvesse energia, política/poder, propriedade, lucro e privilégio. É quando Habermas anuncia que a técnica e a ciência tornam-se ideologias, o par-sagrado para o progresso dando na tecnocracia moderna de George Orwell: a dominação técnica da natureza e do social, a partir do empirismo de Bacon e o racionalismo de Descartes, e a domesticação energética do mundo baseada em Heidegger que trazia a tekhne como poiésis. Resultado: a tecnocracia futurista e totalitária.
A partir disso, há que se considerar, então, que o paradigma cultural da modernidade, segundo Jair Pereira dos Santos, constituiu-se entre o século XVI e finais do século XVIII coincidindo, aproximadamente, com a emergência do capitalismo enquanto modo de produção dominante nos países da Europa. Ou seja, que o período correspondente à Era Moderna abarca, na história, desde o advento do Renascimento, com suas idéias racionalistas, antropocêntricas e de saber ativo e a modernidade seria aquela época a partir do século XVII, quando as idéias Iluministas foram implantadas, e a Revolução Industrial começou na Inglaterra. As idéias Iluministas expressavam uma constante busca pela razão, e isso fez com que as ciências fossem muito incentivadas. Esse fato histórico fez com que as ferramentas fossem substituídas por máquinas, tirando os homens do campo para serem trabalhadores explorados com baixos salários nas cidades. Este período, então, tem raízes na criação da imprensa por Gutenberg, em 1455, e na Reforma Protestante, em 1517, o que fez surgir o chamado Renascimento. Nas ciências exatas, Copérnico trata do heliocentrismo em lugar dos preceitos religiosos. Começa com o pilar do Estado de Hobbes, do mercado desenvolvido por Locke e o da comunidade na obra de Rousseau, este baseado na igualdade entre os homens e na organização soberana da sociedade. Na esfera política, surge uma nova concepção de Estado com a publicação de O Príncipe, de Maquiavel. Com a Revolução Francesa, surgiu um conceito novo, o de religião secular, a crença da salvação pela sociedade.
Com o existencialismo, surge Kierkegaard que vê que a vida humana é movida por suas paixões, não podendo ser reduzida a elementos rudimentares de biologia, a atividade intelectual. O próprio Albert Camus ao observar as atrocidades cometidas nos campos de concentração viu confirmada sua tese de que o mundo não fazia qualquer sentido. Já Sartre defendia que os seres humanos precisavam dar um sentido à vida, só que criado por eles próprios, afinal não existem pontos de referência previamente estabelecidos para guiar o homem. O existencialista volta para si mesmo, porque o relacionamento com o outro lhe causa "náuseas". É a partir da sua individualidade ele tenta dar sentido à vida. Na evolução desse processo Nietzche tenta transformar o ser humano em um "super-homem" como única forma de contrapor ao absurdo e à incoerência da própria existência: "Deus está morto".
Em 1905, Einstein propõe a teoria da relatividade e os conceitos de espaço e tempo são revistos, deixando de existir em si mesmos, para só existir em função de um observador, determinando que nada é igual o tempo todo e gerando uma visão relativista do universo, que deveria constituir-se no grande marco da Modernidade.
A Modernidade não chegou a todos os lugares simultaneamente. No Brasil, os primeiros contornos da Modernidade foram sentidos em meados do século XX.
Havia, pois, uma grande preocupação em ser moderno, dentro de padrões totalmente etnocêntricos construídos pelos dominantes e impostos aos dominados. Daí ocorre a dominação técnica do social, o individualismo exacerbado, a moral burguesa, a ética da acumulação, a racionalização, o paraíso de Apolo. Nasce aí o formalismo e o hermetismo que é um jogo com formas inventadas. Ocorre, então, a crise: não há mais progresso. No momento que esse padrão de progresso foi quebrado, deu-se início a pós-modernidade, época dos meios de comunicação e massa e muitos conflitos.
Segundo Teixeira Coelho, "(...) haverá tantas noções de moderno, modernismo e modernidade quantos forem os espaços e os tempos considerados. Haverá aquela e esta modernidade, uma modernidade "deles" e a "nossa" modernidade." Isto sugere que cada sociedade engajou-se na modernidade de acordo com suas especificidades e em diferentes momentos.
Uma forma de definir a chamada Modernidade seria a partir de todos os fenômenos sociais que aconteceram devido ao desfruto das pessoas nos avanços da ciência e da tecnologia; assim como, pela urbanização rápida e excesso de informações, ainda que superficiais e manipuladas. Assim, a modernidade é, portanto a realização empírica, por fim, passados tantos séculos depois, do discurso dos universais metafísicos da filosofia clássica. E não mais que isso é a globalização.
Resulta, pois, entendido que na modernidade o homem se torna histérico-paranoico, além de um especialista, lúdico, fragmentado. E no campo da arte caracterizou-se pela individuação e profissionalização do artista, autonomia da produção artística, organização do mercado da arte e de bens simbólicos.
PÓS-MODERNIDADE: O TEATRO DE DIONISO – DO BOOM AO BIT E AO BLIP - Rogel Samuel traz que a pós-modernidade é um nome genérico dado para formas culturais de um período que aparece desde os anos 60, abrangendo certas características como reflexão, ironia e um tipo de arte que mistura o popular e o erudito. É vista como uma continuação dos aspectos mais radicais da modernidade, ora ao contrário, como marcador de uma ruptura com ela. Este período uniu a lógica cultural do capitalismo tardio, a condição hera de conhecimento em tempos de tecnologia da informação, substituição de um foco da epistemologia modernista por uma ontologia, e a substituição do simulacro pela realidade. Para ele, a sociedade pós-moderna é uma sociedade pós-industrial capitalista.
Mediante isso, vê-se que a pós-modernidade desenvolve tendências opostas à modernidade, começando com a cibernética em 1948, a inteligência artificial em 1956, a teoria da auto-organização e sistemas, em 1960; a tecnologia de comunicação de massa (radio, TV e telefone) e a telemática, em 1950. É a partir da década de 50 que novas expressões nas artes começaram a dar indicações de que havia uma mudança em vários âmbitos da sociedade que estariam configurando uma nova etapa da humanidade, com características que não condiziam mais com as idéias e as sociedades modernas. As análises de teóricos como Baudrillard sobre o simulacro e os questionamentos de Derrida e Lyotard, criaram bases para o surgimento de uma teoria da pós-modernidade. Por isso, foi a partir dos anos 50, que surgiu a sociedade de consumo, os mass media, o fim das ideologias, o pós-industrialismo, a contracultura, a revolução verde, a informatização da sociedade, a globalização do local e a localização do global, o caos, a física quântica, as vanguardas anárquicas, o passado virando pastiche, a performática participativa, a esquizofrenia, as combinações, as colagens, os happenings, as tribos, a cultura do excremento, do pânico, do hiperprimitivo e do hipertecnologico. Surgem Andy Warhol, Roy Litchtenstein, James Rosenquint, Claes Oldenburg e Tom Weaaelmann, o bode entrópico, os cerebráticos, bit balance, o barulho maquínico e eletrônico, a abolição do espaço/tempo, as paralogias: o heterogêneo, a diferença, o ciberespaço, as tecnoanarquias, a tecnociência se defronta com a imitação, o mimetismo e os simulacros; o tempo das retroações, recorrências e dialógica não dialéticas; o antagonismo, a interdisciplinaridade, o politeísmo, hedonismo e presenteísmo; a ruptura e continuísmo, miniaturização e onipresença; o presenteísmo, o visionarismo, a instantaneidade, a ubiqüidade, a noosfera, a omnivisão e o inconcluso; a finitude, o saber, o hedonismo e a responsabilidade; a sinergia, a união da mecânica, eletricidade e microeletrônica à nanotecnlogia e o pensamento complexo de Morim.
Passa-se a entender que a chamada pós-modernidade aconteceu também na esfera sociológica levando à secularização e à privatização, o que alterou os pilares básicos da sociedade: o convívio, as relações pessoais e a ética. Na realidade, o pós-modernismo prometeu liberdade, mas lançou o homem na pior das escravidões: a solidão. É nos anos 60 que se começa a ver a utopia da modernidade ruir, quando o pós-moderno passa a ser a ruptura com as metanarrativas na sociedade Frankstein com o seu tautismo, que reúne a tautologia com o autismo.
Daí o homem pós-moderno ser caracterizado pelo apego ao materialismo, ao hedonismo, à permissividade, à revolução sem finalidade, ao relativismo e ao consumismo desenfreado, o ideal asséptico e light, desorientado e sem referências porque perdeu seus objetivos na revolução sem projeto nem finalidade; um de animal descontente que procura a liberdade perdida na sua alienação de que a moda é o eixo da conduta no meio de uma sexualidade vazia, sem rumo e sem amor, zapeando a cultura do tédio, à deriva, cansado da vida fracassada ou drogada e de costas pra morte. É o que se detecta do homem esquizo-conformista de Baudrillard, ou o esquizo-anarquista de Deleuze: um homem amador que cultua o pastiche porque se apropria do passado e realiza o seu rito de passagem perguntando onde os ideais e as causas, num isolamento total no meio da permeabilidade, multiculturalidade e hibridismo.
Para Teixeira Coelho a pós-modernidade abarca uma multiplicidade de aspectos da vida contemporânea, desponjando-se da idéia de identidade permanente, da estabilidade e rege-se primordialmente pela aceitação das instabilidades, da heterogeneidade, da relativização dos marcos referenciais e de doutrinas totalizantes. Diferentemente do que ocorreu até os anos 60, a negação das instituições é substituída pela contestação logo em seguida. Isto significa que o pensamento pós-moderno passou a admitir a existência de posições contrárias e seus adeptos, porém, procura engajamento em outras esferas, integrando as contradições. É neste ínterim que ocorrem a queda das grandes ideologias e dos meta-discursos iluministas, o fracasso dos sistemas políticos, a desconfiança no progresso tecnológico e cientifico, a indiferença com relação a geração X e Y, o novo tribalismo, o fracasso do projeto individualista, descrença no futuro, desafios das manipulações genéticas, AIDS, drogas e cibercultura. Daí, segundo, Enrique Rojas, vai se caracterizando por um período representado como o fim de uma civilização e apontando as soluções do homem pós-moderno na recuperação do humanismo, do amor, do trabalho, da cultura e a volta aos valores, eliminando o cinismo, cultuando a intimidade, sendo coerente para alcançar a felicidade.
É nesse contexto que surge a cibercultura que, segundo Pierre Lévy, vem com o sentido grego de arte do controle, pilotagem, telepresença, prolongando a oralidade e a escrita, e o sistema ecológico do mundo das idéias. Vem unindo informática e cibernética, o digital, o imediato, multimodal, rizomatico, requerendo transversalidade, descentralização e interatividade. Com ela desaparece o social com implosão do individualismo moderno, criando isomorfismo simbióticos, indeferenciados e construindo cibersocialidades. Se a modernidade valorizava a presença, a pós-modernidade só vê ausência, anunciando a desintegração das sociedades com um sentimento de abandono, um cínico fatalismo, o desaparecimento de qualquer idealismo, deixando-se se levar pelas circunstâncias lançando-se nos modismo, deixando de existir quaisquer tipo de mobilizações, crescendo a culpa devido ao abandono moral e uma aceitação de tudo, um ecletismo e uma tolerância acrítica da ética. A resposta pós-moderna ao moderno consiste em reconhecer que o passado, já que não pode ser destruído porque sua destruição leva ao silêncio, deve ser revisitado: com ironia, de maneira não inocente. No entanto, para que a pós-modernidade em seu caráter niilista possa realizar-se, o homem e o ser devem ser repensados à luz de um modelo não-positivista, não-metafísico.
A pós-modernidade, ao mesmo que tempo que representa uma ruptura com a modernidade, representa também a continuação de uma série de transformações que começaram com ela. Com isso, a arte não se desenvolve mais isolada da ciência, da tecnologia e da indústria e ao invés de cada linguagem constituir um texto único, a arte caminha no sentido da intertextualidade, na medida em que diferentes linguagens se aproximam para constituir sentido, e que o público é encarado como agente ativo na construção da obra. E, considerando-se o universo artístico, pode-se dizer que se desenvolveram duas correntes avaliando as mudanças ocorridas na segunda metade do século XX. Dentro de uma postura pessimista há os que prevêem a morte da arte, nos moldes da arte como é conhecida. Por outro lado, muitos críticos consideram a interatividade como uma forma de democratização de meios e mensagens em substituição a formas autoritárias de pensar, que privilegiavam a harmonia, a linearidade e a lógica. Alegam que em outros campos da atuação humana, como na arte e nos sonhos, estas formas de pensar tornam-se totalmente disformes e desarmônicas.
Este é o cenário pós-moderno carente ainda duma reflexão mais aprofundada, não cabível, certamente, num modesto texto. Até depois.
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DITOS & DESDITOS - Aceitamos o amor que acreditamos merecer. Não podemos escolher de onde viemos, mas podemos escolher para onde vamos... É só que às vezes as pessoas usam o pensamento para não participar da vida. Porque não há problema em sentir as coisas. E ser quem você é. Pensamento do escritor, cineasta e roteirista estadunidense Stephen Chbosky

ALGUÉM FALOU - Como costuma acontecer, um casamento fracassado levou a um divórcio bem-sucedido. Dividimos a casa; Eu peguei o lado de fora... Foi nesse ponto que eu fiz uma promessa a mim mesmo, eu disse que não vou me casar de novo, só vou encontrar uma mulher que eu não goste e dar ela tudo. Sou um nostálgico de curto prazo; as coisas estavam ótimas dez minutos atrás. Se eu pudesse voltar lá. Na minha idade sofro de déjà vu e amnésia ao mesmo tempo; Não consigo lembrar o que acontece a seguir. Não enlouqueça, e com isso, boa noite... Pensamento do escritor performático britânico John Cooper Clarke.  

SILÊNCIO DE SEPULTURA - [...] Ele soube imediatamente que era um osso humano, quando o pegou do bebê que estava sentado no chão mastigando-o. [...] Ele impressionava as pessoas. Inconscientemente. Algumas pessoas são assim. Eu não sou. Há algo nessas pessoas que quebra todas as barreiras, porque elas agem completamente como são, não têm nada a esconder, nunca se escondem atrás de nada, são apenas elas mesmas, diretas [...] Ele foi para a cozinha. Eram oito da noite. Ele tentou tapar a brilhante tarde de primavera com as cortinas, mas em alguns lugares ela passava por elas, raios de sol cheios de poeira que iluminavam a penumbra de seu apartamento. A primavera e o verão não eram as estações de Erlendur. Muito brilhoso. Muito frívolo. Ele queria invernos pesados e escuros. Não encontrando nada comestível na cozinha, sentou-se à mesa com o queixo apoiado na mão. [...] Às vezes lhe ocorria, o que talvez ele também soubesse no fundo, que a violência que ele lhe infligia era antes de tudo uma manifestação de sua própria fraqueza. [...]. Trechos extraídos da obra Silence of the Grave (Picador, 2007), do escritor islandês Arnaldur Indriðason

DOIS POEMAS - UMA PEQUENA MORTE Uma pequena morte ela se prostrou na porta. \ Nós a encontramos ao amanhecer, \ abatido em nosso limiar \ Como uma samambaia completamente congelada. \ Não nos atrevemos mais a sair porque está lá \ Ela é uma garota branca com saias espumosas \ De onde irradia uma estranha noite leitosa. \ Nós nos esforçamos para viver dentro \ Silenciosamente varrer o quarto \ E ordenar o tédio \ Deixe os gestos balançarem sozinhos \ No final de um fio invisível \ Em nossas veias bem abertas. \ Levamos uma vida tão pequena e tranquila \ Que nenhum dos nossos movimentos lentos \ Vá além da parte de trás deste espelho claro \ Onde está essa irmã que temos Ele se banha azul sob a lua Enquanto seu cheiro inebriante cresce. CIDADES PELO CAMINHO - Cidades no caminho sobre a água, praças de sal, \ nenúfares de pedra, \ Ilhas descem costa abaixo pelas pendentes do mar, \ vento de pé, sol na proa, \ Ramalhetes amargos no cume das ondas, luz\ gerânio nas cristas dos galhos verdes alinhados \Fluxo e refluxo, tráfego de sol, quedas repentinas\ de abrigos salobres, norte, noite plena, \ Cortejo de alto mar que voltou, o porto \ como estrela, leito aberto que range alga e \ casca de cítricos, \ Barcos atracados, balançantes, dia de festejo, \ coração, içado sobre o mar entre as algas, \ Palmas das mãos abertas, estranhos íbis muito azuis,\ chegam sigilosos a beber aí, \ Toda a doçura arredor respira com largura. \ A terra amansou. Poemas da escritora canadense Anne Hébert (1916-2000). Veja mais aqui.

 


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