GOETHE, PAIXÃO & ARTE – Imagem: Goethe,
art by Fabrizio Cassetta – De um
bisavô ferreiro a um avô alfaiate e um pai conselheiro imperial para filho com
uma vida de oitenta e três anos. Dizia dever ao pai a perspectiva de vida e a
mãe o gosto de contar história. Disso, muitas lendas: se rebelou de Deus aos
seis anos, duvidou da justiça dos homens aos sete, compôs aos oito um ensaio
comparando a sabedoria dos pagãos aos cristãos, escreveu aos onze uma novela
cosmopolita em sete línguas, apaixonou-se pela primeira vez aos quatorze, era
ela Gretchen de Francforte, adolescente provinciana do desespero e melancolia
como peso horrível no coração. Seria mais fácil influenciar árvores e pedras
que chama-lo à razão. Aos dezessete escrevia as imoralidades e adultérios, o
sofístico Die Mitschuldigen: “Como quase todos somos culpados, o melhor é
perdoarmos e esquecermos”. Intoxicado de juventude, ao invés de douto
jurista, preferia o trato com as Musas e a contemplação das formosas moças de
Lipsia. Era a vida um redemoinho e, qual Spinoza, tudo era amável e divino em
cada pessoa que encontrasse. Vivia para cantar Götz von Berlichingen, o Robin
Hood germânico, e se transformava em um egoísta rebelde no jogo do amor - se o
matrimônio era uma síntese impossível, as mulheres eram o vaso de eleição onde
ainda podia ser colocado o ideal -, o bárbaro do amor para genial na arte. Ao
se apaixonar pela jovem dama Lottchen, ela já estava comprometida,
lamentavelmente, pensou até em suicidar-se. Era o nascimento de Werther, uma
elegia sobre a tristeza da vida e um hino à alegria da morte. Bebeu de Confúcio
e foi pra alquimia, o Opus Mago
Cabalisticum de Welling, a Aurea
Catena Homeri de Paracelso, para entender que “Somente o homem que foi o mais sensível pode tornar-se o mais frio e o
mais duro, pois tem que cercar-se de uma couraça dura... e, às vezes, ele
mesmo, ressente-se do peso dessa couraça”. Confinou-se aos livros para
alimentar o seu rebelde espírito, tornou-se o mais submisso dos cortesãos. E
amou, amou Frederica Brion inspirando os lieders
de Estrasburgo, amou a delicada Carlota Buff que aumenta o seu pesar, a fascinante
Maximiliana de La Roche, a graciosa Lili Schönemann, a virtuosa matrona Mme.
Stein a quem escreve mil e quinhentas cartas, a musa amante que morre de ciúmes
da atriz Corona Schröter, e transformou o flerte no divertimento da moda: “Nós todos somos um pouco doidos aqui e
fazemos o próprio jogo do diabo”. Escreveu Stella, a convivência com a esposa e a amante, sem saída, uma bala
na cabeça, até ver-se compondo versos sobre os ombros de morena beleza da
florista Cristina Vulpius, o amor e valor do seu diário. Enamorou-se por Minna
Herzlieb, apaixonou-se por Mariana de Willemer. Para todas perguntava: “Sentes, em meus poemas / que sou dois em um
só?”. Não queria mais destruir o mundo, agora queria compreendê-lo, amava
apaixonadamente as criaturas humanas: “Nunca
expressei nada que não houvesse sentido... componho canções de amor porque
tenho amado muito... como poderei então escrever cantos de guerra sem nunca ter
odiado?”. A vida pagã com o culto da beleza. Com Schiller, a rebelião da
arte. Aos sessenta e quatro anos apaixonou-se violentamente como a primeira vez
pela juventude radiante de Ulrica de Levetzow, a quem desposa e com ela, a Elegia de Marienbad e os sofrimentos de
Werther envelhecido: “À boca dadivosa eles me alçaram / E, ao
separar-me dela, me arrasaram”.
Gênio e demônio: “Todos os
teus ideais não me impedirão de ser verdadeiro, isto é, de ser bom e mau como a
natureza”. Os dois Faustos – o do amor de Margarida salva e a paixão do
erro, e o que foi ao paraíso: “Cantemos
em coro, Da vitória a palma, O ar está puro: Respire esta alma!”. Também a
Ifigênia condenada pelo próprio pai e poupada pela deusa Diana para ser
sacerdotisa em Tauride. Depois a Erótica Romana: “A mulher é a eterna salvação do homem”. No fim de certa manhã, queria mais luz: “Nem sempre estou disposto para os grandes
sentimentos e, sem eles, nada sou”. Depois, registra
Emil Ludwig, recostado comodamente na sua poltrona, desapareceu na sua hora
natal, ao meio-dia. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja
mais abaixo e aqui.Zineblog de Literatura, Teatro, Música & Pesquisas de Luiz Alberto Machado (LAM). Show, cantarau, recital, palestras, oficinas, dicas & informações. Contato & Chave Pix: luizalbertomachado@gmail.com
sexta-feira, julho 06, 2018
GOETHE, JOÃO DO RIO, CASAIS MONTEIRO, SCHELER, ALBERTO NEPOMUCENO, MÔNADAS DE LEIBNIZ & FABRIZIO CASSETTA
GOETHE, PAIXÃO & ARTE – Imagem: Goethe,
art by Fabrizio Cassetta – De um
bisavô ferreiro a um avô alfaiate e um pai conselheiro imperial para filho com
uma vida de oitenta e três anos. Dizia dever ao pai a perspectiva de vida e a
mãe o gosto de contar história. Disso, muitas lendas: se rebelou de Deus aos
seis anos, duvidou da justiça dos homens aos sete, compôs aos oito um ensaio
comparando a sabedoria dos pagãos aos cristãos, escreveu aos onze uma novela
cosmopolita em sete línguas, apaixonou-se pela primeira vez aos quatorze, era
ela Gretchen de Francforte, adolescente provinciana do desespero e melancolia
como peso horrível no coração. Seria mais fácil influenciar árvores e pedras
que chama-lo à razão. Aos dezessete escrevia as imoralidades e adultérios, o
sofístico Die Mitschuldigen: “Como quase todos somos culpados, o melhor é
perdoarmos e esquecermos”. Intoxicado de juventude, ao invés de douto
jurista, preferia o trato com as Musas e a contemplação das formosas moças de
Lipsia. Era a vida um redemoinho e, qual Spinoza, tudo era amável e divino em
cada pessoa que encontrasse. Vivia para cantar Götz von Berlichingen, o Robin
Hood germânico, e se transformava em um egoísta rebelde no jogo do amor - se o
matrimônio era uma síntese impossível, as mulheres eram o vaso de eleição onde
ainda podia ser colocado o ideal -, o bárbaro do amor para genial na arte. Ao
se apaixonar pela jovem dama Lottchen, ela já estava comprometida,
lamentavelmente, pensou até em suicidar-se. Era o nascimento de Werther, uma
elegia sobre a tristeza da vida e um hino à alegria da morte. Bebeu de Confúcio
e foi pra alquimia, o Opus Mago
Cabalisticum de Welling, a Aurea
Catena Homeri de Paracelso, para entender que “Somente o homem que foi o mais sensível pode tornar-se o mais frio e o
mais duro, pois tem que cercar-se de uma couraça dura... e, às vezes, ele
mesmo, ressente-se do peso dessa couraça”. Confinou-se aos livros para
alimentar o seu rebelde espírito, tornou-se o mais submisso dos cortesãos. E
amou, amou Frederica Brion inspirando os lieders
de Estrasburgo, amou a delicada Carlota Buff que aumenta o seu pesar, a fascinante
Maximiliana de La Roche, a graciosa Lili Schönemann, a virtuosa matrona Mme.
Stein a quem escreve mil e quinhentas cartas, a musa amante que morre de ciúmes
da atriz Corona Schröter, e transformou o flerte no divertimento da moda: “Nós todos somos um pouco doidos aqui e
fazemos o próprio jogo do diabo”. Escreveu Stella, a convivência com a esposa e a amante, sem saída, uma bala
na cabeça, até ver-se compondo versos sobre os ombros de morena beleza da
florista Cristina Vulpius, o amor e valor do seu diário. Enamorou-se por Minna
Herzlieb, apaixonou-se por Mariana de Willemer. Para todas perguntava: “Sentes, em meus poemas / que sou dois em um
só?”. Não queria mais destruir o mundo, agora queria compreendê-lo, amava
apaixonadamente as criaturas humanas: “Nunca
expressei nada que não houvesse sentido... componho canções de amor porque
tenho amado muito... como poderei então escrever cantos de guerra sem nunca ter
odiado?”. A vida pagã com o culto da beleza. Com Schiller, a rebelião da
arte. Aos sessenta e quatro anos apaixonou-se violentamente como a primeira vez
pela juventude radiante de Ulrica de Levetzow, a quem desposa e com ela, a Elegia de Marienbad e os sofrimentos de
Werther envelhecido: “À boca dadivosa eles me alçaram / E, ao
separar-me dela, me arrasaram”.
Gênio e demônio: “Todos os
teus ideais não me impedirão de ser verdadeiro, isto é, de ser bom e mau como a
natureza”. Os dois Faustos – o do amor de Margarida salva e a paixão do
erro, e o que foi ao paraíso: “Cantemos
em coro, Da vitória a palma, O ar está puro: Respire esta alma!”. Também a
Ifigênia condenada pelo próprio pai e poupada pela deusa Diana para ser
sacerdotisa em Tauride. Depois a Erótica Romana: “A mulher é a eterna salvação do homem”. No fim de certa manhã, queria mais luz: “Nem sempre estou disposto para os grandes
sentimentos e, sem eles, nada sou”. Depois, registra
Emil Ludwig, recostado comodamente na sua poltrona, desapareceu na sua hora
natal, ao meio-dia. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja
mais abaixo e aqui.quinta-feira, março 22, 2018
QUINTANA, PAULA FOX, CASAIS MONTEIRO, ÍNDIO CACHOEIRA & KATHRYN STOTT, ROHMER, HÉLIO OITICICA & EDUARDO PRADO DE MENDONÇA
PASSANDO A LIMPO - Imagem: To
Organize Delirium,
do pintor, escultor, artista plástico e performático de
aspirações anarquistas Hélio Oiticica (1937-1980). - Já fui xodó de mãe,
avós, tias, isso quando bolotinho mimado imitando os olhos de peixe, de
soslaio, até ser destronado adolescente magro seco, envergado, barbicha rala no
queixo, desengonçado com a revolta de tudo na corcunda de avexado, e me
incomodando com o que pensavam que eu queria ser quando crescesse. Desde que
botei a perna no mundo jamais fui o mesmo: coisas de ir e voltar, troca de
pele, ritos de passagem, epifanias. Nunca fui de virar casaca, nem seguir ao pé
da letra, ou cumprindo à risca, afinal de contas, nunca soube o xis do problema
e, na horagá, adeus, minhas encomendas. Já fui fanático por futebol, hoje não
mais, não há graça nenhuma na competitividade das retrancas. Não tenho mais
pressa pra nada, pois já corri tanto e ao chegar a minha vez nunca era – o
sistema saiu do ar, deu pane no equipamento, só depois ou deus dará. Nunca fui
de cortar caminho por atalhos nem tirar proveito do desleixe de outro, se tenho
de ir vou até o fim, nunca desisti no meio do caminho. Nunca subestimei a
inteligência ou a ignorância alheia, indignado com a estupidez e com os tantos
desatinos. Já não ligo pro noticiário, há tempo que as noticias são mesmas de
sempre e se repetem infinitamente. Não professo nenhuma fé, sou da
espiritualidade, embora nutre simpatias pelos taoístas, quackers e
zen-budistas. Nunca me levei tão a sério, nem aprendi a andar na linha porque
me precavenho, tudo tende a piorar. Sei que existo pelos documentos ao bolso,
assim que me reconhecem, mesmo que me chamem pelo apelido. Pelejo que só e
nutro a esperança de que um dia eu chego lá, só não sei onde. Como todo mundo,
atravesso na faixa e respeito o sinal. Reconheço nenhuma coerência nos meus
atos, quase sempre sou assaltado pela paradoxalidade. Já não enxergo lá muito
bem – antes por completa ausência de tino e formação, hoje por deficiência promovida
pelos anos de vistas apregadas nos livros. Chego quase sempre atrasado porque
só tomo conhecimento das coisas quando não tem mais nem graça. Só chego
adiantado porque ou foi adiado ou já cancelado. Tem horas que até eu mesmo nem
me reconheço no espelho. Vou de cara pro Sol já que não tem mais sombra pra
refrescar, arrancaram as árvores das calçadas e a violência grassa nas praças. Hoje
prefiro ouvir, porque quando falo ninguém entende. Por mais que eu me esmere em
fazer tudo certo a minha vida toda, dá sempre tudo errado. Ainda bem que só
passo aperto quando estou sozinho, o que é recorrente, ninguém sabe, mesmo com
as melhores intenções, sempre piso na bola. E me revolto por não ter a resposta
certa na ponta da língua na hora exata, só quando chego em casa, tarde da noite
e lastimo por ter perdido a oportunidade. Vou sempre adiante mesmo que pareça
não ter saído um mínimo centímetro do lugar. Acredito na vida porue ela não
pode estar reduzida apenas a uma convenção científica, nem a masturbação intelectual
da indiferente racionalidade. Hoje pouco importa, não dou a mínima pro que
pensam a meu respeito e tranquilizo a todos dizendo que tudo é verdade, nada
mais nem demais. Se estou sempre sozinho, não há de ser nada, cultivo a utopia
de que o mundo pode ser bem melhor e que, com certeza, a gente ainda possa ser
feliz. © Luiz Alberto Machado.
Direitos reservados. Veja mais aqui.sexta-feira, julho 04, 2014
SUSAN BROWNMILLER, CAROLINA QUINTERO VALVERDE, LUKÁCS, GOLDING & BOCCACCIO
LIÇÃO DO FOGO - O elemento e as dúvidas de Shakespeare, os rituais e a poética de Bachelard, o ponto de ignição e a mente de Plutarco, a língua e a orgia de Artaud. A reação, a pólvora chinesa e a sabedoria de Yourcenar. As chamas, a casa de Horácio e o sofrimento de Gandhi. O combustível e os livros de Valery. A combustão e as carruagens de Vangelis. A limpa da terra e os escondidos de Neruda, o cozinhamento e as brasas de Tagore, o calor e a passagem de Dante, a luz e o amor de Rilke, a propulsão e os impulsos de Poe, a fundição e a arte de Brecht, a forja e a poesia de Maiakoviski, a incineração e Gransci de Pasolini, os incêndios – da homérica Troia, das bombas de Guérnica, dos napalms do Vietnã, das guerras descabidas. Os riscos de queimadura e as vantagens de Wilde, a poluição e Gonzagão cantando Chico Mendes, a erosão e a Terra de Eliot, arma inexorável de destruição – ambição e desumanidade, as diversas formas de fanatismos dos autos-da-fé, a barbárie da inquisição secular renovada de sempre, o interior de Castañeda. As cinzas e a cremação, os pássaros de Stravinsky. Assim aprendemos a nos queimar ardentes de paixões, a nos aquecer do frio na solidão, a nos proteger de invasores e equívocos, a queima nossos fantasmas e esperança, a anunciar onde estamos ou se nos perdemos na primeira certeza, a cuidar de nós e de tudo, dominá-lo nem sempre dá certo. Veja mais aqui e aqui.
DITOS & DESDITOS - As palavras podem, através da devoção, da habilidade, da paixão e da
sorte dos escritores, provar ser a coisa mais poderosa do mundo. Elas podem
levar os homens a falar uns com os outros porque algumas dessas palavras em
algum lugar expressam não apenas o que o escritor está pensando, mas o que um
grande segmento do mundo está pensando... Precisamos de mais humanidade, mais
cuidado, mais amor. Há quem espere que um sistema político produza isso; e
outros que esperam que o amor produza o sistema. Minha própria fé é que a
verdade do futuro está entre os dois e que nos comportaremos humanamente e um
pouco humanamente, tropeçando, aleatoriamente generosos e galantes, tolamente e
mesquinhamente sábios, até que o estupro de nosso planeta seja visto como a
loucura absurda que isso é... Pensamento do escritor e dramaturgo William Golding (1911-1993), autor da
obra O senhor das moscas. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.
ALGUÉM FALOU - É
melhor agir e correr o risco de se arrepender do que se arrepender de não ter
feito nada... Nada é tão indecente que não possa ser dito a outra pessoa se as
palavras certas forem usadas para transmiti-lo... Pensamento do poeta e
crítico literário italiano Giovanni
Boccaccio (1313-1375), autor de Decameron, que é uma coleção de cem
novelas escritas entre 1348 e 1353. O livro é estruturado como uma história que
contêm 100 contos contados por um grupo de sete moças e três rapazes que se
abrigam em um castelo próximo de Florença para fugir da peste negra, que
afligia a cidade. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
TEORIA DO ROMANCE –[...] Afortunados os tempos para os quais o
céu estrelado é o mapa dos caminhos transitáveis e a serem transitados, e cujos
rumos a luz das estrelas ilumina. Tudo lhes é novo e no entanto familiar,
aventuroso e no entanto próprio. O mundo é vasto, e no entanto é como a própria
casa, pois o fogo que arde na alma é da mesma essência que as estrelas;
distinguem-se eles nitidamente, o mundo e o eu, a luz e o fogo, porém jamais se
tornarão para sempre alheios um ao outro, pois o fogo é a alma de toda luz e de
luz veste-se todo fogo. Todo ato da alma torna-se, pois, significativo e
integrado nessa dualidade: perfeito no sentido e perfeito para os sentidos;
integrado, porque a alma repousa em si durante a ação; integrado, porque seu
ato desprende-se dela e, tornado si mesmo, encontra um centro próprio e traça a
seu redor uma circunferência fechada. [...] a
épica, por colar-se à vida, eleva-a à imanência do sentido ("como pode a
vida tornar-se essencial?"); o drama, por intensificar o sentido, desperta
a essência para a vida ("como a essência pode tornar-se viva?") [...]
Ainda que a vida não mais contasse com um sentido imanente, o drama logrou
equilibrar-se na corda bamba da forma, o que lhe garantiu uma sobrevida negada
à epopeia. Por virtude de suas leis internas, e não por fechar-se à nova realidadé1,
é que o drama pôde perpetuar-se ao longo do tempo, encastelado numa redoma
formal que o amarrava, por outros meios, à vida moderna. [...] De causa
em causa, sobe-se à causa última, incondicionada, que não é efeito de outra
causa. Ao longo de toda a série, a estrita necessidade que une os elos permite
indagar o porquê do vínculo, a razão pela qual algo ocorre. Somente essa causa
última dá uma resposta incontrastável à pergunta pelo motivo. [...] Trata-se,
portanto, de uma luta levada a extremos, que simboliza num único embate o
conjunto da vida, e na qual o homem tem sempre de sucumbir. [...] Não é
com resignação melancólica que o herói aceita a ruína, mas de cabeça erguida,
certo de realizar sua essência concreta no momento em que assume a fatalidade,
sem os disfarces da vida comum, subindo ao degrau mais alto da existência [...].
Trechos extraídos da obra A teoria do romance: um ensaio histórico-filosófico
sobre as formas da grande épica (34, 2000), do filósofo, crítico
literário e pensador marxista húngaro Georg Lukács (1885-1971), autor,
entre outras obras, de O estilhaçar da forma em contato com a
vida (1909) e do Ensaio sobre Kierkegaard - A alma e as formas (1911). Veja
mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
CONTRA NOSSA VONTADE - [...] A violação é nada mais nada
menos do que um processo consciente de intimidação através do qual todos os homens
mantêm todas as mulheres num estado de medo. [...] Todo estupro é um exercício de poder, mas alguns estupradores têm uma
vantagem que é mais do que física. Operam num ambiente
institucionalizado que funciona a seu favor e no qual a vítima tem poucas
hipóteses de reparar a sua queixa. A violação na
escravatura e a violação em tempo de guerra são dois exemplos. Mas
os violadores também podem operar num ambiente emocional ou numa relação de
dependência que proporciona uma estrutura hierárquica e autoritária própria que
enfraquece a resistência da vítima, distorce a sua perspectiva e confunde a sua
vontade. [...]. Trechos extraídos da obra Against Our Will: Men, Women and Rape
(Ballantine,
1993), da jornalista e escritora estadunidense Susan
Brownmiller, que na obra Femininity (Ballantine,
1985), expressa que: [...] Dependendo
do que estava disponível num determinado clima, uma variedade de fibras porosas
eram usadas (e ainda são usadas na maioria dos países) para estancar o sangue
mensal: enchimentos improvisados de raízes e cascas, tampões caseiros de papel
amassado, algodão ou lã, e fraldas reutilizáveis feitas de pedaços de tecido grosso
dobrados, os vergonhosos e volumosos trapos menstruais da geração da minha avó
que eram furtivamente esfregados em água fria e deixados para secar em um lugar
secreto [...] O aspecto
animalesco dos pêlos corporais, para uma sensibilidade muito refinada, e o fato
de as mulheres detidas não terem acesso às suas navalhas, levaram sem dúvida um
criminologista pioneiro do século XIX, chamado Cesare Lombroso, a propor que o
tipo de corpo da mulher infratora era caracteristicamente
hirsuto. [...] Os pelos das pernas não eram um problema para as
mulheres americanas antes da década de 1920 porque as pernas da maioria das
mulheres nunca estavam à vista do público. Quando uma mudança de atitude em
relação à recreação, moda e emancipação feminina durante a próspera Era do Jazz
do pós-guerra tornou socialmente aceitável para mulheres de todas as idades e
classes exporem seus membros, a modéstia em relação à propriedade de mostrar as
pernas foi transformada com surpreendente rapidez em uma delicada
autoconsciência em relação ao cabelo “feio”. [...] Biologicamente,
uma mulher tem menos glândulas sudoríparas funcionais do que um homem e também
tem um limiar de transpiração ligeiramente mais elevado, exceto durante a
gravidez. Assim, as mulheres, em regra, transpiram menos que os
homens, mas esta pequena diferença não foi considerada suficientemente grande
para distinguir os sexos. Uma senhora não deve suar nada. [...]. Ela ainda expressa que: Um mundo sem violação
seria um mundo em que as mulheres se movimentassem livremente sem medo dos
homens. Que o estupro de alguns homens representa uma ameaça
suficiente para manter todas as mulheres em constante estado de intimidação,
sempre conscientes do conhecimento de que a ferramenta biológica deve ser
respeitada, pois pode se transformar em arma com rapidez repentina, nascida de
intenções prejudiciais... Em vez disso, do que os aberrantes
da sociedade ou"estragadores de pureza", os homens que estupram
servem na verdade como tropas de choque masculinas na linha de frente,
guerrilheiros terroristas na mais longa batalha sustentada que o mundo já
conheceu. Veja mais aqui e
aqui.
MIGRAÇÕES - Longe das grandes migrações animais: \ os
salmões que regressam à sua casa de água doce, \ as tartarugas marinhas que
depositam os seus ovos na praia \ onde nasceram. \ Aqui falta-nos magnetismo, \
uma certa noção de espaço e tempo que nos diz para onde ir. \ Uma bússola
dentro das borboletas \ faz com que elas viajem milhares de quilômetros sem se
perderem. \ Os ursos farejam a vida a quilômetros de distância \ e os elefantes
sempre se lembram de seus mortos. \ Nós, temos uma memória frágil \ e uma marca
nos cromossomos \ que nos faz fugir por mar por terra. \ Então, migramos de um
esquecimento para outro guiado pelo instinto. Poema da poeta costarriquenha
Carolina Quintero Valverde, autora da obra Little Death in the Arctic (Perro
Azul, 2010).
GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS
Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Fábula dos embeiçados desavindos... ...
-
Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Fábula dos embeiçados desavindos... ...
-
Imagem: Ensaio de múltiplas dimensões , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Do lançamento TTTTT e...
-
AH, EMMA FROST... – Ela chegou supreendentemente avassaladora na ventania da noite para incendiar meu regaço. Uma femme fatale ame...
-
A arte do cartunista e ativista político Carlos Latuff . MOVIMENTO SINDICAL NO BRASIL - Os sindicatos são organizações cria...
-
A arte do pintor e desenhista austríaco Peter Johann Nepomuk Geiger (1805-1880) LITERÓTICA - MÚTUA COLHEITA: Ela chega mansa e...






















