sábado, abril 04, 2015

CLARICE NISKIER, DURAS, NILTON BONDER, MOLIÈRE & FREUD

 


EU VI A ALMA IMORAL DE CLARICE – Como ela é linda! Tão linda no palco, tão maravilhosamente espetacular! Confirmou a mais linda Ritinha de Bonitinha, mas ordinária... Melhor: Ela por ela – Clarice... A que foi Isabel, a Rainha Elizabeth na Maria Stuart, Aquela outra, Yerma do Lorca, a Maria na Memórias da água, uma d’ As guerreiras do amor. Diante dela em mim também n’A beira de um abismo me cresceram asas. Onde Um equilíbrio delicado? Eu sempre me senti entre Porcos com asas, escorregando n’O círculo de giz caucasiano e me perdendo n’ O monólogo da Lista de Tremblay, como n’ O triálogo d’O lugar escuro. Queria mesmo era Tudo sobre mulheres do Miro Gavran, sem pestanejar na Troia de Eurípedes ou com Buda. Por que? Dito e feito: é tudo tão infantil. Eu me vi n’A missão do Cabra Marcado para correr adaptada do Judas em Sábado de Aleluia, de Martins Pena. No final das contas: Tá ruço no açouguel, tudo explosivo no Brasil. Quais Faces, quais Os possessos, o melhor: Camaleão na Lua da Maria Clara Machado. Como é impressionante as Confissões das mulheres de trinta, apaixonantemente linda. Veja mais abaixo & mais aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS - O teatro é um vôo de asa delta, não tem como parar, não tem como voltar... Pensamento da atriz Clarice Niskier, que é integrante do Movimento Humanos Direitos e autora do artigo A liberdade é azul", mas está no vermelho... (Ide, 2014), no qual ela expressa: [...] Que mundo é esse que inventa oportunidades imperdíveis para você que não tem a menor necessidade de nenhuma das oportunidades imperdíveis que ele inventa para você? [...] Fui para a fila do caixa. Gera tanta desigualdade social que a desigualdade entra dentro de você fragmentando sua personalidade em mil faces descontínuas. Para que tantas vozes dissonantes em um único cérebro? Esquizofrenia social e individual onde o imaginário e o real se confundem de tal maneira que não sabemos mais qual voz é a derradeira. Que mundo é esse? Que nos oferece em holocausto no trânsito, nos hospitais, nas escolas? Que mata, destrói e quebra para cobrar pela reconstrução, pelo conserto e pela vida? Ter ou não ter dinheiro, não é essa a questão. Porque a resposta é simples, pelo menos para a maioria dos mortais. A questão é articular a riqueza à nossa consciência. À nossa alegria de viver, à nossa liberdade, saúde, inteireza. A liberdade é azul, mas às vezes fica no vermelho. Estou, neste momento, curiosamente, no azul (conta poupança), e no vermelho, (conta-corrente). Por quê? Porque tenho aproveitado oportunidades imperdíveis. E não quero baixar nada da poupança. Se o inconsciente é dominado pela lógica paradoxal, a administração financeira de um artista também o é. É clássica a cena da moça rica, prisioneira de seu conforto, olhando com inveja a alegria da moça pobre, flor do campo, que brinca livremente na chuva com seu vestido de chita. É clássica a inveja da moça pobre olhando a moça rica desfrutar de seu prestígio social, sua segurança, seus direitos e escolhas materiais sem fim. Eis a questão: como não nos tornarmos escravos do dinheiro? Nem da falta, nem do excesso? Como não nos tornamos cínicos? "Faça o que eu digo mas não faça o que eu faço. " Como não sucumbirmos ao fetiche da mercadoria? Não trocarmos nosso reino de valores por chicletes, confetes, serpentinas? Como seguirmos em frente na solidão de nossas escolhas? Como ser ao mesmo tempo a cigarra e a formiga? Eu sou a cigarra e a formiga. Como superar obstáculos e aumentar nossos níveis materiais de vida sem perdermos nossas fontes puras de sobrevivência? Como nos relacionarmos com o dinheiro sem medo da liberdade? Dinheiro: medida de valor que ultrapassa nossa capacidade de entendimento. Não compreendo uma cédula sem lastro. Uma vida sem lastro. Status? O que é status? Como discernir no abrir e fechar da carteira o valor real das coisas? [...] Nada nesse mundo do dinheiro é tão natural quanto parece. [...] Dinheiro é só a ponta de um iceberg. O iceberg incomensurável do humano. [...]. Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Fique atento à vida. Faça, ouse e busque. Mas, acima de tudo, não ouça ninguém sem ter antes escutado o seu coração... Pensamento do rabino e líder espiritual Nilton Bonder, autor da obra A alma imoral: traição e tradição através dos tempos (Rocco, 1998), no qual expressa: [...] O ser humano é talvez a maior metáfora da própria evolução, cuja tarefa é transgredir algo estabelecido. [...] Quantas pessoas poderíamos ter tirado 'para dançar' na vida e não o fizemos por ofertar sacrifícios ao nada? Sacrifício ao deus da timidez, ao deus da vergonha, ao deus do medo de ser rechaçado e assim por diante. [...] A vida saberá nos julgar não apenas pelas 'perversidades' que acreditamos poder evitar, mas também pelas 'tolices' que nos permitimos. [...]. no seu livro A arte de se salvar: ensinamentos judaicos sobre os limites do fim e da tristeza (Rocco, 2011), ele expressa que: [...] A estética comum, na sua aversão à ordem que não seja explícita, torna-se campo fértil para o desenvolvimento do conceito de caos. A capacidade de perceber estética no que é velado é a única saída para evitarmos que o mundo se torne feio à medida que vivemos e amadurecemos para a vida. [...] O que fica demonstrado é nosso despreparo em relação à forma de encarar a vida e o quão “mimados” somos na dimensão da ordem. Por ordem, sob a perspectiva do mimo, entenda-se o desejo constante de que as coisas sejam do jeito que gostaríamos que fossem. Já mencionamos antes que o que desejamos interage com a realidade daquilo que deve ser. [...]. Resgatar o significado, a cada momento da vida, de quão apropriadas são as coisas no momento em que se realizam é exercício indispensável para livrar-nos do cinismo. Saber reconhecer esta estética é poder ver além desse mundo explícito. É descobrir no contentamento o supremo senso estético da harmonia, e na busca obsessiva da felicidade uma estética que peca pelo exagero. Como é feio o afetado, o que quer preservar o que é perecível, o excesso! A vida nada tem a ver com isso – uma coisa a seu tempo estará sempre associada a um sentimento de entrega. [...]. Na sua obra Boundaries of Intelligence: Senses and Spirituality in Management (Trafford Publishing, 2010), ele observa que: [...] nosso mundo tem uma necessidade crescente de pessoas treinadas em graus profundos de dúvida, mais do que de pessoas habilidosas em lidar com certezas. [...]. Já no livro Taking Off Your Shoes (Trafford Publishing, 2010), ele expressa que: […] Um peregrino é alguém que se move na vida porque percebe que está em uma encruzilhada. [...] Para ser completa, uma jornada pressupõe a desconstrução de preconceitos e estereótipos. A mudança de foco do viajante e sua revisão de prioridades e de sua desconfiança são as manifestações mais claras desse processo. Nesse sentido, nossas relações com os inimigos são de especial interesse. [...].

 

O DOENTE IMAGINÁRIO – A peça O doente imaginário (Le malade imaginaire, 1673) é a última entre as escritas pelo dramaturgo, ator e encenador francês Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido como Molière (1622-1673). Considerado um dos mestres da comédia satírica, essa peça composta em três atos, critica os costumes da época ao contar a história de um velho hipocondríaco Argan que se julga pesadamente doente sem realmente estar, acatando cegamente toda as ordens do médico que se aproveita da situação. Por outro lado, o doente quer por fim da força que sua filha Angélique contraia matrimonio com um filho de médico para que possa receber gratuitamente do genro o seu tratamento. Entretanto, a jovem filha está apaixonada por Cléante, tornando-se livre para casar depois de um ardil tramado por seu irmão Bérald para curar seu pai de sua fixação com médicos. Destaco o seu Quarto Ato: (Uma cena burlesca, de coração de grau de um médico. Assembléia composta de porta-seringas, farmacêuticos, doutores. Argan, vestido com a toga) Medicinae professores, Aqui estamos reunidos Para receber um novo confrade Que, pela prática e longevidade, Não precisou cursar Faculdade. Carissimi colegas presentes, por príncipes e reis admirados, devemos examinar o bacharelando e saber se pode participar do nosso magnífico corpo docente. É para isso que convocatti estis: Dono at interrogandum et a fundo examinandum In suas capacitalibus. PRIMEIRO DOUTOR- Se mihi licentiam dat Et tanti docti doctores El assistenti ilustres, Muito sábio bacharel, Que estimo e venero, Opinium faz dormire Domando qual La causis et rationis? ARGAN- Mihi docto doctore, Domandatur causa et rationem Opium facit dormire? Respondo que est do opium da sua própia natura A virtude de fare dormire. CORO- Muito bem, muito bem, muito bem, Respondeu o douto paciente. Dignus, dignus est intrare no nosso corpo docente. SEGUNDO DOUTOR- Com a permissão de todos os presentes, gostaria de perguntar ao douto bacharel, quae sunt remédio, quae in doença dita hidropisia, convenit facere. ARGAN- Clysterium donare, depois sangrare e logo purgare. CORO- Muito bem, muito bem, muito bem, Respondeu o douto paciente. Dignus, dignus est intrare no nosso corpo docente. TERCEIRO DOUTOR- Doctissimi Facultatem et toda compania escutantem pergunto ao distinto bacharel: in grande febrem, com dolorem cabecis, et pumonicis, ataque asmatiquis, et dificultatis respirares; que cosa facere? ARGAN- Clysterium donare, depois sangrare e logo purgare. CORO- Muito bem, muito bem, muito bem, Respondeu o douto paciente. Dignus, dignus est intrare no nosso corpo docente. QUARTO DOUTOR- E se a doença teimosa não quiser sangrare e logo purgare. Quid illi facere? ARGAN- Clysterium donare, depois sangrare e logo purgare. REITOR- Jura guardare statuta per Facultatem prescrita com sensu e julgamento? ARGAN- Juro. REITOR- Jura consultationibus i mais velhi? ARGAN- Juro. REITOR- Jura de non jamais se servir de nenhum remédio não indicado pela Faculdade? ARGAN- Juro. REITOR- Jura deixar que os doentes morram de suas doenças? ARGAN- Juro. REITOR- Eu, com este diploma venerabili e docto, dou e concedo virtutem et poder medicandi purgandi sangrandi cortandi et matandi impune per totam terram. CORO- Et vivat, vivat, cem vezes vivat, novus doctor que tão bem parlat mil, mil anos vivat per sempre matat. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

Imagem: Reclining Nude(1906, oil on canvas), do poeta e pintor do movimento fauvista francês Maurice de Vlaminck (1876-1958)

Ouvindo o álbum King Bee (Blue Sky, 1981) do músico de blues estadunidense Muddy Waters (1913-1983)


DEUSA CYBELE – A deusa romana originária da Frígia Cybele ou Cibele, entre os gregos ela seria uma encarnação de Reia e denominada Potnia Theron – a Senhora dos Animais -, também relacionada com a lenda grega de Agdistis e Átis. Era considerada a Mãe dos Deuses ou a Deusa-mãe, simbolizando a fertilidade da natureza. Ela era esposa do seu filho Átis que a traiu com uma princesa, levando-a à vingança, matando todos os participantes de um baquete em honra à nova união do marido. O seu culto simboliza a chegada da primavera e o renascimento, incluindo manifestações orgíacas e, com a sua chegada, dava-se início ao Festival da Megalésia. Veja mais aqui.

CONTOS DO PANCHATANTRA – O Panchatantra (Cultrix, 1962) é a primeira antologia de contos da antiga Índia, possui o núcleo central nos primórdios da era cristã e penetrou fragmentado no Ocidente. Nela encontrei O cocheiro, a mulher e o amante, numa tradução de Fernando Correia da Silva: Vivia em certo lugar um cocheiro cuja mulher era publicamente censurada por suas inúmeras aventuras amorosas. Querendo saber a verdade, disse o cocheiro para consigo: - Como posso comprovar esses rumores? Aliás, é coisa que não convém saber por que está escrito: tratando-se de rios, linhagens e monges magnânimos, nunca trates de investigar a verdade, porque é tão difícil de provar como como difícil é provar a má conduta das mulheres. Um monge gozou a filha de Matsia, nascida do sêmen de Vasu; assim foi engendrado Viasa, dotado de cem virtudes; e além do mais, interpretando por conta própria os Vedas, o progenitor da família dos Curus, também foi afortunado; ajajá! Agir de acordo com os ensinamentos sagrados é coisa que oferece muitas dificuldades. E a mesma dificuldade encontra-se ao investigar-se as linhagens; tratando-se mesmo dos magnânimos Pandavas, não se deve investigar a sua origem, porque nela acabaremos por encontrar Cxetrajas. E o mesmo pelo que diz respeito às mulheres; porque se puséssemos a descoberto sua má conduta, tornar-se-iam manifestos muitíssimos pecados. Não é sem razão que está escrito: se o jogo fosse frio, a lua quente, e o malvado homem de bem, só então poderia haver virtude nas mulheres. De modo que se ela é ou não virtuosa, sei-o apenas pela voz do povo. E está escrito: o que não se pode ler e achar nos Vedas e nos livros, isso, todo mundo o conhece, porque está contido no ovo de Brama. Depois de assim ter refletido, disse o cocheiro para sua mulher: - Querida, amanhã de manhã viajo para outra aldeia, onde passarei alguns dias. Prepara-me, pois, uma merenda para comer no caminho. Muito contente com tal noticia, dado o veemente desejo que a inquietava, deixou todos os seus afazeres e preparou-lhe arroz com manteiga e açúcar. Pois bem está escrito: no dia tempestuoso, a deusa obscuridade, nas ruas estreitas e de difícil acesso da cidade, e na ausência do marido, está o maior prazer da mulher lasciva. No dia seguinte, o cocheiro levantou-se de madrugada e saiu de casa. Ela, que o viu ausentar-se, passou a maior parte do dia cuidando do corpo e pintando o rosto, de forma provocadora. Dirigiu-se depois à casa de uns malandros, e disse a um conhecido seu: - O meu desalmado marido viajou para outra aldeia; hoje, quando o povo estiver dormindo, vem a minha casa. E assim feita a combinação, o cocheiro, que passara o dia no bosque, regressou ao anoitecer, e entrando em casa pela porta de trás, escondeu-se debaixo da cama. Entretanto chega Devadata e deita-se na cama. Quando o cocheiro o viu ficou furioso e pensou: - Que faço agora? Levanto-me e mato-o, ou descarrego minha ira sobre ambos quando estiverem dormindo? Sim, primeiro quero ver o que vai ela fazer, e ouvir o que os dois falam. Entretanto ela fechava a porta, para logo se vir deitar na cama. Porém, seu pé bateu casualmente na cabeça do cocheiro, e logo ela pensou: - Este maldito cocheiro escondeu-se aqui para experimentar-me. Mas ele já vai ver o que pode o engenho de uma mulher. E enquanto ela pensava isto, estava Devadata desejando ter contato com ela. Mas ela, juntando as mãos em forma de arco, disse-lhe: - Varão de nobres sentimentos, não toques em meu corpo porque eu sou virtuosa e fiel a meu marido. Do contrário, rogar-te-ei uma praga que te reduzirá a cinzas. – Mas então – replicou ele – para que me convisdaste a vir? – Ah! – respondeu ela – escuta com atenção. Esta manhã fui ao templo de Chandica para adorar a deusa. Ali, ouvi uma voz, vinda do ceu, e que me dizia: Filha, que posso eu fazer? Tu és minha fiel; mas o destino exige que dentro de seis meses fiques viúva. E eu respondi: - Ah! Bem-aventurada, assim como tu sabes a desgraça que vai acontecer, também deves saber o remédio para evita-la. Existe algum que faça meu marido viver cem anos? E a deusa respondeu-me: Filha, há e não há; porque é um remédio tal que, certamente, não o quererais aplicar. Ao ouvir isto, disse eu: - Deusa, se é a minha vida que está em jogo, di-mo-lo, porque não hesitarei. Então a deusa falou: Se te deitas na mesma cama com um outro homem e lhe das um abração, então a intempestiva morte que ameaça o teu marido cairá sobre esse outro homem, e teu marido viverá duzentos anos. Foi por isso que te convidei a vir a minha casa. Faz o que quiseres, mas a deusa disse que era esta a única solução. O néscio do cocheiro, ouvindo as palavras da mulher, saiu de baixo da cama, com os pelos do corpo arrepiados de alegria e disse-lhe: - Bravo, mulher pura e fiel a seu marido; bravo, alegria de tua família; bravo! Eu, com o coração pejado de suspeitas em virtude da maledicência dos intrigantes, desejando experimentar-te, fingi que viajava para outra aldeia e escondi-me aqui debaixo da cama. Vem, pois, e dá-me um abraço. Dito isto, estreitou-a em seus braços, obrigou-a a escarranchar-se em suas costas, e disse também para Devadata: - Oh! Varão de nobres sentimentos! Em virtude de minhas boas ações em uma existência anterior, foste conduzido até aqui. E graças a ti, logrei hoje uma vida de duzentos anos. Dá-me também um abraço, e sobe para cima de minhas costas. Dizendo isto, e apesar de Devandata resistir, abraçou-o, e, à força, carregou-o nas próprias costas. E, bailando aos acordes de um instrumento musical, passeou-o por todas as ruas da aldeia. Por isso digo eu: O néscio, apesar de ofendido frente a frente, pode ser apaziguado com palavras conciliadoras, como o cocheiro que levou sobre as costas a mulher e o amante da mulher. Veja mais aqui.

O CASO DORA – O caso da jovem Dora envolve o psicanalista Sigmund Freud no tratamento do que ele chamaria de neurose histérica – etiologia sexual, conflito psíquico e hereditariedade sifilítica – no tratamento ministrado por ele a uma jovem virgem de dezoito anos, Ida Bauer (1882-1945), tornando-se objeto privilegiado dos estudos feministas. A história é um drama burguês: um marido fraco e hipócrita engana a sua mulher, uma dona de casa ignorante, com a esposa de um de seus amigos, conhecida numa temporada de férias. A princípio enciumado, depois indiferente, o marido enganado tenta, de inicio, seduzir a governante de seus filhos. Depois, apaixona-se pela filha de seu rival e a corteja durante uma temporada em sua casa de campo. Horrorizada, esta o rejeita, pespega-lhe uma bofetada e conta a cena a sua mãe, para que ela fale do assunto com seu pai. Este interroga o marido da amante, que nega categoricamente os fatos pelos quais é recriminado. Preocupado em proteger seu romance extraconjugal, o pai culpado faz com que a filha passe por mentirosa e a encaminha para tratamento com um médico, que, alguns anos antes, prescrevera-lhe um excelente tratamento contra a sífilis. A entrada de Freud em cena transforma essa história de família numa verdadeira tragédia do sexo, do amor e da doença. O drama gira em torno da introspecção da qual da qual a heroína Ida mergulha, progressivamente, nas profundezas de uma subjetividade que se oculta de sua consciência. Filha caçula, herdou da mãe dores abdominais permanentes com quem pouca relação afetuosa, sendo criada por uma governanta moderna e liberada, leitora de livros sobre a vida sexual e dava informações sobre eles à sua aluna em segredo. Foi a governanta quem abriu-lhe os olhos para o romance do pai com Peppina. Afetada por diversos distúrbios nervosos – enxaquecas, tosse convulsiva, afonia, depressão, tendências suicidas – Ida deu início ao tratamento com Freud, resultado das fantasias sexuais da moça, do erro paterno e da mentira que se apoiava a vida familiar, bem como de rejeitar as propostas amorosas de Hans Zellenka que o esbofeteara pelo acinte. Ela fora acusada por Hans e por seu pai de ter inventado a cena de sedução, sendo reprovada por Peppina que suspeitava que ela lesse livros pornográficos em particular. Foi através de dois sonhos da moça – um referente a um incêndio na residência da família e outro à morte do pai -, Freud reconstituiu a verdade: ela era dada à masturbação e que, na realidade, estava enamorada de Hans Zellenla, dando-se conta de que a paciente não suportou a revelação de seu desejo pelo homem a quem havia esbofeteado. Interrompendo o tratamento, ela nunca se curou de seu horror aos homens, mas seus sintomas se aplacaram. Após sua curta análise, ela pôde vingar-se da humilhação sofrida, fazendo que a amante do pai confessasse o romance e também ao marido confessar que a tentou no lago, dando ciência ao e pai e rompendo a relação com o casal. Ela casou-se depois com Ernst Adler, um compositor que trabalhava na fábrica de seu pai. Vinte anos depois sujeita a novos distúrbios de vertigens, zumbidos no ouvido, insônia e enxaquecas, revoltada com o egoísmo dos homens, de suas frustrações e de sua frigidez. Quando tomou conhecimento dos estudos de Freud a seu respeito, os ataques passaram e manifestou imenso orgulho por ter sido objeto de um texto tão célebre na literatura psiquiátrica. Veja mais aqui, aqui, aquiaqui e aqui.


O AMANTE – O premiado livro O amante (L´Amant - Prêmio Goucourt, França 1984 - Nova Fronteira, 1985), da escritora francesa Marguerite Duras (1914-1996), trata da história de amor e ódio, de riqueza afetiva e miséria material, da iniciação sexual e dos momentos de prazeres e tristezas de uma menina branca de quinze anos com um rico chinês de Saigon, doze anos mais velho que ela, que se torna o seu amante. Essa paixão permitia à jovem adolescente dinheiro, presentes, jantares e cuidados. Da obra destaco o trecho: [...] Talvez ela soubesse da existência da menina branca. Tinha empregados nativos de Sadec que conheciam a história e que com certeza faziam comentários. Ela não devia ignorar a dor do marido. Deviam ter a mesma idade, as duas, dezesseis anos. Naquela noite, teria visto o marido chorar? E, vendo, o teria consolado? Uma menina de dezesseis anos, uma noiva chinesa dos anos 30, poderia ela sem faltar ao decoro consolar esse tipo de dor adultera da qual era vítima? Quem sabe? Talvez estivesse enganada, talvez tivesse chorado com ele, sem uma palavra, o restante da noite. E depois veio o amor, depois das lágrimas. Ela, a menina branca, jamais soube coisa alguma acerca desses acontecimentos. Anos depois da guerra, depois dos casamentos, dos filhos, dos divórcios, dos livros, ele foi a Paris com a mulher. Telefonou-lhe. Sou eu. Ela reconheceu a voz. Ele disse: queria apenas ouvir sua voz. Ela disse: sou eu, bom dia. Ele estava intimidado, com medo, como antes. Sua voz começou a tremer de repente. E, com esse tremor, subitamente ela reencontrou o sotaque da China. Ele sabia que ela começara a escrever, soubera pela mãe, com quem se encontrou em Saigon. E também sobre o irmãozinho, ficara triste por ela. E, depois não soube mais o que dizer. E depois lhe disse. Disse que continuava como antes, que a amava ainda, que jamais poderia deixar de amá-la, que a amaria até a morte. A obra foi adaptada para o cinema em 1991, pelo cineasta francês Jean-Jacques Annaud, destacando-se a atuação da jovem atriz Jane March como protagonista da história. Veja mais aquiaqui.



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sexta-feira, abril 03, 2015

KAREN HORNEY, GRAÇA MACHEL, YAEL DAYAN & OUTRA DE DUAS






OUTRA DE DUAS (OU A DOR DA MÃE & O FILHO PRESO) – Finalmente sua vida parecia ter entrado nos eixos. Depois de três arrastados anos de litígios com a separação do marido, a respiração voltara ao normal. Restara apenas o filho superprotegido e a sensação de eternamente desamparada. Felizmente amealhara com a dissensão escandalosa uma boa fortuna para dar conforto ainda mais ao seu primogênito: comprou-lhe logo um possante veículo esportivo, arrancharam-se numa espetacular casa de praia e, não demorou muito com tanto glamour, logo apareceu-lhe, como se caísse do céu, a sua tão sonhada remissão definitiva: o furtivo e, por que não, oportuno Mozão. Ah, clareou-se seus dias umbrosos e animou-se suas noites solitárias. O filho só de soslaio, mas com o mutismo indiferente de sempre pelo paparicado excessivo da mãe que, agora, se duplicara para fazer a vez paterna ausente. É certo que ela cuidava daquele que, pra ela, era um santo em carne e osso. Pudera, o menino era um tanto insosso, uma vez que os pais logo se adiantavam em satisfazer todas os seus possíveis e inimagináveis desejos jamais satisfeitos, porque fora sempre presentado sem ao menos ser consultado. Era isso. Agora não, a mãe deixava um pouco mais de mão, largando do pé dele que já se sentia livre da exagerada possessão materna e se esgueirava mundo afora. Aproveitava-se agora da estadia repentina e diuturna de Mozão para ocupá-la e, por consequência, ser contemplado com um maior gozo na libertinagem. Ocupou-se e muito, dividida entre o filho e Mozão – mas era o namorado que não saía de casa, aboletado como o dono do pedaço. Ela nem dava conta da ausência do filho cada vez mais longa, vendo-o, quando muito, manhã já tarde, quando ele se levantava para, supostamente, ir pra escola. Ao vê-lo não poupava mimo afetuoso e já não se importava com o sumiço por todos os finais de semana, vendo-o três a quatro dias depois, às vezes semanas inteiras. Ela só caiu na real certa noite com um telefonema assustador: realmente dera por falta do filho há semanas – não seria meses? E cadê ele? Está preso. Onde? Na cadeia de Alagoinhanduba! Que lugar é esse? Longe pra dedéu. Vôte! Vou agora mesmo soltar meu filho! Às duas da madrugada? Foi contida, segurada, não cedia a qualquer admoestação. Vamos, Mozão! Oxe, o filho não é meu, o problema é seu! Ela aquietou-se um pouco desolada e aguardou o dia raiar. Pegou uma bolsa, ligou pra sua inseparável amiga Neydinha e, do jeito que estava, correu atrás. Pendurada ao telefone ela pegou a primeira condução que levava às proximidades do lugar. Combinou todos os passos com a parceira até o ponto de parada. Desceu aflita, encaminhou-se para outro ponto e consultou uma outra passageira que estava ali e onde mesmo ficava aquele lugar. Ah, entenderam-se logo, a outra pessoa também iria pro mesmo destino. Ela então desligou o telefone e encetou uma conversa com a estranha que, a partir de agora, seria seu muro de lamentações, uma amiga do peito – dessas que caem do céu a mando de Jesus. Graças! Elas logo tiveram empatia, uma ajudando a outra, desabafando aos choros mútuos, cada qual a sua sina, o sofrimento de ambas era similar: era ela com o filho inadmissivelmente preso – como pode um anjo daquele trancafiado numa cela infecta? Um vitupério! A outra com a irmã em coma, vítima de estupro e espancamento. O mundo está perdido! A condução estacionou no ponto e uma ajudou a outra no embarque. A conversa prosseguiu até a chegada ao local desejado. Abraçaram-se, choraram juntas, juraram amizade eterna e já marcavam o reencontro. Cada uma das desesperadas foi pro seu lado. O reencontro jamais ocorreria, outra foi a moral da hestória. Veja mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - O meu Israel foi traído... Como israelense, passei a entender: não há como amar Israel e rejeitar uma paz de dois Estados, não há como amar Israel e rejeitar a Palestina... Isso está muito além da traição. Este é o assassinato político do partido que fundou o Estado de Israel... Não é usando a força que Israel se tornará um país normal. Não há e não pode haver uma paz real e duradoura que possa ser reconciliada com a colonização massiva dos Territórios Palestinos Ocupados... Uma paz de dois estados é um "presente" que Israel ofereceria a si mesmo e a única maneira de não trair os valores e princípios que são os fundamentos do nascimento do estado de Israel. Pensamento da escritora israelense Yael Dayan (1939-2024).

 

ALGUÉM FALOU: Prevenir os conflitos de amanhã significa mudar a mentalidade dos jovens de hoje... Devemos ser respeitosos, mas também devemos ter a coragem de impedir práticas prejudiciais que empobrecem meninas, mulheres e suas comunidades. Em um mundo tão diferente, as crianças são uma força unificadora capaz de nos unir em apoio a uma ética comum. O impacto do conflito armado nas crianças é responsabilidade de todos. E deve ser preocupação de todos. Pensamento da ativista moçambicana dos direitos humanos, Graça Machel (Graça Simbine Machel Mandela), foi a única pessoa no mundo a ser primeira-dama de mais de uma nação, uma vez que ela se casou tanto com o primeiro presidente de Moçambique e, ao enviuvar, depois, casou-se com Nelson Mandela.


A NECESSIDADE NEURÓTICA DO AMOR - A psiquiatra e psicanalista alemã Karen Horney (1885-1952) sofreu na infância com o conservadorismo e ortodoxia luterana do pai que não admitia que ela estudasse para cuidar das lides domésticas, dedicando amor à mãe. Como todas as mulheres de sua geração, teve de enfrentar uma luta violenta para ter acesso à liberdade de fazer suas próprias escolhas. Apoiada pela mãe, conseguiu matricular-se na faculdade de medicina de Freiburg. Marcada pelo desentendimento parental e preocupada em escapar ao destino que lhe reservavam, manifestou sua revolta tendo muitas relações amorosas, escapando de uma depressão latente. Ao contrário das mulheres da época que preferiam liberdade à maternidade, ela demonstrou interesse em ter vários filhos. Casou-se com um rico industrial em Berlin, Oskar Horney. Numa análise feita com Karl Abraham descobriu nela sintomas de depressão à atração que ela sentia pelos homens fortes e uma admiração recalcada por seu pai, aplicando ao seu caso a tese da inveja do pênis. Desenvolveu uma tese em congresso, afirmando que as mulheres desejam inconscientemente ser homens porque, na sua infância, tivera inveja do pênis e desejavam ter um filho de seus pais. Essa interpretação simplista teve um efeito desastroso no seu treinamento, temendo ser submetida a uma transferência paterna, ela interrompeu a análise passou a desenvolver a autoanálise, considerando um insulto às mulheres a teoria da sexualidade feminina. Seu pai morreu quando ela estava grávida da primeira filha, atravessando um período de depressão acentuada. Perdeu a mãe logo depois do parto, para em 1912, apresentar um trabalho sobre a educação das crianças. Integrou-se ao movimento psicanalítico, sendo a primeira mulher a se tornar professora do Instituto Psicanalítico Berlinense e a primeira a criticar a tese freudiana, razão pela qual ela desenvolveu uma reformulação teórica completa no pensamento de Freud, redefinindo o materno, o feminino e uma critica do que era sentido como um poder masculino. Deixou o terreno do freudismo e migrou para o culturalismo, procurando fundamentar a psicologia da mulher sobre uma identidade própria, rompendo com a noção de universalismo da espécie humana. Para ela a sociedade masculina recalcava a inveja da maternidade dos homens, aproximando-se do pensamento de Wilhelm Reich e Erich Formm. Migrou, então, para os Estados Unidos obtendo a cidadania estadunidense, começando uma vida nova com novas ligações amorosas, até tornar-se companheira de Erich Fromm para escrever A necessidade neurótica do amor e começou a transgredir as regras do tratamento, tendo uma ligação com um de seus analisandos. Invejada pelos colegas, foi impedida de fazer a formação e obrigada a deixar a NYPS, fundando a Association for the Advancement of Psychoanalysis (AAP), admitindo dissidentes freudistas. A partir de então ela desenvolveu uma nova teoria, a autorrealização de si, que não deixava de ter relação com outras correntes do neofreudismo norte-americano, fundada na reconstrução do self ou na autonomia do eu. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Imagem: Kneeling Nude, do pinto Larry Vincent Garrison (1923 – 2007).

Ouvindo o álbum Chico Buarque ao vivo – Le Zenith, Paris (RCA, 1990). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


OS EMBRULHOS – A peça teatro em um ato Os embrulhos (1970), da escritora e dramaturga Maria Clara Machado (1921-2001), fundadora da escola de teatro O Tablado, acontece num cenário que envolve um casal de velhos, uma criada jovem, um homem e figurantes-maquinistas. Do texto destaco o trecho: (Ouve-se o som de uma Caixinha de música. A Velha procura com rapidez no meio dos pacotes. Acha-a. Coloca-a dentro de outra caixa e embrulha com muito jornal até abafar a música.) VELHA - Tem ainda barbante branco, Neguinho? (O Velho entrega uma cesta cheia de barbantes.) Quanto barbante eu colecionei, santo Deus! Também, tantos anos! VELHO (sai e"volta com os álbuns de fotografias) - Como estão cheios de poeira, veja, Neguinha, os álbuns. VELHA - Ah, os "álbuns! Os álbuns! (Folheando.) Você tinha um cabelo preto... Ah! aquela cadelinha chamada Zefa. .. morreu... eu acho, não éNeguinho? VELHO - Morreu. Que retrato bem tirado! (Apanha na estante uma máquina fotográfica antiga.) Com esta máquina aqui, lembra? (O Velho sobe na cadeira, faz que vai bater uma foto. Há um segundo de imobilidade, enquanto a Velha cobriu o rosto, rindo, atrás do álbum.) VELHA - Embrulha bem ela, senão estraga a lente. (O Velho embrulha a máquina, enquanto a Velha folheia o álbum. Subitamente, arranca uma foto do álbum e joga no chão:) VELHA (mexe a cabeça como se dissesse não) Você deixou isto aqui de propósito,·só para me fazer maldade. VELHO (apanha a fotografia) Ele ainda era um menino, Neguinha! VELHA - Não quero levar ele, não quero VELHO Então a gente não leva. VELHA - Não quero ... (Pausa.). Veja mais aqui, aquiaqui e aqui.

A FILOSOFIA NA ALCOVA – O romance Filosofia na alcova (La Philosophia. dans le boudoir – Companhia das Letras, 1992), do escritor libertino francês Donatien Alphonse François de Sade, mais conhecido como Marquês de Sade (1740-1814), trata da história de um debate filosófico entre a Madame de Saint Ange, a jovem Eugenia, o cavalheiro de Mirvel e Dolmancé, com narrativas filosóficas e eróticas. Destaco do livro o prefácio do autor denominado Aos libertinos: Voluptuosos de todas as idades e de todos os sexos, é a vós somente que dedico esta obra; alimentai-vos de seus princípios que favorecem vossas paixões; essas paixões que horrorizam os frios e tolos moralistas, são apenas os meios que a natureza emprega para submeter os homens aos fins que se propõe. Não resistais a essas paixões deliciosas: seus órgãos são os únicos que vos devem conduzir à felicidade. Mulheres lúbricas, que a voluptuosa Saint-Ange seja vosso modelo; segui seu exemplo, desprezando tudo quanto contraria as leis divinas do prazer, que dominaram toda sua vida. Jovens, há tanto tempo abafadas pelo liames absurdos e perigosos duma virtude fantástica, duma religião nojenta, imitai a ardente Eugênia; destruí, desprezai, com tanta rapidez quanto ela, todos os preceitos ridículos inculcados por pais imbecis. E vós, amáveis devassos, vós que desde a juventude não tendes outros freios senão vossos desejos, outras leis senão os vossos caprichos, que o cínico Dolmancé vos sirva de exemplo; ide tão longe quanto ele, se como ele desejais percorrer todas as estradas floridas que a lubricidade vos prepara; convencei-vos, imitando-o, de que só alargando a esfera de seus gostos e suas fantasias, e, sacrificando tudo ã volúpia, o infeliz indivíduo, conhecido sob o nome de homem e atirado a contragosto neste triste universo, pode conseguir entremear de rosas os espinhos da vida. Veja mais aqui, aqui, aqui, aquiaqui e aqui.

ZUNS ZUM ZOOM – O livro Zuns zum zoom (Anome, 2012), do poeta, editor, videomaker e psicólogo baiano-mineiro, Luiz Edmundo Alves, reúne uma série de seus poemas resultantes de atividades com a sua poesia, incluindo performer e palestrante. Após publicar em 2010 a biografia do grande artista plástico mineiro Rui Mineiro, ele nos premia com esse excelente livro, no qual destaco: um poema se faz com ideias / um poema se faz com palavras / um poema se faz com um / brilho repentino de / suor / e / sal / um poema se faz com paixão / um poema se faz sem paixão / um poemas se faz com coisas / esquisitas, coisas esquisitas tão / bonitas que não confortam / um poema se faz pelo prazer / em fazer poemas e depois chorar. E também este poema: [...] escrevi silêncio saliência sal só sol solstício. / escrevi no muro no namoro namorada na morada normalmente. Ih foi / assim que me repeti, na moral, assim que me deslumbrei com / palavras incomuns, com paisagens incomuns, com pessoas incomuns, / com viagens incomuns, com batidas incomuns: pra buscar o incomum / reescrevi expectativas, redesenhei linhas desalinhei conteúdos, / extrapolei. Ei, ei eu sei onde extrapolei, ei eu senti ei eu falei o que / escrevi, recitei, murmurei, escrevi tudo bem. Não! Não quero mais. / quero mais! Não! Não quero mais assim / eu quero mais por aí, é meu álibi, ali meu alivio / escrevi, é assim que estou aqui: escrito e finito... Veja mais aqui.


ROCK AND ROLL & DESENHOS – O belíssimo blog das irmãs Monica & Monique Justino traz sempre muitas novidades como poemas de Fernando Pessoa e de Manuel Bandeira, também músicas e desenhos, a exemplo da excelente banda One Republic, entre outras. Nesse blog fui agraciado com um lindo poema, Meu Corvo, da Monique Justino: Um corvo me chama / Num sonho sombrio / Minha alma descansa, / Na eternidade de meus sonhos / Quando te vejo, e vou te ver para sempre. / Eu sou um corvo em busca da escuridão da noite fria / A brisa bate no meu rosto que se mistura com minhas lágrimas vazias. / Queria poder despertar de um pesadelo, mas tenho que tentar viver assim, Enxergando tudo através da escuridão de minha alma, num pesadelo sem fim. Veja mais aqui.

O TAMBOR – O romance de critica social O tambor (Die Blechtrommel, 1959 – Círculo do Livro, 1986), do escritor, dramaturgo, artista plástico alemão e ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 1999, Günter Grass, conta a história de Oskar, um menino que se recusa a crescer criticando o mundo dos adultos e da burguesia da época, com sua voz vitrícida bate no tambor para quebrar vidraças e derrubar objetos. Da obra destaco o trecho: [...] Desde sempre tinha estado ai, inclusive no pó efervescente de aspérula, por muito inocente que fosse sua verde espuma; em todos os guarda-roupas em que então me acocorava, ela também se acocorava. Mais tarde tomou emprestada a cara triangular de raposa de Luzie Rennwand e devorava cachorros-quentes e levou os Espanadores ao trampolim – restou apenas Oskar, que contemplava as formigas porque sabia: esta é a sua sombra, que se multiplicou em insetos negros e procura o açúcar. E todas aquelas palavras: bendita, dolorosa, bem-aventurada, virgem entre as virgens... e todas aquelas pedras: basalto, tufo, diábase, ninhos em calcário conchífero, alabastro tão brando... e todo o vidro partido com a voz, vidro transparente, vidro fino como o hálito... e os gêneros alimentícios: farinha e açúcar em saquinhos azuis de uma libra e meia. Mais tarde, quatro gatos, um dos quais se chamava Bismark, o muro que teve de ser caiado de novo, os poloneses na exaltação da morte, e os comunicados especiais, quem afundava o quê, quando, as batatas que caiam rolando da balança, o que se estreita em direção ao pé, os cemitérios em que estive, as lajes sobre as quais me ajoelhei, as fibras de coco sobre as quais me estendi... tudo misturado ao cimento, o suco das cebolas que arranca lágrimas dos olhos, o anel no dedo e a vaca que me lambeu... Não perguntem a Oskar quem ela é? Já não lhe restam palavras. Porque o que outrora se sentava na minhas costas e beijos minha corcunda está agora, agora e para sempre, diante de mim e vem se aproximando: Negra, a Bruxa Negra sempre esteve atrás de mim. / Agora também está me encarando de frente, negra! / Vira pelo avesso a capa e a palavra, negra! / Pague-me com dinheiro negro, negra! / Enquanto as crianças cantam e deixam de cantar: / A Bruxa Negra está aí? Sim, sim, sim! A obra foi adaptada para o cinema em 1979, com direção de Volker Schlöndorff e música de Maurice Jarre, destacando-se a interpretação da atriz alemã Angela Winkler. Veja mais aqui.



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O Brasil na festa do Fecamepa, a música de Marlos Nobre, a literatura de Anna Bolecka, a arte de Adriana Varejão & Sophia Monte Alegre aqui.

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Numa roda de choro, Chorinho brejeiro de Dalton Trevisan, Almanaque do choro de André Diniz da Silva, a música d’O Charme do Choro, a pintura de Marina Bonifatti & Sérgio Marques da Silva Júnior aqui.
O jacaré & a princesa, Catxerê, a mulher estrela, a Metafísica de Immanuel Kant, Lolita de Vladimir Nabokov, a música de Bach & Yehudi Menuhin, o teatro de Thomas Stearns Eliot, o cinema de Éric Rohmer, a arte de Mae West. a pintura de Paul Sieffert, Domingo com Poesia & Natanael Lima Júnior aqui.
Aurora nascente de Jacob Boehme, a Teoria Quântica de Max Planck, o teatro de William Shakespeare, a música de Pixinguinha, o cinema de Michael Moore, a pintura de Marcel René Herrfeldt, a arte de Brigitte Bardot & a Biopoesia de Silvia Mota aqui.
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Até onde o amor levar, Sidarta Gautama, o teatro de Constantin Stanislavski, a música de Maria Rita, a escultura de Carlos Baez Barrueto, a pintura de Clare Rose, Luciah Lopez & a poesia de Ieda Estergilda de Abreu aqui.
Da vida, meio a meio, O suicídio de Karl Marx, a poesia de Mário Quintana, a música de Girolamo Frescobaldi & Jody Pou, A estrutura do todo de Andras Angyal, a fotografia de Mário Cravo Neto, a pintura de Mario Zanini & Arna Baartz aqui.
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Andejo da noite e do dia, O caminho interior de Graf Dürckheim, A cultura da educação de Jerome Bruner, a poesia de Giuseppe Ungaretti, a música Ricardo Tacuchian, a fotografia de Ana Carolina Fernandes, a coreografia de Célia Gouvêa, a pintura de Tess Gubrin & Kerry Lee aqui.
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