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terça-feira, setembro 25, 2012

JUDITH MALINA, IGNACIO PADILLA, JORGE DE LIMA, PYM, EXUPÉRY, BAKHTIN, EÇA DE QUEIROZ, BOCCACCIO & LITERÓTICA

 

A arte da cantora lírica mezzo-soprano italiana Cecilia Bartoli, uma popular intérprete de óperas e recitais.

 


ASSIM ELA ME ESPERA... – Ela apareceu com uma placidez angelical, só muito depois, conferindo melhor, é que percebi sua inquietação. Primeiro ela se expôs com o vestido colado na carne esbanjando sedução no lascão da perna até a coxa, a insinuar a delícia que me aguardava na sua intimidade. A maior provocação: uma cobrança que estava ali de corpo e alma pronta pra ser devorada pela minha loucura mais estabanada de cobiça priápica. Diante do meu delírio, ela então depôs o decote de seios fartos: ali estavam dois apetitosos volumes de me dar água na boca, recheados pelos desejos mais ousados e pecaminosos, prontos para serem apalpados e saboreados pela minha gula mais que faminta. Diante da minha implacável possessão ela mais se afastou arredia para se mostrar num baby doll ousado a desmascarar sua farta lúbrica escultura corporal, estava mais que exultante a ponto de incendiar meu membro se dilatando insinuante na minha região púbica. Não havia como esconder e nem me fiz de rogado e acompanhando seus movimentos, pronto estava para arrancar-lhe as vestes e assim tê-la completamente desnudada na minha posse de vez de sua gostosura. Mais se distanciava como quem escapulisse resoluta, a recuar instigante da minha perseguição, até que acuada sentou-se e mais que desajeitada escancarou as pernas para que eu flagrasse seu ventre estufado na calcinha sedutora pronta para explodir de volúpia. Ouso então açoitá-la esfregando meu membro rijo na sua pele e por toda sua excelsa tentação. Ela se estreitou como se tentasse recompor, porém, removeu lenta e provocantemente a calcinha para que acompanhasse o trajeto dela ser removida deslizante pelas coxas e pernas e pudesse, com isso, ganhar sua aquiescência e já prever ali o quão disposta se encontrava para me abocanhar de paixão avassaladora, entregando-se inteiramente para ser sacrificada por meu apetite insaciável de tê-la sob os meus domínios. Assim se entregou para que eu atravessasse suas noites e quantos dias orgíacos dentro dela. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo, aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Os homens não têm mais tempo de conhecer nada. Compram coisas feitas nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos... Eis o meu segredo. É muito simples não se vê bem a não ser com o coração. O essencial é invisível aos olhos. Pensamento do escritor, ilustrador e piloto francês Antoine de Saint-Exupéry (1900 – 1944). Veja mais aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: O gosto pela leitura difere muito do gosto pelos livros. As pessoas ociosas que, para matar tempo, devoram jornais, revistas e romances, quase nunca têm um volume predileto. Os amantes de livros possuem sempre muitas obras preciosas, mais pela paixão da forma do que pela matéria que contêm. Pensamento do escritor português Eça de Queiroz (1845-1900). Veja mais aqui.

 

ESTÉTICA DA CRIAÇÃO – [...] A capacidade de ver o tempo, de ler o tempo no todo espacial do mundo e, por outro lado, de perceber o preenchimento do espaço não como um fundo imóvel e um dado acabado de uma vez por todas mas como um todo em formação, como acontecimento; é a capacidade de ler os indícios do curso do tempo em tudo, começando pela natureza e terminando pelas regras e ideias humanas (até conceitos abstratos). [...]. Trecho extraído da obra Estética da criação verbal (Martins Fontes, 2003), do filósofo e pensador russo teórico da cultura e das artes Mikhail Bakhtin (1895-1975). Veja mais aqui e aqui.

 

ESPAÇO LITERÁRIO – [...] Só há, em literatura, espaço sobre o qual se possa falar, espaço que seja percebido por um sujeito em sua presença no mundo. Assumo, diante disso, a definição do espaço literário como conjunto de referências discursivas, em determinado texto ficcional e estético, a locais, movimentos, objetos, corpos e superfícies, percebidos pelos personagens ou pelo narrador (de maneira efetiva ou imaginária) em seus elementos constitutivos (composição, grandeza, extensão, massa, textura, cor, contorno, peso, consistência), e às múltiplas relações que essas referências estabelecem entre si [...]. Trecho extraído de Espaço literário, percepção e perspectiva (Aletria, 2007), do professor Paulo Astor Soethe.

 

DIÁRIO, LIVING THEATRE – [...] tampouco pode mencionar os gritos lancinantes no meio da noite durante as rotineiras e repetidas sessões de tortura, com a intenção de extorquir delações, ou os tristes relatos de cada um que retornava, se é que retornava, depois de ter sido torturado tantas vezes. [...]. Trecho extraído da obra Diário de Judith Malina: O Living Theatre em Minas Gerais (Ed UFMG, 2008), da atriz, dramaturga e poeta teuto-americana Judith Malina (1926-2015). Veja mais aqui.

 

JANE & PRUDENCE - [...] Ah, mas era esplêndido as coisas que as mulheres faziam pelos homens o tempo todo, pensou Jane. Fazendo-os sentir, às vezes não mais do que um olhar casual, que eram amados, admirados e desejados quando não eram dignos de nenhuma dessas coisas – permitindo-lhes se enfeitar e estufar sua plumagem como pássaros e aquecer-se ao sol de amor, real ou imaginário, não importa qual. [...] Trecho extraído da obra Jane and Prudence (1953 – Moyer Bell, 1999), da escritora britânica Barbara Pym. Veja mais aqui.

 

MANIFESTO CRACK - III. setenario de bolso - 1. Cansaço e despejo: Se Pessoa conseguiu criar sozinho toda uma geração numa Lisboa ditatorial estéril de literatura, foi, ideias à parte, por cansaço. Certa manhã, depois de um sonho inquieto, Álvaro de Campos acordou para escrever: “Porque ouço, vejo. Confesso: está cansado.” E em sua insônia nasceu a grande poesia. Da mesma forma, acredito que todas as rupturas vêm, desde os delírios mais cotidianos até as revoluções mais sangrentas e radicais; não por ideologias, mas por fadiga. É por isso que aqui também é desnecessário procurar definições contundentes, teorias. Talvez apareçam apenas alguns "ismos" estranhos que são mais um jogo do que um manifesto. Há sim uma mera reação contra a exaustão; Cansaço que a grande literatura latino-americana e o duvidoso realismo mágico se tornaram, para nossas cartas, magia trágica; cansado dos discursos patrióticos que por tanto tempo nos fizeram acreditar que Rivapalacio escrevia melhor que seu contemporâneo Poe, como se proximidade e qualidade fossem uma e a mesma coisa; cansado de escrever mal para que se leia mais, não melhor; cansaço do engajado; cansado das letras que voam em círculos como moscas em seus próprios cadáveres. Desse esgotamento surge uma certidão de óbito generalizada, não apenas literária, mas até circunstancial. Não estou falando de pessimismo ou existencialismo falsificado ou ultrapassado. Talvez sempre tenhamos a vantagem de que o espírito da comédia, do riso e da caricatura se tornem alternativas. cansado de escrever mal para que se leia mais, não melhor; cansaço do engajado; cansado das letras que voam em círculos como moscas em seus próprios cadáveres. Desse esgotamento surge uma certidão de óbito generalizada, não apenas literária, mas até circunstancial. Não estou falando de pessimismo ou existencialismo falsificado ou ultrapassado. Talvez sempre tenhamos a vantagem de que o espírito da comédia, do riso e da caricatura se tornem alternativas. cansado de escrever mal para que se leia mais, não melhor; cansaço do engajado; cansado das letras que voam em círculos como moscas em seus próprios cadáveres. Desse esgotamento surge uma certidão de óbito generalizada, não apenas literária, mas até circunstancial. Não estou falando de pessimismo ou existencialismo falsificado ou ultrapassado. Talvez sempre tenhamos a vantagem de que o espírito da comédia, do riso e da caricatura se tornem alternativas. 2. Sobre o concurso ausente e outras definições no pensamento negativo O termo siciliano “geração sem luta” não é tão gratuito quanto alguns pensam. A ironia está aí para quem leu Ortega y Gasset, e sabe que entre as características que ele apontou para constituir uma geração estava o concurso. Bem, a ausência de contenção é um dos poucos elementos que nos unifica, gostemos ou não. E se algo está acontecendo com os romances do Crack, não é um movimento literário, mas simplesmente e simplesmente uma atitude. Não há mais proposta do que a falta de proposta. Deixaremos que outros mais piedosos o elaborem no devido tempo, o que sem dúvida o farão. Esta não é a única definição no discurso negativo, não é apenas a falta de contenção: como se fôssemos escolásticos definindo Deus ou inferno, só se poderia dizer que, mais do que "ser alguma coisa", os romances de crack "não são muitas coisas ”, são tudo e nada, essa expressão com que Borges definiu corretamente Shakespeare. Às vezes as definições matam o mistério, e não vale a pena escrever uma literatura sem mistério. 3. Criacionismo para escatologia - Não nos enganemos: não há originalidade escatológica nos romances de Crack, certamente apocalípticos. Seria injusto conceder-lhes esta linha, injusta com uma tradição muito longa que, aliás, não é exatamente mexicana. Como se isso não bastasse, o fim das ideologias e a queda do muro de Berlim já estavam bem à frente da escrita; Há algum tempo deixaram-nos como herança um mundo feito de sufixos, apenas sufixos que acrescentamos, às vezes com seriedade e quase sempre em tom de brincadeira, ao que já existia, ao que já existia. Beckett já previu uma situação do gênero há muito tempo, não com Godot, mas com seu Endgame. Como Hamm e Cov, não escrevemos a partir do apocalipse, que é antigo, mas de um mundo além do fim. Se parece haver um desejo criacionista nesses romances, não no sentido literal do tipo Huidobro, mas no mais amplo Faulkner, Onetti, Rulfo e muitos outros, é porque se julga necessário construir esse cosmo grotesco para ter um direito maior e mais crível de destruí-lo. E uma vez destruído, só então os romances de Crack começam a aparecer dentro do império do caos. 4. O cronotopo zero, ou em direção a uma estética do deslocamento - Este mundo além do mundo não aspira a profetizar ou simbolizar nada. Talvez haja às vezes armadilhas para um efeito de estranheza em homenagem a Brecht e Kafka, algo para o grotesco, algo para a paráfrase caricatural; Na realidade, o que os romances do Crack buscam é alcançar histórias cujo cronotopo, em termos bakhtinianos, seja zero: nenhum lugar e nenhum tempo, todos os tempos e lugares e nenhum. Do cômico extraímos o que foi feito acidentalmente, há mais de meio milênio e acidentalmente, pelos refundadores de Amadís de Gaula e o que, há apenas cinco anos, o austríaco Ransmayr fez ao colocar seu Públio Ovidio Nasón diante de um buquê de microfones. O deslocamento nesses romances do Crack não será, afinal, mas uma imitação de uma realidade louca e deslocada, 5. O nimbo e a palavra - O romance Crack, então, tem que renovar a linguagem dentro de si, ou seja, alimentando-a com suas cinzas mais antigas. Resta aos outros, aos que têm fé, tratar a linguagem com as gírias das bandas ou com o discurso roqueiro, que já tem gosto de velho. Há mais livros ainda a serem feitos. Para cortar há tecido na peremiologia, na oralidade do rapsodo, nos arcaísmos e na linguagem atávica, na oralidade e no folclore, na retórica menestréis-clerical. Esses recursos, pelo menos, têm demonstrado maior resistência ao tempo e, embora essa alquimia pareça mais difícil, seus resultados são mais ricos. 6. Em louvor aos monstros - Ninguém mais escreve romances, ou melhor: ninguém mais escreve romances totais. Mas, eu me pergunto, romances para quem?Totais para quem? Eles são escritos? Seria melhor falar de romances supremos e nomes como Cervantes, Sterne, Rabelais e Dante, com todos aqueles que os seguiram abertamente. São organismos que não devem nos assustar porque são gigantescos, nem devemos ser privados deles porque são monstruosos. Mais arrogante me parecerá o autor que se distancia desses gigantes alegando uma incapacidade duvidosa, do que nós – que os assumem abertamente, que chafurdam com eles. A literatura que nega sua tradição não pode e não deve crescer nela. Nenhum monstro nega suas sombras. Romance ou anti-romance, espelho contra espelho, só assim é possível romper com uma continuidade digna. 7. Ruptura e continuidade - Sacudir o pote de carrapatos não vale a pena. Este é um jogo, como tudo o que vale na literatura. A palavra é uma e a mesma; o romance, digam o que digam, vem de sempre e continua. Quebrá-lo, ele prevalece. De fato, se não há nada de novo sob o sol, é porque o velho vale a novidade. Trecho do Manifesto Crack escrito pelo escritor mexicano Ignacio Padilla (1968–2016), com os demais integrantes Eloy Urroz, Jorge Volpi e Pedro Angel Palou. Veja mais aqui.

 

QUATRO POEMASI - Tu, mulher, criatura limitada como eu, / Recebes a melhor parte do meu culto. / Eu te amo pela tua elegância, pela tua mentira, / pela tua vida teatral. / E nem ao menos posso repousar a cabeça na / pedra do teu corpo. / Só tu, demônio, nunca me faltas nem um instante. II - Eu te amei sem condições, por isso reinas / Sobre minha alma incontida de poeta. / És, talvez sem querer, o laço enigmático / Que me prende à idéia essencial de Deus. III - A POESIA ABANDONA A CIÊNCIA À SUA PRÓPRIA SORTE: Eu e tu somos o duplo princípio masculino e / feminino / Encarregado de desenvolver em outrem / Os elementos de poesia vindos do homem e da / mulher. / Nós somos a consciência regendo a vida física: / Atingimos a profundeza do sofrimento / Pela vigilância contínua dos sentidos. / No nosso espírito cresce dia a dia em volume / A idéia que fomos criados à imagem e / semelhança de Deus / E que o universo foi feito para nos servir de / cenário. IV - CAIM E ABEL: Sinal de contradição / Posto um dia neste mundo / Tu és o quinto elemento / Agregado pelo poeta / Que te ama e te assimila / E é bebido por ti. / Tu és na verdade, mulher, / Construção e destruição. Poemas do médico, escritor, tradutor e pintor Jorge de Lima (1893-1953). Veja mais aqui e aqui.

 

SEGUNDA JORNADA DO DECAMERÃO DE BOCCACCIO: FILOMENA - SEGUNDA NOVELA – [...] Numa das dependências interiores do referido castelo, vivia certa mulher viúva, tão linda de corpo como as que mais lindas o fossem. [...] Muitas e muitas vezes a viúva comprazeu-se fitando-o, sem dar demonstração disso; e apreciou-o em seu intimo. Aliás, como o marques devera ter vindo e não viera, para ficar a noite em sua companhia, a mulher estava com o apetite concupiscente bem desperto. Por isso, em sua mente, já se unira ao belo Reinaldo. Finda a ceia, a mesa foi retirada. A viúva consultou a criada para saber se, já que o marquês a enganara, não seria de bom aviso que ela tirasse o maior e mais agradável partido possível da companhia a sorte lhe oferecia daquele modo. A criada, conhecendo o intimo desejo de sua patroa, aconselhou-a que o satisfizesse quanto fosse do seu agrado. Desse modo a viúva, regressando à sala onde ficava a lareira, e onde deixara Rinaldo a sós, pôs-se a olhar para ele amorosamente e disse: - Então, Rinaldo? [...] Fique tranqüilo: alegre-se! Você está como em sua casa. Aliás, desejo dizer-lhe que, vendo-o assim com essas roupas que pertencem ao meu falecido marido, você até passou a parecer-me ele em pessoa. Por esta razão esta noite, senti, por mais de mil vezes, vontade de abraçá-lo e de beijá-lo; e está claro que, não fosse por recear desagradá-lo, certamente já o teria feito. Ouvindo isto, e vendo os clarões sensuais que relampejavam nos olhos daquela mulher, Rinaldo, que, como homem, nada tinha de tolo, correu ao encontro dela, os braços abertos, exclamando: - Mulher esplendorosa! Acho que poderei dizer para sempre que é por sua causa que ainda estou vivo! Contemplo a situação da qual você me tirou, e comparo-a com o estado em que você me deixou. Seria grande a minha vilania, se eu não fizesse todos os esforços para satisfazê-la em tudo o que for de seu agrado. Assim sendo, dê largas ao seu desejo, satisfazendo-o. abrace-me, beije-me, visto que eu a abraçarei e a beijarei com enorme e sincero entusiasmo. Ditas estas, não precisaram eles dizer mais palavras. A mulher, ardendo toda em amoroso enleio, de imediato atirou-se aos braços dele. Deu-lhe mil beijos, ansiosa, apertando-o contra o peito; foi por ele beijada mil vezes, veementemente. Deixando a sala da lareira, ambos encaminharam-se para o quarto de dormir; não demoraram a meter-se na cama; e as vezes sem conta satisfizeram os repsectivos desejos, antes que raiasse o novo dia. [...].
GIOVANI BOCCACCIO - O Decamerão, numa tradução de Torrieri Guimarães, foi escrito em 1350 pelo escritor italiano que nasceu em Paris, Giovani Boccaccio (1313-1375), uma obra em prosa que relata em dez histórias curtas, contadas por sete moças e três rapazes que se refugiam no campo para escapar da peste negra, os conflitos entre os valores cristãos e o espírito libertino da época, questões ligada à transição para o Renascimento. O “Decameron” é composto por cem histórias que abrangem as mais peculiares paixões e comportamentos humanos, e mantêm em viva presença, os clamores da carne, a infidelidade e as trapaças sexuais A obra tem a propriedade de revelar em cada conto que o proibido e o pecaminoso vigiados pelas autoridades no final da Idade Média, concretizavam-se em práticas habituais no dia-a-dia das pessoas comuns, do clero e da nobreza. Na obra, conforme dito anteriormente, há dez personagens principais que, para fugir da peste, refugiaram-se em um castelo, onde nada havia a fazer. Teriam que passar ali muito tempo, até que o ambiente externo voltasse à salubridade. Para ocupar-se, cada um dos personagens contou uma história em cada um dos dez dias. Essa obra, apesar der ter sido escrita há mais de seiscentos anos, ainda pode ser lida como enorme prazer. Por isso, tornou-se um clássico da prosa ocidental e um dos maiores livros eróticos de todos os tempos. FONTE: BOCCACCIO, Giovani. Decamerão. São Paulo: Abril, 1979. Veja mais Decameron aqui.


30 ANOS, 500 MIL NO YOUTUBE E GRAMMY – Gentamiga, nas comemorações de 30 anos da minha trajetória, festejamos a chegada dos 500 mil acessos no meu canal do YouTube e a indicação das minhas músicas Desejo e Aurora/Minha Voz, gravadas pela cantora Sonia Mello, ao Grammy. Divido com vocês convidando-os para participar da nossa festa!!!!




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terça-feira, outubro 16, 2007

HEIDEGGER, JOSUÉ DE CASTRO, RUBEM BRAGA, DAVID BURLIUK, CECILIA BARTOLI, ANA TEIXEIRA, BIOÉTICA, PSICOLOGIA SOCIAL, HUMAN RIGHTS WATCH & BIRITOALDO



PROEZAS DO BIRITOALDO - II - Quando não se pensa direito, a cara sofre a maior vergonha - É verdade que o marmanjo não se emenda e, quanto mais velho vai ficando, mais besta se manifesta. Assim foi Biritoaldo desde tenra idade: aprontador de pintar o sete. Um seboso pelejando por chamar a atenção de todos ao se engalfinhar numa maloqueiragem ineivada. Por causa de suas estripulias granjeou muitos apelidos da mais variada titulatura, desde aruazinho, lindozinho, fofinho, biuzinho, xeretinha, pirrototinho, bilunga, pitoquinha, cú-de-mãe, cheira-peido até outros muito mais escabrosos não mencionáveis pelo decoro público. Era ele o resultado da união de seu Manoel e dona Táquia, casal tomado de ufanidade desde o seu nascimento. Seu Manoel Bertolino estava feliz naquele dia, uma terça-feira gorda de carnaval, vinte e nove de fevereiro. Ele, o pai, não bebia, não fumava, religioso dos pés à cabeça, não aderindo aos festejos ocasionais que tanto tocam fogo pro sujeito se infincar na bebedeira, abstêmio roxo mesmo. Naquele dia, porém, enquanto dona Táquia gemia deitada na cama do quarto com umas contrações fortes pela distocia - daquelas que de tão agudas pareciam mais anunciar a chegada do anticristo -, estava ele para se esbaldar. Nem ai. Contudo, todas as providências haviam sido tomadas para amenizar as dores dela: um saquinho com raiz de mandrágora e pedras de ara no pescoço; e na mão esquerda um cordão de São Francisco. A parteira, vigilante, a postos, aguardando a hora certa. A parturiente suando com as pernas abertas e se agoniando com a demora de rebentar. Do quarto taciturno ouvia-se a folia toda do carnaval com a gota, fervendo no calçamento. A barulheira dos carros em alta velocidade na festança dos côrsos, aliados à gritaria do povinho nos festejos do tríduo momesco, misturado com mela-mela e frevo. E o bicho, nada de rebentar. Já estava, assim, pelas contas, com mais de dez meses, incruado e deixando a barriga da mãe pela boca. A avó, mãe dela, uma baiana catimbozeira de Cachoeira, terra dos mais abalizados babalorixás, que atendia pelo nome de Mãe Nêga, estava num matagal longe do quintal, alinhando os planetas e decifrando o que estava por acontecer. - Vai ser menino! -, balbuciou a avó com um ar de vidente. O pai todo ancho, pabo, nunca acreditara nas doidices de Mãe Nêga vez que sua religião não permitia. Entretanto, naquela hora, ficou feliz com a revelação. - Deus te ouça, velha! O marido não escondia seu sobressalto acompanhando nervosamente a oração das vizinhas e parentes, todas dedicadas em ladainhas para Nossa Senhora do Bom Parto, do Bom Sucesso, do Ó, da Conceição, das Dores, dos Anjos, de Lourdes e das Graças. Entre um gole e outro, vez em quando, Seu Manoel abria o buticão de olho para ver o que se sucedia com a esposa. E a ladaínha lá, insistente. - Esse mardito quer morar aí dentro, é? -, reclamava ele, intrigado. À certa altura da noite, deu-se um vento ruim. Tudo escureceu e um silêncio marcou o momento. Era breu pesado. De um raio apagou a luz. - Que droga é nove? -, inquiriu alguém amedrontado. Dava para se ouvir a tremedeira dos ossos medrosos. Ouviu-se mais, depois, um barulho ensurdecedor. Tuuumm! - Alguém desentupiu! -, sentenciou a velha com o dilatado de músculos naquela hora. Ploft!. O menino rasgou o silêncio e a escuridão, deslizando nas mãos da parteira. Scrash! Mudo, teve de levar umas palmadas da bunda ficar vermelha em brasa. Foi um chororô apavorado do menino. Todo mundo se arrepiou ali. A luz chegou forte com a inhaca podre que dominava o ambiente. Quem aguentava o fedor? - O bicho veio podre! -, reclamou outro presente. - Passou do ponto! -, finalizou a parteira. O genitor agarrou uma garrafa de champanhe traduzindo a felicidade medonha que invadira aquele lar. E a festa trouxe gente curiosa, fofoqueira, pinguça, interesseira, rica e pobre, levada pela carniça até o recinto, tomando conhecimento de perto daquele sucedido. A catinga tomou os domínios da cidade. Foi gente a dar com pau na festividade. Por causa da chegada do primogênito tudo ficou sendo permitido na casa do catolicíssimo que pedia perdão, todo dia, nos pés do padre, por possuir um enchimento com variado estoque de bebida. O homem então lançou mão de todas as prateleiras para festejar importante acontecimento. - Hoje a bebida é de graça! -, comemorou Manoel Bertulino levando uma taça para a parturiente que ainda se contorcia de dor. - Não respeita nem o resguardo da mulher, seu porco? -, reclamou Mãe Nega, censurando sua atitude incômoda para o momento, começando um desentendimento regado a um bocado de desaforo. Assim, de um vento ruim nascia Biritoaldo. Vinha ao mundo por volta da meia-noite e dois minutos e trinta e um segundos, depois de uma terça-feira gorda e já anunciando a quarta-feira de cinzas. Veio mudo, apanhando com um choro brabo e, depois, para agonia dos presentes, todo se cagando. Não havia reza forte nem conhecimentos medicinais preventivos que aplacasse aquela caganeira desinfeliz. - Oxente! O menino tá se acabando pelo fundo feito panela, gente! -, gritou Mãe Nêga, realizando nele um verdadeiro exorcismo para afastar encosto ruim e más companhias. De posse de um talismã e com um cordão de seda preta, enfiou um sino-saimão, tres vinténs de prata, furou uma argola e ajuntou a uma meia lua, uma figa e um dente de lôbo, apondo tudo no pescoço do recém-chegado, para ficar curadinho da silva, loguinho, loguinho. Pronto, Manoel agradeceu à sogra por sua providência. O cabra-de-pêia, macho-duma-figa, bruguelo danado, tava agora se esgoelando para alegrar os presentes. No entanto, mal passara o susto do desarranjo, já vinha o menino se arroxeando de repente, não conseguia nem mais chorar de tanto esforço que fazia. - Será que a bosta ficou presa? - Não mulher, ele tá ficando preto! - Vôte! Comentários os mais transcendentais multiplicavam os mistérios do evento. Não passara ainda das quatro da madrugada, exatamente noventa minutos depois de curado, nova fatalidade se esboçava ali. Nova correria se sucedeu dentro de casa. Remédios e benzeduras não davam conta da maledicência que se abatia sobre aquele ser infeliz. Gente num entra-e-sai danado, rebuliço de unguentos, agonia e vexame para todo lado. Eis que passava pelas imediações um médico beberrão, se trumpicando a confundir uma perna pela outra, acudindo com um copo de cerveja na boca do acamado. Todo mundo foi só repreensão. Virou um escarcéu. - Calma! -, arguiu o cambaleante doutor - ele estava com uma desidratação e já está medicado. Agora, o problema dele, mesmo, é que não tem buraco na pinta para mijar! Arrepare só, espia: nascer se cagando, ficar desidratado e com o pimpôlho tapado, é muita urucubaca para um serzinho só, né não? - Dê-me uma agulha! -, exigiu, mal podendo abrir os olhos de tanta bebice, recebendo taxativamente uma negativa de todos. Aí, não teve dúvidas, fez um quatro entre as pernas, caiu estatelado no chão com uma brocha arrancada do solado do sapato e, aos tombos, levantou-se e, violentamente, cambaleando, furou a pica do bichinho. Foi o maior aguaceiro. Rá! Uma risadagem explodira. - Foi o tinhoso que tapou a saída do mijo do meu netinho! Até então ninguém notara que, devido a tontice do dito cirurgião, a furada na bimba do desfalecido foi dada pela borda de cima do chapéu de vaqueiro o que, ainda hoje, o faz vencedor de aposta de mijo mais longínquo que se tem notícias. Conta a crônica policial que naquela madrugada houve no menos trezentos e sessenta e cinco abalroamentos, duzentas e noventa vítimas, dezoito delas fatais, dois mil e quinhentos estupros, quatro mil seduções, quinhentos e oitenta cabaços perdidos, três mil calcinhas encontradas e dadas por perdidas, seis sacis correndo bicho e um lobisomem que, a essa altura do campeonato, virara gay. Estatística precisa dos acontecimentos carnavalescos dali, procedida pela Datambique, a processadora e apuradora de dados locais, com toda população voluntária no levantamento de tais números. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais Proezas do Biritoaldo


A arte da artista, desenhista, fotógrafa e instaladora com intervenções urbanas e em vídeo, Ana Teixeira.


Curtindo os álbuns Sacrificium; The Music of the Castrati (Decca – CD/DVD - 2009) & Arie Antiche: If you love me (London Records, 1993), da cantor lírica mezzo-soprano italiana e popular intérprete de óperas e recitais, Cecilia Bartoli.

PENSAMENTO DO DIA - [...] Todo sujeito é o que é somente para um objeto e vice-versa [...]. Trecho extraído da obra Ser e tempo (Vozes, 1998), do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976). Veja mais aqui.

GEOPOLÍTICA DA FOME – [...] A verdade é que não basta produzir alimentos lançando mão de todas as técnicas disponíveis, é preciso que esses alimentos possam ser adquiridos e consumidos pelos grupos humanos que deles necessitam. [...]. Trecho extraído da obra Geopolítica da fome (Brasiliense, 1957), do médico, professor catedrático, pensador, ativista político e embaixador do Brasil na ONU, Josué de Castro (1908-1973). Veja mais aqui.

O BRASIL ATRÁS DAS GRADES –  [...] Dados os altos índices de crimes violentos no Brasil, a apatia pública em relação aos abusos não é surpresa. os presos são quase exclusivamente originários das classes mais pobres, sem educação e politicamente impotentes, à margem da sociedade. Confiná-los em  em condições humanas é uma proposta dispendiosa. Mesmo a solução atual – de confinamento em condições de superlotação extrema, onde falta assistência médica e abusos físicos são comens – é dispendiosa, considerando-se o alto custo de vidas arruinadas, num estrondoso desrespeito às leis e com altos índices de reincidência. Além disso, os defeitos do sistema penal são em grande parte devidos à ausência de vontade política para ajustá-los, ao invés de falta de verbas. Algumas das crueldades mais extremas das quais os detentos brasileitos são vítimas não podem de forma alguma ser atribuída à falta de recursos públicos. [...]. Extraído do relatório O Brasil atrás das grades (1998), da Human Rights Watch. Veja mais aqui e aqui.

BIOÉTICA – A obra Introdução geral à bioética: história, conceitos e instrumentos, de Guy Durand aborda temas como a emergência e situação da bioética, os antecedentes, correntes diversas, vocabulário prévio, noção, objeto, principais setores, normatividade ética, definição e natureza, balizas éticas, abordagem norte-americana, abordagem latina, fundamentos, exigência da prática, institucionalização, síntese e futuro, bioética como ética, profissionalização, interdisciplinaridade, ética do discurso, métodos de análise, discernimento das normatividades, a rejeição da questão, as teorias éticas, a pessoa humana, perspectiva de conjunto, ética do conhecimento, o respeito humano, entre outros assuntos. REFERÊNCIA: DURAND, Guy. Introdução geral à bioética: história, conceitos e instrumentos. São Paulo: Sã Camilo, 2010. Veja mais aqui.

PSICOLOGIA E COMPROMISSO SOCIAL – O livro Psicologia e compromisso social, organizado por Ana M. Bahia Bock, trata de compromisso da psicologia, desafios, metodologia e epistemologia, contribuição das políticas públicas, DSDT/AIDS, orientação profissional, orientação sexual, saúde mental, colonialismo cultural, psicologia social, pedagogia e educação, entre outros temas. REFERÊNCIA BOCK, Ana (Org.). Psicologia e compromisso social. São Paulo: Cortez, 2003. Veja mais aqui.

A CACHAÇA – [...] Mas qual! O governo ignora pudicamente essa imensa realidade nacional que é a cachaça – a não ser para lascar impostos em cima ou proibir a venda aqui ou ali dentro de certos horários. E já estou a ouvir daqui o comentário daquele meu amigo que foi presidente do IAA, se chegar a ler esta crônica: - O Braga quer salvar o Brasil com a cachaça...  Sim, cachaça faz mal, e quanto mais, pior. Mas foi com a cachaça que o brasileiro pobre enfrentou a floresta e o mar, varou esse mundo de águas e de terras, construiu essa confusão meio dolorosa, às vezes pitoresca, mas sempre comovente a que hoje chamamos Brasil. É com essa cachaça que ele, através dos séculos, vela seus mortos, esquenta seu corpo, esquece a dureza do patrão e a falseta da mulher. Ela faz parte do seu sistema de sonho e de vida; é como um sangue da terra que ele põe no sangue. Trecho da crônica A cachaça também é nossa, extraído da obra As boas coisas da vida (Record, 2010), do escritor Rubem Braga (1913-1990). Veja mais aqui.


Imagem: Leda and the Swan, oil on canvas, signed lower right, do poeta, pintor, mecenas e dramatgurgo russo David Burliuk (1882-1967).

POEMA - Somos jovens jovens jovens / Frio dos diabos no estômago / Agora sigam-me todos... / Por trás dos meus ombros / Meu chamado consiste / Neste orgulhoso speech / Mastiguemos a grama e as pedras / O doce o amargo os venenos / Abocanhando os espaços / Do mais profundo ao mais alto / A fera o monstro a escama a pluma / O vento a argila o sol a espuma!... Poema do pintor, escritor, mecenas da arte e dramaturgo russo David Burliuk (1882-1967). Veja mais aqui.


VEJA MAIS:
História do Brasil: de Pindorama à Carta de Caminha aqui.
Honoré de Balzac, Jean-Luc Godard, Montaigne, Direito de Amar e danos de amor, Suzana Salles, Louis Hersent, Charlotte Wolter, Cécile Camp, Milo Moiré, Louis Maeterlinck & Clevane Pessoa de Araújo Lopes aqui
Pablo Picasso, Karl Theodor Jaspers, Fernanda Seno, Friedrich Händel, Eva Green, Tom Wesselmann, Demi Moore & Soninha Porto aqui.  
Lagoa Manguaba, Luís de Camões, Luís da Câmara Cascudo, Caio Porfírio de Castro, Manoel Bentevi, Alain Resnais, Aldo Brizzi, Teatro Renascentista, Sabine Florence Azéma, Larry Vincent Garrison, Tomas Spicolli & Viviani Duarte aqui


CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja aqui e aqui.

CANTARAU TATARITARITATÁ
 Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja aqui e aqui.


NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...