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quarta-feira, junho 23, 2021

FRANÇOISE SAGAN, ALÍCIA DUARTE PENNA, ANZANELLO CARRASCOZA, SIMOA & VALUNA

 

 

TRÍPTICO DQP –- Uma vez & ela... - Ao som do Harpconcerto - E minor op. 182 (1884), do compositor alemão Carl Reinecke (1824-1910), na interpretação da harpista belga Anneleen Lenaerts, Symfonieorkest Vlaanderen, regência de Jan Latham-Koenig - Deitei a cabeça ao travesseiro e era a Nascente do Bacuna, noutro lugar do agreste. Eu que vivia na mata, estava agora no descampado escuro e senti o toque de uma mão de mulher ao meu braço. Virei-me imediatamente e quem era ela, olhos vivos e um sorriso amável. Segurando a minha mão, me fez seguir o trajeto das estrelas. Sua cadenciada passada enfeitiçava a paragem até repousar numa pedraria para que eu sentisse o reinado da lua. Na verdade, ela que reinava ali. Então me disse ser Simoa, a filha mameluca de Kariri e do cabo Miguel do sítio da Tapera do Garcia, neta do desalmado bandeirante que desmantelou Palmares. Teve uma infância feliz e, moça feita, casou-se com o coronel Manoel, com quem viveu e logo enviuvou. E do sítio fez uma fazenda e me fez presenciar a distribuição de alforrias pros quilombolas ajoelhados ao seu redor. Ela levantou-se, foi até eles, chamou a escrava Domingas e fê-la buscar-me para mais perto dela. Todos se curvaram em sinal de respeito e homenagem, e ela se despediu como se jogasse beijos de flores para todos. E me levou por um caminho na noite escura e, nas proximidades de uma gruta, virou-se, apertou-me ofegante contra o peito, encostou sua face à minha, sua carne latejava, sua língua lambia meus lábios, sua boca devoradora a me beijar como se me levasse por Unhanhu, atravessando o sítio do Saco do Tapuia, até a barra do riacho Cajueiro, para que eu visse no seu seio correr o rio Mundaú. Repousou minha mão sobre o seu ventre e me fez conhecer o córrego do Culumin até chegar num local às margens do rio Canhoto para lá me arranchar e souber que foi ali que ela nasceu e queria me amar, porque eu era o notívago perdido pelas altas horas que daria para ela a eternidade. E me contou da viúva Secunda, aquela que foi acometida de doença grave e levada num carro de boi para sepultada pelo carreiro que, depois do enterro, também foi vitimado da mesma doença dela e morreu. Não, não era ela, porque me queria por ser a matriarca que reluzia no céu das Sete Colinas de Ronildo Maia Leite, com as ilustrações da sua gestação na arte de Sérgio Lemos, perpetuada na pintura de Renato Pantaleão e nas gravuras de Renato Silva. E era mesmo, porque naquele momento ela ascendeu encoberta pelos véus e, antes do amanhecer, desceu desnuda ao Brejo das Flores e me fez nela emergir a cidade.

 


Dois espelhos num só... - Imagem: Espelho diário de Rosângela Rennó. – Ela estava todo dia, no espelho. Conversas desconexas de eus e outras, convivência dela em mim. Vez em quando assaltava minha cama para me dizer um trecho do Morituri mortuis (Por uma vida sem catracas!), da Alícia Duarte Penna: A hora do enterro é, ainda, a hora da morte, que ainda será a da visita ao túmulo (nos Finados, nos aniversários, nas saudades). Fica na terra, da morte, das mortes, ainda um lugar, sempre o mesmo, a que se volta. E me dizia para que eu pudesse suportar o genocídio do desgovernado Fecamepa: milhares por dia sucumbiam e a irresponsabilidade doía e sangrava aqui, ali e acolá. De repente ela trouxe o bailarino e coreógrafo francês Patrick Delcroix: O espelho nos dá todo dia a mesma imagem, mas o que você vê não é sempre o que você sente, a sua imaginação pode levá-lo muito longe, porém o espelho não mente, o reflexo é sempre o mesmo. Ela sorriu e se fez Reflexos do Espelho como se estivéssemos no palco da Cisne Negro, para sussurrar ao meu ouvido um trecho de Por uma contradisciplina da história (UFPE, 2016), da professora e jornalista Christine Greiner: A dança, de certa forma, sempre soube este oficio de narrar cartografando memórias, uma vez que as suas histórias sempre foram histórias do corpo, do movimento e das singularidades das formas de vida. E dançamos até nos esquecer de tudo e de nós.

 


Três danças no espelho... - Imagem: Reflexo no Espelho (2004), da Cisne Negro Companhia de Dança - Amanheci com seus beijos de Sol, a me dizer Françoise Sagan: Amar não é somente querer, é sobretudo compreender. Amei até a loucura.  O que chamam de loucura é, para mim, a única forma sensata de amar... E falou de vida e flores, de rios e ontens, de gente e de nada, para que eu soubesse que de seu corpo toda a vitalidade e razão de viver. Já entardecia e ela era Valuna quando ela me chamou atenção para uma frase do escritor e professor João Anzanello Carrascoza: Somos todos histórias que se misturam, se alteram e se acabam. E me beijou atravessando a noite madrugada adentro para me ensinar o dia imenso de viver e amar. Até mais ver.

 

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sexta-feira, setembro 29, 2017

THIAGO DE MELLO, HANS BELLMER, MARIO SETTE, SÉRGIO AUGUSTO, RONILDO MAIA LEITE & SIDNEY WANDERLEY

LINGUA FALOU, CU PAGOU! - Denilzinho era um arretado: servidor, jeitoso, estibado. Precisasse, pau pra toda obra; solidário até com morte de formiga. Diziam: esse vive de cara pra lua! Isso porque ninguém nunca via nele cara feia ou dizer não: sempre pronto para ajudar e resolver o que fosse para o bem de quem chegasse. E o melhor: com o maior dos sorrisos. Dinheiro? Sacava dos bolsos: tome! Carro emprestado, chaves dispostas na hora! Adoeceu? Estava pronto para palavras amigas e providenciar remédios, indiferente de quanto custassem. Eu num disse? Um sujeito pra lá de gente boa mesmo. Mas... Ninguém é perfeito: quando virava um copo, vixe! O cabra se transformava no pior cricri dos chatos de galochas. Era só às gaitadas: fulano? Aquilo é um corno safado da gaia mole! Sicrano? Aquilo é uma pestilência da mais gangrenosa! Beltrano? Um viado safado do cu afolosado! E mulher? Ah, a mulher de casa é feito galinha de granja: cheirosinha, limpinha, toda jeitosinha, mas insossa, aguada; já a mulher da rua, a puta nojenta, oxe, é feito carne de galinha de capoeira: fedorenta de inhaca da peste, melada, cagada, mijada, fodida, cuspida e mal paga, mas, ainda assim, é a maior sustância, suculenta, vixe! Chega dá vontade de comer de se empanzinar todo! Ô coisa boa! E repetia isso até diante da sua distinta senhora que, pudica das mais religiosas, abria um sorriso amarelo por educação e fazia que nem ouvia, resignada, serviçal pra tudo a bem do marido, vivia só pra ele providenciando iguarias e bebidas, o rei da casa que ela obedecia e devotava toda sua vida, arrumando da varanda à cozinha, ajeitando do jardim ao quintal, roupa engomada, tudo pronto antes mesmo dele pedir, e nos trinques todo dia e o dia todo. Isso até o dia que Denilzinho, depois de muitas e tantas, tomou uma de emborcar trocando as pernas na beira da cama, resmungando o flagra da infidelidade marital: ué, mulher, o que é que é isso? E ela, sem fazer a menor cerimônia, cuspiu na lata dele com a cara mais lisa: Oxe, homem, de tanto você dizer, eu fui fazer um teste pra vê se era mesmo galinha de granja, ora, pra seu governo o macho aqui me certificou que sou mesmo é galinha de capoeira. E das boas! Gostei e quero mais! Tai, língua falou, cu pagou! Teibei! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com o compositor, músico e cantor Ivan Lins ao vivo + Quem saberia perder + Java Jazz; aa premiada violinista alemã Viviane Hagner interpretando Grétry Violon Concert Henri Vieuxtemps & Israel Philharmonic with Zubin Mehta; o violonista e compositor Nando Lauria interpretando músicas dos  álbuns Novo Brasil & Points of view; e a belíssima cantora Julya Cristal interpretando música do seu álbum A journey to Shamnalla &  Forever more. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Glamour não é um dote natural, mas um artifício burilado pela pericia de técnicos em plástica, elegância, iluminação e marketing. Glamour, portanto, se adquire – mas nem todos podem comprá-lo. Sua aquisição exige sacrifícios, sobretudo de ordem física [...] Não é menos árdua a sua conservação. [...] As recompensas são tais e tantas que poucos atores se confessaram arrependidos das concessões a que se sujeitaram, trocando de cara, nome e, não raro, até de biografia. [...]. E entendemos o desespero daquela personagem da peça Angel City, de Sam Shepard, que a certa altura desabafa: “Eu odeio minha vida. Queria que ela fosse um filme. Eu odeio o que sou. Eu queria estar vivendo um filme, mas não estou e nunca estarei”. Trechos do ensaio Minha tela tem estrelas (Bravo, abril/2004), do escritor e jornalista Sérgio Augusto. Veja mais aqui.

AS MULHERES DE IGARASSUDuarte Coelho [...] donatário da capitania de Pernambuco, fundara à margem de um rio do mesmo nome a vila de Igarassu [...] Ali vinham ter as embarcações que chegavam de Portugal, trazendo colonizadores, mercadorias, víveres, e, pouco a pouco, a localidade crescia. [...] Os gentios, porém, que de começo se haviam mostrado cordatos, auxiliadores, deram em se insurgir contra os portugueses, declarando “guerra aos brancos”. [...] Durava já dois anos o assedio e, por isso, andavam os homens fatigados das vigílias sempre receosos de um ataque súbito dos indígenas. As mulheres, então, ofereceram-se para substituí-los nas sentinelas, durante as longas noites, e foram aceitas nesse arriscado mister, sem que dessa medida o inimigo viesse a ter mínima ciência. E afinal, uma vez, quase pela madrugada, sorrateiramente os índios ensaiaram tomar a vila de assalto, atacando o forte que defendia do lado do rio. As mulheres avistando aqueles vultos que escalavam as muralhas, rojaram-se sobre eles de espadas em punho, acutilando, ferindo, matando, com todo animo. Todavia, mais fracas e em menor numero, iam sendo subjugadas. E foi quando uma delas, por dar aviso aos homens que dormiam, teve uma fuzilante ideia. Apoderou-se de um tição, chegou-o ao ouvido de uma peça e disparou-a. o tiro reboou no silêncio da noite. Os soldados despertaram, correram aos seus postos, salvando a vila de uma capitulação. Trechos extraídos da obra Terra pernambucana (FCCR, 1981), do professor, jornalista e escritor Mario Sette (1886-1950). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A GUERRILHEIRA & O MAGRICELA BARBUDO - [...] Entre um gole e outro, costumava dizer, já agora aos berros: - Mulher casada que faz amor somente com o marido, para mim não passa de uma virgem... E dava cafunés dengosos na cabeça da esposa, que os olhos abaixava em sinal do mais bíblico respeito. Numa almofada distante, um magricela barbudo acompanhava o baixar de olhos, como na missa. Noite alta, até o gogó ele encheu o copo do uísque. Sem gelo, engoliu à maneira dos caubóis. Claro, entrou em coma profundo. Quando voltou a si, todos estavam ao redor das coloridas almofadas. Menos o magricela barbudo. Dirigiu-se ao quarto. Foi quando descobriu que, toda sexta-feira, o barbudinho se entregava ao dialético prazer de desvirginar a guerrilheira amada. Trecho extraído da obra A guerrilheira perfumada: crônicas do amor diário (Raiz, 1990), do jornalista e escritor Ronildo Maia Leite (1930-2009).

UM TRIPLO TIBUNGO HERÁCLITOTrês meninos mergulharam no rio / o rio mergulha na tarde / a tarde mergulha no tempo / que envelhece os meninos / que engole os sonhos e os que sonham / que altera o curso do rio / para que três outros meninos / em outra tarde, outro rio / renasçam em outros mergulhos. Poema extraído de Artesanias da palavra (Grafmarques, 2001), do professor e poeta Sidney Wanderley. Veja mais aqui, aqui e aqui.

EPITÁFIO DE THIAGO DE MELLO
O canto desse menino
Talvez tenha sido em vão.
Mas ele fez o que pôde.
Fez sobretudo o que sempre
Lhe mandava o coração.
Poema recolhido da obra Faz escuro mas eu canto (Civilização Brasileira, 1985), do premiadíssimo poeta amazonense Thiago de Mello. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Veja mais:
A literatura de Cervantes aqui, aqui e aqui.
A pintura de Caravaggio aqui.
A música & entrevista de Ivan Lins aqui, aqui e aqui
O pensamento de Miguel de Unamuno aqui e aqui.
A arte musical de Viviane Hagner aqui.
O cinema de Michelangelo Antonioni aqui.
A arte musical de Nando Lauria aqui.
O teatro de Plinio Marcos aqui, aqui e aqui.
A arte da cantora Julia Crystal aqui, aqui e aqui.
O teatro de Mário Bortolotto aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor e gravurista alemão Hans Bellmer (1902-1975).
Veja mais aqui.

segunda-feira, outubro 22, 2007

ELIOT, JUNG, RUBEM ALVES, LUC FERRY, RÜCKERT, RICCITELLI, SUSAN BEE, RONILDO MAIA LEITE, TÁLIA & FECAMEPA SÉC. XVI



FECAMEPA: UM ESPIADELA APRUMADA PELO BRASIL DO SÉC. XVI - O fuzuê corria solto na maior cantiga-de-grilo: - U-tererê! U-tererê! E isso avalizava toda idéia de historiadores, viajantes, negociantes, salteadores, assaltantes, aproveitadores, corsários e salafrários sobre a pujança exótica da natureza, a ponto de asseverar que se o paraíso terrestre existia em alguma parte, não podia estar longe daqui. Daí razão pra duas coisas: a idéia de que Brasil é o éden terrestre (isso para a trupe descarada, ao contrário do que pensava os de lá, ser aqui a pena pesada pros degredados); e, também, para nascer toda impunidade e insegurança que pipocará desde então até os dias de hoje. Mas um dia, a poeira baixou desafinando o rastapé e a farofada toda foi pro saco. Foi mudando de figura até cair a ficha de que tal descobrimento, na verdade, era uma invasão. Isto é, uma verdadeira pegadinha, ah, salci-fufu, meu nego, maior chacota dos tapuitinga com a leseira dos silvícolas. Como ninguém é besta demais para levar ferro no papeiro o tempo todo, a coisa foi esquentando no sopapo, dando o maior chabú na bagaça: as hostilidades se danaram com as barbaridades dos exploradores em guerras ardilosas e de porfiados combates, de não ficar um segundo só sem o ronco da inúbia. A tribo toda foi sacando o extermínio do que era seu pelos desumanos conquistadores, além de serem tratados por irracionais, algo próximo ao bicho, numa escala abaixo do homem e um pouquinho acima do macaco. Nem mesmo as bulas papais Veritas Ipsa e Universis Christi Fidelibus aplacaram a ruindade, violência e ganância predatórias dos homiziados emboabas. Por causa disso, o desenlace detonou nos maus procedimentos do colono que só tinha olhos para enriquecer, ganhar fama e glória com ouro e pérolas, carregado de toda luxúria, avareza, vexações e pirraças, tomando as terras, derrubando as matas, se emancebando com as índias, incendiando aldeias, destruindo plantações e, de quebra, todos os aborígenes iam sendo escravizados. Além do mais, ou os índios findavam morrendo aos montes de morte matada por eles, ou com as doenças dos malas tapuitingas e, também, pelas epidemias que assolavam brabas. No mais, também, o pagode permitia a promiscuidade das uniões ilícitas com concubinatos e sodomias, dando vida aos macunaímas que iam nascendo, primeiro mamelucos, depois mulatos, cafusos, curibocas de todas as etnias futucando toda mestiçagem. Maior trupé, mesmo! Os mamelucos surgiam se tornando os mais carrascos já escravizando, molestando e traficando os bugres para os colonos lusos e para os forasteiros e corsários, a ponto de se tornarem os promotores da escravidão. Maior arranca-rabo. Nesse rebuliço todo, dava-se início a uma escaramuça das mais violentas envolvendo os potiguares, caetés, tupinambás, tupiniquins, goitacases, tamoios, goianases, guaranis, carijós, cariris, paiaguás, caiapós, maras, maués, mundurucus, guaicurus, tremembés, tabajaras, todos os parus e tapuias de todo território, proporcionando a explosão de uma porção de boatos que viraram verdade oficial quando não passavam de mentiras deslavadas. Porque, na verdade, dentre outras, convém lembrar que os perós ao se depararem com o fim dos mantimentos trazidos d´alémar, já se fartavam empanzinados de coco, inhame, milho, mandioca, aipim, cará, maniçoba, pacovas, abóboras, batata, tudo estranhice insossa no seu paladar e, já cheio de tudo isso, paparam carne indígena no maior churrasco da freguesia para si e para seus cães. Mas o que fica é a versão deles que dá início à pinóia oficial. Aliás, só a versão deles prevalece em toda História oficial. Voltando ao relato, aparece então a antropofagia que foi atribuída sob o maior esconjuro aos nativos. Claro, eles eram canibais, depois de toda presepada, hem? Com um detalhe: quando praticavam era assumidamente por vingança, todo um ritual. Muito embora a controvérsia leve para muito bate-boca porque são unânimes as narrativas de que os índios eram gentis, pacíficos e trocavam de tudo com todos os visitantes. Há que se considerar, então, que se tornaram inimigos de Portugal por causa dos procedimentos violentos dos dominadores e cráu! Era uma vez. Pudera, o que os portugas fizeram não é pra menos. E tome mais controvérsia na lata! Como a zona toda precisava de ordem para o progresso, dividiu-se toda extensão de terra em 15 capitanias ocupadas por 12 donatários e que somente duas deram certo: Pernambuco e São Vicente. Nessas duas o invasor esmagou todas as resistências para implantação da cana-de-açúcar. Nas outras, todas assaltadas por tacapes, uiraparás, flechas, esgaravatanas que findavam dominando e se vingando dos estrangeiros. Melou geral. Havia ainda uma coisita que era de entronchar tudo: o de que nas capitanias nenhum ninguém dos que aqui chegaram podiam ser perseguidos por crime ou delitos anteriores, possibilitando ainda mais abusos impunes sobre os nativos, redundando ainda mais em massacres e malvadezas. Ainda por cima disso, a introdução da monocultura da cana ampliava a maldição local transformando o sangue de índios escravizados e de negros traficados da África, todos esmagados nos engenhos das capitanias da colônia, no doce dos privilégios das cortes e do clero europeus. E tome moendas, assentamentos, encaixamento, destilação, bagaceira, moagem, latifúndio, tudo por força do braço escravo. No fim, não mais havia ocas nem ocaras, muito menos um cocar sequer em pé. Os índios que eram submetidos à catequese e à escravidão para trabalhar na cana, só tinham por opção submeter-se ou fugir. Os que não aceitavam, diga-se a maioria, meteram os pés na bunda e fugiram para o interior do continente, preparando a volta do enterro. Já os negros ou eram mantidos da mesma forma na política escravocrata, ou fugiam seguindo os passos dos índios e criando os quilombos. Olha o pencó engrossando aí! Mais enterro voltando. O negócio vai empenando feio, pois em Pernambuco é declarada guerra aos caetés porque estes não aceitavam a monocultura da cana-de-açúcar e estavam sendo acusados de jantar o bispo. Na Bahia, Tomé de Souza vai embora desapontadíssimo porque mandava em tudo que não funcionava por aqui, menos em Pernambuco e São Vicente por ordem da coroa, razão que passa o governo-geral para Duarte da Costa que, mais tarde, tem um entrevero dos cabeludos com o bispo Sardinha resultando num dos mais nebulosos desfechos. Depois eu conto, destá. O negócio vai ficando cada vez mais desgraçadamente enfeiado no século XVI vez que toda sorte de europeu quer tirar umas casquinhas desta terra continental. É aí que nascem as tramóias, bafafás, enrolanças, trairagem, arrumadinhos e fuleragem que vão engroçando o nó-cego e fazem deste país um verdadeiro boi-de-fogo até hoje! Pois é, gente, se a coisa ia de mal a pior, com a adoção da cultura da cana-de-açúcar nos engenhos de toda colônia, multiplica-se por mil o piormente e, com isso, a gente fica sabendo com quantas desgraças se faz uma tragédia. E a lição que fica disso é de que é pau pra lamber sabão; e cacete para saber que sabão não se lambe. E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais FECAMEPA.


Portrait of the Artist as a Young Pig (1983), art by Susan Bee


Curtindo o álbum Água da fonte (Clássicos, 2006), com a ex-regente e renomada soprano Claudia Riccitelli & o pianista Nahim Marun interpretando canções de Heitor Villa-Lobos. Veja mais aqui.


PENSAMENTO DO DIANum país de fugitivos aquele que anda na direção contrária parece estar fugindo. Pensamento do poeta, dramaturgo, crítico literário inglês e Prêmio Nobel de 1948, Thomas Stearns Eliot (1888-1965). Veja mais aqui e aqui.

OS ARQUÉTIPOS E O INCONSCIENTE COLETIVO – A obra Os arquétipos e o inconsciente coletivo, do psicólogo e psicanalista suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), na tradução de Maria Luiza Appy e Dora Mariana R. Ferreira da Silva, aborda temas acerca do conceito de inconsciente coletivo, o método de comprovação, o arquétipo com referencia especial ao conceito de anima, aspectos psicológicos do arquétipo materno, a hipertrofia do aspecto material, exacerbação do Eros, sobre o renascimento, metempsicose, reencarnação, ressurreição, participação do processo da transformação, psicologia do renascimento, a experiência da transcendência da vida, vivências medidas pelo rito sagrado, transformação subjetiva, diminuição da personalidade, transformação no sentido da ampliação, modificação da estrutura interior, grupo, identificação com o herói no culto, procedimentos mágicos, transformações técnicas e naturais, a psicologia do arquétipo da criança, a criança-deus e a criança-heroi, abandono da criança, o hermafroditismo da criança, aspectos psicológicos da core, a fenomenologia do espírito no conto de fadas, a autorepresentação do espírito nos sonhos, o simbolismo teriomórfico do espírito no conto de fadas, a psicologia da figura do trickster, consciência, inconsciente e individuação, o simbolismo da mandala, entre outros importantes assuntos. REFERÊNCIAS: JUNG, Carl. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000. Veja mais aqui.

ENSINAR O QUE NÃO SE SABE...E chega o momento quando o Mestre toma o discípulo pela mão, e o leva até o alto da montanha. Atrás, na direção do nascente, se vêem vales, caminhos, florestas, riachos, planícies ermas, aldeias e cidades. Tudo brilha sob a luz clara do sol que acaba de surgir no horizonte. E o Mestre fala: “Por todos estes caminhos já andamos. Ensinei-lhe aquilo que sei. Já não há surpresas. Nestes cenários conhecidos moram os homens. Também eles foram meus discípulos! Dei-lhes o meu saber e eles aprenderam as minhas lições. Constroem casas, abrem estradas, plantam campos, geram filhos... Vivem a boa vida cotidiana, com suas alegrias e tristezas. Veja estes mapas!”. Com estas palavras ele toma rolos de papel que trazia debaixo do braço e os abre diante do discípulo. “Aqui se encontra o retrato deste mundo. Se você prestar bem atenção, verá que há mapas dos céus, mapas das terras, mapas do corpo, mapas da alma. Andei por estes cenários. Naveguei, pensei, aprendi. Aquilo que aprendi e que sei, está aqui. E estes mapas eu lhe dou, como minha herança. Com eles você poderá andar por estes cenários sem medo e sem sustos, pisando sempre a terra firme. Dou-lhe o meu saber”. Aí o Mestre fica silencioso, olhando dentro dos olhos do discípulo. Ele quer adivinhar o que se esconde naquele olhar. Examina seus pés. Nos pés sólidos se revela a vocação para andar pelas trilhas conhecidas. Quem sabe isto tudo é tudo aquilo de que aquele corpo jovem é capaz! Quem sabe isto é tudo o que aquele corpo jovem deseja! Se assim for, talvez que o melhor seria encerrar aqui a lição e nada mais a dizer. Mas o Mestre não se contém e procura, nas costas do seu discípulo, prenúncios de asas – asas que ele imaginara haver visto como sonho, dentro dos seus olhos. O Mestre sabe que todos os homens são seres alados por nascimento, e que só se esquecem da vocação pelas alturas quando enfeitiçados pelo conhecimento das coisas já sabidas. Ensinou o que sabia. Agora chegou a hora de ensinar o que não sabe: o desconhecido. Volta-se então na direção oposta, o mar imenso e escuro, onde a luz do sol ainda não chegou. [...]. Trechos extraídos da obra A alegria de ensinar (Ars Poética,1994), do psicanalista, educador, teólogo e escritor Rubem Alves (1933-2014). Veja mais aqui.

HOMO AESTHETICUS[...] o argumento cético só é refutado com base numa visão da história da filosofia que simplesmente tem por inconveniente negar a historicidade como tal: se refletirmos bem, veremos que é histórico em cada sistema filosófico justamente o que, nele, é inessencial (o que está ligado à Bildung). Se todos os sistemas exprimem no fundo a mesma idéia, quase não se vê o interesse que proporciona o desenvolvimento de sua diversidade no tempo, e a crítica, que neles separa o que pertence à ordem do conteúdo e o que é simples forma contingente, quase só tem por finalidade uma autojustificação. [...] Assim, porém, também vemos mal como ela poderia não ocupar um lugar inferior ao da ciência ou da filosofia, que supostamente nos franqueiam um acesso mais direto à coisa mesma. Nessa primazia concedida à natureza, sobre o artifício, é verdade que uma parte da beleza é subtraída ao poder do espírito, mas também é com isso que a estética pode esperar não ser reduzida a uma “teoria do conhecimento inferior”, ou até uma simples receita que indica os meios capazes de comunicar ao entendimento comum verdades abstratas demais para serem compreendidas por ele no único plano que, no entanto, conviria: o da verdadeira especulação. [...] Está na origem mesma da estética como disciplina filosófica e já pudemos discernis seus primeiros frutos no conflito que contrapôs numa época clássica, a estética racionalista e a estética do sentimento. [...]. Trechos extraídos da obra Homo Aestheticus: a invenção do gosto na era democrática (Ensaio, 1994), do filósofo francês Luc Ferry. Veja mais aqui.

TÁLIA - Tália preside a comédia, significando em grego florescer. Muito jovial, coroada de hera, com uma máscara na mão. Muitas de suas estatuas têm um clarim ou porta voz, instrumentos que serviam para sustentar a voz dos autores na comedia antiga. Veja mais aqui.

SE ALGUÉM PERGUNTAR POR MIM - [...] Escapei de 30 chupando o peito de uma negra do Castainho, testa grande, cangote brilhante, cabelo encaracolado. Roliças coxas, escandalosas nádegas. Braços imensos de braçadas quentes. Avental, seu busto inteiro, de negra seda com o debrum de bicos vermelhos a enfeitar as tetas que, sem qualquer inocência, eu mamava, mamava. Era ela, onde anda hoje?, uma dessas pretas tão retintas, de negror sinceramente azulado. [...]. Para inventar seus peitos, onde bebi certa coragem e essa denguice toda que em mim plantaram o amor e a raiva. E maldosos vícios. E pecados perdoáveis. Me disseram depois, a preta é de alma branca que nem a minha pele. Por isso, a minha pele neném eu esfregava nela. E babava todo. Bebê baba a babá, meus babacas. Hortência era seu nome. Que negra, camaradas. Por causa dessas têtas, escapei das balas destinadas ao meu avô [...]. Trechos extraídos da obra Se alguém perguntar por mim... – 80 crônicas escolhidas (Ed&Arte, 1997), do jornalista e escritor Ronildo Maia Leite (1930-2009). Veja mais aqui.

TRÊS POEMASA casa do coração: O coração tem dois quartos: / Moram ali, sem se ver, / Num a Dor, noutro o Prazer. / Quando o Prazer no seu quarto / Acorda cheio de ardor, / No seu, adormece a Dor... Cuidado, Prazer! Cautela, / Canta e ri mais devagar... / Não vá a Dor acordar.... A lágrima do Céu: O céu deixou cair mimosa lágrima, / Que logo se julgou no mar perdida, / A concha a recolheu dizendo:"Agora / Serás a minha pérola querida. / Contra as vagas terás seguro abrigo, / Serena viverás sempre comigo. / Ó lágrima celeste ora em meu seio, / Tu és a minha dor, minha ventura!... / Permite, ó céu, que em doce e puro enleio / Eu guarde das tuas gotas a mais pura!" 3:  Nossos dias são preciosos,/ mas com alegria os vemos passando/ se no seu lugar encontramos/ uma coisa mais preciosa crescendo:/ uma planta rara e exótica,/ deleite de um coração jardineiro, / uma criança que estamos ensinando,/ um livrinho que estamos escrevendo. Poemas do escritor alemão Friedrich Rückert (1788-1866).


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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU TATARITARITATÁ
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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NORA NADJARIAN, LAUREN WEISBERGER, CAROLINE DEAN, MAGDALE ALVES & CARMEN CAMUSO

    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som do álbum The Changing Sky (2025), da violonista e premiada compositora britânica Laura Snowden .   ...