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sexta-feira, maio 04, 2018

OSMAN LINS, LEMINSKI, LUC FERRY, LAFARGUE, RENATA BRZOZOWSKA & NOEL ROSA

EU SOUL VOO - Imagem: arte da pintora polonesa Renata Brzozowska. - Tudo são dois, quando não três que é igual a um. A lógica do ilógico, a ética do círculo, em ondas, dimensões, espirais, como desordenado, aliás, aleatório, senão paradoxal. Nem por isso cessa a eternidade na finitude, a fecundar e a reproduzir desde a primeira geração, o primeiro princípio, o sopro do sopro, o fogo e a terra, a água e o ar, a força de toda força a mover o céu e as estrelas da minha boca pro infinito. Estar acima ou embaixo, à direita ou esquerda, entre o sereno e o alegre, o sombrio e o assustador, o sutil e o espesso, e ir, além disso, não só como o que fala e o que escuta, mas a trilhar o visinvisível que não é só ver ou entender o que há por trás do que é visto ou visualizado, e sim o outro das coisas, um zoom pro íntimo de cada coisa e ser, e ser cada coisa e ser, e ir para além do olhar e viver cada coisa e cada ser, eu e outros e tudo, todos em todo lugar: a união é a vida, o Um contém tudo e é todo, com seus contínuos eflúvios de um lado aos demais, diversos, a pluralidade singular a dar o abraço da Natureza, a ventar em mim os raios brilhantes do éter a passar e perpassar o meu corpo, enquanto o ouro do Sol acende o leste, Fiat Lux, até ser-me o rumo formidável da profundidade com a prece a me impelir para a luz do inominável de portas abertas e acordo, permanece comigo o resplandecente beijo dos versos e cantos livres e soltos que levo e soul voo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do sambista, cantor, compositor, bandolinista, violonista e um dos maiores e mais importantes artista da música no Brasil, Noel Rosa (1910-1937), com Ivan Lins, Maria Bethania, Maria Rita, Mauro Senise & Gilson Peranzzeta & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aquiaqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] a dignidade de um ser não depende dos talentos recebidos com o nascimento, mas do que ele faz deles, não da natureza e dos dons naturais, mas da liberdade e da vontade da pessoa humana, quaisquer que sejam seus dotes iniciais [...] a dignidade moral de um ser reside não em sua natureza, que é neutra e sem valor algum do ponto de vista estritamente moral, mas na liberdade [...]. Pensamento extraído da obra A revolução do amor: por uma espiritualidade laica (Objetiva, 2012), do filósofo francês Luc Ferry. Veja mais aqui e aqui.

O DIREITO À PREGUIÇA – […] Homens cegos e limitados, quiseram ser mais sábios do que o próprio Deus deles; homens fracos e desprezíveis, quiseram reabilitar aquilo que até mesmo o Deus deles amaldiçoara. Eu, que não professo o credo cristão, nem tenho posição econômica e moral como a deles, recuso-me a admitir as pregações dessa moral religiosa, econômica, livre-pensadora, considerando as terríveis consequências do trabalho na sociedade capitalista [...] Uma estranha loucura dominou as classes operárias das nações onde reina a civilização capitalista. Essa loucura traz como consequência misérias individuais e sociais que há séculos torturam a triste humanidade. Essa loucura é o amor ao trabalho, a paixão moribunda que absorve as forças vitais do indivíduo e de sua prole até o esgotamento [...] A nossa época é, dizem, o século do trabalho; na verdade, é o século da dor, da miséria e da corrupção [...] Tal é a lei inexorável da produção capitalista. Porque, por prestarem atenção às falaciosas palavras dos economistas, os proletários se entregaram de corpo e alma ao vício do trabalho, precipitam toda a sociedade numa dessas crises de superprodução que convulsionam o organismo social [...] embrutecidos pelo dogma do trabalho, não compreendem que é o sobretrabalho que infligiram a si próprios durante o tempo da pretensa prosperidade a causa da sua miséria presente [...] Em vez de aproveitar os momentos de crise para uma distribuição geral de produtos e uma manifestação universal de alegria, os operários, morrendo de fome, vão bater com a cabeça contra as portas da fábrica. Com rostos pálidos e macilentos, corpos emagrecidos, discursos lamentáveis, assediam os fabricantes: [...] dêem-nos trabalho, não é a fome, mas a paixão do trabalho que nos atormenta! E esses miseráveis, que mal têm forças para se manter em pé, vendem doze a catorze horas de trabalho duas vezes mais barato do que quando tinham trabalho durante um certo período. E os filantropos da indústria continuam a aproveitar as crises de desemprego para fabricar mais barato [...] E, no entanto, apesar da superprodução de mercadorias, apesar das falsificações industriais, os operários entulham o mercado, implorando: trabalho! trabalho! [...] Uma vez que o vício do trabalho está diabolicamente encravado no coração dos operários; uma vez que as suas exigências abafam todos os outros instintos da natureza; uma vez que a quantidade de trabalho exigida pela sociedade é forçosamente limitada pelo consumo e pela abundância de matéria-prima, por que razão devorar em seis meses o trabalho de todo o ano? [...]. Trechos extraídos da obra O direito à preguiça (Claridade, 2003), do jornalista, escritor e ativista político Paul Lafargue (1842—1911).

EVANGELHO NA TABA – [...] Enquanto 0 vitral se resignava às suas limitações de vitral, ao chumbo e ao vidro colorido, ele esplendia com toda a força. Mas aos poucos os vitralistas começaram a achar que aquilo era insuficiente e começaram a pintar 0 vidro, começaram a levar apara a arte do vitral a arte da pintura. A partir daí 0 vitral degenera. Isso me levou a uma crença da qual estou firmemente convencido: de que as coisas fulguram, vamos dizer, nas suas limitações. As limitações não são necessariamente uma limitação no sentido corrente, mas uma força. Quer dizer que 0 vitralista era forte enquanto estava limitado e aceitava a sua limitação [...] Um quadro de Rafael, e realmente visto de uma perspectiva humana centralizada, ligada ao que há de perecível no olho humano. Enquanto que num quadro de Picasso, em sua fase cubista, por exemplo, nos vemos a cara do personagem de frente e essa mesma cara com um olho de lado. Neste esforço a gente nota a tentativa de romper com a condição mortal do olho humano, de ver através de um ponto de vista espiritual. O que se aproxima da visão do homem religioso da Idade Media. [...]. Trechos extraídos da obra Evangelho na taba: outros problemas inculturais brasileiros (Summus, 1979), do escritor e dramaturgo Osman Lins (1924-1978). Veja mais aqui.

CINCO POEMAS - I - Meus amigos / quando me dão a mão / sempre deixam outra coisa / presença / olhar / lembrança calor / meus amigos / quando me dão / deixem na minha / a sua mão. II - Eu tão isósceles / Você ângulo / Hipóteses / Sobre o meu tesão / Teses sínteses / Antíteses / Vê bem onde pises / Pode ser meu coração. BEM NO FUNDO - No fundo, no fundo, / bem lá no fundo, / a gente gostaria / de ver nossos problemas / resolvidos por decreto / a partir desta data, / aquela mágoa sem remédio / é considerada nula / e sobre ela — silêncio perpétuo / extinto por lei todo o remorso, / maldito seja quem olhar pra trás, / lá pra trás não há nada, / e nada mais / mas problemas não se resolvem, / problemas têm família grande, / e aos domingos / saem todos a passear / o problema, sua senhora / e outros pequenos probleminhas. RAZÃO DE SER - Escrevo. E pronto. / Escrevo porque preciso, / preciso porque estou tonto. / Ninguém tem nada com isso. / Escrevo porque amanhece, / E as estrelas lá no céu / Lembram letras no papel, / Quando o poema me anoitece. / A aranha tece teias. / O peixe beija e morde o que vê. / Eu escrevo apenas. / Tem que ter por quê? AMAR VOCÊ É COISA DE MINUTOS… - Amar você é coisa de minutos / A morte é menos que teu beijo / Tão bom ser teu que sou / Eu a teus pés derramado / Pouco resta do que fui / De ti depende ser bom ou ruim Serei o que achares conveniente / Serei para ti mais que um cão / Uma sombra que te aquece / Um deus que não esquece / Um servo que não diz não / Morto teu pai serei teu irmão / Direi os versos que quiseres / Esquecerei todas as mulheres / Serei tanto e tudo e todos / Vais ter nojo de eu ser isso / E estarei a teu serviço / Enquanto durar meu corpo / Enquanto me correr nas veias / O rio vermelho que se inflama / Ao ver teu rosto feito tocha / Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha / Sim, eu estarei aqui. Poemas do escritor, critico literário, tradutor e professor Paulo Leminski (1944-1989). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora polonesa Renata Brzozowska.
Veja mais aqui.


VI Congresso Internacional Sesc de Arte/Educação & muito mais na Agenda aqui.
&
Os dias estão assim, o cinema de Rogério Sganzerla & Helena Ignez, o teatro de José Cañas Torregrosa, a música de Roberta Peters & a arte de Fábio R. Mesquita aqui.
Você, procê, docê & nocê: o querer dos quereres além da possessão, a literatura de Marcos Carías Reyes, a arte de J K Chillar & Luciah Lopez aqui.

quinta-feira, abril 20, 2017

NOEL & BOSCO, DRÁCULA DE STOCKER, MARIO CRAVO NETO & BESOURO DOIDO INVENTANDO MODA

A PAIXONITE DO BESOURO DOIDO INVENTANDO MODA - Imagem: Icaro, art by Juan Yanes. - Naquela tarde Robimagaive quase perde o juízo de vez. Quando viu aquela moça linda de morrer, no seu tope, toda jeitosa, toda tuda, saiu do prumo e foi acometido na horinha por uma paixonite agudíssima, daquelas avassaladoras que ficam encruadas no juízo do sujeito, do cabra endoidecer e ser levado pra condenação eterna do sofrimento e não ter mais remédio pro resto da vida. Avexou-se todo, ficou como quem procura canto pra chocar, todo inheto feito quem está com um cotoco no rabo de não poder nem parar quieto em canto que fosse. - Eita, esse tá cá gota! Maior obsessão tomou conta dele de não ter jeito de ficar longe daquela que queria pra mãe dos seus filhos e dona do seu lar: - Avião desse a gente não perde a viagem nunquinha! Oxe, alinhou as ideias e não quis passar em branco. Aproximou-se dela, afinou a goela no pigarreado dos ran-rans aprumados, ajeitou a gola, estufou o peito e caprichou no flerte: deitou pra cima dela a maior lábia, passando a maior cantada. Ela, com a peculiar indiferença das beldades, franziu o cenho e encarou a lata do rapaz: - O senhor está passando bem? Eu lhe conheço, por acaso? Hã? Ah, Procure um médico ou um exorcista, se preferir, pra cuidar do seu delírio. Deu-lhe as costas e saiu na sua, maior rebolado de endoidar até o papa, imagine como ficou o dito cujo. Quando tornou a si, ela já havia sumido. Quem é ela? Onde mora? Depois de dias vagando errante à procura da paixão desesperadora, tomou conhecimento tratar-se de Dalzuíta, a prima da Vera. Aquela? Isso mesmo, rapaz. Minha nossa! Aí ele botou a maior beca: topete no tuim, costeleta caprichada, óculos escuros no pau da venta, camisa quadriculada só atacada no umbigo e deixando à mostra na caixa dos peitos uma volta com um medalhão graúdo, roscofe num pulso, bracelete e pulseira no outro, fivela enorme no cinturão pelo cós e reatas do jeans surrado boca de sino das grandes e montado no maior cavalo de aço, potoque, potoque, potoque. Quando ela apareceu na esquina arrasando quarteirão, o bestão sacudiu o charme xucro e imprimiu marcha firme de chegar perto, bater os calcanhares em continência e pregar os olhos nela, armando xaveco disparatado. Assustada com a chegada inesperada do intruso, ela arregalou os olhos e com ar de desprezo: - Pronto, danou-se tudo! Sai-te! Pra chegar aqui, meu nego, tem que ter grana e possante veloz, sacou? Deu-lhe as costas sacudindo o queixo de nem querer saber. Azuretado, sem saber o que fazer, deu-lhe um aluamento de só passar uns dez dias depois, todo serelepe pra conquistar a moça, agora com o fusquinha pereba todo incrementado, pintura cheia dos garranchos e cores pra rebocar a ferrugem e desgraceira, arrancou os paralamas para adaptar quatro pneus de avião, mandou confeccionar um bigode raçudo pra servir de para-choque, um som de não sei quantos watts de babaca, buzinaço com arroto, debreada com peidos e pipocos, um par de chifres graúdos no capô e um rabo de peixe na traseira que mais parecia carrossel de festa de tão iluminado. Todo pabo, pulou dentro, passou primeira e partiu na fubica pra impressionar aquela que seria a dona do seu coração. Depois de umas voltas pra cima e pra baixo por quase duas semanas sem achar paradeiro, eis que cruza com ela numa esquina, encosta de qualquer jeito e salta pra saudar-lhe na maior gamação. – Meu senhor, não será com qualquer borreia que irá me conquistar, não, viu? Cresça e apareça! De Ferrari pra cima, possante tem que ser voador. Aí ele parou no ar, pulou no mandú e saiu a toda, até quase se foder numa abalroada da porra perto de casa. O homem estava perdido de tudo. Dias e noites seguidas e só se ouvia o martelado do aperreado na maior faina. Ele não havia deixado por menos a dica: pegou um resto duma moto cinquentinha que estava no meio de um monturo de tranqueiras, adaptou ferragens e assento, duas saliências laterais que davam ideia de asas – vôte! –, vestido num blusão negro, luvas, botas de cano longo, um capacete com microfone auricular e um megafone com antena em cima dele e saiu acelerando o ronco pras bandas dela. Quando ela reapareceu, aproximou-se e começou a falar de ninguém entender nada. E ela: - Hem? Será esse o besouro doido? O que se passa com esse louco, hem? Ele apontava pro ponto mais alto da região e mais falava e nada se entendia. Ela abriu os braços como quem entendia patavina, sem saber o que ele estava dizendo, aí ele arretou-se, acelerou a moto, apontou pro morro e zarpou feito quem ia pro tudo ou nada. Ela nem aí, seguiu sua caminhada, quando percebeu meio mundo de gente correndo na direção contrária. Virou-se pra saber do que se tratava e viu o povo falando na maior algazarra: - Vai! Vai! Vai! E ela: - Ah, vai se foder mesmo! Era ele pendurado no bico do morro anunciando que ia pular de lá de cima. Aliás, pra ele mesmo ia era voar; para todos, ele ia mesmo era se lascar. E assim foi. Ele retrocedeu descendo em marcha-ré pra pegar distância, fez carreira acelerando tudo e zum: abriu os braços como quem estivesse voando. Não foi isso que se deu, dali ele despencou na maior queda estuporada. Resultado: foi tanta fratura exposta, costelas partidas, dedos saíram do lugar, pescoço empenado, vértebras soltas, pênis envergado, até a língua o fuleiro quebrou, de não ter jeito nem de pegá-lo pra botar na maca, onde puxasse se soltava, o cúmulo do espragatado. Findou bandagem por todo corpo, gesso nos membros, um horror: mais parecia uma múmia robô. Dalzuíta perguntou ao primeiro que passou: - E aí, o cara morreu? Nada, lascou-se todo, mas tá vivinho da silva. E ela: - Pudera, vaso ruim não quebra. Dele só dava pra ouvir solfejando o Gago Apaixonado de Noel. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

GAGO APAIXONADO
Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago
Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago
Não po-posso com a cru-crueldade da saudade
Que que mal-maldade, vi-vivo sem afago
Tem tem pe-pena deste mo-moribundo
Que que já virou va-va-va-va-ga-gabundo
Só só só só por ter so-so-sofri-frido
Tu tu tu tu tu tu tu tu
Tu tens um co-coração fi-fi-fingido
Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago
Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago
Não po-posso com a cru-crueldade da saudade
Que que mal-maldade, vi-vivo sem afago
Teu teu co-coração me entregaste
De-de-pois-pois de mim tu to-toma-maste
Tu-tua falsi-si-sidade é pro-profunda
Tu tu tu tu tu tu tu tu
Tu vais fi-fi-ficar corcunda!
Gago apaixonado, música do sambista, cantor, compositor, bandolinista e violonista e Noel Rosa (1910-1937), incluída no álbum Dá licença meu senhor (Epic Records, 1995), do cantor, violonista e compositor João Bosco. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais sobre:
As dez vidas e a cabeça roubada, A natureza das coisas de Bernardino Telesio, a música de Joana Holanda, a arte de Kevin Taylor, a pintura de Pedro Américo & Odilon Redon aqui.

E mais:
Dalzuíta: o infortúnio da prima da Vera aqui.
Os pipocos da loucura de Robimagaiver aqui, aqui e aqui.
A paixão avassaladora quando ela é a terrina do amor aqui.
Brincarte do Nitolino, O calor das coisas de Nélida Piñon, a poesia de Augusto dos Anjos, a música de Igor Stravinski, a pintura de Joan Miró, o teatro de Eugène Ionesco, o cinema de Graeme Clifford & Jessica Lange, a arte de Frances Farme, As emoções de Suely Ribella, Papel no Varal & Ricardo Cabús aqui.
Cordel do meio ambiente aqui.
Na avenida Jatiúca, Maceió, O império do efêmero de Gilles Lipovetsky, a História da feiúra de Umberto Eco, o Deserto do real de Slavoj Žižek, Moema, a música de Quinteto Armorial, a poesia de Juareiz Correya, a pintura de Victor Meirelles & Felicien Rops, o cinema de Michael Winterbottom & Anna Louise Friel aqui.
Quando o futuro chega ao presente, Escritos de Michel Philippot, as Fronteiras do Universo de Phillip Pullman, As contantes universais de Gilles Cohen-Tannoudj, a música de Antonín Dvořák & Alisa Weilerstein, a pintura de Willow Bader, a arte de Lorenzo Villa, a fotografia de Katyucia Melo & a poesia de Bárbara Samco aqui.
Mais que tudo o amor, a poesia de Pablo Neruda, o teatro de Antonin Artaud, o pensamento de Pierre Gringore, a música de Ana Rucner, a fotografia de Daniel Ilinca, Mariza Lourenço & Luciah Lopez aqui.
Brincando com a garotada, Lagoa Manguaba, a música de Maria Josephina Mignone, a poesia de & William Blake & Joana de Menezes, a literatura de Luiz Antonio de Assis Brasil, a pintura de Thomas Saliot & Tempo de amar de Genésio Cavalcanti aqui.
Doro: querem me matar, O bom dia para nascer de Otto Lara Resende, a comunicação interpessoal de John Powell, a poesia de Gilberto Mendonça Teles, o teatro de Patrícia Jordá, a arte de Carmen Tyrrell, a música de Mona Gadelha, a Pena & Poesia de Luiz de Aquino Alves Neto aqui.
Andarilho das manhãs e luares, O Homo ludens de Johan Huizinga, Todas as coisas de Quim Monzó, a psicanálise de Françoise Dolto, a música de Gustav Holst, a pintura de Ludwig Munthe, a arte de Elena Esina & Tom Zine aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

DRÁCULA, DE BRAM STOCKER
[...] Acreditas no destino? Que até os poderes do tempo podem ser alterados com um único propósito? Que o mais afortunado dos homens a caminhar neste planeta é aquele que encontra… o amor verdadeiro? [...] O amor é mais forte que a morte. [...].
Trechos do romance Drácula (Zahar, 2010), do escritor irlandês Bram Stocker (1847-1912), Veja mais aquiaqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo, escultor e desenhista Mario Cravo Neto (1947-2009).
Veja mais aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.
 

quinta-feira, junho 25, 2009

LUCIAN BLAGA, OLIVIER CADIOT, BAJADO, NOEL ROSA, ARISTÓTELES, THOREAU, TCHAIKOVSKY, NOVALIS, AGNES POCKELS & CORDEL DE ZÉ DA LUZ


A arte do artista plástico, chargista, letreirista, cartazista e muralista Bajado (Euclides Francisco Amâncio – 1912-1996). Veja mais aqui.

SE NÃO HOUVESSE ESSA TERIA DE INVENTAR OUTRAUMA: DA TURMA DO ACHISMO – Tem gente que acha de tudo! Tem gente que acha que a Terra é plana, o mundo é uma droga, a vida é uma porqueira, que o certo está errado e vice-versa, tem até quem ache carteira endinheirada, ora! (E quem devolva com tudo dentro, também, e o que é uma exceção digna de cadeia nacional, pois no Brasil o que deveria ser uma regra, já viu, né?). Tem também os que nasceram com o cu pra Lua! Haja sorte, cagado! Só eu que não acho nada, como naquela do Noel Rosa: Quem acha vive se perdendo. E eu, perdido e meio. Por isso vou cantarolando a Filosofia dele: Quanto a você, da aristocracia, que tem dinheiro, mas não compra alegria, há de viver eternamente sendo escrava dessa gente que cultiva hipocrisia. E vamos nessa! DUAS: SERÁ MESMO?– Aprendi com Aristóteles que: O homem é um animal político. O objeto principal da política é criar a amizade entre membros da cidade. Não era isso, desde menino, que eu via na prática: era um desancando o outro, verdadeira malhação do Judas e o povo em polvorosa: apoiado! Tive que aprofundar e o filósofo grego me esclareceu: A politica não deveria ser a arte de dominar, mas sim a arte de fazer justiça. Ah, tá, deveria. Mas nem na faculdade de Direito a gente sai sabendo o que é direito ou justiça, só o menor prejuízo. Foi aí que Thoreau mandou ver: Os homens hão-de aprender que a política não é a moral e que se ocupa apenas do que é oportuno. Nada é tão útil ao homem como a resolução de não ter pressa. Nunca é tarde para abrirmos mão dos nossos preconceitos. Ah, sim, sábias palavras. TRÊS: VOU ENTRE OS PERDIDOS MESMO – Vou entre os que nunca entenderam certas coisas, avalie. Não é porque não acerto uma e me arrebento em tudo que determino empenho e resolução, que não vou sair por aí matando cachorro a grito, esculhambando a mãe do guarda, nem dando nó em pingo d’água, que nem habilidade para isso eu tenho. Só sei dar mesmo murro em ponta de faca, ao que parece. Mas arriado ao desconsolo, guardo aquela do Tchaikovsky: O que preciso é acreditar em mim novamente - pois minha fé foi grandemente comprometida; parece-me que meu papel acabou. Nada. Também sou filho de Deus, né? Mesmo pau que nasceu torto, anjo de asa quebrada, vou tentando dar um jeito de aprumar na vida! Vamos nessa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.


DITOS & DESDITOS - Cada ser humano é uma pequena sociedade. Nunca nos compreendemos completamente, mas podemos e poderemos fazer muito melhor do que compreendermo-nos. Só há um templo no mundo e é o corpo humano. Nada é mais sagrado que esta forma sublime. Inclinar-se diante de um homem é fazer homenagem a esta revelação na carne. Toca-se o céu quando se toca um corpo humano. Somos sozinhos com tudo o que amamos. O amor é a meta infinita da história do mundo. Para onde vamos? Sempre para casa. Um herói é aquele que sabe como se aguentar um minuto mais. A poesia cura as feridas infligidas pela razão. O pensamento do poeta alemão Novalis (1772-1801). Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU: O absoluto é o ponto indiferente de todos os pólos, além da existência e da não existência, além do real e do irreal. Filosofar significa tentar responder através de meios prematuros a perguntas que preocupam as crianças. Pensamento do poeta, dramaturgo e filósofo romeno Lucian Blaga (1895-1961), prêmio Nobel de 1956.

EFEITO MATILDA & A ÁGUA – A pioneira química alemã Agnes Pockels (1862-1935), desenvolveu ao longo de sua trajetória científica um conjunto de observações sobre tensão superficial da água. Ela enviou suas anotações para o colega inglês, Lorde Rayleigh, que desenvolveu a teoria sobre este tema e publicou individualmente o primeiro artigo, apesar de ter lido o trabalho de Agnes antes. Mesmo assim, o trabalho dela foi fundamental para estabelecer a disciplina moderna conhecida como ciência da superfície, que descreve as propriedades de superfícies líquidas e sólidas, descobrindo a influência das impurezas na tensão superficial dos líquidos, sem nunca ter recebido uma nomeação formal. Veja mais aqui, aqui e aqui.

TRÊS POEMASRESUMO: O riacho rega o prado com suas águas / calmo e transparente / Crianças estudiosas aprendem suas lições / Soldado ferido por estilhaços / Os prisioneiros / aluguel trocado pelos dois exércitos / Pierre recebeu um livro magnífico de seu padrinho / - A casa está sendo construída. - Tudo esclarece. CAPÍTULO: Diga-me qual livro você está lendo = / Que livro você está lendo? Diga-me. / Os jardineiros cultivam flores, / podar árvores e manter os caminhos do parque / Eu fiz um livro; Eu fiz uma mesa; Eu fiz um projeto / - pergunto se / você fala seriamente e por que veio? - / Diga-me se é verdade que você a segura contra mim. - / eu poderia saber / se você viria? - Eu não sei para onde você está indo / - Mesmo se você (by- / tiro) eu ficaria. - Mesmo se você (sair), eu vou ficar. EPÍLOGO: o céu é azul; a / semana; o céu é azul; um mês: o céu é azul; um ano / inteiro: / Ele olhou para o céu e o céu estava azul. Poemas do escritor, dramaturgo e tradutor francês Olivier Cadiot.


ZÉ DA LUZ - Zé da Luz, poeta, das terras nordestinas, nasceu em 29 de março de 1904 em Itabaiana, região agreste da Paraíba e faleceu no Rio de Janeiro em 12 de fevereiro de 1965. Veio ao mundo como Severino de Andrade Silva e recebeu a alcunha de Zé da Luz. Nome de guerra e poesia, nome dado pela terra aos que nascem Josés e, também, aos Severinos, que se não for Biu é seu Zé.
Sua poesia é dita nas feiras, nas porteiras, na beirada das estradas, nas ruas e manguezais. Perdeu-se do seu autor pois em livro não se encontra. Se encontra na boca do povo, de quem tomou emprestado a voz, para dividi-la em forma de rima e verso.
Seus poemas têm a cor do nordeste, o cheiro do nordeste, o sabor do nordeste. Às vezes trágico, às vezes humorado, às vezes safado. Quase sempre telúrico como a luz do sol do agreste. (os editores do Blog)
Sua poesia é ímpar. Algumas pérolas:


AS FLÔ DE PUXINANÃ
(Paródia de As "Flô de Gerematáia" de Napoleão Menezes)

Três muié ou três irmã,
três cachôrra da mulesta,
eu vi num dia de festa,
no lugar Puxinanã.
A mais véia, a mais ribusta
era mermo uma tentação!
mimosa flô do sertão
que o povo chamava Ogusta.
A segunda, a Guléimina,
tinha uns ói qui ô! mardição!
Matava quarqué critão
os oiá déssa minina.
Os ói dela paricia
duas istrêla tremendo,
se apagando e se acendendo
em noite de ventania.
A tercêra, era Maroca.
Cum um cóipo muito má feito.
Mas porém, tinha nos peito
dois cuscús de mandioca.
Dois cuscús, qui, prú capricho,
quando ela passou pru eu,
minhas venta se acendeu
cum o chêro vindo dos bicho.
Eu inté, me atrapaiava,
sem sabê das três irmã
qui ei vi im Puxinanã,
qual era a qui mi agradava.
Inscuiendo a minha cruz
prá sair desse imbaraço,
desejei, morrê nos braços,
da dona dos dois cuscús!


Um dia falaram para o escritor Zé da Luz que os textos dele, tinham muitos problemas técnicos verbais, ortográficos, enfim...

Diante desse comentário ridículo ele escreveu "Ai! se sêsse1..." poesia musicada pela banda Cordel do Fogo Encantado:


Ai! Se sêsse!...

Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nois dois ficasse
Tarvês que nois dois caisse
E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse


Sua poesia às vezes é triste, forte, trágica e interminável...


Confissão de Cabôco


Seu duotô, sou criminoso.
Sou criminoso de morte.
Tou aqui pra mim intregá.
Voimicê fique sabendo:
– Quando a muié traz a sorte
De atraiçoá o isposo
Só presta para se matá.

Nunca pensei, seu doutô
Qui a mão nêga do distino,
Merguiasse as minhas mão
No sangue dos assarcino!

Vô li pidí um favô
Ante de vossamercê
Mim butá daqui pra fora:
– É a licença do doutô
Pr’eu li contá minha histora.

Sinhô dotô delegado,
Digo a vossa sinhuria
Qui inté onte fui casado
Cum a muié qui im vida
Se chamô ROSA MARIA.

Faz dez mês qui se gostemo,
Faz oito qui fumo noivo
Faz sete qui nós casêmo.

Nós casêmo e nós vivia
Cuma pobre, é verdade,
Mas a gente se sentia
Rico de filicidade!

Pras banda qui nós morava,
No lugá Chã da Cutia,
Morava tombém um cabra
Chamado Chico Faria.

Esse cabra, antigamente,
Tinha gostado de Rosa,
Chegaro, inté a sê noivo,
Mas num fizero a “introza”
Do casamento, prumode
Mané Uréia de bode,
Qui era padrim de Maria
Tê dismanchado essa prosa.

Entoce, o Chico Faria,
Adispois qui nós casêmo,
In cunversa, as vez dizia,
Qui ainda mi dava fim
Pra se casá cum Maria.

Dessa coisa eu sabia,
Mas nunca dei importança.

Tinha toda cunfiança
Na muié qui eu tanto amava,
Ou mais mió, adorava...
Cum toda a minha sustança!

Dispois disso, o meu custume
Era vivê trabaiando
Sem da muié tê ciume.

A muié pru sua vez
Nunca me deu cabimento
Deu pensá qui ela fizesse
Um dia um farcejamento.

Mas, seu doutô, tome tento
No resto da minha histora,
Qui o ruim chegô agora:

Se não me farta a mimora,
Já faz assim uns três mêis,
Qui o cabra, Chico Faria,
Todo prosa, todo ancho,
Quage sempre, mais das vêz,
Avistava o meu rancho.

Puralí, discunfiado
Como quem qué e não qué,
Eu fui vendo qui o marvado
Tentava a minha muié.

Ou tentação ou engano,
Eu fui vendo a coisa feia!
Pru derradêro eu já tava
C’a mosca detrás da uréia.

Os tempo foi se passando
E o meu arriceiamento
Cada vez ia omentano.

Seu dotô, vá iscutano:

Onte, já de tardezinha
O meu cumpade, Quinca Arruda,
Mi chamô pra nós dança
Num samba – lá na Varginha,
Na casa do mestre Duda.

Mestre Duda é um cabôco,
Um tocado de premêra.
É o imboladô de côco
Mió daquela rebêra.

Entonce Rosa Maria,
Sempre gostou de samba,
Mas, porém, de tardezinha
Me disse discunfiada,
Qui pru samba ela não ia,
Qui tava munto infadada,
Percisava se deita...

Eu fiquei discunfiado
Cum a preposta da muié!

Dispois qui tomei café,
Cuage puro sem mistura,
Cum a faca na cintura
Fui pru samba, fui sambá.

Cheguei no samba, dotô.
Repare agora, o sinhô,
Quem era qui tava lá?

O cabra Chico Faria.
Qui quano foi me avistando,
Foi logo mi preguntando:
– Cadê siá dona Maria,
Num veio não, pra dançá?

– Não sinhô. Ficô im casa.
Pru cabôco arrispondí.

Senti, entonce uma brasa
Queimano meu coração,
Nunca mais pude tirá
As palavra desse cabra
Da minha maginação.

Perdí o gosto da festa
E dançá num pude não.

O cabra, pru sua vez
Num dançava, seu doutô.
De vez im quando me oiva
Cum um oiá de traidô.

Meia noite, mais ou meno,
Se dispidino do povo
Disse: – Adeus, qui eu já vô.

Quando ele se arritirô,
Eu tombem me arritirei
Atraiz dele, sim sinhô.
Ele na frente, eu atrais.
Se o cabra andava ligêro,
Eu andava munto mais!

Noite iscura qui nem breu!

Nem eu avistava o cabra,
Nem o cabra via eu!

Sempre andando, sempre andando.
Ele na frente, eu atrais.

Já nem se iscutava mais
A voz do fole tocando
Na casa do mestre Duda!

A noite tava mais preta
Qui a cunciênça de Judá!

Sempre andando, sempre andando.
Eu fui vendo, seu doutô,
Qui o marvado ia tumando
Direção da minha casa!

Minha casa!... Sim sinhô!

Já pertinho, no terrero
Eu mim iscundí pru detraiz
De um pé de trapiazêro.

Abaixadim, iscundido,
Prendi a suspiração,
Abri os óio, os ouvido,
Pra mió vê e ouvi
Qua era a sua intenção.

Seu doutô, repare bem:

O cabra oiando pra traiz,
Do mermo jeito, qui faiz
Um ladrão pra vê arguém,
Num tendo visto ninguém,
Na minha porta bateu!

De lá de dentro uma voiz
Bem baixim arrispondeu...

Ele entonce, cá de fora:

– Quem ta bateno sou eu!

De repente abriu-se a porta!

Aí seu doutô, nessa hora
A isperança tava morta,
Tava morto o meu amô...

No iscuro uma voiz falô:

– Taqui, seu Chico, essa carta,
Qui a tempo tinha iscrivido
Pra mandá pra voismicê.
Pru favô num leia agora,
Vá simbora, vá simbora,
Qui quando chegá im casa
Tem munto tempo pra lê.

Quando minhas oiça ouviu,
As palavra qui Maria
Dizia pru disgraçado,
Eu fiquei amalucado,
Fiquei quage cuma loco,
Ou mio, cumo um cabôco
Quando ta chêi de isprito!

Dum sarto, cumo um cabrito,
Eu tava nos pés do cabra
E sem querer dei um grito:

– Miserave! E arrastei
Minha faca da cintura.

Naquela hora dotô,
Eu vi o Chico Faria,
Na bêra da sipurtura!

Mas o cabra têve sorte.

Sempre nessas circunstança
Os home foge da morte.

Correu o cabra, dotô
Tão vexado, qui dêxou
A carta caí no chão!

Dei de garra do papé,
O portadô da traição!

Machuquei nas minha mão,
A honra, douto, a honra
Daquela farsa muié!

Dispois oiando pra carta
Tive pena, pode crer,
De num tê prindido a lê.
Nas letra alí iscrivida
O qui dizia Maria
Pru marvado traidô.

Tive pena, sim sinhô.
Mas, qui haverá de fazê
Se eu nunca prindí a lê?

Maria mi atraiçuô!

Essa muié qui um dia,
Juêiada nos pé do artá
Jurou im nome de Deus
Qui inquanto tivesse vida,
Haverá de mim honrá
E mim amá cum todo amo.

Cum perdão do seu doutô.

Quando eu vi a miserave
Na iscurideza da noite
Dos meu oio se iscondê
Sem dêxá nem sombra inté
Entrei pra dentro de casa
Pra mi vingá da muié.

Douto, qui hora minguada!
Maria tava ajuêiada,
Chorando, cum as mão posta
Cumo quem faz oração.
Oiando pra eu pedia,
Pelo cali, pela osta,
Pru Jesus crucificado,
Pelo amo qui eu li amava
Qui num fizesse isso não.

Eu tava, doutô, eu tava
Cego de raiva e paixão.

Sem dizê uma palavra,
Agarrei nas suas mão,
Levantei ela pra riba
E interrei inté o cabo,
O ferro da parnaíba
Pru riba do coração!

Sarvei a honra, doutô,
Sarvei a honra, apois não!

Dispois qui vi a Maria
Caí sem vida no chão,
Vim fala cum vosmicê,
Vim cunfessá o meu crime
E mim intregá as prisão.

Se o sinhô num acredita
Se eu sô criminoso ou não,
Tá aqui a faca assarcina
E o sangue nas minhas mão.

Cumo prova da traição,
Tá aqui a carta, doutô.

Li peço um grande favô:

Ante de vossa-sinhuria
Mi mandá lá para prisão
Me lêia aqui essa carta
Pr’eu sabê cumo Maria
Perparava essa trição!

A CARTA

“Seu Chico:

Chã da Cutia.

Digo a vossa senhoria
Que só lhe escrevo essa carta
Pru senhor ficar sabendo
Que eu não sou a mulher
Que o senhor tá entendendo.

Se o senhor continuar
Com os seus disbiques atrevidos
O jeito que tem é contar
Tudo, tudo a meu marido.

O senhor fique sabendo
Que com seu discaramento,
Não faz nunca eu quebrar
O sagrado juramento
Que eu jurei nos pés do altar,
No dia do casamento.

Se o senhor é inxirido,
Encontrou u’a mulher forte,
O nome do meu marido
Eu honro até minha morte!

Sou de vossa senhoria,

Sua criada.

MARIA.”

– Doutô! Doutô mi arresponda
O qui é qui eu tô ouvindo?
Vosmicê leu a carta,
Ou num leu, ta mi inludindo?

– Doutô! Meu Deus! Seu doutô,
Maria tava inucente?
Me arresponda pru favo!

Inocente! Sim, senhor!

Matei Maria inucente!

Pru que, seu doutô, pru que?

Matei Maria somente
Pruque num aprendi a lê!

Infiliz de quem num leu
Uma carta de ABC.

Magine agora o doutô,
Quanto é grande o meu sofrê!

Sou duas veiz criminoso,
Qui castigo, seu doutô!

Qui mizera! Qui horrô!
Qui crime num sabê lê!


Pesquisa: Gonzaga Andrade. Fontes pesquisadas: O Porteiro do Portal, Interpoética, Revista Agulha, Escafandro.Org e Gernando Dannemann. Ccolaboração da Ana Cristina Cavalcanti Tinôco.  Veja mais Zé da Luz aqui e aqui.



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