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terça-feira, janeiro 30, 2018

TAGORE, EMILY DICKINSON, MAFFESOLI, RUBEM ALVES, SILVA MELO, JOÃO BOSCO, NAHUI OLLIN, JÚLIA BOSCO & RAGÚ

VARIAÇÕES SOBRE UM TEMA QUALQUER - Imagem: arte da pintora e poeta mexicana Nahui Ollin (Carmen Mondragón, 1893-1978). – A chuva esfria a manhã e eu desperto a pensar o sentido da vida humana diante do noticiário às voltas com o lucrativo e o útil, as variáveis econômicas e as decisões políticas. Ah, quantas manchetes, nada mais chato e a me deixar encolhido sob as cobertas. Cá comigo, coisas de quem joga bem a boca de forno e se valem pergíveis pela praticidade do toma lá dá cá, jogos de contas, logro e usura, malogro e embustes, nada mais, círculo visioso de ideias mortas no tempo, como força de lei e não me dizem mais nada, repetições a abusar da tolerância. Tudo é muito frio, meu coração inquieto, é domingo. Ouço o choro das águas já pela tarde chuvosa de janeiro, enquanto vozes e pés molhados pela rua ecoam a fita batida, do ouvido pra língua, a mesma ladainha duma saparia. Ah, não, já passou e ninguém se deu conta, pleno agora com efeito no passado mais remoto, não pode ser, não dá mais. É como se me dissesse do futuro agora e fosse um dialeto a significar saudade de ontem, como aquela paixão arrebatadora da adolescência tida por perene, como aquela idolatria por demais abjurada, ou aquela moda extravagante que ficou bufenta, aqueles arroubos que viraram arrependimento, aquela euforia nas fotos desbotadas, aquele prazer de ápice nem lembrável. Anoitece e revejo a estrela da manhã que mergulhou nas profundezas do mar e ressuscita agora a me dá a sensação de que é outra, sendo ela a mesma que vi quase cedo, eu reconheço e fico feliz na minha solidão. Isso ocorre enquanto contratos celebrados são implantados atravessando o tempo na compensação dos créditos para girar a roda da fortuna, dos valores e papéis, dos ganhos e especulações, e eu aqui a recolher do mel esborrado da abelha tão saboroso pro gosto, do leite que jorra do seio materno e compartilhado pra quem dele necessita, e sou taça cheia que se esvazia e torna a encher e secar, enchida e esvaziada tantas e muitas vezes com minha sede e fome. Não entendo mais nada das calculadoras nas estratégias das fortunas, títulos e rubricas que vão daqui para ali do enriquecimento, a festa da acumulação e do consumo, porque sou um tolo no exercício da loucura pelas encruzilhadas do desconhecido a provar o absurdo do mundo, como quem encontra a sabedoria perdida de brincar com o que não existe. Sou sem gravata, o cinto frouxo segura as calças nas camisas folgadas e me dou o prazer de sonhar por ideias muitas, até as desconexas, a hora da vez senão agora, outra ao desencarnar para reencarnar porque a vida é outra do nada, enquanto eu danço e a deusa comigo no salto para o vazio, a ousadia de sonhar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com o cantor, violonista e compositor João Bosco: Obrigado, gente! & Galos de Briga; a cantora e compositora Júlia Bosco: Dance com o inimigo, Pra gozar & Acredite no amor; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAÉ preciso criar um laboratório de ideias focado no imaginário e uma audácia de pensamento para preencher, aos poucos, o fosso que existe entre os que têm a responsabilidade de agir sobre a sociedade e aqueles que simplesmente a vivem. Pensamento do sociólogo francês Michel Maffesoli. Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU: O segredo maior da vida, do sucesso, da felicidade, está no indivíduo atuar, viver, agir de acordo com as tendências íntimas do seu ser, de executar a tarefa para a qual tem verdadeira vocação. Pensamento do ensaísta, médico e professor Antônio da Silva Melo (1886- 1973).

A ALEGRIA DE ENSINAR – [...] a alegria de ser professor, pois o sofrimento de se ser um professor é semelhante ao sofrimento das dores do parto: a mãe o aceita e logo dele se esquece, pela alegria de dar à luz um filho. [...] Os técnicos em educação desenvolveram métodos de avaliar a aprendizagem e, a partir dos seus resultados, classificam os alunos. Mas ninguém jamais pensou avaliar a alegria dos estudantes – mesmo porque não há métodos objetivos para tal. Porqie a alegria é uma condição interior, uma experiência de riqueza e de liberdade de pensamentos e sentimentos. [...] A verdade se encontra no avesso das coisas [...]. O absurdo é o avesso do mundo. [...]. aquilo por que nossas crianças e jovens são forçados a passar, em nome da educação, me horroriza. [...] As crianças são ensinadas. Aprendem bem. Tão bem que se tornam incapazes de pensar coisas diferentes. Tornam-se incapazes de dizer o diferente. Se existe uma forma certa de pensar as coisas e de fazer as coisas, por que se dar ao trabalho de se meter por caminhos não-explorados? Basta repetir aquilo que a tradição sedimentou e que a escola ensinou. O saber sedimentado nos poupa dos riscos da aventura de pensar. [...] É como nos catecismos religiosos: o mestre diz qual é a perguntar e qual é a resposta certa. O aluno é aprovado quando repete a resposta que o professor ensinou. Pois não é isto que são os vestibulares? Ao final existe o gabarito: o conjunto de respostas certas. Claro que há respostas certas e erradas. O equivoco está em se ensinar ao aluno que é disto que a ciência, o saber, a vida, são feitos. E, com isto, ao aprender as respostas certas, os alunos desaprendem a arte de se aventurar e de errar, sem saber que, para uma resposta certa, milhares de tentativas erradas devem ser feitas. Espero que haverá um dia em que os alunos serão avaliados também pela ousadia de seus voos! [...] Acho que a educação frequentemente cria antas: pessoas que não se atrevem a sair das trilhas aprendidas por medo da onça. [...]. Feitiço é quando uma palavra entra no corpo e o transforma. [...]. Educação é isto: o processo pelo qual os nossos corpos vão ficando iguas às palavras que nos ensinam. Eu não sou eu: eu sou as palavras que os outros plantaram em mim. [...] Meu corpo é um corpo enfeitiçado: porque o meu corpo aprendeu as palavras que lhe foram ditas, ele se esqueceu de outras que, agora permanecem mal... ditas... [...]. A gente fica poeta quando olha para uma coisa e vê outra. É isto que tem o nome de metáfora. [...] E a sociedade não tolera a inutilidade. Tudo tem de ser transformado em lucro. [...] Todas estão transformadas numa pasta homogênea. Estão preparadas para se tornar socialmente úteis. [...] Pois formatura é isto: quando todos ficam iguais, moldados pela mesmo fôrma. Hoje, quando escrevo, os jovens estão indo para os vestibulares. O moedor foi ligado. Dentro de alguns anos estarão formados. Serão profissionais. E o que é um profissional se não um corpo que sonhava e que foi transformado em ferramenta? As ferramentas são úteis. Necessárias. Mas – que pena – não sabem sonhar... [...]. O corpo é o lugar fantástico onde mora, adormecido, um universo inteiro. Como na terra moram adormecidos os campos e suas mil formas de beleza, e também as monótonas e previsíveis monoculturas; como na lagarta mora adormecida uma borboleta [...] Tudo adormecido... O que vai acordar é aquilo que a Palavra vai chamar. As Palavras são entidades mágica, potências feiticeiras, poderes brucos que despertam os mundos que jazem dentro dos nossos corpos, num estado de hibernação, como sonhos. Nossos corpos são feitos de palavras... [...]. A este processo mágico pelo qual a Palavra desperta os mundos adormecidos se dá o nome de educação. [...]. Pensar é voar. Voar com o pensamento é sonhar. [...] Por isto que os adultos práticos e sérios não gostam de brincar. [...] Porque o brinquedo, sem produzir qualquer utilidade, produz alegria. Felicidade é brincar. E sabem por quê? Porque no brinquedo nos encontramos com aquilo que amamos. No brinquedo o corpo faz amor com objetos do seu desejo. [...]. As professoras me ensinaram que o Brasil estava destinado a um futuro grandioso porque as suas terras estavam cheias de riquezas: ferro, ouro, diamantes, florestas e coisas semelhantes. Ensinaram errado. O que me disseram equivale a predizer que um homem será grande pintor por ser dono de uma loja de tintas. Mas o que faz um quadro não é a tinta: são as ideias que moram na cabeça do pintor. São as ideias dançantes na cabeça que fazem as tintas danças sobre a tela. Por isso, sendo um país tão rico, somos um povo tão pobre. Somos pobres de ideias. Não sabemos pensar. Nisto nos parecemos com os dinossauros, que tinham excesso de massa muscular e cérebros de galinha. [...] É com as ideias que o mundo é feito. [...]. Trechos extraídos da obra A alegria de ensinar (Ars Poética,1994), do psicanalista, educador, teólogo e escritor Rubem Alves (1933-2014). Veja mais aqui, aqui e aqui.

DOIS AMORES E UM RIO - [...] E quando chegou o momento de cortejar a jovem esposa com palavras bonitas, de pôr a coisa em prática, Ramesh descobriu um tanto assustado que os compêndios de Direito nada lhe haviam ensinado a esse respeito. Mas acabou tudo dando certo, como manda o figurino, e Ramesh aprendeu uma lição: erudição é uma coisa, e amar e fazer amor outra bem distinta, e nem sempre as duas combinam. E depois, quem neste mundo resistiria, fosse ele bacharel em direito ou não, a uma criaturinha tão cheia de graça, tão cativante e charmosa como Susila? [...] Como o pintor que engasta no fundo do coração a imagem da bem-amada, como o poeta que canta em versos unicamente a mulher que adora (e ambos empregam todo o seu talento e toda a sua devoção nessa obra) assim se sentia Ramesh. Só faltava mandar construir um altar e ai colocar sua jovem e graciosa companheira, que passar a ser a única razão de sua existência, a doce alegria do seu coração e prosperidade do seu lar. [...]. Trechos extraídos da obra Dois amores e um rio: o naufrágio (Mundo Inteiro, 1975), do poeta e músico indiano, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, Rabindranath Tagore (1861-1941). Veja mais aqui.

DOIS POEMASA ALMA ESCOLHE A PROPRIA COMPANHIA: Sempre a alma escolhe a companhia / e fecha a porta / pois a divina maioria / não mais lhe importa. / Imóvel, de sege a parelha / ao portão baixo / imóvel e o imperador se ajoelja / sobre o capacho. / Sei que escolheu na Legião / entre a qual medra / fechou a valva da atenção / como uma pedra. TOMEI A FUNDA NA MÃO: Tomei a funda na mão / parti contra mundo e gente, / Davi mais armado – eu não - / eu duas vezes valente. / Lancei a pedra – caí. / Foi tudo o que aconteceu. / Seria maior Davi / ou muito menor sou eu? Poemas da poeta estadunidense Emily Dickinson (1830-1886). Veja mais aqui.

RAGÚ
Capas das edições da revista pernambuca de HQ, Ragú, editada por Christiano Mascaro e João Lin. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais:
Os dois mundos de quem vive de um lado só, a arte de Angelo Agostini, a música de Juliette Herlin, a arte de Hannah Wilke, a pintura de Fernando Botero & Nik Helbig aqui.
A mulher na Idade Média, a música de Johann Joachim Quantz & Verena Fischer, a literatura de Naoki Higashida & Teolinda Gersão, Fritz Lang, a pintura de Georges Rouault & Siron Franco, Marie Dumesnil, Anne Baxter, Benita Prieto, Maisa Vibancos, A mulher & a escravidão aqui.
Mahatma Gandhi, Michelangelo Antonioni & Vanessa Redgrave, Educação, Carlos Zéfiro, Phil Collins & Genesis, Jennifer R. Hale & Maria Luísa Mendonça aqui.
Marquinhos Cabral & Poetas do Brasil aqui.
Lev Vigotsky, Jean Piaget, Ausubel & Skinner aqui.
Responsabilidade ambiental aqui.
Teibei, a batida aqui.
Decameron, João Albrecht & Jiddu Saldanha aqui.
Riacho Salgadinho & a arte de Eliezer Setton, Zé Barros, Naldinho, Wilson Miranda & WebRadio Maceió aqui.
Hermilo Borba Filho & Sonia Van Dijck, Teoria da Literatura, Solange Palatinik, Constituição, Psicologia, Dialogicidade & Representações sociais aqui.
Nietzsche e a música, As raízes árabes na tradição poético-musical do sertão nordestino, História da Música de Otto Maria Carpeaux, O carnaval carioca através da música & a História da Música Popular de José Ramos Tinhorão aqui.
A vontade & a arte de Amanda Garruth, Deborah Rosa, Luciana Soler, Bete Sá, Vanessa Morais & Cantora Sol aqui.
O teatro de Augusto Boal aqui.
Poetas do Brasil: Carlos Gildemar Pontes, Sandra Fayad, Paulo Profeta, Gisele Lemos/Diana Balis, Luís Inácio Araújo, Helena Cristina Buarque & Rita Shimada Coelho aqui.
Afetividade & a arte de Lília Diniz, Lucinha Guerra, Thathi, Ezra Mattivi, Jualiana Sinimbu & Anna Ratto aqui.
Quadrinhos, a nona arte aqui.
O catecismo de Carlos Zéfiro aqui.
Doutor Zé Gulu aqui, aqui e aqui.
O lamentável expediente da guerra aqui.
Poetas do Brasil aqui, aqui e aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
&
Agenda de Eventos 35 anos de arte cidadã aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora e poeta mexicana Nahui Ollin (Carmen Mondragón, 1893-1978).
Veja mais aqui.
 

quarta-feira, dezembro 20, 2017

VILLON, RIBEIRO COUTO, BADIOU, JOÃO BOSCO, VOGLER, RUTH BERNARD, OLGA KRIMON, MORELENBAUM, HISTÓRIA & VIOLÊNCIA

HÁ DOIS ANOS FLORESCIA O AMOR – Imagem: Indian Corn, da pintora ucraniana Olga Krimon. - Há dois anos, olhar na escuridão imensa, nenhuma porta aberta, o andar incerto, o sentimento à cata de arrimo, entre simulacros caleisdoscópicos de quem desceu ao inferno, e labaredas nas águas até o pescoço. O que sobrou de mim, um espantalho indômito com todos os fantasmas do passado, remoendo as vísceras do coração despedaçado, roto, desalentado. Um nada de mim restava a se dissolver, como quem a se desmanchar, a vida aos pedaços. Ao longe, quase cego nas últimas, um aceno rutilante e breve, e eu ressurgia das cinzas, fênix dilacerado diante de refulgente emanação. Entreguei-me às suas mãos e só então as altas ondas do mar revolto se apaziguaram, vendaval das nuvens delineando as correntes pro meu caminho perdido. Sabia lá mais o que seria a vida, esquinas desertas no descampado das ruas desaparecidas, nenhuma noção pra quem nada além ao rés do chão, no fundo do poço. E as suas mãos me deram a direção no horizonte, segui seus passos, vivi seu riso de Sol, seu jeito menina de quem me deu outra infância no quintal jamais revisto, a recomeçar do zero, a reaprender do voo, folha seca timidamente revitalizada. Das mãos seu corpo pro meu abrigo, terra firme pra me segurar em pé e retomar o prumo. Não sei quantas noites e dias, embalado por sua voz além dos confins, quantas tardes de sonho no seu jeito abissal, quantas manhãs revividas de desacordado que teimava em desfalecer na solidão, até salvar-me com sua inteira e imprevista chegada, fúria de naja pra me envolver como se não houvesse tanto tempo passado nas errâncias nem depois de esperas em claro e a vida há dois anos insistindo em se revelar mais que a plenitude de tudo. Há dois anos eu me encontrei como quem nem mais sabia de si nem de nada, há dois que eu não tinha nem onde cair morto, agora em suas mãos, carne que refaz a minha, imantado por seus olhos de luz. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja também abaixo e mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o show ao vivo do cantor, compositor e violonista João Bosco & Tuscia in Jazz com Paula & Jaques Morelenbaum Trio. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] o amor é irredutível a toda lei. Não há a lei do amor. [...] Há um trabalho do amor, e não apenas um milagre. É preciso estar em movimento, é preciso ter cuidado, é preciso se reunir, consigo mesmo e com o outro. É preciso pensar, agir, transformar. E então, sim, como a recompensa imanente do labor, há a felicidade. [...]. Trechos extraídos da obra Elogio ao amor (Martins Fontes, 2013), do filósofo, dramaturgo e novelista francês Alain Badiou. Veja mais aqui e aqui.

A VIOLÊNCIA –[...] a oposição entre pessoas envolvidas, sua expressão em termos de luta e solução por meio da força, irrompe de relações cujo conteúdo de hostilidade e sentido de ruptura se organizam de momento, sem que um estado anterior de tensãotenha contribuído. A agressão ou defesa à mão armada, da qual resultam não raro ferimentos graves ou morte, aparecem com freqüência entre pessoas que mantêm relações amistosas e irrompem no curso dessas relações. [...] Nestas existências inteiramente pobres, incipientes no domínio da natureza e rudimentares nos ajustamentos humanos, pouco se propõe ao entendimento humano, senão a sua própria pessoa. É ela que sobressai diretamente, solidária e despojada, por sobre a natureza; ela apenas constitui o sistema de referência através do qual, o sujeito consegue perceber-se. Desde que, nas realizações objetivas de seu espírito, quase nulas, dificilmente lograria reconhecer-se, é aquilo que pode fazer de si próprio e de seu semelhante que abre a possibilidade de autoconsciência: sua dimensão de homem chega-lhe, assim, estritamente como subjetividade. Através dessa pura e direta apreensão de si mesmo como pessoa, vinda da irrealização de seus atributos humanos na criação de um mundo exterior, define-se o caráter irredutível das tensões geradas. [...] Em seu mundo vazio de coisas e falto de regulamentação, a capacidade de preservar a própria pessoa contra qualquer violação aparece como única maneira de ser: conservar intocada a independência e ter a coragem necessária para defendê-la são condições de que o caipira não pode abrir mão, sob pena de perder-se. [...]. Trechos extraídos da obra Homens livres na ordem escravocrata (IEP/USP, 1969), da sociológa e professora Maria Sylvia de Carvalho Franco. Veja mais aqui, aqui & aqui.

ARTE & HISTÓRIA – [...] Podemos, sob esta inspiração, nos remeter a imagens pictóricas e a textos literários do passado, que falam de um não acontecido, mas que registram sensibilidades sobre o mundo, sobre os quais o historiador se debruça, com as suas indagações. E essas perguntas fazem dialogar arte e história, nessa twilight zone que aproxima e separa as representações construídas sobre o real. [...]. Imagens pictóricas, discursos poéticos e lendas são representações do mundo que se oferecem ao historiador como portas de entrada ao mundo das sensibilidades da época que as engendrou. [...]. Dessa maneira, se a arte se apresenta como fonte ao historiador – ou seja, como marca de historicidade que guarda uma impressão de vida – ela é uma fonte que diz sobre o seu momento de feitura e não sobre o tempo do narrado ou figurado. [...]. Trecho do artigo Este mundo verdadeiro das coisas de mentira: entre a arte e a história (Estudos Históricos, 30, 2002), da historiadora, escritora e professora Sandra Jatahy Pesavento (1945-2009).

O BLOCO DAS MIMOSAS BORBOLETAS - [...] Encarei-a com piedade e revolta: gordinha, morenota, um leve buço enegrecendo-lhe o lábio superior. E irresponsável, camaradinha, fácil, derrotada nas suas vaidades de princesa de arrabalde por aquele complicado drama de fuga e morte.  Olhando-me a fito, vi nos olhos dela recordação da vida já antiga. [...] Agora, tudo acabado, para nunca mais! Desabou a chorar sobre o meu ombro: que era muito infeliz, que ia sofrer muito, que não sabia como perdera a cabeça, que agora estava perdida, que queria morrer também... Consolei-a como pude, segurando-a pelos pulsos. [...] A rua! A rua deserta, vazia, livre, para os meus passos e para o meu rumo. Corripor ali afora, corri para alcançar o bonmde para desentoprpecer. E enquanto corria levava a sensação de fugir a uma coisa fascinante e ameaçadora, de que eu me libertava enfim... uma coisa suave e horrenda que não poderia mais acontecer na madrugada pura do arrabalde... Trechos extraído da obra Bailarinha e outras mulheres (Anuário do Brasil, 1927), do escritor, jornalista, diplomarta e magistrado Ribeiro Couto. Veja mais aqui.

DUAS BALADAS DE VILLONBalada das damas dos tempos idos: Dizei-me em que terra ou país / Está Flora, a bela romana; / Onde Arquipíada ou Taís, / que foi sua prima germana; / Eco, a imitar na água que mana / de rio ou lago, a voz que a aflora, / E de beleza sobre-humana? / Mas onde estais, neves de outrora? / E Heloísa, a mui sábia e infeliz / Pela qual foi enclausurado /Pedro Abelardo em São Denis, / por seu amor sacrificado? / Onde, igualmente, a soberana / Que a Buridan mandou pôr fora / Num saco ao Sena arremessado? / Mas onde estais, neves de outrora? / Branca, a rainha, mãe de Luís / Que com voz divina cantava; / Berta Pé-Grande, Alix, Beatriz / E a que no Maine dominava; / E a boa lorena Joana, / Queimada em Ruão? Nossa Senhora! / Onde estão, Virgem soberana? / Mas onde estais, neves de outrora? / Príncipe, vede, o caso é urgente: / Onde estão elas, vede-o agora; / Que este refrão guardeis em mente: / Onde estão as neves de outrora? Balada das damas do tempo antigo: Ora dizei-me em que país / Flora estará, bela romana, / Arquipiades ou Taís / que sua prima foi germana. / Eco a falar, quando um som plana / por rio ou lago, e que já tem o / dom de formosa mais que humana? / Mas onde estão neves de antanho? / Onde é mui sábia Heloísa / por quem castrado e monge pena / Pedro Balerdo em S. Dinis? / Amor lhe deu provação plena. / E assim também onde é que reina / essa que a Buridan por banho / mandou deitar num saco ao Sena? / Mas onde estão neves de antanho? / Rainha Branca como um Lis, / voz que a sereia em canto irmana, / Berta pé-grande, Alis, Biatriz, / Aremburgis que foi menana, / e de Lorena a boa Joana / qu’ingrês em Ruão queimou no lenho. / Onde estão, Virgem Soberana? / Mas onde estão neves de antanho? / Senhor, cuidar de ano ou semana / onde elas são, não voz traz ganho, / nem meu refrão a vós engana: / Mas onde estão as neves de Antanho? Poemas do poeta francês François Villon (1431-1463). Veja mais aqui.

BASE PARA UNHAS FRACAS
O curta-metragem experimental erótico Base para unhas fracas: ou a pintura como assunto (2011), dirigido pelo pintor Alexandre Vogler, com a atriz Marcela Maria, conta a história de uma mulher nua que percorre as ruas do centro do Rio de Janeiro, durante a madrugada, intervindo em luminosos e espalhando cartazes autobiográficos pelos muros.

Veja mais:
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Procuramos um lugar digno para chamar de lar, mas só o encontraremos quando o mundo estiver livre de preconceitos. Somos todos iguais independente da cor da pele, da religião, da sexualidade, da necessidade de cuidados especiais ou idade. Dentro de nós o sangue eé vermelho e a alma imortal é Luz.
Poema/foto da poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez
Veja mais aquiaqui.

A literatura de Raimundo Carrero aqui, aqui & aqui.
A arte de Vik Muniz aqui.
A literatura de James Hilton aqui.
O pensamento de Carl Sagan aqui e aqui.
Livros do Nitolino aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

A FOTOGRAFIA DE RUTH BERNARD
A arte da fotógrafa alemã Ruth Bernard (1905-2006).

A ARTE DE OLGA KRIMON
A arte da pintora ucraniana Olga Krimon.


sábado, julho 08, 2017

ANA BOTAFOGO, DONNA TARTT, TOQUINHO, ROSA PASSOS, JOÃO BOSCO, ARTEMÍSIA GENTILESCHI, PAULA MORELENBAUM & SILÊNCIO DE EDJANE LEAL

OS MILAGRES DE ALAGOINHANDUBA – Um belo dia apareceu em Alagoinhanduba um sujeito que diziam atender pelo nome de Gideão. Ninguém sabia quem era, familiares, parentes, onde morava, nada a respeito de tal sujeito, apenas que ele aparecia nos momentos mais periclitantes oferecendo solução, desde que satisfizessem a condição por ele estipulada. Muitos depoimentos, boatos e testemunhos davam conta de ações milagrosas praticadas por ele. Não havia quem não acrescentasse um fato aos tantos já ditos e repetidos de boca em boca. O que se sabia era que se procurasse, jamais o encontraria; só aparecia assim do nada, quando situação iminente. Zé-Corninho mesmo presenciara certa feita, ao visitar um amigo de infância que finava desenganado de doença letal, quando soube que um estranho apareceu e disse que salvava o caso, desde que dessem a ele um prato de comida. Todos desconfiaram, mas entre eles, uma alma caridosa, independente da cura, deu-lhe a refeição. Após o repasto, ele entregou um pedacinho de papel devidamente enrolado pra pessoa que lhe dera a comida, determinando que pusessem amarrado a um cordão no pescoço do vitimado, que ele ficaria bonzinho de um dia pro outro. Com um detalhe: não podiam abrir, jamais, para não reverter o quadro. Nem deram bola pro que disse, porém, mesmo assim, não custava nada e assim fizeram. No outro dia, o enfermo estava saltitante e feliz, repetiu Zé-Corninho batendo o pé de raiva, diante das mangações. Nessa mesma hora Afredo Bocoió compartilhou dum caso semelhante que se deu com uma grávida que se encontrava, ela e o bebê, entre a vida e a morte, poucas horas depois do desconhecido ter comido um pedaço de bolo pedido, e de terem amarrado um papelzinho embrulhado no pescoço da parturiente, que logo ela deu a luz e o menino estava berrando que nem bode novo. Também Mamão entrou na conversa por ter sabido de um acidentado que estava morre mas num morre e que ficou bonzinho depois que amarraram um bilhetinho no pescoço dele, tanto que soube que poucas horas depois já estava correndo de motocicleta pra cima e pra baixo, como se nada tivesse acontecido. Oxe, isso é lorota, diziam muitos, quase todos incrédulos. Logo aparecia quem tivesse notícia de coisas assim parecidas que aconteceu pela redondeza. Quem é esse milagroso? Diz-se ser um tal de Gideão! Mora aonde? Ninguém sabe. Trabalha? Sei não. O que ele faz da vida? Quem sabe, ora! Cadê ele? Ah, dizem que ele só aparece em hora de extrema precisão. E o que tem dentro do bilhete? Nunca soube. Ah, isso tem coisa. Por que a gente não confere? Então, foram checar com pessoas que tiveram a graça. A primeira que souberam não estava em casa, porém os vizinhos confirmaram ter ocorrido o fato de verdade, que não sabiam nada a respeito do salvador. Partiram pra outra, havia viajado, contudo, confirmação de moradores da rua e do bairro todo deu por conta de fato verídico, mesmo que ninguém soubesse nada a respeito do já tido por santo. Vamos ver isso no amiudado. Assim fizeram, depois de muito rodarem no encalço, deram de cara com uma devota, em carne e osso, de viva voz contando como sucedeu tudo e de como saiu do estado de coma em que se encontrava há dias. Tá. E o bilhete, o que tinha? Não sei, não abri. Ora, ninguém sabe o que tinha nos bilhetes deixados, ninguém sabe de nada! O que é que é isso, hem? Logo souberam da fúria do padre Quiba que dizia ser esse boato façanhas do anticristo! Como é que pode? Quem seria capaz de operar tal prodígio, hem? Ué, dizem que é Gideão, só isso que se sabe. Ah, mas ele só aparece em situações das brabas. Pois é, não adianta procurar por ele, já caçaram de tudo, todos os cafundós, ninguém sabe do paradeiro dele. Só pode ser magano! Foi quando souberam que um que havia sido abatido com não sei quantas balas dum tiroteio medonho, estava vivinho da silva! Quem? O Trojeu! Ah, vamos lá ver esse sortudo! E foram, encontraram-no virando copos e meiotas numa bodega da esquina, ainda com o papelzinho amarrado no cordão do pescoço. Ôpa! Achamos. Entabularam conversa e esmiuçaram tintim por tintim o acontecido, até pergutarem pelo embrulhinho do pescoço. Isso aqui? Sim! Ah, foi Gideão que me deu, disse que me salvava de morte matada, mas se eu abrir morro de morte morrida. Que nada! Ah, abro nem prum trem, meu. Rapaz, que coisa! E pagaram bebida, tira-gosto e litros e mais beiçadas de deixá-lo cai mas num cai, até quedar desacordado no meio da calçada. Removeram o cordão e abriram o bilhete com a seguinte inscrição manuscrita: “Eu te benzo, eu te curo, amanhã cairá duro”. Deram a maior risada, virou piada, o que davam por líquido e certo, agora era pinóia. Quem diria que era marmota, hem? Pois é, só conversa pra boi dormir. No outro dia, já era mais de dez horas da manhã, sol quente de rachar o chão, e Trojeu lá estendido na calçada. Oxe, pegaram o homem pra levá-lo pra casa, quando alguém achou melhor levá-lo prum hospital. Assim fizeram. Chegando lá, quando o enfermeiro examinou, o diagnóstico: estava mortinho. Ué, defuntou? Passou dessa pra melhor faz tempo. De mesmo? Oxe, babau. Matamos o homem. Remorso comeu no centro da corja toda. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

A HISTÓRIA SECRETA DE DONNA TARTT
[...] A beleza raramente é suave ou reconfortante. Pelo contrário. A verdadeira beleza sempre nos assusta. [...] a ideia de perder o controle fascina pessoas controladas como nós mais do que a maioria dos outros temas. [...] Quanto mais instruída, inteligente e reprimida é a pessoa, mais necessita de métodos para canalizar os impulsos primitivos que subjugou com tanto esforço. [...] Trata-se de um conceito bem grego, e muito profundo. Beleza é terror. O que chamamos de belo provoca arrepios [...]. Beleza é terror. O que chamamos de belo nos faz tremer. [...].
Trechos do romance A História Secreta (The Secret History – Companhia das Letras, 1992), da escritora, ensaísta e crítica estadunidense Donna Tartt. Veja mais aqui.

Veja mais sobre:
Além da entrega mais que tardia, Papoulas de julho de Sylvia Plath, Literatura de vanguarda de Guillermo de Torre, a pintura de Artemísia Gentileschi & Tom Wesselmann, a música de Sky Ferreira, a arte de Jean Cocteau & Luciah Lopez aqui.

E mais:
Caraminholas do miolo de pote, Escritos de Guillaume Apollinaire, O homem pós-orgânico de Paula Sibilia, a literatura de Antoine de Saint-Exupéry, a música de Diamanda Galás, a pintura de Marie Fox, a fotografia de Jim Duvall & a arte de Luciah Lopez aqui.
O sábado é dia de amor & poesia aqui & aqui.
Fecamepa, Gestalt-Terapia de Friederich Perls, Novelas de La Fontaine, As rosas do cume de Laurindo Rabelo, Auto da alma de Gil Vicente, Crônica da cidade amada & Procópio Ferreira, a música de Diversões Lúdicas, a pintura de Ignaz Epper, Brincarte do Nitolino & Cia Ópera na Mala aqui.
O trâmite da solidão, O espectro da fome de Josué de Castro, a pintura de Mercedes Sosa, A Ilíada de Homero, Ana Botafogo In Concert, Conversação noturna & Martha Angerich, a pintura de Tamara de Lempicka, a arte de Eliezer Augusto & a poesia de Genesio Cavalcanti aqui.
Doro & a copa do mundo, Fritz Perls, Procópio Ferreira, a música de Moraes Moreira & Programa Tataritaritatá aqui.
Blitz-krieg do Mineirão, Manuel Bandeira, a arte de Ana Botafogo & a música de Mercedes Sosa aqui.
A Filosofia & História das calamidades de Abelardo, Nara Salles, Projeto Carmin & Cruor Arte Contemporânea aqui.
A provocação aguda da paixão aqui.
A mulher, Lei Maria da Penha, Ginocracia & Daby Palmeira aqui.
A donzela arrevesada de Hermilo Borba Filho, a poesia matuta de Rubão, Dr. Zé Gulu & papos do Doro aqui.
O romance do pavão misterioso de João Melchiades da Silva aqui.
A arte fotográfica de Andréia Kris aqui.
Pechisbeque, 1984 de George Orwell, Legado & grito de Renata Pallottini, As casadas solteiras de Martins Pena, A realidade das coisas de Tales de Mileto, a música de Bach & João Carlos Martins, País de Cucanha, o cinema de Sidney Lumet & Sophia Loren, a arte de Antoni Gaudí, a pintura de Theo Tobiasse & Jean-Jacques Henner aqui.
Quando não é na entrada é na saída, O autor como produtor de Walter Benjamin, Fronteiriços de Anna Bella Geiger, Linquistica & Estilo, Carna, a música de Andrea dos Guimarães, Antologia pornográfica de Gregório de Matos & Alexei Bueno, Wunderblogs, a arte de Gilvan Samico & Matéria Incógnita aqui.
Crônica de amor por ela, a pintura de Pablo Picasso, a música de Roberto Carnevale, a fotografia de Claudia Andujar, Teoria da Literatura de Rogel Samuel, Os 120 dias de Sodoma de Marquês de Sade, a poesia de Ana Cristina César, o cinema de Chris Wilkinson & Linda Marlowe & a arte de Lygia Pape aqui.
Betúlia, a belezura e os restos nos confins do mundo, Evolução e sentido do teatro de Francis Fergusson, Porto Calendário de Osório Alves de Castro, Kadish de Allen Ginsberg, a fotografia de Claudia Andujar, a pintura de Federico Beltrán Massés & Fayga Ostrower, a música de Consuelo de Paula & Iemanjá, Mãe D’Água de Petrolina - PE aqui
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A ARTE DE ANA BOTAFOGO
A arte da bailarina e atriz Ana Botafogo. Veja mais aqui.

SILÊNCIO DE EDJANE LEAL
Entre um trago / de bebida / e um trago / da vida / A sensação / jorrante e / sutil / de existir. (Momentos).
eu sou um desejo / contido ... / Um ai interminável. / Eu sou um sopro / insano / de uma massa mal delineada / inacabada. / Eu sou um pássaro irrequieto / errante. / Eu sou a tempestade / e a calmaria / angústia e coragem / doença e crueza / carência e doação... / Um bicho... / Sou simplesmente / por assim saber-me. / (Bicho).
Cada noite / que se passa / sem os abraços / teus, / é como se eu morresse / um pouco / nos desejos / meus. (Apego).
Poemas recolhidos do livro Silêncio (Tarcisio Pereira, 2015 – Prêmio Poesia Cultural), da poeta pernambucana Edjane Leal Cruz. DEPOIMENTO: Conheci a poesia de Edjane no início dos anos 1980, em Recife, quando trabalhávamos numa mesma instituição. Ela me passou alguns dos seus poemas e, pensamos até, em publicar um livro com nossas produções poéticas. Mudanças ocorreram, perdi o contato, mas publiquei seus poemas em zines, revistas e no tablóide Nascente – Publicação Lítero Cultural, que editei ao longo das décadas. Hoje tenho a grata satisfação de receber o seu primeiro livro, fruto de um prêmio literário que ela arrebatou, reunindo não só poemas dela, mas também, numa segunda parte do livro, de estudantes adolescentes de escolas públicas da cidade de Floresta, em um projeto denominado Sonhar é preciso, que ela desenvolveu com amigas e professoras. Maravilhosa iniciativa, parabéns. Sucesso do muito & beijabrações. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ: TOQUINHO, ROSA PASSOS, JOÃO BOSCO & PAULA MORELENBAUM
Hoje na Rádio Tataritará é dia de especial com Toquinho em dois shows ao vivo: Só tenho tempo pra ser feliz & Brasil; Rosa Passos no Festival de Jazz de Vitoria-Gasteiz & Romance; João Bosco no Obrigado gente & ao vivo; e Paula Morelenbaum no show Berimbaum & no Tuscia in Jazz. Para conferir é só ligar o som e curtir.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora italiana Artemisia Gentileschi (1593-1653). 
Veja mais aquiaqui.

quinta-feira, abril 20, 2017

NOEL & BOSCO, DRÁCULA DE STOCKER, MARIO CRAVO NETO & BESOURO DOIDO INVENTANDO MODA

A PAIXONITE DO BESOURO DOIDO INVENTANDO MODA - Imagem: Icaro, art by Juan Yanes. - Naquela tarde Robimagaive quase perde o juízo de vez. Quando viu aquela moça linda de morrer, no seu tope, toda jeitosa, toda tuda, saiu do prumo e foi acometido na horinha por uma paixonite agudíssima, daquelas avassaladoras que ficam encruadas no juízo do sujeito, do cabra endoidecer e ser levado pra condenação eterna do sofrimento e não ter mais remédio pro resto da vida. Avexou-se todo, ficou como quem procura canto pra chocar, todo inheto feito quem está com um cotoco no rabo de não poder nem parar quieto em canto que fosse. - Eita, esse tá cá gota! Maior obsessão tomou conta dele de não ter jeito de ficar longe daquela que queria pra mãe dos seus filhos e dona do seu lar: - Avião desse a gente não perde a viagem nunquinha! Oxe, alinhou as ideias e não quis passar em branco. Aproximou-se dela, afinou a goela no pigarreado dos ran-rans aprumados, ajeitou a gola, estufou o peito e caprichou no flerte: deitou pra cima dela a maior lábia, passando a maior cantada. Ela, com a peculiar indiferença das beldades, franziu o cenho e encarou a lata do rapaz: - O senhor está passando bem? Eu lhe conheço, por acaso? Hã? Ah, Procure um médico ou um exorcista, se preferir, pra cuidar do seu delírio. Deu-lhe as costas e saiu na sua, maior rebolado de endoidar até o papa, imagine como ficou o dito cujo. Quando tornou a si, ela já havia sumido. Quem é ela? Onde mora? Depois de dias vagando errante à procura da paixão desesperadora, tomou conhecimento tratar-se de Dalzuíta, a prima da Vera. Aquela? Isso mesmo, rapaz. Minha nossa! Aí ele botou a maior beca: topete no tuim, costeleta caprichada, óculos escuros no pau da venta, camisa quadriculada só atacada no umbigo e deixando à mostra na caixa dos peitos uma volta com um medalhão graúdo, roscofe num pulso, bracelete e pulseira no outro, fivela enorme no cinturão pelo cós e reatas do jeans surrado boca de sino das grandes e montado no maior cavalo de aço, potoque, potoque, potoque. Quando ela apareceu na esquina arrasando quarteirão, o bestão sacudiu o charme xucro e imprimiu marcha firme de chegar perto, bater os calcanhares em continência e pregar os olhos nela, armando xaveco disparatado. Assustada com a chegada inesperada do intruso, ela arregalou os olhos e com ar de desprezo: - Pronto, danou-se tudo! Sai-te! Pra chegar aqui, meu nego, tem que ter grana e possante veloz, sacou? Deu-lhe as costas sacudindo o queixo de nem querer saber. Azuretado, sem saber o que fazer, deu-lhe um aluamento de só passar uns dez dias depois, todo serelepe pra conquistar a moça, agora com o fusquinha pereba todo incrementado, pintura cheia dos garranchos e cores pra rebocar a ferrugem e desgraceira, arrancou os paralamas para adaptar quatro pneus de avião, mandou confeccionar um bigode raçudo pra servir de para-choque, um som de não sei quantos watts de babaca, buzinaço com arroto, debreada com peidos e pipocos, um par de chifres graúdos no capô e um rabo de peixe na traseira que mais parecia carrossel de festa de tão iluminado. Todo pabo, pulou dentro, passou primeira e partiu na fubica pra impressionar aquela que seria a dona do seu coração. Depois de umas voltas pra cima e pra baixo por quase duas semanas sem achar paradeiro, eis que cruza com ela numa esquina, encosta de qualquer jeito e salta pra saudar-lhe na maior gamação. – Meu senhor, não será com qualquer borreia que irá me conquistar, não, viu? Cresça e apareça! De Ferrari pra cima, possante tem que ser voador. Aí ele parou no ar, pulou no mandú e saiu a toda, até quase se foder numa abalroada da porra perto de casa. O homem estava perdido de tudo. Dias e noites seguidas e só se ouvia o martelado do aperreado na maior faina. Ele não havia deixado por menos a dica: pegou um resto duma moto cinquentinha que estava no meio de um monturo de tranqueiras, adaptou ferragens e assento, duas saliências laterais que davam ideia de asas – vôte! –, vestido num blusão negro, luvas, botas de cano longo, um capacete com microfone auricular e um megafone com antena em cima dele e saiu acelerando o ronco pras bandas dela. Quando ela reapareceu, aproximou-se e começou a falar de ninguém entender nada. E ela: - Hem? Será esse o besouro doido? O que se passa com esse louco, hem? Ele apontava pro ponto mais alto da região e mais falava e nada se entendia. Ela abriu os braços como quem entendia patavina, sem saber o que ele estava dizendo, aí ele arretou-se, acelerou a moto, apontou pro morro e zarpou feito quem ia pro tudo ou nada. Ela nem aí, seguiu sua caminhada, quando percebeu meio mundo de gente correndo na direção contrária. Virou-se pra saber do que se tratava e viu o povo falando na maior algazarra: - Vai! Vai! Vai! E ela: - Ah, vai se foder mesmo! Era ele pendurado no bico do morro anunciando que ia pular de lá de cima. Aliás, pra ele mesmo ia era voar; para todos, ele ia mesmo era se lascar. E assim foi. Ele retrocedeu descendo em marcha-ré pra pegar distância, fez carreira acelerando tudo e zum: abriu os braços como quem estivesse voando. Não foi isso que se deu, dali ele despencou na maior queda estuporada. Resultado: foi tanta fratura exposta, costelas partidas, dedos saíram do lugar, pescoço empenado, vértebras soltas, pênis envergado, até a língua o fuleiro quebrou, de não ter jeito nem de pegá-lo pra botar na maca, onde puxasse se soltava, o cúmulo do espragatado. Findou bandagem por todo corpo, gesso nos membros, um horror: mais parecia uma múmia robô. Dalzuíta perguntou ao primeiro que passou: - E aí, o cara morreu? Nada, lascou-se todo, mas tá vivinho da silva. E ela: - Pudera, vaso ruim não quebra. Dele só dava pra ouvir solfejando o Gago Apaixonado de Noel. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

GAGO APAIXONADO
Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago
Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago
Não po-posso com a cru-crueldade da saudade
Que que mal-maldade, vi-vivo sem afago
Tem tem pe-pena deste mo-moribundo
Que que já virou va-va-va-va-ga-gabundo
Só só só só por ter so-so-sofri-frido
Tu tu tu tu tu tu tu tu
Tu tens um co-coração fi-fi-fingido
Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago
Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago
Não po-posso com a cru-crueldade da saudade
Que que mal-maldade, vi-vivo sem afago
Teu teu co-coração me entregaste
De-de-pois-pois de mim tu to-toma-maste
Tu-tua falsi-si-sidade é pro-profunda
Tu tu tu tu tu tu tu tu
Tu vais fi-fi-ficar corcunda!
Gago apaixonado, música do sambista, cantor, compositor, bandolinista e violonista e Noel Rosa (1910-1937), incluída no álbum Dá licença meu senhor (Epic Records, 1995), do cantor, violonista e compositor João Bosco. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais sobre:
As dez vidas e a cabeça roubada, A natureza das coisas de Bernardino Telesio, a música de Joana Holanda, a arte de Kevin Taylor, a pintura de Pedro Américo & Odilon Redon aqui.

E mais:
Dalzuíta: o infortúnio da prima da Vera aqui.
Os pipocos da loucura de Robimagaiver aqui, aqui e aqui.
A paixão avassaladora quando ela é a terrina do amor aqui.
Brincarte do Nitolino, O calor das coisas de Nélida Piñon, a poesia de Augusto dos Anjos, a música de Igor Stravinski, a pintura de Joan Miró, o teatro de Eugène Ionesco, o cinema de Graeme Clifford & Jessica Lange, a arte de Frances Farme, As emoções de Suely Ribella, Papel no Varal & Ricardo Cabús aqui.
Cordel do meio ambiente aqui.
Na avenida Jatiúca, Maceió, O império do efêmero de Gilles Lipovetsky, a História da feiúra de Umberto Eco, o Deserto do real de Slavoj Žižek, Moema, a música de Quinteto Armorial, a poesia de Juareiz Correya, a pintura de Victor Meirelles & Felicien Rops, o cinema de Michael Winterbottom & Anna Louise Friel aqui.
Quando o futuro chega ao presente, Escritos de Michel Philippot, as Fronteiras do Universo de Phillip Pullman, As contantes universais de Gilles Cohen-Tannoudj, a música de Antonín Dvořák & Alisa Weilerstein, a pintura de Willow Bader, a arte de Lorenzo Villa, a fotografia de Katyucia Melo & a poesia de Bárbara Samco aqui.
Mais que tudo o amor, a poesia de Pablo Neruda, o teatro de Antonin Artaud, o pensamento de Pierre Gringore, a música de Ana Rucner, a fotografia de Daniel Ilinca, Mariza Lourenço & Luciah Lopez aqui.
Brincando com a garotada, Lagoa Manguaba, a música de Maria Josephina Mignone, a poesia de & William Blake & Joana de Menezes, a literatura de Luiz Antonio de Assis Brasil, a pintura de Thomas Saliot & Tempo de amar de Genésio Cavalcanti aqui.
Doro: querem me matar, O bom dia para nascer de Otto Lara Resende, a comunicação interpessoal de John Powell, a poesia de Gilberto Mendonça Teles, o teatro de Patrícia Jordá, a arte de Carmen Tyrrell, a música de Mona Gadelha, a Pena & Poesia de Luiz de Aquino Alves Neto aqui.
Andarilho das manhãs e luares, O Homo ludens de Johan Huizinga, Todas as coisas de Quim Monzó, a psicanálise de Françoise Dolto, a música de Gustav Holst, a pintura de Ludwig Munthe, a arte de Elena Esina & Tom Zine aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
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DRÁCULA, DE BRAM STOCKER
[...] Acreditas no destino? Que até os poderes do tempo podem ser alterados com um único propósito? Que o mais afortunado dos homens a caminhar neste planeta é aquele que encontra… o amor verdadeiro? [...] O amor é mais forte que a morte. [...].
Trechos do romance Drácula (Zahar, 2010), do escritor irlandês Bram Stocker (1847-1912), Veja mais aquiaqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo, escultor e desenhista Mario Cravo Neto (1947-2009).
Veja mais aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.
 

MÁRIO QUINTANA, ANNE BOYER, KATE MANNE & JONES MANOEL

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Aroma da memória, flor despetalada... – Bella não era Isabella, a cantora perturbada do Blue Velvet . Nem a...