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quarta-feira, março 08, 2017

MURILO RUBIÃO, ANNEKE VAN GIERSBERGEN, RAMÓN CASAS, WÄINÖ AALTONEN, KOBRA, MANUEL COLOMBO & FÁTIMA JAMBO

TODO DIA É DIA DA MULHER
Veja aqui, a Fanpage aqui, os vídeos aqui e os poemas & canções aqui.

A PONTE ENTRE QUEM AMA E A PLENITUDE DO AMOR! - Imagem: Desnudo, do pintor e artista gráfico espanhol Ramón Casas (1866-1932). - Na distância entre o meu coração e a imensidão cosmogônica, ela se estira nua pro meu deleite na liberdade verdadeira – a sensação etérea em mim e ao meu redor. Não fosse ela a ponte entre o amor e eu, cego eu erraria por anos e farsas. Não fosse ela a ponte entre o factível e o inatingível, eu não saberia a verdade de viver. Não fosse ela a ponte entre a minha heterodoxia e meus paradoxos, eu não descobriria jamais a vida em sua plenitude. A ponte, ela: entre o universo e minha existência. Ela nua e linda, corpalma, ora estatelada com quem adormece à espera da minha chegada, ora de bruços como que indefesa dos meus ataques e desvarios para sua entrega. Ela sempre mais maravilhosa que sempre, mais minha que nunca, a me oferecer sua carne para que eu me aposse em defintivo na nossa trajetória efêmera de viver. É ela, um pé no ocidente do mundo, o outro no oriente lomngínquo – ah, podólogo atrevido sou a sacralizar toda sua emanação -, e eu como um fiel fanático, ajoelho-me e acaricio toda extensão do seu solado, calcanhar, pernas, joelhos, coxas, até folgar no encontro do ventre e lá provar com toda gulodice de toda sua proveitosa delícia – o manjar da vida, o elixir da alma, no meio do caminho em tudo acontece e ouso atravessar essa ponte que quero morar embaixo, viver passeando por cima, vencê-la sempre, superá-la a todo instante, sabê-la minha e só minha em todo e mais completo momento. Essa a ponte que me ensina além de mim e de tudo e não me canso de usurpá-la vencendo seus limites e eu animal selvagem a lamber seu umbigo,a sugar seus seios, acariciar o ombro e contornos até beijá-la apaixonadamente lábios e faces a flagrar seus olhos incendiados de prazer a me queimar na combustão dos desejos. E ela o carnal e o anímico em confluência e na convergência de lábios e sexo na volúpia pela posse de todos os desejos, para mergulho no céu da sua boca e entre as estrelas do prazer, me faço inteiro a cobrir seu ser - a ponte que me faz macho insaciável e homem que se realiza. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aquiaqui.

Curtindo o dvd Everything Is Changing (PIAS-Holland, 2012), da cantora, compositora, guitarrista e pianista holandesa Anneke van Giersbergen.

Veja mais sobre:
Todo dia é dia da mulher aqui e aqui.

E mais:
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
Crônica de amor por ela, Safo, Andrômaca, Helena Blavatsky, Sylvia Plath, Maria Helena Khüner, Maria Bonita, Carole Bayer Sager, Antonio Maria Esquivel, Andrea Gastaldi, José Vilches, Mulheres no Mundo, Feminino & Masculino aqui.
Solidariedade aqui.
Pra quem só vê superfície, todo rio é sempre raso aqui.
A vida solta no calor do coração aqui.
Os véus dos céus & o prazer do amor aqui.
Quando alguém se põe à sombra, não pode invocar o sol aqui.
Psicopatologia & Direito Autoral aqui.
Erich Fromm & A dialética do confreto de Karel Kosik aqui.
Absolutismo aqui.
Theodor Adorno aqui.
Anthony Giddens & Ariano Suassuna aqui.
A composição & classificação dos alimentos aqui.
O guardador de rebanhos de Fernando Pessoa aqui.
Os homens ocos de T. S. Eliot aqui.
Um lance de dados de Stéphane Mallarmé aqui.
Afrodite, Claude Adrien Helvétius, Christopher Marlowe, Ana Miranda, Henri-Pierre Picou, Honoré-Victorien Daumier, Penélope Cruz & Programa Tataritaritatá aqui.
Albert Einstein, Jean-Yves Leloup, Roberto Crema, Jacob Levy Moreno, Godofredo Rangel, Museu Casa de História, Andityas Soares de Moura & Fernando Fiorese aqui.
O ex-mágico de Murilo Rubião & Programa Tataritaritatá aqui.
A poesia de Dylan Thomas aqui.
Poemas de Bertolt Brecht aqui.
Juana de Ibarbourou, Otto Maria Carpeaux, Camille Claudel, Ornette Coleman, Iacyr Anderson Freitas, Juliette Binoche, Johann Kaspar Füssli & Tons&versos&canções aqui.
Adolfo Bioy Casares, Pierre Bonard, Charles Mingus, Guillaume de Poictiers, Louise Cardoso, Estética teatral, Cabra marcado para morrer & John Watson aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
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A arte do escultor e artista plástico finlandês Wäinö Aaltonen (1894-1966).

DESTAQUE: ELISA, MURILO RUBIÃO
"Eu amo os que me amam; e os que vigiam desde a manhã, por me buscarem, achar-me-ão." (Provérbios, 8, 17). Uma tarde - estávamos nos primeiros dias de abril - ela chegou à nossa casa. Empurrou com naturalidade o portão que vedava o acesso ao pequeno jardim, como se obedecesse a hábito antigo. Do alpendre, onde me encontrava, escapou-me uma observação desnecessária: - E se tivéssemos um cachorro? - Não me atemorizam os cães - retrucou aborrecida. Com alguma dificuldade (devia ser pesada a mala que carregava), subiu a escada. Antes de entrar pela porta principal, voltou-se: - Nem os homens tampouco. Surpreso por vê-la adivinhar meu pensamento, apressei-me em desfazer a situação cada vez mais embaraçosa: - Hoje o tempo está ruim. Se continuar assim... Interrompi a série de bobagens que me ocorria e, encabulado, procurei evitar o seu olhar repreensivo. Sorriu levemente, enquanto eu, nervoso, torcia as mãos. Logo a desconhecida se adaptou aos nosso hábitos. Raramente sai e nunca aparecia à janela. Talvez não tivesse reparado no primeiro momento em sua beleza. Bela, mesmo no desencanto, no seu meio sorriso. Alta, a pele, de um branco pálido, quase transparente, e uma magreza que acusava profundo abatimento. Os olhos eram castanhos, mas não desejo falar deles. Jamais me abandonaram. Cedo começou a engordar, a ganhar cores e, no rosto, já estampava uma alegria tranquila. Não nos disse o nome, de onde viera e que acontecimentos lhe abalaram a vida. Respeitávamos, entretanto, o seu segredo. Para nós era, simplesmente ela. Alguém que necessitava de nossos cuidados, do nosso carinho. Aceitei os seus longos silêncios, as suas repentinas perguntas. Uma noite, sem que eu esperasse, interrogou-me: - Já amou alguma vez? Por ser negativa a resposta, deixou transparecer a decepção. Pouco depois, abandonava a sala, sem nada acrescentar ao que dissera. Na manhã seguinte, encontramos vazio o seu quarto. Todos os dias, mal começava a cair a tarde, eu ia para o alpendre, à espera de que ela surgisse a qualquer momento na esquina. Minha irmã Cordélia desaprovava-me: - É inútil, ela não voltará. Se você estivesse menos apaixonado, não teria tanta esperança. Um ano após a sua fuga - estávamos novamente em abril - a vi aparecer no portão. Trazia mais triste a fisionomia, maiores as olheiras. Dos meus olhos, que se puseram alegres ao vê-la, desprendeu-se uma lágrima e disse, esforçando-me para lhe tornar cordial a recepção: - Cuidado, agora temos uma cadelinha. - Mas o dono dela ainda é manso, não? Ou se tornou feroz na minha ausência? Estendi-lhe as mãos, que ela segurou por algum tempo. E, sem conter a minha ansiedade, indaguei: - Por onde andou? O que fez nesse tempo todo? - Andei por aí e nada fiz. Talvez amasse um pouco - concluiu, sacudindo a cabeça com tristeza. A sua vida entre nós retomou o ritmo da outra vez. Mas eu estava intranquilo. Cordélia olhava-me penalizada, insinuava que eu não deveria ocultar mais a minha paixão. Faltava-me, contudo, a coragem e adiava a minha primeira declaração de amor. Meses depois, Elisa - sim, ela nos disse o nome - partiu de novo. E como lhe ficasse sabendo o nome, sugeri à minha irmã que mudássemos de residência. Cordélia, apegada ao extremo à nossa casa, nada objetou. Limitou-se a perguntar:- E Elisa? Como poderá encontrar-nos ao regressar? Refreei a custo a angústia e repeti completamente idiotizado:- Sim, como poderá?
Elisa, conto extraído da obra O ex-mágico (Universal, 1947), do escritor e jornalista Murilo Rubião (1916-1991). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A modelo Elisa Desoire na arte do fotógrafo Manuel Colombo.
Veja mais aquiaqui e aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à psicóloga e funcionária pública Fátima Jambo.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Beijo, do artista, grafiteiro e muralista Eduardo Kobra.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.

 

segunda-feira, junho 01, 2015

MORIN, RUBIÃO, GENET, FASSBINDER, MARILYN, MORISSETE, GAINSBOROUGH, FERNANDO FIORESE, MEMEI CORRÊA & IMPRENSA BRASILEIRA.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? – O dia amanhece. Contemplo o Sol e o horizonte escancarado para minha realização. Então, canto e entoando a canção sobre os versos de Fernando FioresePorque cantar já não muda em manhã -, mais incorporo o poder de insistir, persistir, resistir e perseverar. Dedilhando os acordes da canção, recito Meimei Corrêa: "Minha palavra louca explode sem mesmo sair da boca, sai do coração, é mina em explosão, sem conter silêncios, provoca cada vez mais incêndios, não se reduz, porque reluz em sua direção. Sua palavra apouca, o coloca em falta, ela se escorrega peralta e se perde no labirinto do que eu sinto; se soa e ecoa, é canivete que corta, quando nem tanta coisa importa, o erro se repete e nada descreve a sua ou a minha falta. E quando surge a manhã, a palavra ainda está muda e se faz também surda, diante dos gritos inauditos das madrugadas que se perderam... Sou dona do que calo, escrava do que falo... E quero mais me escravizar mesmo pelo que não consigo expressar; palavras são palavras, pequenas diante das verdades que me fazem senhora do que não digo e se vou ou se fico, chego sem mesmo ir, me perco, me acho, me encaixo nas manhãs do seu desejo a me possuir". Veja mais aqui, aqui e aqui.

Imagem: Musidora, do célebre pintor do Arcadismo inglês Thomas Gainsborough (1828-1788)

Curtindo Live at Montreux (Havoc and Bright Lights – Guardian Angel Tour) – Montreux Jazz Festival, Switzerland (2013), da cantora, compositora, produtora e atriz canadense Alanis Morissete.

PENSAMENTO COMPLEXO – A obra Introdução ao pensamento complexo (Sulina, 2005), do antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin, aborda tema como a inteligência cega, a tomada de consciência, o problema da organização do conhecimento, a patologia do saber, a necessidade do pensamento complexo, a Indo-américa, a teoria sistêmica, o sistema aberto, o sujeito e o objeto, coerência e abertura epistemológica, scienza nuova, a integração das realidades banidas pela ciência clássica, a virada paradigmática, o paradigma complexo e simplificador, ordem e desordem no universo, necessidade dos macroconceitos, o todo está na parte que está no todo, da auto-organização à auto-eco-organização, viver e lidar com a desordem, epistemologia da complexidade, os mal-entendidos, a migração dos conceitos, entre outros assuntos. Destaco o texto introdutório: [...] A palavra complexidade só pode exprimir nosso incômodo, nossa confusão, nossa incapacidade para definir de modo simples, para nomear de modo claro, para ordenar nossas idéias. O conhecimento científico também foi durante muito tempo e com freqüência ainda continua sendo concebido como tendo por missão dissipar a aparente complexidade dos fenômenos a fim de revelar a ordem simples a que eles obedecem. Mas se resulta que os modos simplificadores de conhecimento mutilam mais do que exprimem as realidades ou os fenômenos de que tratam, torna-se evidente que eles produzem mais cegueira do que elucidação, então surge o problema: como considerar a complexidade de modo não simplificador? Este problema, entretanto, não pode se impor de imediato. Ele deve provar sua legitimidade, porque a palavra complexidade não tem por trás de si uma nobre herança filosófica, científica ou epistemológica. Ela suporta, ao contrário, uma pesada carga semântica, pois que traz em seu seio confusão, incerteza, desordem. Sua primeira definição não pode fornecer nenhuma elucidação: é complexo o que não pode se resumir numa palavra-chave, o que não pode ser reduzido a uma lei nem a uma ideia simples. Em outros termos, o complexo não pode se resumir à palavra complexidade, referir-se a uma lei da complexidade, reduzir-se à ideia de complexidade. Não se poderia fazer da complexidade algo que se definisse de modo simples e ocupasse o lugar da simplicidade. A complexidade é uma palavra-problema e não uma palavra-solução. [...] Em toda a minha vida, jamais pude me resignar ao saber fragmentado, pude isolar um objeto de estudo de seu contexto, de seus antecedentes, de seu devenir. Sempre aspirei a um pensamento multidimensional. Jamais pude eliminar a contradição interna. Sempre senti que verdades profundas, antagônicas umas às outras, eram para mim complementares, sem deixarem de ser antagônicas. Jamais quis reduzir à força a incerteza e a ambiguidade. [...] Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

O PIROTÉCNICO ZACARIAS – O livro O pirotécnico Zacarias (Ática, 1974), do escritor, advogado, professor e jornalista Murilo Rubião (1916-1991), é composto de oito contos que se inserem no gênero fantástico com narrativas que se dimensionam o onírico, situações absurdas e valorização do sobrenatural. Da obra destaco trecho do conto homônimo: [...] Ao clarear o dia, saí da semiletargia em que me encontrava. Alguém me perguntava onde eu desejava ficar. Recordo-me que insisti em descer no cemitério, ao que me responderam ser impossível, pois àquela hora ele se encontrava fechado. Repeti diversas vezes a palavra cemitério. (Quem sabe nem chegasse a repeti-la, mas somente movesse os lábios, procurando ligar as palavras às sensações longínquas do meu delírio policrômico.) Por muito tempo se prolongou em mim o desequilíbrio entre o mundo exterior e os meus olhos, que não se acomodavam ao colorido das paisagens estendidas na minha frente. Havia ainda o medo que sentia, desde aquela madrugada, quando constatei que a morte penetrara no meu corpo. Não fosse o ceticismo dos homens, recusando-se aceitar-me vivo ou morto, eu poderia abrigar a ambição de construir uma nova existência. Tinha ainda que lutar contra o desatino que, às vezes, se tornava senhor dos meus atos e obrigava-me a buscar, ansioso, nos jornais, qualquer notícia que elucidasse o mistério que cercava o meu falecimento. Fiz várias tentativas para estabelecer contato com meus companheiros da noite fatal e o resultado foi desencorajador. E eles eram a esperança que me restava para provar quão real fora a minha morte. No passar dos meses, tornou-se menos intenso o meu sofrimento e menor a minha frustração ante a dificuldade de convencer os amigos de que o Zacarias que anda pelas ruas da cidade é o mesmo artista pirotécnico de outros tempos, com a diferença de que aquele era vivo e este, um defunto. Só um pensamento me oprime: que acontecimentos o destino reservará a um morto se os vivos respiram uma vida agonizante? E a minha angústia cresce ao sentir, na sua plenitude, que a minha capacidade de amar, discernir as coisas, é bem superior à dos seres que por mim passam assustados. Amanhã o dia poderá nascer claro, o sol brilhando como nunca brilhou. Nessa hora os homens compreenderão que, mesmo à margem da vida, ainda vivo, porque a minha existência se transmudou em cores e o branco já se aproxima da terra para exclusiva ternura dos meus olhos. [...] Veja mais aqui.

AS CRIADAS – A peça teatral As criadas (Les Bonnes, 1946-47), do controverso escritor e dramaturgo francês Jean Genet (1910-1986), traz a histórias de duas irmãs que empregadas domesticas que executam elaborados rituais sadomasoquistas que levam a um jogo com desfecho trágico. Da obra destaco o trecho: [...] CLAIRE: Solange! Solange! Solange! SOLANGE: Berre à vontade! Pode até lançar seu grito derradeiro, Madame! (Empurra Claire, que fica agachada num canto) Enfim! Madame está morta! Estendida no linóleo ... Estrangulada pelas luvas de lavar panelas. Madame pode permanecer sentada! Madame pode me chamar de senhorita Solange. Justamente. É por causa do que eu fiz. Madame, o doutor me chamará Senhorita Solange Lemercier ... Madame devia ter tirado esse vestido preto, é grotesco. (Imita a voz de Madame) Eis-me aqui reduzida, por luto a minha criada. A saída do cemitério, todos os empregados do bairro desfilavam diante de mim como se eu fosse alguém da família. Tantas vezes fiz de conta que ela pertencia à família. Vai ver que a morte levou esse gracejo até as últimas conseqüências. Oh! Madame, sou sua igual Madame, e ando de cabeça erguida ... (Ri) Não, senhor inspetor, não ... o senhor não saberá nada sobre o meu trabalho. Nada sobre o nosso trabalho em comum. Nada sobre a nossa colaboração para esse assassinato ... Os vestidos? Oh! Madame pode guardá-los. Minha irmã e eu tínhamos os nossos. Aqueles que vestíamos a noite, escondida. Agora tenho meu vestido e sou sua igual. Estou com a toalete vermelha das criminosas. Faço rir o doutor? Faço o doutor sorrir? Ele pensa que as criadas devem ter bom gosto de não fazerem gestos que estão reservados à Madame! Verdade que me perdoa? É a bondade em pessoa. Quer competir comigo em grandeza. Mas a que eu conquistar é a mais selvagem ... Madame começa a perceber minha solidão! Finalmente! Agora estou sozinha, medonha. Podia lhe falar com crueldade, mas posso ser boa. Seu medo vai passar, Madame. Vai passar completamente. No meio das suas flores, seus perfumes, seus vestidos. Aquele vestido branco que a senhora usava à noite no baile da ópera, aquele vestido branco que eu não deixo ela vestir nunca. E no meio das suas jóias, dos seus amantes. Quanto a mim, tenho, minha irmã. Sim, ouso falar nela. Ouso, Madame. Posso ousar tudo. E quem poderia me fazer falar? Quem teria a coragem de me dizer: “minha filha”? Eu servi. Fiz os gestos que são necessários para servir. Sorri para Madame. Me abaixei para lavar os ladrilhos, me abaixei para fazer a cama, me abaixei para descascar legumes, para escutar atrás das portas, colar meu olho nas fechaduras. Mas agora estou de pé. E firme. Sou a estranguladora. A senhorita Solange, aquela que estrangulou a irmã! Me calar! Madame é mesmo delicada. Mas tenho pena da brancura da Madame, da sua pele acetinada, das suas orelhinhas, dos seus pulsinhos ... Eu sou a galinha preta, tenho os meus juízes. Sou da polícia ... Claire? Ela gostava muito, muito mesmo da Madame! ... Não senhor inspetor, diante deles não explico nada. Essas coisas só interessam a nós ... Aquilo, minha filha, a nossa noite, nossa! (Acende um cigarro e fuma desajeitadamente. A fumaça a faz tossir) Nem vocês nem ninguém vai saber nada, senão que desta vez Solange foi até o fim. Vocês a estão vendo vestida de vermelho. Ela vai sair. (Solange se dirige para a janela, abre-a e sobe a sacada, de costas para o público, encarando a noite. Dirá a retirada seguinte. Um vento leve faz ondular as cortinas) Sair. Descer a grande escadaria! A polícia a acompanha. Saiam à sacada para vê-la seguir entre os negros penitentes.É meio-dia. E, assim, leva na mão uma tocha de nove libras. Logo atrás, o carrasco segreda-lhe ao ouvido palavras de amor. O carrasco me acompanha, Claire! (Ri) Ela será conduzida em cortejo por todas as criadas do bairro, por todos os domésticos que acompanharam Claire à sua última morada. (Olha para fora) Levam coroas, flores, bandeirolas, tocam o dobre de finados. O enterro desdobra sua pompa. Lindo, não. Vêm primeiro os mordomos, de fraque, sem forro de seda. Trazem suas coroas. Depois os criados de libré, os lacaios de culote curto e meias brancas. Trazem suas coroas. Vêm depois os camareiros e depois as arrumadeiras, trazendo as nossas cores. Vêm os porteiros e vêm ainda, as delegações do céu. E eu as conduzo. O carrasco me embala. Todos clamam. Estou pálida e vou morrer! (Entra) Quantas flores! Deram-lhe um lindo enterro, não. Oh! Claire, minha pobrezinha Claire! (Rompe em soluços e se afunda numa poltrona. Levanta-se de novo) Não adianta, Madame, obedeço à polícia. Só ela me compreende. Ela também é do mundo dos réprobos. (Debruçada na ombreira da porta da cozinha, Claire visível só para o público, desde há instantes ouve sua irmã) Agora somos a senhorita Solange Lemercier. A mulher Lemercier. A Lemercier. A célebre criminosa. (Cansada) Claire, nós estamos perdidas. CLAIRE: (Dolente, com a voz da Madame) Fecha a janela e corra a cortina. SOLANGE: Já é tarde. Todo mundo foi dormir. Não vamos continuar. CLAIRE: (Faz com a mão um gesto de silêncio) Claire, você vai me servir um chá. SOLANGE: Mas...  CLAIRE: Eu estou dizendo, meu chá.  SOLANGE: Estamos mortas de cansaço. Temos de parar. (Senta-se na poltrona) CLAIRE: Ah! Absolutamente! Não! Então pensa, criadinha, que se safa assim à toa? Seria fácil demais conspirar com o vento, ser cúmplice da noite. SOLANGE: Mas CLAIRE: Não discuta. É a mim que compete dispor destes minutos finais. Solange, tu me guardarás em ti. [...]. Essa peça foi adaptada para o cinema, The Maids (1974) pelo diretor Christhopher Miles. Veja mais aqui.

O CASAMENTO DE MARIA BRAUN – O premiado drama O casamento de Maria Braun (Die Ehe Der Maria Braun, 1978), do cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), é uma das obras-primas do diretor que conta a história de uma mulher cujo casamento se transforma numa longa espera pela reunificação com o seu marido, que parte para a guerra, se perde na frente russa, é preso e emigra para a América. A trama inclui várias metáforas cinematográficas sobre a questão da identidade e as experiências do pós-guerra alemão, narrando o percurso de Maria Braun, desde o seu casamento apressado em 1943 e contando as várias fases da história da Alemanha, dos anos de guerra ao milagre econômico. Destaque para a atriz alemã Hanna Schygulla que arrebatou juntamente com o Urso de Ouro do filme, o Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Cinema de Berlim, de 1979. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Hoje é dia da atriz, cantora, modelo e musa mundial Marilyn Monroe (1926-1962). Veja mais aqui.

Hoje é o Dia da Imprensa


Veja mais sobre:
Quando não é na entrada é na saída, O autor como produtor de Walter Benjamin, Antologia Pornográfica de Alexei Bueno, Linguística & Estilo, Fronteiriços de Anna Bella Geiger, a música de Andrea dos Guimarães, Wunderblogs, a ninfa Carna, a arte de Gilvan Samico & Matéria Incógnita aqui.

E mais:
Vamos aprumar a conversa, Pensamento complexo de Edgar Morin, Pirotécnico Zacarias de Murilo Rubião, As criadas de Jean Genet, o cinema de Rainer Werner Fassbinder & Hanna Schygulla, a arte de Hanna Schygulla, Imprensa, a música de Alanis Morissete & a pintura de Thomas Gainsborough aqui.
Credibilidade da imprensa brasileira, A imprensa & Millôr Fernandes, a música de Eduardo Gudin, História da Imprensa de Nelson Werneck Sodré, Beijo no asfalto de Nelson Rodrigues, a literatura de Cervantes & a arte da jornalista Enki Bracaj aqui.
Inclusão social pelo trabalho, Pitágoras, José Louzeiro, Samir Yazbek, Jacques Rivette, Xue Yanqun, Ednalva Tavares, Lisa Lyon, Música Folclórica Pernambucana & A imprensa na atualidade aqui.
A mulher do médico, Do sentir de Mario Perniola, a fotografia de Alfred Cheney Johnston, a arte de Sandra Cinto.& Akino Kondoh, Sonhos graúdos na diversão da mocidade aqui.
Mil sonhos na cabeça e o amanhã nas mãos, A pedra do sono de João Cabral de Melo Neto, a pintura de Omar Ortiz, a arte de Gary Jackson & Sean Seal aqui.
A vida em risco e o veneno à mesa, O direito dos povos de Amartya Kumar Sem, a pintura de Roberto Fernandez Balbuena & a arte de Kadee Glass aqui.
O brinde do amor, Pedagogia do oprimido de Paulo Freire, a música de Vanessa da Mata, a arte de Luciah Lopez, Project Global Peace Art & Havia mais que desejo na paixão feita do amor aqui.
Sexta postura, A arte de amar de Manuel Bandeira, a música de Al Di Meola, a escultura de Ambrogio Borghi, arte de Juli Cady Ryan & Quando amor premia o sábado aqui.
Desencontros de ontem, reencontros amanhã, Augúrios da inocência de William Blake, a música de Gonzaguinha, a arte de Duarte Vitória, a poesia de Tony Antunes & Alô, Congresso Nacional, ouça quem o elegeu aqui.
O que é ser brasileiro?, Sobre a violência de Hannah Arendt, a arte de Alex Grey, a música de Carol Saboya & Quem faz e não sabe o que fez é o mesmo que melar na entrada e na saída e nem se lembrou de limpar. Que meladeiro aqui.
Pra quem nunca foi à luta, está na hora de ir, a escultura de Phillip Piperides, a música de Duo Graffiti, a arte de Tracey Moffatt & Tanise Carrali aqui.
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Paz na Terra:
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terça-feira, novembro 25, 2014

GEORGES BATAILLE,OCTAVIO PAZ, ROBERT MISRAHI, SERGE MOSCOVICI, ANG LEE, MURILO RUBIÃO & PROGRAMA TATARITARITATÁ

O EX-MÁGICO DE MURILO RUBIÃO AO CONTRÁRIO

Gentamiga, vamos aprumar a conversa!

Seguinte: ao contrário do Ex-mágico de Murilo Rubião, aquele que era funcionário público e que tirava tudo do bolso, da gola do paletó, da manga da camisa, do cós da calça, do fundo da cartola, do buraco do umbigo, dos antros nasais, da batata da perna, de trás da orelha, do fiapo do cabelo, do meio da ceroula, do osso do mucumbu e doutras partes improváveis, tudo mesmo – até o inimaginável! - para premiar os presentes, os agentes e servidores públicos atuais colocam tudo de volta (e isso desde o séc. XVI quando os perós nos ensinaram o gostinho dessa ambiguidade de cair por cima e de fazer tudo caber no bolso – e noutras intimidades receptoras - tal qual mágico que faz desaparecer tudo à nossa frente). Conheço até um desses fiscais de instituições públicas que mediam e concatenavam para fazer caber nos seus próprios bolsos coisas do tipo, assim – incabíveis à primeira vista – como aviões, mansões, casas de praia, tratores, automóveis, iates, porta-aviões e coisas do tipo para ver como fazê-los desaparecer dentro das suas posses. Era engraçado vê-lo fazer careta com a ginástica intelectual de medir palmo a palmo e que, diante do insucesso pela constatação da impossibilidade de infringir leis físicas, mesmo assim, dava um jeito. Esse o barnabé, o primeiro estágio de instituição do Fabo brasileiro.

Ao contrário mesmo do personagem do escritor mineiro, os barnabés de hoje são os mais insaciáveis devoradores que cultuam a cantilena do “Venha nós”, cuja expressão é identificada na tipologia carne-de-pescoço que se tornam rodas-presas das disfunções burocráticas, colocando todo brasileiro num mata-burro quase intransponível: a espórtula (popularmente conhecida como toco de barnabé). Esse o azeite (ou vaselina, como quiserem) que faz girar a roda do universo público brasileiro. Por isso mesmo é o primeiro estágio do fabismo pátrio consolidando o Fecamepa inaugurado em 1500 e que segue cada vez mais robusto século após século para nossa indisfarçável indignação.

Uma vez, logo quando eu vi o art. 37 da Constituição Federal de 1988, pensei comigo: agora vai! Até pensei que era chegada a hora de se levar o país a sério. Qual nada, os anos foram passando e eu descobri que se fabricam milhares de leis por dia regulamentando tudo e, apesar da compulsoriedade, jamais foram nem serão cumpridas. E haja estelionato pipocando aqui, ali, acolá, alhures. Afinal, a nossa Carta Magna ficou na base do pra inglês ver (melhor diz o antropólogo Roberto DaMatta: pra francês ver!). Ao ponto de um dos advogados de um dos presos dos altos escalões das empreiteiras chegar aos microfones da mídia espetaculosa e dizer que o serviço público brasileiro só funciona na base da propina. Ora, ora, se não fosse tão óbvia essa constatação, diria eu que esse advogado descobriu o Brasil de verdade! Primeiro que ver executivos de empreiteiras (ainda faltam dos bancos, dos laboratórios farmacêuticos, dos planos de saúde, das seguradoras, das... vote! Parece mais aquela música: “Se gritar: pega-ladrão! Não fica um mermão!”), enfileirados indo pro xilindró é coisa pra brasileiro ver mesmo (e eu que sempre me tive na convicção de que o verdadeiro esporte brasileiro é a espórtula). Segundo, que meu desconfiômetro fica ligado prevendo a inauguração de uma nova pizzaria nas quebradas – e lava jato vire moda e mania. Terceiro: ou a gente fecha o olho – como sempre fizemos deitados eternamente em berço esplêndido esperando molhar o bico acaso sobre farelos das fortunas -, ou vamos aprumar a conversa e Tataritaritatá!


DITOS & DESDITOS - Disse alguém que o historiador é um profeta às avessas, um adivinho do passado; o poeta, poderíamos dizer, é um historiador que adivinha o que acontece. Pensamento do escritor e diplomata mexicano Octavio Paz (1914-1998). Veja mais aqui e aqui.

DESAMPARO ATUAL[...] Tenho no entanto a convicção de que nosso desamparo de hoje, nossa insegurança ante a ciência, os frutos da terra, o corpo dos animais, o contato com os outros serem, remontam àquele auto-de-fé das alinaças do universo. Restam o efêmero e a nostalgia das paixões da natureza [...]. Trecho de A natureza é uma obra de arte? (Zahar, 1999), do psicólogo social romeno Serge Moscovici (1928-2014). Veja mais aqui.

FELICIDADE - [...] O ser humano é sujeito. Não cogito puro e abstrato, mas carne e consciência, isto é, corpo-sujjeito capaz de tornar-se sujeito no sentido pleno. E este não é pura racionalidade nem piro instinto ou pulsão: é desejo. Não incosnciente, mas desejo consciente (embora obscurop) capaz de tornar-se desejo refletido. É para esse sujeito que se coloca a questão da felicidade: é porque o hmem é a um só tempo desejo e consciência de si (capaz de tornar-se desejo refletyido tendo o conhecimento de si) que ele pode se dirigir rumo a um gozo que seja satisfatório e que transcenda qas codições atuas de sua vida. [...] Trecho de A felicidade é nosso único objetivo? (Zahar, 1999), do filósofo francês Robert Misrahi.

ÂNUS SOLAR[...] Claro está que o mundo é paródia pura, quer dizer que toda coisa vista é paródia de outra, ou a mesma coisa mas com uma forma que decepciona. Desde que as frases circulam nos cérebros ocupados em refletir, o mundo chegou à identificação total, pois uma cópula ajuda cada frase a religar as coisas entre si; e estaria tudo visivelmente ligado se um só olhar bastasse à descoberta do traçado inteiro que um fio de Ariadne deixou e conduz no seu próprio labirinto o pensamento. Mas a cópula dos termos não irrita menos que a dos corpos. E quando a mim próprio exclamo: SOU O SOL, disto resulta uma ereção integral porque o verbo ser é veículo do frenesi amoroso. Todos têm consciência de que a vida é paródica e uma interpretação lhe falta. Por isso o chumbo é a paródia do ouro. O ar é a paródia da água. O cérebro é a paródia do equador. O coito é a paródia do crime. O ouro, a água, o equador ou o crime podem ser enunciados indiferentemente como o princípio das coisas. E se a origem não lembra o chão do planeta, que nos parece base, mas o movimento circular que em redor de um centro móvel o planeta faz, um carro, um relógio ou a máquina de costura podem de igual forma ser aceitos na função de princípio gerador. Os dois movimentos principais são o rotativo e o sexual, de combinação expressa numa locomotiva de pistões e rodas. [...]. Trechos extraídos da obra O ânus solar (Hiena, 1985), do escritor francês Georges Bataille (1897-1962). Veja mais aqui.

BANQUETE DE CASAMENTO – O premiado filme Banquete de casamento (1993), de Ang Lee, conta a história do jovem executivo chinês que vive em Nova York com o namorado estadunidense aceita casar-se com moça chinesa a fim de esconder sua condição gay dos pais que vêm visita-lo. Ela, em troca, poderá conseguir o visto e permanecer nos Estados Unidos. Isso gera uma série de situações ora engraçadas, ora difíceis, acabando por mostrar que os velhos percebem muito mais do que lhes é contado. O filme envolve questões éticas acerca da orientação sexual, respeito pelo modo de ser dos outros e quebra de preconceitos.



PROGRAMA TATARITARITATÁ – O programa Tataritaritatá que vai ao ar todas terças, a partir das 21 (horário de Brasilia), é comandado pela poeta e radialista Meimei Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Confira a programação desta terça aquiLogo mais, a partir das 21hs, acontecerá mais uma edição do programa Tataritaritatá – agora com 2 horas de duração -comemorando os mais de 400 mil acessos do blog, apresentação da querida Meimei Corrêa e com as seguintes atrações na programação: Pat Metheny, Yes, Quinteto Armorial, Leo Gandelman, Orquestra de Cordas Dedilhadas de Pernambuco, Tunai, Fagner, Orquestra Contemporânea de Olinda, Trovadores Urbanos, Orquestra Imperial, Cambada Mineira, Lelo Praxedes, Ricardo Machado, Monsyerrá Batista, Cikó Macedo, O Teatro Mágico, Tatiana Cobbett & Marcoliva, Zé Linaldo & Washington Sidney, Gerard Joling, Jorge Medeiros & muito mais! Veja mais aqui.

SERVIÇO:
O que? Programa Tataritaritatá
Quando? Hoje, terça, 25 de novembro, a partir das 21hs
Onde? No MCLAM - blog do Programa Domingo Romântico
Apresentação: Meimei Corrêa


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NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

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