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terça-feira, janeiro 30, 2024

SUSAN GREENFIELD, GERTRUDE STEIN, MEG CABOT & MANUEL BANDEIRA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do álbum É frevo, meu bem! (Aple Music, 2011), Esse é o meu carnaval (Tratore, 2007) e o DVD Pernambuco para o Mundo (Tratore, 2014), da cantora Nena Queiroga, considerada a Rainha do Carnaval pernambucano. Veja mais aqui.

 

RUBRICA DE CRONÓTOPO... – Se não tivesse o coração amando, eu não seria nada. Se não soubesse o dia o que seria a noite, não valeria a vida. Pensando bem, ainda há pouco era um menino da beira do rio e, já mal dobrara algumas poucas esquinas, nem via direito o tanto que passou. Era como se já fosse março e perdesse quantos dias e meses, se tudo o mais esqueci nas últimas três ou quatro décadas, quantos motivos teria senão a pilhéria pronta. Ontem mesmo pelas três da tarde ou sei lá se tanto, tivera um susto ao esbarrar com a Simone Weil: As soluções não são fáceis de conceber... Todos os pecados são tentativas de preencher vazios... Nem dois segundos sequer bastaram, quandei fé já passava das nove da noite e o cochilo. Foi então que pude ver os urubus como verdadeiros túmulos povoando o dia no meu momento crepuscular. Do outro lado, nada mais que esfaimados e furibundos na festa da minha febre noturna e quem morreu de espanto ninguém acreditava. É tão Brasil quanto imoral, que importa. Dizia-me Sarah Kane: Depois de ter percebido que a vida é muito cruel, a única resposta é viver com tanta humanidade, humor e liberdade que puder... Eles vão me amar por aquilo que me destrói... Não sei quantos milênios atravessei, se quadras percorri de A a Z e lá estava eu tão longe quanto o país das trinta e seis mil vontades, no cercado mágico de Maurois. Como quem não conseguia decorar O corvo e a raposa de La Fontaine, sabia lá se sonhos ou loucura, andava dez vezes mais. E parecia nem ter saído do lugar, como se arrastasse pelas areias que davam pro mar do Tempo Perdido, uma sujeira espessa com perfume de rosas. E, apesar disso, ali ainda não era março, mas foi onde apenas uma mulher não tinha nem nunca teve problema algum. Fui ver de perto e era a belíssima moira Aisa: Ô cabra andejo, para quieto! Ela, pra quem não sabe Átropos, inamovível, inflexiva, dizia ser uma das sobreviventes daquele voo 370 desaparecido da Malasya Air Line. Como podia? Nem atinava nada direito, azucrinava muito o cricrilar persistente de grilos machos, coisa mais chata! Então, virou-se pra mim informando ser ali o País do Presente de Poe – de Pym of Nantucket, na verdade - e esqueci quem era e o que fazer. Cá com meus botões: se não era o Triângulo das Bermudas, estava no meio do maior quebra-cabeça. Então me sussurrou Ada Negri: Não há momento que não pese sobre nós o poder de todos os tempos... Aí celebrei: abençoada seja pelos cotovelos no tumulto dos dias, terra de água acima, fogo de vento abaixo. Cada um a sua vida. Se sabia onde pisava, não poderia jamais esquecer das esquinas e pedras falsas. Tudo poderia acontecer. Então pisei devagar, os mortos agradeceram...’Ainda não era e deslembrei, assim mesmo, perdendo a raiz. Não precisava mais de ontem nem amanhã, vivia agora. Até mais ver.

 

QUATRO POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

UMA ROSA É UMA ROSA É UMA ROSA É UMA ROSA - Uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa \ Encanto extremo. \ Botina extra. \ Encanto extremo. \ O mais doce sorvete. \ Páginas épocas página épocas página épocas.

ÍNFIMA VELHA ESTRELA - Ínfima velha estrela. \ Fluída sempre. \ Foste um triste percentual. \ Faz um dia de sol. \ Vigia ou água. \ Tão logo a lua ou um pesado velho assédio.

ENTRE - Entre um lugar e um uma bala de açúcar existe uma estreita trilha a pé que mostra mais subida que qualquer coisa, tão mais real que o significado de um chamado um travesseiro uma coisa completa como aquilo. Uma virgem uma completa virgem é julgada feita e assim entre curvas e esboços e estações reais e mais dos óculos e um perfeito arranjo sem precedente entre duas senhoras e leves resfriados não há bosque de cetim brilhando.

UMA SOMBRINHA DESFECHADA - Qual era a utilidade de não deixá-la lá onde ela ficaria pendurada qual era a utilidade se não havia chance de nunca tê-la visto aqui e mostrar que ela era bonita e certa a forma de mostra-la. A lição é ensinar que ela se mostra assim, que ela se mostra assim e que nada mais, que não há nada a mais, que não há mais que se fazer com ela e assim tanto quanto existe lá bastante motivo para se fazer uma troca.

Poemas da escritora e feminista estadunidense Gertrude Stein (1874-1946). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui,

 

ABANDONO - […] Na verdade, o termo “perdoar e esquecer” não faz sentido para mim. Perdoar nos permite parar de pensar em um problema, o que nem sempre é saudável. Mas se esquecermos, não aprendemos com nossos erros. E isso pode ser mortal [...]. Trecho da obra Abandon (Point, 2011), da escritora e roteirista estadunidense Meg Cabot, que na obra Ninth Key (Turtleback, 2004) expressa: […] Posso estar morto há cento e cinquenta anos, Susannah,... mas isso não significa que não sei como as pessoas dizem boa noite. E geralmente, quando as pessoas dizem boa noite, elas guardam a língua para si mesmas. [...]. E na obra Twilight (Avon, 2005) evidencia que: [...] O que é um mediador, você pergunta? Ah, uma pessoa que atua como elo de ligação entre os vivos e os mortos. Ei, espere um minuto... o que você está fazendo com essa camisa de força? [...], afora nos contemplar com frases lapidares: Escreva o tipo de história que você gostaria de ler. As pessoas lhe darão todo tipo de conselho sobre como escrever, mas se você não estiver escrevendo algo que goste, ninguém mais vai gostar. Você não é uma nota de cem dólares, nem todo mundo vai gostar de você. Se você ama alguma coisa, liberte-a. Se fosse para ser, ele voltará para você. Veja mais aqui e aqui.

 

A TECNOLOGIA É NOSSA ESCRAVA, NÃO NOSSA MESTRA - O ambiente digital está alterando nosso cérebro de forma inédita. O primeiro é o impacto das redes sociais na identidade e nos relacionamentos. O segundo é o impacto dos videogames na atenção, agressividade e dependência. E o terceiro é sobre o impacto dos programas de busca no modo como diferenciamos informação de conhecimento, como aprendemos de verdade. É claro que há muitos estudos que ainda precisam ser feitos, mas certamente há cada vez mais evidências sobre aspectos positivos e negativos. Agora, só porque vemos um aumento de QI em quem joga videogames não quer dizer que haja um aumento de criatividade ou capacidade de escrita. Também se sabe, por alguns estudos, e por exames de imagem, que os videogames aumentam áreas do cérebro que liberam dopamina. Também sabemos que, em casos extremos, nos quais as pessoas gastam até 10 horas por dia na frente da tela, existe uma forte correlação com anormalidades em exames cerebrais. Como costumamos dizer, uma andorinha só não faz verão. Então é importante fazer mais estudos. Isto não é definitivo, em se tratando de ciência nada é definitivo, por isso é importante começar a fazer pesquisa básica porque, até agora, está claro que coisas boas e coisas ruins estão acontecendo de um modo que não haviam acontecido em gerações passadas. É um desafio, mas o que temos que fazer é tentar pensar em maneiras, não tentar negar a tecnologia. Nós podemos, na nossa sociedade maravilhosa, com toda essa tecnologia, com todas as oportunidades que temos, dar aos nossos filhos um mundo tridimensional interessante para viver. A partir disso eu infiro que as pessoas estão construindo uma identidade no ciberespaço que em boa parte é formada pela visão das outras pessoas. Eu acho interessante essa tendência de que mesmo que você sinta-se muito importante, muito conectada, você se sente insegura, tenha baixa autoestima, sinta-se constantemente inadequada. Eu acho que precisamos olhar para as estatísticas em vez de apenas levar em conta as impressões pessoais ou os meios de comunicação. De acordo com as estatísticas, os chamados nativos digitais, gente que nasceu após 1990, apresentam níveis de uso alarmantes. Trechos extraídos da entrevista da revista Fronteiras (2018) concedida pela neurocientista britânica Susan Greenfield. Veja mais aqui.

 

LIBERTINAGEM & ESTRELA DA MANHÃ, DE MANUEL BANDEIRA

A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca. \ Eu tomo alegria!

Trecho do poema Não sei dançar, extraído da obra Libertinagem & Estrela da Manhã (Nova Fronteira, 2000), do poeta, tradutor, crítico literário e de arte, Manuel Bandeira (1886-1968). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

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segunda-feira, fevereiro 29, 2016

O LOBISOMEM DE ALAGOINHANDUBA


 Imagem: Homesome, o homem virando lobisomem, pintura de Waldomiro de Deus (foto: Varnderlei). Veja mais aqui, aqui e aqui.

O LOBISOMEM DE ALAGOINHANDUBA

Luiz Alberto Machado

O lugar era bastante pacato não houvesse tantos rumores de se correr bicho pela redondeza. Bastava cair a noite o temor convivia com os moradores locais. Falavam temerosos de um lobisomem atormentado a todos, principalmente mulheres que, quando não sumiam da face da terra, eram encontradas estupradas ou estropiadas. A maior parte delas ou não saiam dos pés do padre Quiba em confissões intermináveis, ou endoideciam e, muitas das vezes, pariam meninos que eram abandonados à sorte.
As casadas eram as que mais eram vitimadas pelo indesejável monstro. Sempre que os maridos saíam para as reuniões dos clubes de serviço, ou da Câmara de Vereadores, ou os encontros no bar pros jogos ou conversa fora, as indefesas eram atacadas nas dependências dos seus próprios lares.
Não se tinha notícia de viúvas ou separadas, desquitadas ou divorciadas acometidas pela sandice do desgraçado. Talvez pela solidão delas, aquiescessem sequiosas por seus ataques. Uma ou outra solteira ou debandada que dava nos dentes com reclamações da invasão dele. No mais, eram as casadas as que faziam o grupo de risco.
O padre Quiba não sabia mais o que fazer, reunindo os cidadãos vitimados para uma caçada ao famigerado lobisomem. Por noites e madrugadas repetidas não lograram o mínimo êxito. Até aumentavam os ataques dele, justamente às esposas dos que se encontravam entre os caçadores. Chegaram a conclusão que só o padre Bidião poderia dar cabo de tais fatos. Todavia, como ele se encontrava hibernando na construção do seu Evangelho, nada se poderia fazer.
Foi a partir de então que os mais medrosos daquele distrito, cerravam suas portas logo à boquinha da noite quando imperava o pânico e o pavor. Aquele arruado de casa domiciliava humílimas pessoas que o tempo ruminara. No centro, uma pracinha ainda por florescer e já seu cartão de visitas, para desleixe nas horas minguadas do dia, num carteado e conversas sobre a vida de todos os moradores, dissecadas nos mínimos detalhes pelas narrações mais escabrosas possíveis. A pabulagem era a ocupação principal daquele povinho e quando anoitecia naquela comarca, cedia lugar às invencionices e temores noturnos peculiares à imaginação de quem não tem o que fazer além de coçar o saco e ver as horas se exaurirem no trâmite da vida, vez que a energia elétrica cessava seu esplendor exatamente às vinte e duas horas noturnas, ficando a cidade entregue às trevas.
Tudo começou com a boataria quando o lugarejo fora assaltado por seres extraterrestres. Era uma verdadeira procissão inominável e, amedrontados, não ousavam abrir as portas, nem olhar pelas frestas para decifrar o sucedido. Ouviam apenas ruídos de uma marcha descompassada pelo calçamento com uma iluminação externa de meter medo. A luz desses ETS atravessava as brechas das portas e janelas, clareando o interior das residências. Importunando durante a noite inteira, os alienígenas pezunhavam toda cidade sem serem aplacados por vivalma. O povo com um bafume por dentro, tudo tremendo que só vara verde com o acontecido.
Na manhã seguinte um burburinho nascia no interior das alcovas, discutindo o que ocorrera naquela madrugada lôbrega. Era um disse que era, contradições revisadas, invencionices descabidas, tudo do aloprado e das transcendências siderais. Arrepiados e aflitos com o acontecido arremataram ter sido aquilo um sinal do apocalipse, visto todos serem crentes do velho testamento e fiéis visitantes da igreja principal. Reuniram-se em todos os lugares e oraram o dia todo para que a força divina interviesse para salvação da alma deles de mais um atormentado sofrimento. O fato, de tão cabeludo que ficara, sobrepujara as cercanias e alcançara ouvidos alhures, chegando a estampar manchete de primeira página de jornal doutros confins. Ninguém que nunca ouvira falar de Alagoinhanduba, agora, depois de ser manchete televisiva, escrita e falada, tornara-se sensação nacional do Oiapoque ao Chuí. Repórteres do mundo inteiro azucrinaram o juízo dos cristãos, buscando depoimentos esclarecedores para um fato tão insólito, alimentando as organizações não governamentais do assunto, a se ouriçarem como pinto no lixo, com assunto tão de terceiro grau como aquele. Tornara-se uma notícia bombástica e, pelo andor da carruagem, mudaria de uma vez por todas aquela localidade.
Descobria-se, enfim, uma cidadezinha, senão, mal-assombrada, um lugarzinho daqueles, destamaínho, agraciado por uma invasão de ETS, era um privilégio dos grandes quebrando a rotina. A população nem queria falar do assunto envolvida numa atmosfera de temor. Temiam os castigos de Deus e uma nova investida dos tais interplanetários. Ninguém, na verdade, tivera coragem de presenciar in loco. Prostrados, o medo dominava. Quem mais marcou presença nos noticiários foi o vigário profetizando um grande armagedom sobre a cabeça dos pecadores. A lengalenga não cessara e o padre berrando pela salvação em Jesus, não dava descanso aos ouvidos timoratos. Mesmo assim, ninguém lhe dava atenção. Ele berrava em nome dos santos e santas, arcanjos e anjos do novo e velho testamento, anunciando a fúria de Moisés sobre todos aqueles que fizessem vista grossa às suas anunciações e que não haveria pecador que se salvasse daquele vaticínio, pois que todos os provérbios foram ditos aos tímpanos dos que residiam ali e não haveria uma nova arca de Noé para salvar quem não estivesse imbuído do espírito cristão dele e aos moucos propositais restaria a participação numa torre de Babel que jamais sairia do labirinto esconjurado. Um blablablá sem fim. De fato não era levado a sério o que dizia porque todos se achavam fiéis que receberiam a salvação invariavelmente. Temiam, sim, mas com a ciência de que eram legítimos fiéis da crença em Deus e maldiziam dos outros que deveriam estar cometendo ilícitos para serem agraciados com a fúria do senhor. Em suma, todos se achavam santos e, ao mesmo tempo, acusavam-se, uns aos outros, de demônios camuflados. E tinha mais: esperavam o reaparecimento do padre Bidião que, com certeza, resolveria esses incidentes em dois tempos.
Um mês e meio depois a cidade fora dada por esquecida na sua insignificância, restara apenas o pavor de um apocalipse vindouro naquela gente pobre e crédula. Arribaram dali todos os helicópteros humanos ávidos de detalhes; acabara-se o interesse pelo recôndito rincão do mundo.
Três semanas depois voltara todo tormento quando a Besta Fubana muito irada, a dar pipocos pelo meio da rua, relinchando alto, aparecera no meio da madrugada, amaldiçoando a tudo e todos na noite mais comprida que se tem notícia. Foram horas e horas de vociferações acusatórias contra aquele povinho besta, um a um, desenhando a sua personalidade e delatando as intimidades mais esdrúxulas de cada qual. Maridos, esposas, namorados, honestos, autoridades, todos, desde o paupérrimo morador da última casa da rodagem até ao Juiz, o Prefeito e o Bispo entraram na roda das difamações inflamadas pela Besta. Lá pras tantas, já cansada de desnudar, de debulhar a vida dos coitados moradores, a Besta arribou com uma zoada estrepitosa de estourar os ouvidos de todos dali. Os profissionais da imprensa acorreram às pressas a fim de flagrar mais uma história sobrenatural sucedendo naquela localidade. O plantão dos ávidos locutores durara dois meses até perceberem apenas informações imprecisas de casos desencontrados, colhidos de uma gente temerosa e arredia quanto a profanação dos mistérios do oculto. O que sabiam de mesmo era que a ausência do padre Bidião por ali, causara tantas coisas impressionantes e inimaginárias.
Nada mais ocorrendo, dias depois Alagoinhanduba voltara ao seu normal respirando aliviada, porém, sobressaltada a qualquer sinal advindo como agouro: uma coruja rasgando mortalha; um morcego que barroava nas portas; um piado de pássaro estranho; um silvo de cobra desconhecido; um gemido lá longe; tudo deixava o tirocínio com caraminholas por identificar. O sinal estava dado e obrigava reza diuturna aos sôfregos corações provincianos, genuflexos perante os altares de dia e noite, noite e dia, selando juramentos de não cometerem mais pecados, implorando pela clemência divina, visto que estavam sendo assolados injustamente por acontecimentos sórdidos.
Normalidade definitiva, mesmo assim não quiseram suspender a vigilância das orações, visto a qualquer momento nova fatalidade ocorresse, precaução de matuto de inteirar logo, passando da conta, melhor se creditando que deixar débito com as coisas do outro mundo. E viera, até que chegara as doze badaladas noturnas, uma voz agourenta, cheia de micagens, rasgando o silêncio de mortalha na noite.

- Com quem ficará o penico de Dona Chiquitinha Gonzaga?

Estremeceram todos mediante o anúncio daquela voz do além, daquela não escapava qualquer vivente. Para eles a morte viera buscar Dona Chiquitinha Gonzaga.

- Com quem ficará a caçola da véia?

Um serrote estridente fazia-se ouvir por toda cidade. De repente um estampido surgira, devia de ter sido arma de fogo. E era. Os cachorros assanhados latiam afobados.

- Vá-se embora, espírito zombeteiro!

Era a voz dela, moradora distante, viúva de anos, morava próximo ao cemitério, era doente de fúria, brava sempre. A sua companhia era, apenas, a criadagem vítima de sua arrogância. Há tempo ninguém lhe via as faces, deve de ter envelhecido até a bruxaria para a morte vir lhe cobrar agora a sua sorte partilhando os seus bens num serra-véia.

- Quem herdará os bisquís dela ?

Novo pipoco de espingarda seguida de uma gargalhada tonitruante. A voz era de fato agourenta e a velha destemida, enfrentava com todas as forças que lhe fartavam do gênio ruim, dos maus bofes dela com todos, ficando os ouvintes a torcer ora pela voz horripilante, ora pela coragem da anciã.

- Vá serrar a véia da sua mãe!

- Será o seu Camafeu?

Com a citação do nome de Camafeu numa acusação ruidosa, uma zoada ensurdecedora, vários estampidos foram disparados no meio da noite. Aquela insinuação caíra como uma bomba sobre a cidade, causando cochichos e disse-me-disse. Meus Deus! Camafeu, segundo as más línguas, era um farmacêutico do lugar, muito simpatizante da carunchosa e muito bem recepcionado por ela. Dizem mais que desde tempo remoto, a senil senhora nutria afeições especiais pelo marmanjo, deduzindo-se que o seu finado marido morrera de um ataque cardíaco por haver comprovado que fora corneado pelo boticário. Os tempos se passaram e tudo foi abafado como convinha a quem tem dinheiro e poder no lugar; e agora um novo escândalo vinha à tona envolvendo a macróbia e o dono da botica.
Corria-se que à noite perambulava uma tocha nas imediações da casa dela, a reluzência aparecia no meio da rua, se dirigindo ao cemitério e ficava rondando a casa da Dona Chiquitinha. Rica e avarenta como era ela, na época pensava-se ser um castigo de Deus para lhe atormentar, ou uma perseguição do diabo.

- É a tocha! É a tocha!

Era um asteroide para frente e para trás, causando pavor em todos. Era quase um cometa que desfilava pelas limitações da cidade e fazia peripécias nas proximidades da casa dela. Até hoje mistério não desvendado.
Agora era o além que mexia naquele vespeiro. Os mais desmemoriados do tempo se riam confidencialmente em meio ao alarido. Riam do jeito de ninguém ouvir. Era uma mangação que podia dar no maior nó cego. Aquela afirmação causava um rebuliço de ferver no sangue de quem estava quieto; quem ouvia aquela insinuação sabia que o chumbo grosso ia sobrar no meio da canela à caça dos destemidos espíritos. Outro tiro zuniu na escuridão e todos sabiam da pontaria certeira da coroca.  A zoada do serrote continuava inclemente, distribuindo a quem de direito todos os pertences da vetusta.
Ante meridiem! Virgem Maria! Uma correria varria a cidade por todas as suas locas, vasculhavam tudo, prenderam gente, esfolaram outros, torturaram vários para saber a autoria de tal asneira insolente. Nada apurado, um verdadeiro quartel de trombudos sentara praça nos arredores da moradia de Dona Chiquitinha. Ficaram mais de mês esperando o serra-véia do outro mundo. Aquilo não era brincadeira, todos armados até os dentes, pronto para sacrificar o cretino autor de tal avaria. Ao cabo de longo tempo a autoria daquelas ingresias permanecia anônimo, impune de levar socavões e de ser agarrado pelas mãos da justiça mais carniceira do mundo.
Depois, muito tempo depois, ora, foram uivos lancinantes e ganidos emitidos de regiões limítrofes ao município. Noite de lua cheia, ave! Ouvia-se ululante animal percorrendo as intimidades soturnas do sítio, vociferando presságios e causando arrepios temerários. Enveredando pela periferia mais ainda se ouvia os estrépitos no escuro como um abismo do mundo.
Nos dias seguintes ao plenilúnio, a calma voltava a habitar entre os munícipes. Isso, até a prisão de Jetevaldo. Bastou uma passada do padre Bidião por aquelas paragens, tudo se resolvera como num toque de mágica. Foi ele quem levou tudo pro Jetevaldo, um sujeito já vinha na mira da desconfiança e fora agarrado após a descoberta do assassínio de Rosimari. Esse crime pegou de cheio na consternação popular que jurara surrar o infrator desalmado. Foi uma agitação desmedida, o sujeito com a cara mais cínica do mundo, depois de cometido o delito à jovem debutante, caminhava ileso pelas ruas. É certo que os cachorros latiam muito com a sua presença. Ninguém suspeitava que ali estava um desafortunado filho do diabo. Havia um odor de sangue cru a cada aproximação dele, era um rejeitado, amaldiçoado. Era filho de Dona Ornela, uma senhora trabalhadora que perdera o marido muito jovem e possuía desse matrimônio, um único rebento: o Jetevaldo. O rapaz, segundo descoberta dos vizinhos, era muito estranho e dado a maus costumes causadores dos maiores vexames à sua santa maternal. Aprontava das muitas sugando da mãe os últimos míseros centavos de seu sustento. Possuía um sotaque repuxado adquirido de uma viagem, sem motivo aparente, a São Paulo. Sabe-se, apenas, que desaparecera de casa deixando a mãe aos prantos de tanto procurá-lo. E sem mais nem menos, reaparecera ele cheio de gírias, afeito a namoricos escondidos e safadezas muitas com as mocinhas da gente de bem.
Um dia, sob o pretexto de remeter missiva para uma amiga paulista, Jetevaldo convidou Rosimari para redigi-la em lugar e hora acertados. As garotas de Alagoinhanduba suspiravam ao seu encalço pela sua diferença de ser, seu jeitão desligado, todo adiantado, cheio de modas e modos, gesticulando muito, descompromissado com tudo e com todos, sempre de lero para cima das débeis mocinhas, dançando coisas não ainda vista, falando de um tal funk, punck, rock, house, tecno, coisas do gênero. Rosimari, fulgurante por ter sido a escolhida por ele, tratou de se embelezar como nunca para o encontro marcado, para impressioná-lo e, por certo, conquistar o amor dele que seria, sem dúvida, o seu príncipe encantado, dono do seu coração. Aproveitando que Dona Ornela se dirigira até a cidadezinha vizinha para receber valores oriundos de seu beneficio, sua aposentadoria, preparou o deslavado todo ambiente para recepção da jovem. Na residência do malandro, Rosimari cumpria, com gentileza esmerada, a solicitação dele, atendendo o ditado e corrigindo possíveis escorregões gramaticais praticados pelo desajeitado. A carta estava impregnada de situações luxuriosas, causando rubor nas faces dela. À certa altura da carta, ele se achegou e beijou seu pescoço, dela se arrepiar todinha. Apalpou os peitinho miudinhos da moça, levando um tipo de recusa que escondia a satisfação dela ao leve toque dos dedos nos seus seios. Insistentemente pôs-se a beijá-la por todo corpo, os braços, as pernas, o umbigo, por baixo da saia, retirando-lhe a calcinha com jeito, a rejeição consentindo a manipulação de suas intimidades, em atitude de não permissiva, mas trazendo um aconchego mais saliente aos seus dotes, numa volúpia que a levara até a nudez. Ai nasceu um verdadeiro estupro. Gritos surgiram, até que Jetevaldo realizou um verdadeiro espancamento, fraturando as suas pernas à altura das coxas, deixando-a molezinha, sem forças para reagir às investidas dele, deflorando-a quase desmaiada, introduzindo o seu membro em sua vagina, sangreiro derramando, rasgando-a por dentro, até que, depois de um vai-e-vem doloroso, retirou o caralho, deitou-a de bruços, aliviada e começou a roçar-lhe o ânus, carinhosamente, e enfiou-lhe a rola cu adentro dolorosamente, dilatando suas pregas, lascando o seu íntimo e depois de ejacular no seu procto deixou-a sobre a cômoda, em decúbito dorsal, lânguida. Depois disso acendera um cigarro e às longas baforadas ficou admirando a bundinha dela ali oferecida a seu bel prazer. Terminando de fumar ficou ele esfregando a pica na região glútea da jovem, lambuzando-a mais e logo o cacete ficou teso, sem parcimônia, enfiou-lhe no cuzinho, provocando novos gritos até a sua ejaculação. Desfalecido e ofegante, encostou-se na parede e foi retomar a respiração. Excrementos lhe cobria a pele da barriga e das coxas, misturando-se ao sangue espirrado e ensopando o piso da casa. Desmaiou de vez a coitada. Satisfeito, suspendeu-a pelos braços jogando-a numa valeta existente no quintal. Com a água fria ela despertou assustada prevendo que seria afogada e não teve tempo de reagir nem de viver às cacetadas desferidas por ele com um escavador, acertando-lhe à cabeça. Após isto teve a precaução de cobrir a morta com folhas de zinco para que ninguém descobrisse sua delinquência. Ocupou-se em limpar o assoalho e queimar as folhas de papel com a caligrafia dela, para perpetuar a sua impunidade. Depois de banhado, teve num bar, ingeriu secamente duas talagadas de aguardente, saindo sem dizer nada. Não se dera conta de sua sandice. Anoitecera. E de supetão surpreendera a mãe se despindo para o banho.

- Mãe, o espírito de pai entrou em mim!

- O que é isso menino ? Tome jeito!

- É o espírito de pai, mãe! O espírito de pai!

Assim, se acercou da mãe e com uma força descomunal venceu toda a sua resistência, numa sedução louca, a mãe não teve tempo de gritar, possuída por aquele triste diabo. Foram horas e horas de luta, vencendo-a, já servida, viu aquele monstro escapulir de seu ventre com uns olhos avermelhados e chispentos, horripilantes caninos à mostra e um bafo nojento a tropeçar pelas moitas. Choramingou ela o tempo todo, vira aquele momento que o seu sofrimento não mais lhe abandonaria e estaria assim, para sempre, fadada à infelicidade. Seminua, saiu tombando pela casa até alcançar o terreiro que dava para a varanda, ajoelhando-se aos prantos e esconjurando o filho.
Um uivado lúgubre e prolongado fez-se ouvir no seio da noite, devido a hora, ninguém a vira naquele estado. Dormira, a mãe desolada, ali mesmo.
No dia seguinte, acordada pelos raios fulgentes da manhã, recompôs-se e se dirigindo ao interior da casa, chorou ainda mais. Ninguém imaginava a sua dor, jamais saberiam mensurar o seu sofrimento. Se banhara demoradamente buscando forças para enfrentar aquela situação. Pensativa, depois do banho, fez coar o café na chaleira, tomando-o lentamente, bastante fervido. No seu descanso, da porta ouvira que um vulto que se encontrava no interior dos seus aposentos. Ela assustou-se, ficou atenta ao mínimo movimento. Ficou à espreita, indefesa.

- É o pai, mãe!

Era o Jetevaldo novamente com os olhos em brasa, puxando-a da cadeira com uma violência avassaladora, arrastando-a pelo chão e escancarando-lhe as pernas. Seviciada, novas lágrimas brotaram do seu rosto até que conseguiu gritar, recebendo, em contrapartida, uma mãozada no rosto, um novo grito ecoando. Reuniu as forças para recusar, saiu embolando casa adentro, indo parar no quintal onde já se amontoavam vizinhos com o padre Bidião que apareceu para convocar a todos em seu socorro e foram para mais de vinte a mode segurar o tinhoso. Bastou o padre tocar-lhe a testa, logo o cabra arreou e rendeu-se. Prenderam o monstro e amarraram-no, conduzindo-o até a delegacia. Um chá de porradas acalmara o desditoso e no meio do festival de pancadas confessara a procissão de caranguejos com velas sobre o casco o que o povo dizia ser extraterrestre; o jegue com um monte de peido-de-véia explodindo amarrado na cauda parecendo ser a Besta Fubana; o serra-véia para Dona Chiquitinha; o assassinato de Rosimari e outros tantos delitos indecorosos.
A revolta da população fora deveras violenta, tentando escorraçar o marginal, quando garantias policiais propiciaram a Jetevaldo ainda viver. Ainda ontem ele fugira da cadeia para lugar incerto e não sabido. (Veja mais aqui).
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: arte do pintor francês de origem polaca Balthus (Balthasar Klossowski – 1908-2001).
Veja aqui, aqui e aqui.


sexta-feira, dezembro 28, 2012

CONRAD, DOROTHY CANFIELD, ESQUIVEL, AUGUST GALLIT, NINON DE LENCLOS, MUHAMMAD IQBAL & SIMPATIA DA VIRADA DO ANO



SIMPATIA PARA A VIRADA DO ANO!


Depois de toda tresloucada & iniciática revelação das primeiras tacadas do Evangelho Segundo Padre Bidião, o Doro que é discípulo dele e já metido a valetudinário anacoreta, concedeu, de lambuja, a mais poderosa simpatia ultramilagrosa pras folgazãs madames & iracundos marmanjos na virada do ano. Isso com um detalhe: serve para todos os signos!

Pois bem, à meia noite do dia 31 de dezembro, prepare o seu banquete particular, o seu reveillon exclusivo.

Na hora agá que o foguetório estiver comendo no centro, de chapa, engula dois caroços de pitomba. Isso mesmo. Se ficar entalada, ou no maior engasgo de quase morrer, corra e mastigue pimenta malagueta com óleo de rícino. Pronto, solução na hora. Com isso, o negócio abre o tampo e se der tempo, corra pro amaro-bocão pra não sujar a casa com o produto interno bruto que vai aparecer na hora. Esse é o primeiro sinal de que a coisa vai dar certo.

Aí, quando estiver restabelecida, reze duas vezes a oração da cabra preta nuínha; viu? Isso mesmo.

E mais: depois se ajeite nuazinha para decorar os índices do câmbio e da bolsa de valores. Anotou? Tá no papo? Isso.

Quando estiver com tudo na cachola e na ponta da língua, dê quatro pinotes pra São Lunguinho e fique com a bunda pra lua por cinco minutos. Com isso pode se preparar que ou vai ficar por dentro de tudo que rola nas altas rodas da elite brasileira ou vai virar santa da noite pro dia. E com um detalhe: adivinhando situações privilegiadas dos melhores negócios, perigando, até, sair assim, de cagada, o prêmio da megasena por dois meses encarreados e acumulados duma vez só pra você como única ganhadora. Pode? Bote fé e perca a vergonha, ora.

O propósito dessa simpatia é que você fique rica mesmo, assim, tchan, de uma hora para outra, teibei.

E ainda tem, além disso, os efeitos colaterais, confira: quem se arvora a cometer esta simpatia, de cara, ganha de brinde a cura da TPM e cólicas menstruais. Na hora! Isso, nunca mais, minha filha.

Também tem mais: espanta o olho-gordo, a urucubaca e tudo que tiver pegando no pé cobrando dívida dos santos poderosos, ou causando quizília ou zica, jogando tudo pra lá. Já era. Pronto.

Acha pouco?

Tem mais, veja: você fica com poder de alterar a órbita da Terra, mudar as leis da Física e mesmo que você seja um trubufu enjeitado da cega-Dedé, fará de você uma verdadeira Catherine Zetta-Jones capaz de conquistar aquele tesudo bimbudo dos seus sonhos. É mole?

Ainda tem bônus: como a simpatia alinhará todos os planetas da galáxia, você terá a clarividência de todas as revelações do seu passado e futuro. Beleza?

Agora, para que tudo dê certo mesmo, prossiga com o ritual: tome posse de uma vela branca, daquela de oito dias.

Pegou?

Agora bote ela em pé, cuidadosamente. Isso. Faça o sinal da cruz sobre ela e enquanto reza 5 pai-nosso e 10 ave-Maria, vá remexendo como na dança da boquinha da garrafa em cima do pavio aceso.

Isso mesmo.

Com jeito.

Tenha cuidado para não descuidar o tareco em cima da chama, viu? Vá rezando e com toda cautela rebolando o popozão na vela acesa.

Fique assim dançando sedutoramente sobre a chama da vela por uns 15 ou 20 minutos, enquanto imagina contemplada por todas as maravilhas da vida, todas as riquezas, todas as sortes, todos os prêmios, tudo.

Se se excitar, muito bem, vá fundo. Dê asas ao desejo: faça o que quiseres, pois é tudo da lei!

Contudo, se sentir a coisa queimando, não faça careta, não esperneie, nem solte palavrão. Tem que agüentar calada, senão não resolve.

Depois disso, faça um pedido. Ou dois ou três, ou todos os pedidos que você tenha em mente fazer para ter tudo que quer.

Isso mesmo.

Aproveite a ocasião, não perca a oportunidade. Vá fundo, já disse: meta bronca mesmo. Pode descascar o rol dos pedidos tudo duma vez. Se avie, ora.

No fim disso, reze qualquer oração que lhe vier à mente, mas reze forte mesmo, com toda fé do coração. De preferência, reze de se espremer toda. Repito, aproveite a ocasião.

O primeiro sinal é sentir que algo está acontecendo. Não dá para adivinhar, todavia você saberá que algo estará acontecendo. Mantenha a calma.

Se não der certo logo, faça de novo. Se possível, até alcançar a graça.

Diga se num é um verdadeiro negócio da China? E o melhor: de grátis, né? Já dizia Chacrinha: quem não arrisca, não petisca, né?

Agora, se não vingar, paciência né, espere para o próximo ano que, com certeza, você conseguirá ter seus desejos atendidos e um feliz Ano Novo. Ou melhor, Novo Ano, né, gente!! Héhéhéhé. Agora veja as previsões pro Ano Novo todo aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Não é bom que todos os nossos desejos sejam satisfeitos; através da doença reconhecemos o valor da saúde; através do mal, o valor do bem; através da fome, o valor dos alimentos; através do esforço, o valor do descanso... Há duas maneiras de encontrar a vida; você pode se recusar a se importar até que a indiferença se torne um hábito, uma armadura defensiva e você esteja seguro - mas entediado. Ou você pode se importar muito, viver muito, até que a vida quebre você em sua roda... Pensamento da escritora estadunidense Dorothy Canfield Fisher (1879-1958). Veja mais aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: As paixões não morrem, queimam-se. As loucuras provêm da natureza íntima do verdadeiro amor. Nunca tive outra idade senão a do coração. Pensamento da escritora, cortesã e patrona das artes francesa Ninon de Lenclos (1620-1705). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

HUMANOS – Qual a diferença entre o assassinato de milhares de civis em um ataque no Afeganistão e a matança de milhares de pessoas por contaminação da água? Ou entre a fome causada pelos conflitos tribais na África e a fome causada pela destruição do solo e uso indevido da terra? Morte é morte em qualquer lugar, assim como a fome é terrível e devastadora em qualquer parte do mundo. No entanto, poucos param para pensar no estrago que as catástrofes ambientais causam diariamente ao planeta e às pessoas que o habitam. A contaminação da água e do solo e a destruição da biodiversidade acarretam doenças, pobreza e falta de comida. O que proponho é acabar com a impunidade para esses crimes. Todos se lembram da explosão na usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia. Ou do vazamento de gás tóxico de uma fábrica da Union Carbide em Bhopal, na Índia. Até hoje esses crimes, que provocaram a morte de milhares de pessoas, continuam impunes. O mesmo se aplica às empresas de petróleo responsáveis por vazamentos nos mares, às grandes mineradoras e ao agronegócio. Quem ameaça seriamente a vida dos bilhões de habitantes da Terra precisa ser julgado e punido. Palavras do arquiteto, escultor, ativista de direitos humanos argentino e Prêmio Nobel da Paz de 1980, Adolfo Pérez Esquivel. Veja mais aqui e aqui.

 

FELICIDADE – Quem sabe o que é a verdadeira felicidade? Não a palavra convencional mas o terror manifesto. Para os solitários, usa máscara. A casta mais infeliz guarda alguma lembrança ou alguma ilusão. Toda a ambição é legítima, salvo as que se erguem sobre as misérias e as crendices da humanidade. Ser mulher é algo difícil, já que consiste basicamente em lidar com homens. Não gosto do trabalho, ninguém gosta; mas gosto do que é no trabalho a ocasião de se descobrir a si próprio. Para comover os outros profundamente nós devemos nos permitir ser levados além dos limites de nossa sensibilidade normal. Estava escrito que eu deveria ser leal ao pesadelo da minha escolha. Nós vivemos como sonhamos: sozinhos. Palavras do escritor anglo-polonês Joseph Conrad (1857-1924). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

LOBISOMEM -  [...] Atrás das densas florestas e pântanos, no meio do borbulhante pântano Urgvee, fica a pobre e miserável cabana de meu pai. Ele está em uma superfície instável como os outros neste pântano sem fim, coberto de musgo, galhos e pedras, uma pequena janela como um olho mágico para o pântano. Névoas frias e cinzentas se elevam do pântano como um caldeirão fumegante e rodopiam sobre pessoas e cabanas. Urgveeans são sem sangue, cinzentos e cruéis, eles têm um mau-olhado e falam em sussurros e cadências como se cuspissem veneno com suas palavras. Problemas e desgraças, se um homem das cavernas entrar em sua casa ou quintal, o cordeiro morrerá, o cavalo ficará descontrolado ou você mesmo ficará doente. Eles conhecem feitiçaria, são lobisomens, são sopradores e oradores para quem vem das florestas e pântanos em busca de ajuda. Tantos buscadores de ajuda permanecem aqui no pântano, mas aqueles que conhecem os caminhos sinuosos do pântano voltam para casa, saudáveis ​​e felizes, carregando a fama dos habitantes por toda a terra. O sol nunca brilha aqui, o céu é cinza e sombrio. As nuvens se estendem uniformemente de dia para dia e de ano para ano. Mesmo os ventos raramente chegam aqui, às vezes sozinhos no inverno. Então as nuvens nevadas sopram sobre os pinheiros atrofiados e os pequenos insetos uivam e gemem na tempestade. Os lobos então circulam, aparecendo em bandos na frente das cabanas. Meu pai, pobre e ossudo, é alto como um pinheiro do pântano. Ele é bastante sem graça, lábios estreitos azuis, cabelos esbranquiçados tão ralos quanto comidos por mariposas. Ele anda cautelosamente, ainda rindo para si mesmo, nunca olhando para cima. Ele esconde os olhos como um cão perseguindo a presa. Ele não gosta de trabalho ou pessoas. Tudo o que ele quer fazer é deitar-se com os braços cruzados sobre o peito. Então seus olhos astutos correm como víboras. Ele tem um cavalo nevado, um par de cordeiros pobres, uma estreita faixa de campo pantanoso com uma grande extensão de pano - ele não tem outra riqueza. E quando ele ara em um campo aguado, ele tosse o tempo todo, para e chia, não tem vontade de trabalhar. A fome e a miséria estão em seu armário, os ratos correm em bandejas vazias. Ele nem se preocupa em soprar e lançar feitiços... [...] Trechos do conto extraído da obra Vastu hommikut : novellid (Lordus, 1926), do escritor estoniano August Gallit (1891-1960).

 

O SOL – Ó Sol! A essência e o motivador do mundo você é / O organizador do livro do mundo você é / O esplendor da existência foi criado por você / A verdura do jardim da existência depende de você / O espetáculo dos elementos é mantido por você / A exigência da vida em todos é mantido por você / Sua aparência confere estabilidade a tudo / Sua iluminação e concórdia é a conclusão da vida / Você é o sol que estabelece a luz no mundo / Que estabelece coração, intelecto, essência e sabedoria / Ó Sol! Conceda-nos a luz da sabedoria / Conceda a luz do seu brilho ao olho do intelecto / Você é o decorador do conjunto de necessidades da existência / Você é o Yazdan dos habitantes do alto e do baixo  / Sua excelência é refletida em todos os seres vivos / A cordilheira também mostra sua elegância / Você é o sustentador da vida de todos / Você é o rei dos filhos da luz / Não há começo e sem fim seu / Livre de limites de tempo é a sua luz. Poema do escritor muçulmano paquistanês Muhammad Iqbal (1877-1938).

 


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