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quarta-feira, maio 15, 2019

EMILY DICKINSON, LIA ROBATTO, DAVID TAVARES BARBOSA, A PEIXA DO AÇUDE, CUPIDO & PSIQUÊ


A PEIXA DO AÇUDE – Era o maior açudão, meu! Num diga! Tinha até uma peixa! Como é que é? Era. No começo tinha só uns três arruados com uma capela mirochinha no meio pros fieis domingueiros. Dava muito peixe dos bons, não tinha como passar fome. Na fartura, havia até festa com roda-gigante, barracas de fogos e serviço de som. Areia branca à beira d’água, as roupas estendidas no varal, os peixinhos, o alagadiço, um paraíso. Foi o pescador Tonésio quem viu-la pela primeira vez, nem acreditou da maravilha ali boiando. Fechou olhos e ao abri-los, ela desaparecera. Só vista depois, no pôr do sol, uma festa pros curiosos que engrossavam a fila arrodiando o espetáculo. Dela Tonésio se afeiçoou de não sair mais da jangada, até dar um timbungue e nunca mais dar as caras por essas bandas. Que coisa! Ah, os meninos que viram e os moradores antigos dizem que foi mesmo, só ele pescava do muito, ela não deixava entrar ninguém com rede de arrasto, afundava quem se atrevesse, só pesca de vara e, ao que parece, com ela se casou para sempre. Falavam que ela tinha os olhos de verão, um prateado na pele lisa, e Tonésio quando vinha tomar umas e outras, pabulava que lá no fundo era como se tivesse no céu cheio de estrelas e nadar com ela era como voar sobre abismos. Tinha até um jacaré que guardava o reinado dela, isso todos viram. Com o sumiço dele, correu o boato de que tinha uma botija escondida, com muitos tesouros guardados lá fundo. Além do mais, de 5 em 5 anos, a invernada botava o rio para transbordar. Foi aparecendo gente, o bairro crescendo, o fuxico, os do disse-me-disse aumentavam na pacutia. Arengas e estranhamentos, queriam tirar o negócio a limpo: Vem ou não vem? Oxe, não deu outra, veio uma tropa do prefeito com escafandro e tudo, vasculharam mais de 50 metros de fundura, dizem. Maior remoeta: De hoje não passa! E o jacará? Ah, foi atraiçoado, repartido e venderam a carne e o couro na feira. Nada de botija? As buscas só pararam depois que uns dois mergulhadores morreram enganchado num redemoinho brabo que dava lá embaixo. Mesmo? Por conta disso, se arretaram e tudo ficou para trás, chega dava pena. O que fizeram? Ah, começaram a dizer que o açude estava podre, doença incurável, essas coisas, nem jacaré, nem peixe dava mais. Findou no aterro e enterro do açude, mais de mil casas em cima, gente até de um olho só. Lotearam, tudo vendido caro que só. Danou-se! Era uma vez. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] as ações contemporâneas [...] revelam profundas conexões entre os aspectos culturais da cidade, as estratégias de comunicação de seus atores e a variável política, pois nestas estratégias destacam-se ações que atuam na cidade visando tornar hegemônica determinadas leituras de apropriação dos espaços, domesticando os usos destes e promovendo a reprodução esperada dos traços culturais do éthos do lugar. [...] Tal aproximação entre classes é favorecida através da “retórica da paisagem” “recolhida” dos artísticos e culturais da cidade, capazes de construir elos efetivos que aproximam os diferentes grupos sociais da cidade numa retórica de confluência dos espaços públicos. [...]
Trechos extraídos de Pontes imaginárias sob o céu do manguetown: influências do Mangue Beach sobre as políticas públicas no entorno do Rio Capibaribe – uma análise do circuito da Poesia e do Carnaval Multicultural (EdUFPE, 2012), do geógrafo doutorando pela UFRJ, David Tavares Barbosa, pesquisador vinculado ao Laboratório de Estudos sobre Espaço, Cultura e Política da UFPE e ao Grupo de Pesquisas sobre Política e Território da UFRJ. Veja mais aqui.

CUPIDO E PSIQUÊ
Imagem: Cupid and Psiche, do escultor, pintor, desenhista, antiquário e arquiteto Antonio Canova (1757-1822).
Antigamente, vivia na Grécia um rei que tinha três filhas. Psique, a mais nova de todas, era de formosura rara. Quando passava pelas ruas, todos a cobriam de flores. Chegada a ocasião de se casar, o rei recebeu um misterioso aviso: que a levasse para uma montanha selvagem e a deixasse lá. “Oh!”, pensou o povo. “A nossa querida Psiquê vai ser sacrificada!”. E assim era, com efeito. O povo tinha dito que Psiquê era mais formosa que a própria Vênis, e esta, que era a deusa da beleza, quando isto ouvia, ficava irritadíssima. Tinha Vênus um filho chamado Cupido, e ordenou-lhe que casasse Psiquê com o homem mais feio da terra. [...] Em meio da obscuridade da noite alguém foi dizer palavras ternas ao ouvido de Psiquê e ela ficou tão encantada que consentiu logo em ser esposa daquele que assim lhe falava. Então, ele lhe disse: - “Psiquê, podes viver como mais te agradar neste palácio que construí para ti. Só uma condição te imponho? Que não queiras ver o meu rosto”. [...] Certa ocasião, um vento mágico levou-lhe lá as irmãs. Esta visita causou-lhe grande desgosto, pois, disseram-lhe que, por ordem de Vênus, Cupido a tinha casado com um monstro. E acrescentaram: - “Por isto é que ele não quer que lhe vejas o rosto”. [...]. Na noite seguinte Psiquê acendeu uma lâmpada e enquanto o companheiro dormia, foi ver-lhe o rosto. Era Cupido, o espírito alado e radiante do amor. Na sua alegria, levantou ela tão alto a lâmpada que deixou cair uma gota de azeite quente que o despertou. – “Ah, Psiquê!”, exclamou. “Temos que nos separar. Agora saberá minha mãe que eu me apaixonei por ti e me casei contigo em vez de te casar com um monstro. Adeus!”. E espalmando as asas, voou e fugiu. [...] A pobre caiu sobre a erva; mas Cupido, que a tinha seguido, foi em seu auxilio e, dissipando os vapores do rosto da jovem tomou-a nos braços, e, batendo as asas, levou-a para a Terra da Imortalidade. E ali viveram juntos e sempre felizes.
Trechos de A filha do rei da montanha – a lenda de Cupido e Psiquê, extraído da coleção Tesouro da juventude – reunião de conhecimentos essenciais, oferecidos em forma adequada ao proveito e entretenimento das crianças e adolescentes (W.M.Jackson, 1963). Psiquê é a divindade que personifica a alma e seu mito sobrevivo na história latina O asno de ouro, de Apuleio. Trata-se de uma bela jovem entre irmãs. Todas as suas irmãs se casam, menos ela que era admirada por todos, provocando, inclusive, inveja na deusa Afrodite. A deusa vingativa impõe ao seu filho Eros uma maldição para ela, mas ao tentar executá-la, por ela se apaixona. E com ela casou-se sob a condição dela jamais vê-lo. Feliz, ela convida as irmãs para visitá-la e, ao se encantarem, insinuaram que ela estava casada com o monstro anunciado pelo oráculo. Depois de irem embora, Psiquê se arma de uma vela acesa e um punhal, visualiza o seu marido e este, revoltado, vai embora para nunca mais. Chorosa lamentou, fez de tudo, até se ajoelhar aos pés da Deusa, que exigiu o cumprimento de 4 trabalhos impossíveis: recolher grãos espalhados, trazer a lã do velocino de ouro, buscar água da nascente do rio Estige e trazer a beleza de Perséfone. Ao cumprir as tarefas, ela tenta buscar um pouco da beleza de Pérsefone e se envolve no caos. Eros, por fim, socorre levando-a ao Olimpo, onde adquire a imortalidade para conviver com o deus. Ela é representada com asas de borboleta.Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
O ensino de dança – por tratar-se de uma prática artística, através da percepção do potencial do próprio corpo e de suas implicações culturais e sensoriais, emotivas e conceituais –propõe um conhecimento não só objetivo, técnico, mas também significativo, a partir de uma educação sensível, que abrange aspectos subjetivos e, ao mesmo tempo, coletivos, criativos, reflexivos e críticos. [...] Quando o ensino de dança recorre à sensibilidade e à imaginação corporal do aluno, produzindo movimentos, formas e gestuais numa perspectiva emocional, sensível e intuitiva, em abordagens subjetivas promovendo a livre expressão de seus sentimentos e ideias, com qualidade técnica e valor estético, essa prática está atribuindo centralidade ao aprendiz, um dos princípios mais significativos da educação. [...].
Trechos extraídos da obra A dança como via privilegiada de educação: relato de uma experiência (EDUFBA, 2012), da coreógrafa, artista e educadora Lia Robatto, reunindo sua experiência ao defender “o ensino da dança como educação para a vida”, um volume dividido em duas partes e oito capítulos, a primeira trazendo considerações gerais que definem e contextualizam a arte da dança e o profissional da área, e a segunda dedicada ao relato da trajetória da autora no Projeto Axé e ao debate de uma nova experiência – a tentativa de fusão entre a dança contemporânea e a capoeira. Ela sempre se posicionou na defesa de que: “A dança se apresenta como uma das formas de expressão coletiva mais fortes, trata da alma, do espírito, da fantasia, da criatividade e do corpo. Ela trata do sujeito como um todo une seu corpo com o seu sentimento e suas sensações. No momento que você trabalha isso e elabora, você transforma o aluno, você faz com que tenha consciência de si mesmo, tenha confiança, se descubra e se auto revele”. Veja mais aqui & aqui.
&
A OBRA DE EMILY DICKINSON
A palavra morre no momento em que é proferida - dizem alguns. Eu digo que ela começa a viver naquele momento.
A obra da poeta estadunidense Emily Dickinson (1830-1886) aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
 

domingo, junho 08, 2014

CLAUDIA NOGUERA PENSO, EVA IBBOSTON, NINA BAWDEN, EMMANUELLE ARSAN & SALOMÃO.


Não fosse a sabedoria eruditíssima do filósofo daquelas bandas, doutor Zé Gulu, jamais saberia eu porra nenhuma de nada sobre Salomão.

É que certa tarde, quando adentrei no bar do Doro para embeiçar uma lapada da teibei e lavar com uma lourinha suada pra amainar o cansaço da labuta e desafogar as ideias, logo ele acenou chamando para aboletar-me ao seu lado, fazendo sinal que queria tirar uns dedinhos de prosa comigo.

Ao me acomodar na cadeira, recostei-me na parede e fiquei atento à sua baforada demorada no pascaio, para irromper em riste:

- Sua pornografia só tem de boa a parte dos Cânticos de Salomão.

Logo empinei o pescoço com os olhos meio que arregalados, estranhando o tom severo da sua sapecada certeira que soou como bordoada de acertar o centro do alvo no cachaço.

Ele deu outra demorada baforada e logo prosseguiu:

- Li sua narrativa. Pornografia pura. Se foi de verdade, você lavou a jega. Tomara que a mulher tenha valido a pena pra tanta volta de andejo. Mas a literatura é sofrível. Salvo, evidente, a epígrafe e as citações dos Cânticos de Salomão.

Embaraçado com o seu topete, de um só gole virei a teibei e logo enchi o copo com cerveja para azeitar o papo.

É que ele se referia a uma narrativa que escrevi sob o título “O gosto da últimavez”, contando uma peripécia da boa com uma distinta religiosa da localidade.

- Vou lhe contar uma coisa -, disse-me em tom sardônico debulhando o causo e comparando a minha performance e a minha natureza geminiana com as muitas e tantas do rei.

Tudo começou quando o rei Davi botou mutuca na lindeza de Bethsabé. Enquanto Urias, o marido dela, prestava contas dos feitos de guerra, ele nem aí vidrado no decote dela. Nem o rol dos tesouros arrolados chamava mais atenção que a passada do pódice rebolador dela nas vistas enamoradas do reinante. E o cônjuge da distinta no maior blá blá blá de Davi encher o saco, armar tocaia e arrumar num instante uma guerra no fim do mundo.

- Na hora, majestade!

Lá ia Urias fiel ao rei na primeira linha de batalha para uma guerra arranjada para tirá-lo de campo e jogá-lo pra lá da regra três. Foi atrapalhar a vida de outro. Era ele comandando a tropa pro inferno e o imperador aos galanteios nas risadagens licenciosas da senhora dele.

Quando Urias estrebuchou ferido de agonia, a majestade cravou os dentes de se lambuzar todo nos gozos das carnes suculentas de Bethsabé. Já era.

Davi matou dois coelhos com uma lapada só: o marido foi pro saco e ele partiu pra mancebia engalanada nas entrâncias e reentrâncias cobiçadas da mulher, tomando conta da viúva.

Dessa sagrada união nasce um bruguelo.

O primeiro nome dele foi dado pelo profeta Natã: Jedid-jah, o amado de Deus.

O rei que não gostou nada dessa ideia de outro colocar o nome em filho seu, ora, ajustou logo em riba da fivela e como senhor de mando na porratoda, o menino passou-se a chamar Salomão, o filho da paz. Dito e feito. Ora, ora.

Eis que tempos depois o rei bate as botas.

O reino vira o maior cu-de-boi-na-área-do-Central: só conspirações, intrigas e disputas. Maior buruçú. Resultado: acusações, assassínios, prisões e o escambau.

No meio do pandemônio, Salomão não perdeu tempo: matou o irmão Adonia e o general Joab, destituiu o sacerdote Abiatar e mandou ver no desembaraço dos rivais e sequazes para assumir o trono, trovejando sua máxima: “A ira do rei é como o bramido do leão. Mas a sua benevolência é como o orvalho sobre a erva”.

Foi assim que assumiu geral com todo ar de déspota azedo e arrogante, esbulhando e escravizando o povo, esbanjando dinheiro e ludibriando as mulheres aos seus mandos – tal pai, tal filho; cara dum, cu de outro.

Mesmo com essa folha corrida, diz-se que ele foi agraciado por Deus com o anel de safira de Adão, o mágico anel que governa as águas do mar, os ventos do ar, os mistérios da terra e o poder da vida e da morte. Cabra sortudo, hem?

Esse anel deu-lhe o poder de saber todos os segredos e coisas ocultas em diálogo com as aves, as árvores, os ventos, os mares, rios, fogo e terra. E suas aspirações eram alcançadas: poder, glória, riqueza, belas mulheres, navios, cavalos, vida longa e tudo o que quisesse. Assim fodeu, capou, benzeu e arrotou. Empreendeu mais conquistas: fez acordos e negociatas com outros reis desposando suas filhas, formou um harém de concubinas, escravizou estrangeiros e compatriotas, impôs tributos pesados pro povo e viveu às extravagâncias. Possuía tudo o que queria e tinha plateia arrochada de babaovo e lambecus para cada um dos seus mínimos remelexos.

No meio dos achegados, estava Asmodeu. Este aproveitando o momento de um desvario etílico do rei, desafiou no mote da suspeita de inexistência que ele lhe mostrasse o anel de safira. Duvida? O intrépido Salomão exibiu vaidoso. Eis que Asmodeu se transforma no demônio que sempre foi, surrupia o anel e se agiganta até as nuvens, atirando o anel pro fundo do mar. Depois, suspendeu o rei e com toda força arremessou pro deserto. Em seguida, transformou-se no próprio Salomão e sentou-se no trono para reinar em seu lugar. Pronto, fodeu-Maria-preá.

Reza a lenda que Salomão amargou todas as vicissitudes que pode acometer um ser humano: revezes infindos carregados dos mais impensáveis infortúnios.

Depois de décadas de humilhado, mendigando, preso e desventurado, ganha a liberdade e descobre o amor. É ai que escreve o Cântico dos Cânticos. Passa a ser, então, serviçal humilde, até conseguir emprego muitos anos depois na cozinha do seu próprio reinado.

Até que um dia, preparando o repasto do rei, passou a faca para tratar de um peixe que seria servido, encontrando no seu ventre o anel de safira tomado. Retomava agora o que era de seu e deu cabo de Asmodeu que se passava por ele, descobrindo-lhe os pés de cabra, enxotando-o dali: - Arreda, satanás!

Esse o Salomão dos livros dos Reis bíblicos, do Talmude, dos contos árabes, das lendas indianas, dos romances irlandeses.

Pois é. Cada qual que pinte como convém. Para os simpatizantes, um deus, um herói, um sábio; para os nem tão desafetos assim, um poderoso estroina. Veja mais aqui e aqui.


 

DITOS & DESDITOS - O erotismo, esse triunfo do sonho sobre a natureza, é o refúgio do espírito da poesia, porque nega o impossível. O que é bonito é recusar-se a parar, sentar-se, adormecer ou olhar para trás. Pensamento da atriz, escritora e modelo tailandesa Emmanuelle Arsan (1932-2005). Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: A vida não é tão complicada para as crianças. Eles têm mais tempo para pensar sobre as coisas realmente importantes. É por isso que ocasionalmente moralizar nos livros dos meus filhos de uma maneira que eu não ousaria quando escrever para adultos. Pensamento da escritora britânica Nina Bawden (1925-2012). Veja mais aqui e aqui.

 

CONDESSA EMBAIXO DA ESCADA – [...] A solidão ensinou a Harriet que sempre havia alguém que entendia - só que muitas vezes eles estavam mortos e em um livro. [...] Quando estiver triste, minha estrelinha, saia. É sempre melhor debaixo do céu aberto [...] Ela era tão inteligente que conseguia se considerar bonita. Inteligência...não falam muito sobre isso, os poetas, mas quando uma  mulher é inteligente e apaixonada e boa... [...] As sombras são lugares frescos e pacíficos para aqueles cujas mentes estão repletas de tesouros. [...] Como ousa supor que não sei quem você é ou o que você é? Que não entendo o que vejo? Você me considera algum tipo de estudante obcecado? É indescritível! Você poderia pesar tanto quanto um hipopótamo, raspar a cabeça e usar peruca e isso não faria diferença para mim. Eu nunca disse que você era linda. Eu nunca pensei nisso. Eu disse que você era você. [...] Mostrar muita alegria em um lugar como este seria impróprio, mas, enquanto ele caminhava em direção a ela, seu rabo estava estendido de uma maneira que tornaria possível abanar, caso tudo corresse como esperado. [...]. Trechox extraídos da obra A Countess Below Stairs (Puffin, 2007), da escritora inglesa Eva Ibboston (1925-2010).

 

TRÊS POEMAS - I - Sempre soube que não é sensato \ chegar a extremos sem ter capacidade para lidar com eles. \ É por isso que não te olho nos olhos, é difícil para mim virar o rosto para você. \ Temo a verdade da sua mão nas minhas costas, que o seu cheiro permaneça nas minhas roupas, \ que vou sentar e esperar e que você nunca chegue. \ Por isso estou sempre no meio, \ me escondendo dos extremos, do seu nome comum. É por isso que não tomo atalhos para \ chegar até você, temo que minha pressa contida se rompa com sua palavra precisa. \ Por isso a indiferença, meu escudo inofensivo de palavras, \ minha estratégia boba de argumentar. \ É por isso que \ não espero por você e esse ato de rebeldia, \ íntimo e extremo, me protege de todos, \ menos de mim. II - Você é um daqueles quebra-cabeças \ que se passa a vida inteira \ resolvendo \ sem saber que veio \ sem peça. III – Este corpo \ que você teve, \ Strange \ retornou \ ao seu canal \ de espera \ aparecem cicatrizes. Poemas da escritora venezuelana Claudia Noguera Penso.

 



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