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segunda-feira, março 19, 2018

KAFKA, LELOUP, GISELA PANKOW, COUNTEE CULLEN, EUMIR DEODATO & BJÖRK, HUANG YAN, CYANE PACHECO, LAMPIOA & ZÉ BUNITO

LAMPIOA & ZÉ BUNITO – Tudo começou quando ela encarou os matutos pais: Vou perder a virgindade! Teibei. E pra que vocês não sofram a desonra, a partir de agora sou Lampeoa, sem eira nem beira. Ocultarei minha identidade e seguirei errante. Juntou seus trapos num alforje com tudo dentro, inclusive o Asdrubal, seu sapo cururu de estimação e esperança dela de um dia se transformar num príncipe encantado. Tanto é que todo dia beijava o batráquio, tratado com rapadura, cuscuz, rolete de cana e coisas dessas da culinária sertaneja. Foi pro terreiro, amontou-se no toitiço do jumento Aderaldo, que ao rinchar tanto anunciava as horas, como anunciava a hora do ataque; e deu um assobio convocando o guenzo Cheira-peido, a sua principal arma para desancar reputações, pois, vivia de encostar o focinho no furico de qualquer algoz e aí tirava a prova dos nove; e saiu sem rumo com sua trupe. Lá adiante, ainda voltou-se e acenou pros pais que pranteavam sua partida pra nunca mais. No meio do caminho, achou de ajustar umas contas com o coronel Caga-raio: Quais as suas intenções? O homem deitava olhares libidinosos pra cima dela, estalou o dedo e juntou a capangada toda: Agora você vai ver, sua danada! Deu ordem pros cheleleus aprisioná-la, sem esperar pelo ataque do guenzo, das duas uma: ou acendia a fluorescente, ou ia ser desmoralizado pra sempre. Deu a segunda. Do alforje dela, sob a batuta do Asdrubal, saiu uma nuvem com um bando de muriçocas carniceiras, com todo tipo de lacrau, dengue e o escambau. Embate vencido em dois tempos, todo mundo rendido. Chegava a hora do teste: Ou virava rancolho, ou passava para eunuco, era a escolha. Qual que é, hem? Mais da maioria já assumida bandeou pro seu lado, missão cumprida. Foi ter com o coronel Treme-Terra, esse tinha uma conta das grandes por ser responsável pelo descabaçamento de muita donzela: Vamos ver se ele é homem de mesmo! Não era, cagou na vela. E assim foi ela fazendo justiça contra os maiorais abastados de todo lugar. Sua fama chegou longe, em muitas paragens era sinônimo de justiceira, a ponto de anunciar lá vem Lampioa, toda macharia saía com o pé na bunda. E assim era, entrava de sopetão num bar lotado, não ficava ninguém, escapoliam, envultavam-se. De tanto pegar os cabras de surpresa, certo dia, quando entrou pra pegar pra capar, teve um que ficou: Pelo jeito, esse é macho! Como é a sua graça? Engrolando a língua, meio lá, meio cá, disse: Sou Zé Bunito, o pueta do sertão! Mostre cá seus versos! E quanto mais ele virava o copo, mais abusava das estrofes, ela virando os olhos. Não era o que ela esperava, mas dava pro gasto: assentou o bebo na sela do jumento e saiu pra lugar incerto e não sabido pra dar conta da virgindade. Numa das curvas do destino, escondeu-se com o seu amado e ficou esperando que o cara reagisse. Não deu, foi então que a cobra Zefinha entrou em cena, deixou o cabra em ponto de bala, mas de tão bebaço não acertava o lugar, foi preciso que o Cheira-peido desse uma mãozinha, toim, e a muriçoca rainha desse uma ferroada no testículo esquerdo dele, toim, pronto, era uma vez um cabaço e ela no maior vuque-vuque, a coisa pegou no tranco. Não sei direito, nunca mais soube nada deles, mas dizem que foram felizes para sempre. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o pianista, arranjador e produtor Eumir Deodato: Europa Xpress, Super Strut Live, Rapsody In Blue; a cantora, compositora, atriz, instrumentista e produtora islandesa Björk: Live at Royal Opera House, Vulnicultura Live & Voltaic Paris Live; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Uma igrejinha na ilha de Aran, na Irlanda... me lembrou um koan japonês: “Minha casa pegou fogo, nada mais me oculta a Lua deslumbrante”. Minha vida está em ruinas, não há mais obstáculo à visão daquilo que é. À pergunta: “Se sua casa pegasse fogo, o que você salvaria?” – Jean Cocteau respondeu: “O fogo!”. Se o mundo pegasse fogo, o que eu salvaria? Esta chama! Esta centelha de amor, a única coisa que jamais nos será tirada. O amor é o único Deus que não é um ídolo; só o possuímos quando o damos... se minha vida pegasse fogo, o que eu salvaria? Para o céu, nada se leva... a não ser o que se deu. [...]. Pensamento extraído da obra Se minha casa pegasse fogo, eu salvaria o fogo (EdUnesp/UEPA, 2002), do PhD em Psicologia Transpessoal, doutor em Teologia e professor de Filosofia, Jean-Yves Leloup. Veja mais aqui.

O HOMEM & SEU ESPAÇO – [...] Toda dualidade desprovida de ligação entre as duas partes leva à destruição. A partir do momento em que uma parte é rejeitada e que a outra se transforma em todo absoluto, toda e qualquer “comunicação” se torna impossível: resta apenas a destruição, para que o mundo do absoluto seja o único universo [...] Como e por que este homem, tão duramente castigado no corpo e tão fortemente tomado por um pensamento filosófico abstrato, não caiu no abismo do absoluto [...] Utilizar a razão, ter a coragem de pensar sempre foi muito perigoso. [...] Quem quiser viver em paz deve se esforçar por não pensar [...]. Trechos extraídos da obra O homem e seu espaço vivido (Papirus, 1988), da neuropsiquiatria e psicanalista francesa Gisela Pankow (1914-1998).

A METAMORFOSE – [...] Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas inúmeras pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos. – O que aconteceu comigo?, pensou. Não era um sonho. Seu quarto, um autentico quarto humano, só que um pouco pequeno demais, permanecia calmo entre as quatro paredes bem conhecidas. Sobre a mesa, na qual se esplhava, desempacotado, um mostruário de tecidos – Samsa era caixeiro viajante -, pendia a imagem que ele havia recortado fazia pouco tempo de uma revista ilustrada e colocado numa bela moldura dourada. Representava uma dama de chapéu de pele que, sentada em posição ereta, erguia ao encontro do espectador um pesado manguito de pele, no qual desaprecia todo o seu antebraço. [...]. Trecho extraído da obra A metamorfose (Brasiliense, 1985), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Veja mais aqui.

CERTA SENHORA QUE CONHEÇOEla imagina que no céu da sua classe / vão dormir tarde e roncam enquanto os pobres / e pretos querubins acordam às sete / para arrumar a casa celestial. Poeta do poeta estudunidense Countee Cullen (1903-1946).

A ARTE DE HUANG YAN
A arte do artista taoísta multimídia Huang Yan.


Festival de Invento de Garanhuns – FIG 2018 & muito mais na Agenda aqui.
&
Aos quatro cantos e ventos minha vida, o pensamento de Jacob Boehme, a música de Esther Scliar, a escultura de Jo Ansell, a pintura de Tamara de Lempicka, a fotografia de Jonathan Charles & Dene Ramos aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da poeta e artista visual Cyane Pacheco aquiaquiaqui, aqui,  aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. aqui, aqui e aqui.
 

sexta-feira, julho 07, 2017

OS MÍMICOS DE NAIPAUL, ARTE DE EWA LUDWICZAK, KEITH JARRET, SUELI COSTA, EUMIR DEODATO & RITA LEE

ELA ACOLHEU MEU DESTERRO – Imagem: arte da poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez - Ela chegou tal Maria Bonita a me chamar Lampião: - Vem cá, vem! E eu qual menino traquino diante do brinquedo predileto. E ela: - Vem cá, vem, caeté! E mais me chamava porque sabia que haviam decepado meu passado e futuro, restava a mim, apenas, o amanhã incerto e o agoraqui de eterna noite, como um prévio culpado jamais suspeito, alma fugitiva. Pegou-me a mão, mirou o leste e me apontou o sul: - Vamos prali, vem! Era pras suas terras caingang, tão belas paragens como as do meu chão que perdi, terra que não sei mais, tão paradisíaca quanto, tão acolhedora como dela me sugeria seus seios e ventre. Atravessamos distâncias, tão longe nunca fui. Até sentir frio e o seu riso me aquecer. Puxou-me até a beira do rio e com suas ternas mãos lavou-me as faces cansadas, retirou-me o chapéu surrado das estações e estradas sem fim, e alisou meus cabelos em desalinho, demoveu a poeira dos meus lábios sedentos, removeu meu gibão, cinturões, armas e munições, descalçou minhas alpercatas de léguas tiranas, despiu-me como a um deserdado no exílio de sempre e me fez mergulhar como pagão ao batismo nas suas águas hospitaleiras. E se apossou da minha teimosia, lavou minhas culpas, acalmou as minhas agonias, sarou minhas feridas abertas na carne fustigada, e me redimiu dos pecados, expulsou meus pesadelos, apaziguou meus tormentos, livrou-me os castigos e me ensinou sonhos prazerosos pra que usufruísse o lado da vida que eu sequer sabia existir. E me beijou pra que eu soubesse da felicidade, e me abraçou como jamais, e me fez sentir verdadeiramente existir e passasse a ser como tudo entre a terra, o céu e as águas. E me agasalhou com seu corpo nu, me fez vencedor intrépido no reino de suas carícias, e me fez esquecer o que não mais tivesse de mim mesmo, naufrágios, derrotas, vinganças, desterro. E me levou ao centro do universo e me fez reinar sobre tudo e todas as coisas. Mais que refeito e digno, me ensinou o amor na descoberta do sentido mais profundo da vida: amar e ser amado. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

OS MÍMICOS DE NAIPAUL
[...] no exato momento em que eu exprimia em palavras meus sentimentos, me dei conta de que minha viagem, embora ainda bem no inicio, havia terminado no naufrágio que eu vinha tentando evitar durante toda a vida. [...] Confundimos palavras e a proclamação de palavras com poder; assim que pagam para ver, vê-se que é puro blefe e estamos perdidos. Para nós, a política é um empreendimento de vida ou morte, de tudo ou nada. Uma vez que nos empenhamos, nossa luta é mais que política; muitas vezes a expressão “luta de vida ou morte”, tem o sentido literal. [...] Para os que perdem – e quase todo mundo acaba perdendo – só resta uma saída: o exílio. [...]. Depois que um homem é destituído de suas dignidades, ele é obrigado não a morrer ou fugir, mas a encontrar o seu nível. [...] Na maioria dos casos, fomos tímidos demais, ou ignorantes demais, para fazer fortuna; medimos tanto nossas oportunidades quanto nossas necessidades com base nos sonhos que tínhamos antes, no tempo em que não éramos ninguém. Fala-se no pessimismo dos jovens como se fala no ateísmo e na revolva: é coisa que passa com a idade. [...] Não sento muita emoção: aquela parte da minha vida já estava terminado e já fora colocada em seu devido lugar. [...] e atualmente não tenho vontade de me envolver em lutas que são irrelevantes para mim. Não quero mais compartilhar da angustia dos outros; falta-me preparo para isso. Chega de palavras; bastam essas que escrevo. [...].
Trechos da obra Os mímicos (Companhia das Letras, 2001), do escitor britânico nascido em Trinidad e Tobago, Prêmio Nobel de 2001, Vidiadhar Surajprasad Naipaul, contando a história de uma autoridade que escreve suas memórias ao ser exilado por ter caído em desgraça na política,

Veja mais sobre:
Ah, se estou vivo, tenho mais o que fazer, a literatura de Liev Tolstói, Funil do ser de Nauro Machado, Teatro & a cena dividida de Gerd Bornheim, a pintura de Lasar Segall, a música de Joyce, a arte de Patrick Conklin & Luciah Lopez aqui.

E mais:
Lagoa Manguaba, Teoria do vínculo de Pichon Rivière, História do Brasil de Laurentino Gomes, a música de Gustav Mahler, Amor por anexins de Artur Azevedo, a pintura de Lasar Segall, o cinema de Vittorio De Sica & Sophia Loren, a arte de Ekaterina Mortensen & Kiki Rainha de Montparnasse, Pavios curtos de José Aloise Bahia & Programa Tataritaritatá aqui.
Lampião & Ascenso Ferreira, A música de Gustav Mahler, a pintura de Marc Chagall, Teatro a vapor de Artur Azevedo, a arte de Bee Scott & muito mais aqui.
As trelas do Doro & o escambau aqui.
Fecamepa: Quando um país vive só de nhenhenhém, não dá outra: o pencó engancha na cornice e nada vai pra frente aqui.
A lenda do Curare aqui.
Brincarte do Nitolino, Questão de método de Jean-Paul Sartre, A cartomante de Machado de Assis, Bagagem de Adélia Prado, o teatro de William Shakespeare, a música de Eumir Deodato, o cinema de Jean-Luc Godard, a arte de Carlos Scliar, Decio Otero & Ballet Stagium aqui.
Princípios de uma nova ciência de Giambattista Vico, a poesia de Anna Akhmátova, Hora e vez de Augusto Matraga de João Guimarães Rosa, O cravo brasileiro de Rozana Lanzelotte, Devassos no paraíso de João Silvério Trevisan, a pintura de Eliseo d'Angelo Visconti & Moacir, a arte de Dercy Gonçalves & Programa Tataritaritatá aqui.
Viva São João, a música de Luiz Gonzaga, a poesia de Ascenso Ferreira, Terra de Caruaru de José Condé, Tratado da lavação da burra de Ângelo Monteiro, o teatro de Artur Azevedo, o cinema de Sérgio Silva & Dira Paz, Brincarte do Nitolino, a xilogravura de José Barbosa & Severino Borges, a pintura de Rosangela Borges & Valquíria Barros aqui.
O amor de Naipi & Tarobá, Arte e percepção visual de Rudolf Arnheim, Eles eram muitos cavalos de Luiz Ruffato, a pintura de Fernand Léger, a música de Vivaldi & Max Richter, Improvisação para teatro de Viola Spolin, a fotografia de Fernand Fonssagrives, a arte de Regina Kotaka & Eugénia Silva aqui.
Penedo, às margens do São Francisco, História social do Brasil de Manoel Maurício de Albuquerque, Asvelhas de Adonias Filho, a música de Bach & Rachel Podger, A arte maldita de Georges Bataille, a pintura de Jaroslav Zamazal, a arte de Marcel Duchamp, a fotografia de Karin van der Broocke, Vanguard & Kéfera Buchmann aqui.
Ela, marés de sizígia, Mulher de Yone Giannetti Fonseca, Tratado de argumentação de Chaïm Perelman & Lucie Olbrechts-Tyteca, a música de Guilherme Arantes, Pensamento crítico, Vaudezilla & Urban Jungle, a pintura de Tom Pks Malucelli & Time Honored Desins, a arte de James Halperin & Luciah Lopez aqui.
As olimpíadas do Big Shit Bôbras, Os dragões do éden de Carl Sagan, O discurso da difamação de Affonso Ávila, a música de Peter Machajdik, a pintura de Brian Keeler & Gray Artus, Microbiologia dos alimentos & Casa do Contador de Histórias aqui.
Só a poesia torna a vida suportável, Vanguarda nordestina de Anchieta Fernandes, Estado de choque de Walmir Ayala, Vanguarda & subdesenvolvimento de Ferreira Gullar, o cinema de Anna Muylaert, a pintura de Károly Lotz, a música de Ira Losco, a arte de Jean Dubuffet & Michael Mapes aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista plástica alemã Ewa Ludwiczak.
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RÁDIO TATARITARITATÁ: KEITH JARRET, SUELI COSTA, EUMIR DEODATO & RITA LEE
Hoje é dia de superespeciais: The Koln Concert & Standard Trio do compositor e pianista estadunidense Keith Jarret; Amor Blue & Íntimo da cantora e compositora Sueli Costa, Estival Jazz Lugano & The Fantastic Jazz Funk Do it again do pianista, arranjador e produtor Eumir Deodato, Acústico MTV & Multishow ao Vivo da cantora e compositora Rita Lee. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. Para conferir é só ligar o som e curtir.

SEXTO DIA DE LUCIAH
Marcamos um encontro numa nebulosa azul -, eu voo ao seu encontro emprestando asas de trinta pássaros e no meu coração levo a infância vestida de noiva -, branca, alva, diáfana - é a minha herança. Há tempos, enquanto observava a luz rala das estrelas por detrás das nuvens, eu soube de um universo existencial e a estranha emoção de fazer parte dele. Não há absolutamente nada além dessa certeza e um leve estremecer - quase imperceptível - quando me lembro da sua boca tomando a minha, num beijo milenar. Permaneço assim, flutuando neste universo indescritível até adormecer.
Sexto dia, poema/imagens: arte da poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez.
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domingo, junho 21, 2015

SHAKESPEARE, SARTRE, MACHADO, ADELIA PRADO, DEODATO, GODARD, STAGIUM & SCLIAR.


QUESTÃO DE MÉTODO – O livro Questão de método (1967 - Difusão Europeia do Livro, 1972), do filósofo, escritor e crítico francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), aborda temas sobre o marxismo e o existencialismo, o problema das mediações e das disciplinas auxiliares, o método progressivo-regressivo, tratando-se de uma obra em que o autor se define existencialista e não marxista, mantendo uma posição crítica quando à filosofia marxiana, reconhecendo, porém, a importância da filosofia marxista, ao considera-la como a filosofia do seu tempo, resultado de condições econômicas e sociais que ainda não foram superadas: [...] o marxismo [...] permanece, pois, a filosofia de nosso tempo: é insuperável, pois as circunstâncias que o engendraram não foram ainda superadas [...]. Sobre a obra o autor menciona que: [...] Questão do método é uma obra de circunstância: é o que explica seu caráter um pouco híbrido; e é por esta razão também que os problemas nela aparecem sempre abordados de viés. [...] O conhecimento é um modo do ser, mas, na perspectiva materialista, não se pode pensar em reduzir o ser ao conhecido. Não importa: a antropologia permanecerá um amontoado conjunto de conhecimentos empíricos, de induções positivistas e de interpretações totalizantes, enquanto não tivermos estabelecido a legitimidade da razão dialética, isto é, enquanto não tivermos adquirido o direito de estudar um homem, um grupo de homens ou um objeto humano na totalidade sintética de suas significações e de seus referências à totalização em curso, enquanto não tivermos estabelecido que todo conhecimento parcial ou isolado desses homens ou de seus produtos deve ser superado em direção da totalidade ou ser reduzido a um erro por parcialidade. Nossa tentativa será, pois, crítica na medida em que tentará determinar a validade e os limites da razão dialética, o que resulta em marcar as oposições e os elos desta razão com a razão analítica e positivista. Mas ela deverá, além disto, ser dialética, pois a dialética é a única instancia competente quando se trata dos problemas dialéticos [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Imagem do desenhista, gravurista, pintor, ilustrador, cenógrafo, roteirista e designer gráfico brasileiro Carlos Scliar (1920-2001)

Curtindo Eumir Deodato Trio ao vivo (Biscoito Fino, 2007), do pianista, compositor e produtor musical Eumir Deodato.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? PROGRAMA BRINCARTE DO NITOLINO – Neste domingo, a partir das 10hs, mais uma edição do programa Brincarte do Nitolino pras crianças de todas as idades, no blog do Projeto MCLAM & do programa Domingo Romântico. Na programação especialmente realizada para todos os que vivem a criança no seu coração e comandada pela Ísis Corrêa Naves muitas atrações: Cecília Meireles, Os Meninos Cantores de Viena, Mariangela Zan & Orquestra Feminina Viola de Saia, Turma da Mônica, As Meninas Cantoras de Petrópolis, O Jacaré e a Princesa, Os Canarinhos de Petrópolis, Alda Casqueira Fernandez, Coral Infantil da Rocinha, As Viagens de Oliva, Sandra Fayad, O menino da beira do rio, Meimei Corrêa, O Menino Azul, Eliana & muita música, muita poesia, histórias e brincadeiras pra garotada. Para conferir ao vivo e online clique aqui ou aqui.

A CARTOMANTE – No livro Várias histórias (W. M. Jackson Inc, 1938), do escritor Machado de Assis (1839-1908), encontrei o conto A cartomante, o qual destaco o seguinte trecho:  [...] A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe: — Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto... Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo. — E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não... — A mim e a ela, explicou vivamente ele. A cartomante não sorriu; disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez as cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso. — As cartas dizem-me... Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável mais cautela; ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta. — A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante. Esta levantou-se, rindo. — Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato... E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço. — Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar? — Pergunte ao seu coração, respondeu ela. Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis. — Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu... A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo. Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo. — Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro. E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz. A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável. Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela. — Desculpa, não pude vir mais cedo; que há? Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

COM LICENÇA POÉTICA & OUTROS VERSOS – O livro Bagagem (Imago, 1975), da escritora, professora e filósofa Adélia Prado, é dividido em cinco partes que compreendem: O modo poético, Um jeito de amor, A sarça ardente (I e II) e Alfandega. Sua poesia ressalta a sua metapoética e condição feminina, com temas sobre o amor, erotismo, cotidiano, relações familiares, memórias, religiosidade. Inicialmente destaco o seu Com licença poética: Quando nasci um anjo esbelto, / desses que tocam trombeta, anunciou: / vai carregar bandeira. / Cargo muito pesado pra mulher, / esta espécie ainda envergonhada. / Aceito os subterfúgios que me cabem, / sem precisar mentir. / Não tão feia que não possa casar, / acho o Rio de Janeiro uma beleza e / ora sim, ora não, creio em parto sem dor. / Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina. / Inauguro linhagens, fundo reinos / (dor não é amargura). / Minha tristeza não tem pedigree, / já a minha vontade de alegria, / sua raiz vai ao meu mil avô. / Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem. / Mulher é desdobrável. Eu sou. Outro de seus poemas é Grande Desejo: Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia, / sou mulher do povo, mãe de filhos, Adélia. / Faço comida e como. / Aos domingos bato o osso no prato pra chamar cachorro / e atiro os restos. / Quando dói, grito ai. / quando é bom, fico bruta, / as sensibilidades sem governo. / Mas tenho meus prantos, / claridades atrás do meu estômago humilde / e fortíssima voz pra cânticos de festa. / Quando escrever o livro com o meu nome / e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja, / a uma lápide, a um descampado, / para chorar, chorar, e chorar, / requintada e esquisita como uma dama. Por fim, o belo Dona Doida: Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso / com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora. / Quando se pôde abrir as janelas, / as poças tremiam com os últimos pingos. / Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema, / decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos. / Fui buscar os chuchus e estou voltando agora, / trinta anos depois.  Não encontrei minha mãe. / A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha, / com sombrinha infantil e coxas à mostra. / Meus filhos me repudiaram envergonhados, / meu marido ficou triste até a morte, / eu fiquei doida no encalço. / Só melhoro quando chove. Veja mais aqui.

SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO – A comédia Sonho de uma Noite de Verão (A Midsummer Night's Dream, 1590), do poeta, dramaturgo e ator inglês William Shakespeare (1564-1616), conta a história da preparação do casamento do Duque Teseu com Hipólita, sucedendo-se uma série de acontecimentos que envolvem Helena, Hérmia, Demetrio e Lisandro que adormecem na floresta enquanto os artífices ensaiam a história de Píramo e Tisbe, causando grande prazer aos convidados. O ato termina com uma dança. À meia-noite os recém-casados se retiram, Oberom e Titânia vão para seus palácios, deixando Puck para apresentar desculpas e pedir os aplausos da plateia. Destaco o trecho a seguir: [...] CENA 2 Entra Puck PUCK- Nesta hora escura, em que apenas os leões rugem na mata, os lobos uivam para a lua e piam as corujas agourentas, nós, os elfos, estamos alertas. Quando brilha o sol, nos escondemos. Na frente de todos eles eu vim a este palácio, de vassoura na mão, para limpar o batente da entrada afastando todo o mal que puder rondar a casa. (Entram Oberon, Titânia e séqüito.) OBERON- Espalhem luz por toda parte! Elfos e fadas, dancem e cantem, aproveitando o clarão! TITÂNIA- Sigam a melodia e, dançando com graça, vamos abençoar esta casa! (Cantam e dançam.) OBERON- Antes que chegue a aurora, vou abençoar o leito principal deste palácio. Para que as crianças aqui nascidas sejam sempre venturosas. Para que os três casais que aqui estão vivam sempre em harmonia. Para que seus filhos sejam saudáveis, não tenham defeitos e vivam sempre felizes e em paz. Que cada elfo cumpra a sua parte lançando algumas gotas de orvalho! Mãos à obra! Antes da aurora, encontremo-nos todos no bosque! (Saem Oberon, Titânia e séqüito.) PUCK- Caros espectadores! Espero que não tenhamos lhes causado nenhum enfado. Se por acaso não acreditarem em tudo o que se viu nesta encenação, pensem que estiveram a sonhar e que tudo não passou de um sonho estranho... de um sonho que apesar dos desencontros termina cheio de felicidade... de um sonho de uma noite de verão! (Sai.). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

NOSSA MÚSICA – O drama Notre Musique (Nossa Música, 2004), realizado pelo cineasta franco-suiço Jean-Luc Godard, é dividido em três partes que remetem à Divina Comédia, de Dante Alighieri (1265-1321): Inferno, Purgatório e Paraís. No Inferno, imagens de guerra oriundas tanto de documentários quanto de filmes de ficção: aviões, tanques e navios, explosões, execuções, populações em fuga, campos e cidades devastados por bombas lançadas indiscriminadamente. Imagens silenciosas, quatro frases, quatro peças musicais. No Purgatório, na cidade de Sarajevo contemporânea, personagens reais e imaginárias, representando a passagem da culpa ao perdão. No Paraíso, uma jovem mulher, que foi vista no Purgatório, e que encontra paz à beira de água, numa pequena praia guardada por fuzileiros navais norte-americanos. O destaque do filme vai para a atriz francesa Sarah Adler e para a atriz belga Nade Dieu. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Espetáculo Tangamente (1996), da Companhia Ballet Stagium, com músicas de Astor Piazzolla, Carlos Gardel e Le Pera, coreografado por Decio Otero e dirigido por Marika Gidali.

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