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sexta-feira, maio 11, 2018

FLORBELA ESPANCA, KRISHNAMURTI, CAMILO CELA, BOURDIEU, BILL BRANDT, CARLOS LYRA & CARLA BLEY

O ACERTO DO ERRO, OU O CONTRÁRIO – Imagem: arte do fotógrafo alemão Bill Brandt (1904-1983). - Bestinha não dava uma dentro: se acertasse na veia, pisava na bola; se chegasse na hora, o local era outro; se apontasse pro alvo, o tiro saía pela culatra; se pegasse carona, a direção era outra. Não tinha jeito, de mesmo. Nada dava certo, nem na marra ou com socorro alheio. No fim, tudo gorava: se estava tudo certo, na horagá, falhava; se garantido, fracassava; se fechado, desfeito; e se assinado, registrado em cartório, tudo preto no braço, malograva. Assim, não pode. Tolinho mesmo que era carne e unha com ele, já desconfiava, abrindo da vela: Esse cara é um azarento dum pé frio, um atrapalho de vida! E se distanciava porque devia ser contagioso. Nada, daqui a pouco se esquecia disso e lá estavam acoloiados aprontando das suas, cara dum, cu de outro. Pois bem. Um dia lá, Bestinha viu de longe a Liu Malagueta e endoidou o cabeção: Mermão, mulé dessa é de desarrumar a vida de qualquer um! Tolinho mais que gato escaldado, aconselhou: Rapaz, segura o andor que o santo é de barro. Nada, vou com tudo. Arrepara, mesmo. Vai não, rapaz. Vou. Num vai. Vou. E foi. Lá foi Bestinha, mala, cuia, com os quatro pneus arriados e estepe tudo atrás da beldade. Não demorou muito, voltou se arrastando com o rabo entre as pernas: Que foi, rapaz? Quando cheguei nela, olhou pra mim e disse: Não vem que não tem! Lasquei-me, tô apaixonado. Toma vergonha na cara, Bestinha! Mas eu tô apaixonado por ela, meu! Deixa de ser leso, tu num tais vendo que aquilo não é carrega pras tuas forças, desgraçado? Tu não tem cardan, lá pode com aquilo, maloqueiro! Dou um jeito. Ah, só se for pra levar gaia, porque doutro jeito não tem. Bestinha não se conformou e pra onde a Liu Malagueta ia, ele ia atrás, às escondidas, procurando oportunidade da precisão dela, pra ele aparecer como o seu herói. Toda vez que surgia oportunidade, era alarme falso, ele voltava mais murcho com o revés, um fiasco. Cada vez mais ele se espremia de paixão, já estava por um cabelinho de sapo, quando ela passando levou um tropicão e ele conseguiu, pelo menos pegá-la. Resultado: atrapalhou-se, ela caiu por cima dele e ele por cima de Enginaldita, aí apanhou dos dois lados: tabefe lá e cá. Quem mandou se intrometer? É que a Liu bateu tanto nele, que a Enginaldita comiserou depois de dar-lhe uns trocentos murros na cara e nos costados. Na última do salto do sapato da Liu no quengo, ele caiu desmaiado; Enginaldita teve pena, arrastou-lhe pro quarto dela, cuidou, tratou, lavou e não deixou o cara morrer, assim, à míngua. Um dia e meio lá depois, ele abriu um olho, não sabia onde estava, e aos poucos foi tomando conta da situação, quando deu de cara com a moça cuidadosa: Você salvou a pátria! Ela sorriu e uma lágrima rolou nas suas faces. Ele apertou as vistas, fechou os olhos, fez força e enterneceu, enxugou a lágrima dela com o polegar, acarinhou suas faces, ficou admirando, ela com olhos rasos d’água, ele conferindo tudo nas faces dela, olhos nos olhos, paralisados, ele quis falar, mas o nó na garganta atrapalhou, ela também engolia seco, até que se abraçaram e não foram felizes para sempre, nunca seria, ainda hoje arengam que só, maior incompatibilidade de gênio, astrologias opostas, gostos divergentes, ele uma anta e ela de lua, tinha tudo pra dar errado e deu certo, uma roleta russa na roda da fortuna. Pois é, pelo menos, ela acerta nos palpites pra livrá-lo dos vexames. No final das contas, ele só faz o que ela quer: livrou-se do azarão e das más companhias. Um completa o outro meio que entre tapas e beijos, alisados e desaforos, ponto final. Ah, o amor é lindo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor, compositor e violonista Carlos Lyra: Pobre menina rica ao vivo, Eu sou o show & The Sound of Ipanema com Paul Winter; da pianista de jazz e compositora estadunidense Carla Bley: Live in France, Andando el tempo & The Banana Quintet; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. 

PENSAMENTO DO DIA – [...] Nosso viver é ação; tudo que fazemos é ação; não uma ação particular no mundo dos negócios ou no mundo científico ou no mundo da especulação chamada filosofia. [...] A palavra liberdade implica também amor; mas não a liberdade de fazer o que querem, quando querem ou onde querem. Estamos todos vivendo nesta terra, cada qual buscando a sua própria liberdade, buscando sua forma de auto-expressão, sua própria realização, sua senda para a iluminação [...] liberdade não é realizar as próprias ambições, a cobiça, a inveja, etc. [...] Liberdade implica amor e não significa irresponsabilidade [...]. Trecho extraído da obra Sobre a liberdade (Cultrix, 1991), do filósofo, escritor e educador indiano Jiddu Krishnamurti (1895-1986). Veja mais aqui.

CONSIDERAÇÕES SOBRE A VIDA - [...] Tentar compreender uma vida como uma série única e por si suficiente de acontecimentos sucessivos, sem outro vínculo que não a associação a um "sujeito" cuja constância certamente não é senão aquela de um nome próprio, é quase tão absurdo quanto tentar explicar a razão de um trajeto no metrô sem levar em conta a estrutura da rede, isto é, a matriz das relações objetivas entre as diferentes estações. [...]. Trecho extraído da obra A ilusão biográfica (FGV, 1998), do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002). Veja mais aqui.

MADEIRA DE LEI – [...] Tempos atrás um cachalote cornudo encalhou na Praia de Traba, algumas pessoas adoecem quando são afastadas das rotinas da vida e da morte, o ruim é não saber perdoar, é necessário ajudar os possessos a vomitarem o demônio que trazem no corpo, com vestes militares levaram o corpo de São Campio para a paróquia de San Ourente de Entíns, em Outes, os dois santos se dão bem,… [...]. Trecho extraído da obra Madeira de lei (Bertrand Brasil, 2001), do escritor e jornalista espanhol vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, Camilo José Cela (1916-2002). Veja mais aqui.

TRES POEMAS - MARIA DAS QUIMERAS: Maria das Quimeras me chamou / alguém... pelos castelos que eu erguii, / pelas flores de oiro e azul que a sol teci / numa tela de sonho que estalou. / Maria das Quimeras me ficou; / com elas na minh’alma adormeci. / Mas, quando despertei, nem uma vi, / que da minh’alma, alguém, tudo levou! / Maria das Quimeras, que fim deste / às flores de oiro e azul que a sol bordaste, / aos sonhos tresloucados que fizeste? / Pelo mundo, na vida, o que é que esperas?... / Aonde estão os beijos que sonhaste, / Maria das Quimeras, sem quimeras? O NOSSO MUNDO: Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos ; como um divino vinho de Falerno! / Pousando em tu o meu olhar eterno / como possuam as folhas sobre os lagos.../ Os meus sonhos agora são mais vagos.../ O teu olhar em mim, hoje, é mais terno... / e a vida já não é o rubro inferno ; todo fantasmas tristes e pressagos! / A Vida, meu Amor, quero vivê-la! / Na mesma taça, erguida em tuas mãos, / bocas miúdas, hemos de bebê-la! / Que importa o mundo e as ilusões defuntas? / Que importa o mundo e seus orgulhos vãos? /O mundo, Amor!... As nossas bocas juntas! AMBICIOSA: Para aqueles fantasmas que passaram, / vagabundos a quem jurei amar, / nunca os meus braços languidos traçaram / o voo dum gesto para os alcançar... / Se as minhas mãos em garra se cravaram / sobre um amor em sangue a palpitar... / - Quantas panteras bárbaras mataram / só pelo raso gosto de matar! / Minha alma é como a pedra funerária / erguida na montanha solitária / interrogando a vibração dos céus! / O amor de um homem? – Terra tão pisada, / gota de chuva ao vento baloiçada... / Um homem? – Quando eu sonho o amor de um Deus!... Poemas da poeta portuguesa Florbela Espanca (1894-1930). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo alemão Bill Brandt (1904-1983).
Veja mais aqui.


Zé Ripe & Amigos: 40 anos de viola e cantador & muito mais na Agenda aqui.
&
Chamego é bom, mas depois..., o pensamento de Jiddu Krishnamurti & Edgar Morin, a fotografia de Nadav Kander & a xilogravura de Perron Ramos aqui.

sexta-feira, fevereiro 12, 2016

A MULHER CHINESA, MARIAN KEYES, COUTO VIANA & PAU DE ARARA


 Imagem: estátua unearthed mulher cerâmica na China antiga em Olaria e esmalte de Casa & jardim no AliExpress, Alibaba Grou.

A MULHER NA CHINA ANTIGA - Na Ásia o domínio era do homem e tanto o taoísmo, na China, como o tantrismo, na Índia, havia o predomínio de disciplinas sexuais e as mulheres eram mantidas reprimidas. Ambas eram polígamas, assim como os árabes, cujos harém formariam material para a fantasia no Ocidente monógamo por meio das crenças islâmicas. Entretanto, enquanto a igreja cristã primitiva advogava a abstinência sexual, nas doutrinas do Tao “o Caminho”, a “Senda Suprema da Natureza”, eram advogadas condições tais como: “Quanto mais forem as mulheres com quem um homem tenha intercurso, tanto maior será o beneficio que ele derivará do ato [...] Se em uma noite, ele puder ter intercurso com mais de dez mulheres, tanto melhor”. Assim, o taoísmo tornou-se uma filosofia que impregnou toda a estrutura do pensamento e sociedade chineses por mais de dois mil anos, desenvolvendo, com isso, um conceito de mundo, no qual a existência se apresentava como um movimento dinâmico de perpetua mudança, embasada na força conhecida como ch’i – a essência vital, o hálito de vida -, cuja senda é a Senda Suprema, o Caminho, o Tao. A divinação manual, o I-ching (o “Livro das Mutações”), dava à força passiva o nome de yin (a vagina, ou umidade lubrificadora dos órgãos sexuais femininos) e à ativa de yang (o pênis, ou o sêmen do homem), descrevendo como elas se fundiam para impulsionar o ch’i ao longo da Senda Suprema: “A interação de um yin e de um yang é chamada Tao, e o processo gerativo constante que daí resulta é chamado de mutação”. Este, portanto, o propósito de que o homem devesse aprender a viver em perfeita harmonia com a natureza, observando-se a disciplina do corpo. Durante a antiga dinastia Han (206aC-24aC), manuais circulavam, a exemplo de A arte da Câmara de Dormir, dedicados aos segredos da Câmara de Jade, com partes voltadas para comentários introdutórios sobre o significado cósmico do encontro sexual, as carícias preliminares, descrições do ato do intercurso com técnicas e posições, receitas e prescrições úteis, entre outras. O objetivo era a harmonia yin-yang, denominando-se de “nuvens e chuva” o ato do intercurso, utilizando-se de afrodisíacos, tais como a droga da galinha calva, a poção do chifre de veado, entre outras. Em oposição ao taoísmo surgiu o pensamento do filósofo e religioso chinês Confúcio (551ac-479aC), que, por sua vez, defendia que as mulheres eram absoluta e incondicionalmente inferiores, além de serem de difícil convivência: “Se nos mostrarmos amistosos com elas, logo perderemos o poder de controla-las e, se mantivermos distância, ficam ressentidas”. Em vista disso, as mulheres dessa época constituíam apenas uma necessidade biológica para a produção de filhos homens, os quais iriam continuar ministrando as necessidades dos ancestrais. Elas participavam dos haréns ao lado de três a doze esposas e concubinas, chegando a nobreza a ter mais de trinta. O Li-chi – Livro dos Ritos -, confuciano estipulava que “[...] mesmo que uma concubina esteja envelhecendo e desde que ainda não tenha atingido os cinquenta anos, o marido deverá ter intercurso com ela a cada cinco dias”. O favoritismo entre as mulheres era calculado para resultar na ruina da paz domestica que prejudicaria a carreira de um homem. O casamento entre os chineses não unia o homem apenas à sua esposa principal, mas também às irmãs e empregadas dela, as quais ele trazia consigo, como suas esposas secundárias. Ele teria um período de experiência de três meses, antes de solenemente estabelecer qual a Primeira Esposa. Ele possuía o direito de repudiar sua esposa principal, via de regra por esterilidade ou doença incurável, repudiando, por consequência, as irmãs e acompanhantes. A história oficial da dinastia Han foi realizada pela erudita Dama Pan Chao, uma das primeiras notáveis chinesas que acreditava que as meninas deviam receber a mesma educação elementar que os meninos, vez que as mulheres eram iletradas, excetuando-se aquelas que possuíam vontade e oportunidade de aprender, ou as cortesãs que utilizavam a educação como ferramenta de seu comércio. O poema Yü-t’ai-hsing-yung, do poeta Fu Hsüan, dava conta de que: Amargo deveras, é ter nascido mulher, / seria difícil imaginar-se algo tão inferior! / Ninguém derrama uma lágrima quando ela se casa e parte... / O amor de seu marido é tão indiferente como a Via Láctea, / mas no entanto ela deve segui-lo, como o girassol segue o sol. / Em breve, os corações de ambos se afastam tanto, como o fogo e a água, / ela é acusada por todos e tudo que saia errado [...]. As esposas eram mães e donas-de-casa essencialmente, cada uma delas ocupando seu lugar na hierarquia dos aposentos das mulheres e cada uma com suas tarefas diárias específicas. Suas horas vazias eram preenchidas diante do espelho, cuidando dos cabelos ou da pintura do rosto. Outras se ocupavam com casos amorosos ilícitos e seus aposentos eram em geral reservatórios de feminilidade frustrada, não sendo incomum que filhos adultos tivessem casos com as esposas secundárias ou concubinas do pai. Em geral, as mulheres só se encontravam com os maridos à horas das refeições ou na cama, de maneira que a conversa se restringia a temas domésticos. Os confucianos desdenhavam das mulheres que tentavam tomar parte nos interesses do marido e consideravam a participação feminina nos assuntos públicos como a raiz de todos os males, como defendia o estadista do século IIdC, Yangg Chên: “Se às mulheres forem confiadas tarefas envolvendo contato com o mundo exterior, elas provocarão desordem e confusão no império, levando vergonha à Corte Imperial. Não se deve permitir que mulheres tomem parte em assuntos do governo”. Inclusive constava no Li-chi a abominação ao contato físico casual entre o marido e mulher ou concubina, tampouco permitia que frequentassem o mesmo poço ou local de banhos, nem pendurar suas roupas no mesmo cabide para vestes. Seguindo esse ditame, o Concílio de Macon, de 585dC, decretou que nenhum cadáver masculino deveria ser sepultado ao lado de um feminino, enquanto este último não se decompusesse. Entretanto, foram estabelecidas regras que formalizaram um código de cortesia domestica, assegurando até mesmo à ultima concubina, um grau de dignidade humana raramente conferido a alguém que não às mulheres de alto nascimento nas sociedades monogâmicas do Ocidente. O paternalismo do estado confuciano não inibia as esposas, concubinas ou viúvas, enquanto que, conforme o filósofo do século III, Ko Hung, as mulheres jovens vagavam a divertir-se no mercado, visitando os parentes pela noite, além de recreios budistas e para ver caçadas e pescarias, organizando piqueniques nas montanhas e margens dos rios. Elas podiam viajar em carruagens abertas, cantando e tocando músicas, bebendo e festejando, enquanto que, para o filósofo mencionado, promoviam a decadência da família e a ruína do Estado. 


Veja mais:






DITOS & DESDITOS

O amor é uma emoção. Não pode ser visto nem tocado, e é vivenciado de forma diferente por cada pessoa, portanto, é difícil de mensurar...

Pensamento da escritora islandesa Marian Keyes. Veja mais aqui & aqui.

 

O AVESTRUZ LÍRICO

Avestruz: \ O sarcasmo de duas asas breves \ (Ânsia frustrada de espaço e luz, \ De coisas frágeis, líricas, leves); \ Patas afeitas ao chão; \ Voar? Até onde o pescoço dá. \ Bicho sem classificação: \ Nem cá, nem lá. \ Isto sou (Dói-me a ironia \ – Pudor nem eu sei de quê). \ Daí a absurda fantasia \ De me esconder na poesia, \ Por crer que ninguém a lê.

Poema do dramaturgo, poeta e tradutor português António Manuel Couto Viana (1923-2010).

 

PAU DE ARARA

Era um dia cansado que tava da fome que eu tinha \ Eu não tinha nada, que fome que eu tinha \ Que seca danada no meu Ceará \ Eu peguei e juntei um restinho de coisa que eu tinha \ Duas calça velha, uma violinha \ E num pau de arara toquei para cá \ E de noite ficava na praia de Copacabana \ Zanzando na praia de Copacabana \ Dançando o xaxado pras moças oiá \ Virgem Santa, que a fome era tanta que nem voz eu tinha \ Meu Deus, tanta moça... que fome que eu tinha \ Mais fome que eu tinha no meu Ceará.

Foi aí que eu resolvi comê gilete. Tinha um compadre meu lá de Quixeramubim que ganhou um dinheirão comendo gilete na praia de Copacabana. De dia ele ia de casa em casa pedindo gilete veia, e de noite ele comia aquilo tudinho pro pessoal vê. Eu não sei não, mas acho que ele comeu tanto, que quando eu cheguei lá na praia aquele pessoá já tava até com indigestão de tanto vê o camarada comê gilete. Uma vez, eu tava com tanta fome que falei assim prum moço que ia passando: "Decente! Voismecê deixa eu comê uma giletezinha pra voismecê vê?" "Sai pra lá, pau de arara. Tu não te manca, não?" "Oh, distinto! Só uma, que eu não comi nadinha ainda hoje." "Tu enche, hein, pau de arara!" Aquilo me deixou tão aperriado, que se não fosse o amor que eu tinha na minha violinha, eu tinha arrebentado ela na cabeça daquele pai-d'égua.

Puxa vida, não tinha uma vida pior do que a minha \ Que vida danada, que fome que eu tinha \ Zanzando na praia, pra lá e pra cá \ Quando eu via toda aquela gente no come-que-come \ Eu juro que tinha saudade da fome \ Da fome que eu tinha no meu Ceará \ E daí eu pegava e cantava e dançava o xaxado \ E só conseguia porque no xaxado \ A gente só pode mesmo se arrastar \ Virgem Santa, que a fome era tanta que até parecia \ Que mesmo xaxando meu corpo subia \ Igual se tivesse querendo voar.

Às vezes a fome era tanta que volta e meia a gente arrumava uma briguinha pra ir comê uma boia no xadrez. Eta quentinho bom na barriga… Mas, com perdão da palavra, a gente devolvia tudo depois, que a boia já vinha estragada. Mas, enquanto ela tava ali dentro da barriga… Quietinha... Que felicidade! Não... Mas agora as coisas tão meiorando, sabe? Tem uma senhora muito bondosa, lá no Leblon, que gosta muito de vê eu comê caco de vrido. Isso é que é bondade da boa. Com isso, já juntei assim uns quinhento mil-réis. Quando tivé mais um pouquinho, eu vou-se embora. Volto pro meu Ceará.

Vou-se embora pro meu Ceará porque lá tenho um nome \ E aqui não sou nada, sou só Zé-com-fome \ Sou só pau de arara, nem sei mais cantar \ Vou picar minha mula, vou antes que tudo rebente \ Porque tô achando que o tempo tá quente \ Pior do que anda não pode ficá.

Música da dupla Vinicius de Moraes & Carlos Lyra, interpretada por Ary Toledo e Zélia Barbosa. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

CRÔNICA DE AMOR POR ELA: SOU NELA...

Que seja como for a chama desse fogo acenda o nosso amor.

No vício do prazer me deixe exangue e lânguido a te querer, a te querer demais...

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Alvorada na Folia Tataritaritatá, Pablo Neruda, João Ubaldo Ribeiro, Egberto Gismonti, Capiba, Ricardo Palma, Tsai Ming-liang, Cristiane Campos, Fernanda Torres, Chen Shiang-Chyi, Revista Germina, Digerson Araújo, Asta Vonzodas & O cérebro autista aqui.

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TODO DIA É DIA DA MULHER
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quarta-feira, fevereiro 10, 2016

DERRIDA, CAMILLE PAGLIA, MUSSET, MARSHALL BERMAN, CARMEN JUAREZ MEDINA, VINICIUS & CARLOS LYRA, SONSA & LITERÓTICA


SONSA – Imagem: Gone, But Not Forgotten (1873), do artista plástico John William Waterhouse (1849 – 1917) - Toda sexta-feira, meio-dia em ponto, ela agarra no tronco e me diz: toda sua. E se esfrega já nua, anjo e demônio. Maior pandemônio, maior ventania. Faço pontaria nela oferecida a me dá por guarida suas cercanias. Vou pra montaria e nela me atrepar e sem blá, blá, blá, no seu alvo alado. Apruma o rebolado com manha de sonsa, a me dá por responsa seus segredos guardados. E todo malcriado e perito artesão, predador e pagão, batizo os pecados. Nesse campo minado me faz candelabro esfregando o escalavro do seu poço imenso. E já me convenço de sua alma mundana que a safada sacana deixa descoberta. E mais inquieta me dá suas minas que queima a retina e cobiça o capacho. Se atreve o meu cacho, minha flecha na maçã, nem até amanhã não apaga o meu facho. O céu vai abaixo e não há nada igual. Nesse manancial o prazer não tem preço. Ela vira do avesso, o dedo na tomada, que atrevida e aprumada sobe todas as alturas. E cai na fundura me faz seu arrimo, me cobrindo de mimo e toda afogueada. Mais afeiçoada no nosso escambo, ela geme ao meu mando, toda ruidosa. E mais que gulosa arreia atiçada, toda engatilhada dos desejos maiores. E com garras piores, e doido varrido vou impor-lhe o castigo das ousadas vontades. E vou com alarde e com toda ganância vasculhar as instâncias ignotas do corpo. E vou com escopo na entrega gostosa a roubar seu cheiro de rosa e toda a sua essência. Vai fazer diferença pegá-la escrava, como enxada que cava seu lombo e costado. Eu puxo e puxado, arranco ferrolho, e descasco o repolho, do seu dorso o penhor. Eu me faço senhor a fincar as bandeiras nas entradas fagueiras do seu território. Sou dono meritório dessa graça opulenta, mais de oito ou oitenta, sou explorador. E ela só: sim, senhor! Rendida fremindo com tudo tinindo, maior saculejo. E me enche de beijo a quedar minguada, lambida e chupada até o último gole. E seu jeito me bole como bem a merece, me faz sua prece, seu altar e pastor. E do seu alcandor no fogo da paixão, me aperta um tempão a suspirar de amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui, aqui, aqui e aqui.


DITOS & DESDITOS – Uma: O que vai, volta. Só dá erro? Um dia acerta. Desistir? Jamais. Sigo em frente, entre obstinação e firmeza. Eu quero é botar meu bloco na rua! Outra: Se a noite de breu parece eterna, lembre-se: o Sol nasce paratodos!!! (LAM)

ALGUÉM FALOU, SE LIGA – As coisas mais desagradáveis que os nossos piores inimigos nos dizem pela frente não se comparam com as que nossos amigos dizem de nós pelas costas. Pensamento do poeta, novelista e dramaturgo francês Alfred Musset (1810-1857). Veja mais aqui.

MODERNIDADE – [...] Pode acontecer então que voltar atrás seja uma maneira de seguir adiante: lembrar os modernistas do século XIX talvez nos dê a visão e a coragem para criar os modernistas do século XXI. Esse ato de lembrar pode ajudar-nos a levar o modernismo de volta às suas raízes, para que ele possa nutrir-se e renovar-se, tornando-se apto a enfrentar as aventuras e os perigos que estão por vir. Apropriar-se das modernidades de ontem pode ser, ao mesmo tempo, uma crítica às modernidades de hoje e um ato de fé nas modernidades – e nos homens e mulheres modernos – de amanhã e do dia depois de amanhã. [...]. Trecho extraído da obra Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade (Companhia das Letras, 1986), do filósofo e escritor estadunidense Marshall Berman (1940-2013). Veja mais aqui.

A MENTIRA – [...] A mentira comporta uma manifestação de tipo performativa, implicando uma promessa de verdade, mesmo lá onde ela é traída, a partir do momento em que deseja também criar um acontecimento, produzindo um efeito de crença lá onde não há nada a ser aceito, ou, muito menos, lá onde nada se esgota numa constatação. Simultaneamente, porém, essa performatividade implica a referência a certos valores de realidade, de verdade e de falsidade, que são considerados independentes da decisão performativa. [...]. Trecho extraído da obra Breve storia della menzogna (Alberto Castelvecchi, 2006), do filósofo francês Jacques Derrida (1930-2004). Veja mais aqui.

NÓS, QUEM SOMOS? – [...] De dia, somos criaturas sociais, mas à noite mergulhamos no mundo dos sonhos, onde reina a natureza, onde não existe lei mas apenas sexo, crueldade e metamorfose. [...]. Trecho extraído da obra Personas sexuais - arte e decadência de Nefertite a Emily Dickson (Companhia das Letras, 1993), da professora e crítica social Camille Paglia.

A ARTE DE CARMEN JUAREZ MEDINA
A arte da artista plástica espanhola Carmen Juarez Medina.


MARCHA DA QUARTA-FEIRA DE CINZAS
Música de Carlos Lyra & Vinicius de Moraes (E no entanto é preciso cantar - Philips, 1971)

Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou

Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar
Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz
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RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...