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segunda-feira, agosto 25, 2025

VERA IACONELLI, RITA DOVE, CAMILLA LÄCKBERG & DEMOROU MUITO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Tempo Mínimo (2019), Hoje (2021), Andar com Gil (2023) e Delia Fischer Beyond Bossa (2024), da pianista, cantora, compositora e arranjadora Delia Fischer. Veja mais aqui & aqui.

 

Escotoma onírico (ou o testamento que entrou pra história)... - Quem da praça da matriz, virado pra banda da metade meridional da cidade, bandeando-se pro leste, vai pro arruado da usina e passa por ali. Isso mesmo. Lá adiante mais umas léguas é o cemitério, mas basta dobrar à destra pela esquina, 3 prédios depois, ou quase, lá está sem identificação alguma. E nem precisa, não tem errada: pros lados de cá até que é bem grandinho, ocupando um terreno largo e comprido, alvenaria tomada por um imenso salão com cadeiras e mesas, muitas prateleiras pelas paredes desbotadas quase sem reboco, todas preenchidas com garrafas numeradas e ao redor dum balcão enorme envidraçado, com a oferta de produtos e divisando o ambiente um tanto anacrônico, mas é ali mesmo. Logo verá um freguês se adiantado a soar seu sincero pedido e é lá que ele mesmo está, aquela figura de gente austera, perfunctório, aboletada na porta e nem um pouco extravagante: o dono da Carne-de-Sol de ZéMago. O próprio, sujeito franzino, cabeleira rala grisalha deixando à mostra a quase calvície, os olhos desconfiados, o bigode raspado embaixo da venta, sobressaindo-lhe apenas por sobre o beiço superior, a voz de soprano com sua modesta indumentária impecável, apesar de solteirão convicto – é que tirou sentido das coisas de amor depois de já madurão e foi o que-não-sei, coisa de coração enjaulado, olhos findantes e ela a dita era o caos e nunca mais. Até debaixo d’água sofreu a dor de amor e se refez nas espumas de espremido caracol: Em casa de amorante, solidão é o fim do mundo. Triste de quem foi e de lá voltou. Era ele praquela, nunca mais. No fundo do imóvel via-se duas portas pros sanitários e uma outra, mais estreita, com um cartaz garatujado: PRIVADO – Proibida a entrada de enxeridos. É lá, cochichavam, a cozinha da bruxa de fala fina. Logo na entrada parecia o cicerone aboletado no caixa-recepção, no qual pediam, pagavam e já pegavam, ao seu comando, a comida no prato, seguindo para se aboletar em qualquer mesa. Outra advertência: não fale fiado. Isso evita pandemônio de vitupério. Todo dia, às 11 em ponto, o povo chegava de faro atiçado pelos sabores acesos, tudo figurinha carimbada de décadas e até séculos – como Zalfredim encostado num canto a berrar: Tomara que dê uma cheia pra levar os cornos daqui! A esponsal dele, Bastiana, da janela vizinha alertava: Cala boca, véio fresco, tu num sabe nem nadar! Gargalham fregueses assíduos, fidelizados pelo paladar e ronco da barriga. Eram pseudoutos e desinformados, poetastros e linguarudos, probos e lesados, fiéis e descrentes, mutreteiros e detratores, polêmicos fuxiqueiros pervertidos; agiotas, barnabés e puteiros, manipuladores e bem-mandados, cornos e aduladores - uma mundiça inconformada de chatos devoradores, gente insossa e mal-nutrida, arre égua! Todos apreciadores da graça rústica do local. Do tipo Zé Borreia que morreu um dia desse e todos lamentavam: Ah, quem mandou ele peidar na venta dum demônio, bem empregado: findou com estridente enfiado no boga! Entalado? Iapois. E a próxima vítima? Ninguém escapa, meu. Os folgados pediam: Frango assado, Zé! Vá pedir à quenga da sua mãe! E uma cerveja gelada: Vá pedir ao corno do seu pai! Bora, bora! Quero meu pedido! Vá pro fim da fila pra deixar de ser entrão! Outros gaiatos pediam conhaque, rum, vermute, gin, cerveja ou até cachaça! Quando não fígado, peixes, crustáceos. Vão tudo se lascar! Modéstia à parte: aqui só tem o que é bom! Ah, vá sentar légua no cangote, seu fi-duma-égua! Magote de sonsos das matas finadas, mesmo assim, té hoje mando de cana mesmo sem ter quem moa. E tombávamos todos, gente de peripécia própria ou de diversificadas personas, diante do dicomer sustante, gostinho daquela comida caseira, todos servidos em pratos feitos de cascos de cágados, tartarugas e tatus; em cumbucas de barro, de pedra sabão ou louça cerâmica, coités, vasilhas, panelas, potes, tigelas, terrinas, cuias, o que tivesse à mão. Os talheres tudo de pau: garfos, facas, colheres. E todos matavam a sua fome às dentadas, engolidas, abocanhadas, cada garfada, colherada, facada; todo mundo já sabia, nem precisava de cardápio, expediente bem definido, a partir das 11 saía o rango: a afamada carne-de-sol é servida acompanhada de feijão-de-corda, com arroz, vinagrete e uma lapada de cortesia da abrideira Teibei – a segunda, por conta do freguês, acende o candeeiro; a terceira, paga por antecipação, pega o jipe de sair riscando tudo até desenvultar! Basta, então, a primeira golada e a ineivada entra rasgando tudo, do de cujus estalar os dedos, alvoroçado, sentir a fisgada no osso do mucumbu, do retrato da identidade se arrepiar todo. Aí o cabra entra em combustão, baixa o santo e incorpora logo uma entidade sã fazendo vulto capaz de adivinhar o futuro e o prêmio bolada da loteira. U-hu! Me dá uma meiota dessa disgrama, vai! Nem um quartinho sequer, tá doido! Há a opção para quem corajoso queira se deliciar com a incendiária Queima Toba – uma pimenta malagueta preparada para aparentá-la àquela ardida X, mais esquentada que a Carolina Reaper, como se fosse o cruzamento das fuderosas Habanero e a Naga Bhut Jolokia. Ou melar tudo com manteiga de garrafa, outra especialidade da casa. O almoço é servido até às 15, quando todos os presentes, tendo ou não concluído o repasto, é enxotado. Porta arreada só reaberta às 17, pros achegados da sopa Esquenta Peito, também acompanhada duma modesta talagada grátis da Teibei. Dizem que o sucesso da sopa é por conta daquele misterioso Osso de Hermilo. Sabiam? E ele bota nomes de tacacá, tacapitu e buré. Tudo encerrado sumariamente às 19, arriando as portas quando a noite vai subindo pro descanso diário. A partir da meia noite começa o serão, para o qual acorrem atraídos paisanos, dados por notívagos ou desencaminhados. É a hora do milagroso Mingau de Cachorro. Ô Zé me dá logo a gosma do guenzo que eu quero dar um plantão numa frochosa de Cantochão! Quem bêbado fica sóbrio; quem doente, curado; quem mortificado, salva-se uma alma! Glória, Deus! E para quem boiou ou caiou a noite toda, doses cavalares da Teibei para levantar a crista e ferver o juízo. Uma recomendação do proprietário: Beba com moderação, senão você sai do riscado todo triscado! Da sexta pro sábado o turno encomprida e vira noite adentro por causa da feira: Ô povo morto de fome! Só arriando as portas lá por volta das 13 e só reabrindo meia noite com o Festival Corujão-pra-que-te-quero. Esse é o estopô calango! É quando emenda ao domingo de porta-arreada às 5, só a portinhola do pega-bêbo aberta. É a hora do rega-bofe domingueiro, das garrafadas e doutras gororobas encomendadas durante a semana e só entregáveis aos domingos. As garrafadas Frevo Arrepia – a que levanta defunto de 7º dia, são muito procuradas e são preparadas pros fraquejados famélicos que encomendaram durante a semana e entregues inadiavelmente na hora aprazada: Esse xarope tônico é para tomar em jejum, tiro e queda! Ô bicha boa! No cardápio dominical pros perdidos e desencontrados, ele serve para pagar, pegar e levar: sopa da cabeça de peixe (camurins, acaris, jundiás, pirambebas, piabas, traíras, tudo do seu criatório no quintal de casa – ninguém nunca viu, quem vê morre!), pituzada, buchada de bode, a farofa - farinha assada na carapaça de tartaruga; afora cuscuz, salada de legumes e verduras, cobertura de queijo de coalho banhado por manteiga de garrafa; sem contar com cuscuz, canjica, xerém, munguzá, angu; ensopado de jerimum no queijo coalho, inhame, macaxeira, batata doce; tudo colorido com saladas de pimentão gigante, sementes e casca de romã ralada, castanha de caju, caroço de abacate, amendoim, casca e coroa de abacaxi, coco ralado, cebola, alho, tomate, limão, gengibre, outras ervas silvestres para dar mais gosto, como alecrim pimenta, aroeira, macela, cumaru e quebra-pedra; mais coentro, cebolinha, tudo ralado em pós, afora a coleção de pimenteira da sua flora diversa, mais as fruteiras de encher os olhos: maracujá, cereja, jaboticaba, tamarindo, cupuaçu, jaca, pitanga, acerola, graviola, caju, umbu, mangaba, jambo, siriguela, cajá, murici, cajarana, araticum; também licores de jenipapo, berinjela, caldo de cana, bolo de rolo, passa de caju, cocada, tapioca, arroz doce, munguzá, arrumadinho, escondidinho de charque, caldinho de peixe, peixadas, coalhadas, tudo com seus temperos poderosos nas receitas de sua própria experiência gastronômica. No balcão dos pega-bêbos só a teibei e pra tira-gostos na hora são tripa de porco ou salame, ou mesmo frutas que estão por ali perdidas para adoçar o paladar do recalcitrante. Às 18 fecha tudo e só segunda reabre, que ninguém é de ferro. É quando largam, às escondidas, a cozinheira e os auxiliares – lavadoras das louças, faxineira, copeira, os sobrinhos e afilhados: acima dos 10 anos ficam muito sabidos! Roubam que só a peste! O anfitrião ali ouve tudo e de tudo sabe, mas diz que não. Besta, nada. Ao ser perguntado: Não sei nada nem tenho tempo pra fuxico: futrica é na outra esquina. Foi o que respondeu certa vez pro delegado, que, já acometido pelas dores de um fecaloma desgraçado, emputeceu-se e destampou a bronca, de quase prendê-lo incomunicável. Ôpa! Deixa disso. Caso esclarecido. Morreu de quê mesmo? Ao delongar o tempo que nunca parou e choveu de doer horas inteiras terrafora, sem remorso, o frio novo madrugava, já manhã clara, ele lá no seu tanto vivido soçobrou. Às antes matas levitavam no solúvel do seu íntimo e calaram nele ao pé da cruz. Entregou-se sabe-se lá seus motivos e queixas, como um grito lavado pela lama empoçada no barro batido da rodagem pantanosa do choro. Foi-se triturado pela moagem barulhando esmagadora na moenda e o caldo do bagaço escorreu na veia estourada, o sangue e o piripaque no peito sem estrondo, de beirar o ostracismo com a alma nas trevas. Caiu do trono com uma ideia esquisita, doida, obstruindo embaixo, veia cardíaca lá do fundo onde guardava o resto da lembrança daquela de nunca mais e quixoteou súbita glória, era tarde, a incompletude do rastro na palma da mão, não havia mais aonde ia dar. Bateu biela, genuflexo: esvaziou-se no mata-borrão, olhos rasos d’água, caligrafia borrada, sem quê reinventar-se, desconchavado incólume e agora, não temia mais seus abismos, seus desertos segredos. Absorto, suspenso pela procissão de quelônios fantasmas, ai-de-quem, à tona incôngruo, seu tumulto foi maior. Foi-se com seus ais, quando lembrou de Deus e imergiu em zilhões de coisas ao mesmo tempo, difuso, despersonalizado, uno, foi-se. Era o tranquilo morrer-se enfim. Foi-se esquecendo pra renascer no epitáfio da lápide: Aqui jaz aquele que brindou a vida e tudo o que amealhou saiu gastando a peidar, arrotar, cagar e mijar; o amigo que lembrou dos vivos safados e dos que se foram... Eu também voo. Sepultado foi com um testamento emaranhado num nó cego da peste de bem dado que, até hoje, os parentes todos tentam desengachá-lo. Até mais ver.

 

Annie Ernaux: Procurei o amor da minha mãe em todos os cantos do mundo... A dor não pode ser mantida intacta, ela precisa ser “processada”, convertida em humor... Ela me ensina que o mundo foi feito para ser aproveitado e aproveitado, e que não há absolutamente nenhuma razão para se conter... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Coco Chanel: Não gaste tempo batendo em uma parede, na esperança de transformá-la em uma porta... O ato mais corajoso é ainda pensar por si mesmo... Como tudo está em nossas cabeças, é melhor não perdê-las... Veja mais aqui & aqui.

Dorothy Parker: Se você quer saber o que Deus pensa sobre o dinheiro, basta olhar para as pessoas que ele deu... A cura para o tédio é a curiosidade. Não há cura para a curiosidade... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

APOLOGIA ACONCHEGANTE

Imagem: Acervo ArtLAM.

Eu poderia escolher qualquer coisa e pensar em você \ — Esta luminária, a chuva parada pelo vento, o azul brilhante \ Minha caneta exala, secando fosca, sobre a página. \ Eu poderia escolher qualquer herói, qualquer causa ou época \ E, tão certo quanto atirar flechas no coração, \ Montado em uma égua malhada, pernas tão afastadas \ Quanto ficar em estribos de prata permitir \ — Lá estará você, com a testa franzida \ E a cota de malha brilhando, para me libertar: \ Um olho sorrindo, o outro firme no inimigo. \ Esta era pós-pós-moderna é só negócios: \ CDs e faxes, um evento do tipo "faça agora e não corra riscos". \ Hoje, um furacão está se aproximando da costa, \ Estranhamente masculino: o Grande Floyd Mau, que traz uma horda \ De devaneios: reminiscências constrangedoras \ De paixões adolescentes por garotos inúteis \ Cujo único talento era beijá-la até deixá-la sem sentido. \ Todos tinham nomes de maricas — Marcel, Percy, Dewey; \ Eram finos como alcaçuz e tão mastigáveis, \ Doces com um centro escuro e oco. \ Floyd Xingando sem parar. \ Você está enclausurado no seu Aerie, eu estou empoleirado no meu \ (Mesas gêmeas, computadores, pisos de madeira): \ Estamos contentes, mas ficamos aquém do Divino. \ Ainda assim, é constrangedor, essa felicidade \ — Quem se satisfaz simplesmente com o que é bom para nós, \ Quando o comum já foi notícia? \ E, no entanto, porque nada mais serve \ Para me livrar da melancolia (chame de tristeza), \ Preencho este tempo roubado com você.

Poema da premiada poeta e ensaista estadunidense Rita Dove (Rita Frances Dove), autora da obra On the Bus With Rosa Parks (1999).

 

GAIOLA DOURADA - […] Parece haver algum tipo de tristeza em você. Acho isso atraente. Desconfio de pessoas que andam por aí achando que a vida é só risadas o tempo todo. Pessoas que estão sempre felizes me entediam. Não deveríamos estar felizes o tempo todo, senão o mundo pararia. [...] O maior problema das pessoas, percebi, é que elas projetam sua própria tristeza nos outros. Tente compartilhá-la. Elas imaginam que, por compartilharmos o mesmo DNA, automaticamente nos sentiremos tristes com as mesmas situações. A tristeza não fica mais fácil de lidar simplesmente porque você a compartilha. Pelo contrário, ela se torna mais pesada. [...] A libertação de se encontrar no fundo do poço. Sem risco de cair ainda mais na merda. [...]. Trechos extraídos da obra Golden Cage ( Vintage Crime/Black Lizard, 2021), da escritora sueca Camilla Läckberg, que na sua obra The Cuckoo (Hemlock Press,2024), ela expressou que: […] Literatura é vida e morte. Pessoas vêm e vão. Nós vivemos. Nós morremos. Mas a literatura que criamos continua viva. [...]. Já no seu livro El espejismo - Planeta Internacional nº 3 (2024), ela registra que: […] Conceda-me serenidade para aceitar o que não posso mudar, coragem para mudar o que posso e sabedoria para saber a diferença. [...]. Também é autora de obras como: Women without mercy (2018), Buried Angels (2014), The Angel Maker's Wife (2011), The Ice Princess (2011), The Preacher (2011), Las hijas del frío (2011), The Hidden Child (2007), entre outros, sendo atrabuida a ela a frase: Se você não se permitir amar, correria o risco de perder tudo... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

ANÁLISE - [...] Muitos são os caminhos que nos levam a procurar a ajuda de um psicanalista, e todos passam por um certo caldo de cultura que entende que a psicanálise seria uma resposta para o sofrimento. Calhou de eu sentir uma tristeza enorme aos dezessete anos, e de conhecer uma psicóloga que conhecia uma psicanalista. Daí para cair de costas num divã foram dois palitos. Já o percurso que me levou a precisar de ajuda é bem mais custoso de descrever. Resisto o quanto posso. Essa história tem infinitas versões possíveis, e qualquer coisa que eu disser a partir daqui será mais uma delas, ou seja, construções e improvisos sobre um vazio original. Nasci a quinta filha em uma prole de seis — ou deveria dizer oito, uma vez que meu pai teve dois filhos fora do casamento, cuja existência só descobri na adolescência? [...] Freud diz que o trauma é precedido pela calmaria para a qual sonhamos voltar, na expectativa impossível de recolocar a pasta de dentes no tubo espremido. Buscamos refúgio nas cenas que antecedem o acontecimento trágico, recriando um momento idílico antes do mal súbito. É como se, no meio de uma guerra, sonhássemos com o tempo anterior ao fatídico bombardeio no qual perdemos um ente querido, sob a condição de esquecermos convenientemente que já estávamos em guerra. Mas há outras formas de lidar com a intensidade traumática. Uma paciente pode contar uma cena de abuso da qual só se lembra das cores do lustre que tinha ao alcance dos olhos. É como se, para suportar o insuportável, só lhe restasse reduzir-se a um olho que vê um lustre, deixando o corpo ausente de si enquanto o algoz desfruta dele. Os relatos de tortura dizem muito dos subterfúgios que usamos para preservar a alma frente ao horror. [...]. Trechos extraídos de Análise (Zahar, 2025), da psicanalista e psicóloga Vera Iaconelli, atuando como membro do Instituto Sedes Sapientiae e da Escola do Fórum do Campo Lacaniano, autora dos livros Mal-estar na maternidade: do infanticídio à função materna (Zagodoni, 2020) e Criar filhos no século XXI (Contextoi, 2020).

 

DEMOROU MUITO, DE ADMMAURO GOMMES

Imagem: Acervo ArtLAM.

[...] Ninguém me avisou que eu teria \ que passar por lugares tão estreitos \ e íngremes e escorregadios \ e enfrentar perigos inúteis. \ Tudo era para ter o aroma da felicidade \ e beijos e flores e cores e afagos \ mas nada de fantasmas medievais \ nem internéticas assombrações. \ Era para ser o filme do ano \ a conquista sempre e inevitável \ e o renascer da esplendorosa manhã \ onde os campeões dão a volta olímpica \ com a taça na mão. [...].

Trecho do poema Demorou muito, do poeta, professor e revisor Admmauro Gommes, poema este que recebeu modestas considerações minhas e uma resenha crítica do poeta Vital Corrêa de Araújo. Veja o texto completo aqui & mais aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.


 


quarta-feira, novembro 01, 2023

ADANIA SHIBLI, RIKU ONDA, SARAH HALE, SOCORRO CUNHA & VANISE REZENDE

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do Live from Jazz St. Louis (2023) & Live at Cape Cod Jazz Festival (2017), da musicista, compositora, arranjadora e saxofonista Grace Kelly, considerada pela DownBeat – 2016, a Rising Star - Alto Saxophone, ao lançar o álbum Trying to Figure It Out (PAZZ, 2016).

 

A VIDA NA NÓDOA DA PARÁBOLA – O que tivera nada mais que a solidão diuturna, vez ou outra o assalto do inopinado. Nunca neguei um sorriso, mais que hospitaleiro, braços abertos – sobrevivente de enrascadas recorrentes. Não fora diferente outro dia: sempre apostei no melhor, mesmo que tudo desse errado depois. Daquela vez ela chegara tão ádvena quanto insólita. Quem aquela? Retirou seu turbante e pude ver-lhe os olhos vivos inquietos, o indicador entre os lábios carnudos a sussurrar-me misteriosamente Trudi Canavan: Palavras são mais afiadas que espadas. Elas apenas não destroem a mobília... Como? Manteve-se em silêncio ao meu lado ocultando-se dalguma situação. Flagrou-me o cenho cerrado e esclareceu tão sussurrantemente enigmática quanto antes: A verdadeira bondade consiste em lutar contra o mundo inteiro pelo bem dos outros... Cá comigo: desconfiei e quase matei a charada. Ah, não, não podia ser outra, tinha de ser Shen Te, a meretriz premiada pelos deuses como A alma boa de Setsuan do Brecht. Tinha de ser e peguei o fio, passei a checar e aquiesci com um cochicho: Sim? E, da mesma forma, ela começou a se expandir pelos cotovelos: o que seria o nervo de todas as coisas e maldades, para sobreviver alheia em um mundo achatado pelo pastiche e assistindo a passagem do Cometa do Diabo, investigando quem chocava o ovo da serpente, embora não soubesse ao certo qual e como, contudo, só com o estralar da casca e a tragédia já tomava conta - nunca serão mais os mesmos. Claro! Agora são os aloprados que possuem o talento potencializado para a crueldade aos safanões, com seu coração escuro e secreto às risadas esculhambando de vez tudo que nos resta de dignidade ou conquistas – por aí e por todo canto, Congresso Nacional, Assembléias Legislativas, Câmaras de Vereadores, Executivo pra cima e pra baixo dos Estados e Municípios, as muitas esferas do Judiciário... Que será de mim, de nós... Tomou fôlego e disse-me Roseanne Barr: Esperar que a vida te trate bem é tolice, assim como esperar que um touro não te atinja porque você é vegetariano... As mulheres são amaldiçoadas e os homens são a prova... E desconversava retomando o assunto, acompanhava as curvas do seu raciocinio e não seria nada fácil. Sabia que o tempo da natureza não batia com o relógio, a competição só favoreceu sempre quem ditou todas as regras escolhendo a seu modo qual meritocracia. E tome e pei, reticências mil! Era eu no clímax da Pirâmide de Freytag, para mim o arco da queda, o fim da picada: como se pulasse do trampolim de qualquer jeito para mergulhar de vez no cúmulo da incerteza. Como sempre me arrebentava no final, era assim tomando pé de que restava só morrer confortável duma hora para outra ou espalhando meus ossos ruas afora, engasgado com as razões das coisas hoje em dia para se estar vivo. Desculpe-me a falha, a vida inteira nunca fui nada, nem pude, escapava e não pedia nada ou tão pouco no apelo mudo. Ela baixou as vistas e me disse Annie Ernaux: Se não escrevo as coisas, elas não encontram seu termo. São apenas vividas... E dos seus olhos lacrimejantes as águas do rio me ensinavam a ser sempre humano num mundo tão endurecido. Deu-me uma rosa escarlate e com um sorriso aparentemente sem motivo, fez-se imoderada. Lembrou-me que a maior parte do tempo esquecia de ser outro que não eu mesmo. Houve o que não se contou nem contaria jamais diante da surpresa quase insultante: os meus sonhos todos malograram entre as cinzas do passado às esmolas da generosidade alheia nem tão celerada quanto interesseira - só quebrei a cara um zilhão de vezes com se fosse levado às vassouradas pelo opróbrio. Fiz do que sobrou dos outros como se fossem os meus sonhos e os restituí à vida. Ela, então, solfejou a Cantiga do Fim do Mundo... E não sobrei na curva, mais uma vez sobrevivi, acumulando aprendizado. Até mais ver.

 

ESTÂNCIAS À MEMÓRIA DE L.E.L

Imagem: Acervo ArtLAM.

E você se foi! \ a rosa nupcial \ Fresco em tua cabeça loura; \ Uma terra de cenas novas, selvagens e maravilhosas \ Antes que sua fantasia se espalhe \ Canção em teus lábios. \ -Pode não ser; \ - Mal acredito que você esteja morto! \ "Traga flores, flores claras!" \ -Mas quem para você \ Uma reunião de ofertas pode trazer? \ Que pintam a tua Musa, como Huma brilhante, \ Para sempre na asa? \ Ou pegue os tons que emocionaram a alma, \ Derramado da doce corda da tua Lira? \ Eles dizem que os botões quentes de esperança do seu coração \ Nunca havia sentido uma praga; \ Que no meio de multidões gays, em salões brilhantes, \ Teu passo sempre foi leve, \ Nas reuniões ao redor da lareira social \ Nenhum exibia um sorriso mais brilhante. \ E ainda assim, em teu mundo de música, \ As sombras escuras sempre dormem; \ Os seres formados pela tua imaginação, \ Parecia nascido apenas para chorar, \ - Por que as doces fontes da tua alma derramaram \ Uma maré de tristeza tão profunda? \ A sombra profética foi lançada \ Pela terra sombria de África; \ Que assim a tua fantasia esteja sempre ligada \ O veneno com a flor? \ E no meio dos mais belos caramanchões da felicidade \ Ainda criou o túmulo solitário? \ Em vão procuramos a fonte profunda do Pensamento, \ Seus mistérios ninguém pode contar; \ Só sabemos que os teus sonhos foram tristes, \ E assim aconteceu \ A coroa brilhante desse \ Amor te coroou para a Morte! \ -Destino sombrio - e ainda assim está bem: \ - Sim, tudo bem para você; tua força falhou \ Para suportar a corrente do Exílio, \ O grupo cansado, ansioso e com saudades de casa, \ Isso murcha o coração e o cérebro, \ - E Ele, que moldou o pulso fino da tua alma, \ Por misericórdia poupou a dor. \ E enquanto lamentamos uma Plêiade perdida \ Do céu elevado da Mente, \ Uma lira sem corda, cujos "acordes encantados" \ Tensões respiradas que nunca podem morrer, \ Dá-nos, ó Deus, a fé que vê \ A casa do Espírito nas alturas. \ Doce Menestrel do coração, adeus; \ Quantos sofrem por ti! \ O que os reis nunca poderão comandar é teu, \ Homenagem do amor do Free: \ A terra florida, o céu estrelado, \ A lágrima do enlutado, o suspiro do amante, \ Consagre a tua memória. \ E isso é fama! A gloriosa refeição \ É o teu além da decadência, \ Landon irá enfeitar a tradição do britânico \ Até que a terra passe; \ O que a riqueza da Índia era pobre para comprar \ Ganhou pela postura de uma Mulher!

Poema da escritora estadunidense Sarah Hale (1788-1879). Veja mais aqui.

 

PEQUENO DETALHE - [...] respire fundo. Pois bem, não há como voltar atrás agora, não depois de cruzar tantas fronteiras, militares, geográficas, físicas, psicológicas, mentais. [...] Assim que percebi que inevitavelmente falho sempre que tento navegar nas fronteiras, decidi ficar dentro dos limites da minha casa tanto quanto possível. E como esta casa tem muitas janelas, através das quais os vizinhos e os seus filhos podem facilmente ver-me, e apanhar-me a ultrapassar fronteiras mesmo quando estou na minha própria casa, pendurei as cortinas, embora às vezes me esqueça de as fechar. [...] E, novamente, um grupo de soldados captura uma menina, estupra-a e depois mata-a, vinte e cinco anos antes de eu nascer; este pequeno detalhe, que outros podem não pensar duas vezes, ficará comigo [...] O homem, e não o tanque, prevalecerá. [...] As fronteiras impostas entre as coisas aqui são muitas. É preciso prestar atenção a eles e navegar por eles, o que, em última análise, protege a todos de consequências perigosas. [...] há quem considere esta forma de ver, ou seja, focar atentamente nos mínimos detalhes, como o pó na secretária ou a merda de mosca num quadro, como a única forma de chegar à verdade e à prova definitiva da sua existência. [...] A solidão perdoa tanto as fronteiras invadidas [...]. Trechos extraídos da obra Minor Detail (New Directions Publishing, 2020), da escritora e ensaísta palestina Adania Shibli.

 

OS ASSASSINOS - [...] Há um velho ditado que diz que quando um idoso morre, uma biblioteca desaparece. [...] Acredito que existem dois tipos de pessoas neste mundo: aquelas que frequentam livrarias e aquelas que não o fazem. [...] Sinto-me seguro de que o mundo está cheio de livros que as pessoas leem constantemente. Não importa quanta informação esteja disponível, ou quão fácil seja obtê-la, quando tudo estiver dito e feito, os livros só podem ser lidos se você os ler, linha por linha, página por página. [...] O medo é um tempero que dá credibilidade. A quantidade certa espalhada em qualquer história a torna plausível. [...]. Trechos extraídos da obra The Aosawa Murders (Bitter Lemon, 2020), da premiada escritora japonesa Riku Onda.

 

A ENTREVISTA COM A ARTE DE SOCORRO CUNHA

Tenho participado de momentos marcantes para mim, com o desenvolvimento deste trabalho...

Entrevista com a escritora, pedagoga, contadora de histórias e compositora Socorro Cunha. Veja aqui.

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AFAGOS DA TERNURA

[...] Queremos cuidar da Mãe Terra que nos surpreende em cada estação, e aprender a lição das águas que se renovam na passagem dos rios e nas ondas do mar. Somos gratos à vida que muito nos tem presenteado... [...].

Trecho extraído da obra Afagos de Ternura (Autora, 2023), da escritora e blogueira graduada em Comunicação Social e Jornalismo, Vanise Rezende. Veja mais aqui.

 



HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Fábula hodierna ... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascín...