quarta-feira, janeiro 13, 2016

CRÔNICA DE AMOR POR ELA – ENTREGA, VIVALDI, PAVESE, CALVINO, LEDO IVO, ADORNO, CHIQUINHA GONZAGA, MARIZE SARMENTO & MUITO MAIS!!!


CRÔNICA DE AMOR POR ELA: ENTREGA (Imagem: Arte/vídeo de Meimei Corrêa) - Dê-me a sua mão nessa rua que eu sigo errante sem bagagem para não ter que voltar pelas armadilhas da vida imediata. Sigo errando do mundo e de tudo na correnteza turbulenta dos meus dias, como um pequeno deus que teve que destruir o céu para poder viver, superando charcos e atoleiros pra renascer por mangues de céus primevos. Dê-me a sua mão porque sigo só na minha transitoriedade que dá à minha finitude o esplendor da eternidade, ninguém por perto e de olhos abertos vejo que todos passam sem aceno ou cortesia. Enquanto vêm, eu vou com meu eterno exílio, como se estivesse sempre do lado de fora, só e incomunicável com meu coração de pássaro que bate asas persistentes por terras estrangeiras, para romper com o dique da minha solidão onde o efêmero faz festa e sou pouco. Dê-me a sua mão porque vou consumido pelo fogo do amor, sobrevivendo às paisagens da destruição com seus escombros e com a dor asfixiada de ver-me quase morto com minhas cicatrizes abertas pelas pistas erradas que trafeguei por engano a vida inteira. Dê-me a sua mão porque nela a revelação do que me aguardam os dias de amanhã, porque em mim tudo é desordem na vagueza temerosa de cair no vazio, porque na boca do tempo eu devoro o espaço como se meus sonhos invernais estivessem aqui e agora entre os automóveis que passam, entre os prédios imóveis, entre o barulho da cidade indômita, entre a indiferença dos transeuntes. Dê-me a sua mão por que nela está a noção daquilo que distante jamais se aproximará e para que eu não mais tenha que me desiludir de nada, me trazendo o essencial na elucidação do mundo pela força do amor na minha vida anêmica com o silêncio das palavras. Dê-me as suas mãos e vamos porque o amor desde sempre vingará na vida pra reinar em nossos corações. (Luiz Alberto Machado. Veja a canção aqui e mais aqui)

CONFIRA MAIS CRÔNICA DE AMOR POR ELA:











PICADINHO
 Imagem: Study of a standing female nude, do artista plástico inglês William Etty (1787-1849). Veja mais aqui

 Curtind: Vivaldi: The Four Seasons (Deutsche Grammophon, 1999), do compositor italiano no Barroco tardio Antonio Vivaldi (1679-1741), com a violinista Anne-Sophie Mutter, regência Riccardo Zandonai & Orchestra Trondheim Soloists. Veja mais aqui.

EPÍGRAFE – Ter escrito algo que te deixa como um fuzil disparado, que ainda vibra e fumega, ter te esvaziado por inteiro de ti mesmo, pois não só descarregaste o que sabes de ti mesmo, como também do que suspeitas ou supões, bem como de teus estremecimentos, teus fantasmas, tua vida inconsciente, e tê-lo feito com fadiga e tensão sustentada, com cautela constante, tremores, descobrimentos repentinos e fracassos, tê-lo feito de modo que toda a vida se concentrasse nesse determinado ponto, e advertir que tudo isso é como se não existisse se não o acolhe e lhe dá calor um signo humano, uma palavra, uma presença; e morrer de frio, falar no deserto, estar sozinho, noite e dia, como um morto. Recolhido do escritor italiano Cesare Pavese (1908-1950), registrado no livro O escritor e seus fantasmas (Companhia das Letras, 2003), livro O escritor e seus fantasmas(Companhia das Letras, 2003), o escritor e artista plástico argentino Ernesto Sábato (1911-2011). Veja mais aqui e aqui.

MINIMA MORALIA – O livro Minima moralia (Edições 70, 2001), a mais famosa obra do filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor alemão Theodor Adorno (1903-1969), traz reflexões acerca da atomização do individuo quando a delicadeza dá lugar às relações utilitárias, abordando sobre a mentira, a cólera, a adesão partidária, o genocídio, a alienação do homem, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: [...] Peixe na água. - Desde que o amplo aparelho de distribuição da indústria altamente concentrada substitui a esfera da circulação, inicia esta uma estranha pós-existência. Enquanto para as profissões intermediárias se desvanece a base econômica, a vida privada de incontáveis pessoas transforma-se na dos agentes e intermediários, mais ainda, o âmbito do privado é totalmente engolido por uma misteriosa atividade que apresenta todos os rasgos da atividade comercial sem que nela haja, em rigor, algo para comercializar. Os angustiados, desde o desempregado até ao proeminente que, no instante seguinte, pode atrair a cólera daqueles cujo investimento ele representa, crêem que só pela empatia, pela dedicação, pela disponibilidade, graças a truques e à perfídia do poder executivo, olhado como onipresente, se podem fazer recomendar pelas suas qualidades de comerciantes, e depressa deixa de haver relação alguma que não tenha posto a sua mira em relações, e impulso algum que não se tenha submetido a uma censura prévia, não vá ele desviar-se do aceite. O conceito das relações, uma categoria da mediação e da circulação, nunca deu bons resultados na genuína esfera da circulação, no mercado, mas em hierarquias fechadas, monopolistas. A sociedade inteira torna-se assim hierárquica, as relações turvas infiltram-se onde quer que exista ainda a aparência de liberdade. A irracionalidade do sistema dificilmente se expressa melhor no destino económico do indivíduo do que na sua psicologia parasitária. [...]. Veja mais aqui e aqui.

O PASSADO – No livro Se um viajante numa noite de inverno (Companhia das Letras, 1999), do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985), destaco o trecho: [...] O passado é como uma tênia, cada vez mais longa, que carrego enrolada dentro de mim e que não perde seus anéis, por mais que eu me esforce para esvaziar as tripas em todos os banheiros, à inglesa e à turca, nas fedorentas privadas das prisões, nos penicos dos hospitais, nas latrinas dos acampamentos ou, simplemente, nas moitas, olhando bem para que dali não salte uma cobra, como ocorreu certa vez na Venezuela. Não é possível trocar o passado, como não é possível trocar de noite, pois, por mais passaportes que eu tenha conseguido, com nomes dos quais nem sequer me recordo, todo mundo sempre me chamou Ruedi, o Suiço: aonde quer que eu fosse, como quer que me apresentasse, havia sempre alguém que sabia quem eu era e o que fizera, mesmo com as mudanças de aparência trazidas pelo decorrer dos anos, especialmente desde que meu crânio se tornou calvo e amarelo com um grape-fruit – isso aconteceu na epidemia de tifo a bordo do Stjärna, quando, em função do carregamento que levávamos, não podíamos nos aproximar da costa nem tampouco pedir socorro pelo rádio. A conclusão a quem todas essas histórias é que a vida de toda pessoa é única, uniforme e compacta como um cobertor enfeltrado cujos fios não podem ser separados [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

SONETO DA INICIAÇÃO – Recolho do livro Cântico (José Olympio, 1949), do premiadíssimo escritor e ensaísta alagoano Ledo Ivo (1924-2012), o seu Soneto da iniciação: Para este instante, trazes o clamor / natural com que o corpo enfim desperta. / Em grito e pranto e lágrimas e dor / és cristal, e eu clarão que te penetra. / De tua solidão emerge o amor / em clara e silenciosa descoberta / e sem usar as mãos eu colho a flor / que me lembra uma concha meio aberta. / Chorando de alegria, eu me aprofundo / no amplo rio nupcial de tuas pernas / como se houvesse descoberto o mundo. / Sem pecado e sem morte, que existamos / e nossas vidas sejam sempre eternas. / Sendo mortais, a isto é que aspiramos. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Ó ABRE ALAS – Tive oportunidade de assistir em 1999, no Teatro Alfa Real, em São Paulo, à peça teatral Ó abre alas, da dramaturga luso-brasileira Maria Adelaide Amaral, uma adaptação do livro de Edinha Diniz durante as homenagens do sesquicentenário da compositora e maestrina Chiquinha Gonzaga (1847-1935), com destaque para a atuação da atriz de teatro, cinema e televisão Rosamaria Murtinho. Simplesmente espetacular, digno de aplausos de pé. Veja mais aqui, aqui e aqui.

ROCCO E SEUS IRMÃOS – O drama Rocco e Seus Irmãos (Rocco i suoi fratelli, 1960), dirigido pelo cineasta italiano Luchino Visconti (106-1976) e trilha sonora de Nino Rota, é baseado em episódio do romance Il ponte della Ghisolfa, de Giovanni Testori, narrando a história de dois irmãos que são filhos de uma viúva e que mudam de cidade, um deles se tornando boxeador e se envolvendo com uma prostituta. Esse belíssimo filme conta com o destaque da atriz francesa de cinema e teatro Annie Girardot (1931-2011). Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte do multifacetado artista plástico e português Julião Sarmento.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à contadora de histórias Marize Sarmento & Grupo Carochinha – Maceió.

TODO DIA É DIA DA MULHER
Veja as homenageadas aqui.


QUINTANA, BUKOWSKI, ESPINOZA, CARLOS NEJAR, OTTO FRIEDRICH, SUZANNE VALADON, ARTUR GOMES & O FIM DO MUNDO

SE O MUNDO ACABAR, JÁ ACABA TARDE! - Pra todo lado que eu me virasse, a conversa era uma só. Bastou eu botar a cara na rua logo cedo, apar...