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sábado, abril 15, 2023

DANAH ZOHAR, BERGMAN, CRESSIDA COWELL, ROBERT WALSER & SÃO BENTO DO UNA

 

 (Imagem: Setígono – Acervo ArtLAM) - Ao som do show Gabriela Machado Quinteto (Sesc Instrumental, 2022), da premiada flautista e compositora Gabriela Machado, acompanhada pelo quinteto formado pelos músicos Emiliano Castro (violão de 7 cordas), Matheus Kleber (acordeon), Camila Silva (cavaquinho) e Douglas Alonso (bateria), contando com participações especiais de Celso Benedito (trompa) e Débora Gurgel (piano). Ela é integrante do grupo Câmaranóva (Câmara Brasileira) e o Coletivo de Mulheres no Choro (SP), afora participar de diversos grupos instrumentais.

 

SETÍGONOS ÀS LAPADAS – PRIMEIRO: Um título se faz verso \ recomeço com que roupa \ às festrelasas baladas \ luzoutradas deparecéus \ se ao léu lá oitão meço \ não peço já pra qualquer uma \ nas brumas do meu coração. (Taí, heptassílabos de sete pés, feito redondilhas xucras, quando na verdade eu queria poetar coisa mais fora do comum e sem rimar. Não deu. Ao meter as catanas versiculares na maior pelejada, lá estava eu me sentindo como numa Sonata de Outono – só que diferente: como se rascunhasse a Carta ao meu pai e ele lá do outro lado da mesa lendo meus pensamentos quais arroubos mais insolentes. Peguei o fio da meada no meio do movimento browniano: lá ia eu viajando na ideia do floco de neve de Koch, ôpa, pelo perímetro fractal (oba!) pra quânticos cânticos. Deu nada: poeta d’água doce sabe nem se amostrar. É isso aí, vamos lá). SEGUNDO: Semanazada já sextou \ nexoteando ensimesma \ no viés de lesma faz pé \ não é qualquer badameco \ fugou caneco oh baião \ cadê chão? Volta por cima \ pro clima do alto astral. (Versoutros setessilábicos com barrunfo de heptada, mais parece pé-quebrado de quem não sabe nada. Pois é, estava empolgado e parti pra segunda lapada! Deveria ter ficado na primeira, fui gostando da loa. Mas como alegria de pobre dura pouco, lá longe logo previ algo lá não muito bem-vindo e na minha direção. Parecia gente, mas não era; coisa, talvez. Que porra é 9? Chegou bem pertinho, o bafo duma voz esquisita e deu pra entender apenas: ChaosGPT. Ficou na mesma, nunca vi mais gordo, logo: que boba 90 é isso? Nem queiram saber. Não deu tempo nem de me ajeitar direito, partiu pra cima de mim como quem queria agarrar minha goela. Vôte! Não sou besta não, dei um passo pra trás e o troço lá tinha certa dificuldade em se mover e me alcançar. Ôxe! Dei um drible de corpo, fui de lá pra cá, deixei-lo zonzo e zarpei com mais de mil! Xô pra lá, coisa ruim! O carreirão foi tão grande que nunca mais vi, nem quero ver. Mas, sei bem do que se trata, humanidade em risco... Simbora). TERCEIRO: Como se um heptágono \ amanhecesse heptaédrico \ ventroutonal s’enrubesce \ poética quermesse quente \ trovejandagora lá se \ tascômicarnavalesca \ desse pentágono dentro. (Pronto, está meio desmantelado, porém deu pro gasto! Fechei a conta da terceira leva, na marra pra balanço! Sim, claro. Nem conto, espia só. Foi por causa dum susto de torar a taboca! De repente, assim do lado e do nada: Victor de Aveyron! Danou-se! Deu-me duas Brassica oleracea! Nunca tinha visto: isso come? (só depois soube tratar-se dum tipo de couve-flor, uma rósea arroxeada, outra creme esverdeada –Deus faz arte fractal, certeza! Por isso ou vejo em toda parte ou me perseguem, só sendo. Mas dele o olhar de total desapontamento com o ser humano, pudera. Como não restasse nada do Itard e da Madame Guérin, nenhuma boa lembrança. Vi-o perdido e com ele o meu país se dissolve há sete anos com a queima de livros e atentado às escolas forjados sete dias por semana pelo fundamentalismo cristão estúpido, imitação barata das neuras do Norte que a tevê explicita o dia inteiro na programação propagada nas redes sociais. Barbárie em demasia até para ele. Quanto mais pra mim, hem? E eu duas vezes sete horas me desdobro nas dialetheias e sobrevivo afora, até mais ver.

 

INTELIGÊNCIA ESPIRITUAL

[...] O QS (Quociente Espiritual) permite que seres humanos sejam criativos, mudem as regras, alterem situações. Permite-nos trabalhar com limites, participar do “jogo infinito”. O QS nos dá capacidade de escolher. Presenteia-nos com um senso moral, uma capacidade de amenizar normas rígidas com compreensão e compaixão, bem como com a capacidade de saber quando a compaixão e a compreensão chegaram a seus limites. Usamos o QS para lutar com questões acerca do bem e do mal, e imaginar possibilidades irrealizadas – sonhar, aspirar, superar situações difíceis. [...].

Trecho extraído da obra Inteligência espiritual: aprenda a desenvolver a inteligência que faz a diferença (Viva Livros, 2012), da física e filósofa estadunidense Danah Zohar, que acrescenta: Podemos considerar a dor, o sofrimento ou as dificuldades como ameaçadoras ou incapacitantes, mas também como desafios e mesmo como oportunidades... (Imagem Acervo ArtLAM). Veja mais aqui.

 

DITOS & DESDITOS - Todos nós cometemos erros. Todo mundo precisa de segundas chances, e até mesmo de terceiras, quartas e quintas... Estamos todos arrebatando momentos preciosos das mandíbulas pacíficas do tempo. Às vezes é apenas um amigo verdadeiro que sabe o que queremos dizer quando tentamos falar... Pensamento da escritora inglesa Cressida Cowell. Veja mais aqui e aqui.

 

HÖSTSONATEN – [...] É claro que às vezes sinto um vazio. Mas uma pessoa não se deve enterrar viva... A gente pode se consolar consigo mesma. Não pode contar eternamente com os outros e pensar que eles estarão sempre ao nosso lado quando a gente está triste. Não, antes pelo contrário. Na maioria das vezes, a gente precisa chorar em silêncio, pra que ninguém ouça. [...]. Trecho extraído do filme Sonata de outono (1978), do cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007), estrelado pelas atrizes Ingrid Bergman e Liv Ullmann, contando sobre o reencontro de uma mãe célebre pianista e suas duas filhas após anos de separação. A mãe tem uma surpresa ao encontrar a filha mais nova deficiente física e mental, aos cuidados da mais velha. Esse reencontro trará à tona diversas mágoas do passado. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

UM POEMA

Quão pequena é a vida aqui e quão grande é o nada. \ O céu, cansado de luz, deu tudo à neve. \ As duas árvores inclinam suas cabeças uma para a outra. \ Nuvens atravessam o silêncio do mundo em uma dança circular.

Poema do escritor suíço Robert Walser (1878-1956), que também assim se expressa: Cada pessoa sensível carrega em si velhas cidades cercadas por antigas muralhas... Às pessoas saudáveis faço o seguinte apelo: não teimem em ler apenas esses livros saudáveis, travem um conhecimento mais estreito, também, com a literatura dita doentia, que vos transmitirá, decerto, uma cultura edificante. As pessoas saudáveis deveriam sempre expor-se um pouco ao perigo. Senão, com mil raios, para que serve ser saudável? Simplesmente para, num determinado dia, morrer de boa saúde? (Imagem Acervo ArtLAM). Veja mais aqui.

 

UNA-SE... O RIO É SEU...

... Eu vou. Por quê? Porque vou, porque sim, porque não, caramanchão, feliz das trepadeiras pelos oitões, a brisa nas varandas, água de coco, sombra e água, a lembrar dos sítios do Serrote do Gado Brabo. Sou o que vai e volta, eterno retorno como os pardais estão voltando...

Valuna: São Bento do Una – Pernambuco. (Imagem: Acervo ArtLAM). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 



terça-feira, julho 14, 2015

GULLAR, STOKLOS, KADARÉ, BERGMAN, PARMÊNIDES, BADI, KLINT, FIASHI & A LIBERDADE DE EXPRESSÃO NO PROGRAMA TATARITARITATÁ!!!!!!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? A LIBERDADE DE EXPRESSÃO – A liberdade de expressão se constitui num direito que foi resultado da construção dos direitos humanos, direitos esses que englobam os de natureza civil, social, político e, inclusive, os difusos em todas as suas gerações. Sua vigência teve surgimento a partir dos registros históricos da acumulação que determinou a supremacia de uns sobre outros – os que acumularam e passar a ter, os que não tinham do que se valer a não ser como vencidos, servis e escravos. Essa acumulação conferiu aos detentores de poder o que fazer e desmandar, coibindo com severa repressão quaisquer manifestações contrárias. Além disso, surgiu também pela necessidade de se respeitar a pluralidade humana, independente de raça, credo, posicionamento político, preferências ou orientação sexual, respeitando-se todas as manifestações legítimas de pessoas, tanto individualmente como de agrupamentos, minorias ou representações. É na máxima de Voltaire que se ampara a liberdade de expressão, aquela em que ele diz que se pode discordar de qualquer proposta ou posicionamento, entretanto se tem o dever de respeitar as ideias alheias, a compreensão da oposição entre os contrários. É o que se passou a vigorar no Direito ao se estabelecer a ampla defesa e o contraditório quando do confronto nos litígios e que passou a ser constitucionalmente prevista no Brasil, notadamente quando do processo de redemocratização ocorrido depois do período que se desenvolveu o regime militar, ocasião em que a repressão e a censura sobrepujavam todos os direitos fundamentais e garantias individuais. E tornou-se resultado do direito à informação, à comunicação, ao conhecimento, à educação e à livre associação entre os cidadãos na defesa dos seus anseios e desejos. A liberdade de expressão, afora alguns momentos agudos de restrições e censuras que ainda se detecta, tem evoluído ao longo dos últimos anos, mesmo diante da manifestação de conservadorismo e de canhestras iniciativas que não conseguem promover o diálogo, o debate e as discussões na busca por um país melhor para todos. É de fundamental importância que o diálogo e o debate imperem para que não haja supremacia impositiva deste ou daquele pensamento sobre qualquer outro, mas que possamos ter o direito de avaliação com profundidade sobre tudo aquilo que nos diga respeito. E vamos aprumar a conversa! Veja mais aqui.

Imagem: Kairos, do pintor e artista gráfico austríaco Gustav Klint (1862-1918). Veja mais aqui e aqui.

Curtindo Verde (eDGe music/Universal, 2004), da cantora, compositora, violonista e percussionista brasileira Badi Assad. Veja mais aqui e aqui.

SOBRE A NATUREZA – O filósofo e poeta grego Parmênides de Eléia (530-460aC), combateu a filosofia dos jônicos, o dualismo pitagórico e o mobilismo de Heráclito. Para ele a realidade é uma, a mudança é impossível enquanto a existência é atemporal, uniforme, necessária e imutável. Ele escreveu um poema filosófico Sobre a natureza (Loyola, 2002), em que descreve suas visões da realidade dividida em duas partes: na primeira, trata da verdade; na segunda, da opinião. Da obra destaco o trecho a seguir: Os corcéis que me transportam, tanto quanto o ânimo me impele, conduzem-me, depois de me terem dirigido pelo caminho famoso da divindade, que leva o homem sabedor por todas as cidades. Por aí me levaram, por aí mesmo me levaram os habilíssimos corcéis, puxando o carro, enquanto as jovens mostravam o caminho. O eixo silvava nos cubos como uma siringe, incandescendo (ao ser movido pelas duas rodas que vertiginosamente o impeliam de um e de outro lado), quando se apressaram as jovens filhas do sol a levar-me, abandonando a região da Noite para a luz, libertando com as mãos a cabeça dos véus que a escondiam. Aí está o portal que separa os caminhos da Noite e do Dia, encimado por um dintel e um umbral de pedra; o portal, etéreo, fechado por enormes batentes, dos quais a Justiça vingadora detém as chaves que os abrem e fecham. A ela se dirigiram as jovens, com doces palavras, persuadindo-a habilmente a erguer para elas por um instante a barra do portal. E ele abriu-se, revelando um abismo hiante, enquanto fazia girar, um atrás do outro, os estridentes gonzos de bronze, fixados com pregos e cavilhas. Por aí, através do portal, as jovens guiaram com celeridade o carro e os corcéis. E a deusa acolheu-me de bom grado, mão na mão direita tomando, e com estas palavras se me dirigiu: “Ó jovem, acompanhante de aurigas imortais, tu, que chegas até nós transportado pelos corcéis, Salve! Não foi um mau destino que te induziu a viajar por este caminho – tão fora do trilho dos homens –, mas o Direito e a Justiça. Terás, pois, de tudo aprender: o coração inabalável da verdade fidedigna e as crenças dos mortais, em que não há confiança genuína. Mas também isso aprenderás: como as aparências têm de aparentemente ser, passando todas através de tudo”. Vamos, vou dizer-te – e tu escuta e fixa o relato que ouviste – quais os únicos caminhos de investigação que há para pensar: um que é, que não é para não ser; é caminho de confiança (pois acompanha a verdade); o outro que não é, que tem de não ser, esse te indico ser caminho em tudo ignoto, pois não poderás conhecer o que não é, não é consumável, nem mostrá-lo [...]. Veja mais aqui e aqui.

A FILHA DE AGAMENON – O romance A filha de Agamenon (Companhia das Letras, 2006), do premiado escritor albanês Ismail Kadaré, conta a história de um jornalista que não se cansa de criticar o regime e que se vê dividido entre esperar a namorada e presenciar o desfile oficial, cujo destino se compara com a da filha de Agamenon, sacrificada pelo pai para aplacar a fúria dos deuses. Da obra destaco o trecho: De fora, da rua, chegavam a música festiva, a barulheira e o ruído abafado dos pés dos passantes. Aquele som específico que só poderia vir de uma multidão que se dirigisse aos lugares designados para o desfile. Pela décima vez, afastei um pouquinho a cortina da janela para ver a mesma cena: a lenta extensão da torrente humana. Sobre ela, tal qual no ano anterior, iam as faixas, os arranjos florais e os retratos dos membros do Birô Político. Seus rostos pareciam ainda mais petrificados sob aquele mar de cabeças e mãos. Às vezes, por causa de algum movimento das mãos de quem segurava o retrato, os rostos pintados pareciam se olhar de lado, ameaçadores. Mas mesmo quando eles ficavam lado a lado, pareciam não se conhecer. Fechei a cortina e notei que tinha na mão o convite para a festa. Era a primeira vez que recebia um convite para a tribuna do Primeiro de Maio, e eu, tal como no instante em que o entregaram, ainda não acreditava que tinham escrito ali o meu nome. Não menos perturbados tinham sido os olhos do vice-secretário do partido. Não se poderia dizer que havia neles apenas ciúme. Misturado com o ciúme, aflorava o assombro. E de certa maneira havia razão para isso. Eu não era daqueles que apareciam nos palanques e recebiam convites para tribunas de honra. E embora, como soube mais tarde, o próprio vice-secretário tivesse falado de mim quando o Comitê Regional do Partido solicitara nomes diferentes daqueles propostos ano após ano, mesmo assim ele não escondia a surpresa. É verdade que ele tinha me citado, entre outros, mas, ao que parecia, não pusera fé em que aprovariam uma lista nova. Falam isso todo ano, dissera talvez com seus botões, mas, quando chega a hora, são os de sempre que vão. "Parabéns! Parabéns!", disse-me, ao entregar o convite, e, no último instante, pareceu-me ver no seu olhar algo mais que ciúme e assombro. Estava ali bem no meio do sorriso dele, como uma cria do sorriso, e ao mesmo tempo era outra coisa. Talvez a palavra mais exata fosse "sorriso cúmplice". Concentrado, interrogativo, meio zombeteiro, mas com aquela zombaria benévola entre duas pessoas ligadas por um segredo. O sorriso cúmplice parecia me dizer: "Esse convite não veio de graça, cara, não é? Qual servicinho você fez para merecê-lo? Parabéns, espertinho!". Aquela interpelação estava tão clara que eu senti que corava. O sentimento de incômodo não me abandonou nem mesmo durante o caminho para casa, e por mais de uma vez eu me perguntei: É mesmo, por que mereci esse convite? O apartamento parecia ainda mais silencioso em contraste com o barulho da rua. Silencioso e vazio. Todos tinham ido para os pontos de concentração do desfile, e meus passos, em vez de preencher, destacavam ainda mais o silêncio e o vazio, um vazio que também era especial, como tudo mais naquele dia. Eu esperava por Suzana. Ainda assim, aquilo que me arranhava o peito não parecia nem um pouco com a ansiedade habitual de quem espera uma garota. Era um sentimento mais opressivo. E, aparentemente, inflado pela música e pelo cansativo barulho que vinham da rua. Às vezes parecia até que um daqueles retratos iria se erguer acima de quem o conduzia, tão alto que chegaria até a minha janela, olhando para dentro do apartamento com aqueles olhos pintados, imóveis: O que você está esperando? Hum, hum, deixou seu lugar na tribuna vazio por causa de uma garota, é? "Se eu não chegar até as oito e meia, não me espere mais", dissera Suzana. Toda vez que essas palavras me vinham à mente, os olhos escapavam sem querer para o sofá onde se dera nossa última conversa. Fora uma conversa triste demais. Suzana estava meio despida, e também suas palavras saíam pela metade, a custo revelando seu sentido. Estava cada vez mais difícil se encontrar comigo. A carreira do pai prosperava a cada dia. Agora a família era mais vigiada. Duas semanas antes, na reunião plenária do CC, o pai subira ainda mais. De maneira que, claro, ela teria que rever seu modo de vida, seu guarda-roupa, as companhias. Senão, ia causar prejuízos ao pai. - Ele mesmo pediu isso (eu ainda não sabia que nome dar a "isso") ou foi você que teve a ideia? Ela me olhou de viés. - Ele - respondeu, depois de uma pausa. - Mas... - Mas o quê? - Mas quando ele me explicou, concordei. - É? Senti que devia estar com os olhos injetados de sangue, como se alguém tivesse me atirado um punhado de areia. Com um jeito culpado, ela apoiou o rosto em meu ombro. Seus dedos, frios, como vidro moído, acariciaram meus cabelos, na nuca. Eu queria dizer: Mas por que só você? As filhas deles, dos outros, pelo contrário, aproveitam, têm uma vida mais livre. Carros, passeios em casas de praia. Era o que eu com certeza diria, se ela mesma não falasse. Os outros davam alguma liberdade aos filhos, mas o pai dela... Ele era mesmo espantoso. Ninguém sabia o que tinha na cabeça... Ou então não havia nada de espantoso, mas era algo obrigatório apenas para ele. Precisamente porque nos últimos tempos ele se distinguia dos outros. Assim, se na festa de Primeiro de Maio ele aparecesse do lado direito do Dirigente, tudo estaria acabado entre nós. Como eu não disse nada, ela achou que eu não tinha entendido direito. Entende?, insistia, soluçante. Era inaceitável para eles, quer dizer, para a opinião pública, que ela fizesse amor com alguém que estava noivo. Porque um dia aquilo viria à luz. Entende? Tinha de entender. Eu não sabia o que responder, enquanto meus olhos se perdiam em suas pernas nuas. [...] Veja mais aqui e aqui.

BELA BELA & O TRENZINHO CAIPIRA – Na obra Poema Sujo (José Olympio, 1976), do poeta, crítico de arte, tradutor e ensaísta Ferreira Gullar, escrito durante o exílio do autor na Argentina no período do Regime Militar brasileiro, destaco o trecho: [...] bela bela / mais que bela / mas como era o nome dela? / Não era Helena nem Vera ; nem Nara nem Gabriela / nem Tereza nem Maria / Seu nome seu nome era... / Perdeu-se na carne fria / perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia / perdeu-se na profusão das coisas acontecidas / constelações de alfabeto / noites escritas a giz / pastilhas de aniversário / domingos de futebol / enterros corsos comícios / roleta bilhar baralho / mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa / e de tempo: mas está comigo está / perdido comigo / teu nome / em alguma gaveta [...]. Este trecho foi musicado por Milton Nascimento e gravada no álbum Caçador de mim (Ariola, 1981). Outro trecho do poema: [...] Lá vai o trem com o menino / Lá vai a vida a rodar / Lá vai ciranda e destino / Cidade noite a girar / Lá vai o trem sem destino / Pro dia novo encontrar / Correndo vai pela terra, vai pela serra, vai pelo ar / Cantando pela serra do luar/ Correndo entre as estrelas a voar / No ar, no ar, no ar [...] Esta parte do poema foi transformada em letra para O Trenzinho Caipira – Bachianas Brasileiras nº 2 -, de Heitor Villa Lobos, gravada por Edu Lobo no álbum Limite das águas (Continental, 1976). Veja mais aqui e aqui.

O TEATRO ESSENCIAL – O Teatro Essencial da atriz e escritora Denise Stoklos compreende mais de quarenta anos de carreira na ampliação dos debates sobre a escrita feminina sobre a qual tem se debruçados pesquisadores a respeito do enfoque da vocalidade, da corporalidade, representação, espaço e tempo, criação estética, relator ator e público, e identidade artística sob a perspectiva vanguarda e contexto histórico e social da autora. Tais são as considerações dela própria a respeito: Onde apenas o vivo, a energia vital, a força de sobrevivência do humano se estabelecem como base do teatro. Uma ideia surgida da própria organicidade da sobrevivência sul americana onde a Sociedade-mãe e o Estado-pai abandonam o recém-nascido e só lhe prometem carência física, mental espiritual. A ideia de um teatro que carrega a resistência desse povo para a cena. Aquilo que o ator tem como instrumento: seu corpo, voz e pensamento seria tudo. Do corpo o espaço, o gesto, o movimento. Da voz a palavra, a sonoridade, o canto. Do pensamento a crítica, a dramaturgia, a organização dos elementos. Espetáculo feito na estrutura de monólogos, música e gestual. Peça de Teatro cuja leitura pode ser feita ao nível da imagem e ao nível do verbo, ambos muitas vezes complementando-se ou até contradizendo-se. A meta é uma comunicação mais ampla com estímulos a uma nova organização perceptiva. A plataforma da representação está nos signos resultantes de ritmo/espaço e som calcados na agilidade da decodificação. Não há mais nada no palco do que não seja ambientação cênica exteriorizada da presença humana (nada decorativo). E dessa presença todos os momentos teatrais são articulados. Diversos gêneros, modalidades e tempos, são rotas para um percurso plástico em direção ao contexto apresentado: um poema sobre nossa natureza. A perspectiva é a realização técnica rigorosa e humorista. Ensaio teatral em que se pretende elevar ainda que sísifamente a pedra de confiança na autossuficiência genuína do ser humano. A certeza serena e obstinada de que apenas o ato amoroso da valorização humana pode proporcionar ao criador de sua própria transformação, a chance. O lúcido encontro do real com o imaginário. Não só a lógica, não só o distanciamento, não só a de facetação. Mas uma chama revolucionária, ardente não apenas em câmera teatral onde o espetáculo ocorre, mas incendiária em todos os seus vazamentos. Que atice fogo nas outonais folhas mortas dos diários estéticos artificiais. Que queime o campo infértil, ocioso dos parâmetros. Que o "Teatro Essencial" possa fazer brotar, insurreto o fruto. Veja mais aqui e aqui.

DAS SCHLANGENEI – O filme Das Schlangenei (O ovo da serpente, 1977), do dramaturgo e cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007), conta a história de habitantes nativos na década de 1920, na cidade de Berlim, oprimidos pela hiperinflação e temendo a crise política, registrando suicídio na comunidade artística pela decadência, notadamente na constatação do irmão do suicida de encontrar a viúva dançando num bordel para se sustentar. Ambos vão dividir situações deprimentes e perseguições policiais, dificuldades e uma série de desencontros. O destaque do filme é para a atriz, escritora e diretora de cinema norueguesa nascida no Japão, Liv Ullmann. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Imagem: escultura Veiled female nude, do escultor italiano Emilio Fiaschi (1958-1941).

PROGRAMA TATARITARITATÁ – O programa Tataritaritatá que vai ao ar todas terças, a partir das 21 (horário de Brasilia), é comandado pela poeta e radialista Meimei Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Na programação: Duofel, John Coltrane, Robertinho do Recife, Trio Bossa Nova Jazz Pop, MP4, Yanni, Banda de Pau e Corda, Sonia Mello, Cambada Mineira, Danny Calixto, Paulinho Natureza & Sandra Regina Alves Moura, Kel Monalisa, Roberto Toledo, Elisete Retter, Mazinho, Carlinho Motta, Franco do Valle, Katya Chamma, Ricardo Machado, Lílian Pimentel, Ricardo Bonadie, Julia Crystal & Mônica Brandão, Ozi dos Palmares, Ju Mota, Beto Saroldi, Raphael Veronese, Jarbas Barros, RSM & Instrumental Core, Altemar Dutra, Conjunto Primavera, Quarteto Gileade, Trio Irakitan & muito mais. Veja mais aqui.

Veja mais sobre:
Não era pra ser, nem foi, Entre a vida e a morte de Nathalie Sarraute, a música de Galina Ustvolskaya, Aquarium World de Takashi Amano, o ativismo de Emmeline Parnkhurst, Zakarella de Carlos Alberto Santos, a pintura de Paul-Émile Chabas & as gravuras de ean-Frédéric Maximilien de Waldeck aqui.

E mais:
Trova & Trovadorismo aqui.
A literatura de João Ubaldo Ribeiro aqui & aqui.
Quase meio dia, A estrutura das revoluções científicas de Thomas Kuhn, Não morra antes de morrer de Yevgeny Yevtushenko, Os amores amarelos de Tristan Corbière, A consciência da mulher de Leilah Assumpção, a música de Debussy & Sandrine Piau, o cinema de Eric Rohmer & Françoise Fabian, a pintura de Hyacinthe Rigaud & Vittorio Polidori, a fotografia de Dian Hanson & Eric Kroll aqui.
A poesia de Yevgeny Yevtushenko, a Psicanálise de Freud, o teatro de Leilah Assumpção, a pintura de Hyacinthe Rigaud, a música de Rachmaninoff & Segueira Costa, Ailson Campos & muito mais aqui.
Zé Ripe entre amigos & pé de serra aqui.
Dia Branco & outras dicas Tataritaritatá aqui.
O trabalho do antropólogo de Roberto Cardoso de Oliveira, Monções de Sérgio Buarque de Holanda, a poesia de música de Carlos Gomes, O poeta dramático de Karl Georg Büchner, o cinema de Alfred E. Green & Carmen Miranda, a arte de William Orpen, a pintura de Ivan Gregorewitch Olinsky & Charles-Antoine Coypel aqui.
Sorria, Canto geral de Pablo Neruda, A desobediência civil de Henry Thoreau, O feijão & o sonho de Orígenes Lessa, A revolução na América do Sul de Marcelo Soares música de Sebastião Tapajós, a pintura de Amedeo Modigliani, Monteiro Lobato & Brincarte do Nitolino aqui.
A crise na América Latina de Emir Sader, No colo do pai de Hanif Kureishi, Viagem nas primeiras horas de Wole Soyinka, Técnica teatral de Erwin Piscator, a música de Stelvio Massi & Joan Collins, a gravura de Václav Hollar, a pintura de Carl Kricheldorf & Isaac Lazarus Israels aqui.
O direito à informação e qual informação, A formação social da mente de Lev Vygotsky, O retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde, a poesia de Manuel Bandeira, a pintura de Vincent van Gogh & a música de Gonzaguinha aqui.
As funduras profundas do coração de uma mulher, A arte de amar de Erich Fromm, A poesia de Paul Verlaine, Cem poemas de amor de Ledo Ivo, a música de Debussy & Isao Tomita, Lula Queiroga, a pintura de Cornelia Schleime & Fabius Lorenzi aqui.
Mãe é mãe & deus proteja a minha, a sua, a nossa & o da mãe-joana & e das mães (do guarda, do juiz de futebol e dos políticos) que são coitadas, Inteligência emocional de John Gottman, a literatura de Máximo Gorki, a poesia de Jorge Tufic, a música de Caetano Veloso, a pintura de Lena Gal & Gustav Klimt, Travesuras de mãe de Denise Fraga & a arte de Luciah Lopez aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
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História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Sem título, da artista plástica russa Vera Donskaya-Khilko.
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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domingo, janeiro 18, 2009

JANE AUSTEN, RAFAEL ALBERTI, LIV ULLMANN, PIET HEIN, ARUANNE & EDUCAÇÃO AMBIENTAL

 

A SEDUÇÃO DE ARUANNE - Como sempre, Aruanne chegara serelepe aquariana e sedutora, vestido estampado, solto, esvoaçante, aquela coisa linda de ser ver e desejar. Livro à mão, ela arregaçou a saia até acima dos joelhos, sentou-se à minha frente toda espaçosa, debruçando-se sobre o livro, as pernas em Padmasana – a maravilhosa posição do lótus –, deixando-me ver-lhe um lance da calcinha listrada guardando seu sexo abundante, inchado, excepcional, aliciador. Não conseguia despregar meus olhos da sua excitante intimidade ali quieta sobre o tamborete. Para além disso, eu imaginava ali ela disposta pra mim, no V sex para o cadeado, ou na montanha mágica, no ato de retorno ou amazona, a reunião quente, todas as posições e formas do kama sutra ali, nela, todinha minha, ah, meus sonhos eróticos perversos para que jamais escapasse, e inquietante a agarrasse e a possuísse obscena, nua, tarada. Eu só queria tê-la ali exclusiva, sozinhos, a vê-la toda pra mim. De repente, soltou as pernas, abrindo-as, para que eu visse mais detalhadamente sua gostosura ventral. Ao levantar meus olhos, eita, vi-lhe flagrando minha atenção nela. Sorriu. Levantou-se, veio em minha direção e sua voz sussurrou ao meu ouvido: Gostou de ver minha intimidade, foi? Respondi-lhe com nuto. Pôs sua mão sobre meu ombro, alisou-me a nuca e ciciou confidente: Eu dou, vem cá. Puxou-me pela mão, abriu o trinco duma porta e adentramos na sala clareada apenas pelas persianas da janela. Ao fechar a porta, aproximou-se de mim, senti seu fôlego descontrolado, seu hálito amante, seu cheiro de almíscar, braços ao meu pescoço, lábios rentes ao meu, um beijo tímido que se tornou poderoso com o alisado das minhas mãos por seu corpo sobre o vestido. Sua boca ardente se ocupava da minha, enquanto eu tocava sua pele por baixo das vestes, a pele macia, suas curvas, as ancas robustas e buliçosas, a cintura que delineava a chegada aos seios fartos, ductos endurecidos, e mais os afagava ternamente. Encostei à parede, desci as mãos para alcançar seu sexo úmido e atiçado, alisá-lo para alcançar-lhe o interior da vagina, ao que ela soltou-me o pescoço e levou suas mãos a pressionar meu pênis intumescido, alisando-o por cima do tecido da calça, contornando-o, invadindo por dentro da calça, a mão nua na minha pele. Buscou meu sexo, alcançando-o, trouxe-o para fora, distendido, fitou alisando-o e espremendo carinhosamente a glande, ficou de cócoras e começou a beijá-lo, manipulando a língua no meu sexo que pulsava febril, lambendo o frênulo do prepúcio o que me levava a ponto máximo do gozo e da ejaculação incontrolável, ao que evitei e ela disse-me segredando: Não goze agora, por favor, quero mais! Mandona e puta, fez-me ajoelhar, levantei seu vestido, removi sua calcinha e a beijei na união do elefante. Repetia boquejante: Não goze agora, por favor, quero mais. E fez do meu pênis o seu cavalo de balanço e ao cavalgar demoradamente, virou-se e se ofereceu na posição do culto para que eu lhe penetrasse o cajado mais, atendendo seus pedidos tácitos. Não me deixou gozar, rogava veladamente, deitando-se agora nua, descabelada, olhos cerrados, boca entreaberta, língua inquieta passeando sobre os lábios salientes, nua, fogosa, etérea reluzente para que eu pudesse, enfim, alisar carinhosamente suas pernas e coxas, as quais ao toque do meu tato ela mais se arrepiava e comecei por beijá-las, lambê-las, alcançando o seu sexo trêmulo, minha língua passeando por seus grandes e pequenos lábios, a entrada do canal vaginal, enfiada pela uretra, lambendo carinhosamente seu clitóris, chupando sua drupa, enquanto minhas mãos passeavam do períneo ao ânus, alisando-os e enfiando meu dedo para ouvi-la murmurar de prazer por ser explorada intimamente pelo ápice da minha língua que se estirava sibilante na sua fundura saborosa. Mais traquinei nela, língua e dedos enfiados em seus orifícios a faziam gemer enlouquecida, puxando-me selvagem e determinada para o triângulo luminoso inquieto, mais penetrava, arremetia, mais socava meu cajado na sua caverna, ela estertorava, a me exigir de joelhos para a borboleta e a penetrei mais, empurrei vingativo e cravei meu caralho rijo e insaciável para seus múltiplos gozos a desmaiar com orgasmo e me puxar a colher, 99, guardando meu prazer aprisionado ao seu entre as coxas, atravessado rente ao ânus e a vagina, para adormecer desvalidos até perder a completa noção do tempo e de tudo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui & aqui.


DITOS & DESDITOS - Os que nunca vivem o momento presente são os que não vivem nunca. Pensamento do escritor e matemático dinamarquês Piet Hein (1905-1996).

ALGUÉM FALOU: Porque o tempo é tão implacável, roubando-nos as oportunidades se não formos suficientemente rápidos para agarrá-las imediatamente? Expressão da atriz e escritora norueguesa Liv Ullmann. Veja mais aqui.

ORGULHO & PRECONCEITO - [...] Não creio que encontre dificuldade em aplicar esta filosofia à sua própria vida. As suas lembranças devem ser tão desprovidas de toda mácula que não é preciso nenhuma filosofia para sentir o contentamento que se origina delas. Mas comigo não é assim: quando penso no passado intervém muitas recordações dolorosas que não podem e não devem ser repelidas. Toda a minha vida fui um ser egoísta, se não na prática, pelo menos nos meus princípios. Em criança me ensinaram o que era direito, mas não me ensinaram a corrigir o meu gênio. Deram-me bons princípios. Mas deixaram-me praticá-los orgulhosamente. Infelizmente, sendo durante muito tempo único filho, e mais tarde único filho homem, fui mimado pelos meus pais e, embora eles fossem bons, meu pai sobretudo, que era a benevolência em pessoa, permitiram, encorajaram e quase me ensinaram a ser egoísta e tirânico, a pensar apenas nas pessoas da minha família, desprezar todos os outros e a pensar, com desprezo, no bom senso e valor das outras pessoas, comparados com os meus. Assim fui eu dos oito aos vinte e oito anos. E, se não fosse a minha querida e adorável Elizabeth, talvez ainda não me tivesse mudado. Que é que não lhe devo? A lição que me deu foi certamente a princípio muito dura, mas muito vantajosa. Por suas mãos recebi a humilhação que devia. Aproximei-me de você sem duvidar de que seria aceito. Revelou-me como eram insuficientes as minhas pretensões de agradar uma mulher digna de ser amada. [...]. Trecho extraído da obra Orgulho e preconceito (Abril Cultural, 1982), da escritora inglesa Jane Austen (1775-1817). Veja mais aqui.

PRÓLOGO – Não haviam feito anos nem a rosa nem o arcanjo./ Tudo, anterior ao batido e ao pranto. / Quando qualquer luz ignorava ainda / se o mar nasceria menino ou menina. / Quando o vento sonhava melenas que pentear / e craveiros o fogo que acender e bochechas / e a água alguns lábios parados aonde beber. / Tudo, anterior ao corpo, ao nome e ao tempo. / Então, eu me lembro que, uma vez, no céu... Poema do poeta espanhol Rafael Alberti (1902-1999). Veja mais aqui & aqui.


EDUCAÇÃO AMBIENTAL: CONTEXTO HISTÓRICO – A Educação Ambiental surge com os movimentos ambientalistas e da conscientização ambiental ocorridos nos finais dos anos 40 e na década de 50 e, segundo Dias (2000, p. 36), se formalizou a partir da Conferência em Educação de 1965, realizada em Keele, na Grã Bretanha, denominada “environmental education”, quando passa a ser parte essencial de todos os cidadãos. Em seguida, segundo, Grün (1996), Guimarães (2000) e Dias (2000), exatamente em 1970 que foi aprovada a primeira legislação referente à Educação Ambiental, nos Estados Unidos. E, a partir de 1971 a UNESCO realiza um Programa Internacional sobre o homem e a Biosfera, o MAB - “Man and Biosphere”, introduzindo a importância da biosfera e lançando as bases científicas que deveriam reger a utilização dos recursos naturais. Tal conduta levou em 1972, o Clube de Roma a apresentar o diagnóstico contendo os problemas globais do meio ambiente, passando, com isso, a promover a conscientização dos problemas ambientais com apresentação das soluções alternativas. No mesmo ano de 1972 ocorre entre os dias 5 e 16 de junho, a Conferência da ONU sobre o Meio Ambiente, realizada em Estocolmo, na Suécia, segundo UNESCO(1999), procedendo ao surgimento mundial dos movimentos de conscientização ambiental, exigindo-se, com isso, o reconhecimento da necessidade de se desenvolver uma educação que atente para os problemas ambientais com o restabelecimento de programas neste sentido. Após a conferência as questões e problemáticas ambientais passaram a ser abordada numa ótica multidisciplinar e, até, holística. Foi, com isso, que surgiu e teve desenvolvimento a Educação Ambiental pela aquisição do papel de uma nova ciência voltada para o combate aos problemas e as suas soluções na área ambiental mundialmente. Tal desenvolvimento se deu mais efetivamente pela ação dos movimentos ambientais, passando a Educação Ambiental a se realizar como método de ensino. Com o plano de Ação Mundial – Conferência de Estocolmo sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento Humano, 1972 –, segundo Viola e Leis (1995), ficou clara a determinação proposta pela recomendação da Conferência para os países no sentido de se efetuarem a criação de programas e ações nacionais voltadas para implantação e implementação da EA. Quando da ocorrência da Conferência de Belgrado, na Iugoslávia em 1975, promovida pela UNESCO, que, segundo Adams (2005) se deu à formulação dos princípios e orientações que dariam corpo ao desenvolvimento de um programa verdadeiramente de Educação Ambiental. Tal movimentação levou a realização em 1977, em Tbilisi, na Rússia, da Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental, que conforme UNESCO (1999), foi quando se reconheceu mundialmente a necessidade de desenvolvimento de programas ambientais, apresentando, por isso, quarenta e uma recomendações com as diretrizes necessárias, dentre ela está que a EA é um método de formação eficaz de integracionistas, isto é, de estudiosos que tem enfoque pluridisciplinar, os quais com esta formação holística servem como integradores entre os generalistas e especialistas, formando importante elo de iteração de várias ciências em prol do desenvolvimento. Isto quer dizer que tudo começa em junho de 1972, quando a Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano – CNUAH -, mundialmente reconhecida como Conferência de Estocolmo, levou o PNUMA - Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e a UNESCO a criarem, em 1975, o Programa Internacional de Educação Ambiental - PIEA. E para cumprir a Recomendação 96, desta Conferência, que atribui grande importância estratégica à EA dentro dos esforços de busca da melhoria da qualidade ambiental foi realizado em 1977, em Tbilisi (URSS), a primeira Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental. Por esta ocasião foram definidas as bases assentadas nas finalidades, objetivos, princípios orientadores e estratégias para o desenvolvimento da Educação Ambiental. Por força dessa conferência passou-se a reconhecer a importância de se conhecer a interdependência dos fatores econômicos, sociais, políticos e ecológicos e a necessidade se conscientizar todos os segmentos da sociedade, para que, agindo em conjunto, possam elaborar planos de ação em busca de soluções globais para a problemática ambiental. Exemplo disso, conforme Adams (2005), a conferência trouxe por resultado em suas recomendações que a educação ambiental é o resultado de uma orientação e articulação de diversas disciplinas e experiências educativas que facilitam a percepção integrada do meio ambiente, tornando possível uma ação mais racional e capaz de responder às necessidades sociais. Em virtude disse, esta recomendação extraída da Conferência de Tbilisi considera que a EA é um processo transformador e conscientizador que vai interferir, de forma direta, nos hábitos e atitudes dos cidadãos. Noutra recomendação extraída da Conferência de Tbilisi, conforme Adams (2005), a educação ambiental passa a ser vista como suscitando uma vinculação mais estreita entre os processos educativos e a realidade, estruturando suas atividades em torno dos problemas concretos que se impõem à comunidade; enfocando a análise de tais problemas, através de uma perspectiva interdisciplinar e globalizadora, que permita uma compreensão adequada dos problemas ambientais. Merece menção, segundo Gadotti (2000), o fato de que na Declaração Mundial sobre Educação para Todos: Satisfação das Necessidades Básicas de Aprendizagem, aprovada na Conferência Mundial sobre Educação para Todos, realizada em Jomtien, Tailândia, de 5 a 9 de março de 1990, foram reiterados, entre seus objetivos, que: a satisfação das necessidades básicas de aprendizagem confere aos membros de uma sociedade a possibilidade e, ao mesmo tempo, a responsabilidade de respeitar e desenvolver a sua herança cultural, lingüística e espiritual, de promover a educação de outros, de defender a causa da justiça social, de proteger o meio ambiente. Tais movimentações, segundo UNESCO (1999), culminam com a realização da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento – UNCED, mais conhecida como Rio-92 que editou a Agenda 21 reforçando as recomendações de Tbilisi, com propostas que evidenciem a promoção do ensino, o treinamento e a consciênciatização, bem como a reorganização do ensino com a incorporação da EA no ensino regular. É conveniente mencionar, com base em Grün (1996), Magalhães (1994) e Hutchison (2000), que na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento - CNUMAD, celebrada no Rio de Janeiro em junho de 1992, foram lançados os desafios principais que balizaram as políticas governamentais dos países contratantes para o século XXI, também no Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, em caráter não oficial, celebrado por diversas Organizações Não Governamentais - ONG's -, na Conferência Rio 92, as mesmas reconheceram a educação como um processo dinâmico em permanente construção e que, por isso, deve, portanto, fomentar a reflexão, o debate e a sua própria modificação. Ainda reconheceu que a EA para uma sustentabilidade eqüitativa é um processo de aprendizagem permanente baseado no respeito a todas as formas de vida. Em 2002, ocorre em Joanesburgo, África do Sul, a Conferência Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável – World Summit on Sustainable Development - WSSD, visando adoção de medidas concretas e identificação de metas quantificáveis para pôr em ação de forma eficaz a Agenda 21. Neste evento, segundo Almeida (2002), levaram à avaliação dos avanços obtidos e ampliou-se o escopo para as chamadas Metas do Milênio que visavam, além de garantir a sustentabilidade ambiental: erradicar a fome e pobreza extremas; alcançar uma mínima educação primária com iguais oportunidades para homens e mulheres; reduzir a mortalidade infantil com especial enfoque ao combate à AIDS e malária; melhorar as condições de vida dos que moram em favelas e de outras populações mais necessitadas; ampliar o acesso à água potável; desenvolver uma parceria global para o desenvolvimento que incluísse sistemas internacionais de comércio e financiamento não discriminatórios e atendesse às necessidades especiais dos países em desenvolvimento, aliviando suas dívidas externas, provendo trabalho aos jovens e acesso a remédios e novas tecnologias. Ainda em conformidade com Almeida (2002), a WSSD reuniu 60 mil participantes, sendo 12 mil de delegações incluindo chefes de Estado, líderes de ONGs, empresas e outros grupos principais. Além dos encontros intergovernamentais, eventos coordenados pelas Nações Unidas buscaram a troca de experiências e maiores oportunidades para diálogo entre os participantes oficiais dos encontros oficiais. Vários encontros preparatórios ocorreram para realização da WSSD a exemplo de Prepcom I de 2001 em Nova York, Prepcom II, III e IV, de 2002, organizados pela Comissão das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável - CSD10 -, que guia e dá suporte ao processo de negociações entre Estados-membros e grupos majoritários. A respeito desses eventos, Adams (2005, p. 16) afirma que: Eventos internacionais importantes, destacados pela Coordenação Geral de Educação Ambiental COEA (MEC PRONEA, 2004), como a Conferência de Estocolmo, em 1972, o Congresso de Belgrado, em 1975, a Conferência de Tbilisi, em 1977, a Conferência sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, mais conhecida por Rio-92 (ou Eco-92), e que resultou na criação da Agenda 21 e no importante Tratado de EA para Sociedades Sustentáveis (Anexo II), e a Conferência Internacional de Thessaloniki, em 1997, entre outros, revelam uma preocupação mundial em relação à EA. Determinações importantes que resultaram dessas conferências servem de referencial para o desenvolvimento e efetivação da prática educacional ambientalista, nos ambientes institucionais (escolas, empresas, ONG s, igrejas). Desta forma, segundo a autora mencionada, a EA passa a ser entendida como uma das mais desafiadoras e abrangentes temáticas inseridas nas atuais sistemáticas educacionais, assumindo uma importância relevante nas discussões e debates dos problemas ambientais que se detectam em níveis locais e globais, exigindo, portanto, dos cidadãos de toda humanidade a adoção de uma postura inédita voltada para a relação do ser humano com o meio ambiente, modificando assim, a sua intervenção no meio e seu modo de viver, ser, ver e relacionar-se com o planeta num posicionamento responsável e sustentável.

EDUCAÇÃO AMBIENTAL: VISÃO GLOBAL DO MUNDO - A adoção de uma visão global da questão ambiental como um todo, surgiu com os movimentos pacifistas que adotaram posicionamento conservacionista contra as atitudes beligerantes e aguerridas do pós-guerra. No entanto, é a partir das observações de Branco (1998), Souza (2000) e Pereira (1997), é que se entende que desde que o homem apareceu na face da terra que ele atua, interage, explore e subsiste das suas ações, intervenções e interações com o meio ambiente, possuindo, assim, um ambiente natural, cultural, químico, físico e biológico, interferindo e alterando todo ao seu redor na busca de proteção, existência e conforto. Isto quer dizer que, em conformidade com as idéias expressas por May e Mota (1994), que o relacionamento da humanidade com a natureza se inicia desde a mais remota época com a sua interferência nos ecossistemas, tendo hoje culminado numa forte pressão exercida sobre os recursos naturais, provocando a poluição, a contaminação dos cursos de água, a devastação da flora, destruição da fauna e a redução da potencialidade do meio, além de muitas outras formas de agressão ambientais. As ações iniciais de visão global, segundo Mota (2008), se deram a partir de atitudes preservacionistas cultivando o símbolo energizante da montanha, vales e florestas, com forte sentimento panteísta no ponto de vista filosófico e estetizante sob o ponto vista da relação homem-natureza, tendo por intenção última a preservação da natureza como ela é, intocada pelo homem. Depois destes, segundo Mota (2008), surgiram os ideais ambientalistas que se demonstra como um movimento onde a ecologia lança mão para seus estudos valendo-se do trabalho de correções daquilo que já foi degradado, nos casos físicos, e prejudicado, nos casos de animais e plantas, com a preocupação corretiva, a tese do equilíbrio dos ecossistemas e apoiando-se decisivamente nos estudos dos cientistas físicos e naturais. Mais adiante surgiram os conservacionismo que, segundo Mota (2008), trazem no bojo de sua defesa à questão da sustentabilidade do sistema produtivo, em virtude do homem não ser a medida de todas as coisas, mas  uma espécie que luta com as outras por sua sobrevivência, sendo necessário, devido ao tremendo multiplicador de seu poder de interferência sobre a vida no planeta, examinar alternativas e correções de rumo, de modo a conter o caráter destruidor deste poder e salvar o seu lado benéfico. Este movimento trabalha o desenvolvimento ambientalmente sustentável, aquele que não está coadunado com a natureza intocável, nem com o desenvolvimento desejável do capitalismo, tratando a natureza como bem maior da humanidade. Tendo em vista que, segundo Pereira (1997), o ambiente é visto como um conjunto de fatores naturais e não naturais, os problemas ambientais do homem não podem ser tratados com neutralidade, carecendo, assim, para solução dos problemas de natureza histórica de uma transformação das atuais relações da sociedade com a natureza. A partir disso, a visão global da Educação Ambiental, segundo o que se apreende de Branco (1998), May e Mota (1994), Souza (2000), Grün (1996), Guimarães (2000), Dias (2000) e Pereira (1997), parte para o contexto da necessidade de mudança comportalmental do ser humano com relação à natureza, na promoção de um modelo de desenvolvimento consciente e responsável por meio de um processo que seja capaz de assegurar a gestão responsável dos recursos do planeta de forma a preservar os interesses das gerações futuras e, ao mesmo tempo atender as necessidades das gerações atuais. Quer dizer, uma postura para o desenvolvimento sustentável visando a compatibilização de práticas econômicas e conservacionistas, com reflexos positivos evidentes junto à qualidade de vida de todos. Assim sendo, em conformidade com Martins (2002) e Viola e Leis (1995), a visão global de educação ambiental consiste na adoção de um programa efetivo que promova simultaneamente, o desenvolvimento de conhecimento, de atitudes e de habilidades necessárias à preservação e melhoria da qualidade ambiental, utilizando-se como laboratório, o metabolismo urbano e seus recursos naturais e físicos, iniciando pela escola, expandindo-se pela circunvizinhança e sucessivamente até a cidade, a região, o país, o continente e o planeta. Assim, conceitualmente a EA, segundo Oliveira (2000, p. 23), a partir do reconhecimento da sua importância a partir dos movimentos ambientais e das recomendações de diversas conferências internacionais realizadas desde 1972 até hoje, é: (...) um processo voltado para a apreciação da questão ambiental sob sua perspectiva histórica, antropológica, econômica, social, cultural e ecológica, enfim, como educação política, na medida em que são decisões políticas todas as que, em qualquer nível, dão lugar às ações que afetam o meio ambiente. Isto quer dizer que a EA, para o autor em referência, é à parte da educação que trata das relações do homem com o seu meio natural, suas interferências no mesmo, as causas que levam o homem a realizar tal tarefa e suas conseqüências. Para Gadotti (2000, p. 131): Educação Ambiental é um processo que parte de informações ao desenvolvimento do senso crítico e raciocínio lógico, inserindo o homem no seu real papel de integrante e dependente do meio ambiente, visando uma modificação de valores tanto no que se refere às questões ambientais como sociais, culturais, econômicas, políticas e éticas, o que levaria à melhoria da qualidade de vida que está diretamente ligada ao tipo de convivência que mantemos com a natureza e que implica atitudes, valores e ações. Trata-se de uma opção de vida por uma relação saudável e equilibrada com o contexto. A Educação Ambiental deve estimular a solidariedade, a igualdade e o respeito aos direitos humanos, valendo-se de estratégias democráticas e interação entre as culturas. Também Branco (1998, p. 51) entende EA como sendo: (...) todo processo cultural que objetive a formação de indivíduos capacitados a coexistir em equilíbrio com o meio. Processos não formais, informais e formais já estão conscientizando muitas pessoas e intervindo positivamente, se não solucionando, despertando para o problema da degradação crescente do meio ambiente, buscando novos elementos para uma alfabetização. Para Adams (2005, p. 17), para contextualizar o conceito de EA, entende-se que: (...) se trata de uma prática educacional sintonizada com a vida em sociedade, que deve ser inserida sob diversos enfoques: social, econômico, político, cultural, artístico, etc., não podendo ser considerada como uma prática estanque, uma vez que abrange diversas áreas, confirmando sua interdisciplinaridade. Já para Dias (2000), a EA é “(...) um processo por meio do qual as pessoas apreendam como funciona o ambiente, como dependemos dele, como o afetamos e como promovemos a sua sustentabilidade". Vê-se, com isso, que a educação ambiental, em conformidade com os autores mencionados, deve se constituir de um formato de educação que seja abrangente, e por meio de um processo participativo pedagogicamente, que atinja todos os cidadãos e de forma permanente procure incutir a conscientização numa postura crítica baseada na capacidade de captar as origens, causas, conseqüências e alternativas possíveis diante dos problemas ambientais.

REFERÊNCIAS
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