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terça-feira, dezembro 26, 2017

HARVEY, BOURDIEU, AMADO NERVO, BANCQUART, RAMEAU, PARMÊNIDES, LOUI JOVER, PI-HSIEN CHEN, SCHNEEMANN & XIMÊNIA

SONHOS & SEGREDOS DE XIMÊNIA - Imagem: Arcadia, Loui Jover. - Ximênia sonhou estranho sonho: meninos e meninas clamavam chorosas pela mãe e era ela, a mãe de todos aqueles órfãos. Os abortos doeram pesados, o padre no púlpito condenou as mães que negaram seus filhos, agora o pastor aos berros pelos altofalantes, como pode, ela se via culpada por tudo que rejeitara das escapulidas acossadas pela volúpia, dos indevidos prazeres incendiários, não podia engravidar, todos reprovariam, não tinha ninguém para apoiá-la, até mesmo a quem amava zarpara ao saber da prenhez, e ela sozinha, como agora, culpada pelas perdas, por não ter pensado direito, por se entregar fácil ao primeiro carinho e tesão embaixo da saia, via-se culpada por todos os erros, os seus e os da humanidade, culpada pelas doidices do sexo, pelas bombas explosivas ceifando inocentes, pelas misérias de filhos que perderam seus pais, pelas guerras matando os convocados e pela queda do homem, tudo culpa dela pela costela tomada, o que foi que eu fiz, meu Deus, o choro irrompia feito uma tempestade avassaladora. Desfaleceu de sentir uma agonia medonha por dentro, menstruou de repente e o sangue revelava sua nojeira e culpa, por isso sangrava e muito, todo mês, ah, que fazer, e passou uma noite e um dia, sangreiro entre as pernas e caminhos, dois dias assim, três, quatro, derramava profusamente, quinto dia e vertia sangue cálido, enegrecido, quando isso vai parar, sexto dia e já se acostumava vazar de suas entranhas aquela sina de mulher. Foi então se arrumar, vestiu-se como nunca, escolhendo a dedo a roupa com odor de naftalina tirada do baú nunca mais vasculhado, quase não cabia dentro do vestido de tão apertado, anos guardado, meia-calça, bijouterias, maquiagem e o espelho, não, não era ela, nunca seria, tudo fora do lugar, reprovável, indevido, desvestiu-se de ficar nua por horas encostada ao canto do quarto, pele, unhas e desprezo. O que fazer da vida? Seus sonhos, seus segredos guardados jamais reveláveis, segredos dela, só dela mais ninguém. Segredos que regorgitavam, vinham à tona desavisadamente e até chegavam vivos na ponta da língua de quase vomitá-los todos duma vez, mas não, seria demais, nada disso, e falava sozinha, falava por falar sem querer dizer o que realmente estava pronta pra dizer, não era nada do que dizia, nada disso que eu queria ter dito, era outra coisa, até me esqueci do quê, ah, vou me arrumar e pegou o primeiro vestido e saiu descalça jogando tudo pra cima, seios e ventre aos ventos, não sei o por quê de ainda estar aqui, ora, ora, já devia ter dado cabo da minha vida, pegado o rumo, sumido, ah, se eu pudesse, por que não posso? Claro que posso ir além do portão, e sentiu a chuva e corpo molhar-se de deixar às vistas sua nudez incontrolável, tateando sua carne reviu o passado, quantas e tantas coisas que vivera, melhor pensar no futuro, mas como? O futuro não existe, ou é agora ou nunca. Como era linda a infância, as bonecas cuidadas, os presentes que ganhava e a mãe mandando prender os cabelos a colecionar diademas, tiaras, só dispunha de berilos e bobes, queria a liberdade dos cabelos soltos, esvoaçantes, ah, quem dera cabelo bonito como o da tia Meraldinha, aquilo sim é que era cabelo bonito, aliás, ela era toda bonita, parecia uma daquelas princesas encantadas, queria ser ela, ser como ela, viver a vida dela, isso sim, ah, queria era voltar a ser menina, ah se encontrasse os grãos de feijão da promessa de João e Maria, e enquanto devaneava batia uma tristeza enorme, um filme passava na sua cabeça, o quintal, as pisas, reprimendas, fugidas, até lembrar da morte de ontem da amiga por engano, carta que errou de endereço, era pra vizinha aquela depravada, não pra ela, o marido nem viu quem o destinatário, ligou-se no conteúdo mencionado pelo remetente anônimo, a fúria cegou-lhe, não precisava matá-la daquele jeito, brutalidade sem precedentes, agora, ela morta, enterrada inocentemente; ele, preso, condenado ao opróbrio público, pela mão pesada da lei, inocentemente, tudo por engano, como pode? Chorou e saiu do quintal à varanda às lágrimas, vai e volta casa adentro pranto recorrente, para no portão enxugando os olhos que estão na rua, estala os dedos, dissimula, ronrona, se recompõe, vê-se sozinha desde sempre, quase morre afogada na sua pungente constatação. Até viu seu rosto na poça d’água, correu apressada pro espelho, está na cara: o espelho me condena, não ignora a causa, apenas disfarça, faz que não sabe. Bem que podia ser mais bonita, não era; bem que podia ser atriz de televisão com aqueles galãs das novelas, glamour, felicidade. Ah, não, minha vida é nada, reduzida a isso, só preparar café da manhã, almoço, janta, servia mais pra quê mesmo, hem? Servia apenas para servir, levar beliscão ou tapinha na bunda avisando que mais tarde seria abatida pela violência do seu dono e feitor, mais nada, só queria seus favores de Amélia, casa limpa, roupa lavada, disposição de abrir as pernas e escancarar todo corpo nu pra satisfazer as vontades explosivas dele imprevisível e desconfortável, só quando ele queria e pronto, sempre só quando queria e depois, feito, servido, saciado, virar de costa, ufa!, e livrava-se da obrigação de ter que abrir as pernas, facilitar as coisas, deixar que faça o que quiser, como quiser, não importa o que sinta ou possa, morto de fome e sem saber da sua nem de seus desejos e sonhos, é ele assim que chega esbaforido, fedendo, se cagando ou se mijando ou de pau duro remexendo suas entranhas, aos puxavanques, aos empurrões, a lei é dele, a vontade é dele, tem de tapar o nariz para ver se morre, cerra as pálpebras, como pode tudo isso, ah, essa a minha vida, por acaso isso é vida, e o vuque-vuque, imagina o príncipe a raptá-la e às sacudidas inevitáveis o trote do garanhão e ela estuprada deliciosamente por quem ela sonha, investidas às pressas pela fuga, o sexo dilatado e o futuro da felicidade, caindo na real e tudo despenca com o gozo dele, nem deu tempo pro prazer dela, ele vira as costas e ronca como quem não deve nada e ela sonhando com o noivado engalanado que nunca tivera, a cerimônia na igreja, o véu e grinalda, nada disso, sonhos que se espatifam como vidro espalhado no assoalho da imaginação, ah, isso é que é vida, apenas uma bobabem, sonhava coisa com coisa, via-se a si própria voando nos sonhos e acenando sorrindo pra ela mesma, que coisa! Ah, como queria voar e sorrir entre as nuvens, até via os urubus na festa das carniças zoando pra ela, que bom, aqui sou notada, o voo o seu refúgio, sonhando de voar a memória da infância em que podia de tudo, era só fechar os olhos e tudo acontecia sem pé nem cabeças e onde quisesse e como, era bom sonhar de olhos abertos, isso podia, ninguém nem nada que não quisesse, só o que queria e era bom sonhar, cônscia do sonho, e aprendeu a sonhar o que queria e sonhava todo dia, acordada ou dormindo, sua vida era um sonho que ela inventava e reinventava ao sonhar e vivia. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a ópera e héroique ballet Les Indes Galantes (O Amorous Índias, 1735), do compositor do período Barroco-Rococó e maior expressão do Classicismo musical francês Jean-Philippe Rameau (1683-1764), com libreto de Louis Fuzelier, original harpsichord transcritions performed by Kenneth Gilbert & Variations Goldberg Bach, Bethoven op. 26 e Sonata KV 279 de Mozart com a pianista taiwanesa Pi-Hsien Chen. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] concedei-me apenas uma certeza! E que ela seja uma tábua no mar da incerteza, apenas larga o suficiente para permanecer sobre ela. Tomai para vós tudo o que vem a ser, o que é exuberante, multicolorido, florescente, enganador, excitante e vivo; e dai-me apenas a única, pobre e vazia certeza. Oração do filósofo pré-socrático, matemático e poeta grego, Parmênides de Eleia (530-460aC.). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A PRODUÇÃO CAPTTALISTA DO ESPAÇO – [...] não podemos perder de vista os insights marxistas essenciais. De um modo ou de outro, o Estado capitalista precisa desempenhar suas funções básicas. Se não conseguir fazer isso, então esse Estado deve ser reformado, ou então o capitalismo deve dar lugar a algum outro método de organizar a produção material e a vida cotidiana [...] investigar o papel que o processo urbano talvez esteja desempenhando na reestruturação radical em andamento nas distribuições geográficas da atividade humana e na dinâmica político-econômica do desenvolvimento geográfico desigual dos tempos mais recentes [...]. Trechos da obra A produção capitalista do espaço Annablume, 2005), do professor e geógrafo britânico marxista David Harvey, tratando sobre a reinvenção da geografia, a geografia da acumulação capitalista, a teoria marxista do Estado, o ajuste espacial, a geopolítica do capitalismo, do administrativismo ao empreendedorismo: a transformação da governança urbana no capitalismo tardio, a geografia do poder de classe e a A arte da renda: a globalização e transformação da cultura em commodities. Veja mais aqui.

MEDITAÇÕES - [...] Aprendemos pelo corpo. A ordem social se inscreve nos corpos por meio dessa confrontação permanente, mais ou menos dramática, mas que sempre confere lugar importante à efetividade e, mais ainda, às transações afetivas com o ambiente social [...] é preciso deixar de subestimar a pressão ou a opressão, coninuas e por vezes desapercebidas, da ordem ordinária das coisas, os condicionamentos impostos pelas condições materiais de existência, pelas surdas injunções, e a “violência inerte” (como diz Sartre) das estruturas econômicas e sociais e dos mecanismos por meio dos quais elas se reproduzem [...] Os agentes sociais, bem como as coisas por eles apropriadas, logo constituidas como propriedades, encontram-se situados em um lugar do espaço social, lugar distinto e distintivo que pode ser caracterizado pela posição relativa que ocupa em relação a outros lugares (acima, abaixo, entre, etc) e pelas distância (por vezes dita “respeitosa”: e longínquo reverentia) que o separa deles. Por conta disso, são passíveis de uma analysis situs, de uma topologia social. [...]. Trechos de Meditações pascalianas (Bertrand Brasil, 2001), do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002). Veja mais aqui.

O FORMIGÃO – [...] Mais longe, na falda de umas colinas, sob o bosque de jericos, uns arrieiros sesteavam com suas mulas, cantando em coro apimentadas coplas, que os ouvidos do rapaz distinguiam claramente: Você diz que me quer muito; / não me ponha tão em cima, / que as folhas desta árvore / não durarão toda vida. [...] Caíra de joelhos, com seus agasalhos, o caderno que estava lendo, e a palvra Orígenes, título do capítulo citado, tornou-se o alvo do seu olhar. Uma ideia espantosa surgiu então em sua mente. Era a única tábua de salvação... A moça estreitava mais e mais o amoroso laço e deitava a alma pela boca, em beijos. O formigão segurou com punho crispado a espátula e a agitou durante alguns momentos, exalando um gemido... Assunção viu correr uma torrente de sangue, soltou um grito e afrouxou os braços, deu um salto para trás, ficando em pé a dois passos do ferido, com os olhos imensamente abertos e fixos, naquele rosto que, contraído pela dor, mostrava, no entanto, um sorriso de triunfo... [...] Trechos do conto do escritor mexicano Amado Nervo (1870-1919). Veja mais aqui.

POR UM ESTÁGIOSonho que moro / com um esquilo, lá na sua toca / no aconchego do seu pelo quente / o cavalo da noite / não me atropela / nenhuma fronteira / entre mim e a casca / quando acordo / lembro da minha carte de menor durante a guerra / com um passaporte para ir / de uma metade da França à outra, a casa do meu avô / pensonas cercas de arame farpado sobre toda a terra, hoje / gostaria de voltar / à toca do esquilo / e também abolir / dentro de mim as fronteiras / fazer um estágio de organismo simples. Poema da escritora, ensaísta e critica literária francesa Marie-Claire Bancquart.

A ARTE DE CAROLEE SCHNEEMANN
A arte da artista visual estadunidense Carolee Schneemann, caracterizada pela pesquisa sobre tradições visuais, tabus e o corpo humano nas relações sociais, autora de obras como Cézanne, She Was a Great Painter (1976) e More than Meat Joy: Performance Works e Selected Writings (1997), entre outras.

Veja mais:
Os sonhos de Ximênia aqui e aqui.
O pensamento de Emmanuel Levinas aqui e aqui
A literatura de Carlos Castañeda aqui e aqui.
A arte de Joan Miró aqui.
A literatura de Raul Pompeia aqui.
Os estudos de Dian Fossey aqui.
A literatura de Henry Miller aqui, aqui & aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor, ilustrador e fotógrafo australiano Loui Jover.
Veja mais aqui.
 

terça-feira, julho 14, 2015

GULLAR, STOKLOS, KADARÉ, BERGMAN, PARMÊNIDES, BADI, KLINT, FIASHI & A LIBERDADE DE EXPRESSÃO NO PROGRAMA TATARITARITATÁ!!!!!!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? A LIBERDADE DE EXPRESSÃO – A liberdade de expressão se constitui num direito que foi resultado da construção dos direitos humanos, direitos esses que englobam os de natureza civil, social, político e, inclusive, os difusos em todas as suas gerações. Sua vigência teve surgimento a partir dos registros históricos da acumulação que determinou a supremacia de uns sobre outros – os que acumularam e passar a ter, os que não tinham do que se valer a não ser como vencidos, servis e escravos. Essa acumulação conferiu aos detentores de poder o que fazer e desmandar, coibindo com severa repressão quaisquer manifestações contrárias. Além disso, surgiu também pela necessidade de se respeitar a pluralidade humana, independente de raça, credo, posicionamento político, preferências ou orientação sexual, respeitando-se todas as manifestações legítimas de pessoas, tanto individualmente como de agrupamentos, minorias ou representações. É na máxima de Voltaire que se ampara a liberdade de expressão, aquela em que ele diz que se pode discordar de qualquer proposta ou posicionamento, entretanto se tem o dever de respeitar as ideias alheias, a compreensão da oposição entre os contrários. É o que se passou a vigorar no Direito ao se estabelecer a ampla defesa e o contraditório quando do confronto nos litígios e que passou a ser constitucionalmente prevista no Brasil, notadamente quando do processo de redemocratização ocorrido depois do período que se desenvolveu o regime militar, ocasião em que a repressão e a censura sobrepujavam todos os direitos fundamentais e garantias individuais. E tornou-se resultado do direito à informação, à comunicação, ao conhecimento, à educação e à livre associação entre os cidadãos na defesa dos seus anseios e desejos. A liberdade de expressão, afora alguns momentos agudos de restrições e censuras que ainda se detecta, tem evoluído ao longo dos últimos anos, mesmo diante da manifestação de conservadorismo e de canhestras iniciativas que não conseguem promover o diálogo, o debate e as discussões na busca por um país melhor para todos. É de fundamental importância que o diálogo e o debate imperem para que não haja supremacia impositiva deste ou daquele pensamento sobre qualquer outro, mas que possamos ter o direito de avaliação com profundidade sobre tudo aquilo que nos diga respeito. E vamos aprumar a conversa! Veja mais aqui.

Imagem: Kairos, do pintor e artista gráfico austríaco Gustav Klint (1862-1918). Veja mais aqui e aqui.

Curtindo Verde (eDGe music/Universal, 2004), da cantora, compositora, violonista e percussionista brasileira Badi Assad. Veja mais aqui e aqui.

SOBRE A NATUREZA – O filósofo e poeta grego Parmênides de Eléia (530-460aC), combateu a filosofia dos jônicos, o dualismo pitagórico e o mobilismo de Heráclito. Para ele a realidade é uma, a mudança é impossível enquanto a existência é atemporal, uniforme, necessária e imutável. Ele escreveu um poema filosófico Sobre a natureza (Loyola, 2002), em que descreve suas visões da realidade dividida em duas partes: na primeira, trata da verdade; na segunda, da opinião. Da obra destaco o trecho a seguir: Os corcéis que me transportam, tanto quanto o ânimo me impele, conduzem-me, depois de me terem dirigido pelo caminho famoso da divindade, que leva o homem sabedor por todas as cidades. Por aí me levaram, por aí mesmo me levaram os habilíssimos corcéis, puxando o carro, enquanto as jovens mostravam o caminho. O eixo silvava nos cubos como uma siringe, incandescendo (ao ser movido pelas duas rodas que vertiginosamente o impeliam de um e de outro lado), quando se apressaram as jovens filhas do sol a levar-me, abandonando a região da Noite para a luz, libertando com as mãos a cabeça dos véus que a escondiam. Aí está o portal que separa os caminhos da Noite e do Dia, encimado por um dintel e um umbral de pedra; o portal, etéreo, fechado por enormes batentes, dos quais a Justiça vingadora detém as chaves que os abrem e fecham. A ela se dirigiram as jovens, com doces palavras, persuadindo-a habilmente a erguer para elas por um instante a barra do portal. E ele abriu-se, revelando um abismo hiante, enquanto fazia girar, um atrás do outro, os estridentes gonzos de bronze, fixados com pregos e cavilhas. Por aí, através do portal, as jovens guiaram com celeridade o carro e os corcéis. E a deusa acolheu-me de bom grado, mão na mão direita tomando, e com estas palavras se me dirigiu: “Ó jovem, acompanhante de aurigas imortais, tu, que chegas até nós transportado pelos corcéis, Salve! Não foi um mau destino que te induziu a viajar por este caminho – tão fora do trilho dos homens –, mas o Direito e a Justiça. Terás, pois, de tudo aprender: o coração inabalável da verdade fidedigna e as crenças dos mortais, em que não há confiança genuína. Mas também isso aprenderás: como as aparências têm de aparentemente ser, passando todas através de tudo”. Vamos, vou dizer-te – e tu escuta e fixa o relato que ouviste – quais os únicos caminhos de investigação que há para pensar: um que é, que não é para não ser; é caminho de confiança (pois acompanha a verdade); o outro que não é, que tem de não ser, esse te indico ser caminho em tudo ignoto, pois não poderás conhecer o que não é, não é consumável, nem mostrá-lo [...]. Veja mais aqui e aqui.

A FILHA DE AGAMENON – O romance A filha de Agamenon (Companhia das Letras, 2006), do premiado escritor albanês Ismail Kadaré, conta a história de um jornalista que não se cansa de criticar o regime e que se vê dividido entre esperar a namorada e presenciar o desfile oficial, cujo destino se compara com a da filha de Agamenon, sacrificada pelo pai para aplacar a fúria dos deuses. Da obra destaco o trecho: De fora, da rua, chegavam a música festiva, a barulheira e o ruído abafado dos pés dos passantes. Aquele som específico que só poderia vir de uma multidão que se dirigisse aos lugares designados para o desfile. Pela décima vez, afastei um pouquinho a cortina da janela para ver a mesma cena: a lenta extensão da torrente humana. Sobre ela, tal qual no ano anterior, iam as faixas, os arranjos florais e os retratos dos membros do Birô Político. Seus rostos pareciam ainda mais petrificados sob aquele mar de cabeças e mãos. Às vezes, por causa de algum movimento das mãos de quem segurava o retrato, os rostos pintados pareciam se olhar de lado, ameaçadores. Mas mesmo quando eles ficavam lado a lado, pareciam não se conhecer. Fechei a cortina e notei que tinha na mão o convite para a festa. Era a primeira vez que recebia um convite para a tribuna do Primeiro de Maio, e eu, tal como no instante em que o entregaram, ainda não acreditava que tinham escrito ali o meu nome. Não menos perturbados tinham sido os olhos do vice-secretário do partido. Não se poderia dizer que havia neles apenas ciúme. Misturado com o ciúme, aflorava o assombro. E de certa maneira havia razão para isso. Eu não era daqueles que apareciam nos palanques e recebiam convites para tribunas de honra. E embora, como soube mais tarde, o próprio vice-secretário tivesse falado de mim quando o Comitê Regional do Partido solicitara nomes diferentes daqueles propostos ano após ano, mesmo assim ele não escondia a surpresa. É verdade que ele tinha me citado, entre outros, mas, ao que parecia, não pusera fé em que aprovariam uma lista nova. Falam isso todo ano, dissera talvez com seus botões, mas, quando chega a hora, são os de sempre que vão. "Parabéns! Parabéns!", disse-me, ao entregar o convite, e, no último instante, pareceu-me ver no seu olhar algo mais que ciúme e assombro. Estava ali bem no meio do sorriso dele, como uma cria do sorriso, e ao mesmo tempo era outra coisa. Talvez a palavra mais exata fosse "sorriso cúmplice". Concentrado, interrogativo, meio zombeteiro, mas com aquela zombaria benévola entre duas pessoas ligadas por um segredo. O sorriso cúmplice parecia me dizer: "Esse convite não veio de graça, cara, não é? Qual servicinho você fez para merecê-lo? Parabéns, espertinho!". Aquela interpelação estava tão clara que eu senti que corava. O sentimento de incômodo não me abandonou nem mesmo durante o caminho para casa, e por mais de uma vez eu me perguntei: É mesmo, por que mereci esse convite? O apartamento parecia ainda mais silencioso em contraste com o barulho da rua. Silencioso e vazio. Todos tinham ido para os pontos de concentração do desfile, e meus passos, em vez de preencher, destacavam ainda mais o silêncio e o vazio, um vazio que também era especial, como tudo mais naquele dia. Eu esperava por Suzana. Ainda assim, aquilo que me arranhava o peito não parecia nem um pouco com a ansiedade habitual de quem espera uma garota. Era um sentimento mais opressivo. E, aparentemente, inflado pela música e pelo cansativo barulho que vinham da rua. Às vezes parecia até que um daqueles retratos iria se erguer acima de quem o conduzia, tão alto que chegaria até a minha janela, olhando para dentro do apartamento com aqueles olhos pintados, imóveis: O que você está esperando? Hum, hum, deixou seu lugar na tribuna vazio por causa de uma garota, é? "Se eu não chegar até as oito e meia, não me espere mais", dissera Suzana. Toda vez que essas palavras me vinham à mente, os olhos escapavam sem querer para o sofá onde se dera nossa última conversa. Fora uma conversa triste demais. Suzana estava meio despida, e também suas palavras saíam pela metade, a custo revelando seu sentido. Estava cada vez mais difícil se encontrar comigo. A carreira do pai prosperava a cada dia. Agora a família era mais vigiada. Duas semanas antes, na reunião plenária do CC, o pai subira ainda mais. De maneira que, claro, ela teria que rever seu modo de vida, seu guarda-roupa, as companhias. Senão, ia causar prejuízos ao pai. - Ele mesmo pediu isso (eu ainda não sabia que nome dar a "isso") ou foi você que teve a ideia? Ela me olhou de viés. - Ele - respondeu, depois de uma pausa. - Mas... - Mas o quê? - Mas quando ele me explicou, concordei. - É? Senti que devia estar com os olhos injetados de sangue, como se alguém tivesse me atirado um punhado de areia. Com um jeito culpado, ela apoiou o rosto em meu ombro. Seus dedos, frios, como vidro moído, acariciaram meus cabelos, na nuca. Eu queria dizer: Mas por que só você? As filhas deles, dos outros, pelo contrário, aproveitam, têm uma vida mais livre. Carros, passeios em casas de praia. Era o que eu com certeza diria, se ela mesma não falasse. Os outros davam alguma liberdade aos filhos, mas o pai dela... Ele era mesmo espantoso. Ninguém sabia o que tinha na cabeça... Ou então não havia nada de espantoso, mas era algo obrigatório apenas para ele. Precisamente porque nos últimos tempos ele se distinguia dos outros. Assim, se na festa de Primeiro de Maio ele aparecesse do lado direito do Dirigente, tudo estaria acabado entre nós. Como eu não disse nada, ela achou que eu não tinha entendido direito. Entende?, insistia, soluçante. Era inaceitável para eles, quer dizer, para a opinião pública, que ela fizesse amor com alguém que estava noivo. Porque um dia aquilo viria à luz. Entende? Tinha de entender. Eu não sabia o que responder, enquanto meus olhos se perdiam em suas pernas nuas. [...] Veja mais aqui e aqui.

BELA BELA & O TRENZINHO CAIPIRA – Na obra Poema Sujo (José Olympio, 1976), do poeta, crítico de arte, tradutor e ensaísta Ferreira Gullar, escrito durante o exílio do autor na Argentina no período do Regime Militar brasileiro, destaco o trecho: [...] bela bela / mais que bela / mas como era o nome dela? / Não era Helena nem Vera ; nem Nara nem Gabriela / nem Tereza nem Maria / Seu nome seu nome era... / Perdeu-se na carne fria / perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia / perdeu-se na profusão das coisas acontecidas / constelações de alfabeto / noites escritas a giz / pastilhas de aniversário / domingos de futebol / enterros corsos comícios / roleta bilhar baralho / mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa / e de tempo: mas está comigo está / perdido comigo / teu nome / em alguma gaveta [...]. Este trecho foi musicado por Milton Nascimento e gravada no álbum Caçador de mim (Ariola, 1981). Outro trecho do poema: [...] Lá vai o trem com o menino / Lá vai a vida a rodar / Lá vai ciranda e destino / Cidade noite a girar / Lá vai o trem sem destino / Pro dia novo encontrar / Correndo vai pela terra, vai pela serra, vai pelo ar / Cantando pela serra do luar/ Correndo entre as estrelas a voar / No ar, no ar, no ar [...] Esta parte do poema foi transformada em letra para O Trenzinho Caipira – Bachianas Brasileiras nº 2 -, de Heitor Villa Lobos, gravada por Edu Lobo no álbum Limite das águas (Continental, 1976). Veja mais aqui e aqui.

O TEATRO ESSENCIAL – O Teatro Essencial da atriz e escritora Denise Stoklos compreende mais de quarenta anos de carreira na ampliação dos debates sobre a escrita feminina sobre a qual tem se debruçados pesquisadores a respeito do enfoque da vocalidade, da corporalidade, representação, espaço e tempo, criação estética, relator ator e público, e identidade artística sob a perspectiva vanguarda e contexto histórico e social da autora. Tais são as considerações dela própria a respeito: Onde apenas o vivo, a energia vital, a força de sobrevivência do humano se estabelecem como base do teatro. Uma ideia surgida da própria organicidade da sobrevivência sul americana onde a Sociedade-mãe e o Estado-pai abandonam o recém-nascido e só lhe prometem carência física, mental espiritual. A ideia de um teatro que carrega a resistência desse povo para a cena. Aquilo que o ator tem como instrumento: seu corpo, voz e pensamento seria tudo. Do corpo o espaço, o gesto, o movimento. Da voz a palavra, a sonoridade, o canto. Do pensamento a crítica, a dramaturgia, a organização dos elementos. Espetáculo feito na estrutura de monólogos, música e gestual. Peça de Teatro cuja leitura pode ser feita ao nível da imagem e ao nível do verbo, ambos muitas vezes complementando-se ou até contradizendo-se. A meta é uma comunicação mais ampla com estímulos a uma nova organização perceptiva. A plataforma da representação está nos signos resultantes de ritmo/espaço e som calcados na agilidade da decodificação. Não há mais nada no palco do que não seja ambientação cênica exteriorizada da presença humana (nada decorativo). E dessa presença todos os momentos teatrais são articulados. Diversos gêneros, modalidades e tempos, são rotas para um percurso plástico em direção ao contexto apresentado: um poema sobre nossa natureza. A perspectiva é a realização técnica rigorosa e humorista. Ensaio teatral em que se pretende elevar ainda que sísifamente a pedra de confiança na autossuficiência genuína do ser humano. A certeza serena e obstinada de que apenas o ato amoroso da valorização humana pode proporcionar ao criador de sua própria transformação, a chance. O lúcido encontro do real com o imaginário. Não só a lógica, não só o distanciamento, não só a de facetação. Mas uma chama revolucionária, ardente não apenas em câmera teatral onde o espetáculo ocorre, mas incendiária em todos os seus vazamentos. Que atice fogo nas outonais folhas mortas dos diários estéticos artificiais. Que queime o campo infértil, ocioso dos parâmetros. Que o "Teatro Essencial" possa fazer brotar, insurreto o fruto. Veja mais aqui e aqui.

DAS SCHLANGENEI – O filme Das Schlangenei (O ovo da serpente, 1977), do dramaturgo e cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007), conta a história de habitantes nativos na década de 1920, na cidade de Berlim, oprimidos pela hiperinflação e temendo a crise política, registrando suicídio na comunidade artística pela decadência, notadamente na constatação do irmão do suicida de encontrar a viúva dançando num bordel para se sustentar. Ambos vão dividir situações deprimentes e perseguições policiais, dificuldades e uma série de desencontros. O destaque do filme é para a atriz, escritora e diretora de cinema norueguesa nascida no Japão, Liv Ullmann. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Imagem: escultura Veiled female nude, do escultor italiano Emilio Fiaschi (1958-1941).

PROGRAMA TATARITARITATÁ – O programa Tataritaritatá que vai ao ar todas terças, a partir das 21 (horário de Brasilia), é comandado pela poeta e radialista Meimei Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Na programação: Duofel, John Coltrane, Robertinho do Recife, Trio Bossa Nova Jazz Pop, MP4, Yanni, Banda de Pau e Corda, Sonia Mello, Cambada Mineira, Danny Calixto, Paulinho Natureza & Sandra Regina Alves Moura, Kel Monalisa, Roberto Toledo, Elisete Retter, Mazinho, Carlinho Motta, Franco do Valle, Katya Chamma, Ricardo Machado, Lílian Pimentel, Ricardo Bonadie, Julia Crystal & Mônica Brandão, Ozi dos Palmares, Ju Mota, Beto Saroldi, Raphael Veronese, Jarbas Barros, RSM & Instrumental Core, Altemar Dutra, Conjunto Primavera, Quarteto Gileade, Trio Irakitan & muito mais. Veja mais aqui.

Veja mais sobre:
Não era pra ser, nem foi, Entre a vida e a morte de Nathalie Sarraute, a música de Galina Ustvolskaya, Aquarium World de Takashi Amano, o ativismo de Emmeline Parnkhurst, Zakarella de Carlos Alberto Santos, a pintura de Paul-Émile Chabas & as gravuras de ean-Frédéric Maximilien de Waldeck aqui.

E mais:
Trova & Trovadorismo aqui.
A literatura de João Ubaldo Ribeiro aqui & aqui.
Quase meio dia, A estrutura das revoluções científicas de Thomas Kuhn, Não morra antes de morrer de Yevgeny Yevtushenko, Os amores amarelos de Tristan Corbière, A consciência da mulher de Leilah Assumpção, a música de Debussy & Sandrine Piau, o cinema de Eric Rohmer & Françoise Fabian, a pintura de Hyacinthe Rigaud & Vittorio Polidori, a fotografia de Dian Hanson & Eric Kroll aqui.
A poesia de Yevgeny Yevtushenko, a Psicanálise de Freud, o teatro de Leilah Assumpção, a pintura de Hyacinthe Rigaud, a música de Rachmaninoff & Segueira Costa, Ailson Campos & muito mais aqui.
Zé Ripe entre amigos & pé de serra aqui.
Dia Branco & outras dicas Tataritaritatá aqui.
O trabalho do antropólogo de Roberto Cardoso de Oliveira, Monções de Sérgio Buarque de Holanda, a poesia de música de Carlos Gomes, O poeta dramático de Karl Georg Büchner, o cinema de Alfred E. Green & Carmen Miranda, a arte de William Orpen, a pintura de Ivan Gregorewitch Olinsky & Charles-Antoine Coypel aqui.
Sorria, Canto geral de Pablo Neruda, A desobediência civil de Henry Thoreau, O feijão & o sonho de Orígenes Lessa, A revolução na América do Sul de Marcelo Soares música de Sebastião Tapajós, a pintura de Amedeo Modigliani, Monteiro Lobato & Brincarte do Nitolino aqui.
A crise na América Latina de Emir Sader, No colo do pai de Hanif Kureishi, Viagem nas primeiras horas de Wole Soyinka, Técnica teatral de Erwin Piscator, a música de Stelvio Massi & Joan Collins, a gravura de Václav Hollar, a pintura de Carl Kricheldorf & Isaac Lazarus Israels aqui.
O direito à informação e qual informação, A formação social da mente de Lev Vygotsky, O retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde, a poesia de Manuel Bandeira, a pintura de Vincent van Gogh & a música de Gonzaguinha aqui.
As funduras profundas do coração de uma mulher, A arte de amar de Erich Fromm, A poesia de Paul Verlaine, Cem poemas de amor de Ledo Ivo, a música de Debussy & Isao Tomita, Lula Queiroga, a pintura de Cornelia Schleime & Fabius Lorenzi aqui.
Mãe é mãe & deus proteja a minha, a sua, a nossa & o da mãe-joana & e das mães (do guarda, do juiz de futebol e dos políticos) que são coitadas, Inteligência emocional de John Gottman, a literatura de Máximo Gorki, a poesia de Jorge Tufic, a música de Caetano Veloso, a pintura de Lena Gal & Gustav Klimt, Travesuras de mãe de Denise Fraga & a arte de Luciah Lopez aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Sem título, da artista plástica russa Vera Donskaya-Khilko.
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    Imagem: Acervo ArtLAM .   Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, ...