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sábado, agosto 06, 2022

ROSÁRIO CASTELLANOS, DIANE DI PRIMA, LOUELLA PARSONS, EVANDRO NICOLAU & VITAL CORRÊA DE ARAÚJO

 

 

TRÍPTICO DQP: Itinerar pelos devires e espaventos... - Ao som do álbum Diários de vento (Prêmio de Música TerraUna Ibermúsicas, Serra da Mantiqueira, 2016), da compositora e multi-instrumentista Joana Queiroz - Voo pelas praças e por aí: a cidade se confunde com o abandono das imundícies. É quase tão inabitável quanto a sede ressentida que esmola em meu peito à procura da mão amiga jamais vista. Só os invisíveis estirados nas calçadas de agosto saúdam o que já morreu faz tempo, enquanto ensaio as Despedidas de Rosário Castellanos: Queríamos aprender a despedida / e rompemos a aliança / que unia o amigo com o amigo. / E nós preenchemos a lacuna / entre amizades divididas. / Para aprender a sair, andamos. / Deixamos para trás as colinas, os vales, / os prados verdejantes. / observamos sua beleza, / mas não ficamos. Prossigo e os farrapos dum fantasmenino estende a mão com seus olhos famintos de espera a me levar entre vultos alheios como sombras divagantes pela sedução insone da ganância. Ele me olha com um sorriso inocente de quem é apenas uma criança e o seu gesto me diz do poema Gente que gosto, do Mário Benedetti: Antes de mais nada gosto da gente que vibra, / que não é necessário empurrar,/ que não se tem que dizer que faça as coisas / e que sabem o que tem que ser feito / e o fazem em menos tempo que o esperado. / Gosto da gente com capacidade de medir / as consequências de suas ações. / A gente que não deixa as soluções para a sorte decidir. / Gosto da gente exigente com seu pessoal e consigo mesma, / mas que não perde de vista que somos humanos / e que podemos nos equivocar. / Gosto da gente que pensa que o trabalho em equipe, entre amigos, / produz às vezes mais que os caóticos esforços individuais. / Gosto da gente que sabe da importância da alegria. / Gosto da gente sincera e franca, / capaz de opor-se com argumentos serenos e racionais às decisões de seus superiores. / Gosto da gente de critério, / a que não sente vergonha de reconhecer / que não conhece algo ou que se enganou. / Gosto da gente que ao aceitar seus erros, / se esforça genuinamente por não voltar a cometê-los. / Gosto da gente capaz de criticar-me construtivamente e sem rodeios: / a essas pessoas as chamo de meus amigos. / Gosto da gente fiel e persistente / e que não descansa quando se trata de alcançar objetivos e ideais. / Gosto da gente que trabalha para alcançar bons resultados. / Com gente como esta, me comprometo a tudo, / já que por ter esta gente ao meu lado me dou por satisfeito. Ele, então, meninamente abre os braços e dou-lhe o meu afago e tudo é como se eu escutasse o trecho doutro do poeta uruguaio insistindo ao meu ouvido que eu não desista: Ainda há fogo em sua alma, / Ainda há vida em seus sonhos / Porque cada dia é um novo começo, / Porque este é o momento e o melhor tempo. / Porque você não está sozinho, porque eu te amo. O seu abraço ensolarou os meus anoitecidos dias, não havia como ignorar, esse aconchego me levou a perseguir caminhos proutras descobertas, mesmo que amanhã pareça distante e sequer pouso algum tenha para mirar.

 


Um verso não brota à toa... - Restou-me a mim os meus próprios redemoinhos e fui arrastado para o Labirinto Verbo de VCA. O poetamigo mostrou-me mais que a loucura dos meus próprios dédalos no seu jeito aberto e desanuviou o trajeto agora desembaraçado nas paredes que se tornaram Monósticos entroutros poemas esgarçantes da venda mitológica dominante, desvelando o Minotauro como se me dissesse que É de lástima a pele dos pusilânimes que se esvaíram nas Líricas Chacinárias deste e de todos os tempos. Não, não era uma encruzilhada nem malsinações caluniosas dos óbices impostores, definitivamente não era porque a Ascese é uma mulher transfigurada em muitas outras. E entre elas a escritorestadunidense Louella Parsons (1881-1972) dissesse: Não é da minha natureza chorar por muito tempo. É uma das bênçãos da minha vida que as coisas que são passadas - são passadas. As calamidades de ontem são apenas o desafio de hoje. Eu posso descer - mas não posso ficar lá... Quase qualquer pessoa que já alcançou qualquer tipo de estatura pública em sua profissão pode esperar ver, às vezes, um reflexo em um espelho rachado. Atento ouvia tudo mesmo que parecesse me iludir ali instantaneamente confessional com a Carta Revolucionária nº 1, da poetativistestadunidense da Geração Beat, Diane di Prima (1934-2020): Acabo de perceber que o que está em jogo sou eu / Não tenho outra moeda de resgate, nada para / quebrar ou trocar, a não ser minha vida / meu espírito parcelado, em fragmentos, esparramado sobre / a mesa de roulette, eu recupero o que posso / só isso para enfiar embaixo do nariz do maitre de jeu / só isso para jogar pela janela, nenhuma bandeira branca / só tenho minha pele para oferecer, para fazer minha jogada / com esta cabeça imediata, com aquilo que inventa, é a minha vez / enquanto deslizamos sobre o tabuleiro, e sempre pisando / (assim esperamos) nas entrelinhas. Era como se lesse a minha alma estilhaçada e não tivéssemos nenhuma outra possibilidade de escapar daquele angustiante momento tenebroso, só a poesia nos salvava e eu pude segui-la rumalhures sem que soubesse qual direção seguíamos.

 


“A paz age na paisagem”... – Imagem: fotograma do professor, compositor e artista visual Evandro Carlos Nicolau - Tantas paragens entre iridescentes meteoros esvoaçantes e cascalhos do meu chão fantasmagórico, até uma ancoragem sabia-se lá onde, nalgum tempespaço amigável e era Graça Lins apontando a manchete jornalística a respeito da necessidade de se ter amizades positivas para uma vida saudável, mas como se eu sequer sabia dalguma coisa próxima no espaçagora temperdido, não fosse ela própria a benfazeja instância dos sonhos que viajei nas asas de Darel e pude ouvir da sua graça e jeito o que dissera Evandro Carlos Nicolau: Mesmo sem percebermos todos estamos deixando marcas de nossas ações movimentos, interferências no mundo... E foi ao som de um trecho da canção dele mesmo, Viver além, do álbum Esboço (2016): ...o que desejo é não querer nada apenas tenho os meus pés na estrada... E seguisse assim aos Archivos del Sur para ganhar um Heráclito poema de Araceli Otamendi: eu sou feito de barro / eu moro em um pote / e a água passa... E um convite poético inusitado dela: Há uma cidade dentro de uma cidade... / saio a caminhar... Então fomos todos de mãos dadas singrando a delicadeza dos potentes afetos que nos fazem tão vivos quanto humanos atravessando o mais terrível flagelo na nossa doce ilusão de indelével incolumidade. Até mais ver.


 

[...] uma práxis pedagógica que pretenda ser emancipada e emancipadora não pode se furtar da responsabilidade de promover um clima cultural que favoreça o desenvolvimento de uma identidade autocrítica, de uma proposta pedagógica que permita com que os agentes educacionais experienciem verdadeiramente tanto os vínculos entre si quanto também os fracassos amealhados no processo ensino- aprendizagem que podem se transformar em sucesso; que conceda oportunidade de que o aluno e o mestre enfrentem seus medos e percebam que é o trabalho coletivo, que respeite as diferenças, aquele que produz uma individualidade não-patológica [...].

Trecho extraído da obra Indústria Cultural e educação: o novo canto da sereia (Autores Associados, 1999), do professor Antônio Álvaro Soares Zuin. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



segunda-feira, agosto 01, 2022

ANN BRASHARES, MALALA YOUSAFZAI, MEIR SHALEV & MIRÓ DA MURIBECA

 

 

TRÍPTICO DQP: De máscaras & personas... - Ao som do Concert Excerpts @International Guitar Festival Ferran Sor (2020), da violonista espanhola Anabel Montesinos. - O que vejo e sou: a máscara traz a persona que se mostra no palco do mundo e no cenário da vida. A aparência preferida almeja protagonizar entre os arquétipos de Jung e o senso diante da escolha entre os princípios de Freud: o prazer e a realidade. A lucidez é um detalhe e não precisa ser sisuda, como diria Nise da Silveira, seria uma chatura por esconder o real sob o ideal. E essa manipulação não seria lá tão saudável, ou quem capaz do Poema em linha reta ou da Tabacaria de Pessoa, enquanto visualizasse aquela que Carl Rogers colocou no centro da fenomenologia-existencial. Talvez seria melhor considerar o que dissera a escritora estadunidense Ann Brashares: Talvez haja mais verdade em como você se sente do que no que realmente acontece... Talvez a verdade seja que há um pouco de perdedor em todos nós. Ser feliz não é ter tudo em sua vida perfeito. Talvez seja sobre juntar todas as pequenas coisas... Ou atentar para o que escrevera o escritor israelense Meir Shalev: Se ao menos pudéssemos nos livrar de todas as coisas mortas dentro de nossos próprios corpos e almas!... Cada qual seu repertório de representações no ludo vital, sabendo-se de antemão que na cena, diz Stanislavski, deve-se expor o que vem de dentro para não ser um histrião no meio dos outros. É que por trás da máscara mil semblantes podem reverberar...

 


Dum lado a outro a vida se manifesta... – Imagem: arte da sulcoreana Stella Im Hultberg. - Um clique, o estalo, zás. Dentro: um som, tons. Daí sílabas e sonoridades: uma palavra, uma sinapse neuronal, zis significados – senão todos à mercê da percepção. Disso um dedo, o sinal e quantos sentidos (do caos, quantas expressões por descobrir). O simples ato apenas sugeriu e tudo, exatamente tudo pode acontecer: um fio puxa outro, teias. Não é só uma coisa ou outra, de um ponto: todas as ideias – rizomas, galhos dendríticos pulsantes escorrem pelo axônio: as terminações atraem umas às outras, as escolhas, imantações. Quanto poderia se dizer de um simples ato: vibrações ecoam, reverberam algures. E se uma emergiu aqui pode ser outra noutra percepção. Dita o poder de síntese de quem se expressa, a imaginação de quem perceber. Não só, cabe o mundo inteiro em uma só palavra, quanto mais em duas, três, seis. E se uma fonte expede sêxtuplas rajadas de gotas entre muitas outras que circundam e desembocam na emersão do universo à seletividade, níveis da compreensão. É só um triz, apenas, em meia dúzia de jatos com outros pingos condensados, aleatórios ou não, quantas emissões: em cada gota significados implícitos; e, se reunidas, múltiploutros. Ou como diz Cees Nooteboom: O mundo é uma referência cruzada sem fim... Cada período da história tem seus próprios castigos, e o nosso tem uma infinidade... Essa é a diferença entre deuses e homens. Os deuses podem mudar a si mesmos; humanos só podem ser mudados... Quem fala e quem ouve entre empatias e dissonâncias, transmissões e retransmissões: dum lado a outro a vida se manifesta.

 


D’agosto e lá se vai... - Imagem: arte da sulcoreana Stella Im Hultberg. - Era eu menino pelos quatro anos de idade e bateram no portão de quase derrubá-lo – era o início do tenebroso período ditatorial do golpe militar de sessenta e quatro. Começou no primeiro de abril e me assustou: botas expunham fuzis das fardas, vasculhando salas, quartos e quintal. Não sabia o que queriam, só sei que todos os dias marchavam bravos lá em casa e eu, toda vez, entre um dos braços de minha mãe grávida, agarrado à minha irmã. Lembro certa vez ela gritou que era agosto e eles nem consideraram: estava prestes a dar à luz. Lembrei-me porque li A história de mim de Graça Lins, como se lesse um poema de Miró da Muribeca (1960-2022): olhei para o passado / as folhas dos calendários / caindo / é preciso plantar cedo sua árvore / pra mais tarde ter uma sombra / que lhe agasalhe... Agora novamente agosto como o poema de Tchello d’Barros: O tempo desenha na face / O alto custo de um imposto / Pois lento nos dá outro susto / Chegamos a outro agosto / Posto que o destino é vasto / E visto o que está posto / Este viver tão sucinto / Nesta sina a contragosto / Dias semanas e meses / Somam em si um desgosto / No raso espaço do espelho / Os anos esculpem seu rosto... e eu sozinho conto de Emily Brontë: Deixe-me a sós, que preciso pensar; enquanto penso, não sofro… Do que passou e o presente, lembranças tão vivas como ecoassem agora. Até mais ver.

 


Um livro, uma caneta, uma criança e um professor podem mudar o mundo. A diversidade garante que crianças possam sonhar, sem colocar fronteiras ou barreiras para o futuro e os sonhos delas. Vamos pegar nossos livros e canetas. Eles são nossas armas mais poderosas. Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo. A educação é a única solução. A educação é o poder das mulheres.

Pensamento da ativista paquistanesa Malala Yousafzai. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 


sexta-feira, janeiro 15, 2016

CANTILENA, GOETHE, RÉGIO, PROUDHON, DUMAS, GRAÇA LINS & MUITO MAIS!!!


CRÔNICA DE AMOR POR ELA: CANTILENA (Imagem: Vídeo/Arte de Meimei Corrêa) - Naquele dia sobressaltado, tal como um viajante de navio por ilhas inexistentes, tal miserando da face desfigurada pela carga de todos os martírios, um penitente crucificado de gritos inauditos com a culpa alheia e o tumulto da humanidade, um peregrino esboroado aos estilhaços de sentimentos com todas as revoltas desmedidas de pedra muda pisada e que sofria pelo mundo inteiro e me dando por bem pago como pato saco de pancada, um fantoche em que a vida se faz emudecida e vazia, um farrapo humano farto da agonia dos meus dias rumorosos e sem um gesto de piedade ou aceno que apaziguasse minha via crucis, eis que ela surge me trazendo a rosa da primavera com um desejo inaugural de vida a quem amou demais além da conta de todos os dias. E eu vi seus grandes olhos abertos quando a sorte cintilou em toda parte apagando todas as nódoas do passado e todos os desesperos das noites insones. E o seu riso largo e sonoro me encantou como quem embalado pela sonata mais envolvente. E a sua boca rubra da voz apaixonante me ensinou ali a capacidade de superar as mágoas e desapontamentos, o discernimento do perdão sob quaisquer condições, o de sorrir ao errar o caminho e ter de voltar, e de falar brando nos momentos iminentes e nas revelações das adversidades e noites de sono. E ela clarividente tornou-se o beijo ardente que instaurou luz no meu dia. E com seu jeito manso ensinou-me a enxergar além dos atributos físicos e fui levado por suas mãos suaves e inquietas para longe do passado. E nelas recolhi os gerânios ofertados por sua generosidade, para juntá-las às minhas desamparadas inventando à flor o orvalho. E dela fez-se o amor que nasce e renasce em meus poemas a devolver o paraíso roubado e a inocência perdida. (Luiz Alberto Machado. Veja mais da canção aqui. E mais aqui & aqui).

CONFIRA MAIS CRÔNICA DE AMOR POR ELA:













PICADINHO
Imagem: Reclining nude with a floral garland, do pintor russo Lev Tchistovsky (1902-1969).


Curtindo o álbum Tears Roll Down-Greatest Hits 82-92 (Universal, 1999), da banda britânica de new wage Tears For Fears, da dupla Curt Smith e Roland Orzabal.

EPÍGRAFE – Trate as pessoas como se elas fossem o que poderiam ser e você as ajudará a se tornarem aquilo que são capazes de ser, frase do escritor do Romantismo alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

ANARQUISMO PROUDHONISTA - O pensamento do filósofo político, econômico e anarquista francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), estava ocupado em traçar os esquemas da futura sociedade livre e igualitária, pertencendo ao grupo dos socialistas utópicos franceses de sua época, como Fourier, Cabet e Considérant. Como eles, era ateu violento e inimigo irreconciliável da sociedade burguesa. Mas defendeu sempre a família e desenvolveu uma filosofia da história, rejeitando a luta politica como fútil e ineficiente. Para ele, a sociedade futura será organizada conforme um sistema de mutualismo, de auxilio reciproco dos associados por intermédio de um banco do povo que dará empréstimos sem juros aos necessitados. Essa ideia utópica revela bem o caráter da sua filosofia política, ideia cuja realização ajudaria aos artesãos e outros pequenos proprietários, mas não ao operariado industrial. Para ele, as associações se reuniriam em federações regionais e a federação das federações substituiria, enfim, o Estado. Essa ideia foi, depois, aceita por todos os grupos anarquistas, inclusive pelos adeptos de Bakunin e pelos anarquistas espanhóis. Veja mais suas obras aqui, aqui e aqui.

MÚSICA DE CORA: DIARA DINKE – O conto A ceifa (Cultrix, 1962), do escritor, dramaturgo, compositor e dançarino guineense Fodéba Keïta (1921-1969), destaco o trecho da Música de Cora – Diara Dinke: Sentada num banco, perto do celeiro de milho, Sona, a filha do joalheiro de Lanoaye, desde a madrugada que soluça, com ardentes lágrimas, ela chora por não ter conseguido obter os pesados colares de âmbar, prometidos por Bomadi, o bufarinheiro. Há mais de um mês que ela formulou o voto de usá-los durante a ceifa. Ora, eis que chegou a ceifa e Bomadi, o bufarinheiro de pernas finas, não voltou ainda de suas longas andanças. Os cultivadores, acocorados debaixo da árvore das palavras, passam uns aos outros pequenos calhaus e calculam, assim, suas futuras colheitas. Em volta deles, seus filhos, nus, brincam de esconde-esconde, pois chegou a ceifa que significa, para eles, o repouso, os divertimentos, depois das longas horas de vigília nas planícies pantanosas. Veja mais aqui.

ADÃO E EVA - No livro Antologia de José Régio (Nova Fronteira, 1985), reúne a poesia do escritor, dramaturgo, ensaísta e critico português José Régio (1901-1969), do qual destaco o poema Adão e Eva: Olhámo-nos um dia, / E cada um de nós sonhou que achara / O par que a alma e a cara lhe pedia. / – E cada um de nós sonhou que o achara... / E entre nós dois / Se deu, depois, o caso da maçã e da serpente, / ... Se deu, e se dará continuamente: / Na palma da tua mão, / Me ofertaste, e eu mordi, o fruto do pecado. / – Meu nome é Adão... / E em que furor sagrado / Os nossos corpos nus e desejosos / Como serpentes brancas se enroscaram, / Tentando ser um só! / Ó beijos angustiados e raivosos / Que as nossas pobres bocas se atiraram / Sobre um leito de terra, cinza e pó! / Ó abraços que os braços apertaram, / Dedos que se misturaram! / Ó ânsia que sofreste, ó ânsia que sofri, / Sede que nada mata, ânsia sem fim! / – Tu de entrar em mim, / Eu de entrar em ti. / Assim toda te deste, / E assim todo me dei: / Sobre o teu longo corpo agonizante, / Meu inferno celeste, / Cem vezes morri, prostrado... / Cem vezes ressuscitei / Para uma dor mais vibrante / E um prazer mais torturado. / E enquanto as nossas bocas se esmagavam, / E as doces curvas do teu corpo se ajustavam / Às linhas fortes do meu, / Os nossos olhos muito perto, imensos, / No desespero desse abraço mudo, / Confessaram-se tudo! / ...Enquanto nós pairávamos, suspensos / Entre a terra e o céu. / Assim as almas se entregaram, / Como os corpos se tinham entregado, / Assim duas metades se amoldaram / Ante as barbas, que tremeram, / Do velho Pai desprezado! / E assim Eva e Adão se conheceram: / Tu conheceste a força dos meus pulsos, / A miséria do meu ser, / Os recantos da minha humanidade, A grandeza do meu amor cruel, / Os veios de oiro que o meu barro trouxe... / Eu, os teus nervos convulsos, / O teu poder, / A tua fragilidade / Os sinais da tua pele, / O gosto do teu sangue doce... / Depois... / Depois o quê, amor? Depois, mais nada, / – Que Jeová não sabe perdoar! / O Arcanjo entre nós dois abrira a longa espada... / Continuamos a ser dois, / E nunca nos pudemos penetrar! Veja mais aqui e aqui.

A DAMA DAS CAMÉLIAS – A peça teatral A dama das camélias (1858), do escritor francês Alexandre Dumas Filho (1824-1895), conta a história de um estudante de direito em Paris do século XIX, de uma família burguesa interiorana que se apaixona por Marguerite Gautier, a cobiçada cortesã dos salões e teatros parisienses, personagem inspirada na cortesã francesa Marie Duplessis (1824-1847). Da obra destaco o trecho da cena IV: [...] Armando — Me conte quais. Margarida — Mais tarde! Armando — Por que não agora, Margarida — Porque agora ainda não gosta de mim como é preciso; quando eles se realizarem então eu conto; por enquanto basta saber que é em você que eu andei pensando. Armando — Em mim? Margarida — É, em você, de quem eu gosto tanto. Armando — Vamos, diga o que? Margarida — Para que? Armando — Eu estou pedindo. Margarida — Acha que posso guardar algum segredo de você? Armando — Então diga. Margarida — Eu imaginei um plano. Armando — Que plano? Margarida — Não posso contar; só posso contar o resultado que ele deve ter. Armando — E que resultado deve ter? Margarida — Você gostaria de passar o verão no campo comigo? Armando — Ainda pergunta? Margarida — Bravo! Se o meu plano der certo, e tem que dar, daqui a quinze dias estou livre; não devo mais nada a ninguém e vamos juntos passar o verão no campo. Armando — E não pode me dizer de que jeito? Margarida — Não; mas veja se me pode amar como eu te amo que tudo há de dar certo. [...]. Veja mais aqui e aqui.

SHE’S SO LOVELY – O drama She’s so lovely (Loucos de amor, 1997), dirigido por Nick Cassavetes sobre roteiro do seu pai John Cassavetes, conta a histórias de um casal com a Síndrome de Asperger, uma forma de autismo, cujas disfunções emocionais ameaçam sabotar seu recém-iniciado romance. Ele é um cara legal, mas um motorista de táxi sem sorte que ama os pássaros e tem uma habilidade fora do comum com os números. Como muitos portadores da Síndrome, ele gosta de padrões e rotinas. Mas quando a bela, mas complicada mulher se junta ao seu grupo de ajuda aos autistas, sua vida - e seu coração - ficam de cabeça para baixo. O destaque desse filme fica por conta da atriz estadunidense Robin Wright. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista canadense Jean-Francois Painchaud.
Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à conterrâneamiga & educadora do Instituto Qualidade no Ensino, Graça Lins.

TODO DIA É DIA DA MULHER
Veja as homenageadas aqui.


GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...