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terça-feira, julho 11, 2017

BERTRAND RUSSEL, DORIS UHLICH, LAURA KNIGHT, LEILA PINHEIRO, LUIZ MELODIA, MARISA MONTE & JARDS MACALÉ.

O RATO, A COTIA E O CACHORRO – O rato Quejino andava folgado pra cima e pra baixo, depois que chegara de São Paulo carregado de gírias e modas. A cotia Rosmivilda logo deitou simpatia pras bandas do roedor, o que levantou ciumeira no delegado de polícia, o cachorrão Mauzão, que se dava por pretendente arreado de paixão pela prendada roedora. Deu-se então da autoridade policial investir pesado nos intentos, o que restou infrutífero, vez que a bandoleira já estava de braços, pernas e saias agarradas no cotovelo do Queijino, prometendo paixonite aguda aos beijos e afagos em casamento ainda não marcado. Um verdadeiro golpe nas pretenções de Mauzão que passou a se arrastar pelos cantos, todo encolhido e sem vontade pra mais nada na vida. Nem adiantou o tigre juiz de direito, nem o macaco escrivão, muito menos o burro advogado sacolejarem pra levantar os ânimos do coitado, tanto que ele nem se deu conta dos flertes da jeitosa filha da preguiça promotra de justiça. – Esse parece que está perdido mesmo -, disse o juiz. – Enjeitar minha filha, como é que pode? -, reclamou magoada a preguiça promotora. Mas, destá. O tempo passa e no meio do idílio, a cotia descobre que o Quejino estaba enrabichado com a catita Juanita, lá pras bandas do outro lado da cidade. A situação esquentou e o pau comeu: as duas entraram em guerra! E o rato, sabido que só, pés na bunda, pernas pra que te quero. No meio do bafafá apurou-se que a Juanita estava certa e de data marcada pro casório com ele, quando a Rosmivilda bafejou que estava embuchada de filhote dele pra dali poucos dias rebentar. Como é que é? A bomba sacudiu todo lugar e redondeza. Cadê aquele filho duma ratazana? Procuraram por ele, o lugar mais limpo. Foram então ter com o delegado Auzão que levantou as orelhas e partiu com um destacamento pesado à caça do fugitivo. Depois de luas e sóis na pisada, acharam o presepeiro solto na gandaia. Quando ouviu a voz de prisão, o danado quis correr, mas foi pego pelo rabo e arrastado até a presença das querelantes. Acunhado por tabefes e tapas por ambas ofendidas, findou quase morto na prisão. Foi aí que a catita revoltou-se de não querer mais vê-lo nem pintado a ouro, e a cutia teve um troço e abortou. Nessa hora o Auzão socorreu a Rosmivilda pro pronto socorro, enquanto que a jeitosa filha da preguiça mortificada de ciúmes, peiticou com a mãe promotora para mandar soltar o Quejino. E tanto fez que conseguiu até ganhar a simpatia do rato aprisionado. Enquanto o Auzão cobria de cuidados a cotia enferma, logo ela se enamorou da autoridade e firmaram casamento pra dali alguns dias. Por conta disso, a preguiça filha passou a cuidar com atenção redobrada do rato no seu esconderijo e logo misturaram pelos e patas de findarem entrelaçados pelos vínculos do amor. Depois de tantos entreveros, cada um o seu caminho, não se sabendo, ao certo, se foram felizes pra sempre, o que é muito pouco provável, afinal, ninguém sabe, não moram mais pela redondeza pra evitar brigas e dresgraças de rixas antigas, além do  mais muito tempo já passou. Por isso o amor é lindo e paz na Terra os bichos de boa vontade! Entrando pela perna de pinto, saindo pela perna de pato, o que já é outra história porque já é outro fato. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

O ELOGIO AO ÓCIO DE BERTRAND RUSSEL
[...] A moral do trabalho é a moral de escravos, e o mundo moderno não precisa da escravidão. [...] Porque o trabalho é um dever, e um homem não deveria receber salários proporcionalmente ao que produz, mas proporcionalmente à virtude demonstrada em seu esforço. Esta é a moral do Estado escravista, aplicada em circunstâncias totalmente diferentes daqueles na qual surgiu. Não é surpresa que o resultado tenha sido desastroso. [...] O uso sábio do lazer, deve-se conceder, é produto de civilização e educação. Um homem que tenha trabalhado longas horas a vida inteira fica entendiado se se torna subitamente ocioso. Mas sem considerável quantidade de lazer um homem é privado de muitas das melhores coisas. Não há mais nenhuma razão para que a maior parte da população sofra dessa privação; somente um ascetismo tolo, geralmente paroquiano, nos faz continuar a insistir em excessivas quantidades de trabalho agora que não há mais necessidade. [...] Em um mundo em que ninguém seja compelido a trabalhar mais do que quatro horas por dia, todas as pessoas que possuíssem curiosidade científica seriam capazes de satisfazê-la, e todo pintor seria capaz de pintar sem passar por privações, qualquer que seja a qualidade de suas pinturas. Jovens escritores não precisarão procurar a independência econômica indispensável às grandes obras, para as quais, quando a hora finalmente chega, terão perdido o gosto e a capacidade. Homens que, em seu trabalho profissional, tenham se interessado em alguma fase da economia ou governo, serão capazes de desenvolver suas idéias sem a distância acadêmica que faz o trabalho de economistas universitários freqüentemente parecer fora da realidade. Médicos terão tempo para aprender sobre o progresso da medicina, professores não estarão lutando exasperadamente para ensinar por métodos rotineiros coisas que aprenderam na juventude, que podem, no intervalo, terem se revelado falsas. Acima de tudo, haverá felicidade e alegria de viver, ao invés de nervos em frangalhos, fadiga e má digestão. O trabalho exigido será suficiente para tornar o lazer agradável, mas não suficiente para causar exaustão. Uma vez que os homens não ficarão cansados em seu tempo livre, eles não exigirão somente diversões passivas e monótonas. Ao menos um por cento provavelmente devotará o tempo não gasto no trabalho profissional para objetivos de alguma impotância pública e, como não dependerão destes objetivos para viver, sua originalidade não será tolhida, e não haverá necessidade de adaptar-se aos padrões estabelecidos pelos velhos mestres. [...].
Trechos de Elogio ao ócio (1932 – Sextante, 2002), do filósofo, matemático e pensador inglês Bertrand Russel (1872-1970). Veja mais aqui e aqui.

Veja mais sobre:
Lagoa da Prata, O folclore no Brasil de Basílio de Magalhães, Chão de mínimos amantes de Moacir da Costa Lopes, Culturas e artes do pós-humano de Lucia Santaella, a música de Belchior, a fotografia de Tatiana Mikhina, a arte de Joseph Mallord William Turner & Wesley Duke Lee aqui.

E mais:
O trabalho do antropólogo de Roberto Cardoso de Oliveira, Monções de Sérgio Buarque de Holanda, a poesia de Karl Georg Büchner, a música de Antônio Carlos Gomes, o cinema de Alfred E. Green & Carmen Miranda, a arte de William Orpen, a pintura de Ivan Gregorewitch Olinsky & Charles-Antoine Coypel aqui.
Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda, a música de Antonio Carlos Gomes & Quinteto Violado, Joana Ramos & Givaldo Kleber aqui.
Recontando Caetano Veloso & Podres poderes aqui.
História dos hebreus de Flávio Josefo, Vidas paralelas de Plutarco, A civilização hispano-moura de Philipe Aziz, Cronologia pernambucana de Nelson Barbalho, Violência: crimes de trãnsito & arma de fogo aqui.
Umas do Doro & o jabá, Multimidiação do processo artístico de Augusto de Campos, Vila dos confins de Mário Palmério, Artêmis, a música de Rossini & Olga Peretyatko, o cinema de Jacques Rivette, a arte de Mademoiselle Rachel & Marie McDonald, a fotografia de Greg Williams & a poesia de Dalinha Catunda aqui.
Paixão Legendária & Santanna O Cantador, A patente de Luigi Pirandello, A história do mundo de Mel Brooks, As ciências e as artes de Jean-Jacques Rousseau, Guilhermina Suggia, a xilogravura de Nena Borges, Brincarte do Nitolino, a crônica de Aldemar Paiva, a poesia de Marly de Oliveira, a música de Felipe Radicetti & pintura de Maria Luisa Persson aqui.
A culpa é da Dilma, O Projeto Atman de Ken Wilber, a música de Heitor Villa-Lobos, O sermão do bom ladrão de Padre Antônio Vieira, a pintura de Peter Paul Rubens, a poesia de Henriqueta Lisboa, Prometeu acorrentado de Ésquilo, o cinema de Abbas Kiarostami & Juliette Binoche, a arte de Alex Toth & Ekaterina Mortensen aqui.
Preciso de um culpado, Platónov de Anton Tchékov, Peri Physeos de Anaxímenes de Mileto, A arte de furtar de Padre Antônio Vieira, As odes píticas de Píndaro, o cinema de Walter Lang & Susan Hayward, a arte de Dave Saint-Pierre, a música de Stanley Clarke, a pintura de Horace Vernet & Malcolm Liepke aqui.
Lugome, sua familia, seu infortúnio, A poesia erótica de José Paulo Paes, a música de Gina Biver, Fundamentos da História do Direito, O combate à corrupção nas prefeituras do Brasil, a pintura de Sofan Chan, a fotografia de Luiza Machado, a arte de Eiko Ojala & Rudson Costa aqui.
A arte de Tunga, Estética teatral de Redondo Junior, a poesia de César Vallejo, a música de Ná Ozzetti, a fotografia de Ruy Carvalho, a arte de Sônia Braga, Fecamepa & Os sapos na política de Edson Moura aqui.
Semáforos de sempre, vida adiante, Amor em tempos sombrios de Colm Tóibín, O serviço social de Marilda Villela Iamamoto, Ética & Marketing Social, a fotografia de Spencer Tunick & Esdras Rebouças Nobre, a arte de Vik Muniz & a música de Claudio Nucci aqui.
A sexta é dia da deusa, da musa, rainha, poeta, mulher, A história de Goethe, a literatura de Machado de Assis, Gozo fabuloso de Paulo Leminski, a música de Alexandra Stan, a fotografia de Marcos Guerra & a arte de Luciah Lopez aqui.
Na Volta da Jurema, Semiologia & comunicação lingüística de Eric Buyssen, Arrowsmith de Sinclair Lewis, O pensamento de Confúcio, a música de Guinga, a arte de Ida Zam & Laerte Coutinho aqui.
O amor dos namorados, A arte de amar de Erich Fromm, Sonetos de amor de Pablo Neruda, Cânticos dos Cânticos, A música de Edith Piaf, o cinema de Derek Cianfrance & Michelle Williams, a pintura de Julia Watkin & Cornelis le Mair, a arte de Henry Asencio & Grupo Femen aqui.
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MAIS DO QUE NUA DE DORIS UHLICH
Projeto Mais do que nua (2012), oficina da premiadíssima dançarina e coreógrafa austríaca Doris Uhlich no ImPuls Tanz, Festival Internacional de Dança de Viena. (Imagem: fotos de Andrea Salzmann/Theresa Rauter). Veja mais aqui e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje é dia de especial com Leila Pinheiro do Brasil & Reencontro: cantando Gonzaguinha & Ivan Lins; Luiz Melodia ao vivo Convida & Maravilhas Contemporâneas; Marisa Monte Diariamente & grandes sucessos; e Jards Macalé Real Grandeza. Para conferir é só ligar o som e curtir.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora inglesa Laura Knight (1877-1970).
Veja mais aqui.

sábado, agosto 22, 2015

DEBUSSY, DOROTHY PARKER, RUSSEL, MAGREB, REBOLO, KUARUP, CARRACCI, PSICODRAMA, DANÇATERAPIA & NASCENTE.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? NASCENTE – A edição nº 11 do tabloide Nascente, de mar/abr-1998, traz como editorial o poema Crônica de amor por ela. Na seção Bate Papo, uma entrevista com Marina Lima. Na seção Tabuletas, o quarto episódio das Proezas do Biritoaldo: Quando o bicho é sonso tira fino até na beira do abismo. Traz uma entrevista com a escritora alagoana Arriete Vilela, uma charge do Zinei e uma matéria sobre o Velho Chico: beleza caudalosa. Na seção Intercâmbio todo material recebido da seção Registro: o Slan Quinze, editado pelo Rovel; o Dicionário Bibliográfico de Escritores Brasileiro, do Adrião Neto (PI); o Postal Clube, de Araci Barreto Costa (RJ); o informativo Rio Una da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho (PE), o Tom Zine (MG), os livros com as peças teatrais Complexos, Vendaval no Paraíso e Lua de Sangue sobre o vale, do poeta e teatrólogo Pedro Onofre; e na seção Nascente Poético poemas de Arriete Vilela (AL), Lau Siqueira (PB), Marina Fátima Dias (MS), Nilza Menezes (RO), Eva Reis (MG), Claudio Cernov (SP), Maria Cardoso Zurto (RS), Sumara Cadoso (PA), Zenilda N. Lins (SC), Laís Costa Velho (RJ), Denise Teixeira Viana (RJ), Arita Damasceno Pettená (SP), Jocedyr Tavares (RJ), Josenilda Pereira (PW), Eliane di Santi (SP) e o destaque para o poema Painel das Fêmeas, com uma homenagem pela passagem do aniversário de Tereza Collor. Veja mais aqui e aqui.


Imagem: Nu, do pintor e gravador Francisco Rebolo (1902-1980).


Curtindo a Suite bergamasque, Children’s Corner, Deux Arabescos & Pour le piano, do compositor francês Claude Debussy (1862-1918), com a pinista candense Angela Hewitt. Veja mais aqui e aqui.

A FILOSOFIA ENTRE A RELIGIÃO E A CIÊNCIA – No livro História da filosofia ocidental (Cia. Editora Nacional, 1977), do filósofo, matemático e pensador inglês Bertrand Russel (1872-1970), encontro o texto denominado A Filosofia entre a Religião e a Ciência, em que aborda as questões existentes entre a relação dos conceitos filosóficos de mundo e de vida, constituindo-se dos fatores religiosos herdados e da investigação científica. A sua abordagem religiosa trata do Cristianismo e da Igreja Católica que teve procedência da histórica judaica, na teologia grega e no governo romano. Essa religião foi confrontada com a Reforma Protestante que se inseriu na atenuação dos elementos gregos, com rejeição aos elementos romanos e fortalecimento da doutrina judaica. Assim, de forma mais aprofundada, as conduções dadas pelo autor para os aspectos religiosos estão consignados entre as opções de crença e de submissão adotada pelo ser humano. A liberdade humana é condicionada à dogmática religiosa e esses aspectos estão no âmbito da verdade, do definitivo e daquilo que cada um se identifica segundo sua própria crença. A teologia, por isso, atende aos anseios e desejos daqueles que professam ou comungam uma crença dogmática, com a exigência da obediência a uma entidade superior e que deve ser cumprida por todo ser humano. Trata-se, portanto, para o autor, de que o pensamento religioso se desenvolve a partir de especulações que se firmam no campo da admissão sobrenatural e na condução dada pelos defensores do Criacionismo. A religião, pelo visto, se funda na obediência ao ditame professado e comungado que sujeita a condição humana entre os fiéis que a cultivam e os infiéis que se encontram fora da seara, considerando que a melhoria de vida só será alcançada dentro das fileiras da fé e da resignação. A ciência, por sua vez, atua na busca do conhecimento de forma empírica e demonstrável adotando a racionalidade e a experimentação como busca para sua concreção. No âmbito da ciência a prática da investigação e do pragmatismo torna imprescindível o confronto, o debate, a aferição, a revisão e a discussão, utilizando-se de tecnologias e laboratórios para a constatação da realidade encontrada e confirmação do fenômeno obtido. Os resultados dessas experiências científicas passam a formar os paradigmas que deverão ser seguidos, bem como pela disciplina metodológica e pela constante necessidade de constatação, coibindo a contemplação e exigindo profundidade disciplinar por meio de métodos reconhecidos, para que se torne uma verdade. Em vista disso, só será considerado cientifico aquilo que passar pelos padrões e normas dos métodos para que seja admitido como uma verdade encontrada, até que outro método e outra abordagem superem as teses anteriores e obtenha supremacia até que seja confrontada por mais outra futura. Assim, se a religião se apóia na fé e a ciência na experimentação constante, fica demonstrado o campo de conflito entre ambas e que, por isso, se distinguem por possuírem objetos e campos distintos. Já a filosofia que teve uma trajetória que se distingue da religião e da ciência, tendo seu nascimento na Grécia e atravessando períodos que esteve ora aliada à religião e, posteriormente, associando-se à ciência, tem, na abordagem do autor que essa trajetória entre a filosofia e a subjetividade religiosa, ora retornando às questões sociais e adotando estudos e interpretações científicas para entendimento da realidade humana, tem formado uma condução independente e evolutiva da filosofia sobre a ciência e a religião. A filosofia, antecedente tanto da religião como da ciência, se desenvolve pela contemplação, pelo debate, pelo raciocínio e pela constatação apreendida dos fenômenos naturais e sociais, desenvolvendo-se no aprofundamento das questões que envolvem a vida e tudo inerente ao ser humano. Como a filosofia se manifesta na contemplação e na liberdade, por isso mesmo, segundo Russel, é que se destaca o valor da filosofia por não ser atingida pela ciência com seu rigor de desenvolvimento, nem tem sua liberdade suprimida como na religião, porque permite sua prática sem exigência disciplinar e sem ter que seguir um dogma. Esse é o principal atributo da filosofia destacado por Bertrand Russel que deixa como conclusão que a filosofia transita livre e independente entre a teologia e a ciência. Veja mais aqui e aqui.

HISTÓRIA DAS CEM CABEÇAS CORTADAS E DA FILHA DO SULTÃO - Na coletânea Contos árabes (Cultrix, 1962), organizada por Jamil Almansur Haddad, encontrei entre os contos de Magreb – histórias populares contadas nas praças da região compreendida entre Marrocos, Argélia e Tunísia -, a História das cem cabeças cortadas e da filha do sultão, da qual destaco os trechos a seguir: Era uma vez um sultão que tinha só uma filha que ele amava mais do que tudo no mundo e satisfazia-lhe todos os caprichos. Um dia a jovem procurou seu pai e lhe disse: “Eu me aborreço em teu palácio, em meio a tuas mulheres e teus escravos. Irei passear a cavalo em teu reino, e, como não amo andar só, peço-te quarenta companheiras, todas virgens como eu e que saibam montar a cavalo”. E o sultão, que javam achava ridículos os pedidos da filha, fez anunciar entre todas as tribos que cada uma teria que fornecer uma virgem montada num cavalo soberbamente ajaezado. E em pouco tempo, as quarenta jovens foram levadas ao Dar el-Makhzen pelos velhos de cada cabila. Estes mal ousaram perguntar ao sultão para que pretendia essas quarenta virgens, tanto estavam habituados a obedecer os seus menores desejos. O sultão fez então chamar sua filha e lhe disse: “Eis ai tuas quarenta companheiras”. E a jovem, saltando sobre o cavalo, partiu a galope à frente das quarenta jovens que, também montadas, a seguiram. E durante dias e dias as jovens galoparam pelas grandes planícies, atravessaram ribeiros, as florestas e, quando a filha do sultão folgouo suficiente, voltaram todas ao palácio. [...] Então chamou sua filha e lhe disse: “Eis o que acaba de acontecer. Devolvi as quarentas virgens e vou fazer-te casar”. Mas a jovem, que ainda não queria se casar, disse ao pai: “Só me casarei com aquele que me vencer na luta”. O pai, como fazia sempre, cedeu às suas exigências e fez publicar em todos os seus domínios que daria sua filha em casamento ao hovem que a venecesse na luta, e que seria feito seu herdeiro no trono. Em todas as tribos, os jovens corajosos, ouvindo o que gritava o pregoeiro público, pensaram: “Serei o marido da filha do sultão e herdarei seu trono”. [...] a jovem filha do sultão era muito valente e derrotou o cavaleiro e com seu sabre cortou-lhe a cabeça, que foi suspensa à porta do palácio [...] a vitória sorria sempre à corajosa moça e logo teve ela cem cabeça cortadas, suspensas à porta do palácio, que diziam bem do valor da jovem virgem. Na tarde do centésimo combate, um pastor tinhoso e disforme voltou para o douar todo triste e a face transtornada [...] Nesse momento, a bela e orgulhosa virgem chegava, o sabre à mão, galopava seu cavalo toda feliz de ter de combater com um novo jovem. Mas seus olhos se cruzaram e ela foi vencida por esse olhar. Ela se atirou ao chão, diante do seu senhor e lhe disse: “Eu me rendo, tu és o meu senhor e meu esposo”. E todos os dois proclamaram seu amor. A jovem voltou para o pai e disse: “Fui vencida por este belo adolescente, mais belo que os cento e um e mais bravo do que eles todos. Desejo-o por marido”. Como o jovem vinha buscar o preço da sua vitória, o sultão não o recebeu e adiou a audiência para o dia seguinte. Ele não queria casar sua filha apesar da sua promessa, e como havia justamente uma escrava que estaria para morrer, ele esperou que ela morresse, e no dia seguinte informou que sua filja estava morta. O belo adolescente não caiu na armadilha. Chegada a tarde foi escavar a tumba e descobriu o subterfúgio. Ele não se deu por vencido e apresentou-se à audiência publica e pediu a filha em casamento. E como o sultão lhe dissesse que a filha estava morte e enterrada e que toda a sua casa estava de luto, provou que sua filha vivia e que uma escrava é que tinha morrido. O sultão foi obrigado a consentir no casamento desses dois valentes e as festas foram as mais belas e mais suntuosas que jamais houve. E a jovem virgem, de coração valente, teve assim o marido que a vencera. Veja mais aqui e aqui.

SER MULHER, CANÇÃO MUITO CURTA & NOTA SOCIAL – Na obra da escritora, dramaturga e crítica estadunidense Dorothy Parker (1893-1967), destaco inicialmente o seu poema Ser Mulher, na tradução de Angela Carneiro: Por que será que quando estou em Roma daria tudo para estar em casa na redoma mas se estou na minha terra americana minha alma deseja a cidade italiana? E quando com você, meu amor, meu remédio, fico espetacularmente cheia de tédio Mas se você se levantar e me deixar Grito para você voltar? Também o seu poema Canção Muito Curta: Certa vez, na juventude, / Feriram meu coração — / Feriram de forma rude / E o jogaram ao chão. / Amor é lenda sem sorte, / Amor é maldição. / Pior que isso só o porte / De meu coração. Por fim, o poema Nota Social: Moça, moça, se encontrar / Um que não dá o que falar, / Um que diz que sua esposa / É o amor da vida toda, / Um que vive te jurando / Que foi fiel, foi um santo / E só tem olhos pra você... / Moça, moça, é bom correr! Veja mais aqui.

DANÇATERAPIA – O livro Dançaterapia (Summus, 1988), de María Fuz, aborda temas como o que é o silêncio, dançaterapia para o deficiente auditivo, a importância da linha e da cor para o deficiente auditivo, experiência numa escola para deficientes auditivos, a música como elemento movilizador para a expressão do corpo, o que é o ritmo interno, as palvras mães, a cor na mobilização sensível do corpo, experiência no Hospital Ferrer com doentes de poliomielite, uma menina queimada, experiência com cegos, experiência frustrante com uma menina autista surda, o silêncio da dança, grupo de mães e filhas, caminhos para o encontro com a dançaterapia, entre outros assuntos. Do livro destaco o trecho: [...] O que é necessário para ser um dançaterapeuta? Vive compreendendo que devemos conhecer nossos limites para ir deslocando-os, para que se organizem e com nossos não posso ir ao encontro dos sim, posso que surgem em nós quando nos enfrentamos com alguém que necessita de nossa experiência no movimento. Há mais de trinta anos trato de conhecer-me e, através de mim, conhecer o outro, e se diariamente, conhecendo meus limites, vou-me transformando, o outro também o fará, não apenas psiquicamente, mas também corporalmente. Vendo como crescem esses seres que chegaram até mim, como necessitam de mim e eu, deles, como recebem e reconhecem a música e as palavras, convenço-me de que ao nosso redor existe um fluxo de vida que espe4ra que a compreendamos para poder compreender. Devemos ouvi-los com o ouvido esparramado por todo o nosso corpo, com todos os nossos ritmos, para que possamos nos aproximar da comunicação com o outro. Não há fórmulas que possam criar um dançaterapeita. Este não é um livro de texto, é um livro de experiências. Sem amor, entrega, fé, não há encontro. Veja mais aqui.

TEATRO ESPONTÂNEO E PSICODRAMA – O livro Teatro espontâneo e psicodrama (Ágora, 1998), de Moysés Aguiar, aborda temas como o campo do teatro espontâneo, o papel do diretor, os atores e o protagonista, os auxiliares e a plateia, aquecimento e o caminho da criação, dramaturgia e a produção do texto, encenação e comunicação cênica, a construção da teoria, círculos de giz, o marco teórico, o conceito de co-transferencia, o processamento em psicodrama, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho O teatro espontâneo é uma modalidade de teatro: A afirmação-título pode parecer obvia, mas ela é de fundamenta importância, na medida em que serve de ponto de referência para dirimir muitas dúvidas, tanto na pratica quanto na própria reflexão teórica. Pode-se dizer que a grande pretensão do teatro espontâneo é exatamente sintetizar todas as funções do teatro legítimo, simultaneamente, no momento do espetáculo. Com toda a certeza, um desiderato que representa um gigantesco desafio. [...] No evento teatral, dois elementos são fundamentais, por definição: o palco e a plateia; no palco, atores contam cenicamente histórias que são ouvidas e contempladas pelos espectadores. Há inúmeras formas de articular esses dois elementos, mas nenhuma chega ao ponto de excluir nenhum deles, pois se isso ocorresse o teatro deixaria de ser teatro e passaria a ser alguma outra coisa. Sendo o teatro o lugar onde se vê, é indispensável que existam quem veja e o que seja visto. [...] Para que o teatro espontâneo possa realmente inserir-se no campo do teatro, essas características precisam ser observadas. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

KUARUP – O drama Kuarup (1989), do cineasta brasileiro nascido em Moçambique Ruy Guerra, é baseado na obra Quarup (1967), do jornalista e escritor Antonio Callado (1917-1997), com música de Egberto Gismonti e roteiro do próprio diretor e Rudy Langemann, sobre o sonho de um padre que deseja reconstituir o Xingu e que toma contato com a sociedade permissiva do sexo livre e das drogas no Rio de Janeiro, bem como com a corrupção política e manipuladora dos dirigentes do SPI, razões pelas quais, mais tarde, após uma série de incursões fracassadas na defesa dos seus interesses, se transforma no apóstolo do amor. O destaque do filme vai para todo elenco maravilhos, especialmente para a atuação da atriz Claudia Raia. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Gravuras do pintor e gravador italiano Agostino Carracci (1557-1602). Veja mais aqui.

Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Noite Romântica, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


segunda-feira, maio 18, 2015

ROGERS, RUSSEL, WAKEMAN, HILTON, DELACROIX, CAPRA, PELÉ, MOVIMENTO, ABUSO SEXUAL & LUTA ANTIMANICOMIAL.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? – Tenho estudado e produzido trabalhos acadêmicos nas áreas de Psicologia, Direito e Educação, sobre a temática do Abuso Sexual. Essa prática se realiza por meio de um jogo em que o agente abusador impõe geralmente à criança ou adolescente, por meio de persuasão, indução, ameaça e violência física para prática e satisfação sexuais. Tais práticas são traumáticas, causando danos físicos e psicológicos. Já recolhi diversos depoimentos a respeito, dando conta de que a vítima carrega essa marca por toda vida, desenvolvendo, por consequência, comportamentos patológicos desde a avesão a parceiros, como a promiscuidade e sexualidade descontoladas, entre outros. Curiosamente, a grande maioria dos fatos ocorre dentro do próprio lar da vítima, até com conivência dos genitores. Como em nosso país a prática preventiva é colocada em último lugar e a educação passa por uma calamidade que se soma à nossa tragédia, o abuso sexual se mantém nos altos índices estatísticos. Não se pode aceitar que o Estado e as autoridades continuem omissos em tais casos, precisa-se de participação de cada um para que possamos coibir tal prática. Você também é responsável. E vamos aprumar a conversa aqui, aqui e aqui.

Imagem: Trois etudes pour autoportrait (1976) & Tríptico (1974-77), do artista plástico anglo-irlandês de pintura figurativa Francis Bacon (1909-1992).

Curtindo o álbum conceitual de rock progressivo Criminal Record (1977), do músico e compositor britânico, integrante da banda Yes, Rick Wakeman. Veja mais aqui e aqui.

TORNAR-SE PESSOA – O livro Tornar-se pessoa (Martins Fontes, 2007), do psicólogo norte-americano e criador da abordagem psicoterapeuta Terapia Centrada na Pessoa, Carl Ransom Rogers (1902-1987), aborda temas como algumas hipóteses com relação à facilitação do cres cimento pessoal, as características de uma relação de ajuda, o que se sabe da psicoterapia objetiva e subjetivamente, o processo de tornar-se pessoa, as ciências do comportamento e a pessoa, o poder crescente das ciências comportamentais, uma filosofia da pessoa, o lugar do indivíduo no mundo novo das ciências do comportamento, uma teoria da criatividade, entre outros assuntos. Da obra destaco o seguinte trecho: [...] Como poderei ajudar os outros? Por mais de vinte e cinco anos venho tentando responder a esse tipo de desafio. Isso fez com que recorresse a todos os elementos de minha formação profissional: os rigorosos métodos de medição de personalidade que aprendi pela primeira vez no Teacher’s Coliege, Colúmbia; os insights e métodos psicanalíticos freudianos do Instituto para Orientação da Criança, onde trabalhei como interno; os desenvolvimentos contínuos na área de psicologia clínica, com a qual estou estreitamente associado; a exposição mais breve ao trabalho de Otto Rank, aos métodos de trabalho social psiquiátrico, e outros recursos demasiado numerosos para serem mencionados. Porém, mais do que tudo, isto significou um aprendizado contínuo a partir de minhas próprias experiências e daquela de meus colegas do Centro de Aconselhamento, à medida que tentamos descobrir por nós mesmos meios eficazes de trabalhar com pessoas perturbadas. Gradualmente, desenvolvi uma maneira de trabalhar que se origina dessa experiência, e que pode ser testada, refinada e remodelada por experiências e pesquisas adicionais. Uma hipótese geral: Uma maneira breve de descrever a mudança que se efetuou em mim seria dizer que nos primeiros anos de minha carreira profissional eu me fazia a pergunta: Como posso tratar ou curar, ou mudar essa pessoa? Agora eu enunciaria a questão desta maneira: Como posso proporcionar uma relação que essa pessoa possa utilizar para seu próprio crescimento pessoal? Foi quando cheguei a colocar a questão desta segunda maneira que percebi que o que quer que tenha aprendido é aplicável a todos às minhas relações humanas, não só ao trabalho com clientes com problemas. É por esta razão que sinto ser possível que os aprendizados que tiveram significado para mim em minha experiência podem ter algum significado para você em sua experiência, já que todos nós estamos envolvidos em relações humanas. Talvez devesse começar por um aprendizado negativo. Fui me dando conta de maneira gradual de que não posso oferecer ajuda a esta pessoa perturbada por meio de qualquer procedimento intelectual ou de treinamento. Nenhuma abordagem que se baseie no conhecimento, no treinamento, na aceitação de algo que é ensinado, se mostra útil. Estas abordagens parecem tão tentadoras e diretas que, no passado, fiz uso de muitas delas. É possível explicar uma pessoa a si mesma, prescrever passos que devem conduzi-la para frente, treiná-la em conhecimentos sobre um modo de vida mais satisfatório. Porém tais métodos se mostram, em minha experiência, fúteis e inconsequentes. O máximo que podem alcançar é alguma mudança temporária, que logo desaparece, deixando o indivíduo mais do que nunca convencido de sua inadequação. O fracasso de quaisquer destas abordagens através do intelecto me forçou a reconhecer que a mudança parece surgir por meio da experiência em uma relação. Dessa forma, estou tentando afirmar de forma muito breve e informal, algumas das hipóteses essenciais relativas a uma relação de ajuda que pareceu angariar confirmação crescente tanto a partir de experiência quanto de pesquisa. Posso enunciar a hipótese geral em uma sentença, como se segue. Se posso proporcionar um certo tipo de relação, a outra pessoa descobrirá dentro de si a capacidade de utilizar esta relação para crescer, e mudança e desenvolvimento pessoal ocorrerão. A relação: Mas o que estes termos significam? Deixe-me tomar separadamente as três frases principais nesta sentença e indicar algo do significado que elas encerram para mim. Qual é esse certo tipo de relação que gostaria de proporcionar? Descobri que quanto mais conseguir ser genuíno na relação, mais útil esta será. Isso significa que devo estar consciente de meus próprios sentimentos, o mais que puder, ao invés de apresentar uma fachada externa de uma atitude, ao mesmo tempo em que mantenho uma outra atitude em um nível mais profundo ou inconsciente. Ser genuíno também envolve a disposição para ser e expressar, em minhas palavras e em meu comportamento, os vários sentimentos e atitudes que existem em mim. É somente dessa maneira que o relacionamento pode ter realidade, e realidade parece ser profundamente importante como uma primeira condição. É somente ao apresentar a realidade genuína que está em mim, que a outra pessoa pode procurar pela realidade em si com êxito. Descobri que isto é verdade mesmo quando as atitudes que sinto não são atitudes com as quais estou satisfeito, ou atitudes que parecem conducentes a uma boa relação. Parece extremamente importante ser real. Como uma segunda condição, acho que quanto mais aceitação e apreço sinto com relação a esse indivíduo, mais estarei criando uma relação que ele poderá utilizar. Por aceitação, quero dizer uma consideração afetuosa por ele enquanto uma pessoa de autovalia incondicional —de valor, independente de sua condição, de seu comportamento ou de seus sentimentos. Significa um respeito e apreço por ele como uma pessoa separada, um desejo de que ele possua seus próprios sentimentos à sua própria maneira. Significa uma aceitação de suas atitudes no momento ou consideração pelas mesmas, independente de quão negativas ou positivas elas sejam, ou de quanto elas possam contradizer outras atitudes que ele sustinha no passado. Essa aceitação de cada aspecto flutuante desta outra pessoa constitui para ela uma relação de afeição e segurança, e a segurança de ser querido e prezado como uma pessoa parece ser um elemento sumamente importante em uma relação de ajuda. Também acho que a relação é significativa na medida em que sinto um desejo contínuo de compreender —uma empatia sensível com cada um dos sentimentos e comunicações do cliente como estes lhe parecem no momento. Aceitação não significa muito até que esta envolva a compreensão. É somente à medida que compreendo os sentimentos e pensamentos Como poderei ajudar os outros? que parecem tão terríveis para você, ou tão fracos, ou tão sentimentais, ou tão bizarros —é somente quando eu os vejo como você os vê, e os aceito como a você, que você se sente realmente livre para explorar todos os cantos recônditos e fendas assustadoras de sua experiência interior e freqüentemente enterrada. Essa liberdade constitui uma condição importante da relação. Aqui está implicada uma liberdade para explorar a si próprio tanto com níveis conscientes quanto inconscientes, o mais rápido que se puder embarcar nessa busca perigosa. Há também uma liberdade completa de qualquer tipo de avaliação moral ou diagnóstica, já que todas estas avaliações são, a meu ver, sempre ameaçadoras. Dessa forma, a relação que considerei útil é caracterizada por um tipo de transparência de minha parte, onde meus sentimentos reais se mostram evidentes; por uma aceitação desta outra pessoa como uma pessoa separada com valor por seu próprio mérito; e por uma compreensão empática profunda que me possibilita ver seu mundo particular através de seus olhos. Quando essas condições são alcançadas, torno-me uma companhia para o meu cliente, acompanhando-o nessa busca assustadora de si mesmo, onde ele agora se sente livre para ingressar. Nem sempre sou capaz de alcançar esse tipo de relacionamento com o outro, e algumas vezes, mesmo quando sinto tê-lo alcançado em mim mesmo, a outra pessoa pode estar demasiado assustada para perceber o que lhe está sendo oferecido. Mas eu diria que quando sustenho em mim o tipo de atitude que descrevi, e quando a outra pessoa pode até certo grau vivenciar estas atitudes, então eu acredito que a mudança e o desenvolvimento pessoal construtivo ocorrerão invariavelmente e eu incluo a palavra “invariavelmente” apenas após longa e cuidadosa consideração. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

PORQUE NÃO SOU CRISTÃO – O livro Porque não sou cristão e outros ensaios sobre religião e assuntos correlatos (Exposiçaõ do Livro, 1972), do filósofo e matemático britânico Bertrand Russel (1872-1970), trata sobre análise das contribuições úteis da religião à civilização, sobrevivência à morte, céticos católicos e protestantes, a vida na Idade Média, o destino de Thomas Paine, a ética sexual, a liberdade e os Colleges, a existência de Deus, o poder da religião na cura das preocupações humanas, religião e moral, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: [...] Multa gente nos diz que sem crença em Deus o homem não poderá ser feliz nem virtuoso. Quanto à virtude, posso apenas falar por observação, e não por experiência pessoal. Quanto à felicidade, nem a experiência, nem a observação, me levaram a pensar que os crentes são mais felizes ou infelizes, em média, do que os que não crêem. Costuma-se encontrar “grandes” razões para a infelicidade, porque é mais fácil à gente sentir-se orgulhoso de poder atribuir a própria miséria à falta de fé do que colocar a razão disso em nosso próprio fígado. Quanto ao que concerne à moralidade, depende muito de como se compreende esse termo. De minha parte, penso que as virtudes importantes são a bondade e a inteligência. A inteligência encontra obstáculo em qualquer credo, não importa qual – e a bondade é inibida pela crença no pecado e castigo (crença que, digase de passagem, é a única que o governo soviético tomou do cristianismo ortodoxo). Há, na prática, vários modos pelos quais a moralidade tradicional interfere com o que é socialmente desejável. Um deles, é a prevenção das doenças venéreas. Mais importante é a limitação da população. Progressos verificados na medicina tomaram este assunto muito mais importante do que jamais o foi antes. Se as nações e as raças que ainda são tão prolíficas como eram os ingleses de há cem anos não mudarem seus hábitos a este respeito, não há esperança alguma para a humanidade, exceto guerra e miséria. Todo estudante inteligente sabe disso, mas não o reconhecem os teólogos dogmáticos. Não creio que uma decadência da crença dogmática possa produzir outra coisa senão o bem. Apresso-me a admitir que os novos sistemas de dogmas, tais como os dos nazistas e dos comunistas, são ainda piores do que os velhos sistemas, mas jamais teriam podido dominar o espírito dos homens, se hábitos dogmáticos ortodoxos não tivessem sido instilados na juventude. A linguagem de Stalin é cheia de reminiscências do seminário teológico em que ele foi educado. O que o mundo precisa não é de dogma, mas de uma atitude de investigação científica, aliada à crença de que a tortura de milhões de indivíduos não é coisa desejável, quer seja infligida por Stalin ou por uma Deidade imaginada à semelhança daquele que acredita. Veja mais aqui.

MEDEIA – Imagem Medeia, do pintor do Romantismo francês Eugène Delacroix (1798-1863). A tragédia Medeia, do poeta trágico grego Eurípedes (480-406aC), conta o drama de uma mulher que deixou tudo para trás, sua pátria e família para seguir ao lado de um grande amor, até ser traída por ele. Jasão, líder dos argonautas, parte para Cólquida em busca do Velocino de Ouro, missão que lhe é imposta para que consiga retomar o trono de Iolco. No caminho conhece e se apaixona por Medéia que, embora filha de rei, ela usa seus poderes de feiticeira para ajudar Jasão a vencer os obstáculos impostos por seu pai. Saem vitoriosos, porém Medéia é traída pelo marido que a abandona para se casar com a filha do rei Creonte. Injustiçada e furiosa, a feiticeira não poupa esforços para vingar-se de Jasão. Mata os filhos que teve com o marido e lança sobre ele terrível maldição. Da obra destaco o trecho: [...] MEDEIA - Ó Zeus, ó Justiça, filha de Zeus, e luz do Sol68, vitoriosos estamos agora, ó amigas, sobre os nossos inimigos, e entramos já no caminho. Agora há esperança de fazer justiça sobre os nossos inimigos. Porque este homem, quando penávamos na maior aflição, apareceu como um porto de abrigo das minhas decisões. A eles prenderemos as amarras da popa69, dirigindo-nos para a fortaleza e cidade de Palas. Os meus planos, já tos vou dizer todos. Mas não recebas as minhas palavras a título de deleite. A Jasão alguém mandarei, dentre os meus servidores, pedindo-lhe que compareça à minha presença. E, quando ele chegar, dir-lhe-ei palavras brandas, de como também eu sou desse parecer, que estão bem as núpcias reais, que traindo-me, ele celebra, e que belo é o partido e bem calculado. Pedirei que os meus filhos fiquem , não para os deixar em terra hostil, a fim de serem mal tratados pelos inimigos, mas para tratar ardilosamente a filha do rei. Mandálos-ei então com presentes nas mãos71, um peplos sutil e uma coroa de ouro lavrado. E quando ela pegar nesses enfeites e os cingir ao seu corpo, terá uma morte horrorosa, assim como todo aquele que tocar na donzela. Tais serão os venenos com que eu hei de ungir os presentes. Mas neste ponto eu suspendo as minhas palavras. Gemo ao pensar na ação que em seguida tenho de praticar. Porque eu vou matar os meus filhos. Não há quem os possa livrar. E, depois de ter derrubado toda a casa de Jasão, saio do país, fugindo do assassínio dos meus filhos adorados, eu, que ousei a mais ímpia das ações. É que não se pode tolerar que os inimigos escarneçam de nós, ó amigas. Vamos. De que me vale viver? não tenho pátria, não tenho casa, não tenho refúgio para esta calamidade. Errei uma vez, quando abandonei a casa paterna, confiada nas palavras de um grego, que, com a ajuda do deus, sofrerá a nossa justiça. Porque não tornará a ver com vida, daqui por diante, os filhos que de mim teve, nem gerará nenhum da noiva recém casada, porque será forçoso que essa má tenha má sorte com os meus venenos. Ninguém me suponha fraca ou débil, nem sossegada; outro é o meu caráter: dura para os inimigos, benévola para os amigos. Porque de tais pessoas a vida é gloriosíssima [...] Veja mais aqui e aqui.  

CASA PELÉ – Acontecerá entre os dias 18 e 23 de maio, em Três Corações (MG), a 13ª Semana Nacional de Museus - 2015, na Casa Pelé, sobre o tema deste ano será “Museus para uma sociedade sustentável”. Trata-se de uma promoção do Instituto Brasileiro de Museus/IBRAM, para comemorar o Dia Internacional de Museus (18 de maio), ocasião em que museus, Casas de Cultura e Centros Culturais, convidados pelo instituto desenvolvem programação especial alusiva à data. Confira detalhes aqui.

HORIZONTE PERDIDO – O livro Horizonte perdido (Lost Horizont, 1933), do escritor britânico James Hilton (1900-1954), conta a história de um grupo de pesoas que, fugindo da guerra, é sequestrado para uma longínqua montanha do Tibete, Shangri-lá. De acesso quase impossível para quem não conhecesse perfeitamente o caminho, as pessoas, que lá chegavam não tinham a mínimia possibilidade de voltar. Foram maravilhosamente recebidos, mas na realidade estavam prisioneiros. Na pequena aldeia havia um mosteiro, fundado por um francês. E, como os que lá habitavam tinham uma vida muito longa, ele ainda era o Lama Superior. Pressentindo que seu fim se aproximava, escolhera o líder do grupo sequestrado para ser seu sucessor. Mas este se vê forçado a levar seus companheiros de volta. Da obra destaco o trecho: [...] Falamos por algum tempo sobre a guerra e seus efeitos em diversas pessoas, e finalmente ele continuou: — Mas há ainda um pormenor a que devo referirme... e talvez, em muitos sentidos, o mais estranho de todos. Veio-me ao conhecimento quando fazia indagações no hospital da missão. Todos fizeram o possível para me auxiliar, como deve supor, mas não podiam recordar muita coisa, sobretudo porque naquela ocasião tinham estado muito ocupados com uma febre epidêmica. Uma das questões que procurei esclarecer desde logo foi o modo como Conway havia chegado ao hospital — se se apresentara por si mesmo ou se, tendo sido encontrado doente, fora trazido ali por alguma pessoa. Não se lembravam bem — afinal de contas, fazia tanto tempo! —, mas de repente, quando eu já ia desistir do interrogatório, uma das freiras observou incidentalmente que "parecia ter ouvido do doutor que ele fora trazido por uma mulher". Era tudo o que me podia dizer, e como o doutor já houvesse deixado a missão, nenhuma confirmação era possível obter no momento. Mas, tendo eu já chegado tão longe, é claro que não estava disposto a suspender minhas investigações. Soube que esse doutor se transferira para um hospital mais importante, em Xangai, de modo que me informei sobre o seu endereço e fui até lá, na intenção de me avistar com ele. Foi logo depois dos reides aéreos dos japoneses e o aspecto da cidade era sinistro. Já conhecia esse médico, com quem travara relações durante minha primeira visita a Chung-Kiang. Foi muito polido, mas naquele momento estava terrivelmente ocupado — sim, terrivelmente é a palavra porque, acredite-me, os vôos dos alemães sobre Londres nada foram, comparados com o que os nipônicos fizeram nas zonas nativas de Xangai. "'Oh! sim', disse sem hesitar, 'lembro-me do caso daquele inglês que perdeu a memória". 'É verdade que ele foi trazido ao hospital da missão por uma mulher?', perguntei. 'Sim, sim, por uma mulher, uma chinesa.' 'Lembra-se de alguma coisa a respeito dela?' 'Nada', respondeu, 'salvo que la também estava atacada de febre e veio a morrer quase em seguida..."Nesse instante houve uma interrupção. Trouxeram um grupo de feridos e as padiolas atravancaram os corredores, pois as enfermarias já estavam repletas. Eu não podia tomar o tempo do homem, tanto mais que troavam os canhões em Woosung, advertindo-lhe que teria ainda muito que fazer. Quando voltou para junto de mim, com uma expressão animada apesar de todos aqueles horrores, só lhe fiz uma derradeira pergunta, que você com certeza adivinha qual fosse. " 'E essa mulher chinesa', disse eu, 'era jovem?' " Rutherford sacudiu nervosamente as cinzas do charuto, como se a narrativa o tivesse excitado tanto quanto esperava fazê-lo a mim. Depois continuou: — O doutorzinho olhou-me por um momento com ar solene e então respondeu, nesse inglês comicamente truncado que os chineses educados usam: " 'Oh! não, ela era muito velha, a mulher mais velha que vi até hoje.' [...] Foi adaptado para o cinema em 1937, pelo cineasta italiano Frank Capra (1897-1991), premiado com o Oscar (1938). Veja mais aqui.
  
IMAGEM DO DIA
Imagem do periódico Movimento que circulou entre os anos de 1975-1981, com o seu conselho editorial formado por Hermilo Borba Filho, Chico Buarque, Alencar Furtado, Orlando Villas-Boas, Audálio Dantas, Edgar da Mata Machado e Fernando Henrique Cardoso.


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Matizes, a poesia de Luís Vaz de Camões, a literatura de Jean de La Fontaine, O cartesianismo científico de Paulo Cesar Sandler, A lenda do Cavalo sem cabeça de Luís da Câmara Cascudo, Hécuba de Eurípedes, a música de Villa-Lobos & Celine Imbert, Clítia & a escultura de Hiram Powers, a arte de Esther Góes, o cinema de Woody Allen, Tiradas do Doro, a pintura de Hans Hassenteufel & Gustave Courbet aqui.
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