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quarta-feira, julho 22, 2020

MARÍA ZAMBRANO, MERCEDES BAPTISTA, FLÁVIA PINHEIRO & A LUA NÃO PODE SER ROUBADA



DIÁRIO DE QUARENTENA – UM DIA & OUTRO, PARA ONDE... – Ruas que me levam, calçadas, estradas, caminhos. Não sei para onde vão, como se eu tão em vão tivesse para onde ir depois de tantos destinos idos e vindos. Já não sei mais. Hoje é como se encontrasse Carl Sandburg para me dizer: Não sei aonde vou, mas já estou a caminho. Para minha surpresa ele ainda poetaria: O tempo é a moeda da sua vida. É a única moeda que você tem, e somente você pode determinar como ela será gasta. Tome cuidado para não deixar que outras pessoas a gastem por você. Tenho apenas a luz do dia e a escuridão da noite, nada mais, vou terrares, voos para onde.

DUAS TIRADAS & UMA SÓ – Nestes tempos tão adversos, a revelação da tragédia. Confesso, jamais poderia sequer imaginar haver quem pudesse professar o umbigo do bloco do eu sozinho no maior acinte de terraplanista e carteirada negacionista com outros insultos preconceituosos e discriminatórios, nunca! Agora que saquei aquela do Florestan Fernandes: Um povo educado não aceitaria as condições de miséria e desemprego como as que temos. Contra as ideias da força, a força das ideias! Contudo, olhos arregalados: o inadmissível não é flagrado cometido por incultos ou pobretões – esses são coagidos e punidos severamente mesmo que nada devam, quando não recolhidos a um infecto amontoado nos presídios. Muito pelo contrário, são praticados por impunes e execráveis autoridades e ricaços que sob seu poder aviltam, sonegam, agridem e pisoteiam quem lhe aparecer pela frente, fardados ou sem. Quem o exemplo, incabível; o Brasil se dissolve e o complexo de vira-latas se avoluma inconcebível. Lembrei aquela do Manuel Puig: Esta vida é um sonho, o verdadeiro despertar é a morte que a todos torna iguais. Não, aqui não é um sonho, pesadelo que se desenrola já alguns anos e muitos sequer deram conta ainda da calamidade agora em dose dupla.

TRÊS TONS A MAIS & UMA CANÇÃO, ARDÊNCIA – O dedilhado do violão era o verão incendiando o peito fronteira afora, labaredas inextinguíveis da paixão. Acordes diminutos, bemóis e sustenidos de tons maiores ou menores, harmonia para uma melodia das entranhas. Era dela a inspiração com seu sorriso de Sol para iluminar minha vida e em minhas mãos o seu corpo para compor poemas capazes de celebrar o amor em toda sua dimensão e uma canção para eternizá-lo. Até amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Apesar do fato de que em alguns mortais de sorte, poesia e pensamento têm, poderia ter ocorrido ao mesmo tempo e em paralelo, apesar de em outros. Felizmente, poesia e pensamento poderiam ter se tornado um expressivamente, a verdade é que pensamento e poesia enfrentam todos em toda a nossa cultura. [...] E assim vemos mais claramente a condição da filosofia: admiração, sim, espanto. antes do imediato, para começar violentamente a partir dele e lançar em outra coisa, algo que deve ser buscado e perseguido, que não é dado a nós, que não revela sua presença. Trechos extraídos da obra Filosofía y poesia (México: Fondo de Cultura Económica, 2006), da filósofa e escritora espanhola María Zambrano (1904-1991), que expressa em seu pensamento que: O próprio do homem é abrir caminho, porque, ao fazê-lo, põe em exercício o seu ser; o próprio homem é caminho.

A LUA NÃO PODE SER ROUBADA
Ryokan, um mestre Zen, vivia o tipo mais simples possível de vida em uma pequena cabana no sopé de uma montanha. Uma noite, um ladrão visitou a cabana e surpreendeu-se ao descobrir que não havia nada nela para ser roubado. Ryokan voltou e o pegou. “Você provavelmente veio de longe para me visitar”, disse ele ao gatuno, “e você não deve voltar com as mãos vazias. Por favor, tome minhas roupas como um presente”. O ladrão ficou completamente desnorteado. Ele pegou as roupas e escapuliu. Ryokan sentou-se nu, observando a lua. “Pobre rapaz”, ele pensou, “eu gostaria de poder ter dado a ele esta bela lua.
HISTÓRIAS ZEN – Relato extraído da obra Histórias zen: uma coleção de escritos zen e pré-zen (Teosófica, 1999), compilada por Paul Reps e traduzida por Pedro Oliveira. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da bailarina e coreógrafa Mercedes Baptista (1921-2014), a primeira afrodescendente a integrar o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, responsável pela criação do balé afro-brasileiro, inspirado nos terreorps de candomblé, elaborando uma codificação e vocabulário próprio para essas danças. Sobre ela a obra Mercedes Baptista: a criação da identidade negra na dança (Fundação Cultural Palmares, 2007), de Paulo Melgaço e o documentário
Balé de Pé no Chão – A dança afro de Mercedes Baptista (2007), dirigido por Lílian Sola Santiago e Marianna Monteiro, afora a escultura elaborada por Mario Pitanguy. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCULTURARTES
A arte da performer, bailarina e coreógrafa Flávia Pinheiro.
&
O arranha-céu e outros poemas, do poeta, jornalista, professor e crítico literário Cesar Leal (1924-2013) aqui.
Letrados e ufanos: história do Club Litterario de Palmares (1882-1910), do historiador, poeta e professor Vilmar Antonio Carvalho aqui.
A música da Brasília Popular Orquestra (BRAPO), do maestro e professor palmarense da Escola de Música de Brasília, Manoel Carvalho aqui.
A arte de Cícero Santos aqui.
Porque era sábado no Una aqui.
&
O município de Pesqueira aqui & aqui.


quarta-feira, janeiro 06, 2016

ARDÊNCIA, LACAN, PITÁGORAS, LATORRE, LAFORGUE, NINA KOZORIZ, RACHEL LEVKOVITS & MUITO MAIS!!!!


CRÔNICA DE AMOR POR ELA: ARDÊNCIA (Imagem: arte de Meimei Corrêa) Ela chegou com todo o verão: um calor de dezembro de elevadíssimos graus a incendiar minhas noites de frio e a promessa de um amor vivo além de todas as fronteiras. E me trouxe seus olhos ternos para que eu enxergasse a vida e todas as coisas no meio das labaredas de seu fogo inextinguível a me convidar pra vida por todos os meios de existir. E a sua boca de sol para iluminar meus caminhos com versos de fêmea que sabe o amor e eu a vi e supus que se fizesse viola para eu compor poemas e canções entre os relâmpagos etéreos da sua apaixonante criatura. E os seus seios macios dos mais ternos sentimentos pro meu abrigo e a cuidar do meu descuidado jeito doido varrido de não temer as hostilidades alheias, acalentando meus murmúrios e acariciando com a sua delicadeza e ternura o meu coração atormentado de desespero. E me deu seu sorriso enluarado com o brilho de todas as estrelas no céu para iluminar minhas noites de completa solidão. E me ensinou o outono com o sal de sua pele a me dar a face da felicidade com todos os pomares de sua vitalidade maternal. E me abrigou do inverno para que eu não tenha mais que cair da minha sazonal sorte e despencar pelos tropeços das desgraças. E me trouxe a primavera com toda pujança do seu encanto e com todo gracejo a morrer de rir com minhas besteiras exaltadas de meter as mãos pelas pernas errando de tudo até de mim quando sou mais que nada na ausência de tudo. E me fez amar essa parte de Deus que ela é num pedaço de vida maior que o universo e senti-la porta aberta no frescor do vento com seus preparativos diligentes para o amor. E seguimos juntos por todas as nascentes para revirar céus e terras no entusiasmo da minha incompletude e a me embriagar com os festejos de sua plenitude a me falar das coisas de hoje e amanhã adoçando as amarguras das minhas mais insossas desventuras. E meu corpo passou a viver sua vida. E minhas mãos a guardar os seus seios e a procurar a formosura do seu ventre para me banhar são e salvo de todos os males. E a sua entrega altruísta me fez poeta no meio de nossas noites e dias imorais, a recitar poemas aos nossos fogosos prazeres dos desejos mais intensos de dois amantes, a fazer uma canção para quem ama de verdade. Assim foi e será: dos dois, uma só vida. (Luiz Alberto Machado. Veja mais aquiaqui e aqui).

PICADINHO


Imagem: a arte do pintor, ilustrador e escultor francês Gustave Doré (1832-1883). Veja mais aqui.

Curtindo o Concerto nº 1 in G minor Op. 26 (1865-1867), do compositor alemão Max Bruch (1838-1920), ao violino de Chloe Hanslip & a London Symphony Orchestra.

EPÍGRAFE - Ex digito gigas, expressão atribuída ao filósofo grego Pitágoras nos registros de Plutarco, significando que pelo dedo se conhece o gigante, ou seja, por um ato, ou por uma atitude, pode-se formar uma ideia do caráter de uma pessoa. Veja mais aqui e aqui.

ESTÁDIO DO ESPELHO – No livro Percursos de Lacan (Zahar, 1987), Jacques-Alain Miller fala a respeito do estádio do espelho de Jacques Lacan: Que é o estádio do espelho? Resume-se no interesse lúdico que a criança dá mostras, entre os seis e os dezoito meses, por sua imagem especular, aspecto pelo qual a criança se distingue, certamente, do animal. Reconhece a sua imagem, se interessa por ela, e esse é um fato que, podemos admitir, é observável. Lacan [...] terminou considerando que o essencial não era nem a ideia de estádio, nem a observação. Quis explicar esse interesse singular da criança, e para isso recorreu à teoria de Bolk, segundo a qual o lactente humano é de fato, desde a origem, em seu nascimento, um prematuro, fisiologicamente falando. Por isso está numa situação constitutiva de desamparo; experimenta uma discordância intra-orgânica. Portanto, segundo Lacan, se a criança exulta quando se reconhece em sua forma especular, é porque a completeza da forma se antecipa com relação ao que logrou atingir; a imagem é, sem dúvida, a sua, mas, ao mesmotempo é a de um outro, pois está em déficit com relação a ela. Devido a esse intervalo, a imagem de fato captura a criança – e esta se identifica com ela. Isso levou Lacan à ideia de que a alienação imaginária, quer dizer, o fato de identificar-se com a imagem de um outro, é constitutiva do Eu (moi) no homem, e que o desenvolvimento do ser humano está escandido por identificações ideais. É um desenvolvimento no qual o imaginário está inscrito, e não um puro e simples desenvolvimento fisiológico. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A DESCONHECIDA – No conto A desconhecida (Cultrix, 1962) do escritor chileno Mariano Latorre (1886-1955), destaco o trecho: [...] O jovem sentiu-se repentinamente aliviado. Foi como se sua angustia desaparecesse na onde quente do sangue que voltava a estremecer em suas veias com o rítmico compasso da saúde. Assobiava baixinho uma ária que aparecia, sem saber por que, naquele momento. Tratou em seguida de entabolar conversa com essa mulher que tão inesperadamente se revelara a ele; tentou reconstruir suas feições, o timbre másculo de sua voz o seu rosto como se a tivesse de pé diante dele; e dos fragmentos que pudera colher ou imaginar, nada de concreto tirava. Desprovida de seus atributos materiais, tinha algo de geral, de abstrato, que não conseguia localizar. Às vezes era a recordação de alguma mulher conhecida anteriormente; outras, a de um retrato entrevisto numa vitrina de fotografias ou em revistas. Procurava recordar o sabor daqueles beijos frenéticos que, como uma cuva de fogo, caíram sobre sua boca; e somente podia afirmar que era uma mulher corpulenta de carnes duras e pele áspera, de formas crescidas e uma cabeleira espessa que supôs preta, com um leve cheiro de umidade; lembrou-se depois do sapato sujo que vira à tarde ao sair das termas; e sorriu; eram agora imagens de vida comum, de camponesas retesadas, em seus vestidos de percal e de cachos indômitos que apareciam em sua memoria. Sorriu com benevolência; e adormeceu, sem recordações, sem angustia, num sonho animal com esta pergunta no umbral do subconsciente: - Quem será esta mulher? [...]. Veja mais aqui.

LOCUÇÕES DOS PIERRÔS & OUTRO LAMENTO – Entre as poesias do poeta francês nascido no Uruguai Jules Laforgue (1860-1887), destaco duas que foram traduzidas por Augusto de Campos e inseridas no ABC da Literatura (Cultrix, 1977), de Ezra Pound. A primeira, Locuções dos Pierrôs: Teu olhar, / Huri, / tem o ar de um memento mori / que diz no fundo: - Ah, deixa estar... Mas direi tudo de uma só vez. / E por que parto, à fé de honrado / bardo / francês. / Teu coração tem fiador honesto, / o meu vive, de duplicatas / levadas / a protesto. E o poema Outro lamento: Essa que me vai pôr ao corrente da fêmea! / Eu lhe direi, então, com ares indiscretos: / “A soma dos ângulos de um triângulo, minh’alma, / É igual a dois retos”. / E se lhe sai este grito: “Deus meu, como te amo!” / - Deus reconhecerá os seus. Ou est’outro, incisivo: / - “Meus teclado têm alma, só tu serás meu tema”. / Eu: “Tudo é relativo”. / Com todo o olhar, sentindo-se banal agora: / “Não me amas nem um pouco, e eu não sou nada feia!” / Mas eu, com um olhar que em si mesmo se alheia: / “Bem, obrigado, e a senhora?” / - “Ah, qual de nós é o mail fiel? Apostemos!” – “Só se quem perde ganha”. Ou lágrimas d’amor: / - “Ah! Tu te cansaras primeiro, estou certa...” / “- Primeiro as damas, por favor”. / Enfim, se ela um dia morre nos meus livros, / doce; como quem decifra um mistério, / terei eu: “Ora essa, ainda há pouco estava viva! / Mas então era sério?”. Veja mais aqui.

TEATRO ELIZABETANO – Na obra Teatro Vivo (Civita, 1976), organizada por Sábato Magaldi, encontro que: Numa época em que, exceto na Espanha, o teatro religioso tendia a acabar e o drama-culto difundido pelo humanismo renascentista fechava-se nas elites, William Shakespeare (1564-1616) construiu uma literatura teatral bastante vinculada aos aspectos populares do teatro medieval. Assim como mártires e santos haviam povoado as peças cíclicas medievais, novos heróis seculares, como Ricardo III, passaram a ser revividos de maneira episódica similar. A estrutura medieval admitia a mistura de efeitos cômicos e trágicos, e a peça-crônica utilizaria a mesma formula. Desse modo se explica porque Shakespeare criou uma personagem como Fallstaff para uma peça séria (Henrique IV) e porque as unidades de tempo, lugar e ação nunca chegaram a ser rígidas. O drama medieval, que consistia principalmente em festas públicas e pantominas, fora transformado pelos humanistas num trabalho de arte literária. Shakespeare adotou essa inovação conservando ainda a separação medieval entre palco e plateia, além da mobilidade de ação do drama religioso. Mas no conteúdo e na tendência, seu teatro foi determinado pelas estrutura política e social da época – a época do realismo político, que leva o conflito dramático da própria ação à alma do herói. [...]. Veja mais aqui e aqui.

TWISTED – O filme de suspense Twisted (A marca, 2004), escrito por Sarah Thorp e dirigido pelo cineasta estadunidense Philip Kaufman, conta a história de uma policial em ascensão que resolve um caso de grande repercussão envolvendo um serial killer e, por isso, é transferida para a divisão de homicídios e promovida ao posto de inspetora. A parir de então se desenrola uma trama envolvente com destaque para atuação da atriz e ativista política Ashley Judd. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista plástica russa Nina Kozoriz
Veja mais aquiaqui, aqui, aqui e aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à escritoramiga, compositora, artista plástica e empresária francesa radicada no Rio de Janeiro, Rachel Levkovits, Veja aqui e aqui.

TODO DIA É DIA DA MULHER
Veja as homenageadas aqui.


domingo, abril 29, 2012

JOAN DIDION, OLGÁRIA MATOS, ALEX POLARI, TURETTA & LITERÓTICA



ALVOROÇO – Imagem: Los amantes, art by Oscar Sir Avendaño - Quando essa menina se volta felina e apronta outra vez, como sou seu freguês badala 12 horas. Dá prumo e é agora: doze vezes enlaçado, doze vezes amarrado pro seu capricho. É quando eu viro bicho doze vezes encarnado, doze vezes atrepado pronto pro ataque. Ela finge no baque e começa o festim, efígie querubim nua e descalça, pronta pra valsa, ciranda, cirandar. Ela me faz o seu par com beijos esmeraldas numa dança sagrada em meu corpo fadado. Sacode de lado, ajeita e desajeita, mais se espreme, mais se estreita, ela faz vulto. Aí que emerge o tumulto vergando seu dengo. Virando com jeitos, levando no peito e na raça. É quando possessa, com graça, quer que apareça quebrando a vidraça. E me sacaneia. Ainda esperneia e tudo se escancara. Ela enche a cara fica bicada, leva a minha picada, festa no meu sabugo. Ela não dá refugo nas pernas bambas. Ela quer mais samba embaixo do chuveiro – maior suadeiro! Eu me aproveitando. Tudo se esborrando doze vezes profanada, de restar estirada e ainda me colhe e tudo recolhe, doze vezes vingada com todas as honras, doze vezes aclamada no maior fausto, evento tão lauto, pra filha de rei. Seu querer é lei. E cavo sua terra, quanto mais ela berra, eu revolvo arando e sua carne azarando pra abafar o estrondo. Só resta os escombros dela ficar louca, de findar quase rouca de gritar que quer mais. É muito demais, sacudida de gestos, esfolando seus restos, me arranhando as costas, recolhendo as postas do que restou de mim. E não tem mais fim, mais furto, mais roubo, mais sigo no arroubo, dela se sacudir. E sem ter pronde ir, ela tem minha tocha que mais firme se arrocha como seu corcel alado. É quando o bocado ela chega ao demais, ela goza até a paz de arrear debruçada sobre o meu cajado. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui, aquiaqui.

 


DITOS & DESDITOS - Muito me preocupa essa tendência, talvez mundial, da redução de todos os ramos da vida à questão econômica. O padrão do raciocínio e do pensamento fica sendo o da autoconservação, da produção, do trabalho e do desemprego... quer dizer, as questões propriamente políticas ficam confundidas com as questões econômicas, e a tradição do espaço público, portanto, de um mínimo de espaço garantido de igualdade, onde todas as diferenças possam dialogar, um espaço que independa de poder aquisitivo, de religião, de raça, de preferências ideológicas... isso está tendendo a desaparecer nessa indiferenciação de uma igualdade abstrata no mercado consumidor. Acho que isso reduz o debate político e reprime o pensamento. Por outro lado, e correspondente a isso é o ascenso do populismo, quase que em nível internacional, e com isso você tem também uma fusão da sociedade, e o único fator de coesão fica sendo a aquisição de bens materiais. Eu acho que isso enfraquece a vida espiritual da sociedade e o exercício do pensamento. Pensamento da filósofa Olgária Matos.

 

ALGUÉM FALOU: Os jovens cresceram sem conhecer a dura realidade de outras partes do mundo, com crises econômicas e políticas, desemprego, e revoluções. A conjunção benéfica de fatores manteve os jovens americanos isolados em um casulo infantil. Quando converso com estrangeiros sobre a nova geração americana, eles me dizem que um americano de 20 anos age como se fosse um adolescente de 14 anos em seus países. A razão para escrever blogs é falar de si mesmos. A razão para ter um site em uma rede social, falar no celular ou enviar mensagens é manter contato com os amigos. Se usassem essas ferramentas para conhecer mais sobre artes ou História, seria ótimo. Mas o americano de 16 anos não está interessado em História ou política. O americano de 16 anos só está interessado em outros americanos de 16 anos. Não interessa o que aconteceu há 60 anos, na Segunda Guerra Mundial, só o que ocorreu há 15 minutos, na cantina. Não querem saber quem foi Napoleão. Só querem saber do melhor jogador da escola ou da líder da torcida. A falta de contato com os adultos impede os jovens de crescer. Pensamento do professor Mark Bauerlein, autor da obra The Dumbest Generation: How the Digital Age Stupefies Young Americans and Jeopardizes Our Future - Or, Don't Trust Anyone Under 30 (Jeremy Tarcher/Penguin, 2008).

 

FILHA DA DOR - Um dia, eles me levaram para um lugar que hoje eu localizo como sendo a sede do Exército, no Ibirapuera. Lá estava a minha filha de um ano e dez meses, só de fralda, no frio. Eles a colocaram na minha frente, gritando, chorando, e ameaçavam dar choque nela. O torturador era o Mangabeira [codinome do escrivão de polícia de nome Gaeta] e, junto dele, tinha uma criança de três anos que ele dizia ser sua filha. Só depois, quando fui levada para o presídio Tiradentes, eu vim a saber que eles entregaram minha fi lha para a minha cunhada, que a levou para a minha mãe, em Belo Horizonte. Até depois de sair da cadeia, quase três anos depois, eu convivi com o medo de que a minha filha fosse pega. Até que eu cumprisse a minha pena, eu não tinha segurança de que a Maria estava salva. Hoje, na minha compreensão feminista, eu entendo que eles torturavam as crianças na frente das mulheres achando que nos desmontaríamos por causa da maternidade. Fui presa e levada para a Oban. Sofri torturas no pau de arara, na cadeira do dragão, levei muito soco inglês, fui pisoteada por botas, tive três dentes quebrados. Éramos torturadas completamente nuas. Com o choque, você evacua, urina, menstrua. Todos os seus excrementos saem. A tortura era feita sob xingamentos como ‘vaca’, ‘puta’, ‘galinha’, ‘mãe puta’, ‘você dá para todo mundo’… Algumas mulheres sofreram violência sexual, foram estupradas. Mas apertar o peito, passar a mão também é tortura sexual. E isso eles fizeram comigo. Eles também colocaram na minha vagina um cabo de vassoura com um fio aberto enrolado. E deram choque. O objetivo deles era destruir a sexualidade, o desejo, a autoestima, o corpo. Depoimento da socióloga e professora Eleonora Menicucci de Oliveira, a respeito da sua prisão em 11 de julho de 1971, em São Paulo (SP). Veja mais aqui e aqui.

 

ALBUM BRANCO - [...] Contamos histórias para poder viver [...] Um lugar pertence para sempre a quem o reivindica com mais força, lembra-o de forma obsessiva, arranca-o de si mesmo, dá forma, torna-o, ama-o tão radicalmente que o refaz à sua própria imagem... [...]. Trechos extraídos da obra The White Album (Farrar, Straus & Giroux Inc, 2009), da escritora e jornalista estadunidense Joan Didion (1934-2021), narrando sobre eventos diversos, entre eles a cultura de massa, as jornadas obscuras da família Manson, o surgimento dos shoppings e a fundação dos Panteras Negras, entre outras, refletindo sobre o absurdo e a paranoia que marcaram os anos 1960 e 1970, entre outros assuntos, um mosaico jornalístico e ensaístico do cotidiano americano de uma época fundamental para os Estados Unidos e o mundo.

 

SOBRE NOSSAS COMPANHEIRAS NOS AMAREM - Elas compõem um imenso partido / de elos partidos, correntes quebradas / partidas sustadas, idas sem volta. / Elas estão presas a uma liberdade forçada / e às vezes retornam a esses muros / quando as luzes da cidade / apenas se extinguem. / Cada uma delas traz em si uma marca: / o conhecimento que o espelho não reflete / o amor semiclandestino do corpo que não sua / o gemido da carícia que se esconde. / Cada uma delas traz em si um medo / de grade que fraciona os orgasmos / do cadeado que divide as sensações / do outro que floresce no próprio luto / daquele que espreita no antigo leito / do reverso da moeda da própria sorte. / Cada uma delas conhece uma dúvida: / da vida anterior que não se repete / do teor imprimido aos novos passos / da espera que continua sendo essencial. / Elas têm dúvidas sobre a liturgia / dos corpos sacramentados pelos anos / das penas excessivas com que os tribunais / condenam nossas ereções inúteis / das garantias necessárias por uma dedicação difícil. / Elas têm toda a razão em suprir a carência / de sexo e de projetos / mas sabem no fundo / que o maior sentimento possível / mora numa enxovia / sombria e úmida. Poema do poeta Alex Polari de Alverga.

 

A arte do fotógrafo italiano Angelo Raffaele Turetta.

 

 


PROGRAMA DOMINGO ROMÂNTICO – O programa Domingo Romântico que vai ao ar todos os domingos, a partir das 10hs (horário de Brasilia), é comandado pela poeta e radialista Meimei Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Confira a programação deste domingo aqui. Na edição deste 29/04 do programa Domingo Romântico, comandado pela radialista e poeta Meimei Correa, comemorando o Dia Internacional da Dança e, amanhã, o Dia Nacional da Mulher, apresentará Zubin Metha & Richard Strauss, Elis Regina, Belchior, Jozi Lucka, Monsyerrá Batista, Nana Caymmi, Marina Lima, Fernanda Cunha, Simone, Paula Lima, Joe Cocker, Jamiroquai, Steve Wonder, Luiz Melodia, Marcus Vianna & Marília Abduani, Marcus Caffé, Lucinha Guerra, Benito de Paula, Duke Ellington, Queen, Bon Jovi, Nella, Sonia Mello, Paulynho Duarte, Vinicius Cantuária, Bee Gees, Shalamar, João Pinheiro, Ibys Maceioh, Rosane Duá, Erasmo Carlos, Joyce, Geraldo Azevedo, Lenine, Luiz Alberto Machado, o especial 21 anos sem Gonzaguinha (1946-1991) & muito mais aqui.



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