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quarta-feira, dezembro 26, 2018

NATSUME SOSEKI, BRUNO LATOUR, AGAMBEN, MAURICIO ARRAES, ALTO DO INGLÊS, XICO BIZERRA & FORROBOXOTE

A arte do artista plástico e cenógrafo Mauricio Arraes.

SEGUNDO POEMA DE AMOR – Imagem: do artista plástico e cenógrafo Mauricio Arraes. - O segundo poema vem como emblema do amor por ela que trago na lapela e no meu coração. É como a canção que canto pra ela todos os dias e em todo momento. É o segundo beijo renovando o desejo. O segundo sobejo de nossas carnes amadas e curtidas. Um segundo afeto de valor descoberto. É a segunda premência de nossas querências. O segundo poema de amor por ela é uma parcela fragmentada de toda expressão da pessoa amada porque eu não sei quando a noite vem, porque seus olhos eternizam o riso do sol em mim. É nela que eu vivo mesmo quando ela faz da gente um dramalhão de tv. Ou quando arenga engrossando o pirão e azedando o pavê. Ou quando embola o meio de campo empancando com tudo pra virar o meu mundo só no empate. Aí ela frisa o capricho revirando a lata do lixo a forçar disparate. Até que ela me tira do lance querendo que eu dance. Catimba na graça fazendo trapaça. E passa recibo mandando rebote. E me faz de inimigo, me dá baixa no estoque. Enfim, não me dá chance, tudo fora do alcance. E me passa calote fazendo pirraça: - Dessa não passa! E arma a desgraça e logo se intriga, piora a cantiga só de reprimenda. E não se emenda, não tem oferenda e revolve o passado, remove montanhas, me larga de lado sem lençol, nem fronha. E eu fico jogado, morto de vergonha. Aí ela me dá a vida dela e exige que eu dê jeito. E me joga despeito na lata sua rispidez insensata. O balde ela chuta: - que filho da puta! E se desengraça quando tudo extravasa na beira do fim. Acabou-se o quindim, acabou-se a doçura. Vira uma pedra ruim na minha ternura. Então já despejado, vou abatumado, coração consternado pra longe dali. Quando menos espero, ela vem me resgata daquela cena trágica. E meu ser arrebata em suas mãos mágicas. E me aquece com seu calor me fazendo a vassoura pro seu vôo. E me aperta tão bem a me fazer de refém de sua bruxaria. Maior ventania. E me abraça com o paraíso na boca quando eu percebo que de amor ela está louca. E eu só sei que a vida passa quando ela cheia de graça vem se despedir eterna nos meus pensamentos como se daquele momento amanhã eu morresse. E dali procedesse nessa urgência no vôo pelo amor que celebra toda ventura da vida, pelo amor que me traz a razão de viver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aquiaqui.

A arte do artista plástico e cenógrafo Mauricio Arraes.

DITOS & DESDITOS - Só há caminhos contínuos para nos transportar do local ao global, do circunstancial ao universal, do contingente ao necessário se pagarmos o preço das baldeações. Pensamento do filósofo, antropólogo e sociólogo francês Bruno Latour.

ELOGIO DA PROFANAÇÃO – [...] Sagradas ou religiosas eram as coisas que de algum modo pertenciam aos deuses. Como tais, elas eram subtraídas ao livre uso e ao comércio dos homens, não podiam ser vendidas nem dadas como fiança, nem cedidas em usufruto ou gravadas de servidão. [...] Sacrílego era todo ato que violasse ou transgredisse essa sua especial indisponibilidade, que as reservava exclusivamente aos deuses celestes (nesse caso eram denominadas propriamente “sagradas”) ou infernais (nesse caso eram simplesmente chamadas “religiosas”). [...]. Trechos extraídos da obra Profanações (Boitempo, 2007), do filósofo italiano Giorgio Agamben. Veja mais aqui.

OS HUMANOS & O GATO – [...] Quanto mais observo os humanos com os quais convivo sob o mesmo teto, tanto mais me vejo obrigado a concluir que se tratam de seres egoístas. As crianças com as quais às vezes compartilho a mesma cama são particularmente abomináveis. Quando lhes dá na telha, me viram de ponta-cabeça, cobrem minha cabeça com um saco, me atiram para todos os lados, me enfiam dentro do forno. Como se isso não fosse suficiente, basta eu revidar, mesmo de forma leve, e toda a família corre atrás de mim para me molestar. Recentemente, quando eu afiava com delicadeza as garras no tatame, a mulher de meu amo se enfureceu de forma assustadora. A partir desse dia, ela quase nunca permite meu acesso à sala de estar. Pouco se importam se morro de frio entre as tábuas da cozinha. Shiro, a gata branca que mora na casa do outro lado da rua e por quem sinto profundo respeito, comenta sempre que não há neste mundo criatura mais impiedosa do que o ser humano. Pouco tempo atrás, Shiro deu à luz quatro gatinhos, verdadeiros pompons. Porém, mal se passaram três dias, o estudante da casa afogou os filhotes no lago atrás da propriedade. Shiro me contou o fato entre lágrimas, afirmando que, para os de nossa espécie poderem expressar seu amor filial e mante rem uma vida familiar decente, urge lutar contra os humanos até levá-los à completa extinção. Julgo ser uma argumentação válida. Mike, da casa vizinha, diz, imbuído de enorme indignação, que os humanos não entendem o significado de direito de propriedade. Em nossa espé-cie, aquele que encontra primeiro uma cabeça de sardinha ou tripas de sargo tem o direito de comê-las. É permitido o uso de força bruta contra os que infringem essa lei. Contudo, aparentemente inexiste entre os humanos essa noção, e as iguarias que encontramos acabam todas por eles confiscadas. Eles usam sua força para usurpar de nós o que teríamos o direito de comer. Shiro vive na casa de um militar, e o amo de Mike é advogado. Eu simplesmente vivo na residência de um professor, e com relação a isso posso me considerar mais felizardo que meus amigos. Minha vida cotidiana é de total tranqUilidade. Os humanos, por mais humanos que sejam, não prosperarão para sempre. Esperemos pois pacientemente o advento da era dos felinos. Esse pensamento egoísta me lembra um fracasso devido à presunção de meu amo, que gostaria de compartilhar com os leitores. [...]. Trecho extraído da obra Eu sou um gato (Estação Liberdade, 2008), do escritor e filósofo japonês Natsume Soseki (1867-1916).


FORROBOXOTESorver um trago de Poesia, sabor Quintana e esbarrar no infinito da chama dos amores eternos que alegram a alma de Vinícius. É o suficiente para, num passo seguinte, reencontrar as rãs com que sonhava Manoel de Barros. As canções de um certo Buarque, que se guarda como Chico, se insinuam nessa atmosfera de Poesia, entre um canto e outro do passarinho Bandeira, misturando o encanto de suas palavras com as dos distantes Neruda e Dante ou as dos tão próximos Louros, Pintos, Aderaldos e Patativas de nossos sertões. Presentes, todas as manhãs tecidas por João Cabral, os Fernandos e tantas outras Pessoas que sabem o que é o amor e os pinta com os azuis que Carlos Pena Filho coloria seus sonhos e sapatos. E aí não dá para ficar indiferente ao encontro iminente da lua apressada com um sol meio preguiçoso, deixando a todos nós, sob o clarão das estrelas, balançando no improviso de uma cantiga, cochilando na rima de um verso, dormindo nas estrofes de um poema para, feliz, acordarmos de repente num soneto de amor. Esse disco fala disso tudo. De Gullar e de Cecília, também de Cora e Clarice. E dos Poetas da música, como Belchior e Gonzaguinha. E, principalmente, de Dominguinhos, Poeta da Sanfona e Dom Helder Câmara, que nunca precisou escrever um Poema para ser o enorme Poeta que é. Aos dois, Domingos e Helder, dedico este disco. A poesia do poeta Xico Bizerra no Chama infinita – Forroboxote 12 (2017), autor dos livros Bicho, chuva e flor (Bagaço, infantis), Breviário lírico de um amor maior que imenso (Bagaço, crônicas), Pequininas histórias para gente pequenina (CEPE). A sua poesia é interpretada por personalidades musicais, tais como Marinês, Dominguinhos, Amelinha, Elba Ramalho, Xangai, Trio Nordestino, Maria Dapaz, Quinteto Violado, Silvério Pessoa, Cida Moreira, Geraldo Maia, Alaíde Costa, Frank Aguiar, Nena Queiroga, Maciel Melo, Flávio José, Santanna, Irah Caldeira, Cristina Amaral, Nádia Maia, Sevy Nascimento, Petrúcio Amorim, Jorge de Altinho, Adelmário Coelho, Arlindo dos 8 Baixos, Chiquinha Gonzaga, André Rio e Dalva Torres, dentre muitos outros. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 A arte do artista plástico e cenógrafo Mauricio Arraes.
Veja mais aqui.

VAMOS SALVAR O CHALÉ DO ALTO DO INGLÊS - O centenário Chalé ou Casarão do Alto do Inglês foi construído nos anos da década de 1870, em Palmares-PE, por conta da criação da Great Western of Brazil Railway Company Limited, em 1872, responsável pelo transporte ferroviário no Nordeste, notadamente em Pernambuco. Muito embora, por força do Decreto Imperial 1030, de 07 de agosto de 1852, 20 anos antes, já estivesse determinada a concessão aos engenheiros ingleses Edward e Alfred de Mornay, o direito à abertura de um caminho de ferro entre Recife e Água Preta e sua exploração por 90 anos, o que deu origem à Recife and São Francisco Railway Co. Ltda. Tanto é que já em 1862, fora inaugurada a estação de Una (hoje Palmares), compreendendo o trecho da ferrovia da qual os ingleses detinham a concessão, até o encontro dos rios Una e Pirangi. Por consequência, a construção desse empreendimento passou a ser residência dos engenheiros ingleses que se encontravam trabalhando desde 1859, em Palmares, sendo, posteriormente, a residência do fidalgo inglês Edmund Cox, que era engenheiro da Great Western Railway, inclusive membro honorário do Clube Literário de Palmares. Nos anos de 1980, por conta da política rodoviária dos governos ditatoriais do período 1964-1985, a casa já amargava o descaso que se arrastava por décadas, encontrando-se abandonada e em estado de deterioração. Por conta disso, na gestão municipal do prefeito Luís Portela de Carvalho, o chalé foi incluído juntamente com o Teatro Cinema Apolo, como patrimônio da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, por ocasião de sua constituição estatutária, devidamente registrada em cartório competente. A partir de então, o projeto era a restauração do patrimônio. Décadas se passaram e do casarão restaram apenas ruínas, fato que, por meio do ofício 165/2011, de 07/12/2011, da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), realizou e encaminhou parecer técnico, confirmando a denúncia de demolição do imóvel do Alto do Inglês, invocando a Lei Municipal 1556/2002, referente ao tombamento do patrimônio histórico, e a Lei 1757/2007 que criou o Conselho Municipal de Cultura. A Fundarpe também encaminhou cópia do parecer técnico para a Associação Municipal de Entidades (AME-Palmares) e para o Ministério Público, solicitando providências para o caso. O prefeito dos Palmares foi notificado por meio do Oficio 166/2011, destacando tratar-se de imóvel de interesse cultural e histórico do Estado de Pernambuco, devendo ser dada a devida atenção para concessão e manutenção do mesmo, inclusive pedindo urgência para ações que demandavam à sua preservação. Até o presente momento nenhuma providência foi tomada, no sentido de restaurar esse patrimônio pernambucano que se encontra abandonado e desmoronando. 

REUNIÃO PÚBLICA - 27/02/2019 - As entidades promotoras da campanha  Associação Ação Solidária dos Palmares, Associação dos Artesãos Palmarenses, Escola de Filosofia, Ciência e Política dos Palmares e Instituto Arqueológico, Histórico, Geográfico e Cultural dos Palmares, realizaram reunião na Associação Comercial dos Pakmares (ACP), dias 27 de fevereiro, contando com a presença do arquiteto Juan de Paul, do poeta, professor e acadêmico João de Castro, do presidente da Fundação, Edson Silva, dos escritores da APLE, Socorro Durán & Juarez Carlos, representante do Grucalp, professores e sociedade em geral, ocasião em que foi debatida a questão do estado em que se encontra a edificação, levantando-se o problema, inicialmente os entraves de dívidas tributárias da Fundação de Hermilo que é a proprietária do imóvel, o processo de tombamento estadual, as sugestões de participação da UFPE, IPHAN, Fundarpe e CREA-PE no caso, entre outros debates e discussões. As instituições promotoras do evento ficaram de marcar uma nova data para andamento das atividades. Interessados nas melhorias e restauração necessárias do patrimônio, contatar (81) 9-9795-8721 – Carlos Calheiros (81) 9-9711-9676 - Cícera Silvestre. Veja mais aqui, aqui & aqui.

Arte da poeta & artista visual Luciah Lopez (Curitiba-PR).



quarta-feira, setembro 12, 2018

AUTA SOUZA, GERALDO VANDRÉ, LINS DO REGO, AGAMBEN, MAFFESOLI, CLAUDE CHABROL & WESLEY DUKE LEE


DEIXANDO O PAPO EM DIA – Imagem: arte do artista plástico Wesley Duke Lee (1931-2010). - UMA DOUTRAS – Hoje tive a grata satisfação de reencontrar Carma, a minha vó dona Carminha, com a minha prima Fátima. Sempre as vejo, quando posso, mas é sempre maravilhoso encontrá-las, jogar conversa fora, mangar das coisas que eu fazia nos meus tempos de treloso capetinha e darmos gargalhadas gratuitas das mungangas que sempre fui responsável por promover. Lembravam-me que eu não parava quieto quando menino, coisa que sou ainda hoje: inquieto. Diziam, então, esse menino parece que tem um cotoco! E era mesmo. Ah, gostava mesmo era de aparecer. Bastava qualquer assunto ou o que fosse, só queria um pretexto para chamar atenção. E o pior era o chulé. Gente, pense numa inhaca danada! Nesse caso, triplo: o meu, o de Marquinhos e o de Marcelo. A gente se riu tanto só de lembrar da fedentina de ter de aguentar o odor de três almas sebosas, aliás, três pares de pés fedorentos. Minha nossa! Que coisa horrível. Destá. DUAS DE NÃO SEI QUANTAS – Outra se deu quando saí de lá às risadas, encontrava o povo e logo me perguntavam pelas novidades. Eu que tenho andado no mundo da lua, não tenho lá me atualizado muito com o noticiário que é o mesmo de dois anos atrás, a mesmíssima coisa. Teve um que disse na lata: quer notícia nova? Só com os repórteres manicure, vigias, caçadores, barbeiros, visitantes de salão de beleza e quejandos, esses os principais repórteres de Alagoinhanduba. Eita! E asseverou: Esses sabem tudo da vida alheia. Desconfio. Contudo, sei que se apertar direitinho, esses que me perguntaram pelas novidades, se eu desse trela, debulhariam tudo da vida alheia. Eu, hem? TRÊS PASSANDO A RÉGUA – Acho que este será o último post da semana. É que a partir de hoje estarei na V Feira de Leitura: Territórios Interculturais da Leitura, na Universidade Federal de Pernambuco, atendendo convite da professoramiga doutora Esther Rosa. Não sei se dará pra de lá atualizar aqui o blog. Caso seja possível, tudo bem, atualizarei. Caso contrário, a gente volta a conversar na próxima segunda-feira, dia 17 de setembro. Afora isso, vamos sempre juntos & beijabrações paratodos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor, compositor, advogado e poeta Geraldo Vandré: Das terras do benvirá, Canto Geral, Ao vivo & com Quinteto Violado & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Se por um lado, de fato, não somos mais capazes de julgar esteticamente a obra de arte, por outro, a nossa inteligência da natureza se ofuscou da tal modo e , além disso, a presença nela do elemento humano se potencializou de tal modo que, diante de uma paisagem, nos ocorre espontaneamente compará-la à sua sombra, perguntando-nos se ela é esteticamente bela ou feia, e conseguimos cada vez com maior dificuldade distinguir de uma obra de arte um precipitado mineral ou um pedaço de lenha corroído e deformado pela ação química do tempo. [...]. Trecho extraído da obra O Homem sem conteúdo (São Paulo: Autêntica, 2012), do filósofo italiano Giorgio Agamben. Veja mais aqui.

NOVAS FORMAS DE SOCIABILIDADE E DE VÍNCULOS ASSOCIATIVOS & COMUNITÁRIOS – [...] todos os micro-rituais [...] parecem ter esse papel de desvio da técnica de sua função meramente utilitária, de agrupamento de indivíduos em torno de uma atividade comum, de uma paixão compartilhada. Poderíamos então falar que o destino da técnica moderna reside também na sua apropriação dionisíaca e, assim, numa ressacralização, um reencantamento do mundo. [...]. Trecho extraído da obra O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa (Forense, 1987), sociólogo francês Michel Maffesoli. Veja mais aqui.

FOGO MORTO - [...] Trabalhava a mulher de Vitorino na castração dos frangos de d. Amélia. Só ela por aquelas bandas tinha mão e ciência para aquele serviço. Vivia de engenho a engenho à espera da lua nova, ou do quarto minguante, para operar com sucesso. Ali estava ela desde manhã, como uma cirurgiã que confiava no seu talho. Com ela não morria uma cria. Tinha boa mão, tinha força de verdade para fazer as coisas. D. Amélia viera-lhe falar, somente para lhe dizer que acabados os serviços queria lhe dar duas palavras. Era a senhora de engenho mais delicada da Ribeira. Nunca ouvira uma palavra feia naquela boca, nunca a vira aos gritos com os outros, metida na cozinha para ouvir conversa de negras. Falavam dela, por isto, falavam do gênio esquisito, de viver calada para um canto. Era assim desde que a conhecera. Quando fora em 1877, a velha Adriana chegara, moça feita, com seu povo morrendo de fome, no Santa Fé, e d. Amélia já era casada, e era aquilo mesmo. Era moça de prendas, de educação muito fina. Lembrava-se dela naquele mesmo carro que ainda corria pela estrada, com o seu ar de rainha, aquela beleza tão mansa, tão quieta que o povo chegara a desconfiar. O povo estava acostumado com as senhoras de engenho que davam grito, que descompunham como a d. Janoca do Santa Rosa. D. Amélia era assim, de natureza. Tocava piano. Lembrava-se bem dos primeiros dias da sua chegada, com a lembrança ainda lhe doendo do sertão na pior seca do mundo. A família estava aboletada na casa do engenho, e de lá ela ouvia d. Amélia tocando no seu piano. Tudo era bem diferente do que via hoje. Tudo era tão mais cheio de alegria. O coronel Lula era moço bonito, com a barbicha preta, todo bem-vestido. Parece que ainda escutava o som do piano nos ouvidos. Todos eles estavam na desgraça, comendo a carne que o imperador mandara para o povo. Tudo magro como rês na retirada. D. Amélia fora um anjo, naqueles dias. Quando ela entrava na casa do engenho, era como a providência, uma bênção de Deus. Agora era aquela velha, muito mais velha do que a idade que tinha. O coronel era aquele homem que ninguém entendia, metido dentro de casa, cheio de tanta soberba. Tinham aquela filha que estudara nas freiras do Recife. Era moça de mais de trinta anos, tão cavilosa, enterrada no quarto, lendo livros, com medo de gente. Parecia-se com d. Olívia, aquela irmã de d. Amélia que andava sem parar, da sala de visitas para a cozinha, o dia inteiro, com a cabeça branca como de lã de algodão. [...]. Trecho extraído da obra Fogo Morto (José Olympio, 2012), do escritor José Lins do Rego (1901-1957). Veja mais aqui, aqui e aqui.

DOIS POEMAS - AGONIA DO CORAÇÃO - Estrelas fulgem da noite em meio / Lembrando círios louros a arder... / E eu tenho a treva dentro do seio... / Astros! velai-vos, que eu vou morrer! / Ao longe cantam. São almas puras / Cantando á hora do adormecer... / E o eco triste sobe ás alturas... / Moças! não cantem, que eu vou morrer! / As mães embalam o berço amigo, / Doce esperança de seu viver... / E eu vou sozinha para o jazigo... / Chorai, crianças, que eu vou morrer! / Pássaros tremem no ninho santo / Pedindo a graça do alvorecer... / Enquanto eu parto desfeita em pranto... / Aves, suspirem, que eu vou morrer! / De lá do campo cheio de rosas / Vem um perfume de entontecer... / Meu Deus! que mágoas tão dolorosas... / Flores! Fechai-vos, que eu vou morrer! MINH'ALMA E O VERSO - Não me olhes mais assim... Eu fico triste / Quando a fitar-me o teu olhar persiste / Choroso e suplicante... / Já não possuo a crença que conforta. / Vai bater, meu amigo, a uma outra porta. / Em terra mais distante. / Cuidavas que era amor o que eu sentia / Quando meus olhos, loucos de alegria, / Sem nuvem de desgosto, / Cheios de luz e cheios de esperança, / N’uma carícia ingenuamente mansa, / Pousavam no teu rosto? / Cuidavas que era amor? Ah! se assim fosse! / Se eu conhecesse esta palavra doce, / Este queixume amado! / Talvez minh’alma mesmo a ti voasse / E n’um berço de flor ela embalasse / Um riso abençoado. / Mas, não, escuta bem: eu não te amava. / Minha alma era, como agora, escrava... / Meu sonho é tão diverso! / Tenho alguém a quem amo mais que a vida, / Deus abençoa esta paixão querida: / Eu sou noiva do Verso. / E foi assim. Num dia muito frio. / Achei meu seio de ilusões vazio / E o coração chorando... / Era o meu ideal que se ia embora, / E eu soluçava, enquanto alguém lá fora / Baixinho ia cantando: / “Eu sou o orvalho sagrado / Que dá vida e alento às flores; / Eu sou o bálsamo amado / Que sara todas as dores. / Eu sou o pequeno cofre / Que guarda os risos da Aurora; / Perto de mim ninguém sofre, / Perto de mim ninguém chora. / Todos os dias bem cedo / Eu saio a procurar lírios, / Para enfeitar em segredo / A negra cruz dos martírios. / Vem para mim, alma triste / Que soluças de agonia; / No meu seio o Amor existe, / Eu sou filho da Poesia.” / Meu coração despiu toda a amargura, / Embalado na mística doçura / Da voz que ressoava... / Presa do Amor na delirante calma, / Eu fui abrir as portas de minh’alma / Ao verso que passava... / Desde esse dia, nunca mais deixei-o; / Ele vive cantando no meu seio, / N’uma algazarra louca! / Que seria de mim se ele fugisse, / Que seria de mim se não ouvisse / A voz de sua boca! / Não posso dar-te amor, bem vês. Meus sonhos / São da Poesia os ideais risonhos, / Em lago de ouro imersos... / Não sabias dourar os meus abrolhos, / E eu procurava apenas nos teus olhos / Assunto para versos. Poemas extraídos da obra Horto (1900), da poeta do Romantismo potiguar Auta Souza (1876-1901). Veja mais aqui.

A ARTE DE CLAUDE CHABROL
Entre os filmes que já destaquei e os que aprecio do cineasta, ator, roteirista e produtor francês Claude Chabrol (1930-2010), estão o drama/romance Madame Bovary (1991), baseado na obra homônima de Flaubert, com destaque para atriz francesa Isabelle Ann Huppert; a comédia The Twist (1976), com destaque para atriz francesa  Stéphane Audran; o drama Nada (1974), adaptado do romance homônimo de Jean-Patrick Manchette e inspirado pelos eventos de maio de 1968 na França e destaque para a atriz italiana Mariangela Melato  (1941-2013); e o erótico Quiet Days in Clichy (1990), baseado no romance autobiográfico de Henry Miller, com um timaço de atrizes: Anna Galiena, Eva Grimaldi, Barbara De Rossi, Stéphanie Cotta & Isolde Barth. Veja mais aqui.

AGENDA
Encontro sobre o Ensino da Língua Portuguesa & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Nos meus ambientes envolvo pintura, ambientação, som e teatro, pois tem algo de cênico nisso. A pessoa entra como ator e expectador ao mesmo tempo (se entrar no jogo da coisa, é lógico). A intenção era unir os elementos todos, pensei muito nisso antes de iniciar a série.
Veja mais aqui & a arte de Wesley Duke Lee aqui e aqui
&
As dores imprevisíveis da felicidade, D. H. Lawrence, Holismo & Christiaan Smuts, Theodor Adorno & Max Horkheimer, Brian De Palma, Daniel Senise, Cesar Camargo Mariano, Silke Avenhaus, Enya & Dery Nascimento aqui.


quinta-feira, maio 31, 2018

WHITMAN, AGAMBEN, PASTERNAK, MARLOWE, MÉRET OPPENHEIM, PAULINHO DA COSTA & MELISSA ETHERIDGE


ÚLTIMA CARTA DE MAIO – Imagem: arte da fotógrafa e artista plástica suíça Méret Oppenheim (1913-1985). - A última canção quase nem terminei, fez-se menos tons lúgubres que desentoadas entonações. Sou o que sobra da memória e a casa aos ventos, tenho cá minhas fraquezas e enfermidades. A noite inteira a minha cabeça às escuras e os ossos expostos na desrazão do crânio. Não há como sobreviver a si mesmo: o testamento de nada às mãos, asas desabridas prum voo sonhado da última viagem sagrada na infância e o precipício da queda ao partir. O último poema eu quase perdi, versos obtusos que se desfizeram por completa inaptidão. Não os tenho mais e que me tolerem se não quero que me vejam âncora perdida diante dos louvores com guirlanda de elogios que me fazem gigante que não vale polegada, sei, são apenas adornos e o atoleiro afronta quem fica ou se ausenta, nem tudo é como a gente quer e pensa. A última carta quase nem escrevi, amontoados de frases à fórceps, tão esdrúxulas quanto eu mesmo aos corações contidos em que sobrevém o recato. Que venham os que pararam e não parem os que seguiram, ainda que tudo isso seja apenas uma semente qualquer de erva molhada, para que eu reveja os mortos feitos nas minhas cinzas jogadas ao rio que nasci. A mim me resta apenas a módica poesia, ela injeta sangue nas veias, uma palavra após outra quando o pó da noite que nada vale dão meus dentes pra sorrir no ritual das emoções, mesmo que as dores não tenham sarado o talho da promessa pra cumprir e o esquecimento. Eu parti pra viver e não mais me engasgar com picuinhas disso ou daquilo, aos plenos voos o que é o presente senão agora. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do percussionista Paulinho da Costa: Agora, Tudo bem com Joe Pass & Bahia Funk com Lee Ritenour; da cantora e compositora estadunidense Melissa Etheridge: Best songs, Unplugged & The diferente; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAOs detentores do poder ficam tão ansiosos por estabelecer o mito da sua infiabilidade que se esforçam ao máximo para ignorar a verdade. Pensamento do escritor russo Boris Pasternak (1890-1960), que também se expressou sobre a ciência: Os progressos da ciência obedecem à lei da repulsão: para dar um passo em frente, é preciso começar por derrubar o domínio do erro e das falsas teorias. E sobre a arte: A arte serve a beleza, e a beleza é a felicidade de possuir uma forma, e a forma é a chave orgânica da existência; tudo o que vive deve possuir uma forma para poder existir, e, portanto, a arte, mesmo a trágica, conta a felicidade da existência. Veja mais aqui.

LIVROS NAS ESTÂNCIAS - [...] Podemos imaginar que também para os livros existe uma “Biblioteca dos destinos” semelhante, em cujas infinitas prateleiras estão conservadas as variáveis possíveis de cada obra, os livros que poderíamos ter escrito se, a um certo ponto, algo não tivesse decidido em favor do livro que acabou sendo escrito e publicado. O livro real ocupa aqui o ápice de uma pirâmide, em que os inúmeros livros possíveis se precipitam de andar em andar até o Tártaro, que contém o livro impossível, que nunca poderíamos ter escrito. Não é uma experiência fácil, para o autor, entrar em semelhante Biblioteca, porque a seriedade de um pensamento se mede sobretudo na relação com o passado [...]. O ato de criação não é, na realidade, segundo a instigante concepção corrente, um processo que caminha da potência para o ato para nele se esgotar, mas contém no seu centro um ato de descriação, no qual o que foi e o que não foi acabam restituídos à sua unidade originária na mente de Deus, e o que podia não ser e foi se dissipa no que podia ser e não foi. Este ato de descriação é, propriamente, a vida da obra, o que permite a sua leitura, sua tradução e sua crítica, e o que, em tais coisas, se trata cada vez mais de repetir. Exatamente por isso, contudo, o ato de descriação, a despeito de toda perspicácia irônica, foge sempre, em alguma medida, do seu autor, e só desta maneira lhe consente continuar escrevendo. A tentativa de apreender integralmente este núcleo des-criatório em toda criação, para encerrar definitivamente a sua potência, só pode levar o autor à cessação da escritura ou ao suicídio (Rimbaud e Michelstaeder), e a obra, à sua canonização. É muito arriscada, para quem escreve, a relação com o passado, ou seja, com o abismo do qual lhe provém a possibilidade que ele mesmo é. (Se o autor, no caso do presente livro, ainda está escrevendo, e em que medida, na esteira e na urgência das possibilidades que este lhe havia aberto, é algo que outro, melhor do que ele, partindo dos livros sucessivos, poderá julgar.) A vida do autor coincide, nesta perspectiva, com a vida da obra, e julgar as próprias obras passadas é o impossível que só a obra ulterior inevitavelmente cumpre e procrastina. Trechos extraídos da obra Estâncias; a palavra e o fantasma na cultura ocidental (EdUFMG, 2007), do filósofo italiano Giorgio Agamben. Veja mais aqui.

VENDER A ALMA AO DIABO - [...] Quando acordou, Fausto procurou Helena em sua cama, mas a cama estava vazia. Teria sonhado? Mas as lembranças lhe pareciam tão reais! Se fosse um sonho, será que ele esqueceria dos detalhes, do cheiro, da cor dos olhos e dos cabelos dela? Isso o angustiava muito e ele lembrava que seu tempo havia chegado ao fim. Pensava que não havia perdão para ele, talvez houvesse perdão para a serpente que ofereceu a maçã para Eva no Paraíso, mas não para Fausto. Desejou que nunca tivesse aprendido a ler ou que não tivesse sido tão ambicioso. Desejou que tivesse tido uma vida mais humilde, porém mais livre. Fausto queria chorar, mas os demônios tinham lhe roubado as lágrimas e apenas um pouco de sangue corria em sua face. Ele queria pensar em Deus, mas depois de tantos pecados não se sentia digno, não achava justo procurar por Deus e também temia a vingança de Lúcifer. Quando faltava uma hora para a meia-noite, para o final de seus poderes, Fausto desejou que o tempo parasse, que uma hora durasse um dia e que um dia durasse uma semana e uma semana um mês. Para que tivesse tempo de recomeçar e de se arrepender. Talvez procurar seus amigos, mas as estrelas continuavam a se mover no céu e os ponteiros continuavam girando nos relógios. Quando faltava meia hora para o fim, Fausto desejou que a teoria de Pitágoras estivesse certa e que quando ele morresse sua alma migrasse para algum animal e que assim não fosse atormentado nem pelo céu, nem pelo inferno. Quando o relógio badalou meia-noite, Fausto quis ser uma gota de água que caísse no oceano e nele se fundisse. Assim ficaria protegido e seguro. Mas o que aconteceu foi que Satã entrou em seu escritório e abriu as portas do inferno, de onde serpentes gigantescas vieram ao seu encontro, enrolando-se em suas pernas e pescoço, sufocando sua respiração e o arrastando para a fogueira das torturas infernais. Trechos extraídos da obra Trágica história do doutor Fausto (Ridel, 2007), do dramaturgo, poeta e tradutor inglês Christopher Marlowe (1564-1593). Veja mais aqui e aqui.

TRÊS POEMAS - A UM ESTRANHO: Estranho que passa! você não sabe com quanta saudade eu lhe olho, / Você deve ser aquele a quem procuro, ou aquela a quem procuro, (isso me vem, como em um sonho,) / Vivi com certeza uma vida alegre com você em algum lugar, / Tudo é relembrado neste relance, fluído, afeiçoado, casto, maduro, / Você cresceu comigo, foi um menino comigo, ou uma menina comigo, / Eu comi com você e dormi com você – seu corpo se tornou não apenas seu, nem deixou o meu corpo somente meu, / Você me deu o prazer de seus olhos, rosto, carne, enquanto passamos – você tomou de minha barba, peito, mãos, em retorno, / Eu não devo falar com você – devo pensar em você quando sentar-me sozinho, ou acordar sozinho à noite, / Eu devo esperar – não duvido que lhe reencontrarei, / Eu devo garantir que não irei lhe perder. A VOCÊ: Estranho! se, ao passar, você me encontrar / e desejar falar comigo, por que não falar comigo? / E por que eu não falaria com você? ÀS VEZES COM ALGUÉM QUE AMO: Às vezes com alguém que amo, me encho de fúria, pelo medo de extravasar amor sem retorno; / Mas agora penso não haver amor sem retorno – o pagamento é certo, de um jeito ou de outro; / (Eu amei certa pessoa ardentemente, e meu amor não teve retorno; / No entanto, disso escrevi estas canções.). Poemas do poeta, ensaísta e jornalista estadunidense Walt Whitman (1819-1892). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa e artista plástica suíça Méret Oppenheim (1913-1985).
Veja mais aqui.


Wilson Monteiro Cantarolando muito forró & muito mais na Agenda aqui.
&
Cine Mosquito & Jiddu Saldanha
&
A arte do cartunista e desenhista Mike Deodato Jr.
 

terça-feira, janeiro 02, 2018

AGAMBEN, TOM WAITS, CARLOS EDUARDO NOVAES, DAISAKU IKEDA, ROERICH, LISA YUSKAVAGE & BÁRBARA EUGENIA

OUTRO AMANHÃ – Imagem: Monhegan. Maine, do pintor, escritor, arqueologo e teosofista russo Nicholas Roerich (1874— 1947) – Dez horas no tempo do dia e a vida é uma aventura no reino do Sol. Nada será como antes, nada será outra vez. O que foi do domingo só na semana que vem do que se perdeu, nunca mais. desde tenra idade cata a liberdade perdida pro trabalho, pras paixões, pros prazeres, doces ilusões pra quem esqueceu de tudo e não sabe mais nada. Reina a tarde no tempo da Terra, outros reinos transitam na cabeça dos que se apressam pras suas conquistas ao domínio da mão, parindo sonhos aos trancos e barrancos, pés sobre cabeças, degraus infindáveis como areias falsas e pisam em falso nas posses do mundo, acumulando riquezas desfeitas ao vento da brisa noturna, embaixo da chuva de outras quinzenas, outros meses, outros anos passados e futuros de agora. Quem foi ou não foi, nunca é tarde demais. Por qualquer coisa, ou vai ou racha, troca de marcha e tudo não se encaixa por dentro ou por fora, tudo se esvai pela hora em que a morte se precipita, semente brota, o fruto perdido. Dez horas no tempo da noite, estrelas cadentes no sono pesado, cansaço da carne, a alma ao voo dos esquecidos e perde a segunda na terça que se foi, sem saber da quarta tragada na quinta, pra sexta fazer o sábado outra semana de esperas, janelas abertas se fecharam nos olhos e todo real escondido é quase nunca mais. E a estrada mesma parece outra com novo dia de Sol. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com o músico, instrumentista, compositor, ator e cantor estadunidense Tom Waits: Greatst Hits; e a cantora e compositora Bárbara Eugenia: Vida aventureira, Frou frou & Jornal Bad & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O homo sacer não goza de existência política nem da igualdade natural, eis a miséria absoluta da vida [...] O estado de exceção é um estado anômico, no qual a vida é reduzida à dimensão meramente biológica, apolítica e, portanto, destituída de direitos (sequer aos procedimentos judiciais, formalmente assegurados universalmente [...]. Trechos extraídos de Estado de exceção (Espaço Acadêmico, 2010), da socióloga e professora Angelita Matos Souza.

ESTADO DE EXCEÇÃO – [...] A exceção é uma espécie de exclusão. [...] Aquele que foi banido não é, na verdade, simplesmente posto fora da lei e indiferente a esta, mas é abandonado por ela, ou seja, exposto e colocado em risco no limiar em que a vida e direito, externo e interno, se confundem [...]. Trechos extraídos da obra Homo sacer: o poder soberano e a vida nua (UFMG, 2002), do filósofo italiano Giorgio Agamben. Veja mais aqui.

A OITAVA, EM 88Agora você não precisa mais perder tempo na fila dos consulados pensando em deixar o Brasil. Chegou a nova coleção primavera-verão de textos constitucionais! Se ao acordar hoje, olhou à volta e experimentou a sensação de estar em outro país, você está mesmo. Continuamos falando português, cantando o mesmo hino, oteenizando nossas dívidas mas quem observar direitinho vai verificar que desde ontem o Brasil já não é mais aquele. Agora você tem ao dispor a oitava versão da Carta Magna, que lhe oferece mais economia, mais conforto, mais democracia e melhores serviços na área de segurança e direitos humanos. Constituição 88, uma nova maneira de viver! A Carta 88 (agora com habeas-data!) obedece às mais arrojadas técnicas constitucionais. De linhas sóbrias e tradicionais, num estilo pós-moderno, possui um texto superreforçado (o mais avançado em uso na América Latina), que substitui a estrutura monobloco do Executivo por um sistema intercambiante com perfeita harmonia entre os três poderes. Um texto feito para vencer os mais duros desafios das crises institucionais e resistir a fortes pressões de golpes e quarteladas. Verifique você mesmo. Passe no seu revendedor constitucional e troque a velha Carta de 67 – cheia de emendas e remendos – pela novíssima modelo 88, com cinco anos de garantia (primeira revisão só em 1993). Para ter sucesso na vida, o cidadão precisa de uma ideia na cabeça e uma Carta 88 nas mãos. Não saia de casa sem ela! Ou, se preferir, deixei-a sobre sua mesa de trabalho. Feita em três modelos diferentes, ela é útil e decorativa. Uma Constituição que vai bem em qualquer ambiente. Na fábrica, nos campos, nas praias, na cozinha. Sinta a suavidade dos seus capítulos, a maciez dos artigos, a doçura dos parágrafos, a fofura das alíneas. Os capítulos extra-suaves penetram no tecido social retirando toda a sujeira e permitindo a você e sua família uma existência mais digna e confortável. Não é sorteio nem loteria! Basta ser brasileiro para ter direito a utilizar todos os serviços constitucionais. Sem formulários, sem burocracia, sem entrada e sem mais nada! Você anda cansado, sem ânimo, dormindo nas festas e condições porque trabalha 62 horas por semana? Pois agora sua vida vai mudar: trabalhe até 80 horas semanais que a Carta estará zelando, minuto a minuto, por sua hora extra. Uma hora extra 50% superior à normal! Não é formidável? Somente a Carta 88 oferece mais proteção e melhor rendimento ao trabalhador. Carta 88, mais um servço de utilidade pública do seu Poder Legislativo. Você está trista, aborrecido porque não tem dinheiro para viajar nas férias? Pois deixe a tristeza de lado! Agora você poderá sair pelo mundo com o adicional de um terço do seu salário. Carta 88, um texto novo e diferente de tudo o que existe por aí. A ultima palavra em constituições com a garantia de qualidade Nova República. Verifica a marca na aureola. Se você é um cidadão exigente, eis a Carta dos seus sonhos. Uma Constituição simples, de fácil manejo, e um sistema exclusivo de interpretação. Texto de categoria interncioal com todos os artigos testados pelo Controle de Qualiade Constitucional em Brasília. A primeira Constituição brasileira que preserva a beleza e toma cuidados especiais com sua cútis: ninguém mais será submetido à tortura. Você, detento, que foi preso ilegalmente, pode agora começar a gritar: “Tirem-me daqui”. Você presidiária que amamenta, agora não precisará mais fazê-lo através das grandes. Você, mulher, que acabou de parir, agora terá 120 dias – repito: 120 dias – para permanecer em casa ouvindo o maravilhoso chorinho do seu revento. Não é formidável? E tem mais: o papai orgulhoso que às vezes só via o filho quando ele completava 18 anos, agora terá 5 dias de licença para limpar o cocozinho verde do seu bebê. Quem? – eu pergunto. Quem mais, além da Carta 88, poderia oferecer tantas vantagens? Carta 88. A Constituição que está ao seu lado! Você, querida cozinheira, que tem deixado queimar a comida do patrão, preocupada com férias, licença, aviso prévio, aposentadoria, agora poderá preparar saborosos quitutes: a Carta 88 aboliu a escravidão. E quanto a você, caro pobre, em crise existencial por não poder pagar para obter registro civil, certidão de óbito e outros documentos, agora poderá dormir tranqüilo debaixo da ponte. A Carta 88 vai lhe permitir exercer seu direito de cidadania sem desenbolsar um tostão. Não é formidável? É por isso que nós dizemos: fora da Carta 88 não há salvação! Só ela oferece mais pelo seu dinheiro. Vem pra Carta você também, vem! Extraído da obra O país dos imexíveis (Nórdica, 1990), do advogado, cronista, romancista e dramaturgo Carlos Eduardo Novaes. Veja mais aqui.

UMA VIDA PELA PAZDesnecessário é dizer,eu não sou um poeta. Mas,de tempos em tempos,numa tentativa de expressar minhas emoções pessoais ou idéias,produzi meu próprio estigma poético,dando-lhes uma expressão tão livre quanto possível. Uma vez Goethe disse: 'Todos os meus poemas,são poemas ocasionais,sugeridos pela realidade cotidiana e, estão contendo um firme alicerce.' Posso dizer também,que os meus poemas emergem da realidade cotidiana ou mais especificamente,do redemoinho de atividades diárias que eu, como qualquer pessoa comum,com ele encontra-se comprometido. Incorporando os sentimentos que me vem à tona no contato com amigos ou meus diálogos com jovens, estes poemas têm sido anotados há anos em meu diário ou nos diversos cantos de minhas anotações. Muitos deles foram compostos enquanto eu viajava pela Causa da Paz ou, em momentos de repouso,antes de retirar-me à noite. Do poeta, filósofo, fotógrafo e líder budista japonês Daisaku Ikeda.

A ARTE DE LISA YUSKAVAGE
A arte da pintora estadunidense Lisa Yuskavage.

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Endecha: carpe diem, mutatis mutandis, o pensamento de Nikolai Roerich, a fotografia de Antonella Fabiani & a arte de Leon Zernitsky aqui.
Do que foi pro que é quase nada, Friedrich Nietzsche, Vaughan Williams, Suzzane Valadon aqui.
Coisas do sentir que não são pra entender, Marco Túlio Cícero, Emil Nolde & Nivian Veloso aqui.
O Sol nasce para todos aqui.
Samira, a ruivinha sardenta, Yann Martel, Philippe Blasband, Cristina Braga, Tom Tykwer, Franka Potente, He Jiaying, August Macke, Hernani Donato, Interatividade na Ciberarte, Ana Bailune & Susie Cysneiros aqui.
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Literatura de Cordel: Brasi caboco, de Zé da Luz aqui.
Dos dias, a mulher, Albert Einstein, Viktor Frankl, Henri Matisse, Gilberto Gil, Mark Twain, Milos Forman, Rita Guedes, Natalie Portman, Naoki Urasawa, Kátia Velo & Alfredo Rossetti aqui.
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Gaia – Mãe Terra, Isaak Azimov, Caetano Veloso & Teresa Filósofa aqui.
Michel Foucault, A poesia dos deuses, Antropologia Jurídica, Educação Ambiental, Fecamepa & Psicologia Social aqui.
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Livros Infantis do Nitolino aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
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PERFORMANCE DE AMOR: PELA NATURALIZAÇÃO DA NUDEZ
A cantora Bárbara Eugenia durante a turnê do show Frou frou, no Sesc Belenzinho, em São Paulo, em 2015, realizando a Performance de Amor pela Naturalização da Nudez. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...