segunda-feira, dezembro 17, 2018

ESTAÇÃO CATENDE, BENEDITO NUNES, ISAAR FRANÇA & ARTE DE TODO JEITO


FUI DANADO PRA CATENDE... - Fui danado pra Catende glosando o mote de Ascenso para saudar Pelópidas e seu caudal, Maurício e todos os Melos tataritaritatá, Davi e Ideais, Marcos agora em Maceió e a Mulher da Sombrinha, a Serra da Prata e os operários da usina e fogo morto, e de quem nem lembro mais do Leão XIII e Catende Clube, o cine Diamante e a Árvore da Vida. Fui danado pra Catende outra vez e cheguei perto da Estação a cantar Nunca chore por mim – a balada de quem vai embora, e encontrei os passageiros de ontens e os desabrigados moradores de rua de hoje inventando seu abrigo com os fantasmas da locomotiva primeva, as vítimas do preconceito, os malvistos de qualquer esquina, os anjos caídos, os doidos e fogueteiros, os que se escondiam para queimar suas fogueiras, os invisíveis das noites e dias entre guenzos e bichanos famintos. Fui danado pra Catende e vou de novo porque havia uma festa de todas as tribos, porque o imaginauta supercultor Gugha - Ghustavo Távora – urdia o bem pintando o sete com todas as cores criatinovadoras no espaço que era a secretaria de Jadson França para a biblioteca da cultura catendense, e Aprisco riscava o grafite que HenriqueTeixeira recitava no baque do DJ Passarinho e nas mandalas de Henrique Bem, porque de Caruaru Zé Galdino embolava as cores do Vale do Una de Profeta e Durán y Durán, os bonecos de Epifânio, as artes de Cicinho e o passeio teatral da Paula Menezes aplaudidas pelos de Fenelon, João Paulo e Mary que viam da Cyane os traços dos desenhos no meio das performances de todas as utopias subversivas dos que ali dançavam com frases do papo cabeça e de quantos passavam para vários encontros e vastos desencontros, tantos vivos e outros mortos no que foi estação de antanho e isso e aquilo, entre chiques e chocantes até a rebeldia bocomoca dos que se recusam a viver aquela ousadia de festa pra seguirem as regras sociais que são suas verdades e nem sabem de qual das mentiras virou sectária dum dogmatismo, porque tudo era apenas um pedaço da história que os olhos não compram por levarem pra depois o que foi e o que está lá e me fez chegar bem danado em Catende sem vontade até de voltar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Com o animal, as relações são, sobretudo, transversais, ou seja, o animal é considerado o oposto do homem mas ao mesmo tempo uma espécie de simbolização do próprio homem. Na acepção comum, simboliza o que o homem teria de mais baixo, de mais instintivo, de mais rústico ou rude na sua existência. Por isso mesmo o animal para nós é o grande outro da nossa cultura, e essa relação é muito interessante como tópico de reflexão[...] dos mais nobres esforços da ala heterodoxa da filosofia moderna, de Schopenhauer até hoje, secundada pela poesia lato sensu, é aquela que tende a reconquistar a proximidade perdida desde a Antiguidade entre homem e animal. Ambos sofrem, ambos estão sujeitos à dor — este é o ponto principal. E embora um filósofo como Heidegger nos diga que o animal, ao contrário do homem, é pobre de mundo (Weltarm) por mais que seja rico de ambiente, continuamos ouvindo a réplica que lhe dá o grande pensamento poético de Rainer Maria Rilke. O animal vive no seio da natureza — como diz na sua “Oitava elegia”, em Elegias de Duíno — “enquanto nós os trepidantes sofremos do mundo que nos punge e empobrece”. Quer dizer, colhido no ventre da mãe natura, o animal vê os homens com aquele olhar não-humano que a ficção de uma das melhores autoras da nossa literatura, Clarice Lispector, insuperavelmente descreveu no conto “O touro”, de Laços de família: aí o olhar animal é um olhar que tem conexão com os sentimentos mais violentos do homem. O animal continua sendo o grande Outro, o maior alienado da nossa cultura, “exceto que essa cultura, aumentando o nosso conhecimento, talvez possa algum dia restabelecer os estreitos laços que a ele nos unia nos tempos mitológicos, mas quando isso acontecer — comenta Elias Canetti — já quase não mais haverá animais entre nós”. [...] Já promovemos uma guerra contra os animais, que chamamos de caça, embora, na verdade, guerra e caça sejam a mesma coisa [...] Em geral não se matam os prisioneiros de guerra, que são feitos escravos. Nossos rebanhos são populações escravas. O trabalho deles é se reproduzirem para nós. Até seu sexo transforma-se em uma forma de trabalho. [...] Melhor seria, então, admitir dois modos de ciência: aquele que está mais próximo do real, por intermédio da imaginação; e outro que está um pouco mais distante do real, pelo raciocínio, pelos conceitos abstratos. Os dois modos de ciência se complementam e não podemos deixar de admiti-los, um mais próximo da realidade imediata apreendida pelos sentidos e outro mais distante, conduzido pelo pensamento e pelos conceitos. [...].
Trechos do ensaio O animal e o primitivo: os Outros de nossa cultura
(História, Ciência, Saúde – Manguinhos, dez-2007), do filósofo, professor, escritor e crítico literário Benedito Nunes (1929-2011).

A ARTE DA ESTAÇÃO DO BEM – CATENDE - PE
Eu fui danado pra Catende... e quase não quis voltar
O artista visual e imaginauta Ghustavo Távora. Veja mais aqui e aqui.
Estação do Bem na Secretaria de Cultura de Catende.
Biblioteca Municipal de Catende – PE – Sandra Lobo, Rejane Maria & Jovelina Maria.
A arte do artista Aprisco (Rogério Bosco da Silva).
A arte do artista e graduando em Gestão da Informação na UFPE, Henrique Teixeira, integrante da Flor Rasteira e Seres da Mata.
DJ Passarinho (Alex) & Henrique Bem.
A arte do gravurista, artesão e artista Zé Galdino, de Caruaru – PE.
Instituto Vale do Una, o poeta e artista Paulo Profeta, o artista e poeta José Durán y Duran, a artista e escritora Cyane Pacheco & Nalva Pedrosa.
A arte do artesão, pirogravurista, designer e artista Cicinho (Advaldo Cerqueira).
O artesão e instrumentista Epifânio Bezerra.
Biblioteca Fenelon Barreto, João Paulo Araújo, Mary Filha & Éricka.
A atriz Paula Mendes.
&
As crianças na Estação do Bem.

AGENDA:
Instituto de Belas Artes Vale do Una & muito mais na Agenda aqui.
&
O que sei do que aprendi, Manuel Bandeira, Josué Montello, Viveiros de Castro, Henri-Frédric Amiel, Viveiros de Castro, Wassily Kandinsky, Minami Keizi, Caetés, Fabio de Carvalho & Zé Ripe, Gal Costa & Beto Guedes aqui.
&
Criatividade & inovação na prática educativa, Paulo Freire, Lewis Carroll, Silvio Romero, A crise da educação de Philip Hall Coomb, Victor Brecheret, Arantes Gomes do Nascimento & Fábio de Carvalho, Guiomar Novaes & Sebastião Tapajós aqui.
&
Agrestina, Djavan & Lauryn Hill aqui.
&
Livros pras Crianças & Cantarau Tataritaritatá aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da cantora e instrumentista Isaar França: Azul Claro, Copo de Espuma, Todo Calor & Ensaio & muito mais nos mais de 2 milhões & 980 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quinta-feira, dezembro 13, 2018

GEORGE SAND, DELACROIX, WAGNERT TISO & ESTAÇÃO DO BEM CATENDE


QUEM O AMOR DE TANTOS AMORES – Imagem: George Sand, do pintor do Romantismo francês Eugène Delacroix (1798-1863) – Amandine nasceu como o dia e era Aurore, e podia ser Lucille com seus encantos, ou mesmo Dupin pelas ruas, ou: uma menina de muitos nomes e tantas aventuras. Ainda criança, uma queda do cavalo e o pai perde a vida às travessuras de infância com Hippolyte, sob os cuidados da avó atenta. E ao brincar, passa da conta, levada para um convento, se apaixona pelo silêncio e introspecção das paredes de pedra: diversões de espírito independente para música e teatro. Com a morte da avó, um novo sofrimento, o que seria dela sem mais ninguém. E para herdar Nohant, uma crise mística e um casamento com François: dois filhos e um divórcio por conta de tantas coisas e pela paixão repentina dela por Jules: uma frenética atividade e parceria no Le Figaro e Rose et Blanche. Para valer na vida, a menina tinha de ser menino – senão não haveria como realizar seus sonhos, havia de ser entre outros. E ganha do amor o pseudônimo, George: adota o vestuário masculino – um redingote-guérite, chapéu, calças, botas, gravata, o andar firme pelas ruas de fumante que causa escândalos, tudo para publicar Indiana e folhetins nos jornais. Vestida assim, não temia nada e dava volta ao mundo a qualquer hora da noite. No seu disfarce advogava o direito da mulher em dirigir sua própria vida e ter um amor sincero. Amiga entre eles, dela a amizade da atriz Marie e a acusação de lesbianismo e ninfomania. Que dissessem, nem dava conta nos braços de Prosper; mais falassem, envolveu-se num poema de Alfred com um convite na carta para a cela de uma reclusa: uma grande paixão arrebatada pelo vale do Rhône na companhia de Stendhal e ciúmes mútuos em Veneza, por conta da presença de certo médico Pagello. O amor, então, ruiu e ela logo se viu panfletária na companhia do advogado Michel: ideias republicanas e socialistas na defesa dos direitos da mulher e nas discussões com Flaubert, o desapontamento com a Revolução de 1848. Vieram então os prelúdios de Frédéric depois de uma festa com Liszt & Marie de Agoult. Ganhou dele a Polonesa Heróica e em retribuição, Lucrezia Floriani, a tradução do seu amor embalado por quase dez anos. Enquanto ele escutava, improvisava; quantos fantasmas rondavam, dele ir embora para nunca mais. Duma só vez a derrocada da paixão, a morte da neta e o amigo do filho aparece para ser seu secretário, ah, Alexandre, em seus braços para a Itália e, depois, Consuelo mais suas preocupações sociais e o Companheiro da viagem pela França, a inquietação viandante e deambulações de uma incansável que amava a vida e as pessoas. Outra amizade, a de Balzac, fez dela Seraphita: a androginia da ilustre hermafrodita, e vestida de homem era uma mulher que fazia carreira sozinha, sedutora feminina, desencadeando paixões avassaladoras enquanto melómana se encantava com tudo e pintava aquarelas dendritages para ganhar a vida e ser amante do teatro. E ela, a mulher se mostrava homem e tornava a ser mulher na intimidade, nunca se deixou vencer por contrariedades, a sonhar no amor fraterno unindo as classes sociais. Fez das suas memórias a história da sua vida: O romance não precisa ser necessariamente a representação da realidade. E viveu suas extremas paixões nas diversas formas de amar, como aclamada baronesa Dudevant ou afamado George, era ela, em Nohant da infância e da saudosa avó, da vida para a eternidade das páginas com todas as cenas do seu otimismo e ingenuidade. Dela, Victor Hugo: Eu choro uma morte e saúdo uma imortal. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Pois sua esposa tinha dezenove anos [...] se vocês a tivessem visto toda franzina, pálida, triste, o cotovelo apoiado sobre o joelho, ela tão jovem em meio a esse lar, ao lado de seu velho marido, parecia uma flor plantada ontem em um vaso gótico. Vocês teriam lamentado junto da esposa do coronel Delmare, e talvez o coronel mais ainda que sua esposa [...] Se ele a tivesse amado verdadeiramente, ele teria podido, sacrificando seu futuro, sua família e sua reputação, encontrar ainda a felicidade com ela, e, por consequência, fazê-la feliz; pois o amor é um contrato como o casamento. Mas desanimado como ele se encontrava então, qual futuro poderia dar a essa mulher? A desposaria para mostrar cada dia um rosto triste, um coração magoado, um interior desolado? A desposaria para torná-la odiosa para sua família, desprezível diante dos seus pares, ridícula diante dos criados, para correr o risco em uma sociedade onde ela se sentiria deslocada, onde a humilhação a mataria [...] Era uma dessa mulheres que atravessaram épocas muito diferentes, que seu espírito tomou toda a surpresa de seu destino, que foi enriquecido pela experiência da infelicidade, escapou das forcas de 93, dos vícios do Diretório, da vaidade do Império, dos rancores da restauração; mulheres raras, cuja espécie está perdida [...] Esposando Delmare, ela apenas trocou de dono, vindo morar em Lagny, apenas trocou de prisão e de solidão. Ela não amava seu marido, pela única razão talvez que fazia amá-lo um dever e resistir mentalmente a toda espécie de limitação social havia se tornado para ela uma segunda natureza, um princípio de conduta, uma lei do consciente. Não haviam procurado prescrever a ela outra coisa a não ser a obediência cega [...] Educada no deserto, negligenciada por seu pai, vivendo em meio aos escravos, ela não tinha outro socorro, outra consolação que sua compaixão e lágrimas, ela estava habituada a dizer: “Um dia virá em que tudo será mudado em minha vida, quando eu farei bem aos outros, um dia em que me amarão, e eu darei todo meu coração àquele que me der o seu; esperando, sofremos; calemo-nos, e guardemos nosso amor por recompensa a quem me libertará.” Esse libertador, esse messias não veio [...] Ignorante como uma verdadeira criola, Madame Delmare não havia até lá pesado os graves interesses que agora eram discutidos diante dela. Ela havia sido ensinada por sir Ralph, que tinha uma opinião medíocre da inteligência e do raciocínio das mulheres, e se limitava a lhe dar alguns conhecimentos positivos e de uso imediato [...] Eu não o quero mais, respondeu ela. Eu o queria ontem, era minha vontade; não é mais essa manhã. Você usou de violência me trancando em meu quarto; eu saí pela janela para lhe provar que você não pode reinar sobre a vontade de uma mulher, é exercer um império irrisório. Eu passei algumas horas fora da sua dominação; eu fui respirar o ar da liberdade para lhe mostrar que você não é moralmente meu senhor e que eu dependo apenas de mim sobre a terra. Passeando, refleti que eu, por dever e por consciência, tinha que voltar a me colocar sob seu patrocínio; eu o fiz de minha plena vontade [...] Assim, senhor, não perca seu tempo a discutir com minha convicção; você nunca me influenciará, perdeu o direito desde que o quis fazer pela força. Ocupe-se da nossa partida; estou pronta a ajudar e segui-lo, não porque essa é a sua vontade, mas porque essa é a minha intenção. Você pode me condenar, mas nunca obedecerei ninguém além de mim mesma [...] Para ela, a vida era um cálculo estóico, e a felicidade uma ilusão pueril da qual é necessário se defender como de uma febre e do ridículo [...] Madame Delmare não tentava lutar contra um destino traçado, contra uma vida quebrada e se deixou corroer pela fome, pela febre e pela dor, sem proferir uma queixa, sem derramar uma lágrima, sem tentar um esforço para morrer uma hora mais tarde, por sofrer uma hora a menos. Ela foi encontrada no chão, no dia seguinte ao segundo dia, endurecida pelo frio, os dentes serrados, os lábios pálidos, os olhos apagados; no entanto, ela não estava morta [...]
Trechos da obra Indiana (Omnibus, 1991), da escritora francesa George Sand (1804-1876).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista plástico do Romantismo francês Eugène Delacroix (1798-1863). Veja mais aquiaqui, aqui, aqui e aqui.

AGENDA:
Estação do Bem – Vem danado pra Catende & muito mais na Agenda aqui.
&
Uma coisa dentro da outra, Carl Gustav Jung, Mário Quintana, Zygmunt Bauman, João Cabral de Melo Neto, Dorothy Iannone, Escada, Gonzagão & Gonzaguinha aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música do músico, arranjador, regente, pianista e compositor Wagnert Tiso: Trem Mineiro, Preto e Branco, Trio ao vivo & Música Viva com Paulo Moura & muito mais nos mais de 2 milhões & 980 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.


quarta-feira, dezembro 12, 2018

ROSA LUXEMBURG, NÁ OZZETTI, ANNA GOGOLEVA & ESTAÇÃO DO BEM CATENDE.


AS PAIXÕES DE ROSA – Imagem: Rosa de Luxemburg, da artista visual italiana Anna Gogoleva. - Três décimos e tudo poderia ser diferente para Rozalia, a menina que crescia jogada sem concessões na embriaguez da vida. Três segundos e nada nela bastaria para não reprimir a alegria nem o desejo de ser feliz. Três horas e a migrante Róza de Zamosé com dores nos ossos do quadril, vivia a coxear como se dançasse rebelde para que lhe fosse negada pela inveja e discriminação a medalha de ouro do ginasial, escapando da prisão pela greve geral e tomasse rumo à Suíça sob a coação de novo encarceramento e ali conhecer Leo em Zurique e se ocupar do desenvolvimento industrial da Polônia. Três dias e o que falta e enerva da desordem, o sonho da casa aprazível independente da circulação da Bandeira Vermelha. Três semanas e o combate à rotina, o grande erro do levante espartaquista de janeiro, pacifista e escarnecida sob as ameaças truculentas e intoleráveis da obscuridade. Três anos e um grande amor nas cartas entre ela e Leo, as intrigas, os ciúmes, os tremores, não haverá de levar em conta o que circunda, mesmo que irrite, enlouqueça ou desnorteie, somente que se mantivesse o amor numa frequente correspondência, embora tivesse que se casar com Gustav em Berlim, por conveniência da cidadania alemã. Ao divorciar-se, às grades por rebeldia recorrente até a iminência de pena de morte. Apátrida, proscrita, condenada, sentia no peito o choro do búfalo ensanguentado pela violência do soldado, a dor terrível na cara preta de uma criança que sofria calada a fraqueza e a saudade. Três décadas e nada terá importância para indicar os novos caminhos sem direito à vida privada, com o condinome de sangrenta por sua agitação republicana apaixonada, incitando à desobediência civil no punho antimilitarista, para ser julgada e condenada em outra masmorra. Libertada, não havia mais para onde fugir, sentia apenas o coração de Paul e enfrentar a vida com coragem até ser capturada insurreta e espancada pelas milícias veteranas da Guerra, e ser fuzilada e jogada agonizante num curso de água gelada de janeiro no Landwehrkanal. Mesmo que seu corpo boiasse com o epitáfio de Brecht, nela a dedicação de forjar um futuro melhor para a humanidade: o ser humano foi criado para ser feliz como um pássaro para voar. E ela desde então ressuscita todos os dias para sempre. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Habitualmente nossa sociedade, como um todo, parece bastante próspera; ela preza a honestidade, a ordem e os bons costumes. Certamente existem lacunas e imperfeições no edifício e na vida do Estado. Mas o sol não tem também as suas manchas? E será que existe alguma coisa perfeita neste mundo? Os próprios trabalhadores, sobretudo os mais bem colocados, os organizados, acreditam de bom grado que no final das contas a existência e a luta do proletariado decorrem nos limites da honestidade e da prosperidade. A “pauperização” não é uma triste teoria há muito refutada? Todos sabem que existem albergues, mendigos, prostitutas, polícia secreta, criminosos e “elementos desonestos”. Mas habitualmente tudo isso é sentido como algo distante e estranho, situado em algum lugar fora da sociedade propriamente dita. Entre os trabalhadores honrados e esses excluídos existe um muro, e raramente se pensa na miséria que se arrasta na lama do outro lado do muro. [...] De tempos em tempos, vem uma crise, semanas e meses de desemprego, de luta desesperada contra a fome. E novamente o trabalhador consegue subir um degrau da engrenagem, feliz por poder novamente empregar seus músculos e nervos a serviço do capital.  Mas, progressivamente, as forças começam a faltar. Um período mais longo de desemprego, um acidente, a velhice que se aproxima – este, depois aquele, precisam agarrar o primeiro emprego que aparece, abandonam a profissão e deslizam irresistivelmente para baixo. Os períodos de desemprego tornam-se cada vez maiores; os empregos, cada vez mais irregulares. Em pouco tempo, o acaso domina a existência do proletário, a infelicidade o persegue, a carestia toca-o mais duramente que os outros. A energia perpetuamente tensa na luta por um pedaço de pão relaxa-se, por fim; a autoestima diminui – e lá está ele à porta do albergue dos sem-teto, ou à porta da prisão. Assim, a cada ano, milhares de existências proletárias afastam-se das condições de classe normais da classe trabalhadora para cair na escuridão da miséria. Eles caem silenciosamente como um sedimento que se deposita no fundo da sociedade, elementos usados, inúteis, dos quais o capital não pode retirar mais nenhuma seiva, lixo humano que é varrido com vassoura de ferro: contra eles ergue-se o braço da lei, da fome e do frio. E por fim a sociedade burguesa estende aos seus proscritos o copo de veneno. [...].
Trechos de No albergue, da filósofa e economista polaco-germana, Rosa Luxemburg (1871-1919), extraído da obra Rosa Luxemburgo ou o preço da liberdade  (Fundação Rosa Luxemburgo, 2015), de Jörn Schütrumpf. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual italiana Anna Gogoleva.
Veja mais aqui.

AGENDA:
Epifânio Bezerra na Estação do Bem – Vem danado pra Catende & muito mais na Agenda aqui.
&
A barata & o monstro, Mario Vargas Llosa, Jacques Rancière, Alain Badiou, Antonio Quinet, Bruno T0lentino, Roger de la Fresnaye & Francine Vaysse, Joaquim Nabuco, Wagnert Tiso & Ná Ozzetti aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da cantora e compositora Ná Ozzetti : Ná & Zé, Show, Álbum & Love Lee Rita & muito mais nos mais de 2 milhões & 970 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.
 

terça-feira, dezembro 11, 2018

CAMILLE CLAUDEL, HECTOR BERLIOZ, JOÃO BETHENCOURT & VEM DANADO PRA CATENDE


AMOR DE CAMILLE - Imagem da escultora francesa Camille Claudel (1864-1943) - A vida nos olhos de céu da menina guardavam as paisagens de Villeneuve com a pedra e a terra. Nas mãos o brinquedo e o impossível saiam-lhe ao jeito dos dedos para fazer de conta que fugia de casa, porque ali tudo era possível na infância de todas as quimeras. Era da menina a descoberta de todos os véus com o jeito de todas as coisas nas mãos, o que quisesse na magia manual, até esbarrar quase moça nas escolas que barravam as mulheres. Viu-se viajante do deserto e não fosse um gesto de abrigo, não saberia da gratidão a Alfred, apenas de antemão que seu mundo não era aquele, um tempo estrangeiro em que aprendia nas faces as dores futuras de tamanha desilusão: as dores de saber que ao redor todos só lhe dariam as costas e ter de sozinha construir seu próprio momento. O padecimento surgia de todos os lados, inclusive com o amor, a entrega e a solidão. Viu-se vitimada do castigo no abandono da mãe: deveria ter nascido menino e jamais se envolvesse com artes. Jamais preveria outras injustas sanções: de Paul, de Auguste, de todos os que fabricaram seu abandono e loucura. Para quem só saberia do amor nas faces de outra moeda: a dos amantes e rivais. Era cada vez mais íntima da dor, um aborto e o rompimento. Quase se salva com o apoio de Claude, foi maior o sofrimento da ausência do pai que se fora sem dizer adeus. Desconhecia a tragédia porque seu gênio maldito queria dançar a La Valse com o beijo enfeitiçado de Sakountala de Kalidasa. Ousou demais e a incompreensão levou-lhe ao confinamento no estúdio: aprendia o amargo da solidão, um passo para a miséria de roupas esfarrapadas, o esgotamento e a destruição. Não restava mais nada e se entregou ao cárcere da obscuridade do mundo no universo de seus sonhos em Montdevergues, abandonada por trinta anos, para enterrar toda vida e arte numa vala comum. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] LOCUTOR I – E as guerras prosseguem: o homem continuará a matar o homem para sempre, até o fim dos tempos. [...] SARA (Começa a bater nele com os punhos. Sam procura segurar-lhe as mãos) – Mas você é um doido, um doido de pedra! Todo ano você faz uma loucura para desgraçar a minha família. No ano passado você jogou a minha avó, que tem noventa anos, na piscina, para ver se ela boiava. No aniversário do meu pai, você ficou nu em pelo, em cima do bolo. Depois desfilou com os hippies e tirou as calças para protestar contra Biafra. Quando eu estava grávida de oito meses, com uma barriga deste tamanho, você me apresentava como “minha noiva”! SAM – Escuta aqui... SARA – Você enche o jardim de explosivos e diz que são minas contra a formiga. Você tira as calças no prédio da Dupont, para protestar contra a poluição. [...] SARA – Ah, como minha mãe tinha razão! Ah, como o meu pai tinha razão! Um louco! Não casa com Samuel Leibowitz, porque ele é louco. Todo mundo sabe que ele é louco. Desde criança que ele só faz coisas diferentes, que ele é diferente de todo mundo! É pacifista! Desfila com negros! Tira as calças na ONU. Mata formiga com explosivos! Mas não! Eu tive que ir atrás da minha fixação sexual. Eu tive que ir atrás desta minha maldita libido. Toma, pra aprender, toma! (Se esbofeteia.). [...] SARA – Primeiro um Papa, depois um Cardeal. Só falta Jesus Cristo descer pra tomar sopa com a gente. [...] SARA – Seremos crucificados. [...].
Trechos extraídos da peça teatral O dia em que raptaram o papa, do dramaturgo, diretor, ator e tradutor João Bethencourt (1924-2006), uma crítica à sociedade em um momento de trégua para as mazelas da humanidade.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da escultora francesa Camille Claudel (1864-1943). Veja mais aqui, aqui e aqui.

AGENDA:
Estação do Bem – Vem danado pra Catende & muito mais na Agenda aqui.
&
Palmares, sonhos & ventos, Tamara Kamenszain, Hermann Broch, Jennifer Rubell, Bertoldo Kruse, Alberto Passos Guimarães, Primavera, Orquestra Armorial & Quinteto Armorial aqui.
&
Começar, recomeçar & dois milhões de beijabrações, James Joyce, Joaquim Cardozo, Gilles Deleuze, Giorgio Agamben, Alexandre Buisse, Rodolfo Amoedo, Bezerros, Show de Calouros & Genésio Cavalcanti, Arrigo Barnabé & Vânia Bastos aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música do compositor francês Hector Berlioz (1803-1869): Symphonie Fantastique, Dream of a witches Sabbath, Requiem & Te Deum & muito mais nos mais de 2 milhões & 970 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Foto de Andréa Rêgo Barros/PCR. Veja mais aqui, aqui e aqui.


segunda-feira, dezembro 10, 2018

KLIMT, FAYGA OSTROWER, SELMA DO COCO, NITOLINO & AS MULHERES AMADAS


AS MULHRES AMADAS – The kiss (1907-1908), do pintor simbolista austríaco Gustav Klimt (1862-1918). - Sou o crepúsculo na tarde azul da Áustria para que elas sejam flores na paisagem campestre de Bauerngärten e no cenário dourado de todos os jardins dos céus e da terra, todas elas desabrochando da art nouveau para serem amadas e eternizadas por todos os tempos e espaços. É da candura e fortaleza delas a se mostrarem com suas curvas de verdadeiras joias seminuas e provocantes, com suas túnicas de estampagem africana que são as armadilhas de sedução num mundo conservador. Ah é de uma delas que recolho o beijo nos braços de Emilie Flöge e me insinuo pelas madeixas das ruivas pré-rafaelitas e pela geografia das sereias dos mais profundos mares perdidos, até sentir-me senhor da nudez fatal da dominação de Judith no palácio de Nínive expondo a cabeça do general assírio que sou eu vencido aos seus encantos e feitiços. É nelas que sou herança da ouriversaria para expressá-las nuas nos painéis da Universidade, tudo queimado pela perseguição nazista aos judeus, cinzas redescobertas ao vento de todas as direções. Elas em mim resistem e renascem Danae, Adele Bloch Bauer, Serena, Mada, Fritza, Adele, as de Toulouse e aquelas entre morangos bizantinos com suas almas ao som Schubert, muitas, todas, entre quatro paredes e na orgia da cor, para amá-las no universo de dourada vida, no floral que emana de seus corpos, no tom pastel que me encanta e nas pinceladas impressionistas que as revivem na viúva Úrsula, em Gertrud Loew e as que emergiram no sanatório da convivência com Mahler e Wittgenstein, e habitam nuas e recolhidas no atelier intacto com milhares de rascunhos e em desenhos e quadros preservados que resistiram até sucumbir à apoplexia. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] As potencialidades e os processos criativos não se restringem, porém, à arte. [...] O criar só pode ser visto num sentido global, como um agir integrado em um viver humano. De fato, criar e viver se interligam. [...] Criar é, basicamente, formar. É poder dar uma forma a algo novo. [...] O ato criador abrange, portanto, a capacidade de empreender; e esta, por sua vez, a de relacionar, ordenar, configurar, significar. [...] Nós nos movemos entre formas. Um ato tão corriqueiro como atravessar a rua – é impregnado de formas. [...] As formas de percepção não são gratuitas nem os relacionamentos se estabelecem ao acaso. [...] Nessa busca de ordenações e de significados reside a profunda motivação humana de criar. Impelido como ser consciente, a compreender a vida, o homem é impelido a formar. Ele precisa orientar-se, ordenando os fenômenos e avaliando o sentido das formas ordenadas; precisa comunicar-se com outros seres humanos, novamente através de formas ordenadas. [...] Ainda vinculado aos mesmos padrões coletivos, ele se desenvolverá enquanto individualidade, com seu modo pessoal de agir, seus sonhos, suas aspirações e suas eventuais realizações. [...]
Trechos extraídos da obra Criatividade e processos de criação (Vozes, 1997), da pintora, gravadora, desenhista, ilustradora, professor e teórica de arte brasileira nascida na Polônia, Fayga Ostrower (1920-2001). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor simbolista austríaco Gustav Klimt (1862-1918). Veja mais aquiaqui, aqui e aqui.

AGENDA:
Livros pras crianças & muito mais na Agenda aqui.
&
Publicações do Nitolino aqui.
&
A teia de Ixchel, Chantal Mouffe, Judith Butler, Lourenço Mutarelli, Viviane Mosé, Esther Erlich, Tamandaré, Vilmar Carvalho & Admmauro Gommes & Eliete Carvalho & Cavalcanti, Tom Jobim, Sarah Chang, John Lennon & Sinéad O'Connor aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da saudosa cantora e compositora Selma do Coco (1935-2015): Minha história Músicas do Nordeste, Jangadeiro, Areia & Meu sabiá & muito mais nos mais de 2 milhões & 960 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Foto de Andréa Rêgo Barros/PCR. Veja mais aqui.
 

TATIANA DE ROSNAY, VERONIKA KIVISILLA, NIALL FERGUSON & MARIA LAURA LOPES

  Imagem: Fluxo dos devires , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula porcina na cabeça!... -...