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quinta-feira, dezembro 13, 2018

GEORGE SAND, DELACROIX, WAGNERT TISO & ESTAÇÃO DO BEM CATENDE


QUEM O AMOR DE TANTOS AMORES – Imagem: George Sand, do pintor do Romantismo francês Eugène Delacroix (1798-1863) – Amandine nasceu como o dia e era Aurore, e podia ser Lucille com seus encantos, ou mesmo Dupin pelas ruas, ou: uma menina de muitos nomes e tantas aventuras. Ainda criança, uma queda do cavalo e o pai perde a vida às travessuras de infância com Hippolyte, sob os cuidados da avó atenta. E ao brincar, passa da conta, levada para um convento, se apaixona pelo silêncio e introspecção das paredes de pedra: diversões de espírito independente para música e teatro. Com a morte da avó, um novo sofrimento, o que seria dela sem mais ninguém. E para herdar Nohant, uma crise mística e um casamento com François: dois filhos e um divórcio por conta de tantas coisas e pela paixão repentina dela por Jules: uma frenética atividade e parceria no Le Figaro e Rose et Blanche. Para valer na vida, a menina tinha de ser menino – senão não haveria como realizar seus sonhos, havia de ser entre outros. E ganha do amor o pseudônimo, George: adota o vestuário masculino – um redingote-guérite, chapéu, calças, botas, gravata, o andar firme pelas ruas de fumante que causa escândalos, tudo para publicar Indiana e folhetins nos jornais. Vestida assim, não temia nada e dava volta ao mundo a qualquer hora da noite. No seu disfarce advogava o direito da mulher em dirigir sua própria vida e ter um amor sincero. Amiga entre eles, dela a amizade da atriz Marie e a acusação de lesbianismo e ninfomania. Que dissessem, nem dava conta nos braços de Prosper; mais falassem, envolveu-se num poema de Alfred com um convite na carta para a cela de uma reclusa: uma grande paixão arrebatada pelo vale do Rhône na companhia de Stendhal e ciúmes mútuos em Veneza, por conta da presença de certo médico Pagello. O amor, então, ruiu e ela logo se viu panfletária na companhia do advogado Michel: ideias republicanas e socialistas na defesa dos direitos da mulher e nas discussões com Flaubert, o desapontamento com a Revolução de 1848. Vieram então os prelúdios de Frédéric depois de uma festa com Liszt & Marie de Agoult. Ganhou dele a Polonesa Heróica e em retribuição, Lucrezia Floriani, a tradução do seu amor embalado por quase dez anos. Enquanto ele escutava, improvisava; quantos fantasmas rondavam, dele ir embora para nunca mais. Duma só vez a derrocada da paixão, a morte da neta e o amigo do filho aparece para ser seu secretário, ah, Alexandre, em seus braços para a Itália e, depois, Consuelo mais suas preocupações sociais e o Companheiro da viagem pela França, a inquietação viandante e deambulações de uma incansável que amava a vida e as pessoas. Outra amizade, a de Balzac, fez dela Seraphita: a androginia da ilustre hermafrodita, e vestida de homem era uma mulher que fazia carreira sozinha, sedutora feminina, desencadeando paixões avassaladoras enquanto melómana se encantava com tudo e pintava aquarelas dendritages para ganhar a vida e ser amante do teatro. E ela, a mulher se mostrava homem e tornava a ser mulher na intimidade, nunca se deixou vencer por contrariedades, a sonhar no amor fraterno unindo as classes sociais. Fez das suas memórias a história da sua vida: O romance não precisa ser necessariamente a representação da realidade. E viveu suas extremas paixões nas diversas formas de amar, como aclamada baronesa Dudevant ou afamado George, era ela, em Nohant da infância e da saudosa avó, da vida para a eternidade das páginas com todas as cenas do seu otimismo e ingenuidade. Dela, Victor Hugo: Eu choro uma morte e saúdo uma imortal. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Pois sua esposa tinha dezenove anos [...] se vocês a tivessem visto toda franzina, pálida, triste, o cotovelo apoiado sobre o joelho, ela tão jovem em meio a esse lar, ao lado de seu velho marido, parecia uma flor plantada ontem em um vaso gótico. Vocês teriam lamentado junto da esposa do coronel Delmare, e talvez o coronel mais ainda que sua esposa [...] Se ele a tivesse amado verdadeiramente, ele teria podido, sacrificando seu futuro, sua família e sua reputação, encontrar ainda a felicidade com ela, e, por consequência, fazê-la feliz; pois o amor é um contrato como o casamento. Mas desanimado como ele se encontrava então, qual futuro poderia dar a essa mulher? A desposaria para mostrar cada dia um rosto triste, um coração magoado, um interior desolado? A desposaria para torná-la odiosa para sua família, desprezível diante dos seus pares, ridícula diante dos criados, para correr o risco em uma sociedade onde ela se sentiria deslocada, onde a humilhação a mataria [...] Era uma dessa mulheres que atravessaram épocas muito diferentes, que seu espírito tomou toda a surpresa de seu destino, que foi enriquecido pela experiência da infelicidade, escapou das forcas de 93, dos vícios do Diretório, da vaidade do Império, dos rancores da restauração; mulheres raras, cuja espécie está perdida [...] Esposando Delmare, ela apenas trocou de dono, vindo morar em Lagny, apenas trocou de prisão e de solidão. Ela não amava seu marido, pela única razão talvez que fazia amá-lo um dever e resistir mentalmente a toda espécie de limitação social havia se tornado para ela uma segunda natureza, um princípio de conduta, uma lei do consciente. Não haviam procurado prescrever a ela outra coisa a não ser a obediência cega [...] Educada no deserto, negligenciada por seu pai, vivendo em meio aos escravos, ela não tinha outro socorro, outra consolação que sua compaixão e lágrimas, ela estava habituada a dizer: “Um dia virá em que tudo será mudado em minha vida, quando eu farei bem aos outros, um dia em que me amarão, e eu darei todo meu coração àquele que me der o seu; esperando, sofremos; calemo-nos, e guardemos nosso amor por recompensa a quem me libertará.” Esse libertador, esse messias não veio [...] Ignorante como uma verdadeira criola, Madame Delmare não havia até lá pesado os graves interesses que agora eram discutidos diante dela. Ela havia sido ensinada por sir Ralph, que tinha uma opinião medíocre da inteligência e do raciocínio das mulheres, e se limitava a lhe dar alguns conhecimentos positivos e de uso imediato [...] Eu não o quero mais, respondeu ela. Eu o queria ontem, era minha vontade; não é mais essa manhã. Você usou de violência me trancando em meu quarto; eu saí pela janela para lhe provar que você não pode reinar sobre a vontade de uma mulher, é exercer um império irrisório. Eu passei algumas horas fora da sua dominação; eu fui respirar o ar da liberdade para lhe mostrar que você não é moralmente meu senhor e que eu dependo apenas de mim sobre a terra. Passeando, refleti que eu, por dever e por consciência, tinha que voltar a me colocar sob seu patrocínio; eu o fiz de minha plena vontade [...] Assim, senhor, não perca seu tempo a discutir com minha convicção; você nunca me influenciará, perdeu o direito desde que o quis fazer pela força. Ocupe-se da nossa partida; estou pronta a ajudar e segui-lo, não porque essa é a sua vontade, mas porque essa é a minha intenção. Você pode me condenar, mas nunca obedecerei ninguém além de mim mesma [...] Para ela, a vida era um cálculo estóico, e a felicidade uma ilusão pueril da qual é necessário se defender como de uma febre e do ridículo [...] Madame Delmare não tentava lutar contra um destino traçado, contra uma vida quebrada e se deixou corroer pela fome, pela febre e pela dor, sem proferir uma queixa, sem derramar uma lágrima, sem tentar um esforço para morrer uma hora mais tarde, por sofrer uma hora a menos. Ela foi encontrada no chão, no dia seguinte ao segundo dia, endurecida pelo frio, os dentes serrados, os lábios pálidos, os olhos apagados; no entanto, ela não estava morta [...]
Trechos da obra Indiana (Omnibus, 1991), da escritora francesa George Sand (1804-1876).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista plástico do Romantismo francês Eugène Delacroix (1798-1863). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

AGENDA:
Estação do Bem – Vem danado pra Catende & muito mais na Agenda aqui.
&
Uma coisa dentro da outra, Carl Gustav Jung, Mário Quintana, Zygmunt Bauman, João Cabral de Melo Neto, Dorothy Iannone, Escada, Gonzagão & Gonzaguinha aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música do músico, arranjador, regente, pianista e compositor Wagnert Tiso: Trem Mineiro, Preto e Branco, Trio ao vivo & Música Viva com Paulo Moura & muito mais nos mais de 2 milhões & 980 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.


terça-feira, novembro 07, 2017

CECÍLIA MEIRELES, CAMUS, MARIE CURIE, IRENE DUARTE & RIBEIRÃO

O QUE FOI DO PASSADO – Imagem: arte da artista plástica Irene Duarte. - Uma tarde de maio Nazilma deu por conta do olhar insistente de Delzito. De início incomodava e como aquela afincada postura dele causava asco, rejeitava até. Depois de muitos flagrantes de dias, tardes e noites, acostumou-se. Antes repugnante, passou a ser prazeroso aquele fitar flamejante e firme, provocador, insistente, imantado. Ele mirava, ela correspondia, de soltar até um leve sorriso no canto da boca. Pronto, bastou, lá vinha ele em sua direção: Sabia que você tem o sorriso mais lindo mundo? Não. Saiba. Frases entrecortadas formadas por simpáticas reações de tímidos risinhos tornaram-se o preâmbulo para um mínimo de contato. Sem conseguirem encaixar uma conversa propriamente dita, lá se iam de sim em sim, que coisa, deixe disso, vamos lá, quando chegou a hora da despedida, um certo temor tomou conta de ambos. Ele adiantou-se meio desajeitado: A gente pode aprumar conversa qualquer hora dessa? Sim, por que não? Então, tá. Então, tá. Inté. Até logo. Cada qual pro seu lado, não antes conferência de uma virada de ambos, uma piscadela em sinal de adeus com um quase aceno distante. Mais dois ou três encontros, lá estavam em conversa animada. O assunto? Qualquer coisa, o que importava é que se deliciam com o que diziam, jogando conversa fora: Está vendo aquilo? Nossa, que coisa, hem? Já viu? Nunca pensei, mas é legal, nunca tinha prestado atenção. Pois é, também não. E aquilo ali? Estranho, né? É. Papo vai, palra vem, menos se espera já ocorrência de um namoro firme, noivado anos depois. Já era maio de uma década desde o primeiro flerte, ambos desposavam numa cerimônia simples, alguns familiares e uma lua de mel modesta num apartamento alugado. Amaram e se estranharam algumas vezes, trabalhavam para o sustento, sem filhos, atraídos um pelo outro cada vez mais, às juras de amor na madrugada, a pegação de manhã ao acordarem de sono pesado, as beliscadas mútuas no cruzamento dos corpos pelos cantos, as fantasias sensuais ao telefone antes de largar do expediente no trabalho, a correria de chegar em casa e surpreender quem chegasse primeiro, as brincadeiras de esconde-pega, os cochichos carinhosos com as escolhas dos fetiches nas indumentárias de enfermeira, bombeiro, escravos, dominação. Mais uma década e tramavam surpresas as mais imprevisíveis: no escurinho do cinema, na escadaria de prédios abandonados, nas esquinas inóspitas, lugares ermos, paragens insólitas. Realizavam-se amantes e amados, comodamente adequados aos quereres e prazeres recíprocos. Amavam e desamavam, se ajustavam, espalhavam brasa nos desentendimentos, se engalfinhavam nas pazes, arengavam nas vésperas, seguiam e se separavam vez ou outra, vai e vem durante três décadas. Um dia, Delzito sente uma dor no peito e bate as botas. Um choro interminável dominou Nazilma por todo velório. Era chegada a hora da última despedida, coração apertado, sepultamento concretizado. À noite densa dominava o silêncio, ela não sabia o que fazer, anestesiada, sem conseguir conciliar o sono, cochilava, teimando em ficar acordada. Adormecia e por um instante o domínio de um sonho: Venha me buscar, estou vivo, me socorra! Acordava atônita, aperreio aos extremos, prantos desolados, era ele veementemente insistindo para que ela fosse buscá-lo. Não sabia o que fazer. Dormitava envolvida na oníria presença dele chamando-a. Aquilo perseguiu a noite toda em claro. Ao amanhecer procurou amigos e foi encaminhada ao delegado. Este por sua vez despachou pro Juiz. Já final da tarde conseguira a autorização judicial para reabrir a cova, agitada, ansiosa, pás cavando, hora passando, o coração aos pulos, enfim, o caixão, ao removerem a tampa, ele estava de bruços, agora definitivamente morto, chegara tarde, pensara. E nunca mais conseguiu ser feliz. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui & aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com o guitarrista britânico de jazz John McLaughlin: Extrapolation & In after the rain; da pianista e compositor polonesa Felicja Blumental (1908-1991): Valsas de Chopin & Piano Português Espanhol; do músico, arranjador, regente, pianista e compositor Wagnert Tiso: Trem mineiro & Preto & Branco; e músicas com o talento e a arte da violonista francesa Ida Presti (1924-1967). Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - Cada pessoa deve trabalhar para o seu aperfeiçoamento e, ao mesmo tempo, participar da responsabilidade coletiva por toda a humanidade. Pensamento da cientista polonesa Prêmio Nobel de 1903 e 1911, Marie Curie (1867-1934). Veja mais aqui.

RIBEIRÃO - Ribeirão teve origem num aglomerado de casas populares, construídas em torno de uma capela sob a invocação de Santana, usto no séc. XVIII, segundo tradição local. Daí apareceu o Engenho Ribeirão, mais tarde a Usina Pinto, depois Usina Ribeirão, que contribuiu para o desenvolvimento do povoado. O seu progresso, com a abertura da estação da estrada de ferro Rio São Francisco, em 1862, foi grandemente acelerado. Em 1910 foi construído um ramal ferroviário, partindo de Ribeirão para Barreiros, e outro para Cortês, o que veio favorecer grandemente o município. O distrito foi criado por Lei municipal em 19 de agosto de 1895 e a sua sede foi elevada à categoria de vila por Lei estadual 991, de 01 de julho de 1909. O distrito pertencia ao município de Gameleira. A lei estadual 1931, de 01 de janeiro de 1928, criou o município de Ribeirão, cuja instalação ocorreu em 01 de janeiro de 1929. A sua sede foi elevada à categoria de cidade, pelo Decreto-Lei estadual 235, de 09 de dezembrop de 1938. Administrativamente, o município é formado pelos distritos sede, Aripibu e José Mariano e pelo povoado de Usina Estreliana. Anualmente, no dia 11 de setembro, a cidade comemora a sua emancipação política. Veja mais aqui.

O MITO DE SÍSIFO – [...] Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. São jogos. É preciso, antes de tudo, responder. E se é verdade, como pretende Nietzsche, que um filósofo, para ser confiável, deve pregar com o exemplo, percebe-se a importância dessa resposta, já que ela vai preceder o gesto definitivo. Estão aí as evidências que são sensíveis para o coração, mas é preciso aprofundar para torná-las claras à inteligência. [...]. Trecho extraído da obra  O mito de Sísifo: ensaio sobre o absurdo (Livros do Brasil, 2002), do escritor, dramaturgo e filósofo francês Albert Camus (1913-1960), abordando sobre a filosofia do absurdo, pela qual entende-se que o homem busca sentido, unidade e clareza no rosto de um mundo ininteligível desprovido de Deus e eternidade. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CÂNTICO II – CECÍLIA MEIRELES
Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens...
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que será assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue.
É a passagem que se continua
É a tua eternidade...
É a eternidade...
És tu.
Poema extraído da obra Cânticos (Moderna, 1981), da escritora, pintora, professora e jornalista Cecília Meireles (1901-1964). Veja mais aqui.

Veja mais:
Dia do Radilaista: a voz ao coração aqui.
A neurociência de Eric Kandel aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

A ARTE DE IRENE DUARTE
A arte da artista plástica Irene Duarte.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

quarta-feira, julho 19, 2017

MAIAKOVSKI, IDA PRESTI, HEMINGWAY, FELICJA BLUMENTAL, JOHN MCLAUGHLIN, WAGNERT TISO, CILDO MEIRELES & CAVERNA DAS MÃOS

QUANDO SE SENTIR SÓ, FALE COMIGO! - Imagem: A caverna das mãos, Patagônia, Argentina. - Vambora, contagem regressiva, vira a chave, dá partida e aciona o motor, nove, acelera, oito, apruma a direção, sete, debreia, seis, engata primeira, cinco, pé no canto e na táboa, quatro, tem que usar o cardan, três, tudo na marra, dois, força na munheca, um, leva tudo nos peitos, zero, simbora! Sacode a segunda, manda ver no solado pra terceira e pisa fundo, salta pra quarta, segura o pisado senão morre, o aclive é sempre íngreme, ajeita pra quinta: é agora ou nunca, a horagá, o Dia D! Bota fé na pesada e seja lá o que Deus quiser! Vai que o negócio é sério, largar em primeiro, seguir na frente, manter a dianteira, só para-choque sem língua de fora, viu? Mostra o ronco do leão, trocentos cavalos, saúde de bicho! Urra! Não olhe pra trá, nem pelo retrovisor, concentração na subida, ladeira sem fim, o céu por limite, só vale se chegar ao topo! Não tem que dar colher de chá pra ninguém, da goela pra baixo tudo é perna! Arriba! Não dê moleza, tem que aguentar o trupé! Avante! Não pode esmorecer, tem que ter gás sem precisar abastecer, manobra direito, não vá derrapar, vixe! Segura nos punhos, mostra quem é que vale mesmo ser a cocada preta! Segura o catombo, olhe o quebra-mola, empina a rieira, sai do atoleiro, olhe o roçado, se avie, use acostamento se preciso, vai no domínio das rédeas, não vá abrir da vela nem cagar fora do penico, dê seus pulos que você não é quadrado! Quando der pulo saiba como cair, aumente o pinote, não vá perder o equilíbrio na passada, ao rebolar não dê rabo de arraia nem cavalo de pau, segura o pencó, esporada no espinhaço do bicho! Olha a bandeirada! Chegou? Agora segura as pontas que pra descer todo santo ajuda embolando na ribanceira, pode findar relando a bunda no chão no maior deslizado de perder troféu e campeonato. Já que chegou ao ápice, agora é mostrar quem manda no riscado. Bote sua mola! Qualquer vacilo, queda feia e desenfreada de não saber nem onde vai parar, sacou? Se está em riba, veja como é que faz pra ficar por lá. Se puder, suba mais: cacunda dos outros pode ser mais que degrau! Se não der, se aguente, não vá fazer papel safado de se acovardar nem cair na leseira de virar a casaca. Logo aparecerão simpatizantes antes antipáticos, amigos antes algozes, parentes antes perdidos, achegados antes de costas, e se souber mandar bem no caqueado, terá sempre plateia aplaudindo até nas meladas, nas topadas e no que não era nem pra ser. Errar é humano, mas não erre demais. Mantenha o nariz empinado, peito estufado, a valentia em dia, se trastejar cai do burrico na maior cama de gato. Não se abestalhe, um olho no santo e outro no vigário, um dormindo e o outro acordado, se tiver de fazer, faça duma vez e bem feito, nunca conserte que empiora e dá mais trabalho ter de fazer tudo novo. Ria e ria sempre, fraquezas são perdedores, derrota é pra quem não tem imaginação. Se cuspir pra cima, saia debaixo; se for pedir penico, tenha humildade, aliás a maior nobreza é a humildade, antes um abraço que o poder da força, antes diálogo que empenado litígio, antes aperto de mão que quebra-de-braço. Tudo em cima? Se desceu, ache o chão antes da queda; se vê que vai se estrepar, melhor arrumar os muafos e pedir parada puxando a cigarra; se na eversão não achou mão alguma de apoio, é que adivinham a ruína como se fosse labéu, aí tudo vai pro beleleu! E se mangarem do tropeço, sorria e vá pensando como é que pode dá volta por cima só no truleu leu leu. E se procurar por alguém e não achar, não leve por desfeita, é que estão todos ocupados, babau. E se sentir ao rés-do-chão, talvez seja uma emergência, sobreviva, melhor curau que perdeu o bonde que ser levado na maior boiada. Enfim, quando se sentir só, fale comigo, estou aqui. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

O VELHO & O MAR DE HEMINGWAY
[...] Na treva, porém, sem clarão fulgindo, nem luzes, só com o vento e o firme impulso da vela, sentiu-se como se já estivesse morto. Juntou as mãos para sentir as palmas. Não estavam mortas, e era capaz de sentir a dor da vida, apenas com abri-las e fechá-las. Encostou as costas à popa, e reconheceu que não estava morto. Os ombros lho disseram. [...] "Não devo pensar em tolices. A sorte é coisa que vem de muitas formas. Quem sabe reconhecê-la? No entanto, eu aceitava alguma em qualquer forma, e pagava o que me pedissem. Quem me dera ver o clarão das luzes. Quem me dera tanta coisa! Mas é isto o que eu quero agora". Procurou instalar-se mais confortavelmente ao leme, e pela dor sabia que não estava morto. [...] Sentia-se dormente, dorido, e as feridas e as partes mais esforçadas do corpo doíam-lhe com o frio da noite. "Espero não ter de lutar mais, pensou. Tanto espero não ter de lutar outra vez!" Mas, por volta da meia-noite, lutou e dessa vez sabia que era inútil. Vieram em massa, e apenas via as linhas que as barbatanas abriam na água e a fosforescência deles ao atirarem-se ao peixe. Batia-lhes na cabeça, ouvia o estalo das queixadas, sentia o tremer do esquife quando eles mordiam por baixo. Batia-lhes desesperadamente no que apenas sentia e ouvia, e sentiu que alguém lhe agarrava no cacete, que se sumiu. Arrancou a cana do leme, e bateu e feriu com ela, segurando-a com ambas as mãos, abatendo-a vezes seguidas. Mas vinham pela proa, um após outro, juntos, arrancando pedaços de carne, que brilhavam dentro do mar quando eles se voltavam para um novo ataque. Veio, por fim, um, que se atirou à cabeça, e o velho viu que tudo acabara. Acertou com a cana na cabeça do tubarão, cujas maxilas estavam presas na dureza da cabeça do peixe, que se não rasgava. Vibrou a pancada uma, duas, três vezes. Ouvia a cana partir-se, e espicaçou o tubarão com a ponta estilhaçada. Sentiu-a penetrar e, ciente de que era aguçada, enterrou-a mais. O tubarão soltou-se e rolou para longe. Era o último tubarão do bando que aparecera. Nada mais havia de comer. O velho mal podia respirar, e sentia na boca um sabor estranho, adocicado, metálico, e por instantes teve medo. Mas não durou muito. Cuspiu para o oceano e disse: -- Comam isso, “galanos”. E fiquem a julgar que mataram um homem. Sabia-se irremediavelmente derrotado e voltou à popa e verificou que a ponta partida da cana encaixava no olhal do leme o suficiente para ele poder governar. Compôs o saco pelos ombros e repôs o esquife no rumo. Vogava ligeiro, e o velho não tinha pensamentos ou sentimentos nenhuns. Passara por tudo, e limitava-se a dirigir o barco para o porto, tão bem e tão inteligentemente quanto podia. Pela noite, tubarões atacaram a carcaça, como alguém pode apanhar migalhas da mesa. O velho não lhes prestou atenção e a nada prestava atenção senão ao leme. Apenas reparava em como o barco singrava bem, muito ligeiro, agora que não levava grande peso na borda. [...].
Trechos da obra O velho e o mar (Livros do Brasil, 1956), do escritor estadunidense & Prêmio Nobel de 1954, Ernest Hemingway (1899-1961), contando a história de um velho pescador que luta com um gigante marlim em alto mar. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

Veja mais sobre:
A esperança equilibrista, O espaço da cidadania de Milton Santos, Admirável mundo novo de Aldous Huxley, Os saberes da educação de Edgar Morin, a música de Vivaldi & Michala Petri, a fotografia de Andreas Feininger, a pintura de Gianluca Mantovani & Jose De la Barra, a arte de Daniele Lunghin & Dave Stevens aqui.

E mais:
Ah, se em todo lugar houvesse amor, Indivíduo reprimido de Herbert Marcuse, Ordem ao exército da arte de Vladimir Maiakovski, Testamento do teatro de Jerzy Grotowski, o cinema de Ken Loach & Eva Birthistle, Os saltimbancos de Chico Buarque, a pintura de Edgar Degas, O lobisomem Zonzo & Brincarte do Nitolino aqui.
A nuvem de calças de Maiakovski aqui.
Esfíngica amante aqui.
A liberdade de expressão, A natureza de Parmênides de Eléia, A filha de Agamenon de Ismail Kadaré, O poema sujo de Ferreira Gullar, O teatro essencial de Denise Stoklos, o cinema de o Ingmar Bergman & Liv Ullmann, a música de Badi Assad, a escultura de Emilio Fiaschi, a pintura de Gustav Klint & Vera Donskaya-Khilko, o Programa Tataritaritatá & muito mais aqui.
Aniversário de Aninha, A esritura & a diferença de Jacques Derrida, O narrador de Walter Benjamin, Bodas de sangue de Federico García Lorca, a música de Paulo Moura, a pintura de Cícero Dias & Rembrandt Harmenszoon van Rijn, a coreografia de Lia Robato, Greta Benitez & Brincarte do Nitolino aqui.
Cantando às margens do Una, Psicologia geral de Alexander Luria, Clonagem & células-tronco de Mayana Zatz, A criança de sempre de Reinaldo Arenas, a música de Heitor Villa-Lobos & Arthur Moreira Lima, a pintura de Joshua Reynolds & Carl Larsson, o cinema de Luchino Visconti & Alida Valli & Marcella Mariani, Ginger Rogers, a arte de Ana Paula Arósio & a poesia de Líria Porto aqui.
Maria Esperantina, orgasmo de uma noite & nunca mais, O sexo na história de Reay Tannahill, a poesia de Ascenso Ferreira, a literatura engajada de Ulrike Marie Meinhof, a música de Alceu Valença, a pintura de Xenia Hausner & a arte de Guazzelli aqui.
À procura da paternidade, Lenda, Mito & Magia, A trombeta do anjo vingador de Dalton Trevisan, Vivendo com as estrelas de Duília de Mello, a música de Cristina Braga & a pintura de Ernest Descals aqui.
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POEMA PÓSTUMO DE MAIAKOVSKI
Duas horas em breve. Estás deitada, talvez.
Na noite, como um Oka de prata a Via Láctea corre.
O tempo é meu, e os relâmpagos que eram meus telegramas,
Não mais te virão despertar, atormentar.
Comose diz: encerra-se o incidente.
A canoa do amor foi-se quebrar de encontro ao cotidiano.
Eis-me quite com a vida.
E é inútil o passar em revista penas, azares e recíprocas feridas.
Vê, que paz no universo.
A noite impôs ao céu a servidão de tantas estrelas.
Chegou a hora em que a gente se ergue e em que fala aos séculos,
À História, ao universo.
Poema póstumo, extraído da obra Autobiografia e poemas (Presença, 1977), do poeta, dramaturgo e teórico russo Vladimir Maiakovski (1893-1930). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje é dia de especiais com o guitarrista britânico de jazz John McLaughlin; da pianista e compositor polonesa Felicja Blumental (1908-1991); do músico, arranjador, regente, pianista e compositor Wagnert Tiso; e da violonista francesa Ida Presti (1924-1967). Para conferir é só ligar o som e curtir.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista plástico Cildo Meireles.
Veja mais aqui.
 

RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...