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quarta-feira, julho 19, 2017

MAIAKOVSKI, IDA PRESTI, HEMINGWAY, FELICJA BLUMENTAL, JOHN MCLAUGHLIN, WAGNERT TISO, CILDO MEIRELES & CAVERNA DAS MÃOS

QUANDO SE SENTIR SÓ, FALE COMIGO! - Imagem: A caverna das mãos, Patagônia, Argentina. - Vambora, contagem regressiva, vira a chave, dá partida e aciona o motor, nove, acelera, oito, apruma a direção, sete, debreia, seis, engata primeira, cinco, pé no canto e na táboa, quatro, tem que usar o cardan, três, tudo na marra, dois, força na munheca, um, leva tudo nos peitos, zero, simbora! Sacode a segunda, manda ver no solado pra terceira e pisa fundo, salta pra quarta, segura o pisado senão morre, o aclive é sempre íngreme, ajeita pra quinta: é agora ou nunca, a horagá, o Dia D! Bota fé na pesada e seja lá o que Deus quiser! Vai que o negócio é sério, largar em primeiro, seguir na frente, manter a dianteira, só para-choque sem língua de fora, viu? Mostra o ronco do leão, trocentos cavalos, saúde de bicho! Urra! Não olhe pra trá, nem pelo retrovisor, concentração na subida, ladeira sem fim, o céu por limite, só vale se chegar ao topo! Não tem que dar colher de chá pra ninguém, da goela pra baixo tudo é perna! Arriba! Não dê moleza, tem que aguentar o trupé! Avante! Não pode esmorecer, tem que ter gás sem precisar abastecer, manobra direito, não vá derrapar, vixe! Segura nos punhos, mostra quem é que vale mesmo ser a cocada preta! Segura o catombo, olhe o quebra-mola, empina a rieira, sai do atoleiro, olhe o roçado, se avie, use acostamento se preciso, vai no domínio das rédeas, não vá abrir da vela nem cagar fora do penico, dê seus pulos que você não é quadrado! Quando der pulo saiba como cair, aumente o pinote, não vá perder o equilíbrio na passada, ao rebolar não dê rabo de arraia nem cavalo de pau, segura o pencó, esporada no espinhaço do bicho! Olha a bandeirada! Chegou? Agora segura as pontas que pra descer todo santo ajuda embolando na ribanceira, pode findar relando a bunda no chão no maior deslizado de perder troféu e campeonato. Já que chegou ao ápice, agora é mostrar quem manda no riscado. Bote sua mola! Qualquer vacilo, queda feia e desenfreada de não saber nem onde vai parar, sacou? Se está em riba, veja como é que faz pra ficar por lá. Se puder, suba mais: cacunda dos outros pode ser mais que degrau! Se não der, se aguente, não vá fazer papel safado de se acovardar nem cair na leseira de virar a casaca. Logo aparecerão simpatizantes antes antipáticos, amigos antes algozes, parentes antes perdidos, achegados antes de costas, e se souber mandar bem no caqueado, terá sempre plateia aplaudindo até nas meladas, nas topadas e no que não era nem pra ser. Errar é humano, mas não erre demais. Mantenha o nariz empinado, peito estufado, a valentia em dia, se trastejar cai do burrico na maior cama de gato. Não se abestalhe, um olho no santo e outro no vigário, um dormindo e o outro acordado, se tiver de fazer, faça duma vez e bem feito, nunca conserte que empiora e dá mais trabalho ter de fazer tudo novo. Ria e ria sempre, fraquezas são perdedores, derrota é pra quem não tem imaginação. Se cuspir pra cima, saia debaixo; se for pedir penico, tenha humildade, aliás a maior nobreza é a humildade, antes um abraço que o poder da força, antes diálogo que empenado litígio, antes aperto de mão que quebra-de-braço. Tudo em cima? Se desceu, ache o chão antes da queda; se vê que vai se estrepar, melhor arrumar os muafos e pedir parada puxando a cigarra; se na eversão não achou mão alguma de apoio, é que adivinham a ruína como se fosse labéu, aí tudo vai pro beleleu! E se mangarem do tropeço, sorria e vá pensando como é que pode dá volta por cima só no truleu leu leu. E se procurar por alguém e não achar, não leve por desfeita, é que estão todos ocupados, babau. E se sentir ao rés-do-chão, talvez seja uma emergência, sobreviva, melhor curau que perdeu o bonde que ser levado na maior boiada. Enfim, quando se sentir só, fale comigo, estou aqui. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

O VELHO & O MAR DE HEMINGWAY
[...] Na treva, porém, sem clarão fulgindo, nem luzes, só com o vento e o firme impulso da vela, sentiu-se como se já estivesse morto. Juntou as mãos para sentir as palmas. Não estavam mortas, e era capaz de sentir a dor da vida, apenas com abri-las e fechá-las. Encostou as costas à popa, e reconheceu que não estava morto. Os ombros lho disseram. [...] "Não devo pensar em tolices. A sorte é coisa que vem de muitas formas. Quem sabe reconhecê-la? No entanto, eu aceitava alguma em qualquer forma, e pagava o que me pedissem. Quem me dera ver o clarão das luzes. Quem me dera tanta coisa! Mas é isto o que eu quero agora". Procurou instalar-se mais confortavelmente ao leme, e pela dor sabia que não estava morto. [...] Sentia-se dormente, dorido, e as feridas e as partes mais esforçadas do corpo doíam-lhe com o frio da noite. "Espero não ter de lutar mais, pensou. Tanto espero não ter de lutar outra vez!" Mas, por volta da meia-noite, lutou e dessa vez sabia que era inútil. Vieram em massa, e apenas via as linhas que as barbatanas abriam na água e a fosforescência deles ao atirarem-se ao peixe. Batia-lhes na cabeça, ouvia o estalo das queixadas, sentia o tremer do esquife quando eles mordiam por baixo. Batia-lhes desesperadamente no que apenas sentia e ouvia, e sentiu que alguém lhe agarrava no cacete, que se sumiu. Arrancou a cana do leme, e bateu e feriu com ela, segurando-a com ambas as mãos, abatendo-a vezes seguidas. Mas vinham pela proa, um após outro, juntos, arrancando pedaços de carne, que brilhavam dentro do mar quando eles se voltavam para um novo ataque. Veio, por fim, um, que se atirou à cabeça, e o velho viu que tudo acabara. Acertou com a cana na cabeça do tubarão, cujas maxilas estavam presas na dureza da cabeça do peixe, que se não rasgava. Vibrou a pancada uma, duas, três vezes. Ouvia a cana partir-se, e espicaçou o tubarão com a ponta estilhaçada. Sentiu-a penetrar e, ciente de que era aguçada, enterrou-a mais. O tubarão soltou-se e rolou para longe. Era o último tubarão do bando que aparecera. Nada mais havia de comer. O velho mal podia respirar, e sentia na boca um sabor estranho, adocicado, metálico, e por instantes teve medo. Mas não durou muito. Cuspiu para o oceano e disse: -- Comam isso, “galanos”. E fiquem a julgar que mataram um homem. Sabia-se irremediavelmente derrotado e voltou à popa e verificou que a ponta partida da cana encaixava no olhal do leme o suficiente para ele poder governar. Compôs o saco pelos ombros e repôs o esquife no rumo. Vogava ligeiro, e o velho não tinha pensamentos ou sentimentos nenhuns. Passara por tudo, e limitava-se a dirigir o barco para o porto, tão bem e tão inteligentemente quanto podia. Pela noite, tubarões atacaram a carcaça, como alguém pode apanhar migalhas da mesa. O velho não lhes prestou atenção e a nada prestava atenção senão ao leme. Apenas reparava em como o barco singrava bem, muito ligeiro, agora que não levava grande peso na borda. [...].
Trechos da obra O velho e o mar (Livros do Brasil, 1956), do escritor estadunidense & Prêmio Nobel de 1954, Ernest Hemingway (1899-1961), contando a história de um velho pescador que luta com um gigante marlim em alto mar. Veja mais aqui, aquiaqui e aqui.

Veja mais sobre:
A esperança equilibrista, O espaço da cidadania de Milton Santos, Admirável mundo novo de Aldous Huxley, Os saberes da educação de Edgar Morin, a música de Vivaldi & Michala Petri, a fotografia de Andreas Feininger, a pintura de Gianluca Mantovani & Jose De la Barra, a arte de Daniele Lunghin & Dave Stevens aqui.

E mais:
Ah, se em todo lugar houvesse amor, Indivíduo reprimido de Herbert Marcuse, Ordem ao exército da arte de Vladimir Maiakovski, Testamento do teatro de Jerzy Grotowski, o cinema de Ken Loach & Eva Birthistle, Os saltimbancos de Chico Buarque, a pintura de Edgar Degas, O lobisomem Zonzo & Brincarte do Nitolino aqui.
A nuvem de calças de Maiakovski aqui.
Esfíngica amante aqui.
A liberdade de expressão, A natureza de Parmênides de Eléia, A filha de Agamenon de Ismail Kadaré, O poema sujo de Ferreira Gullar, O teatro essencial de Denise Stoklos, o cinema de o Ingmar Bergman & Liv Ullmann, a música de Badi Assad, a escultura de Emilio Fiaschi, a pintura de Gustav Klint & Vera Donskaya-Khilko, o Programa Tataritaritatá & muito mais aqui.
Aniversário de Aninha, A esritura & a diferença de Jacques Derrida, O narrador de Walter Benjamin, Bodas de sangue de Federico García Lorca, a música de Paulo Moura, a pintura de Cícero Dias & Rembrandt Harmenszoon van Rijn, a coreografia de Lia Robato, Greta Benitez & Brincarte do Nitolino aqui.
Cantando às margens do Una, Psicologia geral de Alexander Luria, Clonagem & células-tronco de Mayana Zatz, A criança de sempre de Reinaldo Arenas, a música de Heitor Villa-Lobos & Arthur Moreira Lima, a pintura de Joshua Reynolds & Carl Larsson, o cinema de Luchino Visconti & Alida Valli & Marcella Mariani, Ginger Rogers, a arte de Ana Paula Arósio & a poesia de Líria Porto aqui.
Maria Esperantina, orgasmo de uma noite & nunca mais, O sexo na história de Reay Tannahill, a poesia de Ascenso Ferreira, a literatura engajada de Ulrike Marie Meinhof, a música de Alceu Valença, a pintura de Xenia Hausner & a arte de Guazzelli aqui.
À procura da paternidade, Lenda, Mito & Magia, A trombeta do anjo vingador de Dalton Trevisan, Vivendo com as estrelas de Duília de Mello, a música de Cristina Braga & a pintura de Ernest Descals aqui.
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POEMA PÓSTUMO DE MAIAKOVSKI
Duas horas em breve. Estás deitada, talvez.
Na noite, como um Oka de prata a Via Láctea corre.
O tempo é meu, e os relâmpagos que eram meus telegramas,
Não mais te virão despertar, atormentar.
Comose diz: encerra-se o incidente.
A canoa do amor foi-se quebrar de encontro ao cotidiano.
Eis-me quite com a vida.
E é inútil o passar em revista penas, azares e recíprocas feridas.
Vê, que paz no universo.
A noite impôs ao céu a servidão de tantas estrelas.
Chegou a hora em que a gente se ergue e em que fala aos séculos,
À História, ao universo.
Poema póstumo, extraído da obra Autobiografia e poemas (Presença, 1977), do poeta, dramaturgo e teórico russo Vladimir Maiakovski (1893-1930). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje é dia de especiais com o guitarrista britânico de jazz John McLaughlin; da pianista e compositor polonesa Felicja Blumental (1908-1991); do músico, arranjador, regente, pianista e compositor Wagnert Tiso; e da violonista francesa Ida Presti (1924-1967). Para conferir é só ligar o som e curtir.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista plástico Cildo Meireles.
Veja mais aqui.
 

terça-feira, julho 21, 2015

ARIÈS, ARTAUD, HEMINGWAY, MAWACA, MALFITANO, CELINA FERREIRA, SEAN YOUNG, ORLIK, MILES MATHIS & PADRE BIDIÃO!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? CADÊ O PADRE BIDIÃO? (Imagem do artista plástico Rolandy Silvério)– Foi o amigo Marcos Alexandre Martins Palmeira quem, num dia do maior desalinhamento dos planetas e das incidências mais insólitas que possa acometer qualquer cristão, me apresentou ao Padre Bidião. Não fosse ele, eu morreria na maior das mais agudas das ignorâncias, não tomando conhecimento do Evangelho, dos clones e de nada das grandes realizações dessa extraordinária figura religiosa que já contei aqui e tenho muito pra contar. Não só o padre, como foi ele quem me apresentou à Manguaba, o verdadeiro cinema transcendental alagoano, paragem inspiradora que me fez compor o frevo em homenagem às comunidades de Pilar e Marechal Deodoro – a Madalena do Sul, primeira capital da comarca de Alagoas. Também foi por ele que conheci figuras que passaram a personagens vivinhos das minhas contações, como o ocrídio Mamão, o intrépido Afredo Bocoió, o etiquetado Beliar, o culinarista e florista Jaime Lombreta-boca-de-frô, o radialista extraordinário Fernando-Bráulio-cabeça-de-bilau, o Miguel Onço Palmeira, o lobisomem zonzo, a dupla presepeira Tolinho & Bestinha, o defunto do dedo azul, toda trupe do Big Shit Bôbras e lá vai mais teibei! (não bastando ter sido ele que levou o Doro a ser o que virou, destá!). Isso tudo é o resultado de muitos anos de pileques, doideiras, mungangas, fuleragens – deixa eu contar, 10, 20, vinte e dois anos de insanidades e desvarios -, justificados pelos mais diversos apelidos que o rapaz amealhou (de Larry leurel – em homenagem aos Patetas -, doidim, maluquim e por aí vai, de até a família dele me advertir que ele seria uma má companhia para mim), para caracterizá-lo como um sujeito que não bole bem das bolas no quengo, como diz o nosso amigo Junior Au-au. Ah, mas se não fosse ele, eu não teria escrito o Lobisomem Zonzo, o Alvoradinha, nem os frevos da Folia Caeté, nem o sacado o mote de Desnorteio, muito menos conhecido as risíveis figuras dos doutores Deraldo e Gelsinho, o Dr. Sebastião – o homem de punho forte -, o cesarino Dennys, o Didi-papa-cu, o barbeiro Ocride, o profeta Clóvis e outros tantos amalucados dos rincões miguelense e pilarense. Deveras, foi outro sujeito que chegou junto, na horagá e que devo muito e das boas – vixe, tô aumentando o rol dos meus credores na lista infinda da minha Serasa das amizades. Apois é, não fosse a inafastável erudição psicológica inata da Dona Liciene e a intervenção providencial da fisioterapeuta de doido Daniele-Daninha, o cabra estaria desajustando a órbita dos planetas e dando muito trabalho à humanidade. Sujeito bom, cabra dos a favor e dos momentos periclitantes, meritório, indubitavelmente, da minha mais eterna gratidão. (Eita! Agora que me dei conta que ia contar a mais nova do Padre Bidião e findei enrolando! Ah, é que pra mim todo dia é dia do amigo e de cultivar a amizade. Depois eu conto do Padre Bidião, prometo). E vamos aprumar a conversa conferindo mais dele aqui e mais aqui

Imagem: Ruhende, do pintor tcheco Emil Orlik (1870-1932). Veja mais aqui.

Curtindo o dvd Ikebanas Musicais (Teatro Paulo Autran, 2012), do grupo Mawaca.

História social da criança e da família (LTC, 1981), do historiador e filósofo francês Philippe Ariès (1914-1984), aborda sobre os temas do sentimento da infância, as idades da vida, a descoberta da infância, o traje das crianças, história dos jogos e brincadeiras, do despudor à inocência, os sentimentos da infância, a vida escolástica, jovens e velhos escolares da Idade Média, origem das classes escolares, as idades dos alunos, os progressos da disciplina, escola e duração da infância, família, família medieval e moderna, sociabilidade, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho As idades da vida: Um homem do século XVI ou XVI, ficaria espantado com as exigências de identidade civil que nós nos submetemos com naturalidade. Assim que nossas crianças começam a falar, ensinamos- lhes seu nome, o nome de seus pais e sua idade. Ficamos muito orgulhosos quando Paulinho, ao ser perguntado sobre sua idade, responde corretamente que tem dois anos e meio. De fato, sentimos que é importante que Paulinho não erre: que seria dele se esquecesse sua idade? Na savana africana a idade é ainda uma noção bastante obscura, algo não tão importante a ponto de não poder ser esquecido. Mas em nossas civilizações técnicas, como poderíamos esquecer a data exata de nosso nascimento, se a cada viagem temos de escrevê-la na ficha de policia do hotel, se a cada candidatura, a cada requerimento, a cada formulário a ser preenchido, e Deus sabe quantos há e quantos haverá no futuro, é sempre preciso recordá-la. Paulinho dará sua idade na escola e logo se tornará Paulo, a turma X. Quando arranjar seu primeiro emprego, junto com sua carteira de trabalho, receberá um número de inscrição que passará a acompanhar seu nome. Ao mesmo tempo, e até mesmo mais do que Paulo N., ele será um numero, que comecará por seu sexo, seu ano e mês de nascimento. Um dia chegará em que todos os cidadãos terão seu número de registro: esta é a meta dos serviços de identidade. Nossa personalidade civil já se exprime com maior precisão através de nossas coordenadas de nascimento do que através de nosso sobrenome. Este, com o tempo, poderia muito bem não desaparecer, mas ficar reservado à vida particular, enquanto um número de identidade, em que a data de nascimento seria um dos elementos, o substituiria para o uso civil [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

O SOL TAMÉM SE LEVANTA – O romance O sol também se levanta (The Sun Also Rises, 1926), do escritor estadunidense Ernest Hemingway (1899-1961), trata sobre um grupo de expatriados sediados em Paris, inspirado no próprio círculo de escritores e artistas frequentado pelo autor, uma geração perdida que vagava pela cidade sem transformar nada, mas cheia de ambição, retratando o cotidiano desses boêmios após o término da Primeira Guerra Mundial. A ação se desenrola com a paixão do protagonista e narrador da história que trabalha como repórter e se apaixona por uma  mulher de personalidade fútil, que trata os homens como simples objetos e envolve-se com vários deles, apesar de ser comprometida. Da obra destaco o trecho do capítulo XVI: No dia seguinte, de manhã, chovia. Um nevoeiro vindo do mar cobria as montanhas. Não se podia ver o seu cimo. O planalto estava sombrio e triste e a forma das arvores e das casas havia mudado. Saí da cidade para observar o tempo. O mau tempo vinha do mar, por cima das montanhas. Na praça as bandeiras molhadas pendiam dos mastros brancos e as bandeirolas de encontro às fachadas das casas pendiam também úmidas. A garoa ininterrupta transformava-se às vezes em chuva pesada, fazendo toda a gente correr a refugiar-se nas arcadas e formando poças de água na praça. As ruas estavam molhadas, escuras, desertas. E, contudo, a festa continuava, sem pausa. Apenas, punha-se ao abrigo. A multidão invadira os lugares cobertos das arenas e todo o mundo fora assistir aos concursos de cantores e dançarinos bascos e navarreses. Em, seguida, os cantores de Val Carlos, com seus trajes característicos, tinham dançado na rua, ao som oco e úmido de tambores. Os chefes dos grupos os precediam, montados em seus grandes cavalos de patas pesadas, com seus trajes molhados, e as gualdrapas dos cavalos também gotejantes da chuva. A multidão se reunira no café e os dançarinos entraram por sua vez, sentaram-se, com as pernas brancas, enfaixadas, sob a mesa. Sacudiam a água de seus gorros de guizos e estendiam as vestes vermelhas sobre as cadeiras para secar. Lá fora chovia a cântaros. Deixei meu grupo no café e voltei ao hotel, para barbear-me antes de jantar. Ia começar, quando bateram à porta do meu quarto [...]. Veja mais aqui e aqui.

ESPELHO CONVEXO – No livro Espelho Convexo (Movimento/INL, 1973), da poeta mineira Celina Ferreira, encontro o poema Espelho e face: Procuro no espelho / a face remota. / Não aquela que é visível. / A que o vidro não comporta. / Retiro-a, sem medo, / descubro-a, ignota. / Não a face que percebo / em mim mesma, superposta. / Mas imagem lúcida, / clara e luminosa, / que cada dia enterrara / sob a face que está morta. Também o poema Espelho: O tempo foi destruído / na fina face do espelho. / O ontem virou agora / o amanhã chegou mais cedo. / (Capto imagens / perdidas. / Brilho em pânico, / presa de um cristal / único.) / O tempo foi redimido, / distância não é segredo. / Mas o mistério profundo / é a pátima do espelho. E o poema homônimo que dá título à obra: Que reino lúcido, / liso e perfeito, / que se aprofunda / na superfície / do meu segredo! / Vejo-me: o duplo / de mim, liberto / no mundo líquido, / água, azulejo. / Move-se o duplo / sou eu que o vejo? / Elfo, no estanho / azul do espelho. / Colo meu rosto / à face esquiva / que me repete, / grave e precisa, / na densa tela / de prata líquida. / Beijo meu beijo / que me hostiliza, / mergulho os olhos / nos olhos duros / que me fustigam. / Além, meu duplo / zomba de mim. / Ri do meu riso / se me duplico / no seu sorriso / cúmplice e afim. / Eros e Anteros, / eu e meu duplo / no mundo, espelho / no mundo, espelho / que não tem fim. Veja mais aqui.

O TEATRO E SEU DUPLO – O livro O teatro e seu duplo (Martins Fontes, 1993), do poeta, ator, dramaturgo e diretor de teatro francês Antonin Artaud (1896-1948), aborda temas como teatro e a cultura, encenação e a metafísica, teatro alquímico, teatro de Bali, oriental e ocidental, obras-primas, o teatro e a crueldade, linguagem, atletismo afetivo, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho Neutro feminino masculino: Quero experimentar um feminino terrível. O grito da revolta pisoteada, da angústia armada em guerra e da reivindicação. É como a queixa de um abismo que se abre: a terra ferida grita, mas vozes se elevam, profundas como o buraco do abismo, e que são o buraco do abismo que grita. Neutro. Feminino. Masculino. Para lançar esse grito eu me esvazio. Não de ar, mas da própria potência do ruído. Ergo à minha frente meu corpo de homem. E, lançando sobre ele o "olho" de uma horrível mensuração, ponto a ponto forço-o a entrar em mim. O ventre, primeiro. É pelo ventre que o silêncio deve começar, à direita, à esquerda, no ponto dos estrangulamentos herniários, onde operam os cirurgiões. Masculino, para fazer sair o grito da força, apoiar-se-ia primeiro no ponto dos estrangulamentos, comandaria a irrupção dos pulmões na respiração e da respiração nos pulmões. Aqui, infelizmente, acontece o contrário e a guerra que quero fazer vem da guerra que fazem contra mim. E em meu Neutro há um massacre! Você compreende, há a imagem inflamada de um massacre que alimenta minha guerra. Minha guerra se alimenta de uma guerra, e cospe sua própria guerra. Neutro. Feminino. Masculino. Existe nesse neutro um recolhimento, a vontade à espreita da guerra, e que fará sair a guerra, com a força de seu abalo. O Neutro às vezes é inexistente. É um Neutro de repouso, de luz, de espaço enfim. Entre duas respirações, o vazio se amplia, mas então ele se amplia como um espaço. Aqui é um vazio asfixiado. O vazio apertado de uma garganta, onde a própria violência do estertor obstruiu a respiração. É no ventre que a respiração desce e cria seu vazio de onde volta a arremessá-lo para o alto dos pulmões. Isso significa: para gritar não preciso da força, preciso apenas da fraqueza, e a vontade partirá da fraqueza, mas viverá, a fim de recarregar a fraqueza com toda a força da reivindicação. [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.


IMAGEM DO DIA
A premiadíssima soprano estadunidense Catherine Malfitano (1997) interpretando a dança dos sete véus da ópera Salomé, Op. 54, de Richard Strauss, baseada na obra de Oscar Wilde, com a Orchestra of the Covent Garden Opera London, regie Luc Bondy.

PROGRAMA TATARITARITATÁ – O programa Tataritaritatá que vai ao ar todas terças, a partir das 21 (horário de Brasilia), é comandado pela poeta e radialista Meimei Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Confira a programação desta terça aquiNa programação: Hermeto Pascoal, Charlotte Gainsbourg, Egberto Gismonti, Chico Buarque, All Jarreau, Milton Nascimento, Pink Floyd, Djavan, Sonia Mello, Elisete Retter, Franco do Valle, Rosana Simpson, João Pinheiro, Lilian Pimentel, César Weber, Ricardo Machado, Marisa Serrano, Beto Saroldi, Jarbas Barros, Santanna O Cantador, Mazinho, Zé Ripe&Paulo Profeta, Wilfried Berck, Cat Stevens, Romeo Santos, Henry Mancini & Lola Albright, Kim Carnes, Chris Cornell, Raphael Veronese, Martina McBride, Sandi Patty, Kim Waters, & muito mais. Veja mais aqui

Veja mais sobre:
Se não vai de um jeito, vai de outro, A marcha da insensatez de Barbara Tuchman, Eduque com carinho de Lidia Natalia Dobrianskyj Weber, a música de Kyung-Wha Chung, a pintura de Joan Miró & Eugène Leroy, a arte de Anna Dart & Eugene J. Martin,.a poesia de Bárbara Lia, a fotografia de Faisal Iskandar, Revista Poética Brasileira & Mhário Lincoln aqui.

E mais:
O übermensch de Nietzsche, Processo civilizador de Norbert Elias, O caminho dos sonhos de Marie-Louise von Franz, Simon Bolívar, sonetos de Lope de Vega, a música de Saint-Saëns & Denise Duval, Salomé de Oscar Wilde, o cinema de Carlos Saura, a arte de Sarah Bernhardt, a pintura de Ernst Hochschartner & Janet Agnes Cumbrae Stewart aqui.
Eu etiqueta de Carlos Drummond de Andrade, Formação da Literatura Brasileira de Antônio Cândido, a música de Adolphe-Charles Adam, a pintura de Antonio Bedotti Organofone, a arte de Benedito Pontes & a poesia de Ana Mello aqui.
Robimagaiver & pipoco da porra aqui.
Dr. Ciuça Gorda & os cavaleiros do pós-calipso do nó cego, As aporias de Zenão de Eleia, os sonetos de Francesco Petrarca, O teatro situação de Jean-Paul Sartre, Viridiana de Luis Buñuel & Silvia Pinal, a escultura de Denise Barros, a música de Carlos Santana, a pintura de Max Liebermann & Georgy Kurasov aqui.
Sou mato, sou mata, sou Mata Atlântica, A hora dos ruminantes de José J. Veiga, Técnicas de teatro popular de Augusto Boal, a música de Peter Scartabello, a arte de Patricia Galvão – Pagu & Pristine Cartera, a pintura de Georges Rouault & Tom Fedro aqui.
O desenlace da paquera entre Melzinha & Brothão, Aracelli, meu amor de José Louzeiro, Violência doméstica & sexual de Lucidalva Mª do Nascimento, a música de Geraldo Azevedo & Neila Tavares, Violência contra a mulher, a arte de Yukari Terakado, Nina Kuriloff & Geneviève Salamone, Marcha das Vadias, Todo homem que maltrata uma mulher não merece jamais qualquer perdão aqui.
Sujeito, indivíduo, quem?, Principios fundamentais de Filosofia, Folhas da relva de Walt Whitman, Ecce homo de Friedrich Nietzsche, Bailarina de Claudio Adrian Natoli, a música de Emmanuelle Haïm, a arte de Emerson Pingarilho & Kate Wiloch, Sally Trace, a pintura de Lasar Segall & Carolyn Anderson aqui.
Se não deu e fedeu, só na outra, meu!, A literatura fantástica de Tzvetan Todorov, 47 contos de Juan Carlos Onetti, a poesia de Carlos Drummond de Andrade, a música de Yann Tiersen, a fotografia de JR, a pintura de Asha Carolyn Young, a xilogravura de Marcelo Soares, a arte de Luiz Paulo Baravelli, Kenny Cole & Tom Wesselmann aqui.
O sisifismo da semana, Tempo & expressão literária de Raúl H. Castagnino, Quingunbo & a poesia norte-americana, a pintura de Mary Addison Hackett & Alain Bonnefoit., a música de Paulinho da Costa & Meghan Lindsay, a arte de Steve Hester & Robert Rauschenberg, a arte urbana de Nina Moraes & Trampo aqui.
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Brincar para aprender aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Fecamepa – quando o Brasil dá uma demonstração de que deve mesmo ser levado a sério aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Blue blanket – oil on wood, do artista plástico Miles Mathis.
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
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SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

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