segunda-feira, setembro 25, 2017

FAULKNER, PIVA, BOURDIEU, FUREDI, LIA CHAIA, VITOR DA FONSECA, PALHAÇOS, SOCORRO DURÁN & AMANDA DUARTE

POETASTRO METE AS CATANAS SEM ENTENDER DO RISCADO – Imagem: Xilogravura de Amanda Duarte. - Nada dava certo mesmo pras bandas do Doro, tudo gorava de choco e ele nem se emendava: partia pra outra. Dessa vez abandonou a candidatura a presidente, queira mais saber não de política, isso é lá coisa prum sujeito como eu! Que se danem! E saiu vasculhando o que danado ele ia fazer da vida dagora em diante. Perambulando pela feira, ele deu de cara com dois repentistas glosando o maior mote. Ficou de mutuca e acompanhando tudo: vamos sapecar umas parcelas? Vamos de galope à beira-mar, compadre! Agora um desafio malcriado! Uma taboada pequena, uma carretilha, um quebra cabeça, um gabinete repetido, nove palavras por seis, língua d’Angola, dez de adivinhação, coqueiro da Bahia, martelo alagoano, desmancha, rojão pernambucano, trava-língua, ligeira, oitava, dez de queixo caído, quadrão perguntado, mourão voltado, gemedeira, e de pé quebrado, chega, vamos emborcar a viola! Ele prestou atenção em tudo perdendo a noção do tempo: oxe, esses cabras não cantam nada. Vou ser o melhor cantador, ah, se vou! E foi ver os preços das violas, não tinha um tostão furado; valeu-se de duas folhas de compensado e caiu no maior teitei: agora vou me danar no dedilhado da maior violada. Nessa hora chega Robimagaiver e ele ensaia pra ele: ah, se quer ser poeta, o doutor lá do banco disse que a melhor poesia é o soneto. Gostei do nome, vou ser sonetista! Danou-se! E castigou no blem blem desafinando a goela das tripas coração. Foi, então, que cometeu uns versos, logo se achou o pencó do trupé, lascando uns cordéis desajeitados, até cair nas graças dum abastado comerciante que apadrinhou sua empreitada: publicar um livro. Vixe! O bocó cresceu os olhos misturando rimas de nenhuma métrica, decorando tudo a dizer como improviso – na verdade o pior goteira, um meia-tigela. Foi se deparar com o embolado do coco: ah, vou ser o mais afamado coquista! Não deu outra: garranchou numa tuia de folhas de papel na maior das garatujas, juntou tudo e foi ter com o mecenas que empurrou o calhamaço pruma gráfica e, tempos depois do ajustado e aprazado, estava ele com o opúsculo embaixo do sovaco, pra cima e pra baixo, todo ancho e virado da breca! Topou com uns doutores que se diziam poetas e logo estava reunido com o tabelião, o tenente, o contador e outros embecados que recitavam seus plectros e loas como se vates de calibre, bardos da melhor cepa. Falaram duma academia que ele fez de tudo para participar. A exigência era a publicação de um livro, oxe, moleza pra ele, depositou o seu na hora, nem leram, muito menos abriram uma página só que fosse e já deram por acadêmico. Dia lá de reunião, intrometeu-se no meio, viu de tudo que foi zoada e já se imaginava desfilando sobre o tapete vermelho da fama: agora esse povinho terá de me bajular porque virei especial dos especiais, todos terão que lamber o solado dos meus pés. Ufanou-se, maior venta empinada, peito estufado com ar desprezo e indiferença para todos, do Afredo esconjurá-lo por cu doce: agora só todo metido com um deus no bucho, metido a cheio das pregas. Doro nem nem, nada lhe atingia o espinhaço pronto pra desancar o primeiro que lhe aparecesse, só nos compadrios com letrados, dado a ser tal qual beletrista de respeito. Já não cumprimentava mais ninguém, só os seus doutos achegados, mais nada: essa bugrada só merece desprezo! Não me misturo mais não com essa gentinha porqueira. Destá. Era chegada a hora prele se amostrar diante de todos na academia, cobravam-no uma apresentação e não se fez de rogado: abriu a caixa dos peitos e lascou mastigado torando aço, rompendo pé-de-parede como se cantasse ciência, fugia da mira no meio do trabalho feito, mas mantinha a toada própria no maior caqueado da obrigação repetida e enrolada, até rapar a violada, esperando a paga e aplausos. Maior burburinho inquietante, quando um lá se levantou: isso é lá desgraça de coisa que se apresente, homem? Não deu, maior opróbrio, rabinho entre as pernas, Doro escafedeu-se de nunca mais dar as caras. Diziam maldizentes: bem empregado praquele desinfeliz, todo castigo pra corno é pouco! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com os álbuns Coisa mais maior de grande, Moleque Gonzaguinha & Caminhos do Coração, do cantor e compositor Luiz Gonzaga Junior – o Gonzaguinha (1945-1991); o Concerto para Violino de Bach, Chiacona Bertali & Elbo Telemann da violinista e maestro britânica Rachel Podger; Do samba e do jazz, The Man, Diamante verdadeiro e Sway com a atriz, locutora, escritora, cantora e compositora Bia Sion; e os poemas Quem transou com a Madonna no Brasil?, Nada vai apagar meu sorriso, Sexo em Moscou, 100 Vitrines & Picareta Cultural do poeta, ator e roteirista Mano Melo. Para conferir é só ligar o som e curtir.

ERA DA INCERTEZA: TERAPIA & VULNERABILIDADE -  [...] A invasão do ethos terapêutico nas outras profissões e formas de autoridade é particularmente admirável na relação com seus antigos competidores – as instituições religiosas. Recentemente, o Arcebispo de Canterbury afirmou que a terapia está substituindo o cristianismo nos países do ocidente. De acordo com o Arcebispo Carey, “Cristo, o Salvador” está se transformando em “Cristo, o conselheiro” [...] A politização da emoção emergiu como um importante tema na vida política contemporânea. A intromissão no sentimento das pessoas se tornou institucionalizado sob o presente sistema de governança terapêutica. Há pouca oposição a essa tendência e dificilmente alguma preocupação com as potenciais implicações autoritárias de um sistema de governo que tem como objetivo dizer às pessoas como devem se sentir [...]. Trechos extraídos da obra Cultura da Terapia: cultivando a vulnerabilidade em uma Era de Incerteza (Routledge,2004), do sociólogo britânico Frank Furedi, defendendo que a terapia deixa de se referir a estados mentais exóticos e problemas atípicos para se tornar comum em situações do cotidiano e encarada como um ideologia com objetivos que proporcionem uma espécie de reencantamento da experiência subjetiva, suprindo a vivência emocional com um significado especial, uma vez que o “emocionalismo” ajuda a reconstruir uma forma de espiritualidade bastante inusitado.

CAPITAL SOCIAL –[...] O capital social é o conjunto dos recursos reais ou potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de interconhecimento e de interreconhecimento mútuos, ou, em outros termos, à vinculação a um grupo, como o conjunto de agentes que não somente são dotados de propriedades comuns (passíveis de serem percebidas pelo observador, pelos outros e por eles mesmos), mas também que são unidos por ligações permanentes e úteis. [...] acumulação de capital cultural desde a mais tenra infância – pressuposto de uma apropriação rápida e sem esforço de todo tipo de capacidades úteis – só ocorre sem demora ou perda de tempo, naquelas famílias possuidoras de um capital cultural tão sólido que fazem com que todo o período de socialização seja, ao mesmo tempo, acumulação. Por consequência, a transmissão do capital cultural é, sem dúvida, a mais dissimulada forma de transmissão hereditária de capital. [...] Trechos de O capital social: notas provisórias, do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), extraído da obra Escritos de educação (Vozes, 1998), organizado por Maria Alice Nogueira e Afrânio Catani. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

A EDUCAÇÃO, A FAMÍLIA E A ESCOLA - [...] Como a vida familiar se constitui na primeira escola de aprendizagem, os pais devem investir mais na interação mediatizada para tornar as crianças e os jovens socialmente mais hábeis. Também na escola os professores, por meio da mediatização, podem criar adultos mais solidários e mais aptos a responder aos desafios complexos da sociedade futura. Em síntese, se queremos uma sociedade mais solidária, a família e a escola tem de ser mediatizadoras. [...] Trecho da obra Pedagogia mediatizadada: transferências das estratégias para novas aprendizagens (Salesiana, 2002), do professor catedrático Vitor da Fonseca, defendendo que a mediatização é a chave do desenvolvimento social e cognitivo da espécie humana, tornando-se fundamental a aplicação da pedagogia mediatizada na família e na escola. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PALHAÇOS & PALHAÇADAS - [...] O Palhaço é a figura cômica por excelência. Ele é a mais enlouquecida expressão da comicidade: é tragicamente cômico. Tudo que é alucinante, violento, excêntrico e absurdo é próprio do palhaço. Ele não tem nenhum compromisso com qualquer aparência de realidade. O palhaço é comicidade pura. O palhaço não é um personagem exclusivo do circo. Foi no picadeiro que ele atingiu a plenitude e finalmente assumiu o papel de protagonista. Mas o nome palhaço surgiu muito antes do chamado circo moderno. Aliás, seria melhor dizer “os nomes”. Uma das grandes dificuldades que a maioria dos autores encontra ao estudar a origem dos palhaços está na profusão de nomes que essa figura assume em cada momento e lugar. Clown, grotesco, truão, bobo, excêntrico, tony, augusto, jogral, são apenas alguns dos nomes mais comuns que usamos para nos referir a essa figura louca, capaz de provocar gargalhadas ao primeiro olhar [...] Esse nosso personagem imaginário sobreviveu a todas as catástrofes naturais, inclusive às construídas pelos homens. Esteve presente nas batalhas, nas festas e nos rituais mais sagrados, sempre cumprindo o mesmo papel: provocar o riso. [...] O palhaço é o sacerdote da besteira, das inutilidades, da bobeira... Tudo o que não tem importância lhe interessa. É corriqueira a cena em que o palhaço vai fazer alguma coisa muito séria e importante - como, por exemplo, tocar uma peça de música clássica - e acaba nos entretendo com algum detalhe absolutamente insignificante. [...] Durante milênios e até nos dias de hoje valorizamos a sabedoria e a capacidade para vencer, seja lá o que isso signifique. Por isso, a apologia do trabalho, da moderação, do equilíbrio. Grandes valores, sem dúvida, mas a vida não é só isso: existe a farra, a festa, o prazer! E assim o homem vai vivendo, equilibrando-se entre os contrários, compreendendo a necessidade de “ganhar o pão com o suor do seu rosto”, mas criando mecanismos para escapar das pressões cotidianas, reagir aos exageros dos puritanos e se contrapor à tristeza e à violência do mundo. Millôr Fernandes complementou Aristóteles dizendo que “o homem é o único animal que ri e é rindo que ele mostra o animal que é”. Pronto. A principal função do riso é nos recolocar diante da nossa mais pura essência: somos animais. Nem deuses nem semi-deuses, meras bestas tontas que comem, bebem, amam e lutam desesperadamente para sobreviver. A consciência disso é que nos faz únicos, humanos. [...] Palhaço não dá lição de moral, mas também não é amoral. Mas quem sabe a diferença? Quem conhece o limite? Acho que tudo depende do lado que escolhemos na vida e de compreender que, a todo instante, é como se um espelho aparecesse, o muro andasse, trocando os lados de lado. O que é justo num determinado momento ou situação pode ser muito injusto no momento seguinte. A Verdade nunca é absoluta, a bondade nem sempre é o melhor caminho, e por aí vão as coisas, exigindo atenção, sabedoria e um firme exercício de fidelidade aos princípios que norteiam a vida dos que escolhem ter princípios na vida. [...]. Trechos extraídos da obra Elogio da bobagem: palhaços no Brasil e no mundo (Família Bastos, 2005), da atriz, diretora de teatro e especialista em circo, Alice Viveiros de Castro.

ENQUANTO AGONIZO – [...] Foi Albert quem me contou o resto da história. Ele disse que a carroça estava parada na frente da loja de ferragens do Grummet, com as mulheres espalhadas pela rua com lenços presos ao nariz, e um bando de homens e rapazes de narizes grandes ao redor da carroça, ouvindo o xerife discutir com o homem. Era um homem alto e esguio sentado na carroça, dizendo que era uma rua pública e ele achava que tinha tanto direito como os outros, e o xerife lhe dizendo que ele teria que ir andando; as pessoas não agüentariam aquilo. Ela estava morta havia oito dias, Albert disse. Eles vinham de algum lugar lá no condado de Yoknapatawpha, tentando chegar a Jefferson com aquilo. Deve ter sido como um pedaço de queijo podre entrando num formigueiro, naquela carroça toda desconjuntada que Albert disse que o pessoal temia que de repente caísse aos pedaços antes que eles pudessem deixar a cidade, com aquele caixão feito em casa e outro sujeito com uma perna quebrada deitado num catre em cima do caixão, e o pai e um menino sentados e o xerife tentando fazê-los sair da cidade [...]. Trechos extraídos da obra Enquanto agonizo (L&PM, 2010), do escritor estadunidense e ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1949, William Faulkner (1897-1962). Veja mais aqui, aqui e aqui.

DOIS POEMAS DE PARANOIA - A piedade: Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento / abatido na extrema paliçada / os professores falavam da vontade de dominar e da / luta pela vida / as senhoras católicas são piedosas / os comunistas são piedosos / os comerciantes são piedosos / só eu não sou piedoso / se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria / aos sábados à noite / eu seria um bom filho meus colegas me chamariam / cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio / bóia? por que prego afunda? / eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as / estátuas de fortes dentaduras / iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos / pederastas ou barbudos / eu me universalizaria no senso comum e eles diriam / que tenho todas as virtudes / eu não sou piedoso / eu nunca poderei ser piedoso / meus olhos retinem e tingem-se de verde / Os arranha-céus de carniça se decompõem nos / pavimentos / os adolescentes nas escolas bufam como cadelas / asfixiadas / arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através / dos meus sonhos. Boletim do mundo mágico: Meus pés sonham suspensos no Abismo / minhas cicatrizes se rasgam na pança cristalina / eu não tenho senão dois olhos vidrados e sou um órfão / havia um fluxo de flores doentes nos subúrbios / eu queria plantar um taco de snooker numa estrela fixa / na porta do bar eu estou confuso como sempre mas as / galerias do meu crânio não odeiam mais a batucada dos ossos / colégios e carros fúnebres estão desertos / pelas calçadas crescem longos delírios / punhados de esqueletos são atirados no lixo / eu penso nos escorpiões de ouro e estou contente / os luminosos cantam nos telhados / eu posso abrir os olhos para a lua aproveitar o medo das nuvens / mas o céu roxo é uma visão suprema / minha face empalidece com o álcool / eu sou uma solidão nua amarrada a um poste / fios telefônicos cruzam-se no meu esôfago / nos pavimentos isolados meus amigos constroem  / [um manequim fugitivo / meus olhos cegam minha mente racha-se de encontro a / uma calota minha alma desconjuntada passa rodando. Poemas extraídos da obra Paranóia (Massao Ohno, 1963), do poeta Roberto Piva (1937-2010).

SOCORRO DURÁN
Com a escritora, professora e acadêmica da APLE, Maria do Socorro Barros y Durán, na Biblioteca Fenelon Barreto. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais:
A música de Gonzaguinha aqui, aqui e aqui.
A arte musical de Raquel Podger aqui e aqui
A arte de Bia Sion aqui.
A poesia e a entrevista de Mano Mélo aqui, aqui e aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista plástica, performer, fotógrafa & multimídia Lia Chaia. 
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sábado, setembro 23, 2017

QUINTANA, BUKOWSKI, ESPINOZA, CARLOS NEJAR, OTTO FRIEDRICH, SUZANNE VALADON, ARTUR GOMES & O FIM DO MUNDO

SE O MUNDO ACABAR, JÁ ACABA TARDE! - Pra todo lado que eu me virasse, a conversa era uma só. Bastou eu botar a cara na rua logo cedo, apareceu Zé Corninho dando uma de Édipo: - Era bom mesmo que essa desgraça de mundo findasse e levasse toda raça ruim de corno junto! Robimagaiver saiu com a sua: - Zé Corninho, Zé Corninho, num assine sua sentença, ou tais pensando que vai ser só tu de corno que vai sobrar, é, fio duma porqueira? Ocride logo arremedou: - Era bom mesmo que tudo se danasse numa desgraceira só, assim o mundo aprendia, só assim! Afredo mais nem nem, soltou da sua: - Eu mesmo queria ver todo mundo se lascar na vera! Interrompendo, Doro proclamou: - Vamos acabar com essa conversa, senão a gente endoida de vez. Isso é um povinho que só gosta de viver na base do alarme, boatos mais sem pé nem cabeça. Tais pensando o quê, ô abestalhado? Tô só alimentando o converseiro, ora! Pois é, ninguém pensa em corrigir a si próprio, seus comportamentos e atitudes, se é pra consertar o mundo tem de começar por si próprio, senão não adianta nada. Eu mesmo estou salvo, o resto que se dane. Vixe! Cada qual atrelado às suas crenças e convicções se achava verdadeiro dono da verdade. Penisvaldo mesmo mandou ver: - Eu já faço o meu, cada um que cuide do seu; se tem culpado no rolo é a humanidade, essa não tem jeito que dê! E tu é o que fidapeste? Por acaso tu és o melhor dos melhores? Rolivânio, então, entrou na conversa em defesa do parceiro: - Vocês todos estão redondamente enganados, tudinho, se acha certo de tudo, quando, na verdade, todos são culpados pelos problemas de toda humanidade. - Pronto, falou agora o profeta do apocalipse! -, arremedou Robimagaiver: - Tu mesmo só vive de aumentar as coisas, cada mentira cabeluda do creu, só fala de tragédia, gosta de ver a desgraça alheia! Ninguém está nem aí pra nada, só pro umbigo, cada qual cuide de si e Deus por todos nós! Quando não é aquela sacada do “um pra eu, um pra tu, um pra eu”, é aquela choradeira do venha nós vosso reino, pois está escrito: chapéu de otário é marreta. E burro é quem não se aproveita das molezinhas e benesses que aparecem na bobeira. Danou-se! O cabra está cheio de gás! É isso mesmo: o que fica de apurado é que se o mundo acabar, só os outros que vão se ferrar; é que quem leva adiante o papo acha que só ele e os seus é que vão escapar, pois estão salvos justamente por suas crenças e convicções inarredáveis. O papo já estava acalorado quando um, mais bêbado que todos, se intrometeu: - Se o mundo acabar, já acaba tarde! É que já tô bicado, fiz a obrigação pro santo, que venha o desmantelo. Pra mim vai ser um alívio: quando tudo findar mesmo, tomo outra e não tô nem aí. O mundo que se lasque! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com o compositor, saxofonista, flautista, arranjador e produtor musical Leo Gandelman com os álbuns Solar & Vip Vop; a violinista japonesa Midori Goto que também é psicóloga, professora, diretora e criadora do Centro Midori para Envolvimento da Comunidade na Escola Thornton of Music, da USC, nos USA, interpretando uma sonata de Saint-Saens & Concertos de Sibelius & Wieniawski; o premiado poeta, ator e artista gráfico Artur Gomes apresentando Terra de Santa Cruz, Entridentes, Black Billy & Marca Registrada; e a cantora e compositora catarinense Bee Scott interpretando Wasting Love, Som & Fúria, Não te pedi & Every breath you take. Para conferir é só ligar o som e curtir.

FIM DO MUNDO JÁ EM 1755 – [...] uma espécie de barulho estranho e assustador por baixo da terra, parecido com o ribombar oco e distante do trovão [...] O céu, de um minuto para outro, ficou tão tenebroso que eu já não conseguia distinguir nenhum objeto; foi realmente uma Escuridão Egípcia. [...] O terceiro abalo veio uns quinze minutos depois do primeiro. [...] A elevação da superfície da terra e o desmoronamento das grandes construções marcaram apenas o início da catástrofe. Quase que imediatamente ao assentar a poeira do primeiro abalo, irromperam incêndios em meia dúzia de pontos diferentes. [...] Tudo ficou reduzido a cinzas. [...]. Em meio ao colapso e à conflagração, cerca de uma hora depois do primeiro tremor, houve mais uma catástrofe, talvez a mais pavorosa de todas. Enquanto os cidadãos abalados olhavam para o porto do Tejo, as águas subitamente pareceram começar a vazar para o mar. [...] De repente, ouvi uma gritaria geral, 'O mar está vindo, estamos todos perdidos!' Nisso, voltando os olhos para o rio, que tem mais de seis quilômetros de largura nesse ponto, pude percebê-lo subindo e se inflando da maneira mais inexplicável, já que não soprava vento algum; num instante, a uma pequena distância, surgiu uma grande massa d'água, subindo como uma montanha, que entrou espumando e rugindo, e correu com tal ímpeto em direção à costa, que todos saímos correndo na mesma hora, o mais depressa possível, para salvar nossas vidas; muitos foram realmente arrastados, e outros ficaram com água pela cintura a uma boa distância da margem. [...]. Trechos extraídos da obra O fim do mundo (Record, 2000), do jornalista, escritor e historiador estadunidense Otto Friedrich (1929-1995), estudando as catástrofes que se abateram sobre a humanidade, desde os tempos bíblicos ao medo do holocausto nuclear, para analisar a idéia de apocalipse, uma vez que antes evidenciava o temor dos desígnios divinos, hoje é visto como uma vingança da natureza, o que não eliminou, porém, a idéia de uma humanidade pecadora ou culpada. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIAA alegria é a passagem pela qual o homem atravessa de uma perfeição menor para uma perfeição maior. A tristeza é o passo que um homem dá de uma maior perfeição a outra menor perfeição. Pensamento do filósofo racionalista holandês Baruch Espinoza (1632-1677). Veja mais aqui, aqui e aqui.

CARTAS NA RUA – [...] Levaram-me de volta para casa e ele foi embora com ela. Eu passei pela porta, disse adeus, liguei o rádio, achei meia dose de scotch, bebi aquilo, rindo, me sentindo bem, finalmente relaxado, livre, queimando meus dedos com butucas de charuto; depois fui pra cama, cheguei até a beira, tropecei, caí, caí atravessado no colchão e dormi, dormi, dormi... De manhã, era de manhã e eu ainda estava vivo. Talvez eu escreva um romance, pensei. E foi o que fiz. Trecho extraído da obra Cartas na rua (Brasiliense, 1983), do escritor estadunidense nascido na Alemanha, Charles Bukowski (1920-1994). Veja mais aqui e aqui.

OS ESPELHOS DE NETAN – [...] Os espelhos não sabem como somos, mas como sonhamos! – passou como um reflexo na cabeça de Netan. Os espelhos nos captam os olhos, que também são espelhos. Em outro mais dentro ainda. Como se penetrasse na casca de um relâmpago. Mas o relâmpago é o céu ainda. E ele cairá junto. Cada céu adentro. Via sumirem suas imagens no espelho, como se estivesse de outro lado, ou aparecesse de repente na outra Margem do acontecido. Depois intuiu: - O sonho é o semblante íntimo do espelho, onde nos desvelamos. Sonho e alma são faces que se integram. Na luz. Podia se evaporar a alma. Trecho da obra Um certo Netan (Aché, 1991), do poeta, ficcionista, tradutor e crítico literário Carlos Nejar. Veja mais aqui.

O ESPELHO DE QUINTANAE como se passasse por diante do espelho / não vi meu quarto com as suas estante s/ nem este meu rosto / onde escorre o tempo. / Vi primeiro uns retratos na parede: / janelas onde olham avós hirsutos / e as vovozinhas de saia-balão / como pára-quedistas às avessas que subissem do fundo do tempo / O relógio marcava a hora / mas não dizia o dia. O tempo. / Desconcertado, / estava parado. / Sim, estava parado / Em cima do telhado... / como um cata-vento que perdeu as asas. Poema extraído da obra Melhores poemas (Global, 2005), do poeta, tradutor e jornalista Mário Quintana (1906-1994). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

ESTUDANTES NA BIBLIOTECA FENELON BARRETO
Batendo papo com a estudante nos eventos da Biblioteca Fenelon Barreto.

Veja mais:
A poesia de Pablo Neruda aqui, aqui e aqui.
O pensamento de Josué de Castro aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
O fim do mundo & a carta do barbeiro aqui.
A arte musical de Midori Goto aqui.
O fim do mundo & as pinóias do tempo de antanho aqui.
A literatura de F. Scott Fitzgerald aqui e aqui.
O cinema de Pedro Almodóvar aqui, aqui, aqui e aqui.
A arte musical de Bee Scott aqui e aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

VERACIDADE
porque trancar as portas
tentar proibir as entradas
se eu já habito os teus cinco sentidos
e as janelas estão escancaradas?
um beija flor risca no espaço
algumas letras de um alfabeto grego
signo de comunicação indecifrável
eu tenho fome de terra
e este asfalto sob a sola dos meus pés:
agulha nos meus dedos
 quando piso na Augusta
o poema dá um tapa na cara da Paulista
flutuar na zona do perigo
entre o real e o imaginário:
João Guimarães Rosa Martins Fontes Caio Prado
um bacanal de ruas tortas
eu não sou flor que se cheire
nem mofo de língua morta
o correto deixei na cacomanga
matagal onde nasci
com os seus dentes de concreto
São Paulo é quem me devora
e selvagem devolvo a dentada
na carne da rua aurora
Poema do premiado poeta, ator e artista gráfico Artur Gomes, editor dos blogs Pele Grafia & Mania de Saúde. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Arte da pintora impressionista francesa Suzanne Valadon (1867-1938). 
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sexta-feira, setembro 22, 2017

GRAMSCI, HILDA HILST, GILVAN LEMOS, RUBEM ALVES, PALMARES & ATONMIRIO BARROS

A RESSURREIÇÃO DO CASANOVA – Uma enchente avassaladora varreu Alagoinhanduba do mapa. Bastou uma barragem duma multinacional que ninguém sabe o nome rachar em bandas, de um tsunami mandar ver levando tudo correnteza abaixo. Milhões de desabrigados, maior tragédia da história. Não sobrou nem lembranças do que era, findando o povo todo ter de morar embaixo da ponte que, de tanto balançar, não cabia mais ninguém pendurado. Com a situação, Zé Peiúdo se aproveitou na maior caranha: vendia tudo por preço exorbitante. Não concorrência, ou comprava, ou comprava. Era de lascar, fazer o quê? Ajuntando uns trocados bons com as negociatas, deu ele de ir tomar já a segunda meiota, quando ouviu pelo nome Casanova. – Ah, esse nome eu conheço, vai dá preu armar em cima. Nem perdeu tempo, foi bordejando entre as mesas e encostou-se numa em que dois estranhos conversavam: - Quem é Casanova? Sou eu. Rapaz, preciso ter uma conversa séria com vosmicê, vamos pra emissora preu entrevistá-lo! Hem? Vambora, venha. E puxou o distinto pela mão, arrastando morro acima, pras instalações do serviço de alto-falantes que ele chamava de AM/FM Alagoinhanduba, coisa de um tico de ouvinte, só ouvida até a primeira esquina no pé da montanha. Apossou-se dum megafone e saiu gritando: - Hoje Casanova faz revelações do estopô calango, exclusividade da sua emissora, a mais ouvida da região. Aos berros, repetia o nome do entrevistado que estranhava aquele estardalhaço todo, principalmente quando ouviu o locutor segredando pra sua banda: - Vamos lá, passe logo todo serviço! Hem? Mal começara a se organizar pra começar o teitei, eis que entra o calunga que lhe cochicha ao ouvido: - A mundiça toda tá aí atrás dum tal de Casanova! Eita, porra! Tenho nada a ver com isso não, vou me esconder. Peraí, rapaz, acalme-se! Calunga, venha cá! Diga! Pegue as armas, vamos enfrentar logo esse povo que deve ter vindo pra capar o rapaz, não podemos deixar acontecer isso. Fique calmo aí que vou resolver isso em dois tempos. Pega aí a Rio Una 12 e os armamentos todos, vamos preparados. Aí lá vem o calunga com um bacamarte, uma garrucha do cano envergado, uma soca-tempero que dispara na base de traque de sala e uma pistola bala U enferrujada, tudo descarregado. Cadê a munição? Tem não. Vixe! Só tem uns peido-de-veia que acho que nem pipoca mais. Eita! E agora? Agora a gente corre. Nada disso, vamos tapiar, a gente faz que está carregado até o tampo e o povo todo corre com o primeiro estalo. Vamos lá! Quando deparou com a populaça toda, ele achou de dar logo uns bregues: - Que é que vocês querem invadindo propriedade privada, hem? É que a gente veio se inscrever na casa nova, é a mesma coisa do Minha Casa, Minha Vida! Vai-te embora comboio de fidapeste! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com o saxofonista, flautista, arranjador e professor de música Mauro Senise interpretando músicas do seu álbum Danças + Alergia de viver, Olinda Guanabara & Chegando a Japeri; da pianista e diretora musical russa Elena Bashkirova interpretando concertos de Mozart, Brahms & Shostakovich; do pianista e compositor Luiz Avellar Improvisando no piano, Rio de Janeiro & bailarina; e a maravilhosa, divertidíssima, engajada, premiada e internacionalzada cantora, violonista e compositora Célia Mara, cantando Solidão Urbana, Anamaria, We’re not alone & Fábrica de armas. Para conferir é só ligar o som e curtir.

A ESCOLA DE GRAMSCI - [...] A escola é o instrumento para elaborar os intelectuais de diversos níveis. A complexidade da função intelectual nos vários Estados pode ser objetivamente medida pela quantidade de escolas especializadas e pela sua hierarquização: quanto mais extensa for a “área” escolar e quanto mais numerosos forem os “graus verticais” da escola, tão mais complexo será o mundo cultural, a civilização, de um determinado Estado [...]. Trechos extraídos dos Cadernos do cárcere (Vol.2 – Civilização Brasileira, 2001), do filósofo, cientista político e comunista italiano, Antonio Gramsci (1891-1937). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

O PAPEL DA CIÊNCIA - [...] Já que a ciência não pode encontrar sua legitimação ao lado do conhecimento, talvez ela pudesse fazer a experiência de tentar encontrar seu sentido ao lado da bondade. Ela poderia, por um pouco, abandonar a obsessão com a verdade e se perguntar sobre seu impacto sobre a vida das pessoas: a preservação da natureza, a saúde dos pobres, a produção de alimentos, o desarmamento dos dragões (sem dúvida, os mais avançados em ciência!), a liberdade, enfim, essa coisa indefinível que se chama felicidade. A bondade não necessita de legitimações epistemológicas. Com Brecht, poderíamos afirmar: “Eu sustento que a única finalidade da ciência está em aliviar a miséria da existência humana”. Trecho extraído da obra Filosofia da ciência: introdução ao jogo e as suas regras (Loyola, 2000), do psicanalista, educador, teólogo e escritor Rubem Alves (1933-2014). Veja mais aqui e aqui.

A LENDA DOS CEM – [...] Da mata chegava outra espécie de alarido. Em coro repicavam as seriemas, as maracanãs se comunicavam aos berros, esvoaçavam ruidosos tetéus; em negro, os urubus; cautelosos, os rapinantes. Abriam caminho aos animais pequenos, que deconsetados deixavam o próprio abrigo á procura de tocas talvez inexistentes. Raposas, como bêbadas, varavam o descampado, coelhos trocavam saltos sem proveito, pebas se topavam cegos, obtusos, enquanto as preás, mais cautelosos, quedavam nas fendas dos pedregais. Mas a ninguém interessava aquilo. [...] Trecho extraído da obra A lenda dos cem (Bagaço, 2008), do premiadíssimo escritor Gilvan Lemos (1928-2015). Veja mais aqui e aqui.

CANTARES DE HILDA HILSTIV – Eu não te vejo / quando teu ódio aflora. / Como poderia / ver teu ódio e a ti. / Iludida / por uma só labareda da memória? / Cegos, não somos dois. / Devorados e vastos / temos um nome: EFÊMEROS. Poema dos Cantares de perda e predileção, extraído da obra Cantares (Globo, 2004), da poeta, dramaturga e ficcionista Hilda Hilst (1930-2004). Veja mais aqui e aqui.

PROFESSORES NA BIBLIOTECA FENELON BARRETO
Participando com professores da rede pública de ensino nos eventos da Biblioteca Fenelon Barreto.

Veja mais:
A arte musical de Elena Bashkirova aqui.
A arte de Mauro Senise aqui e aqui.
A arte da cantora e compositora Célia Mara aqui, aqui e aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

LEMBRANÇAS E TRADIÇÕES DA MATA SUL
Oh oh Palmares, Ô verde azul
Oh oh Palmares!
É capital da Mata Sul
Corre o Rio Una
Grita pela liberdade
No silencio vai em frente
Oh meu Deus que tanta saudade
Nos dias de hoje, já não existe felicidade
Minha paz foi destruída pelo inverno da verdade
Oh oh Palmares, Ô verde azul
Oh oh Palmares!
É capital da Mata Sul
No Redondinho, nas ruas e todas as praças
O povo achava graça e o que é bom existe aqui.
Carrossel, caboclinho de Rabeca,
A bandinha de Veludo
E o guerreiro faz a festa.
Oh oh Palmares, Ô verde azul
Oh oh Palmares!
É capital da Mata Sul
A terra é fértil, as sementes são poéticas
Em cada rua e cada esquina
A história é sempre esta.
A Meia-Noite, cantava o seresteiro
O poema ovacionado pra seu amor verdadeiro.
Oh oh Palmares, Ô verde azul
Oh oh Palmares!
É capital da Mata Sul.
Música & letra de autoria de Atonmirio Barros (Miro Barros), parceiro do escritor Juarez Carlos na peça teatral O Herói Nordestino. Veja a entrevista de ambos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

quinta-feira, setembro 21, 2017

JULIO VERNE, JOÃO GONÇALVES, EDUCAÇÃO INCLUSIVA & ACESSIBILIDADE NA BIBLIOTECA FENELON!

O ESPADACHIM DO CANAVIAL – Imagem do artista plástico João Gonçalves - O que Zedonho tinha de ocrídio, tinha de trabalhador. Pense num sujeito apegado aos afazeres de só parar quando vencia o prometido. Pra se ter ideia, quando menino de rua, órfão de pai e mãe que nem sabia de qualquer parente nem aderente, pedia pra limpar o mato do terreiro, varrer as calçadas e as ruas, carregar uma mala, engraxar um sapato, coisas do tipo, mas como era criança ninguém levava a sério. – Meu filho cadê seus pais? Tenho não. Ué, você nasceu aonde? Nasci e vivo nas ruas. Era sempre assim. Até o dia em que um idoso japonês que apareceu por essas bandas, inadvertidamente deixou cair umas moedas no chão que rolaram rua abaixo espalhadas, ele recolheu uma a uma na maior das ligeirezas e correu pro ancião devolvendo-as: - Olhe, é do senhor, tinha caído e nem viu! O macróbio ficou tão admirado: - Ah, que bom! Você mora aonde? Na rua. Na rua? Sim. Então, venha. Pegou sua mão e o levou pra uma casa esquisita, nunca tinha visto daquele tipo e ficou maravilhado com o tanto de coisas estranhas que tinha dentro. – Já comeu hoje? Não. Venha, vamos pro desjejum. Que é isso? Venha. È sentaram-se ao chão, ao redor de uma mesinha. Enquanto o longevo nipônico manipulava uns hashis levando aquela comida esquisita à boca, ele fitava detalhadamente, engolindo seco. – Vá, pode comer! Aí ele tentou. – Ah, pegue o hashi assim! Olhou, olhou, nada de aprender, o velho se ria com sua inabilidade. Aí ele invocou-se e meteu a mão na comida, ingerindo tudo duma só vez. Novas risadas do anoso que bateu palmas, dele perguntar: - Tem mais? Uma jovem nissei adentrou trazendo um prato com comidas que lhe foram oferecidas. Nem esperou pela anuência do anfitrião e já foi logo metendo a mão à boca, de fazer bochecha pra engolir. Tem mais? Outros pratos vieram dele se empanzinar de tanto comer, se encostando a um canto e pegar no sono. Quando acordou já era quase noite e ele ficou de olhos esbugalhados com o tanto de comida que estava servida à mesinha. Para mim? Com a anuência do dono da casa, ele avançou e se empanturrou até ficar amolecido de bucho cheio. Um tempo depois a nissei voltou para apanhá-lo e encaminhá-lo pro banho; depois do asseio, já trocado de roupa feito um japonesinho, foi conhecendo cada parte da casa, até descobrir o seu dormitório. Nem esperou ela terminar de falar e já caiu na cama, só acordando no dia seguinte. Assim se passaram dias, semanas, meses, anos, aprendendo artes marciais e os serviços gerais da casa. Já com quase dezessete anos, o seu protetor faleceu, deixando-lhe duas espadas de samurai por presente de herança. O restante, os familiares vieram, limparam tudo, findaram por despejá-lo de não saber o que poderia fazer nem pra onde ir. Era época do inicio de moagem da safra canavieira em Alagoinhanduba, ele aproveitou e se inscreveu no que estavam precisando: cortador de cana. Quando chegou empurrado na plantação, pediu para que escolhessem um pedaço de terra para ele trabalhar. Acharam que era petulância do novato e logo apontaram pruma área só pra vê-lo morrer de trabalhar dias a fio. Duas horas e meia depois apareceu ele pedindo que demarcassem outra área porque aquela já estava pronta. Foram ver e ficaram de queixo caído: não só deu vencimento, como deixou tudo devidamente organizado pra colhedeira passar e pegar. – Como foi que você fez isso, seu cabra? Fazendo. Faça de novo preu ver ali. Apontaram e lá foi ele, a área era maior que a anterior e ficaram só olhando pra caírem na gaitada com a melada dele. Nem notou o sarcasmo de todos, logo se encaminhou pra plantação, sacando as duas espadas e golpeando a cana que já caía certinha aos montinhos. Como é? Ficaram de olhos arregalados, nem acreditaram no que viram e já botaram ele pra outra empreitada maior que as anteriores. Oxe! Nem, nem. O que ele fez num dia, somando a tarefa de todos por um mês, multiplicado por duas vezes e, ainda assim, não davam vencimento. – Ô, mô fio, você aparentado com quem, hem? Eu só órfão de pai e mãe, não tenho parente não. Isso é um apaideguado dum broco, tô perguntando se você é aparentado com Superhomem, com o cabrunco, com coisas do outro mundo, ou o quê? Não, senhor, sou apenas trabalhador mesmo. Isso é o fim do mundo. Vá-se embora e amanhã esteja no ponto no mesmo horário. Todo dia ele batia o recorde e no final da safra foi o campeão com direito a prêmio, festa e tudo. Como estava famoso, logo angariou a simpatia das moçoilas mais matutas, chegando mesmo a se amasiar de uma que nem bola pra ele dava. Ano após ano foi nascendo um bruguelo atrás do outro e ele, quando findava a safra em Alagoinhanduba, ia pro Centro-Sul pra botada das usinas de lá, não se atrapalhava com entressafra, só voltando seis meses depois. Anos e décadas se passando, foi cortando cana que ele montou a casa, educou os filhos, tudo formado com graduação e pós-graduações, tem até um que o mês passado foi laureado com o doutoramento numa universidade da França, e tem mais três que estão terminando o mestrado também no exterior. Quando soube disso, o Gal Langal não acreditou: - Sou que nem São Tomé, só acredito se eu ver com esses olhos que a terra um dia vai ter o trabalho de comer. Verdade. Provaram por a+b, tintim por tintim, testemunhas muitas, fama do homem ia longe, mesmo assim, não acredito. Tiraram a prova dos nove com ele, chamaram Zedonho: - Nada, eu só trabalhei pesado e muito! Nada demais. Estão vendo, cambada? Nada, vá na casa dele e tire a sua conclusão. Gal Langal foi lá, conferiu tudo, confirmou tudo. Mas não acredito. Esse cara deve de ter outra profissão, não pode ser. Não tinha. Ô Zedonho, que danado que você faz pra ter essas coisas e viver desse jeito? Nada, só corto cana. Foi quando souberam que até a polícia desconfiou dele, vez que um sujeito havia cometido um crime e havia escapulido justo pro canavial dele. Ah, eu num disse? Tem coisa. Tinha não. Quando a polícia foi investigar, o bandido estava todo cortado dentro do canavial, até inocentaram o Zedonho porque o sujeito era de alta periculosidade, num foi, Zedonho? Foi isso mesmo, meu senhor. Danou-se. Ô Zédonho e o que tu queres mais da vida, hem homem? Queria só que o mundo vivesse em paz, mais nada. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com o violoncelista estadunidense de origem chinesa Yo Yo Ma, executando Brasileirinho, Obrigado Brazil & Cinema Paradiso com participações de Chris Botti, Carlos Prieto & Brasil Guitar; da pianista francesa Khatia Buniatishvili interpretando Concerto de Grieg eRachmaninov & Pictures at na exhbition de Mussorgsky; o guitarrista e violonista Hélio Delmiro com seus álbuns Chama, Emotiva & Compassos; e a dupla formada pela bailarina, cantora e compositora Tatiana Cobbett e o músico e compositor Marcoliva com seus álbuns Parceiros, Bendita Companhia, Corte e Costura & Sawabona Shikoba. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Assim pois Phileas Fogg tinha ganho sua aposta. Tinha feito em oitenta dias a viagem ao redor do mundo! Tinha empregado para fazê-la todos os meios de transporte, paquetes, railways, carruagens, iates, navios mercantes, trenós, elefante. O excêntrico gentleman tinha desenvolvido nesta empresa suas maravilhosas qualidades de sangue frio e de exatidão. Mas afinal? O que tinha ganho neste deslocamento? O que alcançara com esta viagem? Nada, diriam? Nada, vá lá, a não ser uma sedutora mulher, que — por mais inverossímil que possa parecer — o tornou o mais feliz dos homens! Na verdade, não faríamos, por menos que isso, a Volta ao Mundo? Trecho extraído da obra Volta ao mundo em 80 dias (Melhoramentos, 2009), do escritor francês Julio Verne (1828-1905), autor de frases célebres como “Os obstáculos existem para serem vencidos; quanto aos perigos,quem pode se orgulhar de fugir deles? Tudo é perigo na vida” e “A imbecilidade humana não tem limite”. Veja mais aqui.

EDUCAÇÃO INCLUSIVAUma educação que seja inclusiva tem sido desejada por muitos sujeitos que, de diferentes ligações sociais, acalentam a ideia de construir uma escola que consiga trabalhar conjuntamente diversidade e conhecimento. Essa proposta tem-se tornado bandeira de muitos movimentos sociais que constantemente levam a publico situações educacionais marcas pelas dificuldades em lidar, no universo da escola, com as diferenças subjetivas. São situações de disseminação social, de gênero, de condição social, de sexualidade, de diferenças físicas, mentais e tantas outras, que são absorvidas pela cultura escolar e transformadas em cenas corriqueiras, nas quais a ausência de um estranhamento e de um desconforto impede mudanças. Silenciadas nos contextos disciplinares e nos aspectos mais formais da escola, essas ideias muitas vezes ficam restritas às vivências socializadoras dos alunos. [...] Dessa forma, aprendizagens caricatas sobre as diferentes vão-se tecendo no espaço escolar, alargando e fomentando preconceitos construídos pela humanidade [...]. Trechos extraídos do artigo Educação especial à educação inclusiva, de Margareth Diniz e Mônica Rahme, extraído da obra Pluralidade cultural e inclusão na formação de professoras e professores: gênero, sexualidade, raça, educação especial, educação indígena e educação de jovens e adultos (Formato, 2004), organizada por Margareth Diniz e Renata Nunes Vasconcelos. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 
PROJETO ACESSIBILIDADE DA BIBLIOTECA FENELON BARRETO - Participação na reunião do Projeto Acessibilidade/Inclusão da Biblioteca Municipal Fenelon Barreto, no último dia 20/09/2017, com as professoras Rute Costa da SEMED-Palmares & Silvana Neves – Coordenadora do Programa de Educação Inclusiva da SEMED-Palmares, e o jornalista Luiz Heitor, da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho. Esta reunião é o resultado das reuniões ocorridas nos dias 31/08 e 20/09, dando andamento à esquematização de ações que propiciem o envolvimento de alunos com deficiência visual, auditiva e cadeirantes para visita à Biblioteca no sentido de levantar as dificuldades encontradas por esse público-alvo, entre outras que serão estudadas para viabilização, resultado de parceria com o IFPE. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais:
A história da minha vida de Helen Keller aqui.
Minha alegria de viver de Denise Legrix aqui.
O lamentável expediente da guerra aqui.
Dia Internacional da Paz aqui e aqui.
A literatura de Herberto Sales aqui.
A adolescência no Dia do Adolescente aqui e aqui.
A poesia de Luis Cernuda aqui.
A arte musical de Tatiana Cobbett & Marcoliva aqui e aqui.
A arte do poeta e filósofo latino Virgilio aqui e aqui.
Dia do Radialista aqui.
O pensamento do filósofo alemão Arthur Schopenhauer aqui, aqui e aqui.
A arte musical de Yo Yo Ma aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
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Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista plástico João Gonçalves.
Veja mais aqui.
 

ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, ...