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quarta-feira, setembro 18, 2019

STEVEN PINKER, NEILA TAVARES, ISADORA DUNCAN, RITA JOANA, GINÁSIO MUNICIPAL DOS PALMARES & RESSURREIÇÃO DO BARÃO


A PRIMEIRA RESSURREIÇÃO DO BARÃO - Depois da perda trágica do segundogênito, teibei! E da fuga ruidosa de sua primogênita atrepada na cacunda dum robusto afrodescendente pintudo mundo afora - deu o créu! -, o Barão andou trocando as catracas do quengo e birutou assim sem mais nem meses. Foi. Arriou acamado trocando os olhos e fazendo bico, depois de um aluamento sem precedentes na terrinha boa de Alagoinhanduba. O homem virava a noite aos boticões, a dizer coisa sem nexo dia atrás de outro. Será que se cura, cochichavam. De repente, ele acordou mais endoidado do cabeção, às providências: Quero gemadas! Cadê a garrafada? Chamou o primeiro xeleleu que apareceu e despachou providência: Vá lá no armazém e traga isso aqui. O chaleira espiou a lista que não tinha mais fim: dez caixas de catuaba da boa, duas mil caçambas de ovos de codorna, duas toneladas de pimenta malagueta e por aí vai, tudo de revigorante e afrodisíaco. Tomou um bom bocado de talagadas vitamínicas, arrumou-se todo, pisou forte, bateu na caixa dos peitos e atravessou a ponte como quem vai ganhar o mundo. Chegava aonde fosse, à marra, distribuía picadas adoidadas no primeiro rabo de saia que encontrasse pela frente e não parou mais. Estava virado, impando nos cangotes cheirosos, com umbigadas de garanhão no cio. Não demorou muito, superpovoou o lugar de perder a conta do tanto da filharada: ora bastardos, enfurecido; ora afilhados, indiferente; fila enorme de bênção daqui, dali e dacolá: Deus te abençoe comboio de peste!. Lá pras tantas teve recaída de um malthusianismo escatológico, resolveu botar ordem nas coisas e dividiu a localidade em três partes: a do meio, direto da ponte morro acima e que separava tudo de um lado a outro, o Domatouro: simples, de lá de cima ele cagava raio, mandava capar maluvidos e adiantados, acabando com as raposas do harém, a jogar tudo ladeira abaixo, pro lado da Reicoa – o lado esquerdo da ponte, no qual instalou prestigiado prostíbulo em homenagem ao inferno, propício para as orgias e velórios, sepultamentos e missas de sétimo dia, templo construído em homenagem ao santo São Benedito, e, logo ao lado deste, um cemitério novinho em folha: Passou da conta, quebro o espinhaço e, se morreu, lascou. Já do lado direito da ponte, o Chocantão, esse mais arrumado - que dará cloro para o reduto das afilhadas do Barão, as melindrosas queridinhas exclusivas dele. No meio desse pastoril, eis que de uma das suas apadrinhadas, surgiu uma beldade reboculosa – paga de língua, filha dele. Pense numa formosura de menina que virou moça de quebrar pescoços e açodar defunto. Imagine o vexame! A adolescente tomou corpo de atiçar almas do Hades e esbugalhar olhos de anjos e arcanjos, um colosso de perdição. Nome dela? Repara só: Lili. O que ela tinha de belezura, tinha de jeitosice. Avalie o desmantelo. O que apareceu de piração na macharia, não está nem no gibi nem nas manchetes jornalísticas que sequer havia por ali. O Barão perdeu o siso e as estribeiras, partiu pro incesto e findou infartado numa maca hospitalar, vítima de priaprisma – dizem que comendo merda e rasgando dinheiro de tão pinel, gritando: Lili, é ela! Liliiiiiiiith! Lililili! A menina dava trabalho. O pior: bonitona e inteligentíssima. Cada vez que ela aparecia, um alvoroço se armava: tal Paulina de Viguière do sonho de Vera. Pois é, a Frineia alagoinhandubense mexia, sem querer, com vivos e mortos de todas as classes sociais, fosse distinto, pé-rapado, plenipotenciários, caboetas e quejandos: todos enlouquecidos de paixonite aguda por ela. Era uma multidão na porta de sua residência, de não ter mais tamanho, tudo esperando qualquer pontinha da sua aparição. E quando ela dava as caras, valha-me quem quer que seja, lá estava ela nem aí, faceira às leituras - diz-se dela airosa filósofa de coisas, ditos e fatos de ontens e amanhãs; que aprendeu sem se ensinar, sabia de tudo e sobre todas as coisas pretéritas, porvires e devires. Dizem mais: escreveu um tanto incalculável de obras, desde alfarrábios volumosos sobre as teorias da origem da vida e da morte, como opúsculos e fascículos sobre as ocorrências diárias das mais inusitadas temáticas, desde a receita de arroz doce saboroso à sobremesa, à explosão galáctica de não sei quantos milênios de anos-luz de distância. Só dizem. De mesmo, ninguém nunca viu nem capa de relance, muito menos encadernação que fosse dos seus valiosos escritos. Mas que era douta, era, batiam o pé. Para encurtar a história, ninguém sabe dizer ao certo se ela casou, morreu ou como foi que deu a vida dela de certo, só reprodução da memória repetida dos avós, bisavós e tataravós. Bote lonjura no tempo, lá para nem sei quando. Depois conto mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] A razão pela qual os especialistas têm dificuldade para se comunicar é que eles estão sujeitos à “maldição do conhecimento” – a dificuldade de entender como é não saber algo que eles sabem. Como resultado disso, autores usam abreviações e jargões ou falham em descrever o concreto, detalhes visuais de uma cena; eles pressupõem que seus leitores já sabem o que eles sabem e não se preocupam em explicar. Há inúmeras maneiras de evitar a maldição do conhecimento. A primeira é estar ciente dela, perguntar a si mesmo “o que meu leitor já sabe sobre o que eu estou escrevendo?”. Boa escrita requer empatia. A segunda coisa é colocar o texto de lado por um tempo e voltar para ele depois quando ele já não é familiar para você. Você se verá dizendo “o que eu quis dizer com isso?”. A melhor estratégia de todas é mostrar um rascunho para um leitor representativo e ver o que ele entende. Você se surpreenderá ao ver que o óbvio para você não é óbvio para todo mundo. [...] O erro é definido em relação às expectativas de determinado conjunto de leitores – um grupo de pessoas alfabetizadas que se importam com a escrita e esperam que determinadas convenções sejam seguidas. As línguas mudam, mas isso não acontece de terça para quarta-feira. Se sim, ninguém poderia compreender o outro e se você pegasse um jornal do ano anterior não entenderia nada [...] Os pensamentos ocorrem ao autor por meio de associações – uma ideia lembra outra que leva a uma terceira ideia. Em seguida, você se lembra que você quis dizer três coisas diferentes e que acabou omitindo-as. Aí você antecipa uma objeção e responde à essa objeção e assim por diante. Mas o fluxo da consciência de um autor não corresponde ao modo como o leitor consegue absorver uma informação. O mais importante princípio na hora de apresentar ideias é “dado, agora algo novo” – comece cada sentença com aquilo que o leitor já está pensando, então apresente a informação nova para o leitor no final da frase. Trechos de Boa escrita requer empatia (Carta Educação, 2016), entrevista do escritor, linguista e psicólogo canadense-americano Steven Pinker, concedida à jornalista Thais Paiva, sobre o lançamento da obra do autor, Guia de Escrita: como conceber um texto com clareza, precisão e elegância (Contexto, 2016). Veja mais aqui, aqui e aqui.

ALGUÉM FALOU: (Foto: Bárbara Nunes) - [...] Fico muitas vezes abismada com o desconhecimento geral das novas gerações de brasileiros (e nem sempre tão novas assim, já que isto inclui pessoas de 40, 50 anos de idade) de parte relevante de nossa História recente, relativa aos anos de ferro da Ditadura Militar no Brasil e América Latina. Saber daqueles dias é tão necessário para que se conheça a identidade de nosso povo e de nosso país e continente, de forma coletiva, como para que se entenda cada um de nós, pais e avós dos que chegam hoje à idade madura, que trazemos inevitavelmente no corpo e na alma as marcas e cicatrizes dos dias negros que vivemos. [...]. Trechos de Ditadura, esqueceu?, extraído do blog Geleia Geral, da atriz, escritora, jornalista e apresentadora de televisão, Neila Tavares. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

RITA JOANA DE SOUSA, FILÓSOFA BRASILEIRA
[...] Tão inacreditável, contudo, é o fato, que os historiadores de nossa cultura tacham-na de lenda literária, muito embora a filósofa houvesse existido em carne e osso, lenda sendo apenas a sua filosofia ao que parece. E mais extraordinário que tudo, a filósofa brasileira foi uma dessas frutificações tropicalmente precoces. Fruta temporã, bem cedo amadureceu e bem cedo caiu do galho, como a camélia do samba. Aos vinte e dois anos de idade, finou-se, não deixando versos de amor à posteridade, em que chorasse a tristeza da morte prematura que antevia, ou as decepções amorosas da juventude, mas tratados de filosofia natural e memórias histórias. [...] D. Rita Joana de Sousa, única filósofa brasileira, de que se tem noticia quase cinco séculos de vida do Brasil [...] era uma flor, era uma rosa, pela beleza, pelo encanto, pelos dotes e prendas. Não somente se perdia em complicados raciocínios filosóficos, mas também pintava, dizendo seus biógrafos que deixou quadros dignos de louvor e, além de tudo, a filósofa era bonita. [...] Era dotada de imensa erudição, dizem os que a ela se referem, adquirida em tão poucos anos de vida não sabemos como. Atribuem-lhe contudo a autoria de memórias históricas e até mesmo um tratado de filosofia natural [...] A formosa filósofa olindense continua como um dos tantos mistérios de nossa história literária. Nem um retrato, nem um verso, nem um livro dessa que foi um fenômeno de precocidade na vida do Brasil colonial. [...].
RITA JOANA DE SOUSA - Trechos de Uma filósofa brasileira, extraído da obra Vamos conversar sobre... (Itatiaia, 1972), do advogado, crítico literário, tradutor e escritor Oscar Mendes (1902-1983), sobre a filósofa, pintora, poeta e historiadora Rita Joana de Souza que, segundo o autor, nasceu em Olinda –PE, no dia 12 de maio de 1696 e faleceu em abril de 1718, enquanto são registradas as datas de 1595-1618 em diversas outras publicações. Ela tornou-se conhecida torna-se conhecida em 1902, quando no Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro divulgou-se o livro, até então inédito, Desagravos do Brasil e Glórias de Pernambuco, de Domingos do Loureto Couto, beneditino pernambucano. Segundo o crítico José Roberto Teixeira Leite, o monge dedicou à pintora um dos 17 capítulos de sua obra, cujo tema são as mulheres famosas de Pernambuco. Essa artista é tida como a primeira mulher pintora que trabalhou no Brasil, tendo se dedicado também as letras e a filosofia. Todos os seus manuscritos e obras artísticas desapareceram. Outras referências dão conta com o nome dela surgiu por conta da obra do padre Manuel Tavares, sob o pseudônimo de Diogo Manuel de Azevedo, publicada em 1734, em Lisboa, dando conta de sua grandeza. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Dançar é sentir, sentir é sofrer, sofrer é amar... Tu amas, sofres e sentes. Dança! O corpo do bailarino é simplesmente a manifestação luminosa da alma. A arte não é, de modo nenhum, necessária. Tudo o que é preciso para tornarmos o mundo mais habitável é o amor.
A arte da bailarina estadunidense Isadora Duncan (1878-1927). Veja mais aquiaqui.

GINÁSIO MUNICIPAL DOS PALMARES
Nesta terça-feira, dia 17 de setembro, foi dia de visita, juntamente com o parceiramigo Carlos Calheiros, ao Ginásio Municipal dos Palmares, ocasião que apresentamos à diretora da instituição educacional, professora Gelza Graça Barreto da Fonseca Assis, o projeto piloto do Festival TTTTT de Arte Estudantil, uma parceria deste blog com a SEMED/Biblioteca Fenelon Barreto. Veja mais aqui.
&
Outras do Barão aqui & O sonho de Vera aqui.


segunda-feira, fevereiro 22, 2016

PINKER, PHILIPPA FOOT, JOSEFINA PLÁ, JULIÁN FUKS & LITERÓTICA

CRÔNICA DE AMOR POR ELA

Lua inteira às minhas mãos.

Veja mais abaixo & mais aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS

Às vezes, no espaço de uma dor cabe apenas o silêncio. Não um silêncio feito da ausência das palavras: um silêncio que é a própria ausência...

Pensamento do escritor e crítico literário Julián Fuks (Julián Miguel Barbero Fuks), autor de A resistência (Companhia das Letras, 2015).

 

BONDADE NATURAL – […] Qualquer pessoa que reflita sobre o assunto pode perceber que, para os seres humanos, o ensino e a prática da moralidade são algo necessário. [...] As teorias expressivistas têm a consequência notável, embora raramente mencionada, de separar a avaliação da ação humana não apenas da avaliação da visão, audição e saúde física humanas, mas também de toda avaliação das características e operações de plantas e animais. [...] Partimos do princípio de que é a forma de vida específica de uma espécie de planta ou animal que determina como um indivíduo deve ser... [...] A questão é, portanto, se as características dos seres humanos podem ser avaliadas em relação ao papel que desempenham na vida humana, segundo o esquema de normatividade natural que encontramos no caso das plantas e dos animais. [...] Quero dizer, sem rodeios, que não existe critério para a racionalidade prática que não derive da bondade de vontade. [...]. Trechos extraídos da obra Natural Goodness (Clarendon, 2003), da filósofa britânica Philippa Foot. Veja mais aqui.

 

SOMENTE COM...Com um só olhar, \ um só nove para todas as coisas. \ Para o amanhecer e o entardecer, \ para o amor e o ódio, \ para o amante e o carrasco, \ para a tartaruga e a víbora, \ para a estrela e o vaga-lume.\ Apenas duas mãos \ para a panela e o chicote, \ para a rosa e para o cacto. \ Apenas duas mãos \ para a areia e o orvalho, \ para embalar o berço, \ para acariciar as feridas da esperança \ e para abrir o último buraco do sapato. Poema da escritora, dramaturga, jornalista, escultora, ceramista e historiadora paraguaia-espanhola, Josefina Plá (1903-1999), que possui toda sua obra reunida na publicação Poesías completas (1986). Veja mais aqui.

 O INSTINTO DA LINGUAGEM – A obra O instinto da linguagem: como a mente cria a linguagem, de Steven Pinker aborda questões acerca do instinto para adquirir arte, tagarelas, mentalês, funcionamento da linguagem, palavras, os sons do silêncio, cabeças falantes, a Torre de Babel, o bebê nasce falando, órgãos da linguagem e genes da gramática, o Big Bang, os craques da língua, o design da mente, entre outros importantes temas. No primeiro capítulo, denominado Um instinto para adquirir uma arte, o autor aborda o poder de moldar eventos no cérebro com precisão entre seres humanos no milagre da sociabilidade da linguagem, por meio de combinações de ideais novas e precisas que surgem na mente do outro no ato da combinação, entrelaçando a experiência humana e destacando o instinto para aprender, falar e compreender a linguagem. Parte da ideia básica de Darwin de que “A linguagem é uma arte” e dos propósitos linguísticos de Noam Chomsky, propondo uma investigação das combinações das palavras de uma gramática mental que faz parte da gramática universal inata, abordando desde o DNA na construção do cérebro até a manifestação da linguagem jornalística na contemporaneidade. Nessa parte do livro enfatiza o autor a linguagem como a capacidade notável de moldar eventos no cérebro com precisão por meio das combinações de ideias e palavras, destacando a língua falada como o motor da comunicação verbal na rede trocas de informações. No segundo capítulo, intitulado Tagarelas, o autor aborda desde as algaravias, dialetos, línguas e falantes, até aos genes da gramática, demonstrando que a linguagem complexa é universal porque as crianças a reinventam de geração em geração e destacando a flexibilidade da inteligência humana para estratégias de aprendizagem geral, a partir do mamanhês, dos pidgins e sua crioulização, a Língua de Sinais, até a metáfora da Torre de Babel. No terceiro capítulo, Mentalês, ele inicia a abordagem a partir da Novalingua e da Antilingua da obra de George Orwell para desenvolver suas ideias acerca dos tipos de processadores e de representações contidas no cérebro humano. No quarto capítulo, Como a linguagem funciona, o autor esboça ideias acerca do pensamento de Ferdinand Saussure sobre a arbitrariedade do signo, a língua como uso infito de meios finitos de Wilhelm Von Humboldt, Mark Twain e o nonsense do séc. XIX, o Jaguadarte de Lewis Carroll, a teoria dos princípios e parâmetros e o conceito de estrutura falante de Noam Chomsky para, a partir dessa abordagem apresentar o dicionário e a gramática mentais dentro de um design de gramática formado a partir da vastidão da linguagem baseada nos autores William Faulkner, James Joyce e Bernard Shaw, e o código autônomo em relação à cognição, fazendo um comparativo com os princípios da combinação gramatical com os princípios da combinação genética dentro de sistemas aglutinantes. Passa então a tratar sobre os mecanismos de cadeias de palavras do modelo de estudos infindos de Markow e a interdependência agregativa indutiva a partir dos poemas de Stephane Mallarmé, para esboçar a ideia de que a língua humana baseia-se numa enorme cadeia de palavras armazenadas no cérebro ao considerar que a mente humana foi desenvolvida para usar estruturas de dados e de variáveis abstratas, razão pela qual afirma que a aprendizagem é causada pela complexidade da mente. No quinto capítulo, Palavras, Palavras, Palavras, Pinker vai demonstrar que a gramática é a capacidade de transmitir uma quantidade infinita de ideias com número finito de regras: as pessoas são criativas com as palavras, vez que as possuem uma regra mental para produzir palavras novas, propondo, portanto que a língua é um sistema combinatório discreto. Passa então a abordar sobre gramática, morfemas e fonemas, sistemas de regras vocabulares e sintagmáticas, morfologia, sintaxe, a psicologia das regras linguísticas, a teoria da estrutura vocabular, listema, memorização, truques mnemônicos, onomatopeias, habilidades miméticas, homônimos e sinônimos. Aborda, ainda, as ideias de gramática de Marguerite Yourcenar, a psicologia do desenvolvido de Peter Gordon, o signo arbitrário de Ferdinand Saussure e o escândalo da indução de Quine. Com isso, entende o autor que a palavra é construída a partir de partes morfológicas, sendo, pois, um objeto linguístico e um fragmento memorizado da sequencia de material linguístico arbitrariamente associado a um significado particular. Para ele, a palavra é o símbolo quitessencial e bidirecional compartilhado para transformar significa em som ao falar e som com significado ao escutar. Ou seja, a vinculação da palavra ao conceito: rotulando um tipo de coisa. No sexto capítulo, Os sons do silêncio, fala do aparelho fonador, diapasão, ressonância, sistema emergencial de radiodifusão, o simbolismo fonético, das ondas senoidais, o efeito Mcgurk, orônimos, a percepção e decodificação da fala, o mecanismo físico e neural da fala, a dualidade de padrões de Charles Hockert, onda sonora, algaravias, glossolalia, padrão sonoro, regras fonológicas, acústica, ambiguidade, redundância e conjunto de ressonâncias, a teoria da percepção da fala, a escrita e a língua. Destaca a observação de Bernard Shaw ao mencionar que “Há duas tragédias na vida. Uma é não realizar seu desejo mais profundo. A outra é realizá-lo”. Para o autor as sentenças e sintagmas compõem-se de palavras, as palavras de morfemas e morfemas de fonemas. O fonema corresponde ao ato de produzir um som. Entende, então, que a fala é uma matriz multidimensional e que o som falado é uma combinação de gestos. A língua funciona por meio de um sistema combinatório, as regras fonológicas facilitam a articulação. No sétimo capítulo, Cabeças falantes, trata dos temores da sociedade acerca da substituição humana pela máquina inteligente capaz de roubar seus postos de trabalho, desde a lenda medieval judaica do Golem até Hal e a Odisseia no espaço, assegurando que os temores da automação são improcedentes. A partir disso ele assinala que a compreensão de uma frase é uma tarefa difícil por envolver sujeito, verbos, objetos e agrupamento de palavras em sintagmas, entre outras complexas atividades realizadas, entendendo que a gramática é um código ou protocolo, uma base de dados estática que especifica os tipos de sons correspondente a significados, trazendo à tona a metáfora do encanamento: as ideias são objetos; as frases, recipientes; e a comunicação, o transporte. E arremata: comunica é uma ação apoiada entre ouvintes e falantes. No capítulo oitavo, A torre de babel, o autor trata das diferenças das línguas, assinalando, com base em Brenberg, a existência de 45 línguas universais. Na dimensão de padrões universais, assinala o autor que as línguas possuem uma única origem que descende da protolíngua que se conservou em todas elas algumas de suas características. Para tanto observa que todas as línguas possuem um vocabulário composto de milhares de vocábulos distribuídos em classes gramaticais que incluem categorias como substantivo e verbo e que possuem processos de diferenças na variação, hereditariedade e isolamento. Denuncia nessa parte do livro a extinção de línguas causando prejuízos à diversidade: o gás paralisante cultural de Kraus. Enfim, conclui esta parte com o entendimento de que as línguas são perpetuadas pelas crianças que as aprendem. No nono capítulo, Bebê nasce falando – descreve céu, o autor abre essa parte com o caso noticiado da bebê Naomi, filha de Theresa Montefusco, de 18 anos de idade, que nasceu falando e contando experiências do céu. Ainda aborda os casos da lenda de Rômulo e Remo, de Mogli de Kipling, Genie e os pidgins, a deficiente auditivo Chelsea, de Victor de Aveyron, Kamala, Amala e Ramu. Traz a citação de Vladimir Nabokoh: “Penso como um gênio, escrevo como um autor prestimoso e falo como uma criança” e reitera: a linguagem é a quitessência da atividade social e que sua aquisição normal se dá entre os 6 anos de idade até a puberdade. No décimo capítulo, Órgãos da linguagem e genes da gramática, o autor aborda a questão sobre a capacidade de aprender gramática atribuída a gene, satirizando os jornalistas e os anúncios de facilidade de melhoria da gramática. Aborda, então, sobre a faculdade da linguagem articulada com o hemisfério esquerdo do cérebro, baseado em Paul Broca, na área de Wernicke e nos giros angular e supramarginal. Para, então, no décimo primeiro capítulo a tratar sobre o Big Bang, tratando sobre a exclusividade da tromba dos elefantes e o questionamento acerca da incompatibilidade do instinto da linguagem na teoria de Darwin. Trata então do sistema de comunicação animal, considerando um repertorio finito de chamados, um sinal analógico contínuo e as variações aleatórias. Assevera que pelo sistema combinatório discreto da linguagem, a gramática se torna infinita, digital e composicional. No décimo segundo capítulo, Os craques da língua, o autor vai categorizar as sapiências e eminências gramaticais em craques, observadores, Jeremias e sábios, destacando entre estes últimos Safire. Nessa parte, trata das regras prescritivas adotadas pela escola e as descritivas adotadas pelos cientistas, observando que as regras não se conformam nem à lógica nem à tradição, e que são usadas apenas para diferenciar a elite da ralé culpando os iletrados funcionais pelo estorvo de não se conhecer a própria língua. Por fim, no décimo terceiro capítulo, O design da mente, o autor vai concluir que a linguagem é a parte mais acessível da mente, destacando as complexas interações do povo universal de Donald Brown, defendendo a ideia de aprende-se mais fora da sala de aula pela generalização por similaridade: o senso de similaridade inato e a ubiquidade da linguagem. Veja mais aquiaqui e aqui.

REFERÊNCIA
PINKER, Steven. O instinto da linguagem: como a mente cria a linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2004.



SEM HORA & DO FALO À FALA – Entre os poemas da poeta, administradora e especialista em logística estratégica Lou Vilela, oriundos do seu maravilhoso blog Nudez Poética: Pulsao ventre, caem os véus, desnuda-se em poesiadestaco, inicialmente, o poema Sem hora: O poema chegou-me pronto, vermelho / Trazia um brilho no olhar /E nos amamos, / tocados / Pela fúria do instante. Também o seu poema Do falo à fala: Meio loucas, meio santas / Rimam alternância / Lua / Sol / Meio putas, meio mantras / Freud em si / Menor / Bemol / Da penumbra à(o) Alvorada / Fiam rapadura / Dão a cara à tapa / Parem rouxinol. Veja mais aqui.


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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Art by Derinha Rocha
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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TODO DIA É DIA DA MULHER
Imagem: arte de Luciah Lopez
Veja as homenageadas aqui.




sexta-feira, setembro 18, 2015

PINKER, NEILA, BRECHT, GRETA, RUFFATO, ROCIO JURADO, MARQUET, BRUNO GAUDÊNCIO & NASCENTE.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? NASCENTE – A edição nº 15 – colorida, 16 páginas, ano II, nov/dez/1998-jan/1999, do tabloide Nascente – Publicação Lítero Cultural, traz como editorial Missiva aos quatro cantos do mundo. Na seção Bate Papo, entrevista com Jorge Amado. E no Notas Literárias, coluna assinada por Ari Lins Pedrosa: O sonho de Alice, de Maria Lucia Nobre dos Santos; a revista Blau (RS), o folheto Letraviva (RJ) e a última entrevista de José Paulo Paes. As matérias publicadas nesta edição: A arte do espetáculo, não o espetáculo da arte, de Guido Bilharinho (MG); Hermilo de Palmares, de Sônia van Dijck (PB); Ossos, músculos, vermes e flores por José Luiz Dutra de Toledo (SP); Carícia da Felicidade, por Arriete Vilela (AL); Paisagem depois da pintura, por Almandrade (BA); Natal, por Felisbelo da Silva (CE); e na seção Tabuletas, o episódio das Proezas do Biritoaldo: Quando risca fogo, o rabo inflamável sofre que só sovaco de aleijado. Além disso, matérias sobre a Bienal do Livro e da Arte de Alagoas, a III Feira do Livro de Fortaleza, o 4º Maceió Jazz Festival, XIV Bienal de São Paulo, I Seminário Brasileiro da Produção Cultural e o Salão Internacional do Livro de São Paulo. Na seção de Humor tiras de Cedraz & charges de Lupin, Rico e Calafange. Na seção do Premio Nascente de Arte Infanto-Juvenil, trabalhos da garotada: Juliana Sena, 4 anos (Colégio Menino Jesus – Maceió-AL), José Ventura Leite Junior (Ginásio Municipal – Palmares –PE), Nathália Senna, 11 anos (Colégio Menino Jesus – Maceió-AL), Nicola, 09 anos (Escola Monteiro Lobato – Maceió-AL), Larissa Cris Viera da Paixã, 06 anos (Colégio Carlos Drummond – Maceió-AL) e Diogo Palmeira Acioli (Colégio Santa Terezinha – Maceió-AL). Na seção Nascente Poético, poemas de Claudio Feldman (SP), Whisner Fraga (MG), Anand Rao (DF), Arriete Vilela (AL), Almandrade (BA), Mauricio de Macedo (AL), Rogério Salgado (MG), Denise Teixeira Viana (RJ), Milton Dias Fernandes (MG), João Bosco de Castro (MG), Ari Lins Pedrosa (AL), Osael Carvalho (RJ), Francisco Araujo Filho (AL), Felisbelo Silva (CE), Severino Cassiano (PE), Gomes (CE), Cecilia Fideli (SP), Marcos Ramon (MA), Chrys Andrezza (PE), Carlos A S Lopes (VA), Lari Franceschetto (RS), Belinha Ribeiro (PR), Maria de Fátima Dias (MS), Amadeu Thomé (MG), Rosy Arruda (MT), Jorge Luiz (AL), Maria Thereza Carvalheiro (SP), Renato Salatiel, Selmo Vasconcelos (RO), Humberto Del Maestro (ES), Paulo Guggiana (RS), Claudebara Soares (AM). Na seção Registro: a Feira da Habitação, Arquitetura e Decoração – Habite (AL), o lançamento do livro Luta dentro de mim, do poeta Edmauro Gomes; o livro Feminino/Masculino: imaginário de diferentes épocas, de Eloá Jacobina e Maria Helena Kuhner; a coletania Conquistando mais amizades, de Fátima Segatto (RS); o curso História da Arte e Cultura Oriental Arte e Arquitetura Japonesa: influencia e difusão, ministrado por Celia Campos; o I Festival de Poesia na Amazonia; o livro Poemas do lado de dentro, de Adélia Magalhães; a Minha Revistinha, da Turma do Xaxado, de Antonio Cedraz (BA); os livros Miscelânea Literária e Navegando na Literatura, de Aldenor Benevides (CE); a peça teatral A flor e o sol de Cicero Belmar; a I Mostra de Teatro Sesc-Maceió; a estreia da peça teatral Falange, Falanginha, Falangeta, do grupo Ascenarte Produções Artisticas, no Teatro Cinema Apolo, em Palmares –PE, com direção de Gilvan Mota, no projeto Arte+Educação=Teatro, promovido pelo Dere/Mata Sul, gestão Flavio Miranda. Na seção Espaço Aberto recebemos missivas de Salomão Laredo (PA), Tania Francolacci Shambeck (SC), Luiz Fernando da Silva (PB), Jorge Saraiva Anastácio (MG). Zeca Domingosilva (RO), Danilo Sampaio (SE), Fernando Cereja (SP), Silvério Costa (SC), Anchieta Santa (PI), Mara S; J; Silva (PR), Zinei (SP), Leontino Filho (RN), Reginaldo Zoid (SP), Piero lo Tacono (Italia), Marina de Fátima Dias (MS), Rolando Revagliatti (Argentina), Severino Cassiano Ferreira (PE), Sidney Gomes (ES), Maria Tereza Cavalheiro (SO) e Sérgio Junior (RJ). Destaques da edição para o desenho de Ângelo Meyer, do Teatro Cinema Apolo, sede da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, em Palmares – PE. Também a foto de José Ademir Machado dos Santos, da Praia de Pajuçara, em Maceió, premiada na II Jornada Turística Você escolhe o cartão-postal de Maceió. A Gata do Mês deste número foi dedicado à modelo, estudante e Miss São Miguel dos Campos/1999, Macy Barbosa, 21 anos, fotografada por André Fon. Veja mais aqui e aqui.


Imagem: Nude Standing Female, do pintor do Fauvismo francês Albert Marquet (1875-1947).


Curtindo o álbum Yerbabuena & nopal (2003), da cantora e atriz espanhola Rocio Jurado (1946-2006)

PALAVRAS E PENSAMENTOS – No livro Do que é feito o pensamento: a língua como janela para a natureza humana (Companhia das Letras, 2008), do escritor, linguista e psicólogo canadense-americano Steven Pinker, encontro o capítulo denominado Palavras e pensamentos, do qual destaco o trecho: Tomemos o pomo da discórdia do debate semântico mais caro do mundo, a discussão de 3,5 bilhões de dólares sobre o significado de "event". O que, exatamente, é um evento, um fato? Um evento é um período de tempo, e o tempo, segundo os físicos, é uma variável contínua - um fluxo cósmico inexorável, no mundo de Newton, ou uma quarta dimensão no hiperespaço contínuo, no de Einstein. Mas a mente humana esculpe esse tecido em pedaços independentes a que chamamos eventos. Onde a mente coloca as incisões? Às vezes, como ressaltaram os advogados do arrendatário do World Trade Center, o corte engloba a mudança de estado de um objeto, como o desabamento de um prédio. E às vezes, como ressaltaram os advogados das seguradoras, ele engloba o objetivo de um agente humano, como uma trama sendo executada. Na maioria das vezes, os círculos coincidem: um agente pretende fazer com que um objeto mude, a intenção do agente e o destino do objeto são acompanhados numa única linha temporal, e o momento da mudança marca a consumação da intenção. O conteúdo conceitual por trás da linguagem em disputa é, por si só, como uma língua (idéia que ampliarei nos capítulos 2 e 3). Representa uma realidade análoga por unidades digitais, do tamanho de palavras (como "event"), e as combina em organizações com uma estrutura sintática, em vez de misturá-las como trapos dentro de um saco. É essencial para nossa compreensão do 11 de setembro, por exemplo, não apenas que Bin Laden tenha agido para prejudicar os Estados Unidos, e que o World Trade Center tenha sido destruído mais ou menos naquela época, mas que foi o ato de Bin Laden que causou a destruição. É a ligação causal entre a intenção de um homem específico e a mudança em um objeto específico que distingue a compreensão mais disseminada do 11 de setembro das teorias da conspiração. Lingüistas chamam o conjunto de conceitos e os esquemas que os combinam de "semântica conceitual". A semântica conceitual - a linguagem do pensamento - tem de ser diferente da linguagem em si, senão não teríamos para onde ir quando discutíssemos o que nossas palavras significam. O fato de que interpretações rivais de um mesmo episódio possam desencadear um processo judicial extravagante evidencia que a natureza da realidade não dita a forma como a realidade é representada na cabeça das pessoas. A linguagem do pensamento nos permite enquadrar uma situação de maneiras diferentes e incompatíveis entre si. O desenrolar da história da manhã de 11 de setembro em Nova York pode ser pensado como um fato ou dois fatos, dependendo de como o descrevemos mentalmente para nós mesmos, o que por sua vez depende de no que escolhemos nos concentrar e o que escolhemos ignorar. E a capacidade de enquadrar um fato de formas auto-excludentes não é só motivo para ir aos tribunais, mas também é a fonte da riqueza da vida intelectual humana. Como veremos, ela proporciona o material para a criatividade científica e literária, para o humor e os trocadilhos, e para os dramas da vida social. E arma o cenário para inúmeras arenas de disputa humana. As pesquisas com células-tronco destroem uma bola de células ou um ser humano incipiente? A incursão militar norte-americana no Iraque é um caso de invasão de um país ou de libertação de um país? O aborto consiste em encerrar uma gravidez ou em matar uma criança? Impostos altos são uma forma de redistribuir a renda ou de confiscar receita? A medicina socializada é um programa para proteger a saúde dos cidadãos ou para expandir o poder do governo? Em todos esses debates, duas formas de enquadrar um fato são colocadas uma contra a outra, e os contendores lutam para mostrar que seu enquadramento é o mais adequado (critério que exploraremos no capítulo 5). Na última década, lingüistas proeminentes vêm orientando os democratas norte-americanos sobre como o Partido Republicano conseguiu, mais do que eles, fazer esse enquadramento nas últimas eleições, e sobre como eles podem retomar o controle da semântica do debate político, reenquadrando, por exemplo, taxes [impostos] como membership fees [anuidades/mensalidades] e activist judges [juízes ativistas] como freedom judges [juízes pela liberdade]. O debate sobre a cardinalidade do 11 de setembro ressalta um outro fato curioso sobre a linguagem do pensamento. Quando reflete sobre como contar os eventos daquele dia, pede que os trate como objetos que podem ser contabilizados, como uma pilha de fichas de pôquer. O debate sobre se houve um fato ou dois em Nova York naquele dia é como uma discussão sobre se há um item ou dois num caixa rápido de supermercado, como um par de tabletes de manteiga tirados de uma caixa de quatro, ou um par de toranjas vendidas a duas por um dólar. A semelhança na ambigüidade entre contabilizar objetos e contabilizar fatos é uma das muitas maneiras pelas quais o espaço e o tempo são tratados de modo equivalente na mente humana, bem antes de Einstein descrevê-los como equivalentes na realidade. Como veremos no capítulo 4, a mente classifica a matéria em coisas individuais (como a sausage [uma lingüiça]) e em matéria contínua (como meat [carne]), e do mesmo jeito classifica o tempo em fatos individuais (como to cross the street [atravessar a rua]) e em atividades contínuas (como to stroll [passear]). Tanto com o espaço como com o tempo, o mesmo zoom mental que nos permite contar objetos ou eventos também nos permite ver ainda mais de perto do que cada um é feito. No espaço, podemos nos concentrar na composição material de um objeto (como quando dizemos I got sausage all over my shirt [Tenho lingüiça na minha blusa inteira]); no tempo, podemos nos concentrar numa atividade que compõe um evento (como quando dizemos She was crossing the street [Ela estava atravessando a rua]). Esse zoom cognitivo também permite que nos afastemos no espaço e vejamos uma coleção de objetos como um conjunto (como na diferença entre a pebble [um seixo] e gravel [cascalho]), e que nos afastemos no tempo e vejamos uma coleção de eventos como uma iteração (como na diferença entre hit the nail [bater num prego] e pound the nail [martelar um prego]). E no tempo, assim como no espaço, mentalmente colocamos uma entidade num certo local e então a movimentamos: podemos move a meeting from 3:00 to 4:00 [transferir uma reunião das 15h para as 16h] da mesma maneira como podemos move a car [mover um carro] do começo até o fim de um quarteirão. Por falar em fim, até algumas das minúcias de nossa geometria mental se transportam do espaço para o tempo. O end of a string [a ponta/o fim de um cordão] é tecnicamente um ponto, mas podemos dizer Herb cut off the end off the string [Herb cortou fora a ponta/o fim do cordão], mostrando que o fim pode ser interpretado incluindo um penduricalho de matéria adjacente a ele. O mesmo acontece com o tempo: o end of a lecture [fim de uma palestra] é tecnicamente um instante, mas podemos dizer I'm going to give the end of my lecture now [Vou fazer agora o fim/a conclusão de minha palestra], interpretando o encerramento de um evento incluindo um pequeno período de tempo adjacente a ele. Como veremos, a língua está repleta de metáforas implícitas como FATOS SÃO OBJETOS e TEMPO É ESPAÇO. O espaço, na verdade, revela-se um veículo conceitual não apenas para o tempo, mas para vários tipos de estados e circunstâncias. Assim como uma reunião pode move from 3:00 to 4:00 [mudar das 15h para as 16h], um semáforo pode go from green to red [ir/passar do verde para o vermelho], uma pessoa pode go from flipping burgers to running a corporation [ir/passar de balconista de lanchonete a diretor de empresa], e a economia pode go from bad to worse [ir de mal a pior]. A metáfora está tão disseminada na língua que é difícil encontrar expressões para idéias abstratas que não sejam metafóricas. O que a concretude da linguagem diz sobre o pensamento humano? Ela implica que mesmo nossos conceitos mais etéreos são representados na mente como pedaços de matéria que mudamos de lugar num palco mental? Ela indica que afirmações rivais sobre o mundo nunca podem ser verdadeiras ou falsas, mas apenas metáforas excludentes entre si que enquadram a situação de modos diferentes? Essas são as obsessões do capítulo 5.[...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

UMA HISTÓRIA INVEROSSÍMIL – No livro Flores artificiais (Companhia das Letras, 2014), do premiado escritor Luiz Ruffato, encontro a parte denominada Uma história inverossímil, da qual destaco o trecho: Li, certa vez, um ensaio do escritor italiano Luigi Pirandello em que ele afirma que a vida pode ser inverossímil, a arte não. Pois esta história, por ser real, soará talvez fantasiosa. Para comprová-la sequer conseguiria avocar o testemunho do protagonista, que jaz numa cova rasa no alto do Cemitério Municipal de Juiz de Fora, interior de Minas Gerais. Nem mesmo saberia localizar os personagens secundários, há muito encobertos pelo pó do tempo. Portanto, cabe empenhar minha palavra de que o aqui exposto busca recompor, da melhor maneira possível, alguns aspectos da biografia de Robert (Bobby) William Clarke. O resultado é uma envergonhada sombra de sua verdadeira trajetória que possui passagens muito mais insólitas... As noites de inverno costumam ser bastante frias em Juiz de Fora. Podem tornar-se insuportáveis, caso não se esteja bem agasalhado. Eu vinha de Rodeiro, lugar quente, filho de uma família de sitiantes pobres, e, embora há tempos morando na cidade, não me habituava com a mudança de clima. Naquele segundo ano cursando engenharia, tinha me estabelecido numa pensão barata na parte baixa da rua Batista de Oliveira, que, se durante o dia animava-a forte comércio monopolizado por sírios e libaneses, à noite transformava-se em reduto de pequenos traficantes, malandros e meretrizes. Partilhava o quarto, constituído por dois beliches e guarda-roupa, com dois estudantes, um de direito, outro de odontologia, e um sujeito, pouco mais velho que nós, que consumia os dias à janela, fumando cigarros ordinários e falando sobre projetos irrealizáveis. Seguia com rigor uma rotina. Pela manhã, incluso na mensalidade, dona Clarice oferecia-nos pão mirrado, no qual lambuzava uma leve camada de margarina, e uma caneca de ágata cheia de café ralo manchado por um pingo de leite. Saía correndo, pegava um ônibus lotado, assistia aulas até o meio-dia, almoçava uma comida insossa e pesada no restaurante universitário, acompanhava com sono algumas disciplinas à tarde. De regresso, conversava com os colegas, repassava lições, lia um romancista russo, minha obsessão naquela época. Perto das onze e meia me dirigia à avenida dos Andradas, onde aguardava, junto com boêmios, desempregados, prostitutas e desvalidos em geral, Bebel servir, à meia-noite, sua famosa porque baratíssima sopa, elaborada com sobras do dia, com que nos refestelávamos. [...]. Veja mais aqui e aqui.

O OFÍCIO DE ENGORDAR AS SOMBRAS & ACASO CAOS – Durante a realização da Fenelivro este ano, em Olinda, conheci pessoalmente o poeta, jornalista e historiador Bruno Gaudêncio, de quem eu conhecia apenas de livro. Dele eu já havia lido O ofício de engordar as sombras (Sal da Terra, 2009), com apresentação do poeta e professor Sebastião Costa Andrade e do poeta José Inácio Vieira de Melo, que na primeira parte Diário das sombras severas, destaco o poema Versos íntimos: Eu, / cheio de ossos e intenções / perturbo / com meus versos curtos / e dedos longos / o sentido das trevas que me pertencem. Na segunda parte, As cores do invisível, destaco o ótimo poema Submersos sabores: No transparente suspiro dos corpos / sussurram palavras de submersos / sabores. / O prazer, dentro da gente, / se faz e refaz ao longo das horas... / ao longo dos dias. / Prisioneiro do tempo / pergunto ao desejo sobre / a lonjura da solidão, - / essa mão ligeira que embriaga / os espaços perpétuos do coração. / Indago sobre o miolo da angustia sincera / essa prece gratuita que voa / rente as ranhuras do abismo / do corpo e da alma. / Desejo dentro da gente, / se faz e refaz ao longo das horas... / ao longo dos dias. / Há sempre um deus brincando / na forma disforme do amor. Gostei do livro. Agora tenho às mãos, o seu mais recente livro Acaso caos (Ideia, 2013), com apresentação do poeta e tradutor paraibano Luís Avelima e do poeta carioca Sérgio Bernardo, posfácio do poeta e critico literário Weslley Barbosa, e comentários de Lau Siqueira, Linaldo Guedes, Astier Basílio, Hildeberto Barbosa Filho, Sergio Castro Pinto, entre outros. Na primeira parte Ruídos do efêmero destaco, incialmente, Cadernos de Pele: o olho não diz / quantos espelhos / são capazes / de sangrar / a aurora, / mas cala / as pedras / com o / silêncio / da queda / no cântico / sonoro / da solidão. E, também O tamanho de uma cor: não se pesa / um poeta / por palavras, / apenas / não se mede / um poema / por sentidos / (em cenas) / pois um poeta / é o peso / e a medida / do poema / (in)exato. Na segunda parte Elementos do acaso, destaco o belíssimo O delírio das rosas: vermelhas elas gritam / com os seus delírios dialéticos / espinhos que comem abismos / penentram os nossos destinos / (dançando a valsa dos ventos) / e ao murcharem / o fogo dos seus gestos / já não afagam os nossos olhos. Muito bom. O poeta tem demonstrado a firmeza de quem sabe o que faz, meritório, inclusive, de ser reverenciado pelo talento, aplausos. Parabéns, Bruno. Veja mais aqui e aqui.

CASAMENTO DO PEQUENO BURGUÊS – A peça teatral O casamento do pequeno burguês (1919-1926/Deriva, 2012), do dramaturgo, encenador e poeta alemão Bertolt Brecht (1898-1956), conta a história de um casamento caracterizado pelo conflito, em que todos os membros familiares envolvidos adotam posições antagônicas, instigando a reflexão sobre a moral, os valores, tradições e conveniências burguesas. Da obra destaco o trecho inicial da peça: (Uma sala pintada de branco com uma grande mesa retangular no centro. Acima da mesa, um lampião de papel vermelho. Nove cadeiras de madeira, simples e com braços. Na parede: à direita uma “chaise longue”, à esquerda uma cristaleira. Entre elas, uma porta. No fundo, ao lado esquerdo, uma mesinha baixa com duas poltronas. Na frente, à esquerda, uma porta e à direita uma janela. A mesa, as cadeiras e a cristaleira são de madeira bruta, não polida. É noite. O lampião vermelho está aceso. Os convidados do casamento estão sentados ao redor da mesa comendo). A MÃE (trazendo um prato) – Aqui está o bacalhau! (Murmúrios de elogios). O PAI – Isso me faz lembrar de uma história! A NOIVA – Come papai! O senhor sempre perde a vez! O PAI – Primeiro a história. No dia da minha confirmação o seu falecido tio estava... Não, essa já é uma outra história... Bem, todos nós estávamos comendo peixe, todos juntos, quando de repente, ele se engasgou com uma espinha. Vocês devem tomar muito cuidado com estas malditas espinhas! Bem, então ele engasgou e começou a sacudir os braços e as pernas, como se estivesse remando... A MÃE – Jakob, o rabo é seu! O PAI – ... Como se estivesse remando e a ficar azul como uma carpa e derrubou um copo de vinho! Nos pregou um susto o desgraçado! Aí bateram nas costas dele como se ele fosse um tambor e ele vomitou tudo por cima da mesa. Não se podia comer mais ali. Nós ficamos contentes porque fomos comer tudo lá fora, sozinhos, afinal era a minha confirmação, então vomitou tudo por cima da mesa e quando nós conseguimos deixar ele em forma de novo, ele disse com uma voz bem profunda e feliz, ele era ótimo baixo e cantava no coral, sobre isso também tem uma história ótima, então ele disse... A MÃE – Meu peixe está bom? Por que ninguém diz nada? O PAI – Hum, delicioso! Então ele disse... A MÃE – Mas você ainda nem provou! O PAI – Eu vou comer agora! Então ele disse... A MÃE – Jakob, come mais um pedaço. O NOIVO – Mamãe, meu sogro está contando uma história! O PAI – Muito obrigado, Jakob. Então, o bacalhau... Ah, sim, ele disse: “Crianças, eu quase me engasguei!” E a comida ficou toda estragada. (Risos). [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


OS SENSUAIS – O drama Os sensuais – crônica de uma família pequeno-burguesa (1978), dirigido pelo cineasta Gilvan Pereira, conta a história de uma misteriosa fotografia abala a estabilidade de um clã de classe média formado por um casal que se encontra vivendo junto há quarenta anos, com seus filhos e netos. O destaque do filme vai para a atriz Neila Tavares que representa o papel da fotógrafa. Ela também é atriz de teatro e televisão, além de escritora, jornalista e apresentadora de televisão, bem como edita o ótimo blog Geleia Geral. Hoje é aniversário, mas como sempre digo: todo dia é dia de Neila Tavares! E veja mais dela aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Fotos da atriz sueca Greta Garbo (1905-1990).

Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Some Moments, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...