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quinta-feira, junho 08, 2017

O SONO & O CAPITALISMO DE CRARY, MARGUERITE DE YOURCENAR, EVERETT MILLAIS, JAN MATSON & O INSONE BIRITOALDO

O INSONE BIRITOALDO – Biritoaldo não se emenda mesmo! Depois de rastejar desatinado nos calcanhares das abundantes partes pudendas da voluptuosa, feiosa e cativante Munga, de ter se enrolado com estrépito na conflituosa relação com a Xica Doida, de quase morrer endoidado de desmedido amor com a descoberta de que a Amy Winehouse já era defunta fazia tempo, e de correr o mundo todo cão sem dono enamorado atrás da Rebel Wilson, agora, dessa vez, pelo menos, era mais próxima e ao alcance da mão: a prima da Vera, a Dalzuíta. Quando viu a moça pirou arrebatado na hora! Ao primeiro não baixou hospício como bipolar, ora se passando por Sansão à procura de Dalila, ora por Comte ensandecido por Clotilde de Vaux. Dois meses depois, quase restabelecido, não resistiu ao segundo não e arriou em coma por três longos meses. Convalescente, criou coragem na base do óleo de peroba e foi ter com a moça a depor seus sentimentos: nem que eu estivesse na lua! Ah, para ele isso era uma possibilidade. Foi aí que ele abriu os olhos de nunca mais pregá-los: só queria ficar rico pra impressioná-la, não conseguiu. Pra manifestar publicamente sua incurável devoção por ela, resolveu fazer uma enorme faixa com as inscrições: Dalzuita, eu amo você. Assinado: Biritoaldo. E sem piscar os olhos nem num cochilo, tentou de tudo para expor seus sentimentos, sempre aplacado por desafetos. Resolveu subir no prédio mais alto, não obtendo sinal algum dela, resolveu pular, até que foi interceptado por Robimagaiver, seu salvador na horagá: - Ô doido, se pular tu num sai vivo de jeito nenhum. Vamos simbora que eu já passei por isso, tô curado. Teve jeito não, ele pulou pra festa da mundiça lá embaixo. Eita! A sorte foi que a faixa serviu de pára-quedas e ele foi saudado aos aplausos e apupos. Tirante umas fraturas expostas por se enganchar em marquises e postes, restou vivinho da silva, dizendo: vou pra lua. Pronto, endoidou de vez. Virando a noite pelo dia, foi procurar quem pudesse enviá-lo pro satélite a fim de cumprir sua missão, ninguém levou a sério. Só tinha um jeito: ir a pé mesmo pra Nasa. E foi. Marchou sem jazer até lá, foi reprovado. Porém, não passou aperto, usou do expediente do jeitinho e foi incluído no treinamento de astronautas, ninguém sabe como, mas entrou. Cinco anos depois foi reprovado de novo; nem se avexou, jeitinho na hora e já estava selecionado pra prova final e, nessa hora, foi rejeitado. Já haviam se passado quase sete anos, fez de tudo nos semáforos: plantou bananeira, deu língua e salto solto, pintou miséria e amealhou uma grana boa pra comprar quem aparecesse pela frente. E ganhou, no dia certo lá estava ele confortavelmente aboletado no foguete, repetindo a contagem regressiva. Vupt! Lá se foi até chegar lá, abrir a faixa e prendê-la num cano que arrumou na hora, fincá-la no solo lunar e levitar segurando o mastro pra ver se de lá ela via o aceno dele vencedor pra ela. Chamaram-no para retornar, negou; queria ficar lá até receber um sinal dela, mínimo que fosse. Fizeram de tudo e não conseguiram demovê-lo, deixando-o à própria sorte. O bastão se desprendeu do solo e lá foi ele levado pela órbita, até dar uma abalroada num asteróide, de se agarrar nele vagando na imensidão. Pra não perder a faixa, enfiou o bregueço prendendo-o no cu, como se fosse um cometa que já não dormia há anos, agora nem podia relaxar, senão perdia a declaração de amor e a vida. O que importava pra ele era estar cônscio o tempo inteiro da paixão que lhe queimava a alma e o corpo, porque essa mulher, para ele, valia todos os sacrifícios até a insensatez. Alguma notícia dele? Perdeu-se, sumiu-se. E ela nem aí pro que havia dele. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

O SONO & O CAPITALISMO DE CRARY
[...] A história mostra que inovações relacionadas à guerra são inevitavelmente assimiladas na esfera social mais ampla, e o soldado sem sono seria o precursor do trabalhador ou do consumidor sem sono. Produtos contra o sono, após agressiva campanha de marketing das empresas farmacêuticas, iriam se tornar uma opção de estilo de vida — e depois, para muitos, uma necessidade. Mercados atuando em regime de 24/7—24 horas por sete dias na semana — e infraestrutura global para o trabalho e o consumo contínuos existem há algum tempo, mas agora é o homem que está sendo usado como cobaia para o perfeito funcionamento da engrenagem. [...] A privação de sono como forma de tortura é aplicada há muitos séculos, mas seu uso sistemático coincide historicamente com a disponibilidade de luz elétrica e a facilidade para amplificar o som de modo contínuo. [...] A imensa parte de nossas vidas que passamos dormindo, libertos de um atoleiro de carências simuladas, subsiste como uma das grandes afrontas humanas à voracidade do capitalismo. [...]
Trecho da obra 24/7 – Capitalismo tardio e os fins do sono (Cosac Naify, 2014), do professor estadunidense de Teoria e Arte Moderna, Jonathan Crary.

Veja mais sobre:
Tunga: toro imaginário no interior de uma rocha, a poesia de César Vallejo, a estética do teatro de Redondo Junior, João Pessoa, a arte de Sônia Braga, a música de Ná Ozzetti & Os sapos da política de Edson Moura aqui.

E mais:
Vamos aprumar a conversa: segunda-feira, As conseqüências da modernidade de Anthony Giddens, Fedra de s Jean Racine, o cinema de Arnaldo Jabor & Sônia Braga, a literatura de Marguerite de Yourcenar, a música de Robert Schumann, a pintura de Francisco Ribalta & a arte de Ary Spoelstra aqui.
A personologia de Henry Murray aqui.
Literatura de cordel: A quadrilha junina de Francisco Diniz aqui.
Precisamos discutir sobre os próximos 20 anos, Vitórias e derrota de Zygmunt Bauman, A humanidade do estranho diário de Carolina de Jesus, o teatro de Tennessee William, o cinema de Jules Dassin & Melina Mercouri, Brincarte & Literatura Infantil, A vida íntima & privada de Fernanda Bruno, a coreografia de Janice Garrett and Dancers Heidi Schweiker, a pintura de Alessandra Tomazi, a entrevista de Rejane Souza, a arte de Arlinda Fernandes & Luciah Lopez, a música de Irina Costa & Canção de quem ama além da conta aqui.
Aprendi a voar nas páginas de um livro, O homem e seus símbolos de Carl Gustav Jung, O homem e a sociedade de Wilfred Ruprecht Bion, A atualidade de Georg Simmel, a escultura de Wilhelm Lehmbruck, Assombrações de Eduardo Caballero Calderón, o teatro de Oduvaldo Vianna Filho & Helena Varvaki, O direito de viver e deixar viver, a fotografia de Rebeka Barbosa, a arte de Karen Robinson & Luiz Paulo Baravelli, a música de Tarita de Souza, Tracey Emin & Samuel Szpigel, a entrevista de Katia Velo, Por mais que a gente faça nunca será demais & Do que fui e o que não sou mais aqui.
Para viver o personagem do homem, Educação e escolarização de Ivan Illich, Vínculo, afeto & apego de Edward John Bowlby, Platão, o teatro de Nelson Rodrigues, a entrevista de Geraldo Azevedo, a pintura de Cândido Portinari, a escultura de Georg Kolbe, o cinema de Shohei Imamura & Misa Shimizu, a música de Zap Mama & Marie Daulne, a coreografia de Katherine Lawrence, a fotografia de Ryan Galbrath & Mario Testino, Bastinha Job, A Notícia & Jamilton Barbosa Correia, a arte de Rachel Howard, Depois das eleições, De cara pro futuro, levando tudo nos peitos, munheca em dia & pé na tábua & O que deu, deu; o que não deu, só na outra aqui.
Quando o futuro chega ao presente, Escritos de Michel Philippot, A bússola dobrada de Phillip Pullman, A física do horizonte de Gilles Cohen-Tannoudji, A música de Antonín Dvořák & Alisa Weilerstein, a arte de Willow Bader & Lorenzo Villa, a fotografia de Katyucia Melo & a poesia de Bárbara Sanco aqui.
Mais que tudo o amor, Confesso que vivi de Pablo Neruda, o pensamento de Pierre Gringore, O teatro e seu duplo de Antonin Artaud, a música de Ana Rucner, a fotografia de Daniel Ilinca, a poesia de Mariza Lourenço & a arte de Luciah Lopez aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

O AMOR NAS MEMÓRIAS DE MARGUERITE DE YOURCENAR
[...] De todos os jogos, o do amor é o único capaz de transportar a alma e, ao mesmo tempo, o único no qual o jogador se abandona necessariamente ao delírio do corpo. Não é indispensável que aquele que bebe abdique da razão, mas o amante que conserva a sua não obedece inteiramente ao deus do amor. Tanto a abstinência quanto ao excesso engajam apenas o homem só. [...] Não conheço, fora do amor, outra situação em que o homem deva decidir-se por motivos mais simples e mais inelutáveis. No amor, o objeto escolhido deve valer exatamente seu peso bruto em prazer, e é ainda no amor que o mante da verdade tem maiores probabilidades de julgar a nudez da criatura. A partir do desnudamento total, comparável ao da noite, de uma humildade que ultrapassa a da derrota e da prece, maravilho-me ao ver renovar-s, cada vez, a complexidade das recusas, das responsabilidades, das promessas, das pobres confissões, das frágeis mentiras, dos compromissos apaixonados entre nosso prazer e o prazer do Outro, tantos laços impossíveis de romper e tão depressa rompidos! Esse jogo cheio de mistérios, que vai do amor de um corpo ao amor de uma pessoa, pareceu-me belo o bastante para consagrar-lhe uma parte de minha vida. As palavras enganam, especialmente as do prazer, que comportam as mais contraditórias realidades, desde as noções de aconchego, doçura e intimidade dos corpos, até as da violência, da agonia e do grito. [...]. Confesso que a razão permanece confusa em presença do prodígio do amor, da estranha obsessão que faz com que essa mesma carne, que tão pouco nos preocupa quando compõe nosso corpo, limitando-nos somente a lavá-la, nutri-la e, se possível, impedi-la de sofrer, possa inspirar=nos uma tal paixão de caricias simplesmente porque é animada por uma personalidade diferente da nossa e porque representa certos traços de beleza sobre os quais, aliás, os melhores juízes não estariam de acordo. Aqui, como nas revelações dos Mistérios, tudo se passa além do alcance da lógica humana. A tradição popular não se enganou ao ver no amor uma forma de iniciação e um dos pontos onde o secreto e o sagrado se tocam. A experiência sensual equipara-se ainda aos Mistérios quando a primeira aproximação provoca nos nã0-iniciados o efeito de um rito mais ou menos assustador, escandalosamente desligado de todas as funções até então familiares, como comer, beber e dormir, parecendo antes motivo de gracejo, vergonha, ou terror. Da mesma maneira que a dança das mênades ou o delírio dos coribantes, nosso amor arrasta-nos para um universo diferente, onde, em situação normal, nos é vedada a entrada e onde cessamos de nos orientar, uma vez apagado o ardor e extinto o prazer. Cravado no corpo amado como um crucificado à sua cruz, penetrei em certos segredos da vida que começam a desvanecer-se da minha lembrança por efeito da mesma lei que faz com que o convalescente, depois de curado, cesse de encontrar-se nas misteriosas verdades do mal, que o prisioneiro posto em liberdade esqueça a tortura, e o triunfador, a embriaguês da glória. [...].
Trechos do romance Memórias de Adriano (Mémoires d'Hadrien - Círculo do Libro, 1974), da escritora belga de língua francesa Marguerite de Yourcenar (1903-1987). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor e ilustrador pré-rafaelista ingles, John Everett Millais (1829-1896)
Veja mais aqui.

PROGRAMA TATARITARITATÁ
Programa Tataritaritatá, sexta, 09/06, meia noite. Confira aqui & aqui.
 

quinta-feira, março 07, 2013

SHIRLEY HAZZARD, CHINUA ACHEBE, DANIEL FILIPE, SOPHIE KINSELLA, HUFFINGTON & LITERÓTICA


 

LITERÓTICA: PLETORA DOS ANTÍPODAS - A sua nudez se agiganta na minha afeição. E eu recolho o seu corpo como quem persegue a salvação da vida. E persigo escalando suas encostas íngremes e latejantes de carne firme, ilha perfumada nua em pêlo, arrepiada com toda a seiva transbordante com cheiro bom de enlouquecer. E endoideço enquanto você se prolonga na alegria do meu coração que se apropria de toda sua esbelta deidade tentadora para deixá-la encurralada nas minhas carícias à queima roupa. E vou desenfreado pilhando seu corpo enquanto se precipita sobre o poderio do meu falo rijo que lambuza a generosidade do triângulo púbico até a celebração sinuosa da dança pélvica que me arregala os olhos de forma assustadora com seu embalar de felicidade por possuí-la suculenta e depravada. E na nossa obscena empatia vou explorando as minas de ouro escondidas sob a língua sibilante da Britney cheia de imprecações, no regato dos seios que nutre nossa atração recíproca e nossos corpos mútuos, nos pontos de ebulição que acende a clareira de nossa vertigem despudorada, nas nádegas arrebitadas que bamboleia para o meu completo enlouquecimento, na sua guarita onde a minha vontade endurecida mergulha no abismo para que possa hibernar soterrado de prazer. E na descoberta da delícia, vou investindo com lambidas ferozes cada fatia da deusa do meu panteão, minha suméria Nammu que pariu o céu e a terra no caos enquanto o meu sexo guerreiro golpeia e empurro com estocadas loucas cerrando os dentes, penetrando sua alma como um cavalo selvagem que atravessa o seu gemido gutural apertando meu membro no prazer crescente e inevitável, até transbordar todos os impulsos e peripécias do nosso bom bocado onde o bumerangue vence a parada de todo quilate de sua satisfação tantalizada. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - A tragédia não é que o amor não dure. A tragédia é o amor que dura... Quando você percebe que alguém está tentando te machucar, dói menos. A menos que você o ame... Os seres humanos precisam de infelicidade pelo menos tanto quanto eles precisam de felicidade... A poesia tem sido o maior prazer da minha vida... Pensamento da escritora australiana Shirley Hazzard (1931-2016).

 

ALGUÉM FALOU: Quando as coisas dão errado na vida, você levanta o queixo, põe um sorriso encantador, prepara um coquetel para você... Não existe isso de arruinar a sua vida. A vida é uma coisa muito resistente, ao que parece. Por vezes você não precisa de um objetivo de vida, você não precisa de saber qual é o próximo grande plano. Você só precisa saber o que vai fazer agora!... Pensamento da escritora britânica Sophie Kinsella.

 

ÉTICA & MORAL – Para Mário Sérgio Cortella: Ética é a concepção dos princípios que eu escolho, moral é a sua prática. Veja mais aqui. Para José Saramago: Nem a arte nem a literatura têm de nos dar lições de moral. Somos nós que temos de nos salvar, e isso só é possível com uma postura de cidadania ética, ainda que isto possa soar antigo e anacrônico. Veja mais aqui & aqui. Para Oscar Wilde: Chamamos de Ética o conjunto de coisas que as pessoas fazem quando todos estão olhando. O conjunto de coisas que as pessoas fazem quando ninguém está olhando chamamos de Caráter. Veja mais aqui & aqui. E sobre Ética & Moral veja mais aqui.

 

O SONO – [...] Privar-nos de uma boa noite de sono afeta nega­tivamente o estado de humor, o poder de concentração e a capacidade de acessar funções cognitivas mais complexas. A combinação desses fatores é o que chamamos de desempenho mental. [...] Quando você não dorme o suficiente percebe que não está dando o melhor de si, seja nas decisões de trabalho, nos desafios dos rela­cionamentos ou em qualquer situação que requeira julgamento, equilíbrio emocional e criatividade. [...]. Trechos extraídos da obra A terceira medida do sucesso (Sextante, 2013), da escritora Arianna Huffington. A esse respeito veja A importância do sono de Regeane Reabulsi aqui & a privação do sono de Jonathan Crary aqui.

 

AS COISAS DESMORONAM – [...] Não há história que não seja verdadeira, [...] O mundo não tem fim, e o que é bom para um povo é uma abominação para os outros. [...] Se eu seguro a mão dela, ela diz: 'Não toque!' Se eu seguro o pé dela, ela diz: 'Não toque! [...] O sol vai brilhar sobre aqueles que estão de pé antes de brilhar sobre aqueles que se ajoelham sob eles. [...] Quando a lua está brilhando, o aleijado fica com fome de uma caminhada. [...] Uma criança não pode pagar pelo leite de sua mãe. [...]. Trechos extraídos da obra Things Fall Apart (Anchor Books, 1994), do escritor nigeriano Chinua Achebe (1930-2013), Veja mais aqui e aqui.

 

A INVENÇÃO DO AMOR - Em todas as esquinas da cidade / nas paredes dos bares á; porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros / mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes / na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém / no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga / um cartaz denuncia o nosso amor / Em letras enormes do tamanho / do medo da solidão da angústia / um cartaz denuncia que um homem e uma mulher / se encontraram num bar de hotel / numa tarde de chuva / entre zunidos de conversa / e inventaram o amor com carácter de urgência / deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana / Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura / e souberam entender-se sem palavras inúteis / Apenas o silêncio A descoberta A estranheza / de um sorriso natural e inesperado / Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna / Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente / embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta / de um amor subitamente imperativo / Um homem e uma mulher um cartaz de denúncia / colado em todas as esquinas da cidade / A rádio já falou A TV anuncia / iminente a captura A policia de costumes avisada / procura os dois amantes nos becos e nas avenidas / Onde houver uma flor rubra e essencial / é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo / É preciso encontrá-los antes que seja tarde / Antes que o exemplo frutifique / Antes que a invenção do amor se processe em cadeia / Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos / Chamem as tropas aquarteladas na província / Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva / Todos / Decrete-se a lei marcial com todas as consequências / O perigo justifica-o / Um homem e uma mulher / conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade / É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los / antes que seja demasiado tarde / e a memória da infância nos jardins escondidos / acorde a tolerância no coração das pessoas / Fechem as escolas / Sobretudo protejam as crianças da contaminação / uma agência comunica que algures ao sul do rio / um menino pediu uma rosa vermelha / e chorou nervosamente porque lha recusaram / Segundo o director da sua escola é um pequeno triste / Inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão / Aplicado no entanto Respeitador da disciplina / Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos / Ainda bem que se revelou a tempo / Vai ser internado / e submetido a um tratamento especial de recuperação / Mas é possível que haja outros. É absolutamente vital / que o diagnóstico se faça no período primário da doença / E também que se evite o contágio com o homem e a mulher / de que fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade / Está em jogo o destino da civilização que construímos / o destino das máquinas das bombas de hidrogénio / das normas de discriminação racial / o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos / a verdade incontroversa das declarações políticas / Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários / precisamos da sua experiência onde quer que se escondam / ao temor do castigo / Que todos estejam a postos / Vigilância é a palavra de ordem / Atenção ao homem e á; mulher de que se fala nos cartazes / À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem / Telefonem á; polícia ao comissariado ao Governo Civil / não precisam de dar o nome e a morada / e garante-se que nenhuma perseguição será movida / nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa / Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio / comissões de vigilância. Está em jogo a cidade / o país a civilização do ocidente / esse homem e essa mulher têm de ser presos / mesmo que para isso tenhamos de recorrer á;s medidas mais drásticas / Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais / a inviolabilidade do domicílio o habeas corpus o sigilo da correspondência / Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher amam-se ilegalmente / espreitam a rua pelo intervalo das persianas / beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna / É preciso encontrá-los / É indispensável descobri-los / Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater / É possível que cantem / mas defendam-se de entender a sua voz / Alguém que os escutou / deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas / E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra / respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz / lhe lembravam a infância / Campos verdes floridos água simples correndo A brisa das montanhas / Foi condenado á; morte é evidente / É preciso evitar um mal maior / Mas caminhou cantando para o muro da execução / foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele / um misterioso halo de uma felicidade incorrupta / Impõe-se sistematizar as buscas Não vale a pena procurá-los / nos campos de futebol no silêncio das igrejas nas boîtes com orquestra privativa / Não estarão nunca aí / Procurem-nos nas ruas suburbanas onde nada acontece / A identificação é fácil / Onde estiverem estará também pousado sobre a porta / um pássaro desconhecido e admirável / ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa / Será então aí / Engatilhem as armas invadam a casa disparem á; queima roupa / Um tiro no coração de cada um / Vê-los-ão possivelmente dissolver-se no ar Mas estará completo o esconjuro / e podereis voltar alegremente para junto dos filhos da mulher / Mais ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o pranto / Quer dizer que fostes contagiados Que estais também perdidos para nós / É preciso nesse caso ter coragem para desfechar na fronte / o tiro indispensável / Não há outra saída A cidade o exige / Se um homem de repente interromper as pesquisas / e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão / já sabeis o que tendes a fazer Matai-o Amigo irmão que seja / matai-o Mesmo que tenha comido á; vossa mesa e crescido a vosso lado / matai-o Talvez que ao enquadrá-lo na mira da espingarda / os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea / e deslizem depois numa tristeza líquida / até ao fim da noite Evitai o apelo a prece derradeira / um só golpe mortal misericordioso basta / para impor o silêncio secreto e inviolável / Procurem a mulher o homem que num bar / de hotel se encontraram numa tarde de chuva / Se tanto for preciso estabeleçam barricadas / senhas salvo-condutos horas de recolher / censura prévia á; Imprensa tribunais de exceção / Para bem da cidade do país da cultura / é preciso encontrar o casal fugitivo / que inventou o amor com carácter de urgência / Os jornais da manhã publicam a notícia / de que os viram passar de mãos dadas sorrindo / numa rua serena debruada de acácias / Um velho sem família a testemunha diz / ter sentido de súbito uma estranha paz interior / uma voz desprendendo um cheiro a primavera / o doce bafo quente da adolescência longínqua / No inquérito oficial atónito afirmou / que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte / e caminhavam envoltos numa cortina de música / com gestos naturais alheios Crê-se / que a situação vai atingir o clímax / e a polícia poderá cumprir o seu dever.  Poema do escritor e jornalista cabo-verdiano Daniel Filipe (1925-1964).

 

LITERÓTICA: SOU FESTA DENTRO DELA!


A SURPRESA NO REINO DO AMOR

TRAQUINAGENS DO AMOR

A VIÚVA & BAGOAS

TERRINA

ALVOROÇO

O GOSTO DA ÚLTIMA VEZ

GINOFAGIA: QUATRO POEMETOS EM PROSA DE PAIXÃO POR ELA

EU & ELA NAQUELA NOITE TODAS AS NOITES

EU & ELA NA FESTA DO CÉU

OS PRAZERES DE HÉCATE

ELA, A INCÓGNITA DO PRAZER

MANDONISMO DA PAIXÃO

GINOFAGIA DA CHEGADA DELA PRO AMOR

 


Veja mais sobre:
Fonte no Crônica de amor por ela, Gabriel García Márquez, Paul Éluard, José Paulo Paes, Alan Watts, Carmina Burana de Carl Orff, Michel de Montaigne, Fernando Bonassi, Ingmar Bergman, Birgitta Valberg, Maurice Béjart, Birgitta Pettersson & Rachel Lucena aqui.

E mais:
Ana Lins, a Revolução Pernambucana de 1817 & Todo dia é dia da mulher aqui.
João Cabral de Melo Neto, Joan Baez, Rigoberta Menchú, Simone de Beauvoir & Eduardo Viana aqui.
A paranoia da paixão por ela aqui.
Manoel Bentevi, Sinhô, Marshal McLuhan, Parafilias, Ópera Maldita, Giulia Gam & Anna Bonaiuto aqui,
Fecamepa: quando o Brasil dá uma demonstração de que deve mesmo ser levado a sério aqui.
O evangelho segundo padre Bidião & Jesus voltou aqui.
Pra tudo tem jeito, menos pro que não pode ou não quer aqui.
Tantas fazem & a gente é quem paga o pato aqui.
Globalização, Educação & Formação Pedagógica, Direito Ambiental & Psicologia Escolar aqui.
A poética teatral de Federico Garcia Lorca aqui.
DST/AIDS, Educação & John Dewey aqui.
Sincretismo religioso aqui.
Racismo aqui.
O trabalho da mulher aqui.
Levando os direitos a sério, de Ronald Dworkin aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
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Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora Tataritaritatá!!!
Veja aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: 
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.




MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...