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domingo, maio 31, 2015

CHARB, WHITMAN, DAMRAU, PROSÉRPINA, ALLORI, BERNINI & TEATRO.

 

CRÔNICA DE AMOR POR ELA

Ela beija a minha noite com o céu da sua boca estrelada...

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O RAPTO DE PROSÉRPINA/PERSÉFONE – Imagem: escultura O rapto de Prosérpina (1621-1522 – Galleria Borghese, Roma), do artista do Barroco italiano, Gian Lorenzo Bernini (1598-1680) - Na mitologia latina Prosérpina; na mitologia grega Perséfone, a rainha do submundo (também relacionada com a deusa lusita Atégina). A filha de Júpiter e Ceres (Deméter, deusa das colheitas entre os gregos), estava colhendo flores quando foi raptada por Plutão (Hades entre os gregos), que a fez sua esposa, encantado com a sua beleza. Desesperada com o sumiço, sua mãe destruiu todas as plantações, arrando o mundo ao caos e à fome, exigindo que o deus devolvesse sua filha. Como ardil do deus, convencionou-se que a esposa passaria uma parte do ano que compreende o inverno e o outono no submundo, enquanto que na outra metade vai pra companhia da mãe, durante o verão e a primavera. Na data de hoje dá-se a culminância do Festival de Prosérpina entre os romanos. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

Imagem: Venere e Cupido (1570), do pintor histórico e retratista italiano Alessandro Allori – também conhecido como Alessandro Bronzino (1535-1607).

Curtindo Poesie (2011), com a seleção orquestral e operística do compositor e maestro do Romantismo alemão, Richard Strauss (1864-1949), pela soprano dramático alemã Diana Damrau com a Münchner Philharmoniker, liderada por Christian Thielemann.



VAMOS APRUMAR A CONVERSA? PROGRAMA BRINCARTE DO NITOLINO – Hoje é dia do programa Brincarte do Nitolino antecipando as comemorações de amanhã do Dia Mundial da Criança e aniversário da adoção da Declaração dos Direitos da Criança. Como sempre, o programa será realizado a partir das 10hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação pra lá de simpática de Isis Corrêa Naves. Na programação muitas atrações: Turma da Mônica, Banda Nova Estação Recife, Os Três Lobinhos, Farell Oliveira, Clarice Pacheco, Meimei Corrêa, Larissa Manoela, Sandra Fayad, Bita & Os Animais, Bob Zoom, Danny Pink, Eliana, Leandro & Leonardo & muita música, muita poesia, histórias e brincadeiras pra garotada. Para conferir online e ao vivo clique aqui ou aqui.

ESTA É A FORMA FÊMEA - O livro Folhas de Relva (Harbra, 2011), do poeta, ensaísta e jornalista estadunidense Walt Whitman (1819-1892), publicado primeiramente em 1855, reunindo apenas dose poemas, tendo sucessivas reedições até a sua edição de leito de morte em 1891-1892, com mais de quatrocentos poemas, sendo, pois, considerado pelo autor que cada edição era um livro próprio e distinto com alteração do conteúdo e da forma. Da obra destaco o poema Esta é a forma fêmea, traduzido por Geir Campos: Esta é a forma fêmea, /dela dos pés à cabeça emana um halo divino, / ela chama com ardente atração irrecusável, / sou absorvido por seu respirar como se não fosse mais / do que um vapor indefeso, tudo fica de lado / a não ser ela e eu, / os livros, a arte, a religião, o tempo, a terra sólida e visível, / e o que do céu se esperava e do inferno se temia, / tudo se acaba, / estranhos filamentos, incontroláveis renovos / aparecem fora dela, / e a ação correspondente também incontrolável, / cabelo, peito, quadris, curvatura de pernas, mãos displicentes / caindo todas difusas, difusas também as minhas, / maré de influxo e influxo de maré, carne de amor inturgescendo / e a doer deliciosamente, / inexauríveis jatos límpidos de amor quentes e enormes, / geléia de amor trêmula, alucinado sopro e sumo delirante, / noite de amor de noivo certa e maciamente laborando / no amanhecer prostrado, / a ondular para o presto e proveitoso dia, / perdida na separação do dia de carne doce e envolvente. / Eis o núcleo - depois vem a criança nascida de mulher, / vem o homem nascido de mulher, / eis o banho de origem, a emergência do pequeno e do grande, / e a saída outra vez. / Não vos vexeis, mulheres: em vosso privilégio tendes fechados / os outros e está a passagem dos outros, / vós sois os portões do corpo e sois os portões da alma. / A fêmea tem todas as qualidades e as tempera, / está no seu lugar e move-se com perfeito equilíbrio, / ela é todas as coisas devidamente veladas, / passiva e ativa ao mesmo tempo, / é para conceber filhas bem como filhos / e filhos bem como filhas. / Assim como eu vejo minha alma refletida na Natureza, / como vejo através de um nevoeiro, Uma de inexprimível / plenitude, sanidade, beleza, / vejo de cabeça baixa e de braços dobrados sobre o peito - / a Fêmea eu vejo. / O macho não é mais nem menos do que a alma, / ele também está no seu lugar, / ele também é todo qualidades, é ação e força, / o fluxo do universo conhecido nele se encontra, / o desdém fica-lhe bem, ficam-lhe bem os apetites e a ousadia, / as mais fundas paixões, o maior entusiasmo / e a tristeza maior, ficam-lhe bem, o orgulho é para ele, / orgulho de homem, elevado ao máximo é calmante / e excelente para a alma, / fica-lhe bem o conhecimento, ele sempre o aprecia, / tudo ele chama à própria experiência, / qualquer que seja o valor, quaisquer que sejam o mar / e o vento, no fim é aqui que ele faz as sondagens. / (Onde mais lança ele a sua sonda, senão aqui?) / Sagrado é o corpo do homem, como é sagrado / o corpo da mulher, / sagrado não importa de quem seja - é o mais humilde numa / turma de trabalhadores? / É um dos imigrantes de face turva apenas desembarcados no cais? / São todos daqui ou de qualquer parte, da mesma forma / Que os bem colocados da mesma forma que vós, / cada um tem na procissão o lugar dele ou dela. / (E tudo uma procissão, o universo é uma procissão de movimento medido e perfeito). Sabeis tanto de vós mesmos para chamardes ignorante / ao mais humilde? / Julgai-vos com direito a uma boa visão, e ele ou ela / Sem direito a visão alguma? / Imaginais que a matéria se fez coesa do caos em que flutuava, / e o solo veio para a superfície, e as águas correm / e brotam as plantas, para vós só, para ele e ela nada? / Em leilão um corpo de homem / (antes da guerra vou amiúde ao mercado de escravos e assisto a venda) / e ajudo ao leiloeiro, o descuidado não sabe o seu negócio / nem pela metade. / Senhores olhem esta maravilha, / quaisquer que sejam os lanços dos lançadores / jamais serão bastante altos para isto, / para isto o globo levou quintilhões de anos em preparos / sem animal ou planta, / para isto os ciclos evolutivos desenrolaram-se de fato / e com firmeza. Esta cabeça o cérebro capaz de tudo, / nela e abaixo dela a argamassa dos herois. / Examinai estas pernas, vermelhas, pretas ou brancas, / trabalhadas em nervos e tendões, / deviam estar abertas para que as pudésseis ver. / Sentidos os mais finos, olhos acesos de vida, energia, vontade, / músculo do peito em flocos, pescoço e espinha flexíveis, / carne não flácida, pernas e braços de justo tamanho, / mais maravilhas lá dentro. / Lá dentro corre o sangue, / mesmo sangue antigo, o mesmo sangue em seu curso vermelho! / Se alguma coisa é sagrada o corpo humano é sagrado, / e a glória e doçura de um ser humano é o dom / da humanidade incorrompida, / e assim no homem como na mulher um corpo limpo, / forte, de boa fibra, é mais bonito do que o mais bonito rosto. / Ali pulsa e bombeia um coração, ali todas as paixões, desejos, / conquistas, aspirações. / (Imaginais que não estão ali, porque não são exibidas / Em parlatórios e salas de aula?) / Isto não é unicamente um homem, é um pai de outros / que a seu turno serão pais, / nele reside o princípio de populosos estados / e faustosas repúblicas, / ele encerra imortais vidas sem conta / com incontáveis encarnações e deleites. / Como sabeis quem surgirá do rebento do seu rebento / atravessando os séculos? (De quem vós mesmos descobriríeis que vindes, se pudésseis / seguir o vosso rastro pelos séculos passados?) / Um corpo de mulher posto em leilão: / ela também não é somente ela, é a pródiga mãe de mães, / é a portadora daqueles que hão de crescer e dar parceiros / para as mães. / Alguma vez amastes o corpo de uma mulher? / Alguma vez amastes o corpo de um homem? / Não percebeis que são exatamente os mesmos para todos / Em todas as épocas e nações em toda a terra? / Vistes o doido que estragou seu próprio corpo em vida? / e a doida que estragou seu próprio corpo em vida? / Pois eles não se escondem, nem a si mesmos / podem esconder. Veja mais aqui e aqui.

EVOLUÇÃO E SENTIDO DO TEATRO – No livro Evolução e sentido do teatro (Zahar, 1964), do educador, professor e crítico de teatro e mitologia Francis Fergusson (1904-1986), destaco o trecho A sensibilidade histriônica: a percepção mimética da ação: [...] Sei que a maior parte da teoria contemporânea – seja de arte ou de conhecimento ou de psicologia – não dá margem ao conceito de ação ou de imitação da ação. Provavelmente é o seu realismo primitivo que é inaceitável, tanto para os que querem reduzir todo o conhecimento a fatos e conceitos abstratos como para os que tentam manter o absolutismo da arte. As objeções dos semânticos à epistemologia de Aristóteles baseada no nous, ou inteligência aperceptiva, não são muito convincentes, mas representam um hábito mental contemporâneo importante e resistente. Aristóteles não é tão desavisado como pensam; o que ele tem, que eles não tem não é a credulidade ingênua, mas o reconhecimento de que percebemos coisas e pessoas antes da doutrinação, como ele diz. A sensibilidade histriônica, a percepção da ação, é uma dessas tomadas de consciências primitivas diretas. As teorias contemporâneas de arte que omitem ou rejeitam o conceito da imitação da ação resultam mais inquietantes do que as teorias pseudocientíficas, devido à compreensão que nos possibilitam da obra real do artista em nosso tempo. Elas nos lembram como é difícil – depois de trezentos anos de racionalismo e idealismo, com os tipos tradicionais de comportamento perdidos ou desacreditados, como torna-se difícil ver qualquer ação que não seja a nossa própria. Eliot, por exemplo, provavelmente o mais realizado poeta vivo, não parece achar a fórmula aristotélica válida ou útil. Sugere então que o proposito do poeta é encontrar equivalentes objetivos para seus sentimentos. A expressão equivalentes objetivos parece enfatizar o famoso classicismo de Eliot. Entretanto, ela não se refere às visões do poeta, mas ao poema que ele está fazendo; e leva a supor que é apenas um sentimento o que o poeta deve transmitir. Assim, a fórmula está mais perto da noção romântica de arte como expressão de sentimento ou paixão, do que da doutrina de imitação. A ênfase no poema e sua forma, até à exclusão do que ele representa, reconhece apenas um dos instintos que Aristóteles considerava as raízes da poesia em geral, o instinto para a harmonia e o ritmo. Talvez essa ênfase na característica diferenciadora da arte – o que a separa de outras percepções de ação – seja necessária para reafirmar a existência da arte. Talvez seja estratégia pobre para um poeta preocupar-se, no momento da composição, com a verdade em qualquer sentido, exceto a verdade para com seus sentimentos. E pode ser que, em nossa época perturbada, o poeta tenha apenas uma inspiração patética; e que se não se agarrar à univocidade da paixão divinatória esteja em perigo de não ter mais nada com que trabalhar. Poesia, diz Aristóteles, como reconhecendo as limitações de sua própria teoria, implica ou um dom feliz da natureza ou um esforço enlouquecedor. No primeiro caso, o homem pode tomar a forma de qualquer personagem; no segundo, se desprende de seu próprio ser. Tais considerações recordam-nos o mistério do ato criador em qualquer arte; recordam-nos nossa dependência dos mestres, e a dependência dele da cultura circundante. Entretanto, a noção do drama como imitação da ação é possível para nós e muito valiosa. De certa forma nós temos realmente percepção direta da vida mutável da psique antes de qualquer doutrinação; antes mesmo de imitá-la por meio de palavras ou sons musicais. Quando percebemos diretamente a ação que o artista pretende, podemos compreender a objetividade de uma visão,s eja como for que ele tenha chegado a ela; e em consequência a própria forma de sua arte. Só assim pode alguém captar as analogias entre representar e escrever para teatro, entre várias formas de drama e entre o drama e outras artes. Veja mais aqui e aqui.

LE MEILLEUR DE LA VIE – A comédia Le Meilleur de la vie (1985), realizado pelo diretor, roteirista e ator francês Reinaud Victor (1946-1991), conta a história de dois amantes que brigam por sua condição econômica: ela rica, alegre, sensível e independente, ele pobre, possessivo, violento e introvertido. Eles se casam, têm um filho e divergem das amizades e do estilo de vida diferente de cada um, tomando a vida deles guinada inesperada. O destaque da película vai para a premiadíssima atriz e diretora francesa Sandrine Bonnaire. Veja mais aqui

IMAGEM DO DIA
Charge do caricaturista, cartunista e jornalista francês Charb – Stéphane Charbonnier (1967-2015), assassinado no massacre do jornal satírico francês Charlie Hebdo, no qual era diretor, extraída do livro Marx, manual de instruções (Boitempo, 2013) do filósofo, professor e dirigente da Quarta Internacional, Daniel Bensaid (1946-2010).


Veja mais sobre:
Vamos aprumar a conversa: Psicologia escolar, Ensaios das obras escolhidas de Walter Benjamin, Felicidade clandestina de Clarice Lispector, Folhas da relva de Walt Whitman, A cantora careca de Eugène Ionesco, a pintura de Siron Franco, a música de Enya, o cinema de Nathaniel Hawthorne & Demi Moore aqui.

E mais:
Pocotós & outras bufas, A comissão da verdade do Fecamepa & Vera indignada: será a Carolina Dickman? aqui.
Big shit bôbras: a profissão golpista do marido da Marcela, História Universal da Infâmia de Jorge Luis Borges, Mundo das imagens eletrônicas de Guido e Teresa Aristarco, a música de Fredrika Brillembourg, a arte de Siron Franco & Miguelanxo Prado aqui.
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres de Clarice Lispector & Todo dia é dia da mulher aqui.
Janeiro: o êxtase da vida & Todo dia é dia da mulher aqui.
Cleópatra & Todo dia é dia da mulher aqui.
Gersoca: dos dias, a mulher, O mundo de Albert Einstein, Sentido de amor de Viktor Frankl, A virgem esquimó de Mark Twain, a música de Gilberto Gil, a poesia de Alfredo Rossetti, a pintura de Henri Matisse, o cinema de Milos Forman, o mangá de Naoki Urasawa, Kátia Velo, a arte de Rita Guedes & Natalie Portman aqui.
Chiquinha Gonzaga & Todo dia é dia da mulher aqui.
O presumível coração da América de Nélida Piñon & Todo dia é dia da mulher aqui.
Samira, a ruivinha sardenta, A vida de Pi de Yann Martel, Relação pornográfica de Philippe Blasband, Segunda interatividade de Diana Domingues, a música de Cristina Braga, Os provérbios de Hernani Donato, a pintura de August Macke & He Jiaying., o cinema de Tom Tykwer & Franka Potente, a arte de Christiane Antuña, Susie Cysneiros/Boi Bumbarte & a poesia de Ana Bailune aqui.
Nefertiti & Todo dia é dia da mulher aqui.
O amor & Crônica de amor por ela, Cultura pós-moderna & global de Lucia Santaella, A bem-amada de Thomas Hardy, a música de Brahms & Marin Alsop, a poesia de Virgilio & Rabindranath Tagore, A commedia dell’arte, o cinema de Wong Kar-Wai & Maggie Cheung, a pintura de Antonio Rocco, a arte de Corina Chirila & Lenilda Luna aqui.
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segunda-feira, novembro 10, 2014

MARGARETA EKSTROM, XIAO HONG, BONNAIRE, GRACE AGUILAR, BARBARA PAYTON & PISCOPIA

 


SALVE, ELENA – Imagem: estátua de Elena Piscopia - A delicadeza herdada da infância no Palazzo Loredan era inspiradora. Herdou da mãe a candura camponesa – uma servil parideira pro procurador de San Marco. Mesmo assim dedicou-se ainda menina às lições de latim e grego, chegando à adolescência dominando hebraico, castelhano, francês e árabe, uma poliglota aos meus olhos enamorados. Agraciada com o Oraculum Septilingue, logo demonstrava domínio nas áreas da matemática e filosofia. E eu a via saltitante de felicidade, dividindo comigo suas mais íntimas satisfações e explosões emotivas. Foi, então, que assumiu o hábito da Ordem Beneditina e, pra minha felicidade, não se fez freira. Graças, um desperdício da vida tão bela jovem enclausurada. As suas delicadas mãos de exímia executante enchiam meus ouvidos com acordes sacados ao violino, à harpa, ao clavicórdio ou ao cravo. E me embevecia com seu carinho às minhas faces, compondo canções para embalar-me, quando não lia a tradução que fez do Colloquio de Laspergio, o que a levou convites surpreendentes de sociedades acadêmicas. Tornou-se afamada e passou a presidir a Accademia dei Pacifici. Ambicionou a Cornaro em Pádua, mas foi recusada, consentindo-se, apenas, os estudos em filosofia. Quando menos esperava foi agraciada com a láurea filosófica. Fiz-lhe companhia em todas as suas palestras e encantava não só a mim, como aos acadêmicos oriundos de Veneza, Bolonha, Perugia, Roma e Nápoles. Por horas explanava as teorias aristotélicas, aplaudida com fervor pelos comparecentes em seus elóquios. Vi-lhe lindamente sorridente expor para mim a láurea, uma coroa de louros sobre a cabeça, o anel no dedo e a estola de arminho sobre os ombros – a eternizada cena no meu coração e no Vitral Cornaro, da Thompson Memorial Library, no Vassar College estadunidense. Admirada por suas conquistas foi levada a participar de diversas academias europeias, enquanto devotava aos estudos e à escrita de seus discursos e traduções. Sua generosidade era manifesta em ações caridosas, até ser surpreendida pela tuberculose que a levou à sepultura e uma estátua eternizada. Salve Elena Lucrezia Cornaro Piscopia (1646-1684), a primeira mulher a conquistar um diploma universitário. Veja mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Costumo dizer que fé é acreditar na vida, e como amo a vida, procuro fazer dela o melhor, torná-la o mais serena e alegre possível... Pensamento da atriz e diretora francesa Sandrine Bonnaire. Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Oh, que na religião, como em tudo o mais, o homem julgasse seu irmão pelo seu próprio coração; e por mais querido e precioso que sua crença peculiar possa ser para ele, acredite, assim é com a fé de seu irmão! A Verdade é o sopro vital da Beleza; A beleza é a forma exterior da Verdade. Pensamento da escritora britânica Grace Aguilar (1816-1847). Veja mais aqui e aqui.

 

NÃO TENHO VERGONHA - [...] Eu estava perdida... perdida em um mundo prático... um enfeite com coração... [...] Os homens foram atrás do meu corpo e eu me ressenti disso – como todas as mulheres, eu queria ser amada por mim mesma – não apenas pelo meu corpo. Então, quando eu tinha certeza de que um homem só estava interessado no meu corpo, eu estava atrás dele e não fazia diferença quem ou o que ele era. Um produtor famoso, quando eu era uma grande estrela, me beliscou na bunda quando eu estava passando pela porta, enquanto dizia: “Vamos tomar uma bebida algum dia”. Eu tinha certeza de que ele não esperava que eu aceitasse seu convite. Mas eu tinha planos para ele. Ele tinha uma esposa que era rica e não gostava que o marido olhasse para outra mulher, muito menos saísse com uma. Quando eu disse “sim”, ele tentou se esquivar, mas eu o prendi em uma noite e até fui ao escritório dele para buscá-lo. Ele tentou me convencer a ir a um “pequeno restaurante charmoso na praia”, o que eu sabia que era apenas para me manter fora do caminho de sua esposa ou amigos. Insisti que fôssemos ao Chasen's, ao qual ele era violentamente contra, mas eu estava mostrando bastante decote e fazendo muitas promessas, então finalmente consegui que ele fosse, mas tarde da noite, o que foi meu acordo. Você deveria tê-lo visto olhando furtivamente em volta, esperando que um detetive saltasse das sebes. Ele estava até gaguejando. Ele só queria jantar logo para poder me colocar no feno. Ele apenas engoliu o jantar junto com vários uísques puros. Demorei, aproveitando a comida e a situação. Quando pedi a sobremesa, pensei que ele fosse desmaiar. Isso significou para ele mais vinte minutos de agonia. E só para pressionar um pouco mais, passei dez minutos no banheiro feminino. A coisa cruel que eu fiz foi deixá-lo me levar para casa e depois dispensá-lo. Mas isso foi muito fácil e rápido. Eu tive uma ideia melhor. Fomos para minha casa. Tomamos bebidas e eu protelei para que ele chegasse tarde em casa. Ele estava enxugando o suor da testa – uma combinação de preocupação, bebida e paixão. Ao amanhecer, fomos para a cama e, a essa altura, ele estava uma pilha de nervos. É uma maravilha que ele pudesse atuar. Nunca vi um homem partir tão rápido depois. Minha frase de despedida foi: “Sabe, Jean é uma boa amiga minha...” Jean era sua esposa e eu a conhecia. Achei que ele fosse cair da escada. Ele apenas gemeu e saiu. Tenho certeza que durante semanas depois ele sofreu agonia. E você sabe, aposto que isso o curou de beliscar bundas. Isso também me lembra que uma garota bonita em Hollywood, especialmente aquela que está conseguindo bons papéis e que tem uma carreira a seu favor, recebe propostas de casamento, bem como outras propostas, várias vezes por semana. A maioria das propostas de casamento são sinceras. Outros são oferecidos como isca para você ir para a cama. Como ou por que um homem promete casamento a uma garota que conhece há uma hora sempre foi um enigma para mim. Eu diria que uma mulher é como um iceberg. Apenas uma fachada aparece. O resto está escondido e leva meses, até anos, para descobrir os mistérios do que está por baixo. Juro, uma vez por semana seis homens me pediam em casamento! Eles apenas pedem para serem levados – com as leis de propriedade comunitária da Califórnia. Eu tinha um ódio profundo por homens que usavam uma proposta de casamento para colocar uma garota no feno. Se eles tivessem sucesso, você não conseguiria nem falar com eles por telefone. Numa época em que eu estava amargurado por causa de uma carreira em declínio (acho que porque estava bebendo demais e não prestando atenção nas pessoas certas), criei uma causa para prender esses bastardos na parede. Lembro-me de ter acabado de tirar uma foto com um homem gentil e gentil, Gary Cooper. A foto era Dallas, que foi muito bem. Foi realmente o contraste entre Cooper e este salto que me motivou. Foi no American Room do Hollywood Brown Derby. Ele era um ator que estava crescendo rapidamente. Os rumores eram de que ele era casado com uma jovem estrela. Ele negou. Muito mais tarde, descobriu-se que era verdade. De qualquer forma, esse salto veio até a área da poncheira da sala e enquanto conversava comigo apertou minha mão e me olhou nos olhos com seu olhar dito “irresistível”. Ele sugeriu uma viagem até a praia. Ele pensou que estava me guiando – mas era eu quem estava fazendo as manipulações. Dirigimos até a praia e estacionamos em Dead Man's Point. Ele não fez nenhum passe. A abordagem dele era mais sutil. Primeiro ele me contou a história de sua vida. Fato ou ficção, ele contou bem. E foi uma boa história. A história chegou a uma conclusão – que toda a sua vida foi direcionada para este momento, conhecer uma garota como eu. E ele não ia me deixar escapar, não facilmente, claro. Aí veio: “Bárbara, quero que você seja minha esposa. Eu te amo e este é um momento mágico. Dê-me a honra de se casar comigo. Decidi jogar direto. “João, eu também te amo. Eu concordo em ser sua esposa. Quando nos casaremos? Eu o peguei um pouco de surpresa. Ele estava acostumado a convencer uma garota depois de um período de tempo. "Oh . . . que tal na próxima quarta-feira? "Que tal hoje à noite?" Eu retruquei. “Poderíamos simplesmente acordar um Juiz de Paz e dar o nó, e depois divulgar a história aos jornais. Teríamos muito espaço.” Eu sabia que ele não iria gostar disso. “Você não acha que isso é um pouco rápido? Que tal neste domingo? “Não é uma má ideia”, eu disse. Ele se animou. “Mas vamos ligar para os jornais imediatamente!” Eu disse, sabendo que ele não aceitaria isso. “Vou te dizer uma coisa”, disse ele. “Casaremos no domingo e divulgaremos a história no sábado.” Foi apenas uma armadilha. Passaríamos esta noite juntos de forma agradável e aconchegante e então ele começaria uma briga e o casamento acabaria. Eu me tornei muito sábio com os lobos. Conversacionalmente, não havia muitos lugares onde ele pudesse ir com a minha verificação de seus modos reais. Achei que ele recorreria a um beijo romântico. Não apaixonado – apenas um beijo de amor. E ele fez. Apenas um leve toque nos lábios sem braços. “Querida”, disse ele. “Somos ambos pessoas ocupadas. Levaremos pelo menos alguns dias para colocar nossos assuntos em ordem. É um grande passo. Eu te amo e sinto que você me ama. O que são alguns dias de espera, se for preciso? “Querido,” eu disse, ainda sendo honesto. “Eu simplesmente não quero esperar. Podemos dirigir pela costa. . . e se casar em uma cerimônia simples.” Eu o mandei parar. Eu me perguntei o que ele iria inventar agora. “Vou te dizer uma coisa”, disse ele. “Vamos fazer isso amanhã à noite.” Balancei minha cabeça negativamente. “Espero que você não pense que sou teimoso, mas fico assim de vez em quando.” Coitado, eu o amarrei com nós. Eu sabia o que estava por vir. Foi sua única jogada. “Bárbara, sou louco por você. Eu só quero estar perto de você – intimamente. Esqueça todo o resto – só você e eu no mundo.” Ele me beijou apaixonadamente. “Então podemos conversar sobre casamento. Talvez decidamos no sábado ou domingo. Eu conheço exatamente o local. Fica a apenas alguns quilômetros da costa. O que você diz?" Eu deveria ter rido alto, mas não o fiz. “Eu gostaria”, respondi. “Mas eu me sentiria muito mais seguro se nos casássemos primeiro. Não é uma reação típica de uma garota?” Ele estava começando a ficar nervoso e até um pouco irritado. “Você não confia em mim?” ele perguntou piedosamente. “Se eu disser que nos casaremos, você pode apostar seu último botão nisso. Apenas acredite em mim. Sim. Isso foi tudo que tive que fazer – como todos os outros. Eu acabaria em um riacho de merda. Mas eu estava me divertindo demais para ficar com raiva. “Eu confio em você – claro que confio. Mas, com uma estrela e tudo, tenho que ter cuidado.” “Claro que sim”, ele respondeu. “E eu direi a você o que faremos. Ligaremos para Louella ou Hedda e contaremos nossos planos de casamento. Isso faria você se sentir melhor? Eu também fui sábio nessa jogada. Anunciávamos nosso casamento e, algumas horas depois, ele ligava e dizia que mudamos de ideia. “Querido,” eu disse, deixando minha verdadeira face aparecer. “Isso tudo está começando a me entediar. Se você quer se casar comigo, vamos nos casar agora mesmo e se não quisermos, por favor, me leve para casa.” Na verdade, eu não teria me casado com ele nem por um milhão de dólares. Eu esperava que ele agora ficasse com raiva. Mas ele não o fez. Ele agiu magoado. "Ok, se é isso que você quer, então vamos." Ele ligou o carro. Fiquei em silêncio. Depois que ele dirigiu por um tempo, percebi que estávamos indo na direção errada para minha casa. Chamei a atenção dele para isso. Ele era obstinado. “Eu só queria mostrar a você o adorável refúgio de que estava falando. Tomaremos uma bebida e depois iremos embora. Por mim estava tudo bem. Foi divertido dar-lhe bastante corda. Ele insistiu que tomássemos nossas bebidas em uma suíte da Band House, um lindo lugar de férias à beira-mar. Parei em um drinque e não tomei outro, mas ele bebeu. Agora estávamos chegando ao alicerce e à honestidade. Ele me olhou diretamente nos olhos. “Seu filho da puta”, disse ele. “Você vai tirar a roupa e deitar naquela cama ou não? Já estou farto desta merda. Quem diabos você pensa que é? Eu já tinha passado por esse tipo de coisa antes. Eu não estava com medo nenhum. Sorri e disse: “Quem eu devo ser para dizer 'não' para você, uma doninha mentirosa, estupradora de meninas? Na verdade, é com grande prazer que lhe digo que prefiro morrer a que você me toque. “Talvez você esteja”, ele respondeu melodramaticamente. Levantei-me, joguei uma estola sobre os ombros e fui em direção à porta. Eu sabia que poderia pegar um táxi se ele decidisse ficar para trás. Ele bloqueou meu caminho até a porta e disse: “Onde diabos você pensa que vai?” “Para casa”, eu disse baixinho, “e saia do meu caminho. E se você não fizer isso” – peguei uma garrafa – “você vai desejar ter feito isso.” Ele era um covarde e recuou. Ele sabia que eu usaria. A briga explodiu dentro dele e ele disse: “Vou te levar para casa”. Por mim estava tudo bem. Não conversamos durante todo o caminho para casa e ele me deixou sair do carro sem sair. Esse foi o fim de tudo. Mais tarde, ele se tornou uma estrela, por isso não posso nomeá-lo. [...]. Trechos da obra I Am Not Ashamed (Holloway House Pub Co, 2004), da escritora e atriz estadunidense Barbara Payton (1927-1967). Veja mais  aqui.

 

A FILHA DO TINTUREIRO - [...] Primavera - que pressa. Cada lugar parece estar pedindo que isso aconteça. Se atrasar um pouco a sua chegada, a luz do sol desaparece e a terra vira pedra. Especialmente as árvores não podem durar nenhum atraso. Deixe a primavera demorar, mesmo que brevemente, e muitas vidas serão perdidas [...] A vida é disso que se trata: você está ocupado, eu estou ocupado e o resultado final é a morte. Mais cedo ou mais tarde, é isso que acontece. [...]. Trechos extraídos da obra The Dyer's Daughter: Selected Stories of Xiao Hong (The Chinese University of Hong Kong Press, 2005), da escritora chinesa Xiao Hong (1911-1942). Veja mais aqui e aqui.

 

PARA USO DIÁRIO - Se a vida não fosse tão insubstituível \ talvez ousássemos utilizá-la.\ Porém arrumamo-la na prateleira\ como um vistoso par de sapatos\ que é bonito de se ver\ mas não para uso diário.\ Assim, continuamos por aí sentados \ numa expectativa descalça. Poema da escritora e tradutora sueca Margareta Ekstrom (Sigrid Margareta Ekström - 1930-2021).

 

LIÇÕES OUTRAS ESTUDADAS

 

UMA LENDA HINDU – Uma velha lenda hindu relata que houve um tempo em que todos os homens eram deuses. Mas eles abusaram tanto da sua divindade que Brahma, o mestre dos deuses, tomou a decisão de lhes retirar o poder divino; resolveu escondê-lo num lugar onde seria absolutamente impossível reencontrá-lo. Mas o grande problema era encontrar um esconderijo. Brahma convocou então um conselho dos deuses menores para resolver o problema: “Enterremos a divindade do homem na terra”, foi a primeira ideia dos deuses. “Não, isto não basta, pois o homem vai cavar e encontrá-la”, respondeu Brahma. Então os deuses retrucaram: “Então joguem a divindade no fundo dos oceanos”. Mas Brahma não aceitou a proposta, pois achou que o homem um dia iria explorar as profundezas dos mares e a recuperaria. Então os deuses menores concluíram: “Não sabemos onde escondê-la pois não existe na terra ou no mar lugar que o homem não possa alcançar um dia”. Então Brahma pronunciou: “Eis o que vamos fazer com a divindade do homem: vamos escondê0la na maior profundeza dele mesmo, pois é o único lugar onde ele jamais pensará em procurá-la”. Desde esse tempo, conclui a lenda, o homem fez a volta da Terra, explorou, escalou, mergulhou e cavou, em busca de algo que se encontra nele mesmo. (Recolhido de Pierre Weil, O novo paradigma holístico: ondas à procura do mar. In: BRANDÃO, Dênis; CRENA, Roberto. O novo paradigma holístico: ciência, filosofia, arte e mística. São Paulo: Summus, 1991). Veja mais aqui.


NOS DIAS DE HOJE – Ouvindo Cartomante, da dupla Ivan Lins & Victor Martins, paro pra pensar na frase “Nos dias de hoje...”, em que o professor doutor em matemática que atua em diversas universidades dos EUA e é pró-reitor da Unicamp, Ubiratan D´Ambrosio, no seu texto A ciência moderna em transição conceitual, dizia ser “[...] para manipular grupos de indivíduos, conduzindo-os a participar, individual e coletivamente, ativamente ou por consentimento passivo de atos de violência da maior barbárie, tais como o genocídio e a tortura física e mental, em dimensão e intensidade jamais imaginada em gerações anteriores, e que representam vergonha e culpa para cada geração. Meios inimagináveis de violência utilizam sofisticados avanços científicos e tecnológicos. E, talvez, o mais chocante dos resultados, uma destruição paulatina de inúmeras formas de vida no planeta, está ocorrendo em nome de algo confusamente chamado progresso. Aumenta-se a produção agrícola e se produzem desertos, buscar-se regular os regumes fluviais e se provocam dilúvios, consome-se a seiva fóssil e favorecem-se reações sísmicas. Sistemas escolares mantidos para estimular e desenvolver a criatividade facilitam o aparecimento de sistemas marginais, que acolhem crianças frustradas e angustiadas e as encaminham para manipulações criminosas. Sistemas econômicos concebidos para uma melhor distribuição de riquezas, para uma repartição igualitária dos frutos do trabalho coletivo, vêm reforçar desigualdades e injustiças, gerando e estimulando mecanismo de exploração do homem pelo homem e elevando o dinheiro a uma posição de poder absoluto. A mídia nos cerca de ilusões e fantasias, e princípios e ideologias são criados para justificar e propor explicações, numa tentativa de não nos deixar reconhecer um mundo infeliz, inseguro, injusto. Ao chegarmos a um semáforo, esperamos que a luz esteja verde para não sermos assediados por crianças de sete ou oito anos que vendem limão ou simplesmente pedem esmola, num país em que a educação primária, de oito anos de duração, é compulsória e obrigação do Estado. Mas se o sinal está melhor, imediatamente fechamos o vidro e olhamos para o outro lado, numa tentativa de nos isolarmos e não reconhecermos uma realidade suja e feia. E, ao retornarmos a viagem, vamos cinicamente para nossos escritórios de trabalho, onde apoiaremos uma emenda constitucional que estabelece o limite de catorze anos como idade mínima de trabalho do menor. Nesse meio de cinismo, de ignorância da realidade como ela é, e de falta de visão global dessa mesma realidade, o que chamamos progresso vem se instalando nas nossas sociedades. Todas essas manifestações de estupidez de nossa espécie estão amparadas por esquemas racionais e científicos, estruturados mediante conhecimento especializado, fragmentado e focalizado em apenas um ou, quando muito, em alguns poucos inúmeros parâmetros que compõem a realidade,c om absoluta ignorância de uma visão global dessa mesma realidade e mesmo com desprezo por essa visão. Os sucessos e resultados dessa análise de aspectos da realidade, amarrados e estruturados em esquemas em si muito elaborados, têm impedido reconhecer a limitação e a parcialidade desses enfoques, e o próprio aparecimento das disciplinas, talvez a invenção mais fundamental e mais característica da ciência moderna, deu origem ao afastamento da realidade em toda a sua plenitude”. No meio desse caos todo em que vivemos, o psicólogo norte-americano Carl Rogers (1902-1987), nos deixa pro discernimento: “Estamos enfrentando uma combinação de mudanças paradigmáticas que podem ser mais poderosas do que qualquer coisa que o mundo tenha visto antes. As possibilidades, tanto para a ruptura como para vida criativa, são enormes”. Veja mais aqui.

EVITANDO O APOCALIPSE – O biólogo e médico austríaco Konrad Lorenz, considerado o pai da Etologia e laureado com o Nobel de Medicina em 1973, dá a dica de como evitarmos o apocalipse que nos ronda na atualidade: “Para evitar o apocalipse que nos ameaça, é necessário justamente nos adolescentes e nos jovens sejam despertadas novamente as sensações valorativas que lhes permitam perceber o belo e o bom, sensações essas que são reprimidas pelo cientismo e pelo pensamento tecnomorfo [...]. Um contacto tão intimo quanto possível com a natureza viva, tão cedo quanto possível na vida das crianças, é um caminho altamente promissor para que se atinja esse objetivo” (Konrad Lorenz, A demolição do homem: crítica à falsa religião do progresso. São Paulo: Brasiliense, 1986). Veja mais aqui

HEIDEGGER E A PSICOLOGIA – O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), foi aluno e discípulo do fundador da fenomenologia, Edmundo Husserl, e do culturalista neokantiano Heinrich Ricket, é autor de diversas obras de importância máxima, a exemplo do “Ser e Tempo” e “Introdução à Metafísica”, entre outras. Em “Ser e Tempo” ele entende que o sentido da pergunta pelo ser foi perdido e caiu no esquecimento após as indicações de Platão e Aristóteles, formulando a sua Teoria do Ser que tem por propedêutica a analítica da existência humana, introduzindo o método fenomenológico do Dasein, a essência humana que consiste em sua existência na possibilidade de realização. Por conseguinte, para o filósofo o ser e o estar no mundo é a determinação fundamental do Dasein: o mundo, o ser do existente e o ser em ou no mundo – revelando as dimensões do tempo, o futuro, o presente e o passado. Para ele, o mundo não é uma soma de objetos, mas uma totalidade implícita nas coisas que o compõem. Apesar das criticas de quase incompreensibilidade de sua linguagem filosófica, do artificialismo das suas etimologias, do seu anti-humanismo e das decorrentes atividades políticas do pensador, Heidegger é considerado, por seu inegável esforço profundo na análise ontológica da existência, influenciando sobremodo muitos pensadores, a exemplo de Jean-Paul Sartre. O presente estudo está voltado para identificar a sua contribuição à Psicologia, objetivando por meio de uma revisão da literatura, observar de que forma o Dasein e todo o seu pensamento fenomenológico contribuiu para o desenvolvimento da ciência psicológica. O EXISTENCIALISMO HEIDEGGERIANO - O existencialismo heideggeriano, segundo Padovani e Castagnola (1978), é concebido a partir da filosofia do finito, ao defender que não é a essência que dá significado à existência, mas o contrário, uma vez que a existência é possibilidade que adquire uma essência. Ele compõe sua filosofia a partir da condição inicial do existente humano, o estar-no-mundo, o Dasein. E se firma na angústia que é a experiência radical do nada de todas as coisas. A teoria ser no mundo, segundo Heidegger (1989), aparece como ontologia fundamental na investigação fenomenológica, buscando as essenciais determinações do ser dos entes: "o ser é sempre o ser de um ente", ou dasein, o ser do homem. Essas ideias foram importantes para a psiquiatria. Para Almeida (2014, p. 19) Com Heidegger é que temos a criação da filosofia existencial em nosso século e ainda sua junção com a psicologia e a psiquiatria. A ontologia heideggeriana é de que o homem é um ser no mundo onde o homem tem sua existência por ser–no-mundo e o mundo tem sua existência porque há um ser para revelá-lo. O que nos leva a perceber a unicidade do ser e do mundo. Segundo Barbosa (1998, p. 42), a “Grande parte da importância do pensamento de Heidegger consiste em ter ele problematizado o ser-em da existência humana”. Assim, Heidegger, conforme Chauí (1979) vai abordar o problema do ser empregando o método fenomenológico de Husserl, levando-o a colocar como ponto de partida de sua reflexão aquele ser que se dá a conhecer imediatamente: o próprio homem. Heidegger (1989) abandona a intencionalidade e a consciência ao criticar Husserl e sua fenomenologia transcendental, buscando essência da consciência, insatisfeito com a metafísica husserliana: Dasein deve substituir 'sujeito' ou 'eu'. O termo Dasein, nessa perspectiva, refere-se ao existir humano que se dá como um acontecer (sein) que se realiza aí (Da), no mundo, sendo o próprio existir que consitui o aí em que se dá a existência. Nesse sentido, tendo-se em vista a "finitude" humana, a temporalidade e a historicidade serão fundamentais na análise heideggeriana do Dasein. INFLUÊNCIAS E CONTRIBUIÇÕES HEIDEGGERIANAS – Numa revisão efetuada a partir de Farias (1988), Fédier (1989), Loparic (2003), Pessanha (2003), Safranski (2000) e Duarte (2001), encontrou-se que Heidegger tornou-se, ao mesmo tempo, um ícone do pensamento do século XX por sua filosofia complexa, além de centro de escândalos por seu engajamento ao nazismo. Contudo, Queiroz (2005, p. 30) destaca o Dasein do pensamento heideggeriano, observando que: A Ontoterapia, com sua visão global do homem, aberta aos domínios do corpo, da alma e da espiritualidade, funda-se, principalmente, neste cuidado do ser. O cuidado reveste-se de dúplice forma. Pode-se falar do auto-cuidado e do hetero-cuidado. É o próprio Heidegger, na obra Ser e Tempo, que afirma que o Dasein ocupa-se essencialmente desse próprio Dasein, ao mesmo tempo em que este é determinado como um ser – uns com os outros original. Por isso o Dasein ocupa-se sempre também com os outros. Dá-se, segundo o autor mencionado, que a ontoterapia faz uso do cuidado de duas maneiras: cuidar de si e cuidar do outro, ou seja, preocupar-se consigo mesmo e, da mesma forma, preocupar-se em cuidar do outro. É esse pensamento solidário que vai possibilitar a identificação das inestimáveis contribuições de Heidegger à Psicologia. Dessa forma, para a Psicologia, segundo Sebit (2012), Heidegger exerceu importante influência por ter buscado nas suas ideias a nova perspectiva para a colocação dos problemas humanos, da questão do conhecimento, da ciência e da técnica, contribuindo, assim, não só com essa área do saber, como também com a sociologia, teologia, ecologia e educação. A contribuição inaugura – via fenomenologia do Dasein - a assim chamada fenomenologia existencial, base de escolas e linhas de pensamento contemporâneas em psicologia, psiquiatria, psicoterapia e psicopatologia, ainda que ele mesmo não se definisse como existencialista, no sentido de não pertencer ao Existencialismo enquanto movimento. Além disso, observa-se a aproximação da analítica do Dasein de Heidegger com a clínica - psiquiátrica ou psicológica - psicoterapêutica. A esse respeito, destaca Almeida (2014, p. 22) que: [...] a psicologia existencial pode ser definida como uma ciência humana que emprega o método da analise fenomenológica. Uma das principais particularidades da psicologia existencial em relação aos outros sistemas psicológicos se da pela oposição a aplicação do conceito de causalidade das ciências naturais aplicado as ciências humanas e especificamente à psicologia. Esse ser no mundo é o que vai marcar a operação de univocidade entre sujeito e objeto restaurando a unidade entre o homem e o mundo, mundo este marcado por três aspectos: as regiões fisiobiologicas, o ambiente humano e aquele no qual se acha a pessoa e seu eu, incluindo o corporal. A psicologia existencial que surgiu da filosofia e que desta guarda e mantém estreitas relações, teve grande repercussão sobre a teoria e à pratica da psicologia como um todo, fazendo surgir outras técnicas e pontos de vista tanto em campos do aconselhamento como da psicoterapia. Marca uma função de seguir as coisas em si mesmas na orientação de não se deixar perder no seu relacional, em seu contato com a experiência e ao cotidiano. Sua contribuição, conforme Barbosa (1998), se deu no campo da psicopatologia com o reconhecimento da enfermidade como um modo ou estilo particular de ser no mundo, a partir da utilização do método fenomenológico de reflexão com o objetivo de alcançar a essência da enfermidade por meio de suas manifestações concertas. Havia, então, o entendimento de que a enfermidade é uma distorção da estrutura do ser no mundo. Por isso, Barbosa (1998) observa que o sintoma, enquanto estilo de ser, encontra-se também no normal, ou no doente não apenas enquanto doente, e essa constatação permite compreender melhor o sentido da doença. Por consequência, a terapia é o ato de levar o doente a ver como está constituída a estrutura total da existência humana (ou ser no mundo), trazendo-o de volta. Além disso, registra Sebit (2012, p. 55) que: Diversos psicanalistas, psicólogos e psiquiatras desenvolveram teorias a partir de Heidegger e dos pensadores existencialistas. Entre estes, podemos destacar a obra de Viktor Frankl, Rollo May, Maslow, Carl Rogers, Allport, Erich Fromm e Buhler. Além desses, Ludwig Binswanger e Medard Boss foram daqueles que buscaram mais diretamente as consequências do trabalho de Heidegger para a psicoterapia e procuraram empregar na compreensão clínica os conceitos fundamentais elaborados por esse filósofo, embora se afastando dele em alguns casos e aspectos. Em vista disso, destaca Feijoo (2014) que é a dimensão da existência heideggeriana que vai possibilitar o desenvolvimento da psicologia sob a perspectiva fenomenológico-existencial. O percurso psicoterapêutico vai se dar de modo que o psicoterapeuta possa assumir o lugar de mensageiro do discurso do cliente, num processo mútuo de corresponder e desprender, tal como entendido por Heidegger em sua perspectiva ontológica. Mattar e Sá (2014), por sua vez, registra que Heidegger propôs aos psiquiatras e psicoterapeutas participantes a suspensão do olhar científico-natural, em que foram formados, para que pudessem ter acesso a uma atitude fenomenológica de atenção à realidade. A contribuição de Heidegger, segundo Moreira (2010) e Feijoo (2014b), está na psicoterapia de inspiração daseinsanalítica, pensando tanto no dualismo subjetividade/objetividade como na intersubjetividade que envolve o dualismo sujeito/sujeito. É que na perspectiva existencial a visualização do comportamento como atitude geral, como movimentação total da existência em um mundo. A esse respeito, assinala Feijoo (2014, p.11), que: [...] o psicoterapeuta de inspiração daseinsanalítica: 1)Ajuda como aquele que trata do modo de existir e não do funcionar do homem. 2)Liberta o homem do aprisionamento por tomar-se como um ente cujo modo de ser é simplesmente dado, esquecendo-se de sua condição de liberdade enquanto existente. 3)Facilita que as experiências se tornem presentes, sem condicioná-las causalmente ao somático ou ao psíquico, deixando ser o que a própria experiência revela; 4)Está atento às indicações, suspende a verdade postulada pelo senso comum, pela ciência e pela psicologia científica, permitindo que o fenômeno seja reconhecido como uma simples relação com o mundo; 5)Busca conduzir o homem a si mesmo, possibilitando a livre relação com aquilo que o encontra, apropriando-se destas relações e deixando-se solicitar por elas. 6)Relaciona-se através do modo de cuidado denominado por Heidegger como “antecipação libertadora”, que devolve o outro a si mesmo, liberando-o para seus modos próprios e singulares de ser. 7)Sustenta sua atenção na serenidade, estranhamento, aceitação e compreensão. Mediante o exposto, sintetiza Roeche (2012) que o trabalho de Heidegger assume importância por sua utilização na Psicologia sob os nomes de psicologia fenomenológica, psicologia existencial e, em menor escala, hermenêutica e psicologia humanista. Sua importância é também destacada por Mattar e Sá (2014) ao considerar que na época contemporânea, em que as demandas de sofrimento existencial, endereçadas à clínica psicoterápica, cada vez estão mais relacionadas ao nivelamento histórico do sentido ao que pode ser computado no cálculo global de exploração e consumo, é imprescindível, para que a psicoterapia possa se constituir em um espaço de reflexão crítica propiciador de outros modos de existir, que ela própria não permaneça acriticamente subordinada a esse mesmo horizonte histórico de redução de sentido. CONCLUSÃO – Muitas controvérsias permeiam os mais diversos debates acerca do homem e do pensamento de Heidegger. Distinguindo-se o homem da sua obra, ficou mais que evidenciada a contribuição heideggeriana às práticas psicoterápicas, notadamente a desenvolvida pela psicologia fenomenológica-existencial. Veja mais aqui e aqui.

REFERÊNCIAS
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