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quarta-feira, março 30, 2016

NIETZSCHE, DORA MAAR, ALAIN DE BOTTON, AMANDA LEVETE, MARIANNE CSÁKY & É PRA ELA...

O POETA E A FERA - Diante do espelho, as cortinas se abrem e a cena surge: é um deserto, quase noite. Uma fera emerge em sua natural emulação, rugindo indômita, impulsiva, indócil. Valendo-se apenas do seu instinto, sabe-se que ela é imprevisível com seu ímpeto selvagem, sua força devastadora. Para ela, não há certo ou errado, precisa viver. E para isso, segue à caça, predadora, à espreita da presa, afiando as garras, aprontando o bote. Quando surgem caçadores que a querem acoá-la, reprimí-la, coagí-la e abatê-la, ela se defende e reage causando danos irreparáveis, afora pavores e calamidade assustadora. É de causar pânico estar diante dela, porque não se sabe quando mansa saciada, ou quando feroz faminta e sedenta. Diante dela está o poeta com sua estatura vulnerável, desprotegido e desarmado. Não há saída, o confronto é iminente. Se o pânico prevalecer, ele haverá de correr até ser alcançado e, inevitavelmente, devorado. Se houver confronto direto, sabe ele que estará em desvantagem e, fatalmente, será abatido. Desesperar, não; precisa sacar do ensinamento: desespero é falta de imaginação. Só resta ao poeta encarar, buscar no acervo de seus recursos intuitivos e intelectivos, a sua poderosa criatividade para o enfrentamento. Lançando mão desses recursos, torna-se cônscio de que há a possibilidade de dominá-la, não pela força porque está ciente de sua inferioridade física, porém de sua inata criatividade e ciência de que a sua vida foi feita para superar tantos quantos obstáculos. Toma, então, a iniciativa de não recuar, nem avançar, pois sabe que ela está pronta para o que der e vier. Resta-lhe tomar pé da situação, imaginar todas as possibilidades e ter nas mãos todo território ao seu redor. Teve, por isso, de buscar dentro de si a força jamais cogitada, o poder nunca conscientemente revelado e a sabedoria latente sequer imaginada e mais que exigida para momentos de extrema delicadeza, e buscar saída praquela encurralada. Apesar de temeroso, manteve-se altivo diante da iniciativa dela de ficar rondando pra lá e pra cá, sempre ao seu redor. Ele então cravou seus olhos nos olhos dela e sem hesitar, nenhum gesto brusco, nenhum recuo, mantendo-se sem ceder espaço algum, mesmo quando ela rugia ferozmente, vigilante irredutível, demonstrando estar pronto para o combate. Depois de algum tempo insistentemente sondando suas fraquezas e procurando seu vacilo, ela arqueou seu corpo e pôs-se em posição de descanso, um ardil para encontrar o momento propício para seu ataque. Assim permaneceu por um longo período, percebendo-se que não estava faminta, nem no cio. Com isso, o poeta tomou a iniciativa de ir até ela, ao que pôde perceber sua atenta desconfiança, enrijecendo seu corpo com a menção de levantar-se, acomodada ainda nas patas arqueadas no chão. Ele aproximou-se cuidadosamente e passou-lhe a mão, fazendo um carinho em seu dorso. Alisando-a com voz afável, recitou-lhe um poema com versos do seu mais profundo íntimo e, ao que parece, tocou o coração da fera. Aos poucos ela relaxou e até chegou aos cochilos, acostumando-se com a presença amável dele. Assim ficaram por horas, dias, meses e anos, a fera amansada e amestrada pôde se satisfazer e o poeta se realizar, como se fossem um só: um ao outro, não mais antagônicos, agora complementares, reciprocamente, irmanados. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Imagem: a arte da artista plástica italiana Mariarosaria Stigliano.

 

DITOS & DESDITOS

Meu destino é magnífico, não importa como pareça. No passado, eu costumava dizer que meu destino era muito difícil, não importa como parecesse... Preciso viver isolada no deserto... Quero criar uma aura de mistério em torno do meu trabalho. As pessoas precisam ansiar por vê-lo... Artistas medianos copiam seus pares, mas o verdadeiro grande gesto artístico reside na disfunção/sem-vergonhice de roubar e se safar disso...

Pensamento da fotógrafa, pintora e poeta francesa Dora Maar (Henriette Theodora Markovitch – 1907-1997), foi a quarta de sete mulheres e retratada por Pablo Picasso, tema da biografia Finding Dora Maar: An Artist, an Address Book, a Life (‎Getty, 2020), da jornalista e escritora francesa, Brigitte Benkemoun, na qual reflete sobre como a agenda de 1951 de Dora Maar funcionava como uma cápsula do tempo silenciosa da vida da artista e narrando como a autora descobriu o item após seu marido comprar um exemplar antigo que, por acaso, continha o bloco de contatos da artista, poeta e fotógrafa. Veja mais aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU:

Quando você realmente força os limites, vai acabar fracassando. Caso contrário, é porque não está se esforçando o suficiente... O ponto de encontro de uma comunidade não deve girar em torno de dinheiro; trata-se de algo muito mais importante, muito mais significativo, muito mais profundo do que isso... Temos a responsabilidade de ser radicais e sensíveis...

Pensamento da premiada arquiteta britânica Amanda Levete (Amanda Jane Levete).

 

ALGUÉM MAIS FALOU:

Uma interpretação da identidade que não se baseia em como sou ou em quem sou para mim mesma, mas sim em mim como sujeito das histórias e conexões que vivencio. É o contexto, os meus relacionamentos, que determinam quem eu sou, não as minhas qualidades...

Pensamento da escultora e escritora húngara Marianne Csáky, autora da obra Talvez no espaço (2013).

 

ENSAIO SOBRE O AMOR - [...] Talvez seja verdade que, na realidade, não existimos até que haja alguém para nos ver existir; não conseguimos falar de fato até que exista alguém capaz de compreender o que estamos dizendo; em essência, não estamos plenamente vivos até sermos amados. [...] Todo ato de se apaixonar envolve o triunfo da esperança sobre o autoconhecimento. Apaixonamo-nos na esperança de não encontrar no outro aquilo que sabemos existir em nós mesmos — toda a covardia, fraqueza, preguiça, desonestidade, as concessões e a estupidez. Lançamos um cordão de amor em torno da pessoa escolhida e decidimos que tudo o que estiver ali dentro estará, de alguma forma, livre de nossas próprias falhas. Projetamos no outro uma perfeição que nos escapa internamente e, por meio da união com a pessoa amada, esperamos manter — a despeito de todas as evidências trazidas pelo autoconhecimento — uma fé precária em nossa espécie. [...] Somos todos mais inteligentes do que somos capazes, e a consciência da insanidade do amor jamais salvou ninguém dessa doença. [...] Apaixonamo-nos porque ansiamos escapar de nós mesmos ao lado de alguém que seja tão belo, inteligente e espirituoso quanto nós somos feios, estúpidos e sem graça. Mas e se um ser tão perfeito, um belo dia, resolvesse retribuir o nosso amor? Só nos resta ficar, de certa forma, chocados: como pode essa pessoa ser tão maravilhosa quanto esperávamos, se ela tem o mau gosto de aprovar alguém como nós? [...]. Trechos extraídos da obra On Love (Grove/Atlantic, 2006), do escritor, filósofo e produtor suíço, Alain de Botton, autor de obras como The Romantic Movement (1994), Kiss and Tell (1995), How Proust Can Change Your Life (1997), The Art of Travel (2002), The Pleasures and Sorrows of Work (2009), A Week at the Airport (2009), How to Think More About Sex (2012), The News: A User's Manual (2014) e The Course of Love (2016), entre outros.

 

LUCIA Y EL SEXO - Sentir é mais importante que entender: “É uma história com muitas vantagens, uma é o que o final não é um ponto definitivo, é um buraco que levará a qualquer outro ponto da narrativa, e assim pode-se mudar o rumo do que é vivido”. Trata-se do filme Lucía y el sexo (2001), escrito e dirigido pelo cineasta espanhol Julio Medem (Julio Médem Lafont), contando a história de uma belíssima e ousada garçonete, em meio a uma relação ardente e conturbada com um escritor chamado Lorenzo, que desaparece às vésperas de uma viagem do casal para uma ilha no mediterrâneo, há muito esperada. Ela, então, perturbada, parte só e sob o sol tropical, numa idílica pousada, mergulha em si mesma e no tempo para decifrar suas paixões, encontrando a cada dia rascunhos de lembranças perdidas e de personagens do romance de sua vida. A obra é uma fábula poética que utiliza a sensualidade e o desejo como ferramentas para explorar a condição humana, o destino e as reviravoltas da memória. O filme é estrelado pela bela atriz espanhola Paz Vega. Veja mais aqui.

 

DO ALTO DOS MONTES - Oh! Meio dia da vida! Época solene! \ Oh! jardim de estio! \ Beatitude inquieta da ansiedade na espera: \ espero meus amigos, noite e dia, \ onde estais, amigos meus? \ Vinde! É tempo, é tempo! \ Não é por vós que o gelo cinzento \ hoje se adorna com rosas? \ A vós procura o rio, \ suspensos nos céus ventos e nuvens se alevantam \ para observar vossa chegada. \ competindo com o mais sublime voo dos pássaros. \ No meu santuário coloquei a mesa: \ Quem vive mais próximo das estrelas \ e das horríveis profundezas do abismo? \ Que reino mais extenso que o meu? \ E do mel, daquele que é meu, que sentiu seu fino aroma? \ Aqui estais, finalmente, meus amigos! \ Ai! não é a mim que procuras? \ Hesitais, mostrais surpresa? \ Insultai-me é melhor! Eu não sou mais eu? \ Mudei de mão, de rosto, de andar? \ O que eu era, amigos, acaso não mais sou? \ Tornei-me, talvez, outro? \ Estranho a mim mesmo? De mim mesmo, fugido? \ Lutador que muitas vezes venceu a si mesmo? \ Que muitas vezes lutou contra a própria força, \ ferido, paralisado pelas vitórias contra si mesmo? \ Porventura não procurei os mais ásperos ventos e aprendi a \ viver onde ninguém habita, \ nos desertos onde impera o urso polar? \ Não esqueci a Deus e ao homem, blasfêmias e orações? \ Tornei-me um fantasma das geleiras. \ Oh! meus velhos amigos, vossos rostos \ empalidecem de imediato, \ transtornados de ternura e espanto! \ Andai, sem rancor! Não podeis demorar aqui! \ Não é para vós este país de geleiras e rochas! \ Aqui é preciso ser caçador e antílope! \ Converti-me em caçador cruel. Vede meu arco: \ a tensão de sua corda! \ Apenas o mais forte poderá arremessar tal dardo. \ Mas não há nenhuma seta mortal copo esta. \ Afastai-vos, se tendes amor à vossa vida! \ Fugis de mim!? Oh, coração, quanto sofreste! \ E entretanto, tua esperança ainda se mantém firme! \ Abre tuas portas a novos amigos, \ renuncia aos antigos e às lembranças! \ Fostes jovem? — Pois agora és mais e com mais brio. \ Quem pode decifrar os signos apagados, \ do laço que une com uma mesma esperança? \ Signos que em outros tempos escreveu o amor, \ que luzem como velho pergaminho queimado \ que se teme tocar, como ele. queimado e enegrecido! \ Basta de amigos! Como chamá-los? \ Fantasmas de amigos! Que de noite, \ tentam ainda meu coração e minha janela \ e me olham sussurrando: \ "Somos nós"! \ Oh! Ressequidas palavras, um dia fragrantes como rosas! \ Sonhos juvenis tão cheios de ilusão, \ aos quais buscava no impulso de minh’alma, \ agora os vejo envelhecidos! \ Apenas os que sabem mudar são os de minha linhagem. \ Oh! Meio dia da vida! Oh! segunda juventude! \ Oh! jardim de estio! \ Beatitude inquieta na ansiedade da espera! \ Os amigos esperam, dia e noite, os novos amigos. \ Vinde! É tempo! É tempo! \ O hino antigo cessou de soar, \ O doce grito do desejo expira em meus lábios. \ Na hora fatídica apareceu um encantador, \ o amigo do pleno meio-dia. \ Não, não me pergunteis quem é: \ ao meio-dia, o que era um, \ dividiu-se em dois. \ Celebremos, seguros de uma mesma vitória, \ a festa das festas! \ Zaratustra está ali, o amigo, \ o hóspede dos hóspedes! \ O mundo ri, o odioso véu cai, \ E eis que a luz se casa com a misteriosa, \ subjugadora Noite. Poema extraído da obra Além do bem e do mal ou Prelúdio de uma filosofia do futuro (Hemus, 2001), do filósofo e escritor alemão Friedrich Nietzsche (Friedrich Wilhelm Nietzsche – 1844-1900), do qual destacamos os pensamentos: O amor por um único ser é uma barbárie: porque acontece em detrimento de todos os outros seres. Mesmo o amor de Deus... Graças à música as paixões encontram gozo em si mesmas... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


Veja mais Cantarau, Thiago de Mello, Paul Verlaine, Francisco de Goya, Tracy Chapman, Melanie Klein, Chico Buarque, Vincent Van Gogh, José Celso Martinez Corrêa, Warren Beatty, Méry Laurent & Paulo Cesar Barros aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: desenho da artista plástica Leila Nogueira.

 
É PRA ELA...

Só quem ama sabe o que é o amor,

Só quem tem amor sabe o que é amar...

A LETRA DA CANÇÃO

CRÔNICA DE AMOR: É PRA ELA...

POEMAS & CANÇÕES

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SHAILJA PATEL, JAY KRISTOFF, AYAAN HIRSI ALI & MARCELO GOMES

    Imagem: Acervo ArtLAM . Boboca pelas fantasmagorias do ciclo circadiano… - João Pila tinha muitos sonhos, todos de olhos abertos; n...