O
POETA E A FERA - Diante
do espelho, as cortinas se abrem e a cena surge: é um deserto, quase noite. Uma
fera emerge em sua natural emulação, rugindo indômita, impulsiva, indócil.
Valendo-se apenas do seu instinto, sabe-se que ela é imprevisível com seu
ímpeto selvagem, sua força devastadora. Para ela, não há certo ou errado,
precisa viver. E para isso, segue à caça, predadora, à espreita da presa,
afiando as garras, aprontando o bote. Quando surgem caçadores que a querem
acoá-la, reprimí-la, coagí-la e abatê-la, ela se defende e reage causando danos
irreparáveis, afora pavores e calamidade assustadora. É de causar pânico estar
diante dela, porque não se sabe quando mansa saciada, ou quando feroz faminta e
sedenta. Diante dela está o poeta com sua estatura vulnerável, desprotegido e
desarmado. Não há saída, o confronto é iminente. Se o pânico prevalecer, ele haverá
de correr até ser alcançado e, inevitavelmente, devorado. Se houver confronto
direto, sabe ele que estará em desvantagem e, fatalmente, será abatido. Desesperar,
não; precisa sacar do ensinamento: desespero é falta de imaginação. Só resta ao
poeta encarar, buscar no acervo de seus recursos intuitivos e intelectivos, a
sua poderosa criatividade para o enfrentamento. Lançando mão desses recursos,
torna-se cônscio de que há a possibilidade de dominá-la, não pela força porque
está ciente de sua inferioridade física, porém de sua inata criatividade e
ciência de que a sua vida foi feita para superar tantos quantos obstáculos. Toma,
então, a iniciativa de não recuar, nem avançar, pois sabe que ela está pronta
para o que der e vier. Resta-lhe tomar pé da situação, imaginar todas as
possibilidades e ter nas mãos todo território ao seu redor. Teve, por isso, de
buscar dentro de si a força jamais cogitada, o poder nunca conscientemente revelado
e a sabedoria latente sequer imaginada e mais que exigida para momentos de extrema
delicadeza, e buscar saída praquela encurralada. Apesar de temeroso, manteve-se
altivo diante da iniciativa dela de ficar rondando pra lá e pra cá, sempre ao
seu redor. Ele então cravou seus olhos nos olhos dela e sem hesitar, nenhum
gesto brusco, nenhum recuo, mantendo-se sem ceder espaço algum, mesmo quando
ela rugia ferozmente, vigilante irredutível, demonstrando estar pronto para o
combate. Depois de algum tempo insistentemente sondando suas fraquezas e
procurando seu vacilo, ela arqueou seu corpo e pôs-se em posição de descanso,
um ardil para encontrar o momento propício para seu ataque. Assim permaneceu
por um longo período, percebendo-se que não estava faminta, nem no cio. Com
isso, o poeta tomou a iniciativa de ir até ela, ao que pôde perceber sua atenta
desconfiança, enrijecendo seu corpo com a menção de levantar-se, acomodada
ainda nas patas arqueadas no chão. Ele aproximou-se cuidadosamente e passou-lhe
a mão, fazendo um carinho em seu dorso. Alisando-a com voz afável, recitou-lhe
um poema com versos do seu mais profundo íntimo e, ao que parece, tocou o
coração da fera. Aos poucos ela relaxou e até chegou aos cochilos,
acostumando-se com a presença amável dele. Assim ficaram por horas, dias, meses
e anos, a fera amansada e amestrada pôde se satisfazer e o poeta se realizar,
como se fossem um só: um ao outro, não mais antagônicos, agora complementares,
reciprocamente, irmanados. ©
Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui, aqui, aqui & aqui.
DITOS &
DESDITOS
Meu destino é magnífico, não importa como
pareça. No passado, eu costumava dizer que meu destino era muito difícil, não
importa como parecesse... Preciso viver isolada no deserto... Quero criar uma
aura de mistério em torno do meu trabalho. As pessoas precisam ansiar por
vê-lo... Artistas medianos copiam seus pares, mas o verdadeiro grande gesto
artístico reside na disfunção/sem-vergonhice de roubar e se safar disso...
Pensamento da fotógrafa, pintora e poeta
francesa Dora Maar (Henriette Theodora Markovitch – 1907-1997), foi a
quarta de sete mulheres e retratada por Pablo Picasso, tema da biografia Finding
Dora Maar: An Artist, an Address Book, a Life (Getty, 2020), da jornalista e escritora
francesa, Brigitte Benkemoun, na qual reflete sobre como a agenda de
1951 de Dora Maar funcionava como uma cápsula do tempo silenciosa da vida da
artista e narrando como a autora descobriu o item após seu marido comprar um
exemplar antigo que, por acaso, continha o bloco de contatos da artista, poeta
e fotógrafa. Veja mais aqui & aqui.
ALGUÉM FALOU:
Quando você realmente
força os limites, vai acabar fracassando. Caso contrário, é porque não está se
esforçando o suficiente... O ponto de encontro de uma comunidade não deve girar
em torno de dinheiro; trata-se de algo muito mais importante, muito mais
significativo, muito mais profundo do que isso... Temos a responsabilidade de
ser radicais e sensíveis...
Pensamento da premiada
arquiteta britânica Amanda Levete (Amanda
Jane Levete).
ALGUÉM MAIS FALOU:
Uma interpretação da identidade que não se
baseia em como sou ou em quem sou para mim mesma, mas sim em mim como sujeito
das histórias e conexões que vivencio. É o contexto, os meus relacionamentos,
que determinam quem eu sou, não as minhas qualidades...
Pensamento da escultora e escritora húngara
Marianne Csáky, autora da obra Talvez no espaço (2013).
ENSAIO SOBRE O AMOR - [...] Talvez seja verdade que, na realidade, não existimos até
que haja alguém para nos ver existir; não conseguimos falar de fato até que
exista alguém capaz de compreender o que estamos dizendo; em essência, não
estamos plenamente vivos até sermos amados. [...] Todo ato de se apaixonar envolve o triunfo da esperança sobre o
autoconhecimento. Apaixonamo-nos na esperança de não encontrar no outro aquilo
que sabemos existir em nós mesmos — toda a covardia, fraqueza, preguiça,
desonestidade, as concessões e a estupidez. Lançamos um cordão de amor em torno
da pessoa escolhida e decidimos que tudo o que estiver ali dentro estará, de
alguma forma, livre de nossas próprias falhas. Projetamos no outro uma
perfeição que nos escapa internamente e, por meio da união com a pessoa amada,
esperamos manter — a despeito de todas as evidências trazidas pelo
autoconhecimento — uma fé precária em nossa espécie. [...] Somos todos
mais inteligentes do que somos capazes, e a consciência da insanidade do amor
jamais salvou ninguém dessa doença. [...] Apaixonamo-nos porque ansiamos
escapar de nós mesmos ao lado de alguém que seja tão belo, inteligente e
espirituoso quanto nós somos feios, estúpidos e sem graça. Mas e se um ser tão
perfeito, um belo dia, resolvesse retribuir o nosso amor? Só nos resta ficar,
de certa forma, chocados: como pode essa pessoa ser tão maravilhosa quanto
esperávamos, se ela tem o mau gosto de aprovar alguém como nós? [...]. Trechos extraídos da obra On Love (Grove/Atlantic,
2006), do escritor, filósofo e produtor suíço, Alain de Botton, autor de
obras como The Romantic Movement (1994), Kiss and Tell (1995), How
Proust Can Change Your Life (1997), The Art of Travel (2002), The
Pleasures and Sorrows of Work (2009), A Week at the Airport (2009), How
to Think More About Sex (2012), The News: A User's Manual (2014) e The
Course of Love (2016), entre outros.
LUCIA
Y EL SEXO - Sentir é mais
importante que entender: “É uma história com muitas vantagens, uma é o que o
final não é um ponto definitivo, é um buraco que levará a qualquer outro ponto
da narrativa, e assim pode-se mudar o rumo do que é vivido”. Trata-se do
filme Lucía y el sexo (2001), escrito e dirigido pelo cineasta espanhol Julio Medem (Julio Médem Lafont), contando a história
de uma belíssima e ousada garçonete, em meio a uma relação ardente e conturbada
com um escritor chamado Lorenzo, que desaparece às vésperas de uma viagem do
casal para uma ilha no mediterrâneo, há muito esperada. Ela, então, perturbada,
parte só e sob o sol tropical, numa idílica pousada, mergulha em si mesma e no
tempo para decifrar suas paixões, encontrando a cada dia rascunhos de
lembranças perdidas e de personagens do romance de sua vida. A obra é uma
fábula poética que utiliza a sensualidade e o desejo como ferramentas para
explorar a condição humana, o destino e as reviravoltas da memória. O filme é
estrelado pela bela atriz espanhola Paz Vega. Veja mais aqui.
DO
ALTO DOS MONTES - Oh!
Meio dia da vida! Época solene! \ Oh! jardim de estio! \ Beatitude inquieta da
ansiedade na espera: \ espero meus amigos, noite e dia, \ onde estais, amigos
meus? \ Vinde! É tempo, é tempo! \ Não é por vós que o gelo cinzento \ hoje se
adorna com rosas? \ A vós procura o rio, \ suspensos nos céus ventos e nuvens
se alevantam \ para observar vossa chegada. \ competindo com o mais sublime voo
dos pássaros. \ No meu santuário coloquei a mesa: \ Quem vive mais próximo das
estrelas \ e das horríveis profundezas do abismo? \ Que reino mais extenso que
o meu? \ E do mel, daquele que é meu, que sentiu seu fino aroma? \ Aqui estais,
finalmente, meus amigos! \ Ai! não é a mim que procuras? \ Hesitais, mostrais
surpresa? \ Insultai-me é melhor! Eu não sou mais eu? \ Mudei de mão, de rosto,
de andar? \ O que eu era, amigos, acaso não mais sou? \ Tornei-me, talvez,
outro? \ Estranho a mim mesmo? De mim mesmo, fugido? \ Lutador que muitas vezes
venceu a si mesmo? \ Que muitas vezes lutou contra a própria força, \ ferido,
paralisado pelas vitórias contra si mesmo? \ Porventura não procurei os mais
ásperos ventos e aprendi a \ viver onde ninguém habita, \ nos desertos onde
impera o urso polar? \ Não esqueci a Deus e ao homem, blasfêmias e orações? \ Tornei-me
um fantasma das geleiras. \ Oh! meus velhos amigos, vossos rostos \ empalidecem
de imediato, \ transtornados de ternura e espanto! \ Andai, sem rancor! Não
podeis demorar aqui! \ Não é para vós este país de geleiras e rochas! \ Aqui é
preciso ser caçador e antílope! \ Converti-me em caçador cruel. Vede meu arco:
\ a tensão de sua corda! \ Apenas o mais forte poderá arremessar tal dardo. \ Mas
não há nenhuma seta mortal copo esta. \ Afastai-vos, se tendes amor à vossa
vida! \ Fugis de mim!? Oh, coração, quanto sofreste! \ E entretanto, tua
esperança ainda se mantém firme! \ Abre tuas portas a novos amigos, \ renuncia
aos antigos e às lembranças! \ Fostes jovem? — Pois agora és mais e com mais
brio. \ Quem pode decifrar os signos apagados, \ do laço que une com uma mesma
esperança? \ Signos que em outros tempos escreveu o amor, \ que luzem como
velho pergaminho queimado \ que se teme tocar, como ele. queimado e enegrecido!
\ Basta de amigos! Como chamá-los? \ Fantasmas de amigos! Que de noite, \ tentam
ainda meu coração e minha janela \ e me olham sussurrando: \ "Somos
nós"! \ Oh! Ressequidas palavras, um dia fragrantes como rosas! \ Sonhos
juvenis tão cheios de ilusão, \ aos quais buscava no impulso de minh’alma, \ agora
os vejo envelhecidos! \ Apenas os que sabem mudar são os de minha linhagem. \ Oh!
Meio dia da vida! Oh! segunda juventude! \ Oh! jardim de estio! \ Beatitude
inquieta na ansiedade da espera! \ Os amigos esperam, dia e noite, os novos
amigos. \ Vinde! É tempo! É tempo! \ O hino antigo cessou de soar, \ O doce
grito do desejo expira em meus lábios. \ Na hora fatídica apareceu um
encantador, \ o amigo do pleno meio-dia. \ Não, não me pergunteis quem é: \ ao
meio-dia, o que era um, \ dividiu-se em dois. \ Celebremos, seguros de uma
mesma vitória, \ a festa das festas! \ Zaratustra está ali, o amigo, \ o
hóspede dos hóspedes! \ O mundo ri, o odioso véu cai, \ E eis que a luz se casa
com a misteriosa, \ subjugadora Noite. Poema extraído da obra Além do
bem e do mal ou Prelúdio de uma filosofia do futuro (Hemus, 2001), do filósofo
e escritor alemão Friedrich Nietzsche (Friedrich Wilhelm Nietzsche – 1844-1900),
do qual destacamos os pensamentos: O amor por um único ser é uma barbárie:
porque acontece em detrimento de todos os outros seres. Mesmo o amor de Deus...
Graças à música as paixões encontram gozo em si mesmas... Veja mais aqui,
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É PRA ELA...
Só quem ama
sabe o que é o amor,
Só quem tem
amor sabe o que é amar...






