NUM
BRINCA! (ou A TPM
de Vera – Imagem: Heroína de Stanley Lau) - Por dez dias eu tô de
boa; os outros vinte, tô de TPM, sai de baixo! -, era mesmo. Todos que
conviviam com Vera sabiam disso. Era um período de fino trato: amável, dócil,
melíflua, meu bem pra cá, meu amor pra lá, pudica até – coisa que não era muito
do seu jeito, provocante e fatal que sempre fora. Todavia, quando estava
naqueles dias: - Tais pensando o quê? -, mudava da água pro vinho, de oito pra
oitenta. Quando davam notícia de alguém que bateu as botas, ela na maior: -
Antes ele do que eu! E destronava tudo: autoestima, dignidade, patente, sem
papas na língua. Desaforo viesse, ela acotovelava na lata e à altura: resposta
lascando tudo. Tornava-se astuta, cruel, estouvada com gestos desenvoltos e
buliçosos, gracejos espirituosos e, como diziam todos, ficava arretada: abusava
da maquiagem, um batom vermelho cheguei nos lábios, um decote lascado na
blusinha de alças dos peitos fartos ficarem a ponto de pular fora, vestida numa
calça apertada dos beiços da priquita ficarem salientes e bem delineados – da
turma apelidar do capô de fusca, o cuscuz rachado da Vera -, afora destacar os
seus proeminentes glúteos que mais pareciam uma panela de pressão com as
bochechas inchadas e, pra tropa dos queixos caídos, era: - Lá vem a Vera cu de
apito! E chegava toda reboladeira, convencida da sua formosidade. E era mesmo:
formas generosas, bonitona, atarracada, bunduda, pernas grossas, coxuda, o que
a turma dizia ser um lauto banquete pra muito neguinho cometer desatino de
perdulário. Nessa hora ela sabia ser cativante, impulsiva, despótica. Não
escolhia palavra para expor seus sentimentos e opinião. Doesse em quem fosse. Pros
desavisados impertinentes, ela avisava logo: - Tô de boi, cai fora! E pros
chavequeiros ousados de plantão: - Mô fio, o sol tá variando seu juízo, tá?
Cresça e apareça, viu? -, perdia o menor tato, largando sua agressividade. – Homem, minha filha, só serve pra duas
coisas: tem que ser parrudo e pintudo. Um pra segurança, dar tabefe e resolver
nossos problemas com a vida; e outro, pra satisfazer nossas necessidades no
cio. Depois jogar fora, nenhum presta, todos calçam quarenta! Pau pequeno? Vá
fazer cócegas noutra. E destilava suas derrotas e insatisfações que lhe saíam pelos
poros, impondo suas ideias, animosidade, insultos, zombaria, esporros, prevalecendo
sempre sobre os outros. Tornava-se perita em ferir o alheio, ofendendo
deliberadamente com sua crítica azeda e criando quantos malentendidos, causando
tantos desentendimentos. Quem não conhecia, passava batido: - Sou franca, meu
filho! Sou assim e acabou-se! Pense uma língua ferina. Áspera, ela falava e
agia sempre aborrecida: - Sentimento dos outros? É o mundo todo pra falar de
mim, estou em desvantagem! Então, minha defesa é o ataque! Oxe, sou eu sozinha
pra enfrentar o mundo todo! E tascava comentários difamatórios, palavras
insensatas jogadas com desconsideração: - Primeiro eu, os outros que se fodam!
Ela botava gosto ruim em tudo, não medindo as consequências. De tão ressentida,
nem estava ai ao causar mágoas: - Ah, ele se acostuma e aprende! E falava da falta
de consideração dos outros, os mal-agradecidos que são como a base governista
da presidente: - Mulher não pode ser Amélia, tem que ser que nem a Dilma:
vacilou, pau comeu! Por isso essa cambada do contra: homem não pode com mulher
resolvida! Incapazes, só sabem jogar baixo e puxar tapete! Dou ponto! E não
arredava um milímetro que fosse de suas convicções, tudo na base do bateu,
levou. – Ô Vera, então é por isso que você não casou até hoje? Ah, num diga!
Descobriu o Brasil! E vamos aprumar a conversa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui,
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Imagem: Famille Indienne, do pintor alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858).
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