quarta-feira, março 23, 2016

ENQUANTO A VIDA PASSA...

ENQUANTO A VIDA PASSA... (Imagem: The man in the mirror, da artista plástica Suzanne Marie Leclair) – Desnatildo estava só. Tentava manter amizades, reatar os laços nas relações, tentava, tentava e sucumbia. Quanto mais se esforçava para se ver incluído no rol das amizades, mais resultava em desagregação. Tanto aceitava, desculpava, perdoava, insistia na segunda chance, mais se desfazia nas cinzas do vento. Pra onde se virasse, qualquer iniciativa que tivesse, redundava ao fracasso. Quando procurava conversar com a esposa, queixumes; ao se dirigir aos filhos, insatisfações; os amigos, apressados. Foi além e ao encetar qualquer conversa com quem quer que fosse, a correria do trânsito; um diálogo com quem surgisse e logo a necessidade de não pegar fila; um aceno, a iminência de perder a hora de um compromisso; um encontro, o trampo para garantir a boia; um aperto de mão e o relógio marcava o tempo que virou dinheiro; um abraço e até logo. Ficou só. Para quem já se sentia uma ilha perdida, ali estava sentença da depressiva solidão. O abraço apressado, a indiferença pra não desligar dos propósitos, a encheção de saco desviando os objetivo e metas, estatísticas, parâmetros, diretrizes, relatórios, resultados. Viver passou a ser a competição com tudo: enfrentar o tempo, o espaço, os outros, tudo. Só há sentido em competir, é assim que se vence. E o medo da regra três, a ansiedade de alcançar o planejado, o ter de estar atento o tempo todo. Não conseguia desligar, vinte e quatro horas no ar, sem poder se dar ao luxo do vacilo: cochilou, era uma vez a oportunidade e nunca mais. Quando conseguiu sair do redemoinho para encetar uma conversa, os temas envolviam dores com endividamento e crise, mágoas, frustrações, descrença na política, derrota no futebol, veleidade das mulheres - o mundo perdeu o prumo: estava tudo de cabeça pra baixo e pernas pro ar. E agora? Ele sozinho na rua, em casa, na vida. Não tendo com quem conversar, teve de arrumar um jeito. E encarou o espelho e fez todas as perguntas que martirizavam. Encarou-se. Descobriu que não era só ele, nem ele mesmo. De primeira, não sabia o que fazer; mas perseverou e de tanto insistir na conversação consigo mesmo, obteve as respostas. Sentiu-se desconfortável ao constatar que não se conhecia direito. Ele era um desconhecido para ele mesmo. E quanto mais insistia em ver-lhe refletido, mais indagou de si sobre si mesmo. E enquanto ele se espremia de insatisfações, o Sol amanhecia realizando o mais belo espetáculo da vida. E enquanto ele queria mudar o mundo e as pessoas, o dia oportunizava o brotar de todas as sementes. Enquanto ele mergulhava na autocomiseração, as águas irrigavam a terra para a fertilização e manifestação da vida em todos os recantos do planeta. Enquanto ele buscava saída para satisfazer todas as suas necessidades, a tarde testemunhava a plenitude de todos os frutos para garantir a sobrevivência de todas as coisas. Enquanto ele estava insone sem saber o que fazer de si e do mundo, tudo se preparava no crepúsculo para a noite do descanso e a renovação de um novo dia. Foi aí que ele descobriu que nunca esteve sozinho. Dentro dele havia quem pudesse ouvir-lhe, reconhecer-se, refazer-se e, ao mesmo tempo, responder-lhe a tudo e todas as perguntas. Chegou ao ponto de dizer-se: o verdadeiro mundo está dentro de mim. Cresceu em si e sorriu. E isso para ele era uma novidade, acostumado que era em buscar apenas o que estava fora dele e em guerra consigo e com o mundo. Foi quando descobriu que tudo que mais desejava, mais ansiava, mais fazia falta a vida toda, estava dentro dele mesmo. E novamente sorriu. Estava confortável, agora conhecia a si e ao mundo. Aí ele pôde entender a si e a todas as coisas, não se sentia mais sozinho. Aí foi pra rua e ganhou o mundo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


Imagem: Bacante (1857-58, Museu Nacional de Belas Artes), do artista plástico e professor Victor Meirelles (1832-1903). Veja mais aqui.

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 Imagem: a arte da artista plástica Lidia Wylangowska.
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