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terça-feira, junho 08, 2021

BERGMAN, WILLIAM ZADIG, NOBUKO IMAI, TRILUSSA & RECIFE


  

TRIPTICO DQP – Uma: a morte no espelho... - Ao som da Harold in Italy - Symphony in Four Parts with Viola Obbligato (1834), op. 16, H. 68, do compositor francês Hector Berlioz (1803 - 8 de março de 1869), na interpretação da violista japonesa Nobuko Imai & London Symphony Orchestra, regência de Kazuki Yamada. – Que coisa! Anteontem foi um general, ontem um ladrão e hoje, imagine: a morte. Pode? Agora deu. Logo me vi naquela antológica cena do Sétimo selo - Det sjunde inseglet, do Bergman: era nada mais que Bengt Ekerot, disfarçado de monge da morte: presente por todo lado no cadáver do pastor e na dança macabra do afresco da igreja numas imagens que flutuavam por trás dele. Tinha outro espelho para invadir não? E logo me tratou como se eu fosse o quixote Block, na verdade, um ladrão de joias dos mortos, sem a presença do fiel escudeiro Jons, e que havia encabeçado a procissão dos flagelados, convencido por um decadente de que devia partir para a cruzada, agora retornando para dar de cara com o quadro desolador da sindemia: a violência nas ruas, a ira dos religiosos imprimindo medo e cura, a fumegante tortura e o desespero dos flagelados, o hecatombe com todos os malefícios da humanidade: todos matam e enriquecem em nome de um deus que nunca reconheci. Por trás dele vi o voo da águia e, logo em seguida, o som das guerras, bombas, discórdias, genocidas do agronegócio, o holocausto. Deus está longe, mas o diabo está por todo lado – foi o que ele sussurrou. O meu interlocutor sorria e diante das suas sombrias predições, propus um jogo de xadrez. Depôs o tabuleiro na hora, enquanto imaginava a minha antipatia com a escatologia cristã porque alguém - sabe-se lá quem - desatou os seus sete selos apocalípticos: a morte está caçando os vivos e algo me diz que o mundo será dizimado gradualmente pela peste. Ouvia lá longe não sei quem, nem onde e muito menos pra quê, alguém se manifestava pregando a punição em nome do sagrado. Ora, bolas! O que há de moribundo e desespero: o agouro implacável. Enquanto jogávamos falou-me do sentido da vida e da morte, como se eu fosse o cavaleiro que voltou da cruzada da fé e havia encontrado o sétimo selo e o medo: um visitante inesperado com a personificação mortal para vencê-la. Foi na vida, a experiência para enfrentá-la. Encarou, então, meu destemor como um escárnio e me expôs a imagem daquela escultura de um túmulo do Poblenou, em Barcelona: El Beso de La Muerte (1930), atribuída a Jaume Barba ou Joan Fontbernat, com um epitáfio de Jacint Verdaguer: E seu jovem coração não pode ajudar; / Em suas veias o sangue para e congela / E o encorajamento perdido a fé abraça / Cai sensível aos braços da morte. Ao recitá-lo a música me envolveu com a imagem e senti que alguém se aproximava. Era Berlioz: Na vida de um artista, às vezes um trovão segue-se rapidamente a outro... Eu acabara de receber as sucessivas revelações de Shakespeare e Weber. Agora, noutro ponto no horizonte, vi surgir a forma gigantesca de Beethoven. O choque foi quase tão grande quanto o de Shakespeare. Beethoven abriu diante de mim um mundo novo da música, tal como Shakespeare revelara um novo universo de poesia. Hem? Virei-me para vê-lo e era Bergman com um meio sorriso: Quando eu era jovem, eu tinha muito medo de morrer, mas agora penso que é muito, muito sábio se preparar. É como uma luz que se extingue. É preciso aprender a viver. Eu treino todos os dias. Todos precisam aprender a viver. A cada dia, me esforço um pouquinho. A dificuldade principal está em saber quem eu sou e onde estou. É como procurar na escuridão. Se alguém me amasse como sou, talvez, finalmente, me pudesse encontrar. Era como se toda cena fosse ao final, no qual só o casal de atores da trupe mambembe escapava, tudo o mais estava perdido: apenas o Sol brilhava no horizonte abrindo caminho para a vida. Sei não.

 


Dois beijos na princesa do escultor de Trilussa - Imagem: a polêmica escultura O idílio ou Beijo eterno (1922), do escultor sueco William Zadig (1884-1952), recolhida em 1936; instalada depois em 1956, no Largo do Cambuci e, depois, reinstalada na entrada do túnel 9 de Julho, e, finalmente, em 1966, no Largo de São Francisco, em frente à Faculdade de Direito, em São Paulo, representando um francês e uma índia, em referência à obra de Olavo Bilac. – Sardenilza é uma daquelas moças que nasceu com a bunda pra lua e para admiração de todos. Desde a hora que nasceu, seus familiares apelidaram logo de priquituda, devido descomunal desenvolvimento do seu capô de fusca: Essa menina é só boceta, gente! Mas com o tempo, ela foi tomando jeito e, na adolescência, as suas proporções corporais foram distribuídas, removendo de vez o apelido de infância. Com o tempo passou a ser a gostosuda da cidade, ganhando a simpatia dos marmanjos e se ajeitando na vida com a sua própria beleza. Muitos pretendentes gastaram fortunas para serem contemplados com o seu sim num casório, enquanto ela permanecia solteiríssima e cobiçada. Um dia lá, desfilava no seu conversível, quando perdeu o controle e achou de esfregar a face num poste. Ficou desfigurada. Era uma vez uma beldade: tornou-se a coisa mais feia do mundo. E agora? Sai pra lá, jaburu! Um admirador, o Jadonaldo, que não tinha nem onde cair morto, foi a salvação: cedeu seus glúteos para reembelezá-la numa cirurgia de horas. Em compensação, o desbundado foi contratado como seu motorista particular. Ao reaparecer, filas e alvoroços para a banda dela. Sem saber o que acontecia, procurei saber do primeiro que encontrei: Hehehehe! É fila dos machos que querem beijar a boazuda. Não havia entendido a risada dele, só com relato que coincide com a história contada pelo Trilussa – na verdade, o escritor satírico italiano Carlos Alberto Salustri (1871-1950) -, no seu conto O beijo do escultor: Fui submetido a uma operação delicada e dolorosa. Devo dizer que sofri tudo de boa vontade, para agora ter a compensação de haver retribuído pessoalmente com a conservação da beleza do rosto da minha senhora. Pois é, é do sofrimento de um que aparece a felicidade de outro e finda tudo empatado. Vá entender.

 


Três sustos nos semáforos do Recife... – Imagem de Heraldo Cunha ao som de Luiz Bandeira: Voltei, Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço... - Sempre transitei pela Pracinha do Diário, era meu caminho ao largar do trabalho no Cais do Apolo, rumo à Livro 7. Isso até os anos 1990, mais ou menos, quando arribei estrada mundo afora. Não sabia eu que 30 anos depois, a coisa mudara, e muito. A cada passada pela faixa de pedestres nos semáforos, refazendo o itinerário, eu tinha um susto. Certas abordagens não chegaram a ser de fato, mas bem que passaram para premiar outro transeunte, cuidava para estar pronto na minha hora. Hoje não tem mais a livraria predileta, nem condição de se andar certas horas pelo itinerário que eu costumava fazer todos os dias do final dos anos 1970 até quando fui embora. Para minha sorte nunca fui assaltado. Consegui chegar ileso no nono andar do Pernambuco, aboletando-me no sofá e pegando o primeiro livro que estava ao alcance: era o volume Trabalho precário no meio urbano: semáforos do Recife (Fundaj/Massangana, 2007), coordenado por Tarcísio Patrício de Araújo, flagrando esta parte do texto: [...] uma ideia das condições de vida das pessoas que trabalham nos semáforos de Recife, um contingente que tem crescido [...] uma alternativa à impossibilidade de inserção no mercado formal [...] consequência direta da insuficiência de absorção de mão-de-obra pelo mercado de trabalho formal. [...]. Fui até a janela, olhei pros lados, todos os prédios antes reconhecidos de grande movimento, todos abandonados. Bem, a Guararapes não é mais a mesma, nem a Boa Vista. Outros tempos, até mais ver.

 

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quarta-feira, abril 24, 2019

YASUNARI KAWABATA, NIELS BOHR, MARIKA GIDALI, ARTUR AZEVEDO & A SALVAÇÃO DO BILAC


A SALVAÇÃO DO BILACÉ cada uma que aparece! Veja como são coisas que acontecem não se sabe como. Para se ter uma ideia, essa eu não sabia, nem imaginava tivesse ocorrido. Não fosse um caso recolhido no não menos curioso livro Como você se chama? Estudo sócio-psicologico de prenomes e cognomes (Documentário, 1973), do saudoso jornalista, poeta, biógrafo e teatrólogo Raimundo Magalhães Júnior (1907-1981), passaria em branco com essa curiosidade. Pois bem, vamos ao caso. Acontece que Brás Martins dos Guimarães era filho de Brás Martins dos Guimarães. Ou seja, com os mesmos nomes, o pai, seu Brás, um funcionário público exemplar; e Brasinho, o filho, um futuro médico que, prestes a se formar, requereu ao diretor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, que lhe acrescentasse o cognome Bilac, para distinguir seu nome do de seu pai, evitando confusões futuras na hora de enfrentar a burocracia brasileira. Assim pleiteou e, por fim, conseguiu. Com isso, construiu a família Bilac que se ramificou com o nascimento dos filhos Cora, Olavo e Gastão. A prole recebeu os devidos cuidados do casal Bilac até crescerem e se proliferarem quando adultos. Acontece, porém, que, ao se casar, a filha Cora perdeu o patronímico, ganhando o do marido; Olavo, o famoso poeta e cronista carioca da Academia Brasileira de Letras, que era um solteirão convicto, não deixou filhos, contrariando os sonhos dos pais como sempre o fez; e, o caçula, Gastão, trouxe ao mundo o Ernani que, por sua vez, não deixou descendência. Então, o Bilac surgiu para distinguir pai e filho, findava sem que houvesse na face da terra mais nenhum parentesco. Por conta disso, com o tempo, inevitavelmente a família Bilac sumiria do mapa, extinta para todo o sempre. Ah, mas não foi bem assim. Não fosse um pai mineiro admirador dos versos do vate parnasiano, registrar na certidão de nascimento do filho recém-nascido o nome de Olavo Bilac Pinto e este ao se formar em direito passar a se assinar Bilac Pinto, a família não se salvaria. Pronto, dito e feito, TTTTT também é cultura e onomástica, diga se não é? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

DITOS & DESDITOS:
O sentido da vida consiste em que não tem sentido nenhum dizer que a vida não tem sentido. Ainda bem que chegamos a um paradoxo. Agora, há esperança de conseguirmos algum progresso. Qualquer um que não se choque com a Mecânica Quântica é porque não a entendeu. O oposto de uma afirmação correta é uma afirmação falsa. Mas o oposto de uma verdade profunda pode ser outra verdade profunda. Nunca se expresse mais claramente do que você é capaz de pensar. Toda frase que eu digo deve ser entendida não como uma afirmação, mas como um pergunta. Um físico é apenas a forma que um átomo encontrou de olhar para si mesmo. Algumas coisas são tão sérias que você tem que rir delas.
Pensamento extraído da obra Física atômica e conhecimento humano (Contraponto, 1995), do físico dinamarquês Niels Bohr (1885-1962) que desenvolveu trabalhos nas áreas de estrutura atômica e da física quântica.

EPIDAURO PAMPLONA
Em Mar de Espanha havia um velho fazendeiro, viuvo que tinha uma filha muito tola, muito mal-educada, e, sobretudo. muito caprichosa. Chamava-se Zulmira. Um bom rapaz, que era empregado no comércio da localidade, achava-a bonita, e como estivesse apaixonado por ela, não lhe descobria o menor defeito. Perguntou-lhe uma vez se consentia que ele fosse pedi-la ao pai. A moça exigiu dois dias para refletir. Vencido o prazo, respondeu: - Consinto, sob uma pequena condição. - Qual? - Que o seu nome seja impresso. - Como? - É um capricho. - Ah! - Enquanto não vir o seu nome em letra redonda, não quero que me peça. - Mas isso é a coisa mais fácil... - Não tanto como supõe. Note que não se trata da assinatura, mas do seu nome. É preciso que não seja coisa sua. Epidauro, que assim se chamava o namorado, parecia ter compreendido. Zulmira acrescentou: - Arranje-se! E repetiu: - É um capricho. Epidauro aceitou, resignado, a singular condição, e foi para casa. Aí chegado, deitou-se ao comprido na cama, e, contemplando as pontas dos sapatos, começou a imaginar por que meios e modos faria publicar o seu nome. Depois de meia hora de cogitação, assentou em escrever uma correspondência anônima para certo periódico da Corte, dando-lhe graciosamente notícias de Mar de Espanha. Mas o pobre namorado tinha que lutar com duas dificuldades: a primeira é que em Mar de Espanha nada sucedera digno de menção; a segunda estava em como encaixar o seu nome na correspondência. Afinal conseguiu encher duas tiras de papel de notícias deste jaez! "Consta-nos que o Rev.mo Padre Fulano, vigário desta freguesia, passa para a de tal parte." "O Ilmo Sr. Dr. Beltrano, juiz de direito desta comarca, completou anteontem 43 anos de idade. S. Sª, que se acha muito bem conservado, reuniu em sua casa alguns amigos." "Tem chovido bastante estes últimos dias", etc. Entre essas modestas novidades, o correspondente espontâneo, depois de vencer um pequenino escrúpulo, escreveu: "O nosso amigo Epidauro Pamplona tenciona estabelecer-se por conta própria." Devidamente selada e lacrada, a correspondência seguiu, mas... Mas não foi publicada. O pobre rapaz resolveu tomar um expediente e o trem de ferro. - À Corte! à Corte! dizia ele consigo; ali, por fás ou por nefas, há de ser impresso o meu nome! E veio para a Corte. Da estação central dirigiu-se imediatamente ao escritório de uma folha diária, e formulou graves queixas contra o serviço da estrada de ferro. Rematou dizendo: - Pode dizer, Sr. redator, que sou eu o informante. - Mas quem é o senhor? perguntou-lhe o redator, molhando uma pena; o seu nome? - Epidauro Pamplona. O jornalista escreveu; o queixoso teve um sorriso de esperança. - Bem. Se for preciso, cá fica o seu nome. Queria ver-se livre dele; no dia seguinte, nem mesmo a queixa veio a lume. Epidauro não desesperou. Outra folha abriu uma subscrição não sei para que vítimas; publicava todos os dias a relação dos contribuintes. - Que bela ocasião! murmurou o obscuro Pamplona. E foi levar cinco mil-réis à redação. Com tão má letra, porém, assinou, e tão pouco cuidado tiveram na revisão das provas, que saiu: Epifânio Peixoto 5$OOO Epidauro teve vergonha de pedir errata, e assinou mais 2$OOO. Saiu: "Com a quantia de 2$, que um cavalheiro ontem assinou, perfaz a subscrição tal a quantia de tanto que hoje entregamos, etc. Está fechada a subscrição." Uma reflexão de Epidauro: Oh! Se eu me chamasse José da Silva! Qualquer nome igual que se publicasse, embora não fosse o meu, poderia servir-me! Mas eu sou o único Epidauro Pamplona... E era. Daí, talvez, o capricho de Zulmira. Uma folha caricata costumava responder às pessoas que lhe mandavam artigos declarando os respectivos nomes no Expediente. Epidauro mandou uns versos, e que versos! A resposta dizia: "Sr. E. P. Não seja tolo." Como último recurso, Epidauro apoderou-se de um queijo de Minas à porta de uma venda e deitou a fugir como quem não pretendia evitar os urbanos, que apareceram logo. O próprio gatuno foi o primeiro a apitar. Levaram-no para uma estação de polícia. O oficial de serviço ficou muito admirado de que um moço tão bem trajado furtasse um queijo, como um reles larápio. Estudantadas... refletiu o militar; e, voltando-se para o detido: - O seu nome? - Epidauro Pamplona! bradou com triunfo o namorado de Zulmira. O oficial acendeu um cigarro e disse num tom paternal: - Está bem, está bem. Sr. Plampona. Vejo que é um moço decente--- que cedeu a alguma rapaziada. Ele quis protestar. - Eu sei o que isso é! atalhou o oficial. De uma vez em que saí de súcia com uns camaradas meus pela Rua do Ouvidor, tiramos à sorte qual de nós havia de furtar uma lata de goiabada à porta de uma confeitaria. Já lá vão muitos anos. E noutro tom: - Vá-se embora, moço, e trate de evitar as más companhias. - Mas... - Descanse, o seu nome não será publicado. Não havia réplica possível; demais, Epidauro era por natureza tímido. O seu nome, escrito entre os dos vagabundos e ratoneiros, era uma arma poderosíssima que forjava contra os rigores de Zulmira; dir-Ihe-ia: - Impuseste-me uma condição que bastante me custou a cumprir. Vê o que fez de mim o teu capricho! Quando Epidauro saiu da estação, estava resolvido a tudo! A matar um homem, se preciso fosse, contanto que lhe publicassem as dezesseis letras do nome! Lembrou-se de prestar exame na Instrução Pública. O resultado seria publicado no dia seguinte. E, com efeito, foi: "Houve um reprovado." Era ele! Tudo falhava. Procurou muitos outros meios, o pobre Pamplona, para fazer imprimir o seu nome; mas tantas contrariedades o acompanharam nesse desejo que jamais conseguiu realizá-lo. Escusado é dizer que nunca se atreveu a matar ninguém. A última tentativa não foi a menos original. Epidauro lia sempre nos jornais: "Durante a semana finda, S.M. ,,o Imperador foi cumprimentado pelas seguintes pessoas, etc. Lembrou-se também de ir cumprimentar Sua Majestade.- Chego ao paço, pensou ele, dirijo-me ao Imperador, e digo-lhe: - Um humilde súdito vem cumprimentar Vossa Majestade, - e saio. Mandou fazer casaca; mas, no dia em que devia ir a Cristóvão, teve febre e caiu de cama. Voltemos a Mar de Espanha: Zulmira está sentada ao pé do pai. Acaba de contar-lhe a que impôs a Epidauro. O velho fazendeiro ri-se a bandeiras despregadas. Entra um pajem. Traz o Jornal do Comércio, que tinha ido buscar à agência de correio. A moça percorre a folha, e vê, afinal, publicado o nome de Epidauro Pamplona. - Coitado! murmura tristemente, e passa o jornal ao velho. - É no obituário: "Epidauro Pamplona, 23 anos, solteiro, mineiro. - Febre perniciosa." O fazendeiro, que é estúpido por excelência, acrescenta: - Coitado! foi a primeira vez que viu publicado o seu nome.
Um capricho, conto extraído da obra Contos possíveis (H. Garnier, 1908), do dramaturgo, escritor e jornalista brasileiro Artur Azevedo (2855-1908). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Subir no palco e dançar é uma forma de você se comunicar com você mesmo de uma forma profunda.
Eu nunca dividi o lado social e o artístico. A minha forma de pensar sempre foi a de usar o meu potencial no trabalho com o social. Não teve um dia que eu acordei e decidi que iria fazer um trabalho social. Eu sempre conduzi a minha vida dessa maneira.
Eu acredito que o corpo é absolutamente necessário para qualquer coisa. Você não pode pensar sem o corpo. E a arte-cidadania na dança envolve música, harmonia, cultura, beleza, disciplina, sociabilização. Tudo o que a gente precisa para montar um serzinho.
A arte da premiada e inovadora bailarina húngara, coreógrafa e líder de companhia de dança, Marika Gidali, artista empenhada na ação social pelos menos favorecidos, batalhadora das causas sociais e justas, mãe devotada, fundadora do Ballet Stagium e que tem sua vida e arte reunida no volume Marika Gidali: singular e plural (Senac, 2001), de Décio Otero. Na área da educação e inclusão social está à frente de projetos sociais com grande repercussão, tendo coordenado as atividades de dança nas unidades da FEBEM, coordenando o Projeto Joaninha, o Dança a Serviço da Educação- Stagium vai às Escolas e Escolas Vão ao Teatro, e o Professor Criativo - curso dirigido a professores da rede pública de ensino do de São Paulo. Veja mais aqui, aquiaqui e aqui.
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A OBRA DE YASUNARI KAWABATA
Em tempos de guerra, as pessoas são transformadas em todos os tipos de coisas. O destino de cada um fica louco.
A obra do escritor japonês prêmio Nobel de Literatura de 1968, Yasunari Kawabata (1899-1972) aqui e aqui.


quarta-feira, dezembro 16, 2015

ANÁTEMA, BEETHOVEN, AUSTEN, BILAC, CREMA, ANA TERRA, CREMA, BRECHERET & MUITO MAIS.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? ANÁTEMA, A HISTÓRIA DA CANÇÃO - - Tudo começou quando em meados dos anos 1990 escrevi o poema A primavera de Ginsberg, concluindo que: Só a poesia tornará a vida suportável. No poema, eu prosseguia: ou que por eloquência nossa, mais fácil falar a língua do inimigo como se nada tivesse acontecido; ou que por superioridade nossa no meio dessa misturada doida, prescindiríamos de leis e governos; ou que por universalidade nossa, adaptaríamos nossa vida à todas do planeta numa carnavalizante existência; ou que por sapiência nossa, misturaríamos de tudo para traduzir o sumo do bom e do melhor nos esquecendo da excrescência noturna com que alicerçamos nosso ontem, enlameamos nosso hoje e fabricamos um infecto amanhã. Qual nada! Se todos os ardis nos iludem na página rotineira de uma novela televisiva; se todos os escroques nos remetem aos apuros com malabarismos sentimentais; se a todo momento expomos a mão à palmatória num vexame bisonho; se isso nada tem haver com nosso bocejo perene, oh! plebe ignara! Chamo de gato ao gato e ao governante de patife! Cada qual cuide de si! Pois todos os banquetes do palácio estão regados com nosso sangue de vítimas desmioladas, presas fáceis dos falastrões incorrigíveis, de gestos fesceninos, adeptos de gestapos e fiéis de Gog e Magog. Qual nada! Cultivemos então nosso orgulho majestoso do jeitinho para tudo, jogando uma bola fenomenal e flertando a bundinha daquelas que seguem para a praia a procura de uma noite por maior prazer, beldades de uma geografia anatômica capazes de esbugalhar os olhos dos mais insensíveis; cultivemos nosso orgulho pelos bens adquiridos através do processo de Felipe da Macedônia, felizes por dar uma marretada no otário que sai todo dia de casa com um chapéu que é a porrada da ocasião, da tapeação e ainda sorrir por haver lesado um imbecil, pelos presentes de Artarxerxes aos nossos desafetos, fofoqueiros que se metem em tudo como um azarão a nos perseguir; pelos que fazem política como pó de Pirlimpimpim e nos conduzem numa nau à deriva, sabe lá, Deus, para onde!!!! Pelos tolos que cumprem as leis violadas pelos sabidos; pelas leis que fazem vista grossa nas dilapidações e nos dão essa segurança de impunidade na rua;  pelas leis que vão até onde o rei falso quiser – toda lei na mão do feitor! pelos que fazem a guerra e ainda se arvoram na petulância de anunciar que o fazem por amor à humanidade, filhos da puta! Pelos que vivem de julgar a todos segundo seu próprio juízo e vomitam razões esquálidas na mais sectária das visões; pelos ambidestros sobre as farândolas dos falidos que cultuam o carnaval para se esbaldar da nossa desgraça e mangar da nossa besteira por santificá-los como bem sucedidos, quando não passam de um vesano sobre os nossos detritos e suas diatribes; pelos rabagás, os tais déspotas, cultores de tudo na base do balão de ensaio, postulantes às tendas de meninas fiéis católicas, que mal geram filhos e negam os peitinhos empinados para que não lhe caiam até a barriga desagradando seu patrão; por essa multidão andrajosa a exibir suas deformidades, dormindo no ponto, sequer desconfiando da sede do abismo com um riso banguela na hora mágica do gol; por essa gente que gosta de tanger gente na maior sem cerimônia; por essa gente que leva a riqueza dos outros na pontinha do dedo sem o menor rubor; pela história mentirosa que se ensina e a vergonhosa que segreda, quando aqui fenícios deixaram indícios suméricos mais valiosos na pré-cabrália e ninguém se deu conta do que seria, por isso deu no que deu! Será, então, um deus moreno, com um olhar tropical, indevidamente preterido, esperando, esperando, esperando por um novo milagre? ah! Para tanto há milagre de abril, cor anil, tão sutil, para ser hostil, com mentiras mil, ah!!! Ah! Se um Frínico tivesse aqui o poema da comoção popular!!! A terra é redonda e ainda, assim, cagam pelos quatro cantos de mundo!! Mas podemos ainda felizes sambar nas praias do nosso lindo litoral nem nos dando conta de tais leviatãs e ainda podemos sorver uma cerveja gelada no boteco da esquina sem nos incomodar com as cambadas e confrarias de nada no conluio dos interesses; e ainda gritar de emoção num lance de gol desconhecendo enxames, matilhas ou pragas ou quadrilhas ou súcias ou varas ou glutões ou vilões dos nossos congressos, legiões de algozes duma ação de verdugos com bocarras exuberantes e seus guinchos de sanha aracnídeas, inimicíssimos de nós meridionais; e ainda podemos remexer o esqueleto na Marquês de Sapucaí, pisando nossos remorsos, aplaudindo lúculus e gangsters e facínoras que financiam as atrofias das nossas vontades!!!!! E ainda podemos melar os pés no pantanal mato-grossense, desconsiderando homicidas sobre os incipientes lerdos inofensivos que não tem nem deus nem nada para se amparar!!!! E ainda podemos singrar as águas do São Francisco sem sabermos que somos verdadeiros suicidas na absolvição dos infratores no centro de uma hemorragia de idólatras no urinol!!!! E ainda podemos passear pelas ruas de Olinda sem prevermos da gatunagem dos que se dizem dermatóglifos de nossa missão, quiromantes do nosso destino, redentores do nosso sofrimento, puta-que-o-pariu!!!! Quem somos além de usuários de um reino diáspora com falcões nos plenários a nos mostrar o homem e o seu lobo, o predador e a sua presa, o desigual do forte sobre o fraco, deus meu? Só a poesia tornará a vida suportável!!! Ai entravam os acordes de Anáterma, surgindo nesse momento um discurso em que eu recitava um questionamento em cima da harmonia, Libelo: O que é legal? O que é legal, porra?!!!!? Afinal, no Brasil tudo se confunde: tudo é legal e ilegal ao mesmo tempo! Enquanto os acordes evoluíam na canção eu afirmava: Ilegal é a saúde pública em petição de miséria! A educação pública falida! A Administração Pública corrupta! A segurança pela hora da morte! A justiça ineficiente! Onde a dignidade humana? Com isso nasceu a letra: Pelo meio do mundo afora, pelo jeito que for e será, pelos ermos caminhos embora e nos abismos me extasiar. Ver o dia vir nascer das mãos, ver o sol se deitar nos olhos, é o meu destino de qualquer pagão e no sereno da noite me molho e enxugo a pele não me dera a vida uma escolha e por sentir amada na paixão minada, viver ! Pelo equívoco de quem desama repudiando deus e todo mundo, vociferando o verso que a veia inflama num anátema jamais profundo. Pelo de dentro e o que vem de fora, pelo embuste que segreda a farsa, procuro pelo que evadiu agora e no frigir já não vale mais nada e a pancada insólita se alastra na culatra e não foi feita só de mera viva cortesia, viver! Não me resta aqui dizer mais nada, isso é página virada precisa só viver! Veja o clipe da música aqui e mais aqui, aqui e aqui.

Imagem: Volupte, do pintor e ilustrador francês Antonio de la Gandara (1861 – 1917).


Curtindo a coleção Sinfonias Urtext Lujo (Deutsche Grammophon), com as nove sinfonias do compositor erudito alemão Ludwig van Beethoven (1770-1827).


MÉTODO ANALITICO X MÉTODO SINTÉTICO – No livro Saúde e plenitude: um caminho para o ser (Summus, 1995), de Roberto Crema, encontro a distinção entre os métodos analítico e sintético, oferecendo suas características e peculiaridade. O método analítico surgiu como reação ao dogmatismo e obscurantismo medieval, com ênfase na parte, a serviço da decomposição, fatos específicos e particulares, tendência reducionista, via quantitativa, caráter mecanicista, fundamentos principais na razão e sensação, somático (os cinco sentidos clássicos), necessidades e leis, determinista, exatidão, regularidade, codificação matemática, reprodutividade, controle, previsibilidade, geral, regularidade, inclinação indutiva, progressividade, acumulação, relação causal, ponto de vista da causalidade, espaço externo e exterioridade, nível do objeto, ponto de vista da causalidade, realidade objetiva, experimental, hemisfério cerebral esquerdo, exclusão do sujeito pela dualidade, função explicativa, aplicação às ciências da natureza, e seus principais mentores foram Galileu, Bacon, Desartes, Newton, Freud, Berne, entre outros. Já o método sintético surgiu como reação ao racionalismo positivista e analicismo moderno, ênfase na totalidade, a serviço da unificação, realidade plena e total, tendência apliativa e globalista, via qualitativa, caráter organicista, fundamentos principais na emoção e intuição, psíquico, liberdade e responsabilidade, indeterminista, incerteza, flexibilidade, codificação poético-metaforica, unicidade, visa a participação, imprevisibilidade incluindo mistério, singular, biográfico, instantaneidade, descontinuidade, relação acausal e sincronicidade, ponto de vista da finalidade e sentido, espaço interno e interioridade, nível do sujeito, consciência, valores, experiencial, hemisfério cerebral direito, inclusão do sujeito e não-dualidade, função compreensiva, aplicação às ciências do espírito, mentores Dilthey, Smuts, Jung, Soler, Frankl, Krishnamurti, entre outros. Veja mais aqui e aqui.

ORGULHO E PRECONCEITO – Na obra Orgulho e Preconceito (Abril, 1982), da escritora inglesa Jane Austen (1775-1817), destaco o trecho inicial: É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de esposa. Por pouco que os sentimentos ou as opiniões de tal homem sejam conhecidos ao se fixar numa nova localidade, essa verdade se encontra de tal modo impressa nos espíritos das famílias vizinhas que o rapaz é desde logo considerado a propriedade legítima de uma das suas filhas. — Caro Mr. Bennet — disse-lhe um dia a sua esposa —, já ouviu dizer que Netherfield Park foi alugado afinal? Mr. Bennet respondeu que não sabia. — Pois foi — assegurou ela. —Mrs. Long acabou de sair daqui e me contou tudo. Mr. Bennet não respondeu. — Afinal não deseja saber quem é o locatário? — gritou a mulher, impacientemente. — Você é quem está querendo me dizer e eu não faço nenhuma objeção a isto. Este convite foi suficiente. — Pois, meu caro, você deve saber que Mrs. Long disse que Netherfield foi alugado por um rapaz de grande fortuna, oriundo da Inglaterra. E que além disso ele chegou segunda-feira numa elegante caleça a fim de visitar a propriedade. Ficou tão encantado que entrou imediatamente em negócio com Mr. Morris; Mrs. Long falou também que ele entrará na posse do prédio antes do dia de São Miguel. Alguns dos seus criados devem chegar já na próxima semana. — Como se chama ele? — Bingley. — É casado ou solteiro? — Oh, solteiro, naturalmente, meu caro. Solteiro e muito rico! Quatro ou cinco mil libras por ano. Que boa coisa para as nossas meninas, hem? — Como assim? De que modo pode isso afetá-las? — Meu caro Mr. Bennet — replicou a esposa —, como você, às vezes, é enfadonho! Deve saber que ando pensando em casar uma delas... — Será este o projeto do homem ao se instalar aqui? — Projeto? Tolice... Como é que você pode dizer uma coisa destas? É até muito provável que ele se apaixone por uma delas. Portanto, assim que chegue, você deve ir visitá-lo. — Não vejo motivo para isto. Você pode ir com as meninas, ou pode até mandá-las sozinhas, o que talvez ainda seja melhor, pois como você é tão bela quanto qualquer uma delas Mr. Bingley pode preferi-la. — Você está me lisonjeando. Decerto já tive o meu quinhão de beleza, mas não ambiciono ser nada de extraordinário agora. Quando uma mulher tem cinco filhas crescidas, deve deixar de pensar em vaidades. — Em casos como esses, em geral, uma mulher não tem muito que pensar em beleza. — Mas meu caro, você deve realmente ir ver Mr. Bingley, quando ele chegar. — Não quero assumir esse compromisso. — Mas lembre -se das suas filhas. Pense que partido seria para uma delas! Sir William e Lady Lucas estão decididos a ir. É exclusivamente por motivo idêntico, pois você sabe que em geral eles não visitam recém-chegados. Deve ir, pois a nós, mulheres, será impossível fazê-lo, se antes você não o fizer. — Creio que isto é excesso de escrúpulos da sua parte. Tenho certeza de que Mr. Bingley terá muito prazer em vê-la. Além disso eu lhe enviarei algumas linhas por seu intermédio, assegurando-lhe que darei o meu consentimento para que ele se case com qualquer das meninas que escolher, embora devesse acrescentar um elogio para a minha pequena Lizzy. — Desejo que não faça tal coisa. Lizzy não é melhor do que as outras. Estou convencida de que não tem metade da beleza de Jane. E nem sequer metade do bom humor de Lydia. Mas você não cessa de manifestar a sua preferência por ela. — Nenhuma delas tem muito o que se lhes recomende — respondeu Mr. Bennet. — São tolas e ignorantes como as outras moças. Mas Lizzy é realmente um pouco mais viva do que as irmãs. — Como é que pode falar mal assim dos próprios filhos, Mr. Bennet? Você se compraz em aborrecer-me; não tem nenhuma pena dos meus pobres nervos. — Está enganada, minha cara. Tenho muito respeito pelos seus nervos. São meus velhos amigos. Venho escutando você falar a respeito deles com grande consideração, pelo menos durante esses últimos vinte anos. — Ah, você não sabe o que eu sofro! — Espero que você se restabeleça e viva bastante tempo para ver muitos rapazes com quatro mil libras anuais de rendimentos se instalarem na vizinhança. — Pouco nos adiantará que venham vinte deles se você se recusar a visitá-los. — Pode ficar certa, minha querida, de que quando chegarem os vinte eu os visitarei a todos. Mr. Bennet era um misto tão curioso de vivacidade, humor sarcástico, reserva e capricho, que a experiência de vinte e três anos juntos tinha sido insuficiente para que a sua esposa lhe conhecesse o caráter. O espírito de sua mulher era menos difícil de compreender; tratava-se de uma senhora dotada de inteligência medíocre, pouca cultura e gênio instável. Quando se aborrecia imaginava que estava nervosa. A única preocupação da sua vida era casar as filhas. Seu consolo, fazer visitas e saber novidades.[...] Veja mais aquiaqui.

NEL MEZZO DEL CAMIN & CANÇÃO DE ROMEU - No livro Poesias (1888 – Martin Claret, 2002), do jornalista e escritor do Parnasianismo brasileiro, Olavo Bilac (1865-1918), destaco, inicialmente, o poema Nel mezzo del camin:  Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada / E triste, e triste e fatigado eu vinha. / Tinhas a alma de sonhos povoada, / E alma de sonhos povoada eu tinha... / E paramos de súbito na estrada / Da vida: longos anos, presa à minha / A tua mão, a vista deslumbrada / Tive da luz que teu olhar continha. / Hoje segues de novo... Na partida / Nem o pranto os teus olhos umedece, / Nem te comove a dor da despedida. / E eu, solitário, volto a face, e tremo, / Vendo o teu vulto que desaparece / Na extrema curva do caminho extremo. Também o poema Canção de Romeu: Abre a janela... acorda! / Que eu, só por te acordar, / Vou pulsando a guitarra, corda a corda, / Ao luar! / As estrelas surgiram / Todas: e o limpo véu, / Como lírios alvíssimos, cobriram / Do céu. / De todas a mais bela / Não veio inda, porém: / Falta uma estrela... És tu! Abre a janela, / E vem! / A alva cortina ansiosa / Do leito entreabre; e, ao chão / Saltando, o ouvido presta à harmoniosa / Canção. / Solta os cabelos cheios / De aroma: e seminus, / Surjam formosos, trêmulos, teus seios / À luz. / Repousa o espaço mudo; / Nem uma aragem, vês? / Tudo é silêncio, tudo calma, tudo / Mudez. / Abre a janela, acorda! / Que eu, só por te acordar, / Vou pulsando a guitarra corda a corda, / Ao luar! / Que puro céu! que pura / Noite! nem um rumor.. / Só a guitarra em minhas mãos murmura: / Amor!... / Não foi o vento brando / Que ouviste soar aqui: / É o choro da guitarra, perguntando / Por ti. / Não foi a ave que ouviste / Chilrando no jardim: / É a guitarra que geme e trila triste / Assim. / Vem, que esta voz secreta / É o canto de Romeu! / Acorda! quem te chama, Julieta, / Sou eu! / Porém... Ó cotovia, / ilêncio! a aurora, em véus / De névoa e rosas, não desdobre o dia / Nos céus... / Silêncio! que ela acorda... / Já fulge o seu olhar... / Adormeça a guitarra, corda a corda, / Ao luar! Veja mais aqui e aqui.

TEATRO MEDIEVAL – Na obra Teatro Vivo (Civita, 1976), organizada por Sábato Magaldi, encontro que: Enquanto por toda a parte do Ocidente o Império Romano sucumbia diante das investidas dos chamados povos bárbaros, a igreja levava adiante sua intenção de colocar todos sob a bandeira de Cristo. Para tanto, apoiou entusiasticamente qualquer iniciativa apologética que conduzisse àquele objetivo. Vestindo a cena de uma sagrada missão, o clero dos inícios da Idade Média transformou em apóstolos os integrantes dos incipientes grupos que perambulavam ao redor dos primeiros templos católicos. Provavelmente, os espetáculos profanos não perderam sua força, mas devem ter sido confinado ao interior dos feudos, mais precisamente dentro dos castelos senhoriais. De qualquer forma, a documentação é bastante exígua. Enquanto a igreja adquiria o monopólio da educação, ao qual se deve a grande influencia que exerceu na sociedade da Europa Ocidental, cantores e comediantes passaram a se movimentar nos mesmos círculos, tornando-se indistintos. Surgiu assim a figura do menestrel, misto de cantor da corte da primitiva Idade Média e o do antigo jogral dos tempos clássicos. Dotado de impressionante versatilidade, o menestrel ocupou o lugar do poeta culto, especializado na balada heroica. Mas não assumiu apenas a função de poeta e cantor. Era a um só tempo músico, dançarino, dramaturgo, ator, palhaço e acrobata, executando divertimentos de todos os gêneros, desde as canções de baile às histórias de fadas e lendas dos santos. O menestrel tentava o sensacional, as grandes tiradas, a poesia viva. Ele também sofreu a hostilidade do clero, diante do qual sucumbiram os cantores da corte nos séculos VIII e IX. Assim, a partir dessa época multiplicaram-se os artistas errantes e vagabundos, que se viam obrigados a procurar seu público pelas estradas e feiras. No período sem moeda e sem comércio da primitiva Idade Média, em que a propriedade agrária era a única fonte de rendimento, a cultura tornou-se patrimônio exclusivo da igreja. Aos camponeses convocados para festejar as datas católicas, eram didaticamente apresentadas as chamadas moralidades, em que abstrações como a gula e a luxuria, consideradas pecados capitais, surgiam na forma de terríveis demônios. Esse apavorante teatro, a serviço de ideias religiosas, continha ao mesmo tempo rústicos traços de tragédia, comédia e farsa. O programa cultural da igreja atingiu completamente seu objetivo nos fins do séc. X, sob a influencia do movimento surgido na França, na Abadia de Cluny. Com a aproximação do ano 1000 passou-se a pregar o fim do mundo, o julgamento final e o terror da morte. Os homens viviam em estado de constante excitação religiosa, com peregrinações, cruzadas e excomunhões de imperadores e reis. [...] Veja mais aqui e aqui.
 HISTÓRIA TRÁGICA COM FINAL FELIZ – O curta metragem de animação português História trágica com final feliz (2005), da cineasta portuguesa Regina Pessoa, é a segunda parte da trilogia sobre curtas de animação da diretora sobre infância, após A Noite (1999) e Kali, o pequeno vampiro. Esse filme recebeu inúmeros prêmios, realizado a partir de ideias de gravuras e serigrafias, contando a história de uma menina que se isola diante de uma sociedade intolerante. Trata-se de um belíssimo curta sobre respeito às diferenças, imperdível. Veja mais aqui.

MESA DE CANTOS, POESIA & VIDEOMANIA - A professora e blogueira Flavia Daher edita vários blogs, entre eles Mesa de Cantos, FlaviaPoesia e Videomania, entre outros, todos voltados para reunião de textos, poemas, vídeos, músicas e entretenimentos em geral. Na entrada dos blogs encontrei essa mensagem, na qual meritória de destaque, ela expressa suas ideias: A vida é curta, quebre regras, perdoe rapidamente, beije lentamente, ame de verdade, ria descontroladamente, e nunca pare de sorrir, por mais estranho que seja o motivo. E lembre-se que não há prazer sem riscos. A vida pode não ser a festa que esperávamos, mas uma vez que estamos aqui, temos que comemorar!!! Aplausos, vale a pena conferir. E como se trata de uma pessoa para lá de simpática, competente, presente a todo momento e duma generosidade ímpar, nada melhor que aproveitar para saudá-la desejando tudo de bom e do melhor pra ela! Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor ítalo-brasileiro Victor Brecheret (1894-1955).
Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à poeta, compositora, produtora musical e audiovisual, Ana Terra. Veja aqui e aqui.
 

domingo, julho 06, 2014

INGER-MARI AIKIO, ERMA BOMBECK, JOANNA RUSS, POE & FRIDA KAHLO

 

SOMOS TODOS LOUCOS, MABEL... - Estamos deslocados no meio dessa desprezível normose, atolados na lama da sobrevivência, carregados desconfortavelmente pela desgraça das horas. Que seja doidona a pular num pé só diante pelas adversidades, que seja lunática porque o que resta é sair pela noite e encher as ruas de pernas e à primeira porta aberta, o consolo do copo às tragadas, os drinques e o barato ao canto em busca de emoção bêbada. Ninguém nos dá as horas, relógios egoístas fogem assustados de quem só tem os filhos e nada mais. O que é o trabalho senão o castigo de sobreviver, o que é dentro de casa quando ser feliz é uma coisa muito estranha, apesar das tentativas insistentes, não conseguimos ser felizes e isso torna a nossa vida uma bagunça. Na noite perdida a tropa chega sem aviso pendurados pela irônica ópera. A casa com suas repartições angulares exultam fantasmaas líricos nas vozes trágicas e todos se envolvem La Boheme, como se estivéssemos na mansarda em pleno natal parisiense, a posteridade não valendo a pena salvar obras ao frio. Quem não penhorou os livros e o aluguel atrasado na cobrança, com uma jovem pálida e bela, a chave e a vela apagada às mãos, desmaiando na poltrona. É a poesia e o verdadeiro amor que morre nos braços do poeta e todos se engraçam na cena, aos aplausos. Aída e o desconforto do reprimível desagradável, os desencontros à mesa, os convidados, situações desagradáveis. A gente quer contar a nossa história na rua, ninguém se interessa, não há interlocução. Todo médico é um vampiro e a morte do cisne no quintal. Ao redor da mesa todos olham pra nós. A gente não se encaixa na conversa normal. A piada ofende, ninguém sabe mais brincar. Resta falar sozinha com seus tiques nervosos assustando e o colapso a deteriora ao pânico. É a calmaria e a tempestade, ninguém sabe como, imprevisível e desregrada, e se guarda descompensada com toda frustração, sandices, encurralada até o limite. A mãe não durará para sempre, quem não sabe. Melhor brincar de dançar o Lago dos Cisnes e as fantasias se esvaindo com a família até que a morte os separe no meio da conspiração entre o que seria amor, amizade, conforto... cinco e nada, apenas os dedos e o reencontro é difícil, nunca se sabe o que fazer com as saudades, ninguém apoiará, ninguém saberá o que queremos. Não saberíamos jamais, ao certo, do que seríamos capazes na nossa solidão claustrofóbica. O sorriso disfarça o ódio e a fala é a raiz do desentendimento, o que há de normal na nossa estranheza. O amor não tem explicação: ninguém nem nós mesmos nos entendemos, somos exíguos na nossa distância e nos perdemos com aproximação. E que seja você mesma, somos todos loucos. Veja mais abaixo, aqui e aqui.

 

DITOS & DESDITOS - Morrer em uma Terra agonizante – eu viveria, nem que fosse para chorar. A arte minoritária, a arte vernácula, é arte marginal. Somente nas margens ocorre o crescimento. Pensamento da escritora e ativista estadunidense Joanna Russ (1937-2011). Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Tornei-me insano, com longos intervalos de uma horrível sanidade. Pensamento do escritor estadunidense Edgar Allan Poe (1809-1840). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 

IMAGINAÇÃO POÉTICA & INSANIDADE – [...] Há uma estrutura da vida psíquica que é tão claramente reconhecível como aquela do corpo físico. A vida sempre consiste na interação de um corpo vivo com um mundo exterior que constitui o seu meio. Sensações, percepções e pensamentos têm origem no jogo constante de estímulos externos. Procedem também mudanças no estado afetivo à base de um sentimento geral. Os sentimentos evocam volições e conflitos de desejo e vontade. Volições resultam em ações externas da vontade, entre elas as mais poderosas são aquelas que são contidas em estados corporais- tais como o impulso da autoconservação, a necessidade de alimento, o impulso da reprodução e o amor à prole. Quase tão poderosos são a necessidade de estima e os instintos sociais, que estão contidos na vontade. Outras volições produzem mudanças internas na consciência. A hierarquia do reino animal está baseada nessa estrutura.  [...]. Trechos da aula Imaginação poética e insanidade (1886), do filósofo alemão Wilhelm Dilthey (1833-1911), autor de obras como A poética (1887), A construção do mundo histórico nas ciências do espírito (1910) e Os tipos de concepções do mundo a sua formação nos sistemas metafísicos (1911). Veja mais aqui.

 

FAMILIA – [...] Dos pouco menos de um milhão de elegíveis que circulam por aí, 5% não conhecem o seu sinal e nem sequer se importam. Outros 5% estão ligados às suas mães por uma fixação alimentar. Isso deixa apenas 20% que estão à procura de uma garota que pegue suas roupas, prepare seus banhos, queime os dedos descascando seus ovos de três minutos, faça suas tarefas, dê à luz um filho todos os anos, pareça uma modelo, cuide as suas necessidades quando estão doentes e mantêm um emprego a tempo inteiro fora de casa para pagar o seu barco. [...]. Trecho extraído da obra Family - The Ties That Bind...And Gag! (Fawcett, 1988), da escritora e humorista estadunidense Erma Bombeck (1927-1996), que também expressa: Quando eu estiver diante de Deus no final da minha vida, espero não ter mais nenhum talento sobrando e poder dizer: Usei tudo o que você me deu. Veja mais aqui.

 

DOIS POEMAS - QUEIMANDO - pela manhã eu te desejo \ mas os convidados ainda não chegaram \ você tem que aspirar lavar o chão \ eu me ajoelho o esfregão na mão \ você viria atrás \ Eu preparo a massa para o pão na mesa da cozinha \ você veio aqui também antes de dispersar a farinha \ você e o seu sempre em mente. CENTENAS - e se todos os meus homens estavam se reunindo \ ao meu redor ao mesmo tempo, \ os mortos também, jovem pela manhã, à noite, \ assim como eles são ou seria se eles vivessem \ o que eles diriam ou fariam? \ o que eu faria? \ quem iria me querer? \ quem eu faria? \ e os que eu dormi na minha solidão ou meu tesão? \ aqueles que eu realmente amei? \ as sementes dos sentimentos, \ dos homens nublado cem vezes misturado cem vezes, \ cem que deixaram cair seus chifres. Poema da escritora finlandesa Inger-Mari Aikio.

 


UMA MULHER SOB INFLUÊNCIA – O filme A Woman Under the Influence (Uma Mulher sob Influência, 1974), escrito e dirigido pelo cineasta e ator estadunidense John Cassavetes (1929-1989), estrelado por Gena Rowlands e Peter Falk, conta a história de um casal composto por uma dona-de-casa de classe média baixa estadunidense, mãe de três filhos e casada com um trabalhador braçal. Ela apresenta-se fragilizada mental e emocionalmente, demonstrando sinais de descontrole, o que a levará a ser internada num hospício pelo marido. Este casal se configura com o comportamento de um lunático pacífico que se torna histérico e violento, e uma mulher depressiva, ansiosa, bipolar e com diversos tiques nervosos. Veja mais aqui e aqui.

 

OUTRAS DIC’ARTES MAIS

 

Imagem: foto de Frida Kahlo (1932), por Guillermo Kahlo (1871-1941).

FRIDA KAHLO – A pintora mexicana Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón (1907-1954), foi vitimada pela poliomielite aos seis anos de idade e sofreu de uma série de doenças, acidentes, lesões e operações ao longo de toda sua vida, sendo, por isso apelidada de Frida perna de pau, o que a fez se vestir de calças compridas e saias longas (a imagem acima A coluna partida, é uma das suas pinturas sobre seus acidentes). Começou a pintar logo cedo e depois de um grave acidente, passou a compor suas obras. Em 1928 filiou-se ao Partido Comunista mexicano, ocasião em que conheceu o grande amor da sua vida: o muralista Diego Rivera. A partir de então, passou a procurar na sua arte a afirmação da identidade nacional mexicana, utilizando-se de temas folclóricos e da arte popular. Sua vida atribulada e cheia de incidentes que envolviam tumultos conjugais, bissexualidade, casos amorosos, tentativas de suicídio. Ao ser encontrada morta, um bilhete continha as seguintes palavras: “Espero que minha partida seja feliz, e espero nunca mais regressar - Frida". Sua tumultuada existência foi transportada para o cinema em 1986, pelas mãos do diretor Paul Leduc com o filme Frida Kahlo, naturaleza viva. Em 2002, o diretor Julie Taymor encenou Frida. Veja mais aqui e aqui.


Curtindo a Sinfonia em sol menor (1893), do compositor e regente brasileiro Alberto Nepomuceno (1864-1920), pela Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, regida por Benito Juarez.

ALBERTO NEPOMUCENO – O compositor, pianista, organista e regente brasileiro Alberto Nepomuceno (1864-1920), é considerado o pai do nacionalismo da música erudita brasileira, autor de óperas, obras pianísticas e orquestrais, música de câmara, orquestral e vocal, bem como música sacra, tornando-se parceiro de Machado de Assis, Coelho Neto e Olavo Bilac, entre outros.  Experimentou a politonalidade interessado pela literatura brasileira e valorização da língua nacional. Dele escreveu o poeta Olavo Bilac: “Tens uma fibra de artista e admirável / E tens do nosso povo o voto eterno / Que o título de artista e de notável / Não nasce dos favores do governo”. Veja mais aqui.


LUCIAH LOPEZ - A campanha Todo dia é dia da mulher homenageia no dia de hoje a escritora Luciah López pela passagem do seu aniversário. Por isso, desejamos nossos parabéns para a poetamiga Luciah López. Confira a nossa homenagem aqui.


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O cis, o efêmero & eu aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
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NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...