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quinta-feira, julho 27, 2023

SILVINA OCAMPO, VIOLA DAVIS, FRÉDÉRIC GROS, LEONARDO DA VINCI & ARTE VISUAL NA ESCOLA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns I Just Want To Sing (Hard Bop, 1995), Sophisticated (Hard Bop, 1991), I Walk Along (Hard Bop, 1989) e do DVD Dorothy Donegan: Pandemonium (Arkadia, 2008), da pianista estadunidense Dorothy Donegan (1922-1998).

 

UM SOLILÓQUIO A MAIS VEZOUTRA – Mãos e pernas trocadas levei a vida: cuspe na cara que só. As graças femininas e a ranzizice dos marmanjos davam o tom da coisa: leve a sério ou se estrepe! Da primeira, já era (nunca!); na segunda, me lasquei: caí no território de Têmis e fui capturado por ela. A sua balança inexorável foi muito severa comigo, o que não reclamo. Afinal, se ela mantinha a firmeza e não me perdoava, pelo menos me guardou em sua cama a me ensinar desnuda os segredos da vida embaixo dos lençóis. Foi ela, inclusive, quem me disse de Ludvík Vaculík. A liberdade só existe onde não é invocada... Nem prestei a atenção direito porque, logo após, chutou-me a bunda: Agora volta pra vida e aprenda. Eita! Não foi fácil, nem poderia: na vida tudo é imprevisível, haja paradoxo. E eu que nunca tive certeza de nada, simplesmente singrava as aporias pelos devires. Não fosse a viúva Tereza de Benguela se achegar ao meu claustro, não saberia eu: domínio só serve para si, auto. Revelações surgem de lá e além. Mil maneiras de cantar o silêncio. Facúndia é coisa pra enrolão. Sol brilha em todas as direções. Há sempre outros caminhos e lá se vão os anos e os anéis, quase os dedos. Sílaba não é só assoletrar, tem de sentir. Ora, para quem uma biografia sujeita ao sujeirômetro: o culpado no espelho, assustei meus muitos fantasmas e não sei se me tornei melhor ou pior depois disso. Descalço pela espessura das pegadas e ciladas bumerangues faço o melhor que posso. Sou reles feliz vagalume, beiro a quase nada: pego um sorriso e vou adiante. Até mais ver.

 

DITOS & DESDITOS

Imagem: Acervo ArtLAM.

A arte diz o indizível; exprime o inexprimível, traduz o intraduzível. A pintura é a poesia que é mais vista do que sentida, e a poesia é a pintura que é mais sentida do que vista. Um pintor deve começar cada tela com uma camada de preto, porque todas as coisas na natureza são escuras, exceto quando expostas à luz. O pintor tem o Universo na mente e nas mãos. A lei suprema da arte é a representação do belo. Tudo o que é belo morre no homem, mas não na arte. O objetivo mais alto do artista consiste em exprimir na fisionomia e nos movimentos do corpo as paixões da alma.

Pensamento do polímata italiano Leonardo di Ser Piero da Vinci (1452-1519), mais conhecido como Leonardo da Vinci. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 

DESENHO, PINTURA, ARTE VISUAL – Sempre apreciei artes plásticas e tive desde tenra idade muitas predileções pelas obras de muitos pintores. Nunca me vi desenhando nem pintando, mas depois de sessentão e sob a solidão da pandemia, não deu outra. Confesso, ao longo da minha vida cometi umas e outras sapecadas de tintas em tela e feito algumas colagens, nada que se salvasse. Já bulia com música, teatro e literatura, sempre inquieto inventei de fazer umas colagens e percebi minha limitação. Foi então que participei durante a pandemia de um curso de desenho e pintura no IbaValeUna. Aí me surpreendi com a possibilidade de desenhar e pintar, graças os incentivos e ensinamentos iniciais dos amigos Paulo Profeta e José Durán y Durán. Parti então para um curso de Artes Visuais, ministrado por professores da USP/MAC, ocasião em que fui mais ainda tentado a cometer meus garranchos agora visuais. Foi um longo e aprazível curso. Depois outro curso na mesma área pela Fundação Stickel (RJ) e não parei mais. Exemplo disso: nas ilustrações daqui do blog do Acervo ArtLAM. Se já levava a música, o teatro e a literatura para a área da educação, acrescentei mais essa. E fui levado inicialmente pela leitura da obra Fundamentos estéticos da educação (Papirus, 2002), do professor João Francisco Duarte Júnior que me ensinou: [...] A arte está com o homem desde que este existe no mundo ela foi tudo o que restou das culturas pré-históricas. Apenas a constatação deste fato elementar a universalidade e permanência do impulso estético já é razão suficiente para que se reconheça a importância da arte na constituição do humano. [...]. Foi dessa que fui pra outra leitura do estudo sobre Artes visuais (Artes II-MG, 2008), da professora Maria Eugênia Albinati: Uma obra de arte não é a representação de uma coisa, mas a representação da relação do artista com aquela coisa. [...]. Quanto mais se avança na arte, mais se conhece e demonstra autoconfiança, independência, comunicação e adaptação social. [...]. Desse estudo fui pra obra Para gostar de aprender arte: sala de formação de professores (Artmed, 2003), da professora Rosa Iavelberg que me esclareceu: [...] A arte promove o desenvolvimento de competências, habilidades e conhecimentos necessários a diversas áreas de estudos; entretanto, não é isso que justifica sua inserção no currículo escolar, mas seu valor intrínseco como construção humana, como patrimônio comum a ser apropriado por todos. [...].

 

ARTES VISUAIS NA EDUCAÇÃO – Foi, então, que resolvi me aprofundar do tema e partir para a leitura da obra A imagem no ensino da arte (Perspectiva, 1994), da professora Ana Mae Barbosa que sempre defendeu que: [...] Temos que alfabetizar para a leitura da imagem. Através da leitura das obras de artes plásticas, estaremos preparando a criança para a decodificação da gramática visual, da imagem fixa e móvel, através da leitura do cinema e da televisão, a prepararemos para aprender a gramática da imagem em movimento. Essa decodificação precisa ser associada ao julgamento da qualidade do que está sendo visto aqui e em relação ao passado. [...]. Dos seus ensinamentos fui a obra Sintaxe da linguagem visual (Martins Fontes, 1997), de Donis Dondis, ensinando que: [...] Ao aprender a ler e a escrever, começamos sempre pelo nível elementar e básico, decorando o alfabeto. Esse método tem uma abordagem correspondente no ensino do alfabetismo visual. Cada uma das unidades mais simples da informação visual, os elementos, deve ser explorada e aprendida sob todos os pontos de vista de suas qualidades e de seu caráter e potencial expressivo. [...] Os educadores devem corresponder às expectativas de todos aqueles que precisam aumentar sua competência em termos de alfabetismo visual. Eles próprios precisam compreender que a expressão visual não é nem um passatempo, nem uma forma esotérica e mística de magia. Haveria então, uma excelente oportunidade de introduzir um programa de estudos que considerasse instruídas as pessoas que não apenas dominassem a linguagem verbal, mas também a linguagem visual. [...]. Foi daí que tive acesso ao livro Arte na educação escolar (Ibpex, 2008), de Bernadete Zagonel: [...] apesar de o ensino de Arte ser parte obrigatória do currículo, não há interesse, por parte de muitas escolas e de seus diretores, em que esse ensino se faça com qualidade e seriedade [...] No entanto, alguns princípios devem nortear o ensino de Arte no mundo contemporâneo, que vão desde a postura do professor até os conteúdos por ele selecionados, devendo-se considerar, de todo modo, aquilo que se espera que os alunos desenvolvam [...] despertar o indivíduo para a experiência estética e sensibilizá-lo para as artes é mais importante do que lhe transmitir informações teóricas a respeito delas [...] O que podemos esperar, sim, e almejar, é um professor sensível e disposto a enfrentar desafios. Um professor apaixonado pelo que faz, pelos seus alunos e pela arte. Um professor disposto a buscar sempre novos caminhos, disposto a interagir, disposto a aprender. [...]. Noutra obra Inquietações e Mudanças no Ensino da Arte (Cortez, 2003), a professora Ana Mae Barbosa arrematou: [...] Somente a ação inteligente e empática do professor pode tornar a Arte ingrediente essencial para favorecer o crescimento individual e o comportamento de cidadão como fruidor de cultura e conhecedor da construção de sua própria nação [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

SEU NOME - Ninguém pode pronunciar seu nome. \ Só eu conheço a inflexão perfeita. \ Falta-lhes a ternura em que flui \ e a doçura nas consoantes. \ Eles não sabem distinguir a cor \ da nota musical exata. \ É por isso que a cada dia respondo \ inventando um nome: \ azul, pássaro, brisa, luz. \ Palavras comuns \ que podem ser ditas simplesmente \ mesmo sem te conhecer, sem te amar.

EM TODAS AS DIREÇÕES - Vamos deixando-nos em todas as direções, \ nas camas, nos quartos, nos campos, nos mares, nas cidades, \ e cada um desses fragmentos \ que deixou de ser nós, continua sendo \ como sempre nós, tornando-nos \ ciumentos e hostis. \ "O que isso fará que eu gostaria de fazer?" \ nós pensamos. "Quem verá que eu gostaria de ver?" \ Muitas vezes recebemos notícias casuais \ dessa criatura... \ Entramos em seus sonhos \ quando ele sonha conosco, \ amando-o \ como aqueles a quem mais amamos; \ batemos às suas portas \ com as mãos ardentes, \ pensamos que voltará na ilusão de nos pertencer \ equivocados como antes\ mas continuará sendo traiçoeiro e inalcançável. \ Tal como acontece com nossos rivais, nós o mataríamos. Só o poderemos \ vislumbrar em fotografias. Deve sobreviver a nós.

Poemas da escritora argentina Silvina Ocampo (1903-1994). Veja mais aqui.

 

ENCONTRANDO-ME - [...] Minha maior descoberta foi que você pode literalmente recriar sua vida. Você pode redefini-lo. Você não precisa viver no passado. Eu descobri que não só tinha luta em mim, eu tinha amor [...] As memórias são imortais. Eles são imortais e precisos. Eles têm o poder de lhe dar alegria e perspectiva em tempos difíceis. Ou, eles podem estrangulá-lo. Defina você de uma maneira que se baseie mais nas percepções exageradas de outras pessoas do que na verdade. [...] Perdoar é abrir mão de toda esperança de um passado diferente. Eles dizem que a terapia bem-sucedida é quando você tem a grande descoberta de que seus pais fizeram o melhor que puderam com o que receberam. [...] Agora entendo que a vida, e vivê-la, é mais sobre estar presente. Agora estou ciente de que as memórias não tão felizes estão à espreita; mas a esperança e a alegria também estão à espreita. [...] Eu sabia que minha vida seria uma luta e percebi isso: eu tinha isso em mim [...]. Trechos extraídos da obra Finding Me: An Oprah's Book Club Pick (HarperOne, 2022), da premiada atriz e produtora estadunidense Viola Davis.

 

DESOBEDECER – [...] A democracia é algo muito diferente de uma forma institucional caracterizada por “boas” práticas ou procedimentos, inspirada pela defesa das liberdades, a aceitação da pluralidade, o respeito pelas disposições majoritárias. Mesmo se ela deve ser isso, a democracia designa também uma tensão ética no íntimo de cada pessoa, a exigência de reinterrogar a política, a ação pública, o curso do mundo a partir de um si político que contém um princípio de justiça universal e, sobretudo, não é a simples “imagem pública” de si, em oposição ao eu interno. É preciso parar de confundir o público e o exterior. O si público é nossa intimidade política. É, em nós, poder de juízo, capacidade de pensar, faculdade crítica. É com base nesse ponto em nós que nasce a recusa das evidências consensuais, dos conformismos sociais, das ideias pré-fabricadas. Esse recurso ao si político, no entanto, será inútil, improdutivo, se não for sustentado por um coletivo, se não se articular sobre uma ação de conjunto, decidida em comum acordo, portadora de um projeto de futuro. Mas, sem ele, os movimentos de desobediência correm o risco constante de instrumentalização, de aliciamento, de sufocamento sob as palavras de ordem e a mudança dos chefes. Esse movimento por meio do qual o sujeito político se descobre em estado de desobedecer é o que chamaremos de “dissidência cívica”. A insurreição não se decide. Apodera-se de um coletivo, quando a capacidade de desobedecer juntos volta a ser sensível, contagiosa, quando a experiência do intolerável se adensa até se tornar uma evidência social. Supõe a experiência prévia compartilhada – mas que ninguém se pode dispensar de viver em, por e para si mesmo – de uma dissidência cívica e de seu apelo. Desde Sócrates (“Cuida de ti mesmo!”) e desde Kant (“Ouse saber!”), ela é também o regime filosófico do pensamento, sua interioridade intempestiva. Numa época em que as decisões dos “especialistas” se orgulham de ser o resultado de estatísticas anônimas e insensíveis, desobedecer é uma declaração de humanidade. [...]. Trecho extraído da obra Desobedecer (Ubu, 2018), do filósofo francês Frédéric Gros. Veja mais aqui.

 

ARTISTAS DE PERNAMBUCO

[...] Desse esforço uma parte – talvez o melhor – não transparece aqui: o de vencer barreiras insuperáveis, a primeira das quais o tempo. Eu preferiria trabalhar no tempo de reinado – pelo menos como a gente imagina – com o prazo da vida toda para fazer o serviço [...].

Trecho do posfácio da obra Artistas de Pernambuco (Recife, 1982) escrito, organizado e prefaciado pelo pintor, desenhista, gravador, escultor, crítico de arte e escritor José Cláudio. Veja mais aqui e aqui.

 


domingo, agosto 18, 2013

TERESA DE BENGUELA, ALHATHLOUL, OCAMPO, VAZHA-PSHAVELA, VACULÍK & UTOPIA DE MORE

 

TEREZA DE BENGUELA, A RAÍNHA QUARITERÊ – A viúva d’África encheu meus olhos enquanto subia a Serra dos Parecis. Eu a vi no Quariterê, divisa do Mato Grosso com a Bolívia, no Quilombo do Piolho. Ao resistir à escravidão na colheita do algodão, milho, feijão, mandioca e banana, tornou-se rainha fugitiva, passava nos barcos imponentes pelo rio Guaporé e outras águas do pantanal, fugia de Vila Bela e às investidas do exército na busca por escravos fujões. Reinou sobre o quilombo, negros e índios, meu coração com todos. Ela foi capturada por bandeirantes a mando da capitania. Ela foi exposta a uma prisão pública, privações e humilhações. Ela não se suicidou depois, mesmo sob o chicote e o genocídio, a violência e o silêncio. Ela não se calou. Ela foi assassinada e sua cabeça exposta como prêmio. O quilombo varrido não aplacou o sangue de resistência contra a escravidão. Meu coração se foi com ela, prantos quilombola para Teresa de Benguela, Rainha Guariterê (1700-1770).

 


DITOS & DESDITOS - Cada nação faz seu próprio fogo e come sua própria comida, e quer beneficiar os outros tanto quanto é útil para si mesma... A tirania, por melhor que seja, destrói o esforço e a autoconsciência da nação... Não, eles se autodenominam "intelligentsia". Agora você pensa, adivinhou que opinião essa intelectualidade desenvolverá sobre seu país? Que estrada você vai escolher? Não podemos pedir-lhes um programa em ação, algo de acordo com as necessidades da nossa vida, não podemos pedir-lhes uma opinião, uma ideia que seja realmente útil e útil para o nosso país. Pensamento do escritor georgiano Vazha-Pshavela (Luka Razikashvili - 1861-1915).

 

ALGUÉM FALOU: Estou com a revolta das mulheres no mundo árabe porque posso pensar e praticar plenamente minha religião (como os homens). Além disso, estou em dívida com minha filha para oferecer a ela uma vida honrada. Rezo sinceramente pelo meu país e por todos os seus cidadãos, mesmo aqueles que fizeram muito esforço para assediar minha família e eu. Pensamento da ativista saudita Loujain Alhathloul. Veja mais aqui.

 

O MACHADO – [...] No funeral, o significado de todos os funerais me foi revelado: eles são a preparação para a própria morte. O funcionário me perguntou se quatro horas da tarde seria conveniente. Eu disse que sim. "É uma boa hora", o balconista me assegurou. Era. [...] Uma fanática psicose de desprezo tomou conta de nós e a ela sucumbimos de bom grado. Nela eu reconheci o real, meu sentimento genuíno sobre esses festivais de trupes internacionais de idiotas castrados e vacas conformistas rarefeitas. [...]. Trechos extraídos da obra The Axe (Northwestern University Press, 1994), do escritor e jornalista tcheco Ludvík Vaculík (1926-2015).

 

DOIS POEMASDIÁLOGO - Falei com você sobre o vaso de porcelana azul, \ sobre um livro que me deram, \ sobre as ilhas Nippon, sobre um homem enforcado, \ falei com você, sei lá, sobre qualquer coisa. \ Você me contou sobre o capim dos pampas com penas, \ sobre uma cidade onde não havia mais gente, \ sobre as estradas atravessadas por uma ponte, \ sobre a crueldade daqueles que matam onças-pardas. \ Ele te contou sobre uma longa cavalgada, \ sobre banhos de mar, sobre as alturas, \ sobre uma flor, sobre algumas escrituras, \ sobre um olho em lata ex-voto.\ Falaste-me de uma fábrica de espelhos, \ das ruas mais íntimas de Almagro, \ de mortes, da morte de Meleagro. \ Não sei por que fomos tão longe.\ Temíamos cair violentamente \no silêncio como num abismo \ e nos olhávamos laconicamente \ como guerreiros armados frente a frente. \ E enquanto \ continuavam os catálogos de longas e toscas enumerações, \ falávamos com muitas perfeições, \ não sei que diálogos travessos e simultâneos. EM SEU JARDIM SECRETO EXISTEM MERCENÁRIOS - Em teu jardim secreto há \ doçuras mercenárias, proclamações ávidas, \ crueldades com corações sutis, \ há ladrões, sereias lendárias.\ Há benefícios em seu ar, \ perfeições arcanas solitárias se multiplicam. \ Eles mergulham em becos estreitos, \ suas árvores com galhos arbitrários.\ Às vezes ouvia o rangido frio \ de um portão que, ao ser fechado, me deixava \ prisioneiro, perdido, sempre escravo.\ da tua felicidade que junto a um rio \ desceu entre as frondes até um abismo \ de luz intermitente, com o teu exorcismo. Poemas da escritora argentina Silvina Ocampo (1903-1994). Veja mais aqui e aqui.

 


A UTOPIA DE THOMAS MORE - Thomas More (ou Thomas Morus, 1478- 1535) foi mártir, patrono dos advogados, Lorde Chanceler da Inglaterra, escritor e filósofo, pensador humanista de origem inglesa e representante das ideologias humanistas renascentistas do século XVI. Por ter pedido demissão do cargo ao rei, defendido Ana Bolena, uma das esposas de Henrique VII, em 1533, se recusado a assistir a coroação do rei e não prestando fidelidade aos seus descendentes, foi condenado a prisão perpétua e, posteriormente, condenado à morte por crime de alta traição. Foi, por isso, decapitado em 1535. Ao longo dos cinco séculos da obra, muitos sonhos com ideal utópico de um mundo justo e igualitário foram alimentados por esse escrito, comungados com o ideal da terra prometida bíblica, eldorado, Canaã, éden terrestre.


A UTOPIA - Obra escrita em 1516, conta o encontro do autor numa praça frente à catedral, na Antuérpia, com seu amigo Pedro Gil que presenciam os relatos da viagem do personagem Rafael Hitlodeu, viajante da expedição de Américo Vespúcio ao continente hoje americano, apresentando uma ilha imaginária onde todos conviviam em harmonia e em favor do bem comum, com liberdade religiosa. Há que se entender que a palavra Utopia é deriva do grego ouk com sentido de negação e topos que traduz a ideia de lugar. Adquire, pois, a palavra sentido de quimera, imaginário, sonho inalcançável. Entretanto, para o autor que antagonizava com o feudalismo da época, a sociedade ideal é aquela apresentada por Platão, em A República, e nos ideais de Tomás de Aquino, realizando com sua obra uma critica social, religiosa e política da Inglaterra de Henrique VIII e o seu Anglicanismo, num ataque amargo à sociedade do Renascimento cristão europeu.

Na primeira parte do livro, o autor descreve os problemas sociais da Europa, dividida pelo egoísmo e ambição de poder e riqueza. Narra que na Utopia, as leis são pouco numerosas; a administração distribui indistintamente seus benefícios por todas as classes de cidadãos.

Na segunda parte do livro, dá-se a descrição física da ilha, e o acontecimento histórico sobre a conquista da terra por um sábio, o rei Utopus, que dá origem ao sistema perfeito. Descreve a sociedade perfeita baseada na inexistência da propriedade privada e na colocação das necessidades coletivas acima dos interesses individuais, dividida por cidadãos livres e escravos que são os prisioneiros de guerra ou criminosos condenados, hierarquia social definida pela idade, mulheres com igualdade de direitos e a força produtiva baseada no trabalho do cidadão livre.

Na parte Das Cidades da Utopia e Particularmente de Amaurota,, narrando que todas as cidades são praticamente iguais, então aqui será descrita somente a capital. Amaurota fica às margens do rio Anidra e de outro pequeno rio que abastece a cidade através de uma rede de canos de barro e cisternas. A cidade é cercada por muralha e fossos. As ruas e praças são largas e espaçosas, as casas são de posse comum e seus habitantes se mudam a cada dez anos.
Na parte Dos Magistrado, ele trata acerca dos filarcas e da protofilarca que escolhem um príncipe que será vitalício, mas o príncipe pode ser deposto a qualquer momento que se suspeite de tirania.
Na parte denominada de Artes e Oficios, continua o autor tratando acerca da agricultura, vestuário, a divisão do tempo entre o trabalho e o estudo.
Na parte Das relações mútuas entre os cidadãos, o autor narra da composição das famílias, a autoridade familiar, os quatro hospitais com ótimo atendimento, isolamento e estoque de remédios e dos escravos que são encarregados dos trabalhos mais penosos.
Apresenta na parte Viagem dos Utopianos o comércio e a riqueza do lugar, as.crenças espirituais dos utopianos e seu interesse por leituras.
A parte dedicada aos Escravos, informa que todos os prisioneiros de guerra e os criminosos condenados são feitos escravos.
Na parte Da Guerra, tratando dos soldados, dos vizinhos zapoletas qie são bárbaros, ferozes e selvagens, e da criação dos rebanhos.
Já na parte Religiões da Utopia, descreve sobre meditação e silêncio nos templos, a existência de materialistas e a diversidade religiosa do lugar. Em oposição ao materialismo ateu, existe um sistema inteiramente diferente e como não é perigoso pode ser professado livremente. Eles acreditam que todos os seres vivos têm alma e elas são imortais como a do homem. A maioria dos utopianos acredita na vida após a morte. E por isso não temem morrer e chora-se pelos doentes e nunca pelos mortos. Apesar das diferentes crenças, todas são praticadas no mesmo templo. Sempre buscando a harmonia entre todas as religiões.


Eis alguns excertos capturados no livro:

[...] Há por toda parte caminho para chegar a Deus [...] os príncipes cuidam somente da guerra (arte que me é desconhecida e que não tenho nenhum desejo de conhecer). Eles desprezam  as artes benfazejas da paz. Trata-se de conquistar novos reinados, e todos os meios lhe parecem bom; o sagrado e o profano, o crime e o sangue, não os detêm. Em compensação, ocupam-se muito pouco de bem administrar os Estados submetidos à sua dominação [...] esses mandriões são uma sementeira inesgotável para o exercito. Com efeito, os ladrões não são os piores soldados, como os soldados não são os ladrões mais tímidos; há muita analogia entre esses dois ofícios. Infelizmente, esta praga social não é particular à Inglaterra; corrói quase todas as nações. [...] Dir-se-ia mesmo que fazem guerras para ensinar o exercício ao soldado a fim de que, como escreveu Salústio, nesse grande matadouro humano, o coração ou a mão não se lhes entorpeçam no repouso. [...] é perfeitamente inútil dar conselhos quando se tem a certeza de que serão repelidos, quer na forma, quer no fundo. Ora, os ministros políticos de hoje, estão impregnados de erros e preconceitos; [...] Há covardia ou má fé em calar as verdades que condenam a perversidade humana, sob o pretexto de que serão escarnecidas como novidades absurdas ou quimeras impraticáveis. [...] Em toda parte onde a propriedade for um bem individual, onde todas as coisas se medirem pelo dinheiro, não se poderá jamais organizar nem a justiça nem a prosperidade social, a menos que denomineis justa a sociedade em que o que há de melhor é a partilha dos piores, e que considereis perfeitamente feliz o Estado no qual a fortuna pública é a presa de um punhado de indivíduos insaciáveis de prazeres, enquanto a massa é devorada pela miséria.
[...]
Cada grupo de trinta famílias escolhe, todos os anos, um magistrado, chamado sifogrante, na antiga linguagem, e filarco, na moderna. Encabeçando os dez sifograntes e suas famílias vem aquele que denominavam antigamente denominado de traníbora, e que hoje chamam protofilarco. Os sifogrante – duzentos ao todo – depois de jurarem eleger o melhor, designam, por voto secreto, um príncipe escolhido entre quatro candidatos propostos pelo povo: cada quarta parte da cidade aponta um candidato e o recomenda ao senado. [...] Eis o que invencivelmente me persuade que o único meio de distribuir os bens com igualdade e justiça, e de fazer a felicidade do gênero humano, é a abolição da propriedade. Enquanto o direito de propriedade for o fundamento do edifício social, a classe mais numerosa e mais estimável não terá por quinhão senão miséria, tormentos e desesperos. [...] .esta massa imensa de gente ociosa parece-me inútil ao pais mesmo na hipótese de uma guerra [...] Eis o que invencivelmente me persuade que o único meio de distribuir os bens com igualdade e justiça, e de fazer a felicidade do gênero humano, é a abolição da propriedade. Enquanto o direito de propriedade for o fundamento do edifício social, a classe mais numerosa e mais estimável não terá por quinhão senão miséria, tormentos e desesperos. Veja mais aqui.

BIBLIOGRAFIA
COELHO,  Teixeira. O que é Utopia. São Paulo: Brasiliense, 1981.
FRANCO, Afonso Arinos et al. O Renascimento. Rio de Janeiro: Agir/Museu Nacional de Belas-Artes, 1978.
MORUS, Thomas – A Utopia. São Paulo: L&PM, 1997.


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