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segunda-feira, junho 08, 2026

ALI COBBY ECKERMANN, MAGGIE O'FARRELL, LORRAINE DASTON & ANITA PAES BARRETO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns The Road... (Shanachie Records, 2011), Soul Quest (Shanachie Records, 2013) e Journey to the Heart (Shanachie Records, 2016), da cantora, compositora e pianista japonesa Keiko Matsui.



 

A viúva do bestiário... - Estava correndo bicho! Sabiam, medrosos cochichos, temores ao pôr-do-sol. Às horas noturnas o agouro, coisas medonhas pela madrugada: partes com o coisa ruim, só sendo. Alívio, só ao amanhecer. Isso é lá coisa que se faça? E tome zunzunzum: quanto mais se tentava esclarecer, mais dúvida se valia. Vogava era espanto, eventos vários e sucessivos, viravam tudo de pernas pro ar. Como é que pode? Fechava a boca pra não topar malefício. Não visto, não sofrido, só pelo sabido: esperar sua vez. Desesperados, quem acudiria? Findava tudo aos risos e sustos, desordens às caçoadas, motejos: a coisa pelo logro, embustes de última hora. O tinhoso cercas rondava, pelas brenhas fechadas, capoeiras, brejos, chãs, o bafo da ameaça oculta, fugiam até os espíritos dos trechos de mata devastada, nada bulia nas trilhas na vegetação, estradas de barro, estalidos pelas benditas lonjuras, êpa, às caretas, o fôlego das ventas, segurando as fivelas, premiam a volta das arreatas, as astúcias na caixa dos peitos: Venha, não! Quem viu rastro de cobra? Destá. Do que disseram que era, nem sinal! Desaforo. Feitiço, trabalho de encruzilhada. Ora, se. No amiudado, o canavial quieto. Ih, pé adiante, só se sabia no outro dia de estraçalhadas vacas, carneiros, cabras, porcos, patos, galinhas - ferrava presa às traições, dente chupa sangue, suga tudo até o ar dos bofes, só estendido no oitão. Cadê sinal de sangue? Valei-me! – Mexeram na gadaria daqueles ricaços? Nada, só dos que juntavam poucos pra sobrevivência. Ara. Vigiavam. Faziam serão, penosa tocaia, as paredes do casebre, o bafejo ruidoso, foices, facas, a face da fera na miragem, olhela! Facões afiados, o pé-de-vento, corridas a cortar mato, pé atrás, queriam o couro do bicho, esfolá-lo! A fama. Remexia a sorte: Pra donde ela pendia? Aos arredores, espreitava-se; andavam de costas pelas próprias pegadas, tarde demais, media-se, calculava-se às funduras, fio-de-prumo, mira no alvo, o extraordinário, ventania e desenredo, cercados intactos: Isto é uma tiborna! Peça licença e não olhe pra trás, não responda chamado nem assobio! Isso não tem cabimento! Era coisa de dar medo, só pavor: Os olhos em brasas vermelhas da Medusa, as feições horríveis, feiosas, o despovoado, as cascas destroçadas, sacudidas vantagens nas lonjuras, suspeitas, celeumas, triunfar embaraçoso, receios pueris. Frescura, cara! Tudo nos conformes. O sapo coaxou, ou a borboleta voou, escorpiões arrastavam, a adivinhação: Vai fazer medo a outro! Uma anomalia que se deu fé em El Yunque, passou por Varginha, parece, e foi bater lá pras bandas de Craíbas, um teratismo sui generis. Isso é pinoia! Era não. Diziam do predador de pele cinza e fedor horrível, drenando a vida dos animais – sugavam o sangue até a última gota e o seu distintivo nas cauterizadas perfurações dentárias cravadas no pescoço ou nas axilas da vitimada, hemorragias internas, sem outras marcas além da mordida e o sangue não jorrava. Ué? Ora, era uma criatura bípede de quase um metro e meio de altura, olhos grandes arregalados, espinhos nas costas e longas garras, saído do fundo dos lagos ou pantanais, em terras distantes ou dos confins das florestas; ora, outros dizquês, era sem pelos por conta da sarna sarcóptica e locomovendo nas quatro patas, aparecia às janelas aterrorizadas, não era coiote, nem guaxinim, nem cachorro selvagem. Que droga que era? Dizem do vampírico Chupacabras. Hem? Nada, deve ser a Tarya do Caribe. Que é isso? Quem sabia! Uns mustelídeos, coisa de doninhas, visons e martas-pescadoras, que também bebem o sangue de presas grandes demais para serem carregadas. Nada, é lorota. Cogita-se oriundo de experiências científicas ultrassecretas malsucedidas pelos algozes colonizadores imperialistas – ah, isso mesmo: exagero da mídia, ansiedade cultural e histeria coletiva! Danou-se, doutor! São híbridos coydogs sarnentos. Quem já viu, de mesmo? Ninguém. Tó Zeca desconfiou da leseira e como era gente de peleja foi atrás da desgraça. Quero ver a cor dessa chita, ah, se vou! Coisas de grotas longes, ladeiras sem fim, de barro batido. Seguiu as pegadas no faro e tirocínio, o rastro escondido parecia brilhar na escuridão, adivinhava. Persistia no encalço. Logo a catinga foi crescendo, tomando vulto e, de repente, desvencilhou-se dum golpe repentino. Eita! Quase me pega desprevenido. De novo, outro golpe devastador. Aí: A-rá! Peguei-te, besta fera! Agarrou o tornozelo da maligna e sustentou-la de vê-se arrastado pelas pedras, matos, rios e mar, até o fim do mundo, quando bateu dela exaurir-se no cansaço de tanto espernear. Peguei-la. Solto não, desgraça! O monstro arfava, a poeira baixou. Encolheu-se, em decúbito ventral. Oxe! Aberração ardilosa, sabia: Quer me pegar na virada, né? Precauções, vigilante, teratologia em dia. Deixou-la quieta, nem ousou soltar o calcanhar dela: Tá doido? Um facho de luz e ali uma mulher nua, indefesa, quase desmaiada. Vôte! Ouviu-a: Sou Filínia de Anfípolis, a Noiva de Corinto do Goethe e da De Mirabilibus de Flégon de Trales. Vá, converse mais, não me ganha, não. Ela fugira do Livro das Bestas para ser prisioneira de Labatut, na Chapada do Apodi – aquele desalmado dos pés redondos, mãos compridas, cabelos longos e assanhados, o olho insone na testa, os dentes de elefante, o mais sanguinário general francês, mercenário cruel, abusava de mim, comia os filhos que paria e saía à caça em noites de ventos e lua cheia. Havia enfrentado todo tipo de acusação de bruxaria e incontáveis julgamentos e censuras, até o dia da fuga quando o amazônico peixe vampiro candiru – entrou-lhe pela uretra e sugou seu sangue, parasita hospedeiro incruado lá dentro dela. Era a primeira morte. Depois a lampreia – uma enguia dentada do mar e dos rios, convívio com morcegos, sanguessugas, artrópodes e insetos – mosquitos, pulgas, carrapatos, percevejos, monstros invisíveis que vieram da febre do Nilo Ocidental, a sua hematofagia. Deram-na pela fugitiva filha do Drácula de Stocker: Marya Zaleska. Mais disse-lhe da sabença dos mistérios no fundo das coisas, o que esconde e o que aquieta, ele só esperava o bote no intervalo, deduzia o estopim, o assombro, a culpa de quem, ao que ela mencionou ser ele da linhagem do grego Carpophorus, que se tornou o venador de Sêneca e abatia feras no Amphitheatrum Flavium. Acreditou? E ela prometeu para ele a vida eterna, desde que a poupasse e vivesse com ela. Como é? Mais precaveu-se: era Lâmia e quantas mais? E só dele o poder de desencantá-la, ciente do amor e seus mistérios. Até mais ver.

 

Gayle Forman: Não leve a vida muito a sério. Você nunca vai sair dela viva... É melhor manter a boca fechada e deixar que as pessoas pensem que você é um tolo do que abri-la e remover toda a dúvida... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Hélène Cixous: Pensar é tentar pensar o impensável: pensar o pensável não vale o esforço... Censurar o corpo é censurar a respiração e a fala ao mesmo tempo. Escreva sobre si mesmo. Seu corpo precisa ser ouvido... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Marie NDiaye: Quando eu era adolescente, esperava que a literatura, tanto a que eu lia quanto a que eu escrevia, me salvasse de uma vida comum, da monotonia do dia a dia com um emprego assalariado, ou de um casamento, etc. A vida real me deixava ansiosa. A literatura me permitiu transformar minha profunda inadaptação ao mundo em algo socialmente aceitável e até gratificante – porque, felizmente para mim, a aposta valeu a pena, e isso poderia muito bem não ter acontecido... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

UM SONHO - Eu vi-te dançar \ aquele verão \ antes da guerra \ seu rosto pintado \ orgulhosamente celebra \ suas habilidades de caça \ mulheres em sussurro de admiração \ atrás de suas mãos \ de sua força \ e bravura \ o cocar que você usa \ reflete seu lugar de direito \ de liderança \ e sabedoria \ Isto foi antes \ o homem branco veio \ e assassinou-te.

EU TE CONTO VERDADE - Eu não posso parar de beber \ Eu te digo verdade \ Desde que eu vi minha filha perecer \ Ela queimou até a morte dentro de um carro \ Perdi o que mais prezo \ Vi os anjos segurá-la \ Enquanto eu gritava com uma esperança inútil \ Eu não posso parar de beber Eu te digo verdade \ É a única maneira que eu lido! \ Eu não posso parar de beber \ Eu te digo verdade \ Desde que encontrei a minha irmã morta \ Ela se enforcou para impedir os estupros \ Encontrei-a no barracão \ Aquele cabrão de violador ainda vive aqui \ Impune nesta cidade \ Eu não posso parar de beber \ Eu te digo verdade \ Desde que a cortei \ Eu não posso parar de beber \ Eu te digo verdade \ Desde que a minha mãe faleceu \ Encontraram-na maltratada pelo riacho \ Sinto mais a falta dela a cada dia \ A minha família culpou-me pela morte dela \ Suas palavras me tornaram selvagem \ Eu não posso parar de beber \ Eu te digo verdade \ Porque eu era apenas uma criança \ Então, se você vê alguém como eu \ Quem está bêbado e alto e xingando \ Não julgue muito ‘porque você não sabe \ Que tristezas estamos amamentando.

Poemas da poeta Yankunytjatjara australiana Ali Cobby Eckermann. Ela, sua mãe e sua avó foram todas roubadas, enganadas e adotadas, afastando-se de suas famílias biológicas e tornando-se parte das Gerações Roubadas, foi abusada sexualmente por um amigo da família quando tinha 7 anos e sofreu abusos e racismo contínuos durante a infância e adolescência. Aos 17 anos, saiu de casa com um homem com quem viveu por dois anos, mas de quem se separou devido à violência. Ao retornar para casa, descobriu que estava grávida e deu à luz aos 19 anos. Seu filho foi adotado. Após completar 18 anos, Eckermann começou a procurar sua mãe biológica, Audrey, mas só a encontrou aos 34 anos, depois que informações foram divulgadas com o relatório Bringing Them Home, em 1997. E 4 anos depois, ela encontrou seu filho Jonnie. Sobre sua experiência ela diz: "Aprendi a viver de duas maneiras diferentes ao longo da minha vida. Aprendi um bom exemplo de trabalho árduo e bondade crescendo com minha mãe e meu pai na minha família adotiva. E sou extremamente grata por minha família tradicional ter me acolhido de volta com tanto amor e honestidade. Ganhei uma segunda chance de viver em um mundo honesto". Ela é autora de livros como Little Bit Long Time (2009), Kami (2010), His Father's Eyes (2011), Love Dreaming & Other Poems (2012), Too Afraid to Cry (2012), Inside My Mother (2015) e She Is the Earth (2023), entre outros.

 

RETRATO DO CASAMENTO – [...] Perder a calma é perder a batalha. [...] A tristeza continua tentando amarrar pesos em seus pulsos e tornozelos, portanto ela precisa continuar se movendo, precisa ser mais rápida que ela. [...] Ela sempre teve uma predileção secreta por essa parte do bordado, o lado "avesso", repleto de nós, estrias de seda e torções de linha. Como é mais interessante, com sua exibição franca do trabalho necessário para alcançar a perfeição da peça finalizada. [...] Ela está aqui agora, fora dos muros da vila, onde a noite pintou sua própria versão do vale, em pinceladas ousadas de índigo; onde o vento anima esta misteriosa paisagem sombreada, pondo as árvores em movimento, lançando pássaros noturnos para o ar azul-escuro, espalhando manchas raivosas pela face ilegível do firmamento. [...] As palavras se imprimiam em sua memória, como a sola de um sapato na lama macia, que secava e solidificava, a pegada preservada para sempre. [...]. Trechos da obra The Marriage Portrait (Tinder Press, 2022), da escritora irlandesa Maggie O'Farrell, autora dos livros Hamnet (2020), The Hand That First Held Mine (2019), I Am, I Am, I Am (2017), This Must Be the Place (2016), The Vanishing Act of Esme Lennox (2006) e After You'd Gone (2000).

 

CONTRA A NATUREZA - [...] O artista não se destaca em nada além de si mesmo. [...] Cultivei minha histeria com alegria e terror. [...] É de mau gosto prolongar a vida artificialmente. Já fiz a minha parte, é hora de partir. Deixarei para trás o máximo de imagens possível; então, de repente, me fecharei como uma crisálida. [...] Na literatura, como em tudo, existe apenas um significado, mas esse significado pode assumir múltiplas formas. [...]. Trechos extraídos de Against Nature (The MIT Press, 2019), da historiadora estadunidense Lorraine Daston, acrescentando que: [...] Os fatos são frequentemente tênues e fugazes. São as conquistas de investigações sutis que devem estabilizar meticulosamente efeitos evanescentes ou combinar engenhosamente vários fios de evidência em um cordão forte e consistente. Acima de tudo, como sugere sua etimologia, [...] os fatos mais interessantes e úteis não são dados, mas construídos, artefatos no melhor sentido da palavra. A racionalidade é feita para um mundo de problemas bem formulados com respostas inequívocas; a razoabilidade postula um mundo menos organizado, no qual particularidades recalcitrantes muitas vezes tropeçam em universais abrangentes. A constatação de que vivemos numa era de polarização e extremismo tornou-se um lugar-comum, mas o historiador deve perguntar: por que agora, por que aqui? Convicções fervorosas podem existir em qualquer época; posições extremas de clareza cristalina sempre atraíram aqueles impacientes com compromissos incertos. Mas, no passado, a realidade complexa, mais cedo ou mais tarde, obrigou os dogmáticos de todos os matizes a baixar a voz e moderar suas afirmações. A novidade em nossa situação atual é a ilusão de que o mundo pode ser regido pelas regras mais rígidas da racionalidade: algoritmos tão inequívocos e inflexíveis que podem ser executados mecanicamente. Embora a propaganda em torno de algoritmos para tudo, desde dirigir um carro até escolher um parceiro de vida, tenha permanecido, em grande parte, apenas propaganda, a racionalidade intransigente se beneficiou às custas da flexibilidade e da razoabilidade. Mas a sociedade civil não pode sobreviver sem o diálogo atento que a razoabilidade implica – até porque, mais cedo ou mais tarde, a realidade se revoltará contra as suposições simplistas da racionalidade. [...]. Ela é autora de obras como lassical Probability and the Enlightenment (1988), Wonders and the Order of Nature, 1150 - 1750 (1998), Objectivity and the Escape from Perspective (1999), Biographies of Scientific Objects (2000), Things that Talk: Object Lessons from Art and Science (2004), Thinking with Animals: New Perspectives on Anthropomorphism (2005), entre outras.

 

A PSICOLOGIA DE ANITA PAES BARRETO

[...] eu só, não posso fazer nada. Agora, vamos nos lembrar que essas crianças que não têm nada e que estão passando pelas mãos da gente talvez não tenham oportunidade na vida. [...] Não é dar coisas, é fazer elas fazerem, fazer elas se promoverem. Porque amanhã elas podem reivindicar os seus direitos, mudar de situação porque entenderam isso. Então vocês não deixem nunca que a aula seja uma aula morta [...]

Depoimento (FGV/CPDOC, História oral, 1978), da professora e psicóloga Anita Paes Barreto, que foi presa como subversiva no golpe de 1964 e desenvolveu estudos e pesquisas sobre Educação de crianças e adolescentes. In: Movimento de cultura popular: memorial (Fundação de Cultura Cidade do Recife/Fundação Educar, 1986) e Ulisses Pernambucano, educador (Psicologia: Ciência e Profissão, 1992). Em entrevista concedida à jornalista Fernanda d’Oliveira (Diário de Pernambuco, 1982), ela expressou que: [...] acho que cada mulher que puder ocupar uma posição onde ela firma os seus princípios e que saiba ser coerente e autêntica na maneira de agir, estará fazendo um bem a todas nós. É interessante que a mulher tome parte na vida política. [...] Sou apolítica, mas tenho como educadora, o desejo da existência, no País, de uma verdadeira democracia [...]. Sobre o seu trabalho o artigo Anita Paes Barreto e o projeto de modernização da educação em Pernambuco (Revista Temas em Educação, 2025) de Alessandra Maria dos Santos e Raylane Andreza Dias Navarro Barreto. Veja mais aqui.

&

A ARTE DE RICARDO AIDAR

Entrevista com o engenheiro civil e artista plástico Ricardo Bertacin Aidar, integrante do Gentamiga Ateliê (SP), participante da publicação Dareladas (CriaArt, 2024) e da plataforma Ubqub (SP). Veja aqui & mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

&

A MENINADA DO LER BEM

Encontro do Observatório de Linguagens com os estudantes classificados no concurso Ler Bem, na Semed- Palmares (PE). Veja aqui & mais aqui & aqui.

 

Geraldo Azevedo aqui.

Pally Siqueira aqui.

Aguinaldo Silva aqui.

Bárbara Pereira de Alencar (1760-1832) aqui.

Gilvan Samico aqui.

Lucila Nogueira aqui.

Lourival Batista aqui.

Magdale Alves aqui.

Arnaud Rodrigues aqui.

Celina de Holanda aquí.


 


terça-feira, agosto 21, 2018

CÉLINE, IVAN JUNQUEIRA, CIORAN, COUNT BASIE, KAPROW, PATRÍCIA FURLONG, VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER & LABATUT


LABATUT, ZÉ CRAVO & MARIA ROSA – Imagem: Arte da artista visual Patrícia Furlong. - Zé Cravo, como sempre, aquele purgante: um chato de galocha. Basta ver Maria Rosa toda faceira laralilará, arrodeada de festejantes e inofensivos bichos ruminantes e outros avoadores, passarinhos fiu-fiu, saparia foi-não-foi-foi, cães au-au, gatos miau-au-au, guizos de cobras, encantos e faceirices, peitinhos acesos na blusinha de alça, sainhas nos ares rodando bambolê, a brisa do festejo. E ele se roendo todo, cagando raio, querendo estragar tudo. Logo dela se aproxima: Ei, Rosa, vamos brincar de olhos fechados? Vamos. Ele apronta: Mas você só fechou um olho, Rosa! Ah, com você é um olho na missa, outro no padre. Não dá pra brincar com você, menina. Muito menos com você, seu tratante. Você quer namorar comigo? Hem? Você só tem essa bicharada pra brincar? São meus amiguinhos. Assim não dá. E ficou assobiando. Ela, então, disse: Isso chama o tropel de Labatut. Como? Assobiar chama o monstro carniceiro, o Labatut. E eu sou menino pra acreditar numa história dessa! E saiu assobiando, fazendo pouco dela. Ao anoitecer, ela começou a contar sobre a ventania gemedora que traz o rugido dele saindo da lua e devorando tudo com suas entranhas insaciáveis e cheias de fogo. O que é isso? Eu num disse, é o Labatut, vou-me embora que eu não quero ser comida de bicho feio. Oxe, já vai, medrosa? Vou, vamos meus amiguinhos, o Labatut já está vindo. Eu não tenho medo dessas invencionices, aparecer aqui, eu pego ele e destroço todo. Escurecia na redondeza, chegava a noite e Zé Cravo sentado num tronco assobiando, nem nem. Bafejava o vento, relâmpagos e trovões de longe davam sinal do sinistro, as portas e janelas fechadas às pressas, as ruas desertas e, de longe, ouvia-se o trote do faminto Labatut que vinha do fim do mundo. O monstro ciclópico ameaçava a todos com suas presas de elefante, cabelos longos desgrenhados, corpo cabeludo, mãos compridas e pés redondos. A tudo ouve escondido no vento com seus passos largos para abocanhar qualquer alma vivente que lhe atravesse o caminho. Com a zoada ninguém toma pé da bulha que o acompanha, sempre surpreendendo a presa com seus olhos acesos na escuridão. Zé Cravo nem aí. De repente, um turbilhão com um rugido assustador. Ele ficou com os olhos esbugalhados prontos para pularem fora, deu-se a gritar, mas foi engasgado pelo medo. Totalmente arrepiado, não conseguia nem se mover. O monstro rugia na sua frente e ao atacá-lo, logo apareceu Maria Rosa com seus amigos afugentando o malfeitor que não conseguia enfrentar tantos bichos ao mesmo tempo, sendo afugentado dali, na marra. Rosa, então, aproximou-se do vitimado que estava em estado de choque, transido e sem conseguir balbuciar a mínima palavra. Tragam água com açúcar, façam-lhe sustos e alguns choques, ele precisa se restabelecer. Depois de muitos puxavanques e estapeados, ele voltou ao normal. O que era aquilo? Agora acredita, seu Zé Cravo? O que era aquilo? Aquilo era o Labatut que desce da lua para morar no fim do mundo e comer os teimosos como você. Deus me livre. Não fossem meus amigos, você agora estaria no bucho dele, seu mal-agradecido. Eu não, hem? Destá, um dia você aprende, seu chato. E ele nem aí. Dizem todos que essas desavenças entre Zé Cravo e Maria Rosa é sinal de casamento futuro, no fundo, todos admitem, não se odeiam, se amam. PS: Recriação da lenda O monstro Labatut, extraído da obra Histórias do sertão (Irmãos Pongetti, 1856), de José Martins de Vasconcelos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do pianista, compositor e bandleader de jazz estradunidense, Count Basie (1904-1984): Show of the week, Live in Paris, Chairman of the board & Jazz a Lincoln Center & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] A tragédia do homem como animal desintegrado da vida consiste no fato de ele não poder encontrar satisfação nos dados e nos valores da vida. Qualquer criatura, como parte da existência, pode viver, pois, para ela, a existência da qual participa tem caráter absoluto. Para o homem a vida não é absoluto. Por isso nenhum homem, por não ser apenas animal, encontra satisfação no ato de viver. [...] Afirma-se equivocadamente que alguém se torna pessimista em razão de uma debilidade orgânica. Na verdade, ninguém se tornaria pessimista se não houvesse tido anteriormente tanto elã a ponto de ter desejado a vida com um ardor apaixonado, mesmo se esse ardor não tenha entrado em sua consciência. [...]. Trechos extraídos da obra Nos cumes do desespero (Hedra, 2012), do filósofo romeno Emil Cioran (1911-1995), que em outra obra, Entretiens (Gallimard, 1995), expressa que: [...] Em todo homem dorme um profeta, e quando ele acorda há um pouco mais de mal no mundo... a vida em comum torna-se intolerável e a vida consigo mesmo mais intolerável ainda. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

LEGADO – [...] Objetos de todos os tipos são materiais para a nova arte: tinta, cadeiras, comida, luzes elétricas e néon, fumaça, água, meias velhas, um cachorro, filmes, mil outras coisas que serão descobertas pela geração atual de artistas. Esses corajosos criadores não só vão nos mostrar, como que pela primeira vez, o mundo que sempre tivemos em torno de nós mas ignoramos, como também vão descortinar acontecimentos e eventos inteiramente inauditos, encontrados em latas de lixo, arquivos policiais e saguões de hotel; vistos em vitrines de lojas ou nas ruas; e percebidos em sonhos e acidentes horríveis. Um odor de morangos amassados, uma carta de um amigo ou um cartaz anunciando a venda de Drano; três batidas na porta da frente, um arranhão, um suspiro, ou uma voz lendo infinitamente, um flash ofuscante em staccato, um chapéu de jogador de boliche - tudo vai se tornar material para essa nova arte concreta. Jovens artistas de hoje precisam mais dizer “Eu sou um pintor” ou “um poeta” ou “um dançarino”. Eles são simplesmente “artistas”. Tudo na vida estará aberto para eles. Descobrirão, a partir das coisas ordinárias, o sentido de ser ordinário. Não tentarão torna-las extraordinárias, mas vão somente exprimir o seu significado real. No entanto, a partir do nada, vão inventar o extraordinário e então talvez também inventem o nada. As pessoas ficarão deliciadas ou horrorizadas, os críticos ficarão confusos ou entretidos, mas esses serão, tenho certeza, os alquimistas [...]. Trecho de O legado de Jackson Pollock (Zahar, 2006), do artista visual e assemblagista estadunidense Allan Kaprow (1927-2006).

VIAGEM AO FIM DA NOITE – [...] O pior é que a gente fica pensando como que no dia seguinte vai encontrar força suficiente para continuar a fazer o que fizemos na véspera e já há tanto tempo, onde é que encontramos força para essas providências imbecis, esses mil projetos que não levam a nada, essas tentativas para sair da opressiva necessidade, tentativas que sempre abortam, e todas elas para que a gente se convença mais uma vez que o destino é invencível, que é preciso cair bem embaixo da muralha, toda noite, com a angústia desse dia seguinte, sempre mais precário, mais sórdido. [...] É triste as pessoas se deitando, a gente percebe muito bem que não ligam a mínima se as coisas não andam como gostariam, a gente vê muito bem que não tentam compreender o porquê de estarmos aqui. Para elas tanto faz como tanto fez. Dormem de qualquer jeito, são umas descaradas, umas bestas quadradas, umas insensíveis, americanas ou não. Sempre têm a consciência tranquila. [...] Quanto ao resto, por mais que se faça escorregamos, derrapamos, recaímos no álcool que conserva os vivos e os mortos, não chegamos a nada. Está mais do que provado. E há tantos séculos que podemos olhar nossos animais nascerem, sofrerem e morrerem diante de nós sem que nunca lhes tenha acontecido a eles tampouco nada de extraordinário a não ser recomeçarem sem parar a mesma insípida falência no ponto onde tantos outros animais deixaram! Deveríamos entretanto ter compreendido o que acontecia. Vagas incessantes de seres inúteis vêm do fundo das eras morrer permanentemente diante de nós, e no entanto ficamos ali, a esperar coisas... Nem mesmo para pensar a morte a gente presta. [...] O grande cansaço da existência talvez seja apenas, em suma, esse enorme esforço que fazemos para mantermos vinte anos, quarenta anos, mais, o bom senso, para não sermos simplesmente, profundamente nós mesmos, quer dizer, abjetos, atrozes, absurdos. [...] Vi alguém chegar de longe, andando pelo caminho. Não fiquei muito tempo na dúvida. Mal chegou à ponte eu já o havia reconhecido. Era o meu Robinson, ele mesmo. Não havia erro possível. "Ele vem aqui para me procurar!", pensei na mesma hora... "O padre deve ter lhe passado meu endereço!... Tenho que me livrar dele correndo!" Na hora, achei-o abominável por me incomodar bem no momento em que eu começava a reconstruir meu bom pequeno egoísmo. [...]. Trechos extraídos da obra Viagem ao fim da noite (1932 - Companhia das Letras, 2009), do escritor maldito francês Louis-Ferdinand Céline (1894-1961). Veja mais aqui.

DOIS POEMAS - E SE EU DISSER – E se eu disser que te amo - assim, de cara, / sem mais delonga ou tímidos rodeios, / sem nem saber se a confissão te enfara / ou se te apraz o emprego de tais meios? / E se eu disser que sonho com teus seios, / teu ventre, tuas coxas, tua clara / maneira de sorrir, os lábios cheios / da luz que escorre de uma estrela rara? / E se eu disser que à noite não consigo / sequer adormecer porque me agarro / à imagem que de ti em vão persigo? / Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro / em tua ausência - essa lâmina exata / que me penetra e fere e sangra e mata. PALIMPSESTO – Eu vi um sábio numa esfera, / os olhos postos sobre os dédalos / de um hermético palimpsesto, / tatear as letras e as hipérboles / de um antiquíssimo alfabeto. / Sob a grafia seca e austera /algo aflorava, mais secreto, / por entre grifos e quimeras, / como se um código babélico / em suas runas contivesse / tudo o que ali, durante séculos, / houvesse escrito a mão terrestre. / Sabia o sábio que o mistério / jamais emerge à flor da pele; / por isso, aos poucos, a epiderme / daquele códice amarelo / ia arrancando como pétalas / e, por debaixo, outros arquétipos / se articulavam, claras vértebras / de um esqueleto mais completo. / Sabia mais: que o que se escreve, / com a sinistra ou com a destra, / uma outra mão o faz na véspera, / e que o artista, em sua inépcia, / somente o crê quando o reescreve. / Depois tangeu, em tom profético: / "Nunca busqueis nessa odisséia / senão o anzol daquele nexo / que fisga o presente e o pretérito / entre os corais do palimpsesto."/ E para espanto de um intérprete / que lhe bebia o mel do verbo, / pôs-se a brincar, dentro da esfera, / com duendes, górgonas e insetos. Poemas do poeta, jornalista e crítico literário Ivan Junqueira (1934-2014).

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...