Mostrando postagens com marcador Ivan Illich. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ivan Illich. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, setembro 04, 2019

CHAUÍ, MOSÉ, IVAN ILLICH, VIVIANA DURANTE, LENDA MOÇAMBIQUE & QUARTA-FEIRA NO TRÂMITE DA SOLIDÃO


QUARTA-FEIRA, O TRÂMITE DA SOLIDÃO - A festa acabou e não houve nenhum barulho na madrugada. A rua está pesunhada em honra de Pã, homenagem a Baco. A festa do povo passou. Neste dia eu te ofereço minha carne em holocausto, apesar da madrugada com o luar que azula a escuridão. As ruas são do pretérito caboclinho do Rabeca, o reluzente estandarte da Virgem Guadalupe e  a extinção de Tupác Amaru até sua descendência em quarto grau. Tudo apaixonadamente vivo, tudo delirantemente sentido, tudo escandalosamente passado a limpo em mim. Contaminados estão os cultores do pecado original, do hedonismo ou do Rigveda. Hoje o morto carrega o vivo e ontem de noite correu bicho em Matriz de Camaragibe. Anteontem o bufo inspirou Zé da Justa pra afinar a orquestra e a Fubana dos artistas, varrida de sonhos, impetrava um calor nas reentrâncias das senhoras e das mocinhas. A folia fez-se noite, fez-se dia. Permita Deus este mês não seja só carnaval. Dentro de mim passou a folia do planeta com seus trogloditas modernos e o assoalho repleto de excrementos, a casa vazia e o reino dos fantasmas. Vozes cantarolam: saia do sereno, saia do sereno, saia do sereno que esta frieza faz mal. De mim, o silêncio e o meu sacrifício de Odin: apenas água para beber e braços solidários. Tudo cinzas. Não fiz abstinência da carne, nem interdição dos sentidos. A minha impulsividade e o suntuoso e o inexprimível: um dia tão grande no desvario do frevo. Não quero penitência, estou debilitado pelo incenso inebriante de mulher, aquela que dorme oculta no deleite do meu travesseiro. Tudo viverá enquanto meu verso existir: o bar, a noite, o cigarro e a solidão. O poeta morreu terça-feira e eu sigo inquieto. O amor assim que deveria ser: a vida! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] O mundo perdeu sua dimensão humana e readquiriu sua necessidade factual e fatídica, característica dos tempos primitivos. Mas, enquanto o caos dos bárbaros era constantemente ordenado em nome de deuses misteriosos e antropomórficos, hoje em dia só o planejamento humano é apresentado como razão para o mundo estar assim como está. O homem tornou-se joguete dos cientistas, engenheiros e planejadores. Vemos esta lógica atuar em nós e nos outros. [...] As clínicas de controle da natalidade aumentam as taxas de sobrevivência e fomentam a população; as escolas produzem mais desertores; quando diminui uma curva de poluição, aumenta outra. Os consumidores defrontam-se com a realidade de que quanto mais podem comprar, mais decepções têm que engolir [...] A exaustão e a poluição dos recursos da terra é, acima de tudo, o resultado de uma corrupção na auto-imagem do homem e de uma regressão em sua consciência. [...]. Trechos da obra Sociedade sem escolas (Vozes, 1985), do filósofo austríaco Ivan Illich (1926-2002), co-fundador do conhecido e controvertido Centro Intercultural de Documentação (CIDOC), em Cuernavaca, México. O autor expressa que É na liberdade universal de palavra, de reunião e de informação que consiste a virtude educativa, ao efetuar uma análise crítica das instituições educativas atuais e das suas características, propondo a criação de um sistema alternativo que rebata a figura da escola na de uma aprendizagem não enquadrada institucionalmente. Para ele, o atual sistema educativo converteu-se num sistema burocrático, hierarquizado e manipulador, tendo como função primordial a reprodução e o controle das relações econômicas, entendendo que: Por toda a parte, o aluno é levado a acreditar que só um aumento de produção é capaz de conduzir a uma vida melhor. Deste modo se instala o hábito do consumo dos bens e dos serviços, que nega a expressão individual, que aliena, que leva a reconhecer as classes e as hierarquias impostas pelas instituições. Entende, portanto, que em virtude disso os alunos estão sujeitos a currículos extensos e repetitivos, dados de forma demasiado rápida e superficial. Os professores, já habituados a esta rotina, não dão a possibilidade de aprofundar um ou outro tema que mais interesse os alunos, nem são capazes de atender às necessidades específicas de cada aluno. Por essa razão, a  escola passa assim a ser um local de desigualdades e de conflitos, uma vez que alguns se adaptarão melhor do que outros. Para ele, o fato da escolaridade ser obrigatória só agrava a situação, pois, aqueles que não se conseguem adaptar aos temas curriculares obrigatórios e aos métodos de ensino vigentes, arrastam-se durante anos na escola, nada aprendem de válido e perdem a sua autoestima. Quando finalmente deixam a escola, os alunos não estão preparados para ingressar no mundo do trabalho. Por consequência, observa o autor que, apesar de muitas pessoas terem já consciência da ineficácia e da injustiça patentes no sistema educativo moderno, não são ainda capazes de imaginar alternativas nem de conceber uma sociedade descolarizada. Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU: As pessoas que, desgostosas e decepcionadas, não querem ouvir falar em política, recusam-se a participar de atividades sociais que possam ter finalidade ou cunho políticos, afastam-se de tudo quanto lembre atividades políticas, mesmo tais pessoas, com seu isolamento e sua recusa, estão fazendo política, pois estão deixando que as coisas fiquem como estão e, portanto, que a política existente continue tal qual é. A apatia social é, pois, uma forma passiva de fazer política. A política não é uma ciência. É uma arte, uma ação que se inventa. Pensamento da filosófa brasileira Marilena Chauí. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

A LUA FEITICEIRA E A FILHA QUE NÃO SABIA PILAR - A lua tinha uma filha branca e em idade de casar. Um dia apareceu-lhe em casa um monhé pedindo a filha em casamento. Alua perguntou-lhe: —Como pode ser isso, se tu és monhé? Os monhés não comem ratos nem carne de porco e também não apreciam cerveja... Além disso, ela não sabe pilar... O monhé respondeu: —Não vejo impedimento porque, embora eu seja monhé, a menina pode continuar a comer ratos e carne de porco e a beber cerveja... Quanto a não saber pilar, isso também não tem importância pois as minhas irmãs podem fazê-lo. A lua, então, respondeu: —Se é como dizes, podes levar a minha filha que, quanto ao mais, é boa rapariga. O monhé levou consigo a menina. Ao chegar a casa foi ter com a sua mãe e fez-lhe saber que a menina com quem tinha casado comia ratos, carne de porco e bebia cerveja,mas que era necessário deixá-la à-vontade naqueles hábitos. Acrescentou também que ela não sabia pilar mas que as suas irmãs teriam a paciência de suprir essa falta. Dias depois, o monhé saiu para o mato à caça. Na sua ausência, as irmãs chamaram a rapariga (sua cunhada) para ir pilar com elas paraas pedras do rio e esta desatou a chorar. As irmãs censuraram-na: —Então tu pões-te a chorar por te convidarmos a pilar?... Isso não está bem! Tens de aprender porque é trabalho próprio das mulheres. E, sem mais conversas, pegaram-lhe na mão e conduziram-na ao lugar onde costumavam pilar. Quando chegaram ao rio puseram-lhe o pilão na frente, entregaram-lhe um maço e ordenaram que pilasse. A rapariga começou a pilar, mas com uma mágoa tão grande que as lágrimas não paravam de lhe escorrer pela cara. Enquanto pilava ia-se lamentando: —Quando estava em casa da minha mãe não costumava pilar... Ao dizer estas palavras, a rapariga, sempre a pilar e juntamente com o pilão, começou a sumir-se pelo chão abaixo, por entre as pedras que, misteriosamente, seafastavam. E foi mergulhando, mergulhando... até desaparecer. Extraído da obra Contos populares moçambicanos (Ndjira, 1997), organizada por Eduardo Medeiros. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

ARTE DE VIVIANA DURANTE - A arte da bailarina italiana Viviana Durante, autora da obra Ballet: the definitive illustrated story (DK, 2018), um guia visual da história do balé, com fotografias sugestivas que capturam bailarinos famosos e histórias importantes de balé, destacando o trabalho de Margot Fonteyn, Carlos Acosta e Darcey Bussell, entre outros, efetuando uma abordagem desde as origens na corte e nas primeiras empresas nacionais de balé, até a cena contemporânea e locais extraordinários que encenam. A autora foi considerada uma das maiores bailarinas dramáticas de sua geração. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A solidão é a base da dignidade. a dor da alma nada mais é do que seus limites se rasgando para caber mais mundo. o homem precisa de algum conhecimento pra sobreviver, mas pra viver precisa da arte.
A obra da poeta, filósofa, psicóloga e psicanalista capixaba, Viviane Mosé aqui e aqui & mais aqui.


terça-feira, março 06, 2018

GRAZIA DELEDDA, RACINE, KIRI TE KANAWA, IVAN ILLICH, FLORA PURIM, ROBERT HOOKE & CYANE PACHECO

TOADA DE PEITO – Imagem: arte da artista plástica Cyane Pacheco. - O que tenho de mim nem mesmo me basta, como se errasse de ontem os designios extraviados e nem mais opção qual fuga restasse, antes certeza que nem duvidou, quando ademais era o lacre na porta e o verão a espera no ermo. O ouvido do mundo me fez só silêncio, quanto eu já não dei a mim do que perdi o rio e a minha cidade comigo distante e sem aceno, não vivia de tão desfeita, porque nada servia mesmo se assim não quisesse. Vinte coisas me disseram de outras tantas nem mais disfarçadas, coisas à cata que nem sabe o que é, sobrei pelas costas sem ter pra onde ir, a ilusão que sobrava de partir pra melhor. Sorria amarelo o dia anoitecido, e se calavam desavindos nas encruzilhadas e precisava saber das horas, só desdenhavam: amanhã será você. Pra mim era, e não era; era como se quisessem que eu soubesse a letra A de quem vai ou já foi com os melhores tempos do passado, eu atrás do futuro jogado pra trás por consoantes e vogais que nem se diziam: tem lógica? Não, não tinha, nem poderia jamais, o que seria pretexto pra toda desistência. Mais eu insistia refeito na marra e quase tudo a se decompor aos desamparos e exortações, porquanto eu pudesse sobreviver entre a vingança e o perdão, das quais sabia sequer as cinzas ao vento, trapos e migalhas eram haveres e se esvaiam entre os dedos. Renascia e revidava perempto e pombos saíam-me ao tronco ganhando a brisa como truques malogrados pela vulgaridade com todos encobertos pros sustos inexplicáveis, e a remar sem saber da maré escondida, meus braços quais hélices pras asas sonhadas, estranguladas pelos chiados das corujas com as agruras movediças colhendo estrelas pra não saber mais do céu, e a despencar na perplexidade dos embaraços como se dessem as contas para nunca mais. Retornava à semente, teimoso do zero pro que desse, apócrifo triunfo pros anos pesarem nos pés descalços, fincados no chão sem vestígios. Eu me refazia teimando em ganhar e o Sol a dançar na ponta dos dedos até o cansaço do crepúsculo, um brinde, cores e perfumes, meu salva-vida pelas fornalhas da via crucis, a prosperar na treva como se nada mais existisse, porque ninguém vê o escuro até o porvir. E assim a vida brinca de morte e vice-versa, a todo instante, aprendo sem jeito e querer, vou adiante pra que tudo seja hoje, amanhã e depois, mais uma vez. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá Todo dia é Dia da Mulher com especial da cantora Flora Purim: Speak no evil, Airto Moreira Live & Ohne Filter Live; da cantora lírica e aclamada soprano neozelandesa Kiri Te Kanawa: The jazz álbum, Ária (Cantilena) Bachianas Brasileiras 5 de Villa-Lobos & Montreal Concerts; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Precisamos ainda encontrar um nome para os que valorizam mais a esperança do que as expectativas. Precisamos de um nome para os que amam mais as pessoas do que os produtos, os que acreditam que Ninguém é desinteressante. Seu destino é semelhante à crônica dos planetas. Nada há nele que não seja particular, cada planeta é diferente de outro. Precisamos encontrar um nome para os que amam a Terra onde cada um possa encontrar o outro. E se uma pessoa viver na obscuridade, fizer seus amigos nesta obscuridade, a obscuridade não é desinteressante. [...] Trecho da obra Sociedade sem escolas (Vozes, 1985), do pensador e polímata austríaco Ivan Illich (1926-2002), tratando sobre a desinstalação da escola e sua fenomenologia, a ritualização do progresso, os mitos dos valores institucionalizados, da mensuração dos valores dos valores empacotados, do progresso autoperpetuavel, o jogo ritual e a nova religião do mundo, o reino que há de vir & a universalização das expectativas, a nova alienação, o potencial revolucionário da desescolarização, o espectro institucional, os falsos serviços públicos & as escolas como falsos serviços públicos, as concordâncias irracionais, as teias de aprendizagem, serviço de consultas a objetos educacionais, intercâmbio de habilidades, encontro de parceiros, educadores profissionais, renascimento do homem Epimeteu, entre outros assuntos. No texto Aplea for research on lay litteracy (Cambridge University Press, 1991), o autor observa que: [...] Em uma sociedade oral, uma pessoa tem que manter sua palavra. Ele a confirma fazendo um juramento, que é uma maldição condicional a ameaçá-lo caso não seja fiel ao que prometeu. Enquanto jura, segura a barba ou os testículos, oferecendo o próprio corpo como garantia. [...] No regime da escrita, o juramento perde valor diante do manuscrito; não é mais a memória que conta, porém o registro. [...].

LEITURA DO MUNDO – [...] Sempre que perceber que me aventurei a fazer qualquer mínima conjetura sobre as causas do que observei, peço-lhe que as considere apenas como questões duvidosas e palpites incertos, não como conclusões inquestionáveis. [...] Procurei tanto quanto pude primeiramente descobrir a aparência verdadeira e depois representá-la simplesmente. [...]. Trecho extraído da obra Micrographia (Micrographia, or some physiological descriptions of minute bodies made by magnifying glasses with observations and inquiries thereupon - Dover, 1961), do filósofo e cientista experimental inglês Robert Hooke (1635-1703), obra esta que foi uma das primeiras obras onde o microscópio foi aplicado ao estudo dos seres vivos, com descrições detalhadas e minuciosos desenhos que se tornaram famosos, introduzindo com a microscopia um novo modo de ver o mundo.

CANIÇOS AO VENTO - [...] Já algumas mulheres tinham-se reunido ao redor da sanfona, dando-se as mãos, para começar o baile. Os botões de seus corpetes brilhavam ao fogo, as sombras se cruzavam no chão pardacento. Lentamente formaram uma fileira, com as mãos trançadas, e levantaram os pés, experimentando os primeiros passos do baile; ainda eram rígidas e incertas, e pareciam que se escorassem reciprocamente. [...] Uma corrente de magia pareceu atravessar as mulheres, provocando uma excitação, controlada, mas ardente. A fila começou a ondular, dobrando as pontas até formar uma roda. A todo momento uma mulher de fora chegavam separava duas mãos juntas, trançava-se com as suas e acrescentava um elo à cadeia multicor, ao redor da qual se formava no chão uma franja de sombras animadas. E os pés levantavam-se sempre mais rápidos, batendo entre si, e batendo depois a terra, como para despertá-la da sua imobilidade. [...]. O grito ecoava como um relincho e as pernas das mulheres, desenhadas pelas saias escuras, e os pés curtos, emergindo das ondulantes barras vermelhas, moviam-se quase freneticamente, como esquentados pelo prazer do baile. [...]. Trechos extraídos da obra Caniços ao vento (Delta, 1964), da escritora sarda Grazia Deledda (1871-1936), Prêmio Nobel de Literatura de 1926, narrando neste livro as crises existenciais e fragilidades humana das suas personagens, bem como descreve em detalhes e com um realismo claro os costumes e lendas da sociedade agro-pastoril da sua amada ilha da Sardenha.

A DEVOÇÃO - Das celestes regiões pouso da Divindade, / desço à mansão que hospeda a graça e a virgindade; / paira a Inocência ai, minha irmã eternal, / que não tem som os céus asilo mais real. / Aqui, longe do mundo e de seu ruído vão, / guio ao dever mais santo um povo em formação: / nutro-lhe na alma pura o germe alvo e fecundo / das virtudes que deve espalhar pelo mundo. / Um rei que me protege, ilustre e vitorioso, / confiou a minhas mãos um cargo tão precioso. / E lhes transpondo já fronteiras e defesas, / destrói ele os bastiões de suas fortalezas. / Deste-lhe um filho atento em alçar-lhe o poder, / que cabe comandar, lutar, obedecer; / e, que a seus pés, também, vendo sempre a vitória, / a merecer-lhe o amor limita a própria gloria; / sujeito com ternura ao cetro paternal, / é de todo inimigo o infortúnio eternal/ aos raios similar, que envia o céu possante / quando, seu rei diz: “Parte”, arroja-se exultante; / de um vingador trovão abrasa a terra e os céus / e, tramquilo, a seus pés vem depor seus troféus; / E, enquanto um grande rei me vinga das desfeitas, / vós, que gozais aqui delicias tão perfeitas, / se ele olvidar uma horas as glorias que constrói, / as diversões da fé chamai aquele herói: / retratai-lhe de Ester, a imorredoira história, / e sobre a irreligião, da piedade a vitória. / Mas, vós que preferis essas loucas paixões / que acendem na alma humana as profanas ficções, / espectadores vãos de frívolos prazeres, / cujo ouvido aborrece o som de meus dizeres, / fughi do meu prazer à santa austeridade: / aqui tudo respira a Deus, paz e verdade. Prólogo da tragédia Esther (Irmãos Pongetti, 1949), do poeta trágico, dramaturgo, matemático e historiador francês Jean Racine (1639-1699). Trata-se de uma peça em três atos, escrita em 1689, dramatizada para satisfação dos professores e alunos que declamaram e cantaram com tanta graça e modéstia, que esse pequeno drama, destinado apenas para o benefício dos jovens alunos, tornou-se a admiração do rei e do tribunal. Veja mais aqui e aqui.

OS DESENHOS DE CYANE PACHECO
Dentre as linguagens escolhidas, o desenho, desde sempre me pareceu a mais rematada forma de expressar minha busca no universo das Artes Visuais. Desenho para esquadrinhar perguntas, para constituir um vocabulário particular, para constituir o ambiente que me circunda, para desempenhar um papel político através da Arte e em fazer compreender pelo viés daquilo que não é palavra. Eu achava que o traço significava minha inaptidão com a literatura, ou seja, desenho, esculpo, gravo, fotografo e produzo em outras linguagens para desvelar um texto visual que me é necessário. Embora goste de expandir as formas clássicas das linguagens artísticas (desenho, pintura, gravura e escultura), guardo o cuidado que me antepare das ondas vãs e do amontoado das ruínas precoces dos modismos que, não raro, propositadamente esvaziam os discursos e são, em sua maioria, feitos para ingênuas diversões, nesse sentido, das linguagens expandidas, agradam-me as intersecções e as estratificações que contêm todo o tempo. Incorporo o discurso que alinhava as imagens, buscando através dele, remontar às experiências e às surpresas do novo o enfrentamento da criação, sabendo que “desprovido da experiência, o homem não deixa rastro”, como bem assinala Walter Benjamin, recrio, portanto, minha existência, o que me ocorreu e o que imagino, os vestígios da memória, os conteúdos inconscientes, absorvo os saberes alheios, exponho o horror das potências inumanas, mesmo sabendo que essa exposição não atingirá ou destruirá a barbárie, o horror. Durante o final dos anos oitenta e início dos anos noventa do século XX, quando trabalhei no Museu do Estado de Pernambuco e participei de uma equipe responsável pela restauração de uns painéis votivos representando uma batalha havida no século XVII, percebi que as figuras que compunham tais painéis, eram soldados, cães, famílias, personagens circenses, numa procissão extravagante, representados através de uma bidimensionalidade ingênua em suas posturas sobrepostas, subvertendo as regras da perspectiva. Dispostos em um plano diverso das alegorias por nós conhecidas, as figuras que compunham esse painel votivo, pareciam surgir com imensa liberdade de gestos, relevando a primazia da mensagem, da ilustração despreendida da rigidez acadêmica. Transpus essa lógica ou forma representativa do traço, para o plano, o papel, o espaço dos suportes eleitos, esquecendo intencionalmente as regras pré-estabelecidas, desobedecendo as leis da composição ensinadas nos livros sobre o assunto. Dei conta no papel tão somente do texto que me interessou naquele primeiro momento e continua me impelindo a resolver, com fluidez e poucas regras ditadas ao acaso, o sentido dos traços e das figuras que dele surgem. Imaginei que os personagens oriundos da imaginação despontavam dessa clivagem na rigidez do gesto, da criatividade e da ilusão da liberdade, há tanto guardada e, isso me faz pressentir, até hoje, que tais figuras sentem-se expressamente alforriadas. No momento seguinte do meu percurso, quando julguei que a madureza dos traços podia criar uma linguagem pessoal, íntima, um vocabulário que dissesse não apenas o que penso, mas retratasse algo mais amplo, do campo do mito, do sonho público, decidi que podia tirá-los da condição limitada e bidimensional, modelando-os e alargando as suas expressões. Como seria soltá-los do plano achatado do papel? Essa foi a atitude primeira para que eu empreendesse incursões nos territórios mais extensos da arte. O desenho continua portanto, o ponto de partida para qualquer texto que eu pretenda em Arte. O corpo é meu foco e meu objeto de investigação, escolhido pelas possibilidades várias que vão desde a metáfora, a metonímia, as camadas temporais, as alterações entre motivo e suporte à literalidade. Busco, além do fazer artístico, respeitar o ínfimo espaço entre arte e vida, senão viver as duas coisas como se fora uma só.
Texto extraído de Eutomia - Revista de Literatura e Linguistica (Recife, 14 (1): v-xix, Dez.2014), da artista plástica & visual Cyane Pacheco. (Veja mais abaixo).

Veja mais:
Ana Lins, a Revolução Pernambucana de 1817 & Todo dia é dia da mulher aqui.
Festa no céu do amor, a música de Tom Jobim, a poesia de Nauro Machado, a fotografia de Elizabeth Zusev & a arte de Steve K. aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
O que é de sonho quando real, Yukio Mishima, Marisa Rezende & David Alfaro Siqueiros aqui
O que semeei pro que será colhido, Elbert Hubbard, Débora Arango & Miriam Maria aqui
A morte e a morta, Tarsila do Amaral & Byam Shaw aqui
O beijo dela de sol na minha vida de lua, José Régio, Ceumar & Luciah Lopez aqui
Gabriel García Marquez, Lev Vygotsky, Edmond Rostand & Cyrano de Bergerac, Elizabeth Barrett Browning, Flora Purim, Andrzej Wajda, Michelangelo & Anna Mucha aqui
Conversa de pé do ouvido, Margaret Mead, Erasmo de Roterdam, Graciliano Ramos & Fernando Fiorese aqui
Monarquia brasileira aqui
Proclamação da República aqui
A Era Vargas & a República aqui
Tolinho & Bestinha: Quando Boca-de-frô engrossou o caldo para formar a tríade amalucada aqui
Pierre Weil, Confúcio, Psicoterapia Mente-Corporal de Alexander Lowen & Doro nas eleições aqui
O corpo dela é o pomar de amor & Programa Tataritaritatá aqui
Puxavanque do prazer & Programa Tataritaritatá aqui
Poço do Prazer & Programa Tataritaritatá aqui
Vygotsky, Freud, Lacan, Cícero & a Arte de Envelhecer, Dawna Markova, Heniz Kohut, Teatro, Doro & Pernambuco aqui
Alan Watts & Todos os Brasis do Brasil aqui
História do Cinema aqui.

ARTE DE CYANE PACHECO
A arte da artista plástica & visual Cyane Pacheco, que edita os blogs Cyane Pacheco & Arte Cyane Pacheco, mantendo seus trabalhos em um canal do YouTube e perfil no Flickr. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Fábula hodierna ... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascín...