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quarta-feira, janeiro 14, 2015

AMINA SAÏD, ALISA GANIEVA, CIORAN, SHIRLEY HAZZARD & WIAZEMSKY

 


JEUNE ET JOLIE – Era outono e o corpo ainda verão aos binóculos e todos os zoons. Os seios de fora, o vestido solto e curto, a vitalidade e quantas eram ali, quantas Leas ou Isabelles, muitas ou nenhuma delas, à procura do prazer às horas consumidas esfregando-se ao travesseiro entre as pernas. E viver agora quando houve a primeira vez de pálpebras baixas, os insensíveis fantasmas rodopiavam apenas na imaginação pelos desfiles e o olhar pervertido queria ir muito mais além, atravessar o inverno, onde o prazer no cunilíngua, o ensaio de entrega da alma na felação. Era a surpresa e o perigo, correr-se o risco: não havia nada melhor entre a timidez e a aventura. O devaneio era servir de montaria, ou vaqueira despudorada, os tropeços e a vida dupla, a grana e nada demais para quem adolescente. A primavera e o que a gente faz da vida sem saber e recomeçar todo dia, cada qual sua natureza. O que seria da vida se não experimentássemos a nossa humanidade, transgredi-la e rendermo-nos à nossa mais profunda natureza primitiva. Só poderá sorrir quem experienciou. Só terá vida plena quem vivenciou. A inocência e a dissimulação, o último suspiro e o gozo da cópula, nenhuma morte seria mais desejada, entre a dor e o gozo, matar o outro de prazer. (Leitura do drama de 2013 Jeune et Jolie, dirigido por François Ozon e estrelado pela atriz francesa Marine Vacth). Veja mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - No início, há algo que você espera da vida. Mais tarde, há o que a vida espera de você. Quando você perceber que são iguais, pode ser tarde demais para as expectativas. O que estamos sendo, não o que devemos ser. Eles são a mesma coisa... Pensamento da escritora australiana Shirley Hazzard (1931-2016), que no seu livro The Transit of Venus (Penguin, 1990) expressou que: […] Quando você percebe que alguém está tentando te machucar, dói menos. A menos que você os ame. [...] A doçura que todos ansiavam noite e dia. Pode-se adivinhar alguma tragédia: perda ou doença. Ela tinha a luminosidade de quem está prestes a morrer. [...]. No livro Cliffs of Fall and Other Stories (Picador, 2004) ela expressou: […] Às vezes, como agora, seu coração se contorcia e quebrava sob a determinação dele de feri-la. Outras vezes, ela estava quase convencida de que não sentia mais nada por ele, que ele havia esgotado sua resistência: então ela ficava em silêncio por algum tempo, quase em paz, fora do alcance dele, sem saber se havia sido totalmente vencida ou se tornara completamente invencível. No entanto, foi necessária apenas uma ligeira atenção da parte dele para restaurar todas as suas apreensões - pois esses sentimentos extremos só existiam dentro do âmbito do seu amor. [...]. Já na sua obra The Bay of Noon (Picador, 2003), ela manifesta que: […] Mas essa é uma maneira de continuar amando – um lugar ou uma pessoa. Sentir falta disso. Na verdade, ir embora, colocar-se em estado de saudade, às vezes é a maneira mais simples de preservar o amor. [...]. Veja mais aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Saímos para nos encontrar e nos encontramos para nos separar... Pensamento da da atriz, diretora de cinema e escritora francesa Anne Wiazemsky (1947-2017), autora do livro Un an après (Gallimard, 2015), no qual expressou que: [...] Tínhamos nos mudado, algumas semanas antes, para o número 17 da rue Saint-Jacques, no Quinto Arrondissement. Desde a adolescência eu sonhava em morar no Quartier Latin, e aquele apartamento me parecia ter a localização ideal, perto da Sorbonne, do boulevard Saint-Michel e do Sena. Jean-Luc não dava muita importância ao lugar onde vivíamos, gostava do apartamento no número 15 da rue de Miromesnil, que ele alugava e servira de cenário para A chinesa. Mas por que não um outro? Quando eu acrescentara que “Além disso, estou de saco cheio da proximidade com a place Beauvau, de saco cheio do Élysée e de todos esses policiais”, ele respondera, forçando o sotaque suíço: “Nesse caso…”. [...], que foi adaptado para o cinema por Michel Hazanavicius, com Louis Garrel no papel de Jean-Luc Godard, tratando sobre o legendário maio de 1968. Veja mais aqui e aqui.

 

FANATISMO & RESUMO DA DECOMPOSIÇÃO - [...] Cada um de nós nasce com uma dose de pureza, predestinado a ser corrompido pelo comércio com os homens, por este pecado contra a solidão. [...] Na escala das criaturas, apenas o homem inspira repulsa constante. A repugnância que uma fera suscita é temporária; não amadurece em pensamento, enquanto os nossos semelhantes assombram as nossas reflexões. [...] Nenhuma civilização pode morrer em agonia indefinida; tribos rondam, sentindo o cheiro de cadáveres perfumados. [...] A poesia torna-se bastarda quando se torna permeável à profecia ou à doutrina: a “missão” sufoca o canto, a ideia impede a fuga. [...] Quem fala em nome dos outros é sempre um impostor. Os políticos, os reformadores e todos aqueles que reivindicam um pretexto coletivo são trapaceiros. Só o artista cuja mentira não é total, porque ele apenas inventa a si mesmo. [...] A esperança é uma virtude escrava. [...] Em cada homem nada é mais existente e verdadeiro do que a sua própria vulgaridade, fonte de tudo o que é elementarmente vivo. [...] História universal: história do Mal. Remover os desastres do devir humano é tão bom quanto conceber desastres natureza sem estações. [...] Tal engano triunfa: o resultado é uma religião, uma doutrina ou um mito – e uma multidão de devotos; outra falha: é então apenas uma divagação, uma teoria ou uma ficção. [...]. Trechos extraídos do livro Précis de Decomposition (Gallimard, 1966), do filósofo romeno Emil Cioran (1911-1995), na qual ele realiza uma genealogia do fanatismo. Já no livro The Trouble With Being Born (Arcade, 2013), ele expressa: [...] O fanatismo é a morte da conversa. Não fofocamos com um candidato ao martírio. O que devemos dizer a alguém que se recusa a penetrar em nossas razões e que, no momento em que não nos curvamos às suas, prefere morrer a ceder? Dê-nos diletantes e sofistas, que pelo menos adotem todas as razões... [...]. No livro Anathemas and Admirations: Essays and Aphorisms (Arcade, 2012), expressa que: […] Impossível para mim saber se me levo a sério ou não. O drama do desapego é que não podemos medir seu progresso. Avançamos em um deserto, e nunca sabemos onde estamos nele. [...]. Por fim, na obra Ese maldito yo (Tusquets, 2002), está expresso que: [...] Quando se comete um ato vil, hesita-se em assumi-lo, em nomear o responsável, perde-se em eternas cogitações que nada mais são do que mais um ato vil, atenuado porém pelas acrobacias da vergonha e do remorso. [...] A vida secreta anti-vida, e esta comédia química, em vez de nos incitar a sorrir, nos consome e perturba. [...] Poderíamos finalmente respirar melhor se uma manhã nos dissessem que a grande maioria dos nossos semelhantes desapareceu como num passe de mágica. [...] Existe um desvio tão evidente que adquire o prestígio de uma doença onírica. [...] Impossível encontrar a verdade em qualquer lugar; simulações em todos os lugares, das quais nada se deve esperar. Por que então acrescentar a uma decepção inicial todas aquelas que ocorrem e confirmá-la com regularidade diabólica dia após dia? [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

A MONTANHA & O MURO - [...] O Gazelle estava correndo, de vez em quando desacelerando repentinamente, balançando e guinchando. Nas curvas, o motorista levava a mão ao coração para deixá-lo passar, conseguia apertar a mão dos colegas que passavam e gritar para os passageiros acima da música estrondosa. Os passageiros pediam para parar “aqui e ali”, “perto da mulher de saia verde”, “sempre que possível” e orgulhosamente não aceitavam um rublo de troco. Camilla foi convidada a dançar doze vezes, após o que a contagem foi perdida. Como dizem, o Avar sonhou que levou uma surra, no dia seguinte foi para a cama com a multidão - Dispersem, dispersem, não tem mais pão! – alguém gritou com uma voz grave e áspera. A fila ficou agitada e dispersa. Os tumultos continuaram. “Queimamos tudo o que está escrito da esquerda para a direita!” - explodiu de repente dos cartazes pendurados em Makhachkala. “É estranho”, as pessoas ficaram surpresas, “acontece que deveríamos queimar o próprio pôster!” - Diga-me, Mahmud, o que há de pequeno e grande no mundo ao mesmo tempo? “Não sei, pai”, respondo. “Este é o Daguestão”, explicou-me meu pai. “Basta pensar como é pequeno e quantos povos e costumes, línguas e talentos, animais e plantas coexistem nele.” Em um pequeno Daguestão você verá dunas de areia e matagais tropicais, geleiras eternas e fontes minerais, e uma planície árida e prados alpinos exuberantes, e as profundezas do mar e cânions, cujo fundo você não pode alcançar, mesmo se você voar para metade do dia! [...]. Trechos extraídos da obra The Mountain and the Wall (Deep Vellum, 2015), da escritora russa Alisa Ganieva.

 

TRÊS POEMAS - VIVEMOS EM UM PAÍS - vivemos num país \ embriagado de guerra e violência \ Medellín afundará na tristeza \ assim que você partir ficaremos aí \ esperando a luz simplesmente \ para agradecer por ter vindo... \ obrigado por virem estar aqui conosco, \ desplazados que fugiram de nossas aldeias, \ nosso passado, nosso presente devastou, \ que futuro para nossos filhos aqui em La Cruz, \ é nossa alma que eles arrancaram \ lá atrás com nossas terras... \ tiros esporádicos vindos da montanha à nossa frente \ tranquila uma mulher me diz \ no caminho de volta \ o combate está longe \ sob as espirais lentas \ dos falcões negros \ uma garrafa de vinho chileno \ passa de mão em mão \ Não sei nada sobre este país você diz \ que pode viver confortavelmente na Pensilvânia \ e não sabe nada sobre o resto do mundo, \ conte-me sobre isso você diz sua voz equilibrada \ como uma carícia interrompida \ uma bomba explodiu no meio da noite \ bem ao lado do nosso hotel em Bogotá \ que abriu meus olhos você diz \ que desde então tenho tentado entender \ libertad chora a multidão em pé \ após a leitura de um poema \ no auditório Carlos-Vieco \ Libertad. EU SOU UMA CRIANÇA E LIVRE - Sou criança e livre \ para viver no perpétuo \ sol dominical empoleirado no horizonte \ na claridade de cada coisa \ a terra contempla as suas estações \ não tenho lugar nem morada \ a vida está em todo o lado e em lado nenhum \ da cisterna do pátio a avó tira \ água para a hortelã e o manjericão \ ói a sal e especiarias \ trava sua batalha diária com o mundo real \ a brisa aumenta listras nas cortinas \ a lâmpada ainda brilha \ Eu brinco além dos quadros \ nos jardins do meu pai \ as árvores dão frutos antigos \ sussurram na língua dos pássaros \ a água do poço canta nos sulcos \ sob meus passos nascem caminhos de areia \ habito a inocência do dia \ puro começo sem antes nem depois \ de uma casinha construída como um barco \ me deixo fluir na emoção azul \ um balé de cavalos-marinhos roça \ estrelas caídas ouriços \ do-mar florescem no pedras \ algas marinhas brilham em meu pulso \ apenas o momento vive no que eu olho \ Sou uma criança e livre \ não tenho lugar nem morada \ quão vasto é o céu quando o \ mundo inteiro é um poema \ é plena luz do dia na terra \ a noite ainda não foi criada \ Eu tenho uma posição segura em todos os tempos. Poemas da poeta tunisiana Amina Saïd.

 

SACADOUTRAS

 

UMA FORMA MUITO DIFERENTE DE NARRAR – Com sua narrativa em estilo nervoso, diálogos breves e isolados e suas rápidas mudanças de ângulo influenciadas pelos cineastas russos, o romance 1919, o segundo da trilogia USA, do escritor e pintor norte-americano descendente de imigrantes portugueses originários da Madeira, John dos Passos (1896-1970) – o primeiro, Paralelo 42; o segundo, 1919; e o terceiro Dinheiro Graúdo -, o autor traça uma visão de conjunto da vida americana nas primeiras décadas do século recém-passado, revolucionou a literatura da época, criando o que seria denominado de romance coletivista – tipo de ficção em que a ênfase não é colocada sobre um indivíduo, mas sobre todo o grupo social. Por sua raiz lusitana, o autor esteve no Brasil quando escreveu O Brasil em movimento, posteriormente publicado sob o título de O Brasil desperta, o que levou o escritor lusitano Tiago Patrício a realizar uma peça inspirada no romance Manhattan Transfer do escritor, e que será encenada em 2017, nos Estados Unidos. Do seu romance 1919, destacamos: [...] João Ninguém possuía uma cabeça durante vinte anos completos, intensamente, os nervos dos olhos dos ouvidos do palato da língua dos dedos das mãos e dos pés dos sovacos, os nervos que aquecem o corpo e sentem o calor debaixo da pele levaram às circunvoluções cerebrais sensações de dor de doçura de calor de frio de posse de permissão de interdição as grandes paragonas dos jornais; aquilo que se não deve fazer, a tábua de multiplicação e as grandes divisões. Chegou a hora em que todos os homens bons a oportunidade só bate uma vez à nossa porta, é uma grande vida de Ish gebibbel, os cinco primeiros anos foram acima de tudo a segurança, imagina que um huno tentava violar a tua o meu país com razão ou sem ela, em pequenino é que se torce o pepino o que os olhos não veem coração não sente, não lhes dês explicações trata-os com dureza apanhou o que estava a pedir vivemos num país de homens brancos Deus o berro, foi para os anjinhos, se não gostas podes refilar [...]. Veja mais aquiaqui.

Imagem: Nu de dos, 1885, oil on canvas, da pintora impressionista francesa Berthe Morisot (1841-1895). Veja mais aqui aqui.



Ouvindo: Aria (Cantilena)/Bachianas Brasileiras nº 5, de Heitor Villa-Lobos, com a soprano Kiri Te Kanawa, Lynn Harrel and Cello Ensemble/Jeffrey Tate. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A HISTÓRIA DO OLHO – Ao escrever o livro A história do olho – publicado em 1928, sob o pseudônimo de Lord Auch -, o escritor francês Georges Bataille (1897-1962) mistura erotismo, transgressão e sagrado em narrativa antropológica, filosófica, sociológica e artística, com o objetivo de: “Escrevo para apagar meu nome”. Numa tradução e prefácio de Eliane Robert Moraes e ensaios de Julio Cortázar, Roland Barthes e Michel Leiris, destacamos dessa controvertida obra: [..] Pois 0 olho, guloseima canibal, segundo a maravilhosa expressão de Stevenson, produz uma tal inquietação que não conseguimos mordê-lo. O olho chega a ocupar uma posição extremamente elevada no horror por ser, entre outros, olho da consciência. É bastante conhecido 0 poema de Victor Hugo, 0 olho obsessivo e lúgubre, olho vivo e pavorosamente imaginado por Grandville durante um pesadelo ocorrido umn pouco antes de sua morte: 0 criminoso "sonha que acaba de atingir um homem num bosque sombrio, sangue humano foi derramado e, segundo uma expressão que nos brinda 0 espírito com uma imagem feroz, fez um carvalho suar. Com efeito, não se trata de um homem mas de um tronco de arvore ... sangrento ... que se mexe e debate ... sob a arma assassina. Erguem­se as mãos da vitima, suplicantes, mas inutilmente. 0 sangue continua a correr". É nessa altura que aparece 0 olho enorme que se abre num céu negro, perseguindo 0 criminoso através do espaço, até 0 fundo dos mares, onde 0 devora, depois de tomar a forma de um peixe. Inúmeros olhos se multiplicam, enquanto isso, sob as ondas. Grandville escreve a respeito: "Seriam os mil olhos da multidão atraída pelo espetáculo do suplicio prestes a ocorrer?". Mas por que motivo esses olhos absurdos são atraídos, como uma nuvem de moscas, por algo que é repugnante? Por que, igualmente, a cabeça de um semanário ilustrado, perfeitamente sádico, que apareceu em Paris de 1907 a 1924, figura regularmente um olho sobre fundo vermelho que antecede espetáculos sangrentos? Por que 0 olho da polícia, parecido com 0 olho da justiça humana no pesadelo de Grandville, no final das contas nada mais e que a expressão de uma cega sede de sangue? Parecido ainda com 0 olho de Crampon, um condenado a morte que, abordado pelo capelão um momento antes do golpe do cutelo, repeliu, mas arrancou um olho e ofereceu como jovial presente, pois 0 olho era de vidro. Veja mais aqui, aquiaqui e aqui.

MARIE ESPINOSA: GRADIVA – Levado pela obra de Freud, me deparei certo dia com o filme Gradiva, ou melhor C´est Gradiva Qui Vous Appelle, de Alain Robbe-Grillet. 2006. O filme conta a história de um jovem crítico de arte inglês, John Locke, que começa pesquisando esboços de Delacroix e, depois, se instala nas ruínas de um antigo palácio perto de Marraquexe, para trabalhar na redação de um livro sobre orientalismo pictórico, com a temática da mulher como objeto de arte. Caindo numa cilada, o filme vai entrando num clima de tensão, mas não passando de um suspense que só valeu a pena pela aparição apreciável da bela atriz Marie Espinosa, desfilando sua nudez e sensualidade para encanto e recheio do imaginário masculino. Só a beleza da Marie Espinosa valeu o preço do ingresso. Veja mais aquiaqui e aqui.



Veja mais sobre:
Ovídio, Nikolai Gógol, Eduardo Giannetti, Xangai, Bob Rafelson, Diana/Ártemis, Theresa Russel & Agostino Carracci aqui.

E mais:
Antígona de Sófocles aqui.
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João Cabral de Melo Neto, Rigoberta Menchú Tum, Joan Baez, Simone de Beauvoir & Eduardo Viana aqui.
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Paul Feyerabend, Gilberto Mendes, Brian de Palma, Sandra Scarr, Chaim Soutine, Penelope Ann Miller & Programa Tataritaritatá aqui.
A vida é linda, apesar dos enrustidos & dos chatos de galocha, Selene, A lenda Bororo das duas pombas, Laura Tedeschi, Witold Lutoslawski & Ewa Kupiec aqui.
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No país do Fecamepa, até no dia da felicidade não dá pra ser feliz & João Câmara aqui.
Contratos Mercantis, Denise Dalmacchio, Fernanda Guimarães, Jussanam, Consiglia Latorre, Aline Calixto & Fátima Lacerda aqui.
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terça-feira, dezembro 11, 2007

CONFESSIONÁRIO PADRE BIDIÃO, BUKOWSKI, SILESIUS, STEPHEN CRANE, ANTÍGONA DE SÓFOCLES, GRADIVA DE FREUD, PSICOSES DE LACAN & LOZOWSKI

 
Imagem: arte da série Makowe Damy, do artista plástico polonês Krzysztof Lozowski.

PENSAMENTO DO DIA - A rosa é sem porquê, floresce porque floresce. Pensamento do poeta místico e médico alemão Angelus Silesius (1624-1677).


GRADIVA DE JENSEN E OUTROS TRABALHOS, DE SIGMUND FREUD - [...] Até então o sexo feminino não passara para ele de um conceito expresso em mármore ou em bronze, e nunca prestara a menor atenção às suas representantes contemporâneas. [...] Agora, entretanto, a tarefa científica a que se propusera impelia-o na rua, especialmente nos dias chuvosos, a observar ansiosamente os pés de todas as mulheres que encontrava, atividade que lhe granjeava olhares ora indignados, ora encorajadores dos objetos de sua observação, ‘mas ele não percebia nem uns, nem outros’. (10.) Essa pesquisa meticulosa levou-o a concluir que o modo de andar de Gradiva não era encontrável na realidade, o que o encheu de desânimo e consternação. [...] Chegou à conclusão de que, de todas as loucuras da humanidade, ‘o casamento é a maior e a mais incompreensível, sendo o ápice dessa imbecilidade aquelas despropositadas viagens de núpcias à Itália. [...] Para a construção de um sonho não é essencial um vínculo com um estímulo sensorial externo. Aquele que dorme pode ignorar um estímulo desse gênero a partir do mundo externo, pode ser despertado pelo mesmo sem construir um sonho, ou, como aconteceu aqui, pode incorporá-lo a seu sonho, se isto lhe convier por alguma razão. Além disso, existem inúmeros sonhos cujo conteúdo de forma alguma pode ser explicado como sendo determinado por um estímulo externo sobre os sentidos do indivíduo que dorme. [...] Nos cinco anos que decorreram desde o término deste estudo, a investigação psicanalítica encorajou-se a examinar as criações dos escritos imaginativos tendo em vista outro propósito. Não mais procura nelas somente uma confirmação das descobertas feitas em seres humanos neuróticos e banais; também quer conhecer o material de lembranças e impressões no qual o autor baseou a obra, e os métodos e processos pelos quais converteu esse material em obra de arte. Essas perguntas podem ser respondidas com maior facilidade no caso de escritores que (como Wilhelm Jensen, falecido em 1911) costumavam entregar-se inteiramente à sua imaginação pela simples alegria de criar. Pouco depois da publicação do meu exame analítico de Gradiva, tentei interessar seu idoso autor por essas novas tarefas da pesquisa psicanalítica. Ele, porém, recusou sua cooperação. [...] Não sou certamente o primeiro a notar a semelhança existente entre os chamados atos obsessivos dos que sofrem de afecções venosas e as práticas pelas quais o crente expressa sua devoção. O termo ‘cerimonial’, que tem sido aplicado a alguns desses atos obsessivos, constitui uma evidência disso. Em minha opinião, entretanto, essa semelhança não é apenas superficial, de modo que a compreensão interna (insight) da origem do cerimonial neurótico pode, por analogia, estimular-nos a estabelecer inferências sobre os processos psicológicos da vida religiosa. As pessoas que praticam atos obsessivos ou cerimoniais pertencem à mesma classe das que sofrem de pensamento obsessivo, ideias obsessivas, impulsos obsessivos e afins. Isso, em conjunto, constitui uma entidade clínica especial, que comumente se denomina de ‘neurose obsessiva. [...] Uma mulher que estava vivendo separada do marido via-se sob a compulsão de deixar intacta a melhor porção de tudo aquilo que comia: por exemplo, só aproveitava as beiradas de uma fatia de carne assada. A explicação dessa renúncia foi encontrada por meio da data de sua origem. Ela surgiu no dia seguinte àquele em que se recusara a ter relações maritais com seu marido - isto é, após ter renunciado ao melhor. [...] O escritor suaviza o caráter de seus devaneios egoístas por meio de alterações e disfarces, e nos suborna com o prazer puramente formal, isto é, estético, que nos oferece na apresentação de suas fantasias. Denominamos de prêmio de estímulo ou de prazer preliminar ao prazer desse gênero, que nos é oferecido para possibilitar a liberação de um prazer ainda maior, proveniente de fontes psíquicas mais profundas. Em minha opinião, todo prazer estético que o escritor criativo nos proporciona é da mesma natureza desse prazer preliminar, e a verdadeira satisfação que usufruímos de uma obra literária procede de uma libertação de tensões em nossas mentes. Talvez até grande parte desse efeito seja devida à possibilidade que o escritor nos oferece de, dali em diante, nos deleitarmos com nossos próprios devaneios, sem auto-acusações ou vergonha. Isso nos leva ao limiar de novas e complexas investigações, mas também, pelo menos no momento, ao fim deste exame. [...] Pedem-me que faça uma relação de ‘dez bons livros’ sem a tal acrescentarem maiores explicações. Cabe-me assim não somente a escolha dos livros, mas também a interpretação do pedido. Como estou acostumado a dar atenção a pequenos sinais, devo basear-me na forma como esse enigmático pedido foi expresso. Não me solicitaram ‘os dez mais esplêndidos livros (da literatura mundial)’, quando eu seria obrigado a responder, como tantos outros: Homero, as tragédias de Sófocles, o Fausto de Goethe, o Hamlet e o Macbeth de Shakespeare, etc. Nem me pediram ‘os dez livros mais significativos’, entre os quais teriam de ser incluídas as realizações científicas de Copérnico, do velho médico Johann Weier sobre a crença nas bruxas, a Descendência do Homem de Darwin, e outros. Nem falaram em ‘livros favoritos’, entre os quais eu não teria esquecido O Paraíso Perdido de Milton e o Lázaro de Heine. Parece-me pairar uma ênfase especial sobre o adjetivo ‘bons’, em sua frase, e com isso pretenderem os senhores designar aqueles livros que se assemelham a ‘bons’ amigos, aos quais devemos uma parcela do nosso conhecimento da vida e de nossa visão do mundo - livros que nos deram prazer e que recomendamos de bom grado a outros, mas que não nos despertam uma particular e tímida reverência, nem uma sensação de pequenez diante de sua grandiosidade. Indicarei, portanto, dez ‘bons’ livros que me vieram à mente sem muita reflexão. Multatuli, Cartas e Obras. Kipling, Jungle Book. Anatole France, Sur la pierre blanche. Zola, Fécondité. Merezhkovsky, Leonardo da Vinci. G. Keller, Leute von Seldwyla. C. F. Meyer, Huttens letzte Tage. Macaulay, Essays. Gomperz, Griechische Denker. Mark Twain, Sketches. Não sei o que pretendem fazer com essa lista. GRADIVA DE JENSEN - Na Obra Gradiva de Jensen e outros trabalhos, de Sigmund Freud, é tratado acerca dos delírios e sonho do conto Gradiva de Wilhelm Jensen, sobre uma escultura - Gradiva, a jovem que avança -, que o arqueólogo Norbert Hanold sonha e tem delírios, abordando ainda sobre os delírios e os ditúrbios mentais e o método analítico de psicoterapia. Em seguida vem a parte de pós-escrito acerca do tema proposto e outros trabalhos como a psicanálise e a determinação dos fatos nos processos jurídicos, atos obsessivos e práticas religiosas e o esclarecimento sexual das crianças. O ensaio Escritores criativos e devaneio, aborda sobre Ariosto, o brincar da criança e o escritor criativo, o fantasiar e os romances de Zola. Depois vem os ensaios sobre as fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade, o caráter e o erotismo anal, moral sexual civilizada e doença nervosa moderna, sobre as teorias sexuais da criança, algumas observações gerais sobre ataques histéricos, romances familiares e breves escritos sobre os melhores livros indicados por Freud. Veja mais aqui e aqui.
REFERÊNCIA: FREUD, Sigmund. Gradiva de Jensen e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1980.

O SEMINÁRIO – AS PSICOSES, DE JACQUES LACAN – O livro O seminário: as psicoses, de Jacques Lacan, trata na primeira parte da introdução à questão das psicoses, abordando sobre esquizofrenia e paranoia, o Sr. De Ciemrambault, as miragens da compreensão, da Verneinung à Vermerfung, psicose e psicanálise, doutrina freudiana, o psiquiatra discípulo de Kant, constituição paranoica, noção de automatismo mental, noção de compreensão, o simbólico, o imaginário, sentido recalcado, significação do delírio, crítica de Krapelin, a inércia dialética, Ségias e a alucinação psicomotora, o presidente Schereber, Elogio da Loucura, a paranoia, a consciência mórbida, memória sobre a autobiografia de um caso de paranoia delirante, o outro e a psicose, homossexualidade e paranoia, a palavra e o ritornelo, automatismo e endoscopia, o conhecimento paranoico, gramática do inconsciente, eu venho do salsicheiro, do que volta no real, fantoches do delírio, R. S. I na linguagem e a erotização do significante. Na segunda parte, trata da temática e estrutura do fenômeno psicótico, abordando de um deus que não engana e de um que engana, a psicose não é um simples fato de linguagem, o dialeto dos sintomas, como seria belo ser uma mulher, Deus e a ciência, o deus de Schereber, o discurso da escrivaninha, o fenômeno psicótico e seu mecanismo, certeza e realidade, Schereber não é poeta, a noção de defesa, Verdichtung, Verdrangung, a dissolução imaginária, Dora e seu quadrilátero, Eros e a agressão no carapau macho, o que se chama o pai, a fragmentação da identidade, a frase simbólica, a noção de defesa, o testemunho do paciente, o sentimento de realidade, os fenômenos verbais, do não-sendo e da estrutura de Deus, princípios da análise do delírio, a interlocução delirante, o abandonar sem mais nem menos, diálogo e volúpia, a política de Deus, do significante no real e do milagre do uivo, o fato psiquiátrico primeiro, o discurso da liberdade, a paz do enaltecer, a topologia subjetiva, da rejeição de um significante primordial, um gêmeo cheio de delírio, o dia e a noite, a carta. Na terceira parte trata sobre o significante e o significado, abordando a questão histeria, do mundo pré-verbal, pré-consciente e inconsciente, signo, traço, significante, uma histeria traumática, o que é uma mulher, Dora e o órgão feminino, a dissimetria significante, o simbólico e a procriação, Freud e o significante, o significante como tal não significa nada, a noção de estrutura, a subjetividade no real, como situar o inicio do delírio, os entre-eu, dos significantes primordiais e da falta de um, uma encruzilhada, significantes de base, um significante novo no real, aproximações do buraco, compensação identificatória, secretários do alienado, a leitura, o assassinato das almas, as implicações do significante, os homenzinhos, as três funções do pai, metáfora e metonímia, As gerbe n´etait point avare ni haineuse, a verdade do pai, a inversão do significante, sintaxe e metáfora, a afasia de Wernicke, articulação significante e transferência do significado, afasia sensorial e motora, o vinculo posicional, toda linguagem é metalinguagem, pormenor e desejo, Freud no século, as imediações do buraco, apelo, alusão, a entrada na psicose, tomar a palavra, loucura do amor, a evolução do delírio, o ponto de basta, sentido e escansão, laçada e segmentação, sim eu venho em seu templo, o temor a Deus, o pai ponto de basta, tu és aquele que me seguirás, o outro é um lugar, o tu no superego, devolução e constatação, a via média, o apelo do significante, a estrada principal e o significante ser pai, formar hiâncias, o verbo ser, do tu ao outro, a tartaruga e os dois patos, a entrada na psicose, o falo e o meteoro, prevalência da castração, Ida Macalpine, simbolização material e sublimação, o arco-íris, inserido no pai, entre outros temas. Veja mais aqui e aqui.
REFERÊNCIA: LACAN, Jacques. O seminário: as psicoses. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.


ANTÍGONA DE SÓFOCLES – O CORO - Amor, invencível Amor, tu que subjugas os mais poderosos; que repousas nas faces mimosas das virgens; tu que reinas, tanto na vastidão dos mares, como na humilde cabana do pastor; nem os deuses imortais, nem os homens de vida transitória, podem fugir a teus golpes; e, quem for por ti ferido, perde o uso da razão! Tu arrastas, muita vez, o justo à pratica da injustiça, e o virtuoso ao crime; tu semeias a discórdia entre as famílias...  Tudo cede à sedução do olhar de uma mulher formosa, de uma noiva ansiosamente desejada; tu, Amor, te equiparas, no poder, às leis supremas do universo, porque Vênus zomba de nós!ANTÍGONA DE SÓFOCLES – Antígona é uma das grandes tragédias escritas há mais de 2 mil e 500 anos pelo dramaturgo grego Sófocles, colocando o confronto entre a coragem da princesa Antígona e a tirania do rei déspota Creonte. A tragédia trata dos filhos de Édipo, os irmãos Polinices e Etéocles, que se atraiçoam e reciprocamente se matam pelo poder, restando apenas da linhagem edipiana as duas filhas Antígona e Ismenia. Com a morte dos irmãos, assume Creonte o poder, uma vez cunhado de Édipo e tio de seus filhos, indignado com Polinices e honrando a memória de Etéocles. Por isso, lança édito condenando Polinices ao relento sem sepultamento, o que leva Antígona a se indignar e descumprir suas ordens. Indignado com Antígona Creonte planeja uma morte dolorosa e lenta, determinando que fosse levada a sua última morada, para se juntar com o que ela venerava: os mortos. Após esse desfecho, Creonte ouve do adivinho Tirésias o que poderia acontecer se concretizasse todo o seu ódio em relação à filha de Édipo.Com receio que suas premonições se realizassem Creonte vai ao local onde mandou aprisionar Antígona, chegando à tumba encontra ao lado do corpo dela o de seu filho, que num ato de revolta volta-se contra seu pai e não conseguindo aplacá-lo, suicida-se. Não bastando à morte do filho sua esposa ao tomar conhecimento do fato também suicida. (Tradução de J. B. Mello e Souza). Veja mais aqui e aqui.
REFERÊNCIA: SÓFOCLES. Antígona. São Paulo: W. M. Jacnson Inc, 1969.

CARTAS NA RUA – [...] Acho que era meu segundo dia como empregado temporário de Natal quando essa enorme mulher apareceu e ficou me acompanhando enquanto eu entregava cartas. O que quero dizer enorme é que sua bunda era enorme e suas tetas eram enormes e que ela enorme em todos os lugares em que devia ser. Ela me pareceu meio doida mas eu fiquei olhando pro seu corpo e não me incomodei. [...] A porta se abriu e ela veio correndo, usava umas dessas combinações transparentes sem soutien. E umas calças azul-escuro. O cabelo desfeito e espetado como se tentando fugir da cabeça. Algum tipo de creme lambuzava o rosto, especialmente debaixo dos olhos. O seu corpo era branco como se o sol jamais tivesse tocado sua pele e seu rosto tinha um aspecto nada saudável. Sua boca se pendurava, aberta. Usava um risco de batom e era bem torneada de cima a baixo... [...] Ela estava de pé bem junto de mim. Agarrei-a pela bunda e mergulhei de boca. Os peitos balançando bem junto, ela toda junto de mim. Ela levantou a cabeça e afastou-a de mim: - Tarado! Tarado! Tarado! Com a boca alcancei um de seus peitos, fiquei nele um pouco e depois mudei para o outro. – Estupro! Estupro! Estou sendo estuprada! E ela estava certa. Puxei as calças, abri o meu zíper e liberei o ganso. Enfurecido, enfiei, e fomos andando até o sofá. Caímos bem no meio. Ela abriu bem as pernas! – Estupro!, gritou. Acabei logo, fechei o zíper, apanhei a mala do correio e saí enquanto ela ficava absorta olhando o teto...[...]. Trechos extraídos da obra Cartas na rua (Brasiliense, 1983), do escritor estadunidense nascido na Alemanha, Charles Bukowski (1920-1994). Veja mais aqui.

O CONFESSIONÁRIO DO PADRE BIDIÃO – Depois da recuperação da Prazeres do Céu, dada cientificamente como um caso perdido por se encontrar acometida por uma depressão crônica que lhe corroía a vida, tornando-se, depois de um eficiente tratamento com o Padre Bidião, na saltitante e feliz mulher de todos os dias, invejada e sedutoramente transformada numa mulher fatal cobiçada por todos os marmanjos de queixo caído com sua passagem, afora o resultado exitoso do retiro realizado no último carnaval, do qual todas as barangas e trubufus inscritas, retornaram feito mulheres fatais dispostas a tudo no trato com o marido, filhos e nas lides domésticas, foi o bastante para ventilar-se a plenos pulmões o boato da terapia salvadora promovida pelo pároco. Oxe, não deu outra. Quem presenciou já na quarta-feira de cinzas e nos dias subsequentes, o retorno das distintas senhoras elegantemente felicíssimas aos seus lares depois de cinco dias no retiro, foi o bastante para que todas as senhoras e senhoritas acorressem em massa para o templo bidiônico, com o fito de realizarem a qualquer custo o tratamento ministrado. Foi uma balbúrdia que quase tira do sério a infatigável e pacienticíssima Prazeres, administrando uma a uma das candidatas. Pra se ter uma ideia, tinha de tudo: de meninas que mal desabrocharam os peitinhos às maduras sexagenárias, sem contar com a quase centenária Bastianita, uma distinta macróbia com as suas longevas noventa e oito primaveras, lá no fim da fila, levando a Prazeres a inquirir: Mas o que a senhora está fazendo nessa fila, hem? Ah, minha filha, eu também mereço ser feliz, ora, ora. O ambiente todo foi coberto por gargalhadas que já imprimiam a qualidade superior de vida que reinava no recinto, tudo inspirando uma paz interior e uma satisfação de encontrar ali a realização de todos os seus sonhos. Prazeres atendeu uma a uma e expôs os requisitos que não eram muitos, bastando que se apresentassem dispostas a serem curadas de suas enfermidades, ficando incomunicáveis durante determinado período que seria definido após a primeira sessão com o padre, contanto que se levassem em suas malas apenas peças que fossem vestidos ou blusas e saias, nada de calças compridas, nem bermudas. Para o tratamento tornava-se indispensável e regras irrecorríveis, apenas para aquelas que dispusessem de vestidos e saias, mais nada. Tudo conforme, cada uma das inscritas foram dispensadas, regressando no dia seguinte com as exigências atendidas, do contrário seriam eliminadas e aguardariam uma nova abertura de inscrições ou no próximo semestre, ou no ano seguinte, apenas. Todas cumpriram à risca. Seis meses depois, o milagre! Todas reapareceram como se fossem, cada uma, novas mulheres, cheias de vidas e sorrisos, até a Bastianita havia dispensado a moleta e com ares de mocinha namoradeira, exibindo uma minissaia e um decote de causar inveja em debutantes. Os homens entreolhavam-se uns aos outros, todos querendo saber o segredo do padre. Ah, o segredo, eu mesmo procurei saber e o padre só mudando de conversa. Não tem quem consiga adivinhar o que seja, já se fez tudo para descobrir e não se tem a mínima ideia de tão secreto que é. Até hoje o tratamento é ministrado e sequer uma pista mínima se conseguira para saber como se processa tal terapia. Esse Padre Bidião tem cada uma. Veja mais aqui e aqui.

POEMAHavia um homem com uma língua de madeira / que tentava cantar / e na verdade era deplorável. / Mas houve um que ouviu / os estalos dessa língua de madeira / e entendeu o que o homem / queria cantar / e com isto o cantor ficou feliz. Poema do escritor e jornalista estadunidense Stephen Crane (1871-1900).

A arte do artista plástico polonês Krzysztof Lozowski.


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CRÔNICA DE AMOR POR ELA

Leitora manifestando parabéns pro Tataritaritatá!

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