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sexta-feira, setembro 07, 2012

ALMUDENA GRANDES, MURILO MENDES, DUCHAMP & SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS



SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS - Uma observação atenta do filme "Sociedade dos poetas mortos", remete, então, a duas realidades distintas a se analisar: a primeira, aquela indesejável realidade do estilo educacional tradicionalista, rígida, burocrática, tradicional; e a segunda, a de um professor que num cenário adverso e obsoleto, introduz uma atitude participativa, emancipatória, democrática. Em primeira observação, convém tratar o formato tradicional pedagógico, notadamente explicitado através da Academia Welton, que apresentava os seus pricípios básicos pautados na tradição, na honra, na disciplina e na excelência. Esse modelo pedagógico está identificado na forma de trabalhar a partir dos obstáculos, onde o homem é apenas adestrado para a produção, não sendo levada em conta as habilidades intelectuais e nem as condições humanas. Dessa forma, o mundo é visto como algo pronto que é traduzido pelo conhecimento sistematizado e acumulado ao longo dos anos e é essencialmente externo ao indivíduo e constituído de verdade universal. Ademais, a visão de um homem ideal, desvinculado de sua realidade concreta, e tudo fornecido através de uma tábula rasa onde são impressas as informações e conteúdos universalmente consagrados. Nesse formato, o conhecimento é caracterizado pela aquisição de conteúdos culturais transmitidos de fora, pois são eles que vão conformar a personalidade individual. Dessa feita, há uma preocupação com os modelos, as grandes obras literárias, científicas e artísticas, donde, memorizando os modelos, o aluno poderá recorrer a eles para guiar-se, na vida moral e intelectual, quando for adulto. O objetivo central desse modelo é conduzir o aluno ao conhecimento da verdade universal, para a qual ele deve estar disponível. A metodologia preconizada se compõe da exposição e demonstração feitas pelo professor, os donos da verdade, onde o aluno atua como receptor das verdades universais que lhe são transmitidas. Essa relação se dá entre professor e aluno de forma essencialmente marcada pela verticalização, onde o professor é o detentor de todo o saber, programa, recursos e controles que partem de si para o aluno que os recebe passiva e acriticamente. Disso, pode-se apreender dessa realidade, uma educação centrada na transmissão do conhecimento e no processo de assimilação do conhecimento hstoricamente acumulado, tendo-se a escola como uma instituição social encarregada do processo de socialização, transmissão de informações e da cultura. O ensino-aprendizagem é efetuado através da mera transmissão e aquisição de informações, subordinando a educação à instrução e ao verbalismo e memorização. A relação professor-aluno, como visto e constatado no filme, é desenvolvida de forma autoriária, unilateral, vertical do profesor para o aluno, professor ser mediador entre cada aluno e os modelos culturais, não havendo interação entre os alunos. Uma metodologia feita no tipo aula expositiva e demonstração feita pelo professor, exercício de memorização por parte do aluno, motivação extrínseca que depende do professor um método para ensinar a todos. E para avaliação, provas-exame, que visa a exatidão na reprodução do conteúdo transmitido, exame como fins em si mesmos, e sua sucessão funcional na sociedade como meio de ascensão social.
É necessário acrescentar que esse modelo se faz presente até hoje nos recintos escolares do Brasil, acrescido de duas outras formatações pedagógicas oriundas do escolanovismo e do tecnicismo educacional.
À guisa de ilustração, a pedagogia escolanovista se desenvolveu reunindo uma série de preceitos pedagógicos oriundos da teoria funcionalista, que teve como exporentes Dewey, Montessori e Piaget; da cognitivista, baseada em Bruner e Ausubel; da humanista, centrada em Rogers; e da tecnicista, baseada em Tyler e Taba. Com a pedagogia nova o homem passou a ser dotado de poderes individuais, quais sejam liberdade, iniciativa, autonomia e interesses; o homem-mundo estão em intereção e atualização, uma vez que o homem se atualiza com o mundo, com isso também transforma o mundo. A realidade passa a ser um fenômeno subjetivo que, percebido e experimentado pelo homem, é reconstruído em si mesmo o mundo exterior, a partir dos significados que lhe são dados. Esse conhecimento abstrato é construído a partir da experiência, não existindo modelos prontos, nem regras a seguir, mas um processo de vir-a-ser, o que resulta como significado ao conhecimento é a experiência da pessoa. Cabe, portanto, ao homem o papel central na elaboração e criação do conhecimento.
A visão tecnicista que foi introduzida via pedagogia nova, privilegia o aperfeiçoamento dos métodos de ensino, a racionalização do trabalho do professor, tendo como referência o ritmo de aprendizagem diferenciado, portanto, centrado no individual, articulada com as transformações ocorridas a partir da influência do taylorismo no interior das escolas, reformando os recursos materiais, os procedimentos de ensino, a divisão social do trabalho no interior do processo educacional com a presença de supervisor, coordenador, orientador, professor, enfim, toda a parafernália dos métodos e recursos importados e transplantados para a educação.
Nessa perspectiva é necessário entender que a tendência liberal tecnicista subordinou a educação à sociedade, tendo como função a preparação de recursos humanos, ou seja, de mão-de-obra para a indústria, com as bases teórico-metodológicas na aprendizagem que se detinha nos objetivos instrucionais predefinidos e tecnicamente elaborados; na teoria da comunicação, na transmissão da mensagem instrucional com vistas a atingir objetivos previamente estabelecidos; na teoria de sistemas, na racionalização do processo ensino-aprendizagem, saída e retro-alimentação; e na psicologia behaviorista, reundando na engenharia comportamental, na ergonomia, na informática e na cibernética. Toda essa sustentação teórica está assentada na abordagem filosófica neopositivista e no método funcionalista.
No meio desse ambiente, o filme faz aparecer a figura de John Keating, um laureado professor que surge para substituir um outro que se aposentara. O modelo que esse professor insinua já em 1959, ano em que ocorre a ação do filme, se aproxima da moderna pedagogia que recebe uma variada nomenclatura, inserida sob a denominação de pedagogia da autonomia, emancipadora, pluralista, problematizadora ou cidadã. Esse modelo pedagógico parte da discussão de que não há educação e aprendizagem sem sujeito da educação e da aprendizagem, e se configura nos confrontos sociais e políticos, ora como um dos instrumentos de conquista da liberdade, da participação e da cidadania, ora como um dos mecanismos para controlar e dosar os graus de liberdade, de civilização, de racionalidade e de submissão suportáveis pelas novas formas de produção industrial e pelas novas relações sociais entre os homens. IsSo quer dizer que ela coloca ênfase na educação para a cidadania e se alimenta de uma concepção da história como progresso inexorável da barbárie à civilização, da miséria à felicidade de todos, da exploração à liberdade, processo que se consuma na sociedade industrial-capitalista moderna (ARROYO 1996; GADOTTI., 2000).
Por outro lado, Mello (1998), observa que "não se trata mais de alfabetizar para um mundo no qual a leitura era privilégio de poucos ilustrados, mas sim para contextos culturais nos quais a decodificação da informação escrita é importante para o lazer, o consumo e o trabalho".
Apesar de haver sido construído já esse modelo no Brasil, na década de 50, através dos trabalhos pedagógicos desenvolvidos por Paulo Freire, interrompidos durante os anos ditatoriais, tal formato pedagógico vem ganhando corpo desde a Constituição Federal de 1998 que possibilitou a edição da Lei 9.394/96 que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional brasileira.
O que realça dessa tentativa no desenvolvimento desse processo pedagógico, é a utilização de discussão, relatos de experiência, assembléia, pesquisa participante, trabalhos em grupo e outros recursos, onde o professor passa a ter uma atuação como coordenador e animador de grupos. A visão de mundo não é separada da visão de homem. A realidade/mundo que o homem vê, num primeiro momento pode ser uma visão ingênua, no entanto, a visão crítica do mundo se dará mediante a aproximação com a realidade, quando, para tal, torna-se uma consciência da mesma e neste processo crítico o homem toma uma posição epistemológica, ou seja: posição de elaborador e construtor do mundo percebido.
Freire (1980) defende que "A realidade não pode ser modificada senão quando o homem descobre que é modificável e que ele pode fazê-lo". E a partir disso, desenvolver uma relação horizontalizada entre professor e aluno, através de um posicionamento crítico de investigação da realidade ao redor, democratização na instituição escolar incluindo a comunidade, a busca incessante pela inclusão e a globalização do currículo através de uma ação interdisciplinar e transversalizada dos conteúdos e competências a serem ministrados na sala de aula, seja na educação básica, envolvendo o ensino fundamental e médio, até o profissional e o superior.
A lição que fica do filme "Sociedade dos Poetas Mortos", são duas: a primeira, a de quão abjeta se torna a arcaica modelagem tradicional pedagógica que ainda hoje insiste em se ocupar nos estabelecimentos educacionais; a outra, a da luta persistente que o professor, enquanto articulado com a sua atualidade e com o seu meio, deve insistir na recuperação de um processo que se encontre sempre pautado na horizontalidade, na igualdade, na participação, na emancipação e na democratização em todos os níveis educacionais.

BIBLIOGRAFIA:
ARROYO, Miguel. Educação no Brasil: para quem? Para onde? Brasília: Revista de educação da CNTE, 3:III, dez/96
FREIRE, Paulo. Conscientização: teoria e prática da libertação. São Paulo: Moares, 1980.
GADOTTI, Moacir. Perspectivas atuais da educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000
GENTILI, Pablo. Pedagogia da exclusão: crítica ao neoliberalismo em educação. Petrópolis: Vozes, 1995
MELLO, Guiomar Namo. Cidadania e competitividade: desafios educacionais do terceiro milênio. São Paulo: Cortez, 1998 
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DITOS & DESDITOS - Devo ter algo para absorver meus pensamentos, algum objeto na vida que preencherá esse vácuo e evitará esse triste desgaste do coração. Minha esperança aumenta quando descubro que o coração interior de um ser humano pode permanecer puro, apesar de alguma corrupção de seus invólucros externos. Pensamento da médica estadunidense Elizabeth Blackwell (1821-1910), que foi a primeira mulher a se formar e exercer a medicina no seu país, pioneira em promover a entrada de mais mulheres na área de estudo e uma reformista e abolicionista. Sobre a profissão ela expressou: Uma parede em branco de antagonismo social e profissional enfrenta a mulher médica que configura uma situação de solidão singular e dolorosa, deixando-a sem apoio, respeito ou conselho profissional. A medicina é um campo tão amplo, tão intimamente ligado aos interesses gerais, lidando como o faz com todas as idades, sexos e classes, e ainda de caráter tão pessoal em suas apreciações individuais, que deve ser considerada como um daqueles grandes departamentos da trabalho em que a cooperação de homens e mulheres é necessária para cumprir todas as suas necessidades. Sobre as mulheres: A clara percepção do chamado providencial às mulheres para que participem plenamente do progresso humano sempre nos levou a insistir em uma educação médica completa e idêntica para nossos alunos. Desde o início na América, e mais tarde na Inglaterra, sempre nos recusamos a ser tentados por ofertas capciosas que nos estimulavam a nos satisfazer com uma instrução parcial ou especializada. Veja mais aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: O tolo, quando erra, queixa-se dos outros; o sábio queixa-se de si mesmo. Pensamento do filósofo grego Sócrates (470-399aC). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

A ARTE & O ARTISTA[...] O artista nunca tem plena consciência de sua obra: entre as suas intenções e a sua realização, entre o que quer dizer e o que a obra diz, há uma diferença. Essa “diferença” é realmente a obra. Pois bem, o espectador não julga o quadro pelas intenções de seu autor, mas pelo que realmente vê; esta visão nunca é objetiva: o espectador interpreta e “refina” o que vê. A diferença se transforma em outra diferença, a obra em outra obra. [...] A obra faz o olho que a contempla – ou, ao menos, é um ponto de parida: desde ela e por ela o espectador inventa outra obra. [...]. Trechos extraídos da obra O ato criador/A nova arte (Perspectiva, 2008), do artista francês Marcel Duchamp (1887-1968). Veja mais aqui e aqui.

 

A ARTE, A MEMÓRIA E O ESQUECIMENTO[...] Diante do desafio da representação da catástrofe, os artistas vem utilizando o branco de forma bastante crítica: inferindo ao silêncio, à indizibilidade, à impossibilidade ou precariedade da fala causadas pelo trauma. Apoiado na estratégia da fragmentação, o uso do branco assume uma postura dialética evocando a memória do espectador. Além disso, nesses discursos são atestados e denunciados os esquecimentos: os brancos e veladuras da história, a amnésia social. Como poética do desaparecimento, o branco infere ainda aos desaparecidos políticos, à ausência no espectral. Mas, todas elas ligadas ao esquecimento, a memória do apagamento, a fragmentação das memórias. Tanto na escrita ou na imagem possuem a meta semelhante de dar visibilidade ao invisível. [...]. Trecho extraídos da dissertação de mestrado Imagens de memória/esquecimento na contemporaneidade (EBA/UFMG, 2012), da professora e pesquisadora Alice Costa Souza, na qual expressa que: A arte, ao misturar-se com a vida, atende ao dever de memória exigido após a Shoah e desenvolve estratégias diante do desafio da representação da catástrofe. Para isso, é fundamental compreender a relação complexa com a temporalidade pela qual passou o século XX até chegar à cultura de memória e à abertura dos arquivos proibidos. Se a história recente mostrou grandes apagamentos, a arte demonstra que a imagem a elaborar-se é a de um par indissociável: memória/esquecimento. As estratégias que se esboçaram revelam essas negociações tensas com a história: fragmentação da linguagem, atrair pela angústia, presentificação, e a inserção da palavra na arte. Destacou-se também o uso frequente da poética do branco em tais imagens. As obras de Rosângela Rennó e, entre outros artistas, foram essenciais nessa análise. Veja mais aqui e aqui.

 

DAS CATÁSTROFES – [...] O evento catastrófico é um evento singular porque, mais do que qualquer fato histórico, do ponto de vista das vítimas e das pessoas nele envolvidas, ele não se deixa reduzir em termos do discurso. Trechos extraídos da obra O Local da diferença: ensaios sobre memória, arte, literatura e tradução (Ed. 34, 2005), do professor, tradutor, teórico e crítico literário Márcio Seligmann-Silva.

 

CASTELOS DE PAPELÃO – [...] Fomos felizes andando na corda bamba, florescemos em uma infecção de contradições, nos encontramos em um labirinto de paradoxos sem nunca olhar para o chão, sem nunca olhar para o céu, sem olhar. [...]. Trecho extraído da obra Castillos de carton (Tusquets, 2009), da escritora espanhola Almudena Grandes Hernández (1960-2021), que em outro texto, Do mundo, da vida, extraído das Cartas peninsulares (Mary S. Vasquez, 2000, vol. 13), assinala que: [...] Acredito que há apenas um mundo, e uma realidade, que cada um de nós contempla de uma posição única e intransferível dependendo das feridas, e dos prêmios, com os quais a vida nos marcou. [...]. Ela também é autora do livro Atlas de geografia humana (Tusquets, 2002).

 

BERENICENo teu corpo reacende-se a estrela apagada, / A água dos mares circula na tua saliva, / O fogo se aquieta nos teus cabelos. / Quando te abraço estou abraçando a primeira / mulher. / Sol e lua, / Origem berço cova. / Teu corpo liga o céu e a terra, / Teu corpo é o estandarte da voluptuosa vitória. / Teu nome reconcilia dois mundos. Poema extraído da obra Poesia completa e prosa (Nova Aguiar, 1994), do poeta e prosador do Surrealismo brasileiro, Murilo Mendes (1901-1975). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


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segunda-feira, julho 16, 2012

BÉNÉDICTE HOUART, MARUŠA KRESE, BIRMAN & BIRITOALDO


BIRITOALDO APAIXONOU-SE POR AMY WINEHOUSE – O Biritoaldo nunca deu certo com as mulheres, nenhuma delas deu-lhe a chance de ser amada por ele, muito menos se deram ao respeito de ouvir suas melosas declarações quando assolado por paixonite aguda nos momentos mais patéticos.

Eis que, no meio da maior monotonia do BigShitBôbras e se sentindo completamente repudiado por elas, encontrou uma foto de Amy num monturo de lixo do casarão. – É ela! -, disse de si para sem se conter de tanta satisfação. – É ela, o amor da minha vida!

Ele parecia enlouquecido de paixão pela Amy e saiu tomando providências para encontrá-la, seja onde estivesse. Pediu esmolas, juntou ninharias, suplicou a todos, foi pros pés do padre que lhe disse: - Meu filho, você não está muito bem das bolas, Deus tenha piedade de ti. Foi pro pastor de crente da primeira esquina que logo lhe dispensou: - Jesus tenha pena de você. Chegou no Pai de Santo: - Meu fio, cê num si manca? E ao deitar mesa branca, logo ouviu: - Venha, meu amor, sua Amy lhe espera.

O cara se desesperou: eu amo Amy, eu quero Amy, vou casar com Amy, minha vida é a Amy. Até que um dia, não aguentando mais seu sofrimento, chegou na praç pública e berrou: - Eu quero foder com a Amy Winehouse!!!!

Foi quando alguém viu a foto que ele estava agarrado ao peito e gritou: - Oxe, doido, a Amy morreu repentinamente há mais de ano, drogada e irreconhecível!

Teve um troço. Chorou oito dias e oito noites. Recolheu-se ao local mais recôndito da localidade de quase mais ninguém vê-lo. Ainda ontem vi-lo com uma mão dos dedos enfiado no cu e a outra na boca. E sempre mudando de posição: da boca pro cu, do cu pra boca. Dá tristeza ver o estado dele, também, irreconhecível.


Veja mais Veja mais aqui, aquiProezas do Biritoaldo e do BigShitBôbras.

 


DITOS & DESDITOSSe a sociedade não admite o livre desenvolvimento da mulher, então a sociedade deve ser remodelada. Não é fácil ser um pioneiro - mas, ah, é fascinante! Eu não trocaria um momento, mesmo o pior momento, por todas as riquezas do mundo. Pois o que é feito ou aprendido por uma classe de mulheres torna-se, em virtude de sua feminilidade comum, propriedade de todas as mulheres. Pensamento da médica inglesa Elizabeth Blackwell (1821-1910) que se tornou a primeira mulher a se formar e exercer a medicina nos Estados Unidos. Veja mais aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: E se a literatura fosse um animal que arrastamos ao nosso lado, noite e dia, um animal doméstico e exigente, que jamais nos deixasse em paz, que fosse preciso amar, alimentar, levar para passear? Quando se ama um cachorro e ele o ama, a infelicidade está na falta de sincronia entre a vida humana e a vida animal. Pensamento do escritor e jornalista francês Roger Grenier (1919-2017).

 

HOMEM & MULHER - [...] a figura do masculino seria em si mesma mais evidente que a do feminino. Esta seria marcada pelo velamento e pela obscuridade. No que tange a isso, aliás, o discurso freudiano sobre a mulher sempre evocou o enigma da feminilidade. A feminilidade enquanto tal seria algo, pois, da ordem do enigmático e do quase indizível. Isso quer dizer, portanto, que a figura da mulher estava sendo concebida por Freud como inconsistente e obscura. [...] Tudo isso nos indica, portanto, uma transparência evidente da figura masculina – na representação teórica do discurso freudiano, pelo menos – e uma obscuridade patente da feminina. O que transformaria, enfim, o ser da mulher em enigma. [...] Trechos extraídos da obra Gramáticas do Erotismo – A feminilidade e suas formas de subjetivação em psicanálise (Civilização Brasileira, 2001), do psiquiatra e psicoterapeuta Joel Birman. Veja mais aqui.

 

MODERNIDADE & HOLOCAUSTO - [...] um evento que revelou a fraqueza e fragilidade da natureza humana (a abominação do assassinato, a aversão à violência, o medo da consciência culpada e a responsabilidade pelo comportamento imoral) quando confrontada com a simples eficiência dos mais acalentados produtos da civilização; sua tecnologia, seus critérios racionais de escolha, sua tendência a subordinar pensamento e ação à praticidade da economia e da eficiência. [...] Em matéria de ética e moralidade a situação do indivíduo no Estado moderno é em princípio rigorosamente equivalente à do prisioneiro em Auschwitz: ou age de acordo com os padrões dominantes de conduta impostos pelos que detêm a autoridade ou se arrisca a todas as consequências que eles queiram infligir [...]. Trechos extraídos da obra Modernidade e Holocausto (Zahar, 1998), do sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017). Veja mais aqui e aqui.

 

TODOS OS MEUS NATAIS, TODA A MINHA VIDA - Na verdade, ele já pode estar morto. Pelo menos, eles dizem isso. Ando pelas ruas de Berlim. As vitrines brilham como se as lojas estivessem abertas pela última vez, como se amanhã fosse o fim do mundo, como se as pessoas nunca tivessem comprado nada. Lágrimas escorrem pelo meu rosto. Todos os meus Natais, toda a minha vida, todos os meus filhos, todas as noites que passei fazendo bolo e preparar presentes. Toda a alegria dos presentes, toda aquela dorzinha de abri-los, a espera à luz das velas da árvore de Natal e todas as perguntas com o olhar pregado no vazio: e agora? Estou sozinho em Berlim. Eu deveria fazer uma viagem para mim, a uma distância de mais de mil quilômetros: não quero voltar. Uma vez eu queria ficar sozinho finalmente. Trecho extraído da obra Todas mis Navidades (Mladinska knjiga, 2006), da escritora e jornalista eslovena Maruša Krese (1947- 2013).

 

VIDA: VARIAÇÕES - portanto por vezes os afogados voltam à tona de água pois desejam de novo atirar-se ainda não esgotaram o desespero ainda não esperam completamente ainda temem que nada chegue não sabem ainda que já ninguém virá que mesmo o mergulho foi em vão que tudo a água lava, só a vida não / depende dos dias dizem um dia mais e outro menos e embora a dor nunca me abandone a alegria também não e embora eu já não saiba distingui-las e embora outras coisas poucas ou nenhumas que um dia destes descreverei ou muito certamente não / na minha bicicleta enquanto pedalo compenetrada recito palavras que me impressionaram deveras porém ao ritmo das minhas pernas não propriamente muito regular breves travagens bruscas acelerações tirando as mãos do guiador para segurar o livro que invejo outro movimento igual se impõe ao qual não sei como resista perderão gorduras ganharão massa muscular esses insistentes poemas de modo algo peculiar compostos instantes para durar ou pelo menos para ir rodando pelas estradas da vida rebolando tanto é o terreno por desbravar / de modo que sim vamos reunindo certidões certificados declarações todas bem copiadas e conformes assinadas seladas recomendadas como se sofrêssemos de alzheimer desde crianças ou, enfim, na eventualidade de tal acontecer de qualquer modo estávamos tramados só não o sabíamos que a única coisa que não podíamos de todo reunir éramos nós, me, I, and myself, together / mulher alguma é melhor do que mulher nenhuma dizia o meu avô que morreu esquecido num guarda-fatos mulher alguma dispunha as bolas de naftalina e foi assim que o meu avô foi primeiro lembrado pelas traças tudo isto aconteceu há muito tempo mas a alma não esqueceu o nariz reconheceu / são as mulheres que fazem chorar as cebolas como se descascassem a própria vida e, arredondando-se então, descobrissem um corpo, o seu uma vida, a sua mas, no entanto, nada que de verdade pudessem seu chamar ou talvez sim, mas só aquela gota de água salpicando um canto do avental onde desponta uma flor de pano colorida que ainda ontem ali não ardia / sou só uma menina magoada por amor à tradição eu cá disso nada sei gosto de brincar com as minhas bonecas no chão de terra batida onde as penteio eu cá disso sei quase tudo um dia, dizem, pertencerei a um homem a quem chamarei de marido, mas nunca com ele brincarei como quando fui feliz antes de para sempre o sexo me açaimarem de ninguém mulher tornaram-me / há as boas para casar e há as boas para foder e depois há-as tão boas que só vê-las que não são nem carne nem peixe talvez seres anfíbios a dois passos de se perderem a dois passos de se encontrarem as que nos fogem dos braços logo que as classificamos logo que as comemos / nem todos os homens que saem de minha casa saem da minha cama nem todos aqueles que saem da minha cama saem de dentro de mim nem todos os que saem de dentro de mim chegaram sequer a lá entrar não, nada é tão líquido assim. Poemas extraídos da obra Vida: variações (Cotovia, 2011), da poeta belga Bénédicte Houart. Veja mais aqui.

 

A ARTE DE BERNA REALE

A arte da artista visual Berna Reale, que usa seu corpo em performances e instalações propondo reflexão sobre o momento sociopolítico contemporâneo com especial ênfase na temática da violência. Veja mais aqui.

 


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TATIANA DE ROSNAY, VERONIKA KIVISILLA, NIALL FERGUSON & MARIA LAURA LOPES

  Imagem: Fluxo dos devires , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula porcina na cabeça!... -...