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terça-feira, agosto 07, 2018

HILDA HILST, TENNYSON, ADONIRAN, LOQMAN, BOURDIN & DYOGENES CHAVES


FARRA NO CEMITÉRIO – O Biriteiros Esporte Clube finalmente foi criado. Depois de muita remoeta por assembleias infindáveis, conseguiu-se quórum com todos os associados em pé e concordantes do número inicial de membros: vinte apreciadores rigorosamente testados como embeiçadores do aperitivo. Demorou um pouco, não só pelo número variado de espécies que vão desde a pura e simples pinga, a todo e qualquer tipo de raiz de pau, birita e pau de índio, principalmente a mais apreciada e principal culpada pelo constante adiamento, a teibei – essa, pra quem não sabe, quando o tomador não envulta por meses, fica pelo menos aluado e com o juízo tostado por uns quinze dias de efeito. Explicada a demora da fundação, era chegada a hora de eleger a mesa organizadora que o negócio foi levado a sério e como manda o figurino. A primeira entre as inúmeras exigências, estava a declaração assinada de próprio punho pelo cônjuge do cachaceiro, reconhecendo, autorizando e admitindo que o portador da carteirinha da agremiação, estava devidamente apto a tomar todas, ficar bicado e protegido juntamente com as crianças e os doidos por Deus – o que valeria dizer que nenhum deles seria jamais vítima de arengas, satisfações, corneamento, ou de ataques de caçaroladas, mão-de-pilão, vassouradas, ou outros indesejáveis artefatos que fossem capazes de denegrir a integridade física e moral do afiliado -, bem como não fazer cara feia ou reprovar o envolvimento dos portadores com saias e outras libidinosas conjugações – excetuando-se viadagem que estava terminantemente proibida sob pena de exclusão automática do quadro. Votada e aprovada, protestos emergiram pela discriminação contra solteiros e separados, o que valeu muita hora de quebra-de-braço e insatisfação até agora. Para tapear a celeuma, passaram para a segunda exigência, passar no teste da goma para reiterar a cláusula anterior e entrar no cemitério meia noite para encarar a Mulher da Sobrinha. Como nem todo mundo tinha as devidas pregas do procto no devido lugar –, na verdade, o problema era a aferição, ninguém enxergava direito de tão chumbado – resolveu-se, depois de todo mundo imprimir o bocal da quartinha na terra para conferência posterior, passar pra outra provando com a bunda cheia de terra, o que, na horagá, nem todos, aliás, nenhum deles tinha homência suficiente de encarar sozinho essa empreitada tétrica, decidindo-se unanimemente por uma farra no cemitério. Assim, tanto fechavam questão, como deixavam tudo preto no branco, já que não se podia mais recorrer da decisão, nem hoje nem nunca mais. Já se organizavam na porta, quando Afredo que era doido por carne de bode, foi excluído do clube, o que fez com que ele peiticasse com Mamão para se tornarem cheleleus da trupe. Amuado, só depois de muito puxencolhe é que Mamão aceitou. Então passaram a peruar o batalhão frouxo aparentemente destemido, oferecendo-se por cobaias na prova dos comes e bebes para que nenhum sofresse qualquer atentado. Por conta disso ambos angariavam alguns pedaços de bode, discutindo se era mesmo de qualidade, ou se era carneiro ou cabrito: só passava no teste aquela carne que mantivesse o gosto do mijo. Do contrário, era rejeitada: Bode guisado ou assado que se preze tem que ter gosto de carne mijada. Como não saciavam, Afredo atentou o juízo do Mamão a praticar pequenos furtos no açougue de seu Pulinha, um ancião bem mão de figa. Esperavam descuido ou saída do açogueiro e logo se apropriavam do que podiam: pedaços de costelas ou outras partes. Não dava pro consumo dos dois famintos. No dia da farra dos biriteitos, Mamão achou mole um bode estirado, sacudiu-lo na cacunda e saiu na maior carreira pro local acertado. Era meia noite em ponto quando todos os vinte associados presentes, todos torando o maior aço, esperavam pela Mulher da Sombrinha, fizeram uma invocação conjunta pela presença da dita dama do outro mundo e, justo nessa hora, Mamão sacudiu o bode sobre a mesa aos gritos pro Afredo: Corre que hoje vai ser a maior comilança! Não deu tempo nem dele terminar a frase, até ele mesmo partiu com mais de mil com a carreira dos outros, tudo de cabelo em pé e de pelos arrepiados do gogó, braços, pernas, sovacos e até os pentelhos da virilha, da bunda e do o osso do mucumbu. Não foi dessa vez o cumprimento da tarefa, havia de desafogar os temores, limpar a merdaria toda e marcar uma nova data para vigência total da sociedade. Passaram a exercitar a tripa gaitera para que ela não afrouxasse na hora do susto e, assim, garantirem tudo limpinho nos fundos da prova geral. Não é lá muito fácil, vai dias de treinamento para poder aprumarem a conversa direito. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do músico, cantor, compositor, humorista e ator Adoniran Barbosa (1910-1982): Se Assoprar posso acender de novo, com Elis Regina ao vivo, Quinteto Violado, Demônios da Garoa, Ney Matogrosso, Fernanda Takay, entre outros & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Dizia meu avô que quando você encontrar um louco, deixe-o, pois sua própria loucura vai levá-lo à destruição. [...] Cresci e aqueles malucos sumiram [...] Já não se distingue um doido autêntico no meio da multidão, como também não se faz mais “malucos doidos-varridos e lunáticos” como antigamente. A arte de repente ficou sã (e calva). Será? [...]. Trecho extraído da obra Ensaios sobre artes visuais na Paraíba 2005-2010 (2OV4, 2013), do artista visual, gravurista e designer Dyogenes Chaves Gomes.

CARÁTER DA CONTEMPORANEIDADE – [...] O mundo contemporâneo transformou em princípio de funcionamento o que não existia pouco: a diferenciação gratuita que não tem função (utilidade) nem sentido (valor simbólico) e se torna um valor em si, sem outra razão de ser. [...] O modelo urbano dominante repousa sobre uma diferenciação intensa, nas atividades, nos modos de vida, nas identidades, nas crenças, mas sem respeitar a lógica da complementaridade: ela repousa, sobretudo, na afirmação unilateral, na inovação, na gratuidade vibrante, uma espécie de “jogo do jogo” (para tomar a expressão de Jean Duvignaud). Tudo pode se tornar objeto de troca, exclusivamente monetária. A generalização das seguranças introduz a troca em todos os domínios: são definidos esses termos não mais a partir de uma realidade, de um objeto ou de um fato, mas de uma probabilidade, aquela da ocorrência de um acontecimento. [...]. Trechos extraídos da obra Du bom usage de la ville (Descartes & Cia, 2009), do sociólogo francês Alain Bourdin.

O VEADO ENFERMOUm veado adoeceu. Seus amigos vieram visita-lo e comeram toda a erva que havia perto da sua casa. Sarando, o veado procurou do que se alimentar, mas não achou nada, e morreu de fome. Mais se tem parentes e mais se tem inquietudes. Do fabulista persa de vida ignorada Loqman, o sábio.

DOIS POEMAS - FLOR NA MURALHA FENDIDA - Flor na muralha fendida, / eu colho-te das fendas, / seguro-te aqui, raiz e tudo, na minha mão, / pequena flor… mas se eu pudesse compreender / o que tu és, raiz e tudo, e tudo em tudo, / eu deveria saber o que Deus e o homem é. AS LÁGRIMAS DO CÉU - O Céu chora sobre a Terra toda a noite até de manhã, / na escuridão chora como todos os que se / envergonham de chorar; /porque a Terra tornou o seu estado lastimoso / com o mal que se infligiu em anos inumeráveis / e fez por colher o fruto da sua desonra. / E todo o dia o Céu recolhe as suas lágrimas / Para os seus próprios olhos azuis tão claros e profundos, / e chuviscando a glória do dia luminoso e leve / sorri na testa esgotada da terra para ganhá-la se ela quiser. Poemas do poeta britânico Alfred Tennyson (1809-1892). Veja mais aqui.

HILDA HILST PEDE CONTATO
Acaba de ser lançado o documentário sobre a poeta, dramaturga e ficcionista Hilda Hilst (1930-2004), Hilda Hilst pede contato, de Gabriela Greeb e no elento com Luciana Fomschke, Lygia Fagundes Telles, entre outras, reunindo arquivos pessoas, depoimentos, encontros e intervenções, além de revelar a memória e presença na Casa do Sol. Imperdível. Veja mais aqui, aqui e aqui.

AGENDA
I Congresso Internacional de Direito Público dos Direitos Humanos e Políticas de Igualdade – dias 3 a 5 setembro, Rua Sá e Albuquerque, 367 - A, Jaraguá, Maceió – AL & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista visual e fotógrafo francês Guy Bourdin (1928-1991).
Veja mais aqui.
&
Paulo Profeta: 40 anos de teimosia pela arte, o pensamento de Josué de Castro, Boaventura de Sousa Santos & Muniz Sodré, a literatura de Lou Andreas-Salomé & a poesia de Sylvia Beltrão aqui.


domingo, dezembro 10, 2017

TOLSTOI, MARIA GABRIELA LLANSOL, AMBROSE BIERCE, VANESSA BEECROFT, LITERÓTICA, JULIANO PESSANHA, DIREITOS HUMANOS, ARTERÓTICA & PALHAÇO

A arte da artista performática italiana Vanessa Beecroft. Veja mais aqui.

LITERÓTICA: NAQUELA NOITE TODAS AS NOITES - Naquele dia a gente navegou por nossas fronteiras mais arraigadas e se curtiu o dia todo, era o aniversário dela. Logo de manhã eu saboreei sua delícia na cozinha: a comida da comida. De tarde, namoramos todos os mormaços. E quando a noite chegou, eu acendi todas as estrelas com o prêmio da sua língua lua na varanda. Era a festa total, como se todas as noites estivessem nesta noite na rodada de sua saia estampada, mãos na cabeça e sussurros de vontades. Ali, de nós dois, todas as posses e bens despojados varridos pela nossa dança na sala, no quarto, nuvens e céus. Foi quando ela me agarrou com seu beijo Maragogi e me afogou nas ondas do seu corpo. Foi quando ela engatinhou faminta, engolidora de espadas e devoradora de desejos incendiando o meu sexo iluminado que a fazia rodopiar, se entreter e esfomear na cena explícita de nossa explosão pornô e na minha hipofixilia agoniada de gozo. Com a minha explosão ela me deu seu sorriso que dinamitou de vez todas as minhas neuras, traumas, frustrações. Ofegantes na cama, nossos corpos vencidos. Aí eu levitei com o aperto de seu abraço Porto Calvo. O seu beijo molhado fez o mundo girar mais depressa e caímos lentamente no Passo e bailamos nus na Matriz de Camaragibe. Eu sou seu par e ela se debruça na cama e me puxa com força sobre as costas lanhadas para que eu vença seus montes e sua carne rendida. Foi aí que venci a sua Paripueira, usurpei o seu Sonho Verde, venci a sua Guaxuma até fazer no seu corpo o Riacho Doce. Coração saindo pela boca, nosso suor lavou a minha vitória. E venci urrando de gozo sobre sua carne varada e servida sobre a bandeja do meu domínio. O meu peso sobre a rendição de sua maravilha dorsal. Os meus braços no seu corpo: o banho da noite. A água iluminava a sua pele nua na minha língua que percorria a sua Cruz das Almas, o seu Mata-Garrote, Jatiuca, Ponta Verde, Pajuçara até enfiá-la na mina do seu Pontal e ela me deu a Madalena do Francês rebolando na Barra, se espremendo no Gunga, se ajeitando na praia de Jequiá, enlouquecendo no Pontal de Coruripe, até rebolar seu Piaçabuçu na curva do Penedo que assaltou a minha loucura profana e a fez chorar de satisfação. O trem do meu tesão seguia os seus trilhos. E ela tributária de tudo se valia dos nossos nervos que reagiam na luta dos quereres mais safados. Não havia como saltar fora, soltar agora toda libidinagem visceral. Foi quando ela, frango assado, escancarou todos os segredos desvelando toda sua alma perversa. Ela Amanda Peet premiando o meu apetite. E se deitando no céu como se fosse um presente de natal, como se fosse toda folia de carnaval, como se fosse maior fungado de São João, como se fosse as bênçãos de ano novo, todas as festas juntas, todas as noites nessa noite. Era aniversário dela e por isso me olhava com seu jeito azul de me beijar a virilidade, quando eu enlouquecido sugava no seu ventre como quem bebe gasolina, gerando a todo vapor a nossa putaria, pele na pele nua e eu me apoderando de sua carne com a fúria dos gritos de quem ama aquilo tudo e muito mais. E insistia alisando a sua carne tocando cada milímetro de sua feitura, como se num walkaround com toda força vital. Ah, minha vulnerável Lois Lane que quando eu um simples Clark me fazia de Superman. E foi: todas as noites nessa noite. E sobreviventes, emergimos enquanto mergulhávamos um no outro. Aí, lá e loa. Ah, coisa tão boa. A gente mandava bem sem sossegar o facho, maior repasto. Foi quando ela então vira Madonna ousada e sacana e tudo outra vez e de novo. Puxa! Todas as noites nessa noite quando eu sonho nossas entregas que fazem viver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aquiaqui.


DITOS & DESDITOS – [...] A morte é uma dignitária que deve ser recebida com manifestações formais de respeito, quando se anuncia ainda pelos que lhe são mais familiares. [...]. Trecho do conto Uma ocorrência na ponte de Owl Creek (Ediouro, 2004), do escritor, jornalista e crítico satírico estadunidense Ambrose Bierce que, em 1913, deixou sua cidade, partindo para o México e não se soube mais do seu paradeiro. Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU: [...] O escritor real tem, muitas vezes, apenas uma ferida cujo nome ele desconhece, mas que lhe concede silêncio e uma palavra gaga e balbuciante. [...]. Pensamento extraído de Como fracassar em Literatura (Pausa, jun. 2013), do psicólogo, filósofo e professor Juliano Pessanha. Veja mais aqui.

GUERRA & PAZ – [...] Um passo para além daquela linha que lembra a que separa os vivos dos mortos e eis-nos no mundo desconhecido do sofrimento e da morte. E lá adiante que é que está? Lá adiante, para além deste campo e desta árvore e daquele telhado iluminado pelos raios do Sol? Ninguém sabe e ninguém o deseja saber. Toda a gente tem medo de transpor aquela linha e ao mesmo tempo há como que uma tentação de o fazer; e o certo é que todos sabem que mais tarde ou mais cedo haverá que transpô-la e que conhecer o que lá existe, do outro lado da linha, exatamente como é inevitável virmos a saber o que fica do outro lado da morte. E no entanto todos nós nos sentimos fortes, saudáveis, cheios de vida. [...] Trecho da obra Guerra e paz (Círculo do Livro, 1974), do escritor russo Liev Tolstoi (1828-1910), no qual desenvolveu uma teoria fatalista da História, onde o livre-arbítrio não teria mais que uma importância menor e todos os acontecimentos só obedecem a um determinismo histórico irrelutável. Com esta obra o autor criou um novo gênero de ficção, quebrando os códigos do romance da época. Há que se frisar que em suas obras, o autor sustenta um fundo filosófico de suas novelas, a ideia fundamenral da não resistência ao mal, o amor incondicional à verdade, o império necessário da castidade, efendendo que o mal só pode ser combatido com o bem, pois opor o mal ao mal é aumentar a quantidade mal que há no mundo. Só aumentando a quantidade de bem, até que seja dominante, asfixiará o mal que desaparecerá da alma do homem. A violência é um mal e, portanto, a injustiça não deve ser combatida com a violência. A verdade triunfará por si mesma, em idêntico sentido, pela desaparição progressiva da quantidade de mentira que sombreia o mundo, motivo por que se deverá sempre respeitá-la, em todas as circunstancias e por qualquer preço e aumenta-la assim neste mundo, não deixando que morram todas as verdades parciais que venham a ser descoberta. Veja mais aqui & aqui.

POEMANão há mais sublime sedução do que saber esperar alguém. / Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles / A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar / Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia. / Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta. / Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder / Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num / Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar / Num livro uma página estrategicamente aberta. / Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza / Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra / Que te quer. Soprá-la para dentro de ti / até que a dor alegre recomece. Poema recolhido da obra o começo de um livro é precioso (Assírio & Alvim, 2003), da escritora e tradutora portuguesa Maria Gabriela Llansol (1931-2008).


COLECIONAR ARTE CONTEMPORÂNEO – A obra Colecionar arte contemporâneo (Collecting Contemporary Art - Taschen, 2006), do autor, colunista, colecionador e autoridade em arte e design contemporâneos, Adam Lindemann, trata sobre os sete protagonistas do mercado de arte, o artista, o crítico de arte, o marchante, o assessor artístico, o colecionista, el experto de casas de subastas, o profissional de museu, com um glossário parcial dos termos e um índice para localização dos artistas publicados, tudo sobre mercado de arte contemporânea.


A arte da artista performática italiana Vanessa Beecroft. Veja mais aqui.

DIREITOS HUMANOS

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quinta-feira, dezembro 10, 2015

CLARICE, DICKINSON, LUCRECIO, SCHWARZKOPF, DIREITOS HUMANOS, FECAMEPA & MUITO MAIS!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? A CONCORRÊNCIA DA PALHAÇADA - Veja a que ponto nós chegamos. A arte milenar do palhaço tem sofrido, principalmente no Brasil, além de uma concorrência desleal, uma mudança de conceito para sua pior qualificação, visto passar a ser praticada por estroinas cretinos que degeneram e tornam esse fazer artístico numa infame categoria. Tendo-se registro de que existe desde 2500aC, presumindo-se mesmo ter pelo menos uns quatro mil anos e haver, ao longo da história, desempenhado importantes papéis desde a antiguidade no Egito, Grécia, Roma, China e até entre os astecas. Foram os lubyet, os desastrosos assistentes das dinastias chinesas, os primeiros a surgirem no oriente. Na Grécia Antiga, foram os sátiros o germe dos palhaços contemporâneos. Em Roma, os Cirros e Estúpidos levaram a arte clownesca para as ruas. Na Índia, foi a vez do palhaço Viduska que falava em Pratik, a língua da população em geral. Na Malásia, tem-se notícia do P’rang que usava máscaras com olhos enormes e grandes bochechas. Em Bali, os irmãos Penasar, o apolíneo ordeiro, e Kartalam, cheio das trapalhadas. Na Idade Média, surgem os gleemens na Escandinávia e os jongleurs na França que se transformaram nos Bobos da Corte, bufões que, como os lubyet chineses, tinham certo papel social. O primeiro Bobo da Corte que se tem notícia é Nigel Rodes, em 1649. Com a Commedia dell’arte que surgiu na Itália no século XV, surgem outras espécies como o Arlequim, com roupas de retalhos; o veneziano de vermelho Pantaleão, o de branco e verde Briguela, o Polichinelo, o Doutor, o Capitão, se expandindo para a Inglaterra com o Pulcinella de Mister Punch e o Pierrot que se transforma no clown de Grimaldi, já no séc. XVIII. Foi por esse tempo que surgiram os primeiros circos criados por Philip Astley, muito embora as raízes da cultura circense se encontrem desde as grandes dionísias na Grécia e nos circos romanos. O palhaço mais importante deste período foi o Mr. Merryman. Daí os dois tipos: palhaço e clown. Enquanto o palhaço é lírico, ingênuo, frágil, inocente e angelical, não interpreta, ele é o próprio autor expondo-se ao ridículo, com o objetivo de entreter o público, o clown tem sua origem no século XVI, significando em inglês o camponês e o seu meio rústico, o que proporcionou o surgimento de personagens como os de Chaplin, Rowan Atkinson, Jerry Lewis, entre tantos outros que nos fizeram conhecer a arte do cômico e o mundo do nariz vermelho. Hoje, com o declínio da arte circense, passaram a ocupar as ruas, o teatro, o cinema, a televisão e vários outros espaços, até que histriônicos atrapalhados que cultuam com a sua completa falta de talento e com a indumentária de fanfarrões políticos o afundamento da patriamada – só sabem meter as mãos pelas pernas para o próprio bolso, chafurdando no erário público em todos os níveis e extensões do Executivo, Legislativo e Judiciário -, decretando a completa mediocridade medida pelo Ibope e ocupando as principais manchetes de todo noticiário diariamente. Concorrência pra lá de desleal. Essa, infelizmente, a derrocada de uma arte que mereceria o respeito – o riso do bizarro nos ensina a sermos melhores -, não podendo jamais sucumbir diante das trapalhadas do Fecamepa. E vamos aprumar a conversa aqui.

 Imagem: Nude, do pintor alemão Paul Paede (1868-1929).


Curtindo o álbum The Very Best of Elisabeth Schwarzkopf (EMI, 2003), da soprano alemã Elisabeth Schwarzkopf (1915-2006) with Herbert von Karajan & the Philharmonia Orchestra.

DE RERUM NATURA – O poeta e filósofo latino Titus Lucrécio Caro (99-55aC), é autor do livro De rerum natura (Sobre a natureza das coisas), defendendo que a alma é imortal e que após o decesso, resta um simulacro, os fantasmas que assombram os vivos. Ele resgata a ideia epicurista de eidolon, termo grego, afirmando que o medo da morte criou o mito da imortalidade da alma. A Teosofia sustenta a tese da alma morredoura, mas defende que o espírito, princípio que anima a alma, é o Ser que realmente sobrevive à morte. Para ele o epicurismo era a chave que poderia desvendar os segredos do universo e garantir a felicidade humana. na sua obra ele apresenta a teoria de que a luz visível seria composta de pequenas partículas e sustenta a ideia da existência de criaturas vivas que, apesar de invisíveis, teriam a capacidade de causar doenças. É fluente a história de que Lucrécio teria bebido um filtro de amor, enlouquecido e escrito seu poema nos intervalos de lucidez, terminando por se suicidar. Da obra destaco o trecho: Ó mãe dos Enéadas, prazer dos homens e dos deuses, ó Vênus criadora, que por sob os astros errantes o navegado mar e as terras férteis em searas, por teu intermédio se concebe todo o gênero de seres vivos em, nascendo, contempla a luz do sol: por isto de ti fogem os ventos, ó deusa; de ti, mal tu chegas, se afastam as nuvens do céu; e a ti oferece a terra diligente as suaves flores, para ti sorriem os plainos do mar e o céu em paz resplandece inundado de luz. Apenas reaparece o aspecto primaveril dos dias e o sopro criador do Favônio, já livre, ganha forças, primeiro te celebram e à tua vinda, ó deusa, as aves do ar, pela tua força abalada no mais intimo do peito; depois, os animais bravios e os rebanhos saltam pelos ledos pastos e atravessam a nado as rápidas correntes; todos, possessos do teu encanto e desejo, te seguem, aonde tu os queiras levar. Finalmente pelos mares e pelos montes e pelos rios impetuosos, e pelos frondosos lares das aves, e pelos campos virentes, a todos incutindo no peito o brando amor, tu consegues que desejem propagar-se no tempo, por meio da geração. Visto que sozinha vais governando a natureza e que, sem ti, nada surge nas divinas margens da luz e nada se faz de amável e alegre, eu te procuro, ó deusa, para que me ajudes a escrever o poema que, sobre a natureza das coisas, tento compor para o nosso Mêmio, a quem tu, ó deusa, sempre quiseste conceber todas as qualidades, para que excedesse aos outros. Dá pois a meu versos, ó Vênus divina, teu perpetuo encanto. Faze, entretanto que, por mares e por terras, tranquilos se aplaquem os feros trabalhos militares; só tu podes obter para os mortais a branda paz, visto que é Marte, o senhor das armas, quem ordena esses feros trabalhos de guerra, e é ele quem muitas vezes se reclina em teu seio, vencido pela eterna ferida do amor, e, erguendo os olhos para ti, inclinando para tras a nuca roliça, fica deitado como que suspenso de teus lábios e apascenta de amor seus olhos ávidos. E tu, ó deusa, enquanto ele repousa, enlaça-o com teu corpo sagrado, solta dos lábios tuas doces palavras e pede para os romanos, ó cheia de gloria, a plácida paz. Efetivamente, nesta época terrível para a pátria, nem eu posso com serenidade realizar o meu trabalho nem o ilustre descendente dos Mêmios iria, em tais circunstancias, faltar à salvação comum [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A QUINTA HISTÓRIA – No livro A legião estrangeira (Autor, 1964), da escritora e jornalista Clarice Lispector (1920-1977), reúne contos e crônicas que apresenta com persistência a temática da descoberta da verdade, obsessão constante da autora. Na obra destaco A quinta história: Esta história poderia chamar-se "As Estátuas". Outro nome possível é "O Assassinato". E também "Como Matar Baratas". Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras, porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem. A primeira, "Como Matar Baratas", começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. Que misturasse em partes iguais açúcar, farinha e gesso. A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de dentro delas. Assim fiz. Morreram. A outra história é a primeira mesmo e chama-se "O Assassinato". Começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me. Segue-se a receita. E então entra o assassinato. A verdade é que só em abstrato me havia queixado de baratas, que nem minhas eram: pertenciam ao andar térreo e escalavam os canos do edifício até o nosso lar. Só na hora de preparar a mistura é que elas se tornaram minhas também. Em nosso nome, então, comecei a medir e pesar ingredientes numa concentração um pouco mais intensa. Um vago rancor me tomara, um senso de ultraje. De dia as baratas eram invisíveis e ninguém acreditaria no mal secreto que roía casa tão tranquila. Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite. Meticulosa, ardente, eu aviava o elixir da longa morte. Um medo excitado e meu próprio mal secreto me guiavam. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe. Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha. E eis que a receita estava pronta, tão branca. Como para baratas espertas como eu, espalhei habilmente o pó até que este mais parecia fazer parte da natureza. De minha cama, no silêncio do apartamento, eu as imaginava subindo uma a uma até a área de serviço onde o escuro dormia, só uma toalha alerta no varal. Acordei horas depois em sobressalto de atraso. Já era de madrugada. Atravessei a cozinha. No chão da área lá estavam elas, duras, grandes. Durante a noite eu matara. Em nosso nome, amanhecia. No morro um galo cantou. A terceira história que ora se inicia é a das "Estátuas". Começa dizendo que eu me queixara de baratas. Depois vem a mesma senhora. Vai indo até o ponto em que, de madrugada, acordo e ainda sonolenta atravesso a cozinha. Mais sonolenta que eu está a área na sua perspectiva de ladrilhos. E na escuridão da aurora, um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas. As baratas que haviam endurecido de dentro para fora. Algumas de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que não se completaria jamais. Na boca de umas um pouco da comida branca. Sou a primeira testemunha do alvorecer em Pompéia. Sei como foi esta última noite, sei da orgia no escuro. Em algumas o gesso terá endurecido tão lentamente como num processo vital, e elas, com movimentos cada vez mais penosos, terão sofregamente intensificado as alegrias da noite, tentando fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto de inocência, e com tal, tal olhar de censura magoada. Outras — subitamente assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer ter tido a intuição de um molde interno que se petrificava! — essas de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da boca: eu te... Elas que, usando o nome de amor em vão, na noite de verão cantavam. Enquanto aquela ali, a de antena marrom suja de branco, terá adivinhado tarde demais que se mumificara exatamente por não ter sabido usar as coisas com a graça gratuita do em vão: "é que olhei demais para dentro de mim! é que olhei demais para dentro de..." — de minha fria altura de gente olho a derrocada de um mundo. Amanhece. Uma ou outra antena de barata morta freme seca à brisa. Da história anterior canta o galo. A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Começa como se sabe: queixei-me de baratas. Vai até o momento em que vejo os monumentos de gesso. Mortas, sim. Mas olho para os canos, por onde esta mesma noite renovar-se-á uma população lenta e viva em fila-indiana. Eu iria então renovar todas as noites o açúcar letal? como quem já não dorme sem a avidez de um rito. E todas as madrugadas me conduziria sonâmbula até o pavilhão? no vício de ir ao encontro das estátuas que minha noite suada erguia. Estremeci de mau prazer à visão daquela vida dupla de feiticeira. E estremeci também ao aviso do gesso que seca: o vício de viver que rebentaria meu molde interno. Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem adeus, e certa de que qualquer escolha seria a do sacrifício: eu ou minha alma. Escolhi. E hoje ostento secretamente no coração uma placa de virtude: "Esta casa foi dedetizada". A quinta história chama-se "Leibnitz e a Transcendência do Amor na Polinésia". Começa assim: queixei-me de baratas. Veja mais aqui e aqui.

DENTRE TODAS AS ALMAS JÁ CRIADAS – No livro Alguns poemas (Iluminuras, 2006), da poeta estadunidense Emily Dickinson (1830-1886), destaco, inicialmente o poema Dentre todas as almas já criadas: Dentre todas as Almas já criadas / Uma - foi minha escolha / Quando Alma e Essência - se esvaírem / E a Mentira - se for - / / Quando o que é - e o que já foi - ao lado / Intrínsecos - ficarem / E o Drama efêmero do corpo / Como Areia - escoar / Quando as Fidalgas Faces se mostrarem / E a Neblina - fundir-se / Eis - entre as lápides de Barro / O Átomo que eu quis! Também o poema 67: O Sucesso é mais doce / A quem nunca sucede. / A compreensão do néctar / Requer severa sede. / Ninguém da Hoste ignara / Que hoje desfila em Glória / pode entender a clara / Derrota da Vitória. / Como esse — moribundo — / Em cujo ouvido o escasso / Eco oco do triunfo / Passa como um fracasso! Por fim, o poema 389: Houve morte na casa ali defronte — / Foi hoje, coisa recente; / Eu sei por esse ar de anestesia / Que dessas casas recende. / Vizinhos em sussurros entram e saem, / De carro afasta-se o médico, / Uma janela se abre como vagem, / De modo abrupto, automático, / E por ela atiram fora um colchão. / Crianças passam correndo — / Intrigadas — "foi ali que morreu?" / Eu ficava assim, me lembro. / Formal e teso vai entrando o clérigo, / Qual se sua a casa fosse — / Hoje são dele todos os que choram / E das crianças toma posse. / Vem o homem do armarinho — e aquele homem / Da horrorosa profissão — / O que toma as medidas para a casa. / Vai haver a soturna procissão — / Vão vir os coches, as franjas douradas / Sem nem cartaz ou rumor, / Corre fácil a intuição das notícias / Nas vilas do interior. Veja mais aqui.

A COMÉDIA LATINA - Na obra Teatro Vivo (Civita, 1976), organizada por Sábato Magaldi, encontro que: Perfilando-se aos espetáculos circenses e mimos improvisados, a comédia latina, cujos maiores representantes foram Andronicus, Plauto (254-184aC) e Terêncio (190-159aC), logo se fez aceitar pelo povo romano, enquanto a aristocracia ouvia com muita gravidade a leitura das tragédias de Sêneca (4ac-65). Estas jamais puderam concorrer com a popularidade das comedias que, apesar da pouca sutiliza psicológica, eram repletas de motivos familiares aos romanos. Nelas não faltavam disfarces, travestimentos, truques de escravos, obscenidades, vigor colorido e permanente invenção da intriga. Durante todo o período de expansão política de Roma e na fase em que o império mostrava sinais de decadência, a comedia popular manteve um público certo. E nem mesmo a adoção do Cristianismo – impondo seus valores a um mundo que se fragmentava – foi suficiente para mudar de imediato os costumes. O povo continuava vibrando com a licenciosidade do mimo e da pantomina, forma dramática sem palavras, baseada na imitação mais ou menos estilizada. No século V, numa de suas primeiras manifestações de autoridade, a igreja acabaria por excomungar os atores, medida que não foi suficiente para terminar com os espetáculos. Assim, no século seguinte, os teatros foram rigorosamente proibidos de funcionar. Veja mais aqui e aqui.


MAROCK – O polêmico longa metragem Marock (2004), da diretora e roteirista marroquina Laila Marrakchi, conta uma histórica de amor muçulmana e judaica entre dois jovens em Casablamca. A protagonista luta para completar o colegial e começa a pensar na faculdade no meio da milenar influencia muçulmana, a colonização francesa e os valores da sociedade de consumo ocidental, quando credos judaicos e muçulmanos são pacíficos, mas é um problema uma garota muçulmana se envolver com um judeu. O filme fez parte da seção Um certain regard do Festival de Cannes de 2005 e foi saudado pela crítica internacional. Veja mais aqui.


CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor, gravador e litógrafo austríaco Peter Fendi (1796-1842).
Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA
 A edição de hoje é dedicada ao Dia Internacional dos Direitos Humanos, adotado pela Assembleia Geral da ONU. Afinal, todo dia é dia de respeitar os direitos humanos.
 

quinta-feira, junho 27, 2013

KAREN HORNEY, VICENTE ALEIXANDRE, CHAUÍ, BAUMAN, ANN CRISPIN, CLÁUDIA MAYER & HELLER

A PSICANÁLISE DE KAREN HORNEY: A INFÂNCIA - A infância da médica e psicanalista alemã Karen Horney (1885-1952) foi marcada por difícil relacionamento com seu pai, um marinheiro religioso e rigoroso que manifestava sua preferência pelo irmão mais velho, Berndt – o seu filho preferido -, desejando sempre ter um pai que se possa amar e estimar. Seu pai era muito mais velho que sua mãe e era com ela com Horney se identificava, confidenciado à filha o desejo de ver o marido morto. Tornou-se, então, uma filha devotada para angariar o afeto da mãe. Além de uma relação difícil com o pai, ele a desestimulava aos estudos, desejando-a voltada ao lar. Foi exatamente essas experiências da infância, ocasião em que desenvolveu uma hostilidade pela falta de amor dos familiares, estimulando a sua ansiedade, que ela dedicou-se aos estudos, formou-se em Medicina e tornou-se seguidora dos ensinamentos de Sigmund Freud. Com uma vida entre envolvimentos amorosos, dúvida entre o casamento e a carreira, estudos e determinação, ela começou a formular uma teoria que se tornou bastante diferente do seu mestre, do qual divergiu por contestar o seu retrato psicológico das mulheres e opôs-se ao conceito freudiano de que as mulheres possuem inveja do pênis, defendendo que os homens é que possuem inveja das mulheres por causa do útero. Influenciada pelo fato de ser mulher e pelas suas experiências pessoais, passou a admitir que as forças sociais e culturais influenciam a vida das pessoas. Constatou a diferença de personalidade entre as pessoas, vez que esta não depende totalmente das forças biológicas, passando a dar mais ênfase às relações sociais como fatores significativos para formação da personalidade. Passou então a questionar os conceitos de complexo de Édipo, da libido e da estrutura de três partes da personalidade, defendendo que as pessoas não eram motivadas por forças sexuais ou agressivas, mas pela necessidade de segurança e amor. Quando adulta percebeu quanta hostilidade desenvolvera na infância pela falta de amor que estimulou sua ansiedade e resultou na busca pelo amor e segurança, alimentando paixões que foram registradas no seu Diário. Formou-se em Medicina, casou-se e teve três filhas, contudo, mantinha-se infeliz e oprimida, queixando-se de crises de choro, dores de estomago, fadiga crônica, comportamentos compulsivos, frigidez e vontade de dormir e de morrer. Casamento desfeito, ela envolveu-se em inúmeros relacionamentos com promiscuidade, entre eles com o psicanalista Erich Fromm. A falta de atrativos físicos, como em Adler, era um dos motivos dos sentimentos de inferioridade, concluindo que precisa sentir-se superior pela falta de beleza e sentimento de inferioridade como mulher, determinando-se pelos estudos. NECESSIDADE DE SEGURANÇA NA INFÂNCIA – Concordava com Freud sobre a importância dos primeiros anos de infância na moldagem da personalidade adulta. Todavia, para ela as forças sociais na infância influenciavam o desenvolvimento da personalidade, discordando das etapas de desenvolvimento universais e dos conflitos infantis inevitáveis. Para ela, o fator chave é a relação social entre a criança e os pais. Daí, portanto, defendeu que a infância é dominada pela necessidade de segurança, uma necessidade em grau mais elevado de segurança e liberação do medo, dependendo totalmente de como os pais tratam a criança, recomendando carinho e afeto. Entre as condutas que ela nomeia como não recomendadas são as preferencias obvias por um dos filhos, castigo injusto, comportamento instável, não cumprimento de promessas, ridicularização, humilhação e isolamento da criança de seus companheiros. Enfatizou, por isso, o desamparo da criança, discordando de Adler de que as crianças não necessariamente desamparadas, mas que surge pela falta de carinho e afeto dos pais, podendo levar a um comportamento neurótico. Assim, para ela, a sensação de desamparo nas crianças depende do comportamento dos pais. E quanto mais desamparadas forem as crianças, mas elas reprimirão a hostilidade, serão levadas a sentir medo por meio de castigos, violência ou formas mais sutis de intimidação, incluindo, também, o amor que pode ser outro motivo para reprimir a hostilidade por meio de afeto desonesto na insistência de que amam os pais. A culpa também é um outro motivo das crianças reprimirem a hostilidade, quando elas se sentem culpadas por terem hostilidades ou rebeldias, guardarem ressentimentos e se sentirem culpadas e pecadoras: quanto mais culpa a criança sentir, mais profundamente a hostilidade será reprimida. ANSIEDADE BÁSICA – A ansiedade básica é um sentimento insidiosamente crescente e penetrante de se estar só e desamparado em um mundo hostil, sendo, assim, conceituada como uma sensação penetrante de solidão e desamparo, tornando-se com isso a base sobre a qual as neuroses posteriores se desenvolvem e está intimamente ligada aos sentimentos de hostilidade. Na infância busca-se a proteção contra a ansiedade básica de quatro maneiras: assegurando afeto e amor; sendo submisso; obtendo poder; e distanciando-se. Assegurar o afeto e o amor dos outros está embasada na ideia de que quem ama não magoa, e esse afeto é obtido ao fazer tudo o que o outro quer, uma tentativa de suborno ou ameaça para que os outros devolvam o afeto recebido e desejado. A submissão é um meio de autoproteção, envolvendo agir de acordo com os desejos de uma determinada pessoa ou dos que pertencem ao ambiente social. Nessa condição, procura-se não contrariar os outros, não se ousa criticar ou ofender, reprimindo os desejos pessoais. A obtenção de poder sobre os outros é uma forma de compensação ao desamparo, conseguindo-se segurança por meio do sucesso ou de um sentimento de superioridade. Com isso, acredita-se que tendo poder ninguém poderá prejudicar. Esses três meios de autoproteção envolvem o fato de que a pessoa está lidando com a ansiedade básica ao interagir com os outros. Por fim, o afastamento dos outros, não fisicamente, mas psicologicamente, traduz independência: não se depende de mais ninguém para obter satisfação das necessidades internas ou externa, uma vez que quem se afasta protege-se contra a possibilidade ser magoado pelos outros. Esses quatro mecanismos de autoproteção possui um único objetivo: defesa contra a ansiedade básica, motivando a busca da segurança e o restabelecimento da confiança, defendendo-se da dor e buscando bem-estar. A característica desses mecanismos é o poder e intensidade, uma vez que podem ser mais forte dos que as necessidades sexuais ou fisiológicas, podendo reduzir a ansiedade com um custo individual de empobrecimento da personalidade. NECESSIDADES – Defendia Horney que qualquer dos mecanismos de autoproteção podem se tornar permanentes na personalidade, assumindo características de impulso ou necessidade, na determinação do comportamento. para tanto, as necessidades neuróticas são soluções irracionais para os problemas da pessoa e são identificadas por meio de dez defesas irracionais contra a ansiedade que se tornam parte permanente da personalidade e afetam o comportamento: afeto e aprovação; parceiro dominador; poder; exploração; prestígio; admiração; realização ou ambição; autossuficiência; perfeição; e limites restritos à vida. As necessidades neuróticas são encontradas em quatro maneiras de proteção contra a ansiedade: busca de proteção, submissão, obtenção de poder e afastamento. A busca de proteção por meio do afeto é expresso na necessidade neurótica de afeto e aprovação; a submissão inclui a necessidade neurótica de um parceiro dominador; a obtenção de poder está relacionada com as necessidades de poder, exploração, prestigio, admiração e realização ou ambição; e o afastamento inclui as necessidades de autossuficiência, perfeição e limites restritos à vida. TENDÊNCIAS NEURÓTICAS – Três categorias de comportamento definem as tendências neuróticas: personalidade submissa, personalidade agressiva e personalidade distante. São essas tendências neuróticas identificadas nas três categorias de comportamentos e atitudes em relação à própria pessoa e aos outros que expressam as necessidades da pessoa e surgem a partir dos mecanismos de autoproteção e os aprimoram, envolvendo atitudes e comportamentos compulsivos: as pessoas neuróticas são impelidas a se comportar de acordo com pelo menos uma das necessidades neuróticas. A personalidade submissa ou movimento em direção às outras pessoas, exibe atitudes e comportamentos que refletem um desejo de caminhar em direção às outras pessoas, uma necessidade intensa e continua de afeto e aprovação, um anseio de ser amado, desejado e protegido, identificada naquela pessoa escolhida que ofereça proteção e orientação. Assim sendo, a personalidade submissa é o comportamento e atitudes associadas à tendência neurótica de ir na direção das pessoas, cl como a necessidade de afeto e aprovação. A personalidade agressiva ou movimento contra as outras pessoas, é o conjunto de comportamentos e atitudes associadas a tendência neurótica de ir contra as pessoas, tal como um comportamento dominador e controlador. São movidas pela insegurança, ansiedade e hostilidade porque julgam tudo em termos do beneficio que receberão do relacionamento e por aparentarem confiantes nas suas habilidades e desinibidas ao se afirmar e se defender. A personalidade distante ou movimento para longe das outras pessoas, é o comportamento e atitude associados com a tendência neurótica de se afastar das pessoas, como uma necessidade intensa de privacidade. Essas pessoas são motivadas a se afastar das demais e a manter uma distância emocional, não precisando amar, odiar, colaborar ou se envolver com os outros. Para conseguir esse desligamento total, buscam a autosufiência e dependem de seus próprios recursos que devem ser bem desenvolvidos, além de precisarem sempre se sentir superiores, não podendo competir ativamente por superioridade com os outros, reprimindo ou negando qualquer sentimento relação aos outros, principalmente os sentimentos de amor e ódio, achando que sua grandeza deve ser reconhecida automaticamente, sem luta ou esforço: uma manifestação desse sentimento de superioridade é a filosofia de que cada pessoa é diferente da outra. A personalidade submissa de Horney é semelhante ao tipo dependente de Adler, a personalidade agressiva é semelhante ao tipo dominador e a distante é semelhante ao tipo esquivo, justificando as influencias exercidas por ele sobre as teorias dela. Na pessoa neurótica a pessoa que é predominantemente agressiva também tem a necessidade de submissão e distanciamento. A tendência neurótica dominadora é a que determina o comportamento e as atitudes da pessoa em relação aos outros. Esse é o modo de agir e raciocinar que mais serve para controlar a ansiedade básica e qualquer desvio dele é ameaçador para a pessoa. Por isso, as duas outras tendências têm de ser ativamente reprimidas, o que pode levar a mais problemas, pois qualquer indicio de que a tendência reprimida está querendo se expressar provoca conflito na pessoa. CONFLITO – Conflito é a incompatibilidade básica das tendências neuróticas e é o centro da neurose. A diferença entre uma pessoa neurótica e a que não é neurótica está na intensidade desse conflito. Ele é muito mais intenso na pessoa neurótica porque ela precisa lutar para evitar que as tendências não dominantes se expressem. Elas são rígidas e inflexíveis, enfrentando todas as situações com comportamentos e atitudes que caracterizam a tendência dominadora, independente da sua adequação. AUTOIMAGEM IDEALIZADA – Todas as pessoas criam autoimagem que pode ou não se basear na realidade. Nas pessoas não neuróticas a imagem do self é construída com base numa avaliação realista das habilidades, potencialidades, fraquezas, metas e relações com outras pessoas, oferecendo um senso de unidade e integração à personalidade e uma estrutura dentro da qual deve-se abordar os outros e a pessoa em si. As pessoas neuróticas que vivem em conflito entre os modos incompatíveis de comportamento têm suas personalidades caracterizadas pela desunião e desarmonia, criando uma autoimagem idealizada com o mesmo intuito das pessoas não neuróticas: unificar a personalidade, mas fracassa porque a autoimagem do self não se baseia numa avaliação realista dos pontos fortes e fracos, mas numa ilusão, num ideal inatingível de perfeição. Então, para os não neuróticos a autoimagem idealizada é um retrato idealizado da pessoa criado com base numa avaliação flexível e realista das suas habilidades; o neurótico, ao contrário, a autoimagem baseia-se numa autoavaliação inflexível e fantasiosa. Para tentar realizar a autoimagem idealizada, as pessoas neuróticas envolvem-se na tirania dos deveres. TIRANIA DOS DEVERES – É a tentativa de tornar real uma imagem inatingível e idealizada do self negando o self verdadeiro e comportando-se com base naquilo que se pensa que se deveria fazer. Ou seja, os neuróticos dizem a si mesmos que têm de ser o melhor em tudo, quando o seu real é indesejável, achando que devem agir para corresponder à imagem idealizada. Um detalhe: embora a imagem neurótica ou idealizada do self não coincida com a realidade, ela é real e precisa para que as criou, uma vez que a imagem neurótica do self é uma substituta insatisfatória para um sentimento de autovalia, baseado na realidade, em razão dele ter pouca autoconfiança, insegurança e ansiedade. Um caminho que os neuróticos usam para se defender dos conflitos internos provocados pela discrepância entre uma autoimagem idealizada e a real é a externalização. EXTERNALIZAÇÃO – É a maneira de se defender contra o conflito provocado pela discrepância entre uma autoimagem idealizada e a real, projetando-se o conflito no mundo exterior. Esse processo pode aliviar temporariamente a ansiedade provocada pelo conflito, mas não faz nada para reduzir a lacuna entre a autoimagem idealizada e a realidade, envolvendo a tendência para vivenciar os conflitos como se eles estivessem ocorrendo fora da pessoa e para descrever as forças externas como a fonte dos conflitos. A COMPETITIVIDADE NEURÓTICA – É um aspecto extremamente importante da cultura contemporânea, definida como a necessidade indiscriminada de vencer a qualquer custo. Aquele que manifesta essa necessidade encara a vida como um uma competição e que só importa estar à frente dos outros. Ou seja, uma necessidade indiscriminada de vencer a todo custo. PSICOLOGIA FEMININA – É uma revisão da psicanálise para incluir conflitos psicológicos inerentes no ideal tradicional da feminilidade e dos papéis femininos. Criticou o conceito freudiano de inveja do pênis e a ideia de que as mulheres possuíam superegos maldesenvolvidos. Horney defendeu que os homens invejavam a capacidade da maternidade, possuindo a inveja do útero. O voo da feminilidade: como resultado dos sentimentos inferioridade, as mulheres podem optar por negar a sua feminilidade e desejar, inconscientemente, ser homem: um problema que pode levar a inibições sexuais e se esse conflito for suficientemente forte, pode levar a problemas emocionais que se manifestam em relação aos homens. Horney negava o complexo de Édipo, porém reconhecendo a existência de conflitos entre pais e filhos como um conflito entre dependencia do pai ou da mãe e a hostilidade em relação a um deles. As influências culturais: ela reconheceu o impacto doas forças sociais e culturais no desenvolvimento da personalidade e que as culturas e os grupos sociais diferentes encaravam o papel da mulher de maneira diferente. A natureza humana para Horney possuía a crença de que as forças biológicas não levam ao conflito, ansiedade, neurose ou universalidade na personalidade, uma vez que cada pessoa é única e que todos possuem a capacidade de moldar e mudar conscientemente a sua personalidade. Veja mais aqui, aqui e aqui.

REFERÊNCIAS
ATKINSON, Richard; HILGARD, Ernest; ATKINSON, Rita; BEM, Daryl; HOEKSENA, Susan. Introdução à Psicologia. São Paulo: Cengage, 2011.
DAVIDOFF, Linda. Introdução à Psicologia. São Paulo: Pearson Makron Books, 2001.
FADIMAN, James; FRAGER, Robert. Teorias da personalidade. São Paulo: Harbra, 2002.
GAZZANIGA, Michael; HEATHERTON, Todd. Ciência psicológica: mente, cérebro e comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2005.
HORNEY, Karen. A personalidade neurótica do nosso tempo. São Paulo: Difel, 1984.
______. Conheça-se a si mesmo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.
______. Novos rumos da psicanálise. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1959.
______. Neurose e desenvolvimento humano. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1959.
______. Psicologia feminina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1072.
______. Nossos conflitos interiores. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964.
______. Últimas conferências sobre técnicas psicanalíticas. São Paulo: Bertrand Brasil, 1992.
MORRIS, Charles; MAISTO, Alberto. Introdução à psicologia. São Paulo: Pretence Hall, 2004.
MYERS, David. Psicologia. Rio de Janeiro: LTC, 2006.
SCHULTZ, Duane; SCHULTZ, Sydney. Historia da psicologia moderna. São Paulo: Cengage Learning, 2012.
____. Teorias da personalidade. São Paulo: Cengage Learning, 2014.

 


DITOS & DESDITOS - Percebi, com angústia, que não era capaz de escrever sequer uma página por dia. Eu me impus um esquema de catorze páginas por semana. Deu e não deu certo, porque eu acabava não gostando daquelas páginas. Agora sei que não escrevo facilmente. Eu costumo dizer a estudantes talentosos que paciência é o que eles mais precisam; e que escrever é um trabalho duro. Não se torna mais fácil para os que conseguem êxito no ramo. Pensamento do escritor estadunidense Joseph Heller (1923-1999).

 

ALGUÉM FALOU:  Nós sabemos para onde vamos e de onde viemos. Entre duas obscuridades, um clarão. Existir é viver com ciência cega. Poesia é comunicação. A poesia tem que ser humana, se não for humana, não é poesia. Algo que sirva para conversar com outros homens. Esquecer é morrer. Ser leal a si mesmo é a única maneira de se tornar leal aos outros.Tudo é surpresa. O mundo fulgurante sente que um mar de repente se desnuda, trêmulo, que é esse peito febril e ávido que só pede o brilho da luz. Tudo é sangue ou amor ou pulsação ou existência. Pensamento do poeta espanhol Vicente Aleixandre (1898-1984), Prêmio Nobel de Literatura de 1977. Veja mais aqui.

 

SOCIEDADE DEMOCRÁTICA – [...] a mera declaração do direito à igualdade não faz existir os iguais, mas abre o campo para a criação da igualdade, através das exigências e demandas dos sujeitos sociais. Em outras palavras, declarado o direito à igualdade, a sociedade pode instituir formas de reivindicação para criá-lo como direito real. [...] as idéias de igualdade e liberdade como direitos civis dos cidadãos vão muito além de sua regulamentação jurídica formal. Significam que os cidadãos são sujeitos de direitos e que, onde tais direitos não estejam garantidos, tem-se o direito de lutar por eles e exigi-los. É esse o cerne da democracia [...]. Trechos extraídos da obra A sociedade democrática (EdUnB, 2002), da filósofa brasileira Marilena Chauí. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

FENOMENOLOGIA & ESTRUTURALISMO – [...] A certeza perceptiva nunca será, por si mesma, autêntica certeza, se não remeter para esta dimensão de coexistência na qual a minha perspectiva e a do outro se envolvem mutuamente, como outras tantas aberturas para um único campo de experiência. É por isso que eu e os outros podemos figurar como órgãos de uma única intercorporeidade [...]. Trecho extraído do livro Fenomenologia e Estruturalismo (Perspectiva, 1974), da filósofa italiana Andrea Bonomi. Veja mais aqui e aqui.

 

IDENTIDADE – [...] Em nossa época líquido-moderna, o mundo em nossa volta está repartido em fragmentos mal coordenados, enquanto as nossas existências individuais são fatiadas numa sucessão de episódios fragilmente conectados. [...]. Trecho extraído da obra Identidade (Zahar, 2005), do sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), Veja mais aqui.

 

TEMPO DE ONTEM - […] Lembre-se que em qualquer mundo o vento eventualmente desgasta a pedra, porque a pedra só pode desmoronar; o vento pode mudar. [...]. Trecho extraído da obra Time for Yesterday (Star Trek, 1999), da escritora estadunidense Ann Carol Crispin (1950-2013), que no livro Pirates of the Caribbean: The Price of Freedom (Disney Editions, 2011), expressou que: [...] Todo aquele sangue e... coisas. Eu, vou levar covardia inteligente sobre bravura imprudente qualquer dia [...] Obediente à vontade de seu capitão, o Pérola Negra seguiu seu anjo negro sobre as águas azuis; tão rápido quanto o vento, tão livre quanto os homens que a navegaram. era quase como se ela soubesse que era uma lenda em formação, destinada a grandes e terríveis aventuras. [...].

 

TRÊS POEMAS - VAZIO - Meus olhos repousam \ no velório disfarçado de ausência \ e sendo sangue anônimo \ vai estourar a solidão como uma sombra de borboleta. \ A sua chuva alertará a minha espera \ onde sufoca a pupila que não conheces, \ húmida, virgem, \ tal como o prazer onde terão de nos exilar. \ Acontece que agora desejo tatuar o silêncio \ que a pureza te menstruou, \ pureza vestida de noite suicida, \ de beijo pensativo, \ de sono coagulado. \ Sua explosão humana silenciará meus fantasmas; \ saciará o instinto com vozes nuas. \ E sobre o seu sexo descontrolado, o mel \ dará à luz estrelas sobre o que era: \ simplesmente uma vaga lembrança. VÔO FINAL - I - Agora abra todo o céu. \ Hoje vou dizer à brisa queixosa: \ o amor é umidade e soluços... \ umidade disfarçada de ausência, \ soluços ausentes de consolo. \ Feito de novo pátria noturna, \ feito boca de pássaro, \ meu coração está opaco de raízes \ e tenho meu vôo rolando\ neste turbilhão de memórias. \ É inútil ter os lábios inchados de estrelas, \ dormir com a lua inerte dentro dos ossos: \ já é quimérico querer apanhar o vento \ estéril é agora o bater da penugem \ que abriga esta solidão que não conheço. \ Aqui, feito do silêncio lar vagabundo, \ ainda consigo evocar o teu pensamento: \ tristeza perene que me envia a sua saudação miserável. \ Talvez a nostalgia esteja ganhando \ (tirar as folhas dos lábios, esconder o sangue) \ talvez tenha entrado nessa viagem \ e esteja deixando um rastro, \ ficando cinza \ e deixando um eco. \ Que vazio gelado eu inspiro \ neste vôo desdobrado como um poste de luz. \ Que angústia que dessas asas se abrem no horizonte. \ A aurora paira sobre tua sombra ausente: \ sobre a certeza de saber que muito em breve \ prenderei a chorar no chão. II- Não és a morte, \ orquídea de pétalas destronadas, \ aquela que o condenado às pradarias \ carrega entre os olhos ausentes: \ é um triste voo de asa truncada \ um beijo de pedra vazio de viajantes \ ou o frio azul que se esqueceu no o útero. \ Eu coloquei minha testa em sua espuma profana \ e o granizo perfurou minha máscara de ferro; \ sem sinos, \ sem insetos, \ sem alma, \ Eu estava sozinho o que não poderia renascer: \ uma nova pátria de silêncio. Poemas da escritora salvadorenha Cláudia Mayer.

 

COONSTITUIÇÃO FEDERAL  Primeiro: pra quem não sabe o sol nasce para todos!  Em segundo, veja o que prevê a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 e a Constituição Federal: CONSTITUIÇÃO FEDERAL – TÍTULO II DOIS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS – CAPÍTULO: DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS - Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição; [...] III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;[...] VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias; [...] VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei; [...] IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença; X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;[...] XV - é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens; XVI - todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente; [...] XXXII - o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor; XXXIII - todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado; [...] XLI - a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais; XLII - a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei [...]

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOSAdotada e proclamada pela resolução 217 A (III) da Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948: Artigo I - Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade. Artigo II - 1 - Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. [...] Artigo VI -  Todo ser humano tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa perante a lei.  Artigo VII  Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação. Artigo XVIII - Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito9 inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, em público ou em particular. [...]. Vamos aprumar a conversa - o Fecamepa. 



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