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domingo, junho 28, 2015

ROUSSEAU, PIRANDELLO, ALDEMAR PAIVA, MARLY, MEL BROOKS, GUILHERMINA, RADICETTI, PERSSON & SANTANNA O CANTADOR


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? JAPONÊS IMITA GONZAGÃO! (Fotos de lançamento do livro Paixão Legendária – Edições Bagaço, 1991)– Não era ele ainda o Santanna O Cantador de hoje, mas um graduado bancário que nas horas vagas já esbanjava seu talento cantando sucessos do Rei do Baião – na verdade, não só cantava como rendia homenagem praquele que o tivera por filho postiço. Eu fazia vez de jornalista numa emissora de rádio, quando batemos o centro na nossa primeira parceria: Nunca chore por mim – que na festa do lançamento de um livro meu – vide as fotos -, tornamos pública. E estávamos motivados pra mais uma dezena de parcerias, quando fomos entrevistar o renomado cantor e compositor cearense Belchior no Recife. Conversa boa regada a revelações e depoimentos que se prolongou por umas duas horas registradas no meu gravador, mas não podíamos esticar muito no papo porque, no outro dia, o meu amigo tinha que se aprontar pra mais um espetáculo pro povinho bom da minha terra. Assim foi e na hora da apresentação dele, como de costume, gente pendurada de todo jeito de cair pelo ladrão. E o cabra lá fazendo bem feito o que sabia melhor fazer metendo xote, baião, forró, rastapé e tudo que foi sucesso de boca em boca do grande cantor da alma nordestina. Lá pras tantas, eis que um biltre dum pinguço que já estava meio lá, meio cá, trocando as pernas e a vida dele e de todo mundo, chegou pra mim aos tombos e na maior da ingresia berrou na língua enrolada: - Já vi neguinho de todo jeito imitando o véi Lua, mas japonês é a premera veizi! E cuspiu no chão, passou insistentemente as mãos às vistas pra enxergar direito o que via e não acreditava, quando abusado reclamou: - Ou eu tô bêbo dimai, ou é o véi Lua qui ressuscitou num japa? Veja mais aqui, aqui e aqui.

 Imagem: Olhos observantes e pássaro curioso, da artista plástica Maria Luisa Persson. Veja mais aqui e aqui.

Curtindo as músicas do cd América, o décimo terceiro autoral do músico, compositor e arranjador Felipe Radicetti dedicado ao escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015) e contando com parcerias com Sérgio Ricardo, Felipe Cerquize, Marcelo Biar, Luhli, Socorro Lira, Etel Frota, entre outros. Confira o projeto aqui, aqui e aqui.

PROGRAMA BRINCARTE DO NITOLINO – Todo domingo, a partir das 10hs, realiza-se o programa Brincarte do Nitolino, desta feita Especial de São Pedro, no blog do Projeto MCLAM - programa Domingo Romântico. Na programação festiva de hoje comandada pela Ísis Corrêa Naves muitas atrações: Luiz Gonzaga, Trio Nordestino, Quintal da Cultura, Mario Zan & banda & coro, Festa Junina, Nita, Sandra Fayad, Tia Conça, Meimei Corrêa, Marquinhos & Marcelo, As Viagens de Oliva, Arraíá da Xuxa, Mastruz com Leite, Falamansa & muita música, muita poesia, histórias e brincadeiras pra garotada. E mais no blog sobre Psicologia Infantil, Educação Infantil, Direito das Crianças e Adolescentes, Teatro Infantil, Música Infantil & Literatura Infantil. Para conferir ao vivo e online clique aqui ou aqui.


AS CIÊNCIAS E AS ARTES – A obra Discurso sobre as ciências e as artes (1750), do escritor, teórico político, um dos principais filósofos do Iluminismo e precursor do Romantismo francês, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), conquistou o prêmio da Academia de Dijon ao questionar se o restabelecimento das ciências e das artes contribuiu para purificar os costumes. Do livro destaco os trechos seguintes: [...] Antes da arte modelar as nossas maneiras e ensinar as nossas paixões a falar uma linguagem apurada, nossos costumes eram rústicos, porém naturais; e a diferença dos procedimentos anunciava, ao primeiro golpe de vista, a dos caracteres. A natureza humana, no fundo, não era melhor; mas, os homens encontravam sua segurança na facilidade de se penetrarem reciprocamente; e essa vantagem, cujo valor não sentimos, lhes evitava muitos vícios. Hoje, que pesquisas mais sutis e um gosto mais fino reduziram a arte de agraciar a princípios, reina nos costumes uma vil e enganadora uniformidade, parecendo que todos os espíritos foram atirados num mesmo molde: a polidez sempre exige, o decoro ordena ; sem cessar, todos seguem os usos, jamais o seu próprio gênio. Ninguém mais ousa parecer aquilo que é; e, nesse constrangimento perpétuo, os homens que formam esse rebanho chamado sociedade colocados nas mesmas circunstâncias farão todos as mesmas coisas, se motivos mais poderosos não os desviarem. Jamais saberemos bem a quem nos dirigirmos: precisamos pois, para conhecer um amigo, esperar as grandes ocasiões, isto é esperar que não haja mais tempo, pois que é precisamente nesse tempo que seria essencial conhecê-lo. Que cortejo de vícios não acompanhará essa incerteza! Não há mais amizades sinceras não há mais estima real; não há mais confiança fundada. As suspeitas, as desconfianças, os temores, a frieza, a reserva, o ódio, a traição, hão de ocultar-se sempre sob o véu uniforme e pérfido da polidez sob essa urbanidade tão louvada, que devemos às luzes do nosso século. Não será mais profanado com juramentos o nome do senhor do universo; mas, será insultado com blasfêmias, sem que os nossos ouvidos escrupulosos se ofendam. Ninguém mais se gabará do próprio mérito, mas rebaixará o dos outros. Ninguém ultrajará grosseiramente seu inimigo, mas o caluniará com habilidade. Os ódios nacionais se extinguirão, mas será com o amor da pátria. A ignorância desprezada será substituída por um perigoso pironismo. Haverá excessos proscritos, vícios desonrados: mas, outros serão decorados com o nome de virtudes; será preciso tê-los ou os afetar. Gabar-se-á quem tiver a sobriedade dos sábios do tempo; quanto a mim, não vejo nisso senão um requinte de intemperança tão indigno de meu elogio quanto a sua artificiosa simplicidade. Tal é a pureza adquirida pelos nossos costumes: é assim que nos tornamos gente de bem. Cabe às letras, às ciências e às artes reivindicar o que lhes pertence em obra tão salutar. Acrescentarei apenas uma reflexão: o habitante de alguma região afastada que procurasse formar uma idéia dos costumes europeus sobre o estado das ciências entre nós, sobre a perfeição das nossas artes, sobre a afabilidade dos nossos discursos, sobre as nossas perpétuas demonstrações de benevolência, e sobre essa multidão tumultuosa de homens de toda idade e de todo estado que parecem ter pressa, desde o amanhecer até ao pôr-do-sol, de se obsequiarem reciprocamente; esse estrangeiro repito, adivinharia exatamente nos nossos costumes o contrário do que eles são. [...] Todo artista quer ser aplaudido. Os elogios dos seus contemporâneos constituem a parte mais preciosa de suas recompensas. Que fará, pois, para os obter, se tem a desgraça de ter nascido no seio de um povo e nos tempos em que os sábios em moda puseram uma juventude frívola em estado de dar o tom; em que os homens sacrificaram seu gosto aos tiranos de sua liberdade; em que, não ousando um dos sexos aprovar senão o que é proporcional à pusilanimidade do outro, se deixa que se percam obras-primas de poesia dramática e se joguem fora prodígios de harmonia? Que fará ele, senhores? Rebaixará seu gênio ao nível do seu século e preferirá compor obras comuns, que se admirem durante a sua vida, a maravilhas que seriam admiradas muito tempo depois de sua morte. Dizei-nos, célebre Arouet o que não sacrificastes de belezas másculas e fortes à nossa falsa delicadeza! E como o espírito da galanteria, tão fértil em pequeninas coisas, vos custou grandes! [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

UM AR CONDICIONADO DIFERENTE – Esse foi um dos presentes que tive a honra de ser contemplado pela médica, crítica literária e fotógraga, amiga Cidinha Madeiro. Trata-se da obra Saga do 44º Espada D’Água e outros causos e mais causos (EBGE, 2005), do saudoso poeta, cordelista, radialista, compositor, produtor e publicitário Aldemar Paiva (1925-2014), fundador da Rádio Difusora de Alagoas e que atuou na Rádio Clibe de Pernambuco, substituindo Chico Anísio como produtor, apresentador e diretor artístico. Tive a honra de conhecê-lo na segunda metade da década de 1980, quando fui diretor do Sindicato dos Radialistas de Pernambuco. Ler o livro foi como ouvi-lo contar das suas. E entre tantas e ótimas narrativas, destaco Ar condicionado: O cinema de Moacir possuía excelente aparelhagem, poltronas confortáveis, tela panorâmica, som maravilhoso e boa localização. Faltava apenas um sistema de refrigeração para o público. Um dia, causou estranheza aquela tabuleta enorme na fachada do Lux, anunciando Elizabeth Taylor em Cleópatra e com ar condicionado. Efetivamente eu não pisei lá, porém dias depois, ao encontrar Moacir na Praça Pirulito, decidi cumprimentá-lo: - Parabéns pela inauguração do ar! – Que inauguração que nada! Aquilo é um sistema proprip bolado por mim desde o ano passado. Veja como funciona: cadastrei vinte e cinco asmáticos da Ponta Grossa, com endereço e tudo. Quando faço lançamento de uma superprodução mando buscá-los. Eles chegam a partir das cinco horas da tarde. Aí eu distribuo pastilhas e clicetes de hortelã pimenta, e vou colocando todos eles em pontos estratégicos da plateia. Ao final eles começam mascando e botando aquele ar bem friinho pela boca. Em menos de uma hora o salão está praticamente refrigerado. Solto o filme e os funcionários vão cuidando de reabastecê-los durante a projeção. Como são asmáticos crônicos não existe perigo de esquentar o ambiente. O público adora e não reclama pelo ingresso um bocadinho mais caro. Entendeu? Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

ELEGIA QUANDO ESTIVER MORTA & SONETO – Na Antologia poética (Nova Fronteira, 1998), da poeta e professora Marly de Oliveira (1935-2007), destaco o seu Elegia: Teu rosto é o íntimo da hora / mais solitária e perdida, / que surge como o afastar-se / de ramos, brando, na noite. / Não choro tua partida. / Não choro tua viagem / imprevista e sem aviso. / Mas o ter chegado tarde / para o fechar-se da flor / noturna do teu sorriso. / O não saber que paisagens / enchem teus olhos de agora, / e este intervalo na vida, / esta tua larga, triste, / definitiva demora. O belíssimo Quando um dia estiver morta: Quando um dia estiver morta / e sobre mim caírem os adjetivos mais ternos, / não vou mover um dedo / de dentro do meu silêncio: / vou desdenhar do eterno / o que sempre chegou tarde, / demais, quando já nem era preciso. Por fim o seu Soneto: Ficou do amor, das tardes luminosas / à beira de mim mesmo transparente / e imóvel como os remos de alabastro / que o sonho vai movendo em minha mente, / entre algas finas e entre esquivos peixes / à margem de violetas assombradas, / do jogo eterno e cada vez mais sábio / das aves silenciosas e prateadas, / das águas sem memória e dos adeuses / que aprendi contemplando os horizontes, / este espinho que faz brotar da sombra / um apelo de campos e de montes, / e arranca à pedra em que me fui tornando / o delírio ou o grito de uma fonte. Veja mais aqui, aqui,  aqui, aqui e  aqui.

A PATENTE – A comédia em um ato A patente (1917), do dramaturgo, poeta e romancista siciliano Luigi Pirandello (1867 – 1936), retoma o tema do romance homônimo de 1911, revelando questões acerca das relações de entrelaçamento entre os homens corrompidos e poluídos por preconceitos e aparências para superficial julgamentos e conveniências, pendurados nas máscaras para sobrevivência. Da obra destaco o trecho inicial: (Gabinete do Juiz D’Andrea. Estante grande ocupa quase toda a parede ao fundo, cheia de caixas com arquivos, abarrotados de documentos. Escrivaninha sobrecarregada de papéis, à direita, ao fundo. Ao lado, à parede da direita, uma outra prateleira. A cadeira de braços de couro do juiz, junto à escrivaninha. Outra cadeira antiga. O ambiente é antiquado. Na parede direita, a porta. À esquerda, uma janela ampla, alta, com vitral antigo. Perto da janela, uma coluna sobre a qual vê-se uma grande gaiola. Num canto, uma portinhola oculta. D’Andrea entra pela porta com chapéu à cabeça e sobretudo. Carrega na mão uma gaiolinha um pouco maior que um palmo. Vai até a gaiola maior, abre a portinhola, depois a portinhola da gaiolinha donde retira um pintassilgo, transferindo-o para a gaiola maior) D’ANDREA - Aí, dentro! Entre, seu preguiçoso! Oh, pronto... Quietinho agora e basta. Me deixe conduzir a Justiça entre essa raivosa e mesquinha humanidade! (Retira o, sobretudo e o chapéu e colocando-os no cabide. Senta-se à escrivaninha; pega os autos do processo que deve instruir, os sacode ao ar impaciente, e resmunga) D’ANDREA - Ah, meu caro... Fica absorto, pensando, após um tempo toca a campainha. Entra o oficial de justiça Marranca. MARRANCA - Às ordens, senhor juiz! D’ANDREA - Tome, Marranca: vá ao Beco do Forno, aqui perto, à casa do Chiàrchiaro. MARRANCA - (num salto para trás, fazendo um sinal de esconjuro com as mãos) Pelo amor de Deus! Não diga este nome, senhor juiz! D’ANDREA - (irritadíssimo, batendo na escrivaninha com o punho) Basta, por Deus! Proíbo-lhe de proferir assim, na minha frente, tanta asneira, prejudicando um pobre homem. E que fique bem claro! MARRANCA - Desculpe, senhor juiz! Mas eu disse também pelo seu bem... D’ANDREA - Ah, e ainda insiste? MARRANCA - Não falo mais! Não falo mais! O que deseja que eu vá fazer na casa deste... Deste... Cavalheiro? D’ANDREA - Diga que preciso falar-lhe, e que se apresente imediatamente. MARRANCA - Imediatamente, senhor Juiz. Como deseja. Mais alguma ordem? D’ANDREA - Nenhuma. Vá! (Marranca sai, segurando a porta para dar passagem a outros três juízes, que entram vestindo toga e touca. Trocam saudações com D’Andrea, e vão os três olhar o pintassilgo na gaiola) [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.

HISTÓRIA DO MUNDO – A comédia antológica História do Mundo – Parte I (1981), escrito e dirigido pelo impagável cineasta e ator estadunidense Mel Brooks, é uma paródia histórica e bricadeira do autor da obra de Sir Walter Raleigh, que não segue cronologia alguma e traz ambientes ocorridos durante a Idade da Pedra com a invenção do fogo e os primeiros casamentos Homo sapiens entre homossexuais, o Antigo Testamento proclamando quinze mandamentos que devido a um acidente restam apenas dez, Império Romano e a paixão de Comicus pela vestal Miriam até o confronto bélico que é amainado pelas tapas na maconha, a Inquisição espanhola com Torquemada e as suas torturas, e a Revolução Francesa com o Conde Monet, seu sócio Béarnaise e a belíssima Mademoiselle Rimbaud, além de esquetes intermediários que incluem encenações dos Dez Mandamentos e da Última Ceia. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Imagem da violoncelista portuguesa Guilhermina Suggia (1885-1950), by Anita Mercier.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
(Imagem: Os violeiros, xilogravura de Nena Borges).
Aprume aqui.


Veja mais sobre:
Migrante entre equívocos, Santuário de William Faulkner, Tragédia da cultura de Georg Simmel, Cibercultura de André Lemos, a música de Ivan Lins & Sá & Guarabira, o cinema de e Tony Richardson & Lee Ann Remick, a pintura de James McNeill Whistler, a arte de Yosuke Onishi & Lanoo, A Lei & a Pizza aqui.

E mais:
O lamentável expediente da guerra aqui.
A Terra & o porvir da humanidade aqui.
Desabafo de Dr. Zé Gulu & a civilização dos equívocos aqui.
Globalização do conhecimento e consciência de Milton Santos, À sombra das raparigas de Marcel Proust, As nuvens de música de Véronique Gens & Stark Naked Orchestra, Cleópatra & Elizabeth Taylor, a poesia de Clevane Pessoa de Araújo Lopes, a pintura de Camille Pissarro & Howard Chandler Christy aqui.
No caminho de Swan de Marcel Proust, Carmina Burana de Carl Orff, a pintura de Camille Pissarro, a arte do Mestre Vitalino & a poesia de Rachel Levkovits aqui.
Paulo Freire & a pedagogia do oprimido aqui.
Pletora dos antípodas & a pintura de Bruno Steinbach aqui.
Biogênese, Sadismo, Inconoclastia, Ficha podre, A panelinha do G-8 & muito mais humor aqui.
Se nada acontecesse, nada valeria, Saturação de Michel Maffesoli, O escritor e seus fantasmas de Ernesto Sábato, a música de Gilberto Gil, Hora sagrada de Isabel Câmara, a arte de Beatriz Segall, o cinema de Eliane Caffé, a fotografia de Ludovic Florent, a pintura de Edvard Munch & Howard Chandler aqui.
Ih, esqueci, Tutameia de João Guimarães Rosa, Sobre a natureza de Anaximandro de Mileto, a poesia de Lelia Coelho Frota, a música de Ida Presti, Geração Trianon de Anamaria Nunes, o cinema de Krzystof Kieslowski & Irène Marie Jacob, a arte de Márcio Baraldi, a pintura de Kurt Schwitters & Lavinia Fontana aqui.
Terra do que sou, vida que me cabe, Elogio da madrasta de Mario Vargas Llosa, Vento Geral de Thiago de Mello, Galalaus & batorés de Mário Souto Maior, a pintura de Natalia Goncharova & Taha Hassaballa Malasi, a arte de Shelley Bain, Rachel Mascarenhas & Ana Paula Pessoa, a fotografia de Yan Pierre & a música de Eduardo Ponti aqui.
Domingo do que fui e não sou, Os segredos da ficção de Raimundo Carrero, O erotismo de Georges Bataille, Cantos novos de Federico Garcia Lorca, a música de Laurie Anderson, a pintura de Marta Nael & Cecily Brown, a xilogravura de Marcelo Alves Soares, a arte de Benedict Olorunnisomo & Paula Valéria de Andrade aqui.
Mamão, novamente o estranho amor, Desobediencia civil de Henry Thoreau, O Livro das mil e uma noites, a pintura de Newton Mesquita & Thiago Hellinger, Fecamepa & a Temerança no Big Shit Bôbras, a arte de Raimundo Rodriguez, a música de Dery Nascimento & Planeta MPB aqui.
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domingo, fevereiro 27, 2011

HENRY MILLER, FRANK ZAPPA, O HOMEM CÓSMICO DE JUNG, TIRESIAS, FÉLIX LABISSE, BERTHA LUTZ, ALDEMAR PAIVA, ORAÇÃO DA CABRA PRETA & TURISMO RELIGIOSO

Logo estarei em meu jardim de rosas. Logo. Estou esperando. Rosas cheias de espinhos. Aromas falsos. Melhores que os verdadeiros. O original é vulgar. Por seu passado. Foi só uma tentativa, uma tentativa. A ilusão não é o real. A cópia é perfeita. A cópia é perfeita... Como a vejo. Como a sinto. De volta ao meu jardim esta noite. Novamente rosas. Mesmo que só haja uma... Um lindo dia. Se você ao menos soubesse o que eu fiz para ser bonita...
Trecho extraído do drama Tiresia (2003), dirigido por Bertrand Bonello, baseado na lenda de Tiresias, conta uma mulher transexual que é sequestrada por um homem e deixada para morrer na floresta. Ela é salva por uma família e recebe o presente de contar o futuro. Pretende o filme uma releitura contemporânea do mito grego de Tirésias, o que coloca sua narrativa cinematográfica em relação a uma história exterior a ela. Tirésias era um profeta com dons adivinhatórios dados por Zeus como recompensa pelo fato de sua cegueira advir de um castigo de Hera. Certa vez, ao escalar o monte Citerão, deparou-se com duas cobras em cópula e separou-as. Conta-se ainda que teria matado a fêmea. Nas diversas variações do mito, mantém-se a separação das serpentes por Tirésias, o que teria lhe transformado em mulher. Passados sete anos, voltou ao mesmo monte Citerão e novamente encontrou duas cobras acasalando-se e mais uma vez as separou, o que lhe devolveu sua condição masculina.

A SOLIDÃO DE TIRÉSIAS – Nada mais me resta além da sina tebana e solitária. Depois do fato, eram duas cobras em cópula no monte de Citerão. Ao matar uma delas, a fêmea, fui transformado em mulher, disso me fiz prostituta famosa, do lar ao lupanar. Não me bastou, restituída a masculinidade, a cegueira por flagrar a nudez de Atena. Primeiro me veio a ninfa Liríope, a me interrogar sobre Narciso: a maldição dele em vê-lo a si próprio. As mulheres tebanas não me enfeitiçaram, mas a paixão pelos rituais báquicos trouxeram as bacantes para o monte Citéron com as serpentes em seus cabelos, amamentando gazelas e lobos selvagens, promovendo a fartura do vinho, do mel, do leite e água que brotavam do solo. Não previa que a prisão do deus Dioniso traria a punição com o gigante terremoto e o incêndio devastador contra a repressão de Penteu que foi vestido de mulher pelo deus, para ganhar um tirso e peles de cervo. Por isso veria embriagado dias Tebas e dois touros para levá-lo. Nada adiantaria a fama pela Acaia, recolhi-me ao Hades e recepcionei Ulisses no canto 11 da Odisseia homérica e adverti Édipo sobre sua própria sentença, e tomei parte da Divina Comédia de Dante, minhas tetas surrealistas de Apollinaire e me tornar Orlando para Virginia Wolf, inspirar o filme de Bertrand Bonello, de reinar nas Bacantes de Zé Celso Martinez Correa e ser cantado no Sermão do fogo na Terra inútil de Eliot: Eu, Tiresias, cego embora, palpitando entre duas vidas, / Um anciao de enrugados peitos femininos, posso ver / Na hora violeta, a hora crepuscular que se empenha / A caminho de casa, e faz voltar do mar o marinheiro, / E a datilografia, a hora do cha, tira a mesa do cafe, / Acende o fogo, e prepara a sua refeicao de conservas... Eu, Tiresias, um ancião de tetas enrugadas...  (E eu, Tiresias, como que sofri de antemão / Tudo o que se cumpriu nesse diva ou cama; / Tambem eu aguardava a esperada visita. / Ei-lo que chega, o carbunculoso moco, / Observada a cena, predisse o resto... Não sou nada mais que um adivinho e sábio cego no meu próprio inferno, capaz apenas de ver coisas invisíveis. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


La fille de Tirésias, 1973, do pintor, ilustrador e designer surrealista francês Félix Labisse (1905-1982)

DITOS & DESDITOS - A legislação civil vigente a nenhuma mulher dispensa justiça: nem à mulher fraca que se entrega ao homem sem a sanção da lei, nem à mulher forte da Bíblia, reduzindo-a pelo casamento a situação de menor. Pensamento da bióloga e advogada brasileira Bertha Lutz (1894-1976). Veja mais aqui.


ALGUÉM FALOU: Se você acabar com uma vida tediosa e miserável porque você ouviu seus pais, seus professores, seu padre ou alguma pessoa na televisão, dizendo para você como conduzir a sua vida, então a culpa é só sua e você merece. Droga não é o mal. A droga é um composto químico. O problema começa quando pessoas tomam drogas como se fosse uma licença para poderem agir como babacas. Sem um desvio do normal, progresso é impossível. A mente é como um paraquedas. Só funciona se abri-lo. Pensamento do compositor e multi-instrumentista estadunidense Frank Zappa (1940-1993). Veja mais aqui.

O HOMEM CÓSMICO – [...] O homem cósmico não significa apenas o começo da vida, mas também o seu alvo final, a razão de ser de toda criação [...]. Trechos da obra O homem e seus símbolos (Nova Fronteira, 1968), do psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), observando o ser humano acima dos instintos isolados e dos mecanismos intencionais. Veja mais do autor aqui & sobre a raça cósmica de José Vasconcelos aqui.

A HORA DOS ASSASSINOS – [...] Dá-lhe um nome feio: traição. Mas é justamente essa índole traiçoeira que o diferencia do resto do rebanho. É sempre traiçoeiro e sacrílego, se não literalmente pelo menos em espírito. Comporta-se, no fundo, como um traidor porque tem medo de sua própria humanidade, que aproximaria de seu semelhante. [...]. Trecho extraído da obra A hora dos assassinos (L&PM, 2004), do escritor estadunidense Henry Miller (1891-1980). Veja mais aqui e aqui.

CAFONETOS – Minha amada exuberante / de alegria, coisa e tal / às vezes fica implicante / por um motivo banal. / Sua atitude petulante / nesse grilo pega mal / mas, como sou tolerante / fica na minha legal. / Ela bebe e ameaça / uma tragédia medonha / que eu sei entender de graça / no outro dia, risonha / pede perdão e me abraça / - Quem ama não tem vergonha. Poema extraído da obra Monólogos e outros poemas (Recife, 1987), do saudoso poeta, cordelista, radialista, compositor, produtor e publicitário Aldemar Paiva (1925-2014), com prefácio de Chico Anysio. Veja mais aqui.


A arte do pintor, ilustrador e designer surrealista francês Félix Labisse (1905-1982).


ORAÇÃO DA CABRA PRETA - Imagem: ilustração de J. Lanzellotti. História recolhida por João Climaco Bezerra. -Nesta encruzilhada eu me ajoelho agoniado e aflito chamando todos os cães e a Cabra Maldita. Na lombada da serra negra tem uma cabra amarrada; dá 7 litros de leite para alimentar todos os diabos, eles tem 3 cavaleiros fortes que são: Ferrabrás, Satanás e Caifás, eles 3 eu chamo à minha presencia que eu não terei medo que eu sei que eles vem mandados da Cabra Preta maldita; ainda Caifás, anda Satanás, anda Ferrabrás, trazei-me à minha presencia o animal e a milhar que tem de dar amanhã na loteria do Rio de Janeiro, com todos os pontos grandes e pequenos, que tu não trazendo eu te amarrarei com as forças do credo debaixo do meu pé direito. Observação: Deve ser rezada despido, à noite, numa encruzilhada deserta com uma vela acesa. De preferência em companhia de outra pessoa. Uma fica no centro da encruzilhada e a outra vai para o braço esquerdo da cruz de estradas. Uma puxa a reza e a outra segura a vela. Observação2: As cópias dessa oração são distribuídas às escondidas, que o pecado mortal é muito grande. E para que ela tenha toda a sua força, desenha-se no mesmo papel uma cabra com uma estrela vermelha na testa, quatro chifres e as patas dianteiras levantadas e com garras enormes. Oração muito corrente no interior do Ceará, segundo Caio Carneiro Porfirio. 
FONTE:
BEZERRA, João Climaco. Não há estrelas no céu. Rio de Janeiro: José Olympio, s/d.
DANTAS, Paulo (Org.). Estórias e lendas do norte e nordeste. São Paulo: Edigraf, s/d.

TURISMO RELIGIOSO - Conceito de Turismo Religioso: De acordo com Andrade (1991, p. 77): “Conjunto de atividades com utilização parcial ou total de equipamentos e a realização de visitas a lugares ou regiões que despertam sentimentos místicos ou suscitam a fé, a esperança e a caridade nos fiem de qualquer tipo ou em pessoas vinculadas a religião.” Isso mostra que para se praticar o turismo, seja ele em qualquer de sua segmentação e preciso ter motivação. O turismo religioso teve inicio quando os povos começaram a cultivar o habito de viagens de caráter religioso, no século III e IV na era cristã, visitavam mosteiros e conventos da síria, do Egito e de Belém a fim de encontrar-se com os “servos de Deus”para pedir-lhes conselhos, orações, bênçãos e curas. Foi também o inicio de visitas a igrejas e santuários onde nos terrenos se encontravam os restos mortais de mártires celebres e aos locais por onde Cristo seus apóstolos e discípulos passaram, viveram e morreram, alem de outros lugares celebrizados por eventos importantes do Antigo Testamento. No ano 333, há um registro dotado de um roteiro com itinerários bem detalhados para as viagens de devotos e fieis que partiram de Bordeus, na França rumo a Jerusalém. As indicações assemelham-se as utilizadas nos modernos roteiros técnicos. Atualmente a historia se repete e os destinos religiosos se multiplicam, à medida que surgem boatos ou fatos de aparições ou de realizações de milagres e curas efetuadas por algum religioso ou místico. As noticias e o marketing direto ou indireto nos locais onde acontecem os “feitos extraordinários” atraem os agentes turísticos, que em geral, se antecipam a qualquer medida ou manifestação de autoridades religiosas. O grande nó desta modalidade de turismo se encontra nas estruturas de conceituação que antepõe a perspectiva da necessidade enraizada na vivência religiosa contra a perspectiva da liberdade pelo fazer( lazer)  do turismo.  (Oliveira 2000) O turismo se utiliza da religiosidade, da fé, de crenças, de superstições ou mesmo da simples curiosidade popular para atrair pessoas a lugares que se não fossem pela motivação espiritual não seriam um destino atrativo como em outro segmento do turismo, o turismo religioso tem seus pros e contras. A massificação, congestionamentos, poluição, super lotação de igrejas e templos são alguns efeitos negativos, desse tipo de turismo, pois as cidades em sua maioria, não possuem uma estrutura para receber visitantes, são localidades simples, de comunidades humildes que com o tempo vão tomando dimensões maiores com a exploração turística. Por outro lado, este segmento é uma possibilidade de diversificação de renda e movimentação da economia local nas localidades receptoras. Localidades Religiosas mais visitadas: MECA- é a cidade santa do mundo árabe, berço de Maomé, onde a base econômica esta no comércio resultante da grande movimentação dos peregrinos. Todos os mulçumanos esperam ir em peregrinação. VATICANO- atrai uma multidão de fieis para receber a bênção do Papa na Praça São Pedro e é considerado o centro de fé cristã. SANTIAGO DE COMPOSTELA- chamada rota da fé na Espanha, as pessoas em peregrinação  buscam a cura, esperança e paz. A historia e o misticismo se confundem ao longo da rota medieval, com marcas por toda a paisagem. Atualmente é reconhecida pela Unesco como o primeiro Itinerário Cultural Europeu da Humanidade, com todos os monumentos históricos tombados. LOURDES- é dedicada a Bernadete, a Santa para quem a mesma Nossa Senhora teria aparecido em 1958. FÁTIMA- localizado em 130 quilômetros e duas horas de Lisboa, é acidade onde a Santa de mesmo nome teria aparecido para três crianças portuguesas em 1917. Se tornando em um dos maiores centros de peregrinação religiosa do mundo, comparável a Santiago, que também fica na Península Ibérica.  BASILICA NACIONAL DE APARECIDA- localizada a 170 quilômetros de São Paulo, considerada a capital brasileira da fé, apresentam, nos feriados religiosos, uma programação de eventos que estimula os visitantes a permanecerem na cidade.  É considerada a segunda maior do mundo, fica tomada de romeiros. Padroeira do Brasil, data do século XVIII, quando os pescadores lançaram as redes junto ao porto de Itaguaçú, no rio Paraíba do Sul, pescando a imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição e, 1717. Era uma imagem esculpida em madeira escura com anjos aos seus pés. Em 1953 o dia 12 de outubro oficializou-se o Dia de Nossa Senhora Aparecida. JUAZEIRO DO NORTE- o nordeste brasileiro os devotos buscam a satisfação espiritual junto ao Padre Cícero, conhecido e venerado por romeiros da região. Como vimos em vários lugares do mundo e do Brasil existem localidades próprias para a realização do turismo religioso. No entanto, vimos que essas localidades são todas voltadas a religião dos “brancos”, ou seja, as maiorias desses lugares são de religião católica, onde na antiguidade os negros não podiam fazer suas orações, devido a repressão de seus senhores ao entrar em suas capelas e igrejas, pois não era vistos como filhos de Deus e sim do “demônio” . Com esse impedimento, os negros sentiram a necessidade de alternativas para realizar suas orações sem que fossem castigados por isso. Criando assim, sua própria religião, onde eles através de outros nomes cultuavam o mesmo Deus. Apesar da maioria dos brasileiros terem descendência negra ainda existe muito preconceito com relação a sua raça, cultura, religião, neste ultimo caso, muitas vezes serem mal interpretados pela falta de conhecimento geral, já que a população não procura conhecer sua cultura e acredita somente no que houve. 
REFERÊNCIAS
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DIAS, Reinaldo; AGUIAR, Maria Rodrigues. Fundamentos do Turismo: conceitos, normas e definições. Campinas:Alínea, 2002.
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MENDONÇA, Rita. Turismo ou Meio Ambiente: Uma falsa oposição. Amália Innês G. de Lemos (Org.). São Paulo: Hucitec, 1996.
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TRIGO, Luiz Gonzaga Godoi; NETTO, Alexandre Panosso. Reflexões sobre um novo turismo: política, ciência e sociedade. Série turismo. São Paulo. Aleph, 2003.
TRIGUEIRO, Carlos Meira. Marketing e turismo: como planejar e administrar o marketing turístico para  uma localidade. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1999. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

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