quinta-feira, março 16, 2017

NA CALÇADA DA TARDE

NA CALÇADA DA TARDE - Por mais de seis anos Cordécio aguentou de tudo no seu primeiro emprego. Das ressacas e caga-raio do seu Marquito, às pilhérias de toda corriola de empregados, ele o caçula dos empregados, servia de pau-mandato para o bel prazer de todos. Os maus bofes da chefa queijuda, fazia dele peão daqueles de fazer, refazer e tornar a ir e voltar até que ela achasse que estava bem feito, isso depois de muita remoeta e olhe lá. O problema era adivinhar o que pra ela era de verdade o bem feito. Evidente que ele tinha o mau costume de se esquecer das coisas, envolver-se em fuxico, sair da rota da obrigação jogando porrinha ou contando pinóias, dele se esquecer das obrigações e, quando dava fé, sabia que estava perdido: iam tirar-lhe o couro de todo jeito. Ô menino alesado esse, reclamavam. Às topadas e puxavanques, aos poucos, ele se endireitava, não antes uma farta sacada de corretivos, mesmo assim, não se emendando de tudo deixar mal feito. Era. Ia e vinha incansável além do expediente e altas horas da noite. Deu recado? Sim, senhor. Qual foi? Era a hora da prova dos nove e, ao dizer o que tinha feito, atrapalhava-se todo e, se era pra resolver, embroncava mais ainda. Não foi isso que eu mandei você fazer! Vá lá e conserte. Era pior. Pra não perderem a paciência, todos deixavam, por fim, de mão. Esse não tem jeito! Quando não confundia as coisas, trocava o feito. E assim foi por mais de seis anos, semana toda, domingos e feriados, sem folga nem férias. Aí, um dia, o pai morreu e deixou por herança certas posses que, se nada valiam, dava pra ele se arranjar, sabe-se lá como. Aí acertou com seu Marquito, pediu demissão, recebeu os direitos e foi sacar o FGTS no banco. Ao ver o volume da dinheirama – pra ele qualquer dez tões era fortuna avultada, pra quem vivia de salário mínimo, receber uma bolada daquelas era de ficar rico de uma hora pra outra, coitado. Foi pra fila com os olhos brilhando e contando as horas: é capaz de chegar amanhã e nunca mais a hora de receber, ora. Um misto entre impaciente e feliz abundava no seu semblante de não parar quieto em canto nenhum, até ser chamado atenção pelo vigilante para se comportar nos conformes. Matuto das brenhas, sentou-se de ficar imóvel, todo duro, de nem piscar o olho. Todos iam e vinham e a vez dele nada de chegar. Já passava do meio dia quando foi pro caixa, entregou os documentos, respondeu ao interrogatório, assinou meio mundo de papel, recebeu os documentos de volta e... cadê a grana? O funcionário foi lá pra dentro dele pensar que havia fugido com sua riqueza. Tempos depois pra mais de uns dez minutos ou perto disso, ele voltou, sentou-se, limpou as mãos e o guichê, abriu a gaveta e começou a contar as cédulas: uma, duas, três, seis, sete, pegou umas moedas e repassou pro Cordécio com os olhos aboticados a ponto de quase pular fora. É meu? Todo seu! U-hu! Avexou-se todo desajeitado, embolsou o dinheiro e saiu assobiando. Quase esquecia os comprovantes de recepção, não fosse levado de volta pra recepção. Tudo acertado, posso ir? Pode. E foi com seu vexame como se andasse entre as nuvens, mergulhado nos mais díspares e ousados pensamentos. Será que dá pra comprar um carro, mandú que seja? Sei não. Será? Ah, melhor comprar logo um sapato chique, uma roupa nova das de grife pra ficar nos trinques, depois comer do bom e do melhor nesses restaurantes que nunca me deixaram entrar, e tomar umas cervejas para lavar a goela e a alma, só de raiva e desforra. Ah, dá preu arrumar umas quengas pra cair na gandaia no maior xambregado dos bons e depois de peidar e arrotar contra o vento, ir pra casa ver como as coisas estão por lá. Destá! Assim foi caminhando na maior viagem dos devaneios. De repente viu-se acossado: passa a carteira! Qualé, meu? Vai, revira os bolsos, vai! Passa, passa! Ele reagiu guardando o que era seu, pronto pra sair na maior carreira. Um estampido nas costas e o seu mundo desabou, dele não ver mais nada. Maior correria. Quem passava via a cena: um corpo na calçada da tarde. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

Curtindo o álbum Encores (1995), da pianista Yara Bernette (1920-2002). Veja mais aqui.

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As mulheres sem face, série da artista plástica Maria Lynch.

DESTAQUE: AS CANÇÕES DE ANTÓNIO BOTTO
[...]
Pelos que andaram no amor
Amarrados ao desejo
De conquistar a verdade
Nos movimentos de um beijo;
Pelos que arderam na chama
Da ilusão de vencer
E ficaram nas ruínas
Do seu falhado heroísmo
Tentando ainda viver!,
Pela ambição que perturba
E arrasta os homens à Guerra
De resultados fatais!,
Pelas lágrimas serenas
Dos que não podem sorrir
E resignados, suicidam
Seus humaníssimos ais!
Pelo mistério sutil,
Impoderável, divino,
De um silêncio, de uma flor!,
Pela beleza que eu amo
E o meu olhar adivinha,
Por tudo que a vida encerra
E a morte sabe guardar,
- Bendito seja o destino
Que Deus tem para nos dar!
[...]
Fragmento das Canções (1921-1932), do poeta, humorista, contistas e dramaturgo português António Botto (1897-1959).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora e escultora frances Rosa Bonheu (1822-1899).
Veja Fanpage aqui & mais aqui e aqui.

DEDICATÓRIA: PATRÍCIA PORTO
Nesses dias avulsos da tempestade / ouvi dizer que homens invadiram Creta / armados até os dentes homens mataram pequenas espécies da ilha / Nem Jacó ou Maomé puderam salvar os seres humildes, / apenas o frio congelava a água nascente / os cemitérios estavam cobertos de gelo humano / nuvens carregavam vários sinistros / jornais anunciavam um carnaval fora de toda época / mulheres choravam sobre as cruzes / eram muitas da minha família de muitos mortos, / de mortes matadas e não assistidas, / assassinos comiam sorvete americano pensando ser do exército alemão, / o golpe era sem derramamento de sangue / a poesia não fazia mais política / a poesia também era mercadoria / só o sexo dos anjos importava / mas Safo estava livre em outra órbita / descansando de tanta desgraça / nesses dias insanos da tempestade / que varreu os últimos dias, / a acidez do estômago era mesmo tumor / flagelos de pessoas andavam insones costurando notas falsas / enquanto um bolo subia por dentro da boca ferida / e o tempo se escasseando vingativo / era filho pródigo daquela senhora: a violenta / a lei confirmava tolice e engano / o corpo, o único lugar de paragem, / sem religião na mente fazia templo o viajante, / a cabeça uma dona de cais / inquietação exigia outras ferramentas de oficina / mas o espírito, essa coisa do diabo, / era pura imaginação
(Para os homens de bem dos últimos dias)
A edição de hoje é dedicada à escritora e professora Doutora em Educação com ênfase em Estudos Literários, Patricia de Cassia Porto, editora dos blogs Leitura Lúdica:Literatura, Cultura da Infância e Educação & Poesia e Prosa.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Na mitologia grega hoje era o primeiro dia do Festival de Dioniso (o Bacanal de Baco, para os romanos). Imagem: O jovem Baco e seus seguidores (1884), do pintor e professor francês William-Adolphe Bouguereau (1825-1905).
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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KRISHNAMURTI, MILLÔR, CELSO FURTADO, JOSEPH CAMPBELL, BARBOSA LIMA SOBRINHO, GILVAN LEMOS, RIO UNA & MARQUINHOS CABRAL

MARQUINHOS CABRAL: DESDE MENINO SOLTO NA BURAQUEIRA – A gente aprontou muitas e tantas no quintal lá de casa e nos cômodos da casa dele ...