segunda-feira, setembro 15, 2008

LITERATURA DE CORDEL - A MOÇA QUE BATEU NA MÃE E VIROU CACHORRA



A MOÇA QUE BATEU NA MÃE E VIROU CACHORRA

Rodolfo Coelho Cavalcanti

Vou contar mais um exemplo
Dentro da realidade,
Pois toda alma descrente
Vive na obscuridade,
Tem um vácuo coração
Condena a religião
Com toda incredulidade.

Helena Matias era
Filha de uma religiosa,
Dona Matilde – mãe dela
Alma santa e virtuosa
Porem ela ao contrário
Era um falso relicário
Tipo mesmo vaidosa.

Em Canindé, Ceará
Deu-se esta narração
Helena Matias Borges
Foi transformada num cão
Por sua língua ferina
Transformou sua sina
Num mais horrível dragão.

Helena de vez em quando
Dava uma surra na mãe dela
Quando a velha reclamava
Um qualquer malfeito, ela
Com isso se aborrecia
Na pobre velha batia
Até que virou cadela.

Era uma sexta-feira santa,
Conhecida da paixão,
Helena disse à mãe dela:
- Quero me virar num cão
Se esta tal sexta-feira
Da paixão não é besteira
Da nossa religião.;

- Não diga isso, minha filha,
Que é arte do anticristo
Sexta-feira da paixão
Relembra o sangue de Cristo
Que por nós foi derramado!...
Disse Helena: - Isto é gozado....
Tudo é bobagem, está visto.

- Helena por Deus te peço
Não zombes do salvador
- Minha mãe, barriga cheia,
É algo superior...
Tudo isso são bobagens,
Cristo, padre, Deus, imagem,
Para mim não tem valor.

Na hora que gente nasce
Chora logo pra comer...
Eu quero comer jabá
Só se eu ouvisse Deus dizer:
“Helena não coma isto!”
Eu que não conheço Cristo
Nunca ouvi nem posso crer.

Quando Matilde, a mãe dela
Foi aconselhar Helena,
Esta deu-lhe uma bofetada
Sem piedade, nem pena
Que a velha caiu chorando
E a deus foi suplicando
Numa praga pequena.

- Tenho fé, filha maldita
Na santa virgem Maria,
Em todos santos do céu,
Que hás de virar um dia
Numa cachorra indolente
Para saberes, serpente
Que uma mãe tem valia.

Uma rajada de vento
Passou feito um furacão
Um raio caiu bem perto
Com o ribombar do trovão
A terra toda tremeu
Logo o sol apareceu
Dois segundos na amplidão.

Helena sempre a zombar
Se pôs a carne a comer
Vendo a mãe dela chorando
Queria mais lhe bater
Mas a justiça divina
Mostrou á filha assassina
O seu supremo poder.

Dona Matilde se pôs
Naquele instante a rezar
Uma tempestade horrorosa
Caiu ali sem esperar,
Chuvas, faíscas e ventos
Com elevado pensamento,
Foi à filha aconselhar.

Helena continuava
Fazendo profanação
Comia mais por despeito
A tal carne do sertão
E disse para a mãe dela:
- Deus me vire uma cadela
Se é que ele existe ou não?

Quando Helena disse isso
O rosto todo mudou
E cauda como cadela
A moça se transformou...
Uma cachorra horrorosa
Espumando e furiosa
Naquela hora ficou.

Tinha cabeça de gente
Com a mesma feição dela
Mas o corpo até a cauda
Era uma terrível cadela...
Foi Helena castigada
Uma filha amaldiçoada
O castigo pegou nela.

Ali dentro do Canindé
A noticia se espalhou
A cachorra nesta hora
Muita gente estraçalhou
Ninguém pode matar
Cercaram para pegar
Porem ninguém a pegou.

O animal furioso
Horrível, endemoninhado,
Passou pra Pernambuco
Feito um lobo esfomeado...
Foi visto em Juazeiro
Quase matando um romeiro
De padre Cicero sagrado!

Há uns três anos passados
A tal cachorra assassina
Quase mata uma criança
Na cidade de Petrolina,
Voltou de novo a Cocal
E na estrada de Sobral
Mordeu uma pobre menina.

Em janeiro deste ano
Ela esteve na Bahia
Passou perto de Tucano
Desceu a Santa Luzia,
Passou pelo Jacuipe,
Depois chegou a Sergipe
Fazendo a mesma agonia.

Dizem que ela sempre ataca
Quando a noitinha aparece
Tem a cabeça de moça
Assim no mundo padece
Tendo o corpo de cachorra
Vive ela numa masmorra
Da mãe dela não esquece.

Duas vezes que ela foi
A zona do seu sertão
Para pedir à mãe dela
Seu sacrossanto perdão,
Com o padre se avista
E diz que ela resista
Se quer ter a salvação.

A penitencia da moça
É vinte anos sofrendo
Por isso que ela padece,
Uivando, se maldizendo
Pegando de noite gente
É uma cachorra valente
Que a anos vem aparecendo.

Afirmam que ela já foi
Há pouco desencantada
Mas é boato, pois, já
Neste mês foi avistada
No sertão de Água-Bela
E é a mesma cadela
Do Ceará encantada.

A toda moça aconselho:
- Tenha juízo bastante,
Uma mãe é pra cem filhos,
Diz o adágio importante,
Zombar de mãe é espeto
Quem escreveu o folheto
Foi Rodolfo Cavalcante.

RODOLFO COELHO CAVALCANTE – o jornalista, poeta e trovador alagoano Rodolfo Coelho Cavalcante (1917-1986) foi palhaço e camelô fazendo propagandas nas portas das lojas, membro de várias associações literárias e fundou alguns periódicos como “A voz do trovador”, “O trovador” e “Brasil poético”. Criou as agremiações, contam-se a Associação Nacional de Trovadores e Violeiros (ANTV) e o Grêmio Brasileiro de Trovadores (GBT). Também participou e organizou congressos de poetas populares. Fixou-se em Salvador, Bahia, onde publicou e vendeu os seus folhetos. Viveu de biscates e trambiques quando foi capturado por Lampião, sendo liberado pela sua insignificância. É autor, entre outros, dos seguintes: “O barulho de Lampião no inferno”; “A chegada de Lampião no céu”; “A chegada de Lucas da Feira no inferno”; “O encontro de Guabiraba com Lampião”; “O encontro de Rodolfo Cavalcante com Lampião Virgulino”; “Lampião e seus cangaceiros”. Sua produção literária alcança número superior a 270 folhetos. Ele foi objeto de tese universitária na Universidade de Sorbonne, escrita por Martine Kunz, denominada Rodolfo Cavalcante poète populaire du Nord-Est Brésilien.

FONTES:
ABREU, Márcia. História de cordéis e folhetos. Campinas: Mercado de Letras, 1999.
ALMEIDA, Mauro William Barbosa de. Folhetos - A literatura de cordel no NE brasileiro.. São Paulo: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, USP, vol. 1, 1979.
BATISTA, Sebastião Nunes. Antologia da literatura de cordel. Natal: Fundação José Augusto, 1977.
CAVALCANTE, Rodolfo Coelho. Cordel. São Paulo: Hedra, 2003.
CARDOSO, Tania Maria de Sousa; Elementos para uma biografia de José Pacheco e Rodolfo Coelho. Natal: UERN, s/d.
CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Global Editora, 2002.
CURRAN, Mark. J. A presença de Rodolfo Coelho Cavalcante – cordel. Porto Alegre: Nova Fronteira, 1987.
LOPES, Ribamar (org.). Literatura de cordel — Antologia. Fortaleza, Ministério do Interior/Banco do Brasil, 1983.

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